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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Barão do Rio Branco de passagem por Brasília - Hussei Kalout

Barão do Rio Branco de passagem por Brasília
Dia 20 de abril é considerado o Dia do Diplomata no Brasil
Hussein Kalout*
O Estado de S.Paulo, 20 de abril de 2020 | 08h59

Olá, meu jovem! Tudo bem? Olha só, me disseram que estão querendo reescrever a história do Brasil. É verdade isso? Fiquei um tanto surpreso. Essa modernidade de vocês é preocupante. Muitos mal sabem quem eu sou e o quanto me doei por este país abençoado. Ah, me desculpe, meu jovem, não me apresentei. O meu nome é José Maria da Silva Paranhos Júnior. Muito prazer!
Na minha época, sabe, eu fiquei conhecido como o Barão do Rio Branco. Mas, por favor, esqueça o título nobiliárquico que herdei. Não quero confundir a sua cabeça, é que eu servi ao Brasil como Ministro das Relações Exteriores na República. Me dediquei a ajudar quatro presidentes – Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca – ao largo de uma década. Você já se situou? Ah, não? Tá bom, meu jovem, não importa.
Estou procurando o Itamaraty. Sabe onde fica? Está localizado na nova capital. Pois, foi o que o presidente Juscelino me falou. Ele disse que admirava o que eu fiz pelo Brasil. Preciso chegar lá, pois estou um pouco apressado. Depois que morri, fui aclamado como o Patrono da Diplomacia Brasileira. Nunca imaginei ser honrado com tamanha deferência. Morri trabalhando sobre a minha mesa lá no Palácio Itamaraty que ficava na antiga capital, o Rio de Janeiro – aquilo parece que virou uma bagunça; uma pena! Mas, voltando ao assunto: queria deixar tudo nos trinques, enfim, para que ninguém mais tenha que se preocupar com essa tal “resolução pacífica das controvérsias”.
Me disseram que hoje é o Dia do Diplomata, 20 de abril. É verdade, meu jovem? Soube pelo Oswaldo Aranha e pelo San Tiago Dantas que escolherem a data do meu natalício para celebrar o dia dos profissionais que se dedicam à causa diplomática. Estou me encaminhando para Brasília para conversar com certas pessoas. O meu espírito, desde 2019, anda inquieto. Ando apreensivo e desgostoso. Me tiraram do sossego e agora estou obrigado a vagar por esse mundo.
Passei muitos anos trabalhando duramente para estruturar os cânones da nossa política externa brasileira, meu jovem. Negociei sem que um tiro fosse disparado em nossos vizinhos para resolver as questões de nossas fronteiras. Por causa do Acre, discuti asperamente com o Rui Barbosa. Para ele tudo era sob a ótica do direito e das normas jurídicas. O baixinho era insistente e, por vezes, petulante para um geógrafo.
Enfim, não sou homem fácil de se convencer. Mas, fui! O Direito Internacional passou a ser um pilar estrutural de nossa tomada de decisão.
É assim que o Brasil melhor protege os seus interesses, meu jovem. Percebi que isso seria uma vantagem, especialmente, para dialogar mais a fundo com os líderes de um promissor país: os Estados Unidos da América. O seu presidente, na minha época, era o Theodore Roosevelt – um homem jovem, de quase 43 anos, e de justeza. Estudou, em Harvard, e foi até da revistinha de lá a tal The Harvard Advocate. Te confesso, que tenho certa admiração, meu jovem, pela carta dos pais fundadores daquela nação americana. Um deles era o Thomas Jefferson, de uma polidez intelectual e de refinamento jurídico indescritível. Foi o que eu soube. Não sei se você já leu algo sobre isso. Sou um velho que gosta, também, de história. O Rui está certo, sabe! O respeito ao Direito foi importante amalgama e um dos melhores argumentos a usar para estabelecer um laço de confiança para com os seus líderes.
Por isso, o Nabuco, o Joaquim, era a chave na nossa estratégia. Mandamos o Nabuco – era um sujeito garboso e de intelecto agudo – para chefiar a nossa Legação Diplomática, em Washington, que elevamos à categoria de Embaixada. Ali, ele tinha uma missão vital. Garantir o apoio dos Estados Unidos a nossa causa nas arbitragens de fronteira e, se possível, expandir o comércio. O Nabuco era duro na queda quando a coisa se enveredava para esses dois assuntos: soberania e a autodeterminação dos povos. O “Quincas” não abria mão em defesa dos dois princípios. Você deveria ler mais, meu jovem. É bom aprender. Quincas, o belo, é o Nabuco, ora! Me contaram que ele perambulava em Washington propagando os Lusíadas de Camões. Aliás, o que o pessoal anda lendo na nova capital? Quem? Fale de novo. Quem? Perdoe minha memória e velhice, mas nunca ouvi falar de Olavo de Carvalho. Deixe para lá.
O Senhor Elihu Root, Secretário de Estado de Roosevelt, tinha apreço especial pelo Nabuco – acabou lhe vendendo a casa. O pernambucano trabalhou bem, garantiu o apoio nos processos de arbitragens remanescentes e abriu uma boa frente comercial. E mais, desde então, nos tornamos, apesar dos percalços, os garantes da estabilidade da América do Sul. Sabe, meu jovem, é vital cuidar da nossa região e de nossos interesses. O Lampreia, o moço que ocupou o meu posto, me disse que o Celso Amorim tinha boa visão estratégica, mesmo com desacertos aqui ou ali.
O Lampreia, cá entre nós, deu também as suas escorregadas: olhou muito para o norte achando que dava samba! A nossa vocação, meu jovem, é universalista! Bom, chegando a Brasília no dia do diplomata, 20 de abril, tentarei encontrar com o moço que está à frente do Itamaraty. Soube que o Rubens Ricupero disse que a coisa está à deriva. Uma enciclopédia esse homem, segundo me disse o Afonso Arinos.
Nabuco ficaria com inveja da inteligência dele!
Na minha época a nossa projeção além-mar tinha três componentes: realismo, pragmatismo e interesse nacional. És jovem e ainda terás oportunidade de entender o que digo. E a religião? Qual religião, meu jovem? Não posso crer que já sequestraram a constituição em nome dele. O divino nada tem a ver com política externa. Se tivesse não seria necessário canhões para a guerra e diplomatas para a paz, meu jovem.
Deixe o altíssimo!
E tentarei ver o Presidente, se for possível para ele me receber. Ah...ele admira o Senhor Trump. O atual incumbente dos Estados Unidos. Quanta degradação, não? Tinha gente melhor a se espelhar, não? Podia ser o George Washington que, enfim, era militar. Podia admirar ao menos algum mandatário brasileiro. Há muito o que acertar antes de retornar ao meu sossego.
Enfim, até logo, meu jovem! Preciso ir e deixar o meu agradecimento aos verdadeiros patriotas de ontem e de hoje que me homenageiam em sua alma e em seu silêncio. Espero não ter de vir no ano que vem!

* Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

Feliz aniversário Barão (malgré lui) - José Maria da Silva Paranhos Jr., Paulo Roberto de Almeida

Memórias do Barão do Rio Branco (4)
Uma data para esquecer

José Maria da Silva Paranhos Jr.
Petrópolis, 19 de abril de 1908
[Transcrição e modernização da ortografia destas “memórias” por Paulo Roberto de Almeida, a partir de manuscritos encontrados nos papéis deixados pelo próprio.’

Amanhã é o meu aniversário de nascimento, o que sempre me deixa muito irritado, não tanto pela data em si, à qual não dou a mínima importância – agora que estou distante de minha família, que ficou em Paris –, mas pelo fato de que meus assessores, e mesmo gente que eu raramente vejo no trabalho diário, vêm pressurosamente prestar supostas homenagens por mais um natalício que eu preferia esquecer. O que, sim, eu gostaria de comemorar, é o aniversário do meu querido pai, o Visconde, de quem herdei esse glorioso título de “Rio Branco”, que essa nossa República tão bizarra pretende extinguir, nesses arroubos de um jacobinismo tão infantil quanto desnecessário.
O aniversário de nascimento de meu pai transcorreu pouco mais de um mês atrás, em 16 de março, e a não pude comemorar dignamente – talvez inaugurando o seu busto na nossa Secretaria dos Negócios Estrangeiros – porque eu já estava refugiado neste meu chalet de Petrópolis, a cidade do imperador, para onde venho sempre que posso. 
Já não aguento aquele ambiente ainda fétido do munícipio neutro, mesmo depois que o grande Oswaldo Cruz tentou combater os miasmas pestilenciais que sempre afugentaram do Rio todo o corpo diplomático e mesmo visitantes estrangeiros. 
O 16 de março, quando o meu querido pai poderia estar comemorando o seu 89. aniversário, passou em branco, pois, mas espero organizar uma homenagem muito mais merecida, no ano que vem, quando ele estaria completando 90 anos, se ainda estivesse vivo. Sinto muito não ter podido acompanhar seu falecimento quase trinta anos atrás, pois eu já me encontrava em Liverpool – na verdade em Paris –, quando ele nos deixou, com apenas 61 anos, mas com uma grande obra atrás de si. Ainda me lembro perfeitamente bem quando o acompanhei, ainda com cabelos negros, em sua primeira missão no Prata, para tentar resolver aquelas contendas ridículas que sempre surgem entre Blancos e Colorados, e que nos obrigaram, mais de uma vez, a intervir nos negócios internos dos nossos vizinhos da Cisplatina. Sempre desconfiei que essas nossas intrusões nas confusões dos uruguaios – mesmo atuando indiretamente, pelos “bons ofícios do Irineu Evangelista, por exemplo – poderiam ainda causar confusões ainda maiores, como de fato ocorreu logo depois, com a maldita guerra que arruinou o nosso próspero império. 
Não pude fazê-lo em sua segunda missão, da qual ele retornou cabisbaixo, sob as críticas dos seus inimigos na Assembleia e mesmo no Senado. Mas sua defesa de sete horas na Câmara Alta, foi tão memorável no desfilar dos bons argumentos, que nosso grande romancista, o velho Machado – que ficou macambúzio depois da morte da sua doce Carolina – produziu uma das mais belas crônicas que já vi publicadas nos nossos folhetins. Meu pai foi um dos maiores estadistas do Brasil, ainda que meu amigo Nabuco dispute a primazia da lista em favor do seu próprio pai, a quem dedicou dois grossos volumes que ainda não tive a pachorra de terminar. O Quincas também já vai avançado na idade, mas ainda nos tem prestado belos serviços na capital dos yankees, os quais ele passou a admirar, depois de uma fresca paixão pelos pérfidos ingleses; espero que ele consiga com o homem do porrete, Theodore, algum dreadnought desses novos, já que os malditos argentinos continuam a nos bloquear o caminho dos estaleiros britânicos. Se ele conseguisse falar com o Mahan, aposto que o homem do poder naval americano apoiaria a ideia junto ao presidente.

Ontem o Domício [da Gama] subiu a serra para me ver, e pedir que eu descesse com ele, para alguma comemoração do meu aniversário, o que me recusei a fazer. Da última vez que cá vim, suei doze lenços, desde a saída do Rio, em caleche, depois no trem que o Mauá construiu e novamente a força de animal até esta minha casinha que tem me servido bem, desde que aqui recebemos os bolivianos, para aquelas difíceis negociações do Acre. Na verdade, quem deu mais trabalho não foram nossos vizinhos, mas o meu amigo Ruy, que se mostrou intransigente na questão do pagamento do novo território e na cessão de uma nesga do nosso próprio território a eles. Acabou saindo da delegação, o que não me impediu de convidá-lo para chefiar a nossa participação na segunda conferência da paz da Haia, no ano passado, quando teve de impor todo o seu valor contra os imperialistas do velho e do novo continente. 
O Domício insistiu muito, dizendo que todos no palácio da Rua Larga gostariam de me cumprimentar, e que de mim esperavam algumas palavras de estímulo nas confusões que ainda temos de resolver com os nossos hermanos, sempre desejosos de estorvar as nossas boas relações com os amigos do hemisfério e do velho mundo. Eu confessei-lhe que já ando cansado dos problemas que eles nos causam desde sempre, mesmo depois que Roca andou por aqui, quase dez anos atrás, proclamando hipocritamente que nada nos separa. Gostaria que assim fossem, e por isso mesmo respondi a Domício que tínhamos de ver com nossos amigos chilenos se eles estão mesmo dispostos a assinar esse Pacto ABC que eu já propus desde alguns anos. Estou cada vez mais pessimista com o cenário geopolítico nestas bandas do Sul, pois os argentinos só buscam um motivo para nos prejudicar mais uma vez com paraguaios, uruguaios e bolivianos.
Disse a Domício que estava sofrendo da gota, e que assim não poderia ser desta vez que eu desceria a serra. Ele ainda insistiu comigo que o Ruy também queria me ver, para discutir a sua campanha à presidência, que ele chamou de “civilista”, para contrastar com as recentes tendências militaristas que surgiram no horizonte da nação. Domício até chegou a sinalizar que muitos lá embaixo não tinham desistido da investida de me fazer candidato à chefia do país, coisa que eu detestaria, dizendo que eu seria praticamente imbatível, dado meu rol de serviços ao país. Acenei para que ele não me importunasse mais com esse tipo de baliverne, pois eu nunca fui homem de política, menos ainda de partidos: tudo o que me interessa é a glória do Brasil nos negócios de Estado, no grande palco deste novo século tão prometedor.  
Ele se foi consternado, não sem antes me dizer que o Euclides (da Cunha) continuava aguardando algum posto permanente no nosso serviço; fiz mostra de me interessar pelo nosso homem do Conselheiro e da Amazônia, mas nunca tive muita vontade de empregar um criador de casos, sempre afetando uma superioridade que de fato ele não possui. Domício ainda me perguntou, na soleira da porta, se eu não pretendia fazer algum concurso para completar as vagas que estavam sendo criadas pela aposentadoria de antigos monarquistas, homens do meu tempo, quando o prestígio do Brasil no exterior era ainda maior. Respondi-lhe que pensaria no assunto, mas não pretendo mudar meu modo de recrutamento: eu mesmo entrevisto os candidatos segundo os meus critérios, não essas provas parnasianas, montadas por esses escriturários sem o charme necessário ao nosso serviço diplomático de inspiração britânica. 
Encomendei-lhe, ainda, quando chegou a carruagem, que pensasse em algum artista para fazer o busto do meu pai, pois lhe devíamos essa homenagem, pelos insignes serviços que ele prestou à nação, e não apenas na questão servil. Foi Paranhos pai quem, mesmo sendo matemático de formação, criou o cargo de Consultor Jurídico da antiga Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, e ainda formulou, de sua própria mão, inúmeros pareceres eivados da mais pura doutrina jurídica, e do maior rigor lógico e matemático, virtudes que se perderam depois que deixaram o posto vacante pelo resto do Império. Fui eu quem tive o prazer de restabelecer o serviço, e resolvi testar as qualidades do jovem Clovis Beviláqua, que me parece prometedor, tendo saído da mesma Escola do Recife do grande Tobias Barreto, um quase anarquista republicano, mas o único em nossas paragens que lia e escrevia perfeitamente na língua de Goethe.
Vou deixar passar o meu aniversário, e só retornar ao Rio na semana que vem, para despachar alguns assuntos no Itamaraty, e despachar alguma correspondência no próximo paquete para a Europa: meus filhos devem estar inquietos deste meu silencia inabitual. Eu espero, sinceramente, que o Ruy possa ter êxito contra aquela mula fardada que ameaça desmantelar a nossa frágil República: o marechal, que arrisca ganhar, tem aquela mesma neurose nacionalista que alimenta alguns dos piores tribunos europeus, e esse sempre foi o germe das guerras e dos conflitos. Folgo em que esses imperialistas europeus se entendam, a despeito das quizílias que andam arrumando no norte e no sul da África, depois de já terem estuprado a China, quando daquela revolução tão infeliz dos Boxers. Ando cansado de todas essas boutadeseuropeias, que pretendem que nós é que somos povos não civilizados, quando eles perpetram as piores barbaridades em todos esses locais, escravizando os indígenas, como faz aquele arrogante Leopold II no Congo; o que ele anda fazendo contra os pobres negros, naquelas terras ricas em minerais preciosos é um verdadeiro horror, segundo me relata nosso cônsul em Anvers. 
Só espero que quando eu voltar ao Rio, por um tempo o menor possível, eu não tenha de aguentar os falsos elogios de todos esses áulicos, que só me querem para uma fotografia, para depois conquistar alguma boa imagem na nossa imprensa volúvel. O Itamaraty não é velho, mas andou envelhecendo precocemente, sob a longuíssima direção do nosso Cabo Frio. Eu ainda lhe inventei um busto, alguns anos atrás, para ver se ele se decidia partir, mas o velho grudou-se como uma ostra no rochedo, e só saiu mesmo à beira da morte. O Visconde, o mais longevo dos nossos diretores gerais, e que ainda vinha dos tempos em que esse cargo tinha o título de Oficial Maior, me escondia os dossiês mais delicados, pois pretendia ter sozinho o controle da chancelaria. Não quero que nenhum dos meus assessores tenha essa pretensão, mesmo aqueles mais devotados dos secretários: vou fazer dois ou três ministros na Europa, para me livrar dos mais subservientes, pois não gosto desses que vivem sem ter opinião própria. O Itamaraty precisa ter personalidade própria e nunca mais dobrar-se aos políticos oportunistas.
Amanhã (...)

[anotações interrompidas neste ponto e o Barão não mais retomou os projetos para o dia do seu aniversário; ele parece nunca ter desistido de fazer o aniversário do seu pai, um dia de homenagem aos diplomatas da nação, como ainda quis fazer em 1909. Falta decifrar muitas outras páginas, na letra críptica do Barão.]


sábado, 4 de maio de 2019

Dia do diplomata: diplomacia teologica e intervencao nos assuntos internos de outros Estados

Independentemente da diplomacia "teológica" – absolutamente inédita nos anais da diplomacia brasileira – e dos pruridos "subfilosóficos" sobre uma nova categoria de ideólogos, que seriam os "tautólogos" (não se espantem: se trata de personagens de um dos romances distópicos do chantecler), o importante a reter nesta matéria e na substância dos pronunciamentos do presidente sobre a política interna argentina – o que contraria frontalmente nossos dispositivos constitucionais e até as boas práticas diplomáticas – é a tentativa do dito chantecler de contornar a evidente infração cometida pelo presidente contra normas mínimas de nossas relações internacionais, como a não interferência nos assuntos internos dos outros países, por exemplo. Parece que o presidente não foi devidamente instruído pelos seus subassessores internacionais.
Paulo Roberto de Almeida

Em discurso, chanceler compara Bolsonaro a Jesus Cristo

Em discurso na cerimônia de formatura dos novos diplomatas do Instituto Rio Branco, o chanceler Ernesto Araújo elogiou o presidente Jair Bolsonaro, comparando-o a Jesus Cristo, e se emocionou diversas vezes, chegando até a chorar. Em referência ao presidente da República, que estava presente na cerimônia, Araújo citou trecho do Evangelho que diz que "a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular". No Evangelho, a pedra angular simboliza Jesus Cristo.
"A pedra que os órgãos da imprensa rejeitaram, a pedra que os intelectuais rejeitaram, que os especialistas rejeitaram... Essa pedra tornou-se a pedra angular do edifício do novo Brasil", completou o chanceler.
Citando a homenageada da turma de 30 formandos do Instituto Rio Branco, Aracy Guimarães Rosa, Araújo disse que "diplomacia não significa ficar em cima do muro, nem ficar assistindo em cima do muro esperando ver quem ganha e aí aderir ao vencedor". "Diplomacia precisa ter sangue nas veias", disse.
Ainda fazendo menção à Aracy, que no período nazista salvou a vida de dezenas de judeus, Araújo disse que se solidariza aos que sofrem perseguição política atualmente "na Venezuela e em todos os lugares do mundo".
Ao se dirigir aos formandos, o ministro de Relações Exteriores afirmou que o governo luta por renovação e que Bolsonaro admitiu os diplomatas nessa "causa" de maneira inédita. Também orientou os formandos a "pensarem" e "não terceirizarem informações aos meios de comunicação".
"Nenhum presidente da República valorizou mais o papel do Itamaraty do que o senhor, nenhum teve visão mais clara sobre o papel da política externa para a transformação nacional", elogiou o chanceler ao dirigir-se a Bolsonaro.
Araújo contou que, recentemente, Bolsonaro enviou a seguinte mensagem: "enquanto não faltar água no mar, não deixaremos de lutar". Ele frisou que esse sentimento do presidente o anima. "Temos a oportunidade única de mudar o Brasil e transformá-lo em uma grande nação."
Venezuela
Sobre a crise no país vizinho, o chanceler afirmou que o Brasil ajudou "de maneira decisiva a criar uma marcha irreversível de democracia na Venezuela". Também lamentou pessoas que, segundo ele, torcem a favor "da tirania e do cinismo" no país vizinho apenas por torcer contra o governo Bolsonaro, mencionando entre essas pessoas setores da imprensa.
Depois do evento, Araújo afirmou aos jornalistas que o líder opositor venezuelano Juan Guaidó não foi derrotado no último dia 30 ao convocar a população para pressionar Nicolás Maduro. A interpretação de Araújo foi que houve "avanço" no processo e que a pressão diplomática dos países do Grupo de Lima já fez efeito no país vizinho.
"No Grupo de Lima, hoje, nós queremos deixar muito claro o fato de que o que aconteceu no dia 30, no dia 1º, não é de forma nenhuma uma derrota desse ímpeto pela liberdade, pela democracia. Ao contrário, isso exige que a comunidade internacional continue trabalhando, como vem trabalhando", disse.
O ministro afirmou que os países que apoiam o autoproclamado presidente interino da Venezuela se esforçam para não deixar ser criada uma narrativa, "que seria falsa", de um retrocesso no processo. Ele enfatizou que houve "um avanço" e que é preciso discutir novos elementos de pressão diplomática sobre a Venezuela.
Argentina
Araújo negou que o presidente Jair Bolsonaro apoie a reeleição de Mauricio Macri na Argentina, mas destacou que há uma preocupação do chefe do Planalto com uma eventual eleição de Cristina Kirchner no país vizinho.
"Apoio acho que não é bem a questão. Acho que é simplesmente esse nosso compromisso com achar uma pauta, já temos uma pauta muito intensa com o governo Macri", disse o ministro após almoço com diplomatas formando do Instituto Rio Branco, no Itamaraty.
Ele destacou que Bolsonaro deixou bem claro sua "preocupação" com um retorno de um regime anterior na Argentina. O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro espera desenvolver a relação "independentemente do governo" daquele país.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Dia do diplomata: Chanceler de Bolsonaro chora e diz que diplomacia precisa de 'sangue nas veias'

Chanceler de Bolsonaro chora e diz que diplomacia precisa de 'sangue nas veias'

Em discurso com a presença do presidente, Ernesto Araújo rebate críticas à política externa do país

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Um alerta sobre os rumos da política externa brasileira - Rubens Ricupero

No Dia do Diplomata, um alerta sobre os rumos da política externa brasileira

Ricupero é um dos mais respeitados diplomatas brasileiros, cuja carreira no Itamaraty se estendeu de 1961 a 2004, e alia à sólida formação intelectual a experiência da representação exterior do País, tendo ocupado os mais altos postos da carreira diplomática.

por Arnaldo Cardoso

Jornal GGN, 22/04/2019

Assista à palestra: 

A destruição da política externa brasileira

por Rubens Ricupero

Neste link do YouTube:
No último sábado (20), Dia do Diplomata, o Tapera, Taperá, espaço cultural inaugurado em 2016 na Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, recebeu o embaixador Rubens Ricupero em evento que reuniu de jovens estudantes de relações internacionais a experientes observadores da política externa brasileira. Na data em que se celebra o nascimento do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, os presentes que lotaram o espaço foram brindados com uma abrangente e consistente palestra sobre a função da política externa de um país, culminando com uma arguta análise do crítico momento vivido pelo Brasil no que tange à condução de suas relações exteriores.
Arnaldo Cardoso, Rubens Ricupero e Marcelo Fernandes no Tapera.
Ricupero que é um dos mais respeitados diplomatas brasileiros, cuja carreira no Itamaraty se estendeu de 1961 a 2004, alia a sólida formação intelectual a experiência da representação exterior do País, tendo ocupado os mais altos postos da carreira diplomática. Além disso, enfrentou também, por duas vezes, os desafios e dissabores da política, na condição de Ministro de Estado, nos governos Sarney e Itamar Franco. Em organismos internacionais, ocupou entre os anos de 1995 e 2004, o prestigioso cargo de Secretário Geral da Unctad, órgão da ONU sediado em Genebra, que tem por missão a promoção da integração de países em desenvolvimento na economia mundial.
Na palestra no Tapera, intitulada A destruição da política externa brasileira, Ricupero expôs mais uma vez sua contundente crítica ao discurso e às ações do atual governo brasileiro no campo das relações exteriores, consubstanciada em detalhado apontamento do descolamento da política externa do interesse nacional e dos reais problemas que afetam a sociedade brasileira, cujo necessário enfrentamento poderia ser potencializado por uma bem informada e responsável concepção e execução de política externa.
Logo no início de sua palestra, o embaixador citou o seguinte trecho de discurso do Presidente da República proferido em recente jantar em Washington “O Brasil é um terreno em que nós precisamos desconstruir muita coisa” como emblemático da mentalidade que orienta a ação do governo, não só em política externa, mas também em áreas como a do meio ambiente, educação, direitos humanos, entre outras. Ricupero manifestou sua perplexidade e grande preocupação com o fato de ser um discurso que fala em destruição e não em construção, contrastando com a história de todos os governos anteriores que se pautaram, mesmo situados em diferentes campos do espectro político, por projetos de construção do País e de fortalecimento de suas relações exteriores.
Lembrou que a política externa brasileira vinha se orientando desde muito pela busca da autonomia pela participação em diferentes fóruns onde se constroem as agendas internacionais.
No campo do meio ambiente, Ricupero que já foi Ministro do Meio Ambiente, apontou o equívoco das declarações do governo ameaçando sair do Acordo do Clima de Paris, quando já no governo anterior se tinha anunciado o cumprimento antecipado das metas de redução de desmatamento. O embaixador mencionou também a suposta perda de soberania do país refutando-a com o fato de que a delegação brasileira participou ativamente do processo de definição de diferentes obrigações e direitos para países desenvolvidos e em desenvolvimento. Citou ainda o risco de perda de linhas de financiamento internacional, em caso de abandono do Acordo, que são importantes para o País, e por fim a dilapidação do capital político do Brasil na área, acumulado ao longo das últimas décadas.
Quanto às escolhas dos primeiros países visitados, Ricupero manifestou preocupação com o fato de que o critério evidente foi o da ideologia. Ainda segundo o embaixador, a agenda das viagens revelou “prioridades erradas” estimulando antagonismos e criando constrangimentos com países que são importantes mercados para as exportações brasileiras.
Lembrando que em 1º de março do próximo ano o Brasil completará 150 anos de paz – data em que se celebra o fim da Guerra da Tríplice Aliança –, feito que ganha especial admiração por ter o Brasil fronteira com dez países. Ricupero expôs seu entendimento de que, num mundo marcado por instabilidade e conflitos, nosso País se fortalece ao reafirmar os valores da solução pacífica de conflitos e da não intervenção, valores que passaram a emoldurar a identidade internacional do País desde o fim do referido conflito. 
Consonante com a mensagem contida nas mais de 700 páginas de seu mais recente livro “A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016” e também com o conteúdo da extensa entrevista concedida recentemente à Jamil Chade da Folha de S. Paulo, donde extraio o parágrafo abaixo, a palestra de Rubens Ricupero no Dia do Diplomata repôs para o público presente a importância de a política externa ser entendida como parte indissociável da própria política do Estado para o desenvolvimento nacional, e da importância da diplomacia para o desenvolvimento das nações e para a construção de uma paz com justiça entre as nações. 
Como avalia Ricupero “Hoje em dia, o que caracteriza um governo admirado, merecedor de prestígio internacional, é seu comportamento nos domínios que integram o conjunto de aspirações da humanidade: direitos humanos, meio ambiente, promoção de igualdade entre mulheres e homens, tolerância e respeito pelas minorias, combate à desigualdade social e racial. Cada sociedade será julgada em última instância pela maneira como trata seus membros mais frágeis e vulneráveis.”
Arnaldo Cardoso é cientista político, pesquisador e professor universitário.

domingo, 21 de abril de 2019

Minha mensagem no dia do diplomata - Paulo Roberto de Almeida


Estatísticas do Diplomatizzando no Dia do Diplomata

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: reflexões num dia do diplomata; finalidade: verifica papel do instrumento]


O dia 20 de abril, dia do nascimento de José Maria da Silva Paranhos Jr., futuro Barão do Rio Branco, serve como data comemorativa do serviço exterior, quando se aproveita a ocasião para a cerimônia de formatura dos novos diplomatas, egressos do Curso de Preparação à Carreira Diplomática, mas também para agraciar, com a Ordem do Rio Branco, diplomatas e não diplomatas (alguns jamais mereceriam a comenda a não ser por eventual função exercida no governo). Nem sempre foi assim: o Instituto Rio Branco foi criado em 1945, no centenário de nascimento de Juca Paranhos, e o dia do diplomata, com formatura de cada nova turma de alunos, jovens diplomatas, deve ter sido consagrado em ocasião ulterior, e mesmo suspenso por algum tempo durante o regime militar.
A despeito de ter sido professor do Instituto Rio Branco, de ter feito inúmeras palestras – geralmente no quadro do Curso de Aperfeiçoamento de Diplomatas, para segundos secretários – e de ter produzido alguma bibliografia complementar aos estudos empreendidos no âmbito do IRBr ou de pesquisas pertinentes, nunca fui distinguido com convites para paraninfo ou qualquer outro tipo de homenagem no Dia do Diplomata. Conservo a mesma comenda inicial da Ordem, no grau de Cavaleiro, com que fui agraciado ainda como segundo secretário, nunca recebi nenhuma outra, e até cogitei de devolver a minha, quando um desses mequetrefes da área política foi por ela agraciado, sem qualquer mérito (e até com desonra para a Ordem). Devo o fato de não ter sido cogitado para honrarias e outras homenagens provavelmente à minha atitude contrarianista, senão dissidente, das grandes definições conceituais de nossa diplomacia: o desenvolvimentismo, o nacionalismo, o protecionismo, o estatismo, o cepalianismo, o unctadianismo, o terceiro-mundismo, o antiamericanismo (ainda que moderado), o anti-imperialismo (este mais afirmado) e outros ismos que sempre considerei nefastos para a condução de uma diplomacia liberta de certos fantasmas de nossas ideologias maiores, inclusive e principalmente o traço distintivo do Itamaraty, além e acima de possíveis inclinações políticas momentâneas: o feudalismo.
Sim, o Itamaraty, antes de ser de esquerda, de direita ou de centro, ou alinhar-se a quaisquer outras tendências disponíveis no supermercado das velhas manias ou das novas modas ideológicas, é, básica e fundamentalmente, feudal, com o seu soberano empoleirado na cadeira de Rio Branco e os barões da Casa circulando em volta, segundo os sacrossantos princípios da hierarquia e da disciplina, que eu, aliás, nunca respeitei devidamente, consoante meu natural contrarianista. Não apenas por isto, porque também eu sempre fui um crítico das principais posturas adotadas pelo Itamaraty ao longo de sua história contemporânea, e nunca deixei de expressar ideias próprias a respeito dos grandes temas da agenda, bem mais no tocante à política econômica externa e às relações econômicas internacionais do Brasil, nos planos multilateral ou regional. Tendo aderido cedo a outros postulados de economia política e de “alinhamentos” internacionais – sobretudo distanciando-me precocemente dos arroubos latino-americanistas ou terceiro-mundistas, e mesmo do tabu da recusa absoluta do Tratado de Não Proliferação Nuclear, ou do Clube dos Ricos, a OCDE –, eu passei a achar canhestros certos posicionamentos do Brasil nessas vertentes, e tampouco deixei de expressar tais opiniões em meus artigos e livros, o que incluía um outro sagrado princípio da nossa diplomacia, o desenvolvimentismo.
Em meus estudos de economia, por ocasião do mestrado em desenvolvimento econômico, mas também depois, no próprio exercício da diplomacia aplicada, cercando-me de livros e teses alinhadas com certo liberalismo econômico, mas sobretudo com o simples racionalismo pragmático, terminei por descrer de certas “teses” defendidas pelo Itamaraty, e não me eximi de expressar tais “dissidências”. O papel exercido pelo pensamento e posturas de Roberto Campos, cujos artigos comecei a ler precocemente, ademais de outros pensadores liberais – Raymond Aron, por exemplo – foi com toda certeza decisivo nessa recusa dos principais “dogmas” do Itamaraty e na produção de minhas posturas própria com respeito à agenda diplomática do Brasil e sua aplicação pelo Itamaraty. Roberto Campos, por ter aderido também precocemente a essas teses, num momento em que o Itamaraty também se inclinava entusiasticamente pelas ideias e posturas do prebischianismo, cepalianismo, unctadianismo, terceiro-mundismo, em resumo, desenvolvimentismo dentro do arcabouço onusiano da divisão Norte-Sul, tinha algumas frases cruéis contra essas teses que ele julgava profundamente equivocadas.
Uma dessas frases, retiradas de seu contexto expressamente político, mas aplicada ao tradicional partido da direita “liberal”, a UDN (União Democrática Nacional), segundo a qual ela seria um “partido burro de homens inteligentes”, foi convertida por Campos e aplicada ao Itamaraty, para quem a Casa seria uma “entidade burra povoada de homens brilhantes”. Reconheça-se que a frase não é nada elogiosa, ao contrário, mas para mim ela contém várias doses de verdade, não tanto pela eventual incapacidade dos diplomatas de se alinharem a teses mais “inteligentes”, mas pelo cerco que sobre ele exercem diferentes lobbies das chamadas “classes produtoras”, que sempre insistiram no protecionismo, no dirigismo, no mercantilismo, no nacionalismo rastaquera, no isolamento da concorrência internacional, de forma a defender reservas de mercado, bem como subsídios diretos e indiretos que lhes assegurem fluxos rentistas em detrimento do consumidor nacional. De forma que eu me coloquei a contra corrente das teses e opiniões dominantes na diplomacia, uma atitude perfeitamente capaz de me garantir certo nicho isolado no mainstream das ideologias diplomáticas com maior trânsito entre os diplomatas, sejam ele “barões”, sejam “servos de gleba” (que seriam os secretários, base técnica essencial da primeira camada do processo decisório).
A partir de certo momento, esse meu isolamento diplomático começou a ser rompido pelos instrumentos de comunicação social, primeiro um site pessoal (hoje menos utilizado, o www.pralmeida.org), depois diversos blogs pessoais, até culminar no Diplomatizzando, e finalmente em outras ferramentas (como Facebook e Twitter, mas utilizadas de forma algo aleatória). Tais instrumentos potencializaram tremendamente o acesso a meus textos por jovens estudantes e ampliaram minha audiência em meios que seque imagino existirem (uma vez que não costumo identificar origem dos acessos, apenas o seu volume e direcionamento a meus trabalhos disponíveis nessas ferramentas) e que constituem outras instâncias multiplicadoras sem qualquer controle de minha parte. Imagino que seja por isso que sou bem mais conhecido nesses meios do que posso aquilatar por quaisquer instrumentos de análise vinculadas a essas ferramentas.
Justamente, acessando hoje as estatísticas do meu blog Diplomatizzando, em diversos formatos, acabei constatando alguns números brutos e algumas preferências repetitivas dos leitores. A despeito do blog ter sido iniciado em meados de 2006, o resumo das estatísticas de acesso apresenta uma tabela gráfica válida apenas a partir de maio de 2010. Não importa, o fato é que sou seguido, formalmente, por 855 pessoas (e algumas entidades, provavelmente, inclusive a CIA, o FSB, o Mossad, etc., além daqueles que o fazem por obrigação e provavelmente com raiva do que escrevo), público que garante um volume mensal de acessos na faixa de 70 mil vezes, ou mais de 2.300 vezes por dia. Com isso eu cheguei a um número total de visualizações de quase 7 milhões (mais exatamente 6.906.344 em 20 de abril). O número total de postagens alcança quase 20 mil, sendo mais exatamente 19.876 publicadas e mais 58 em rascunho. Confesso que preciso revisar esses rascunhos para ver o que ainda subsiste de aproveitável em postagens preparadas e não postadas, por razões diversas.
O mais importante, porém, para aquilatar, não da quantidade, mas da qualidade de minhas postagens está na verificação dos temas mais procurados e, portanto, das postagens mais acessadas pelos frequentadores e visitantes ao meu blog, que não se resumem, obviamente, aos 855 cadastrados e identificados no painel pertinente (que eu raramente, ou quase nunca, acesso).  O quadro abaixo permite visualizar os itens mais acessados de meu blog, sendo que o primeiro, campeão absoluto, constitui uma crítica acerba às nossas instituições universitárias, mais pela improdutividade do que por quaisquer considerações ideológicas: quase 50 mil acessos, seguido de longe por uma curiosidade compreensível em nossos tempos, como citar obras digitais.

 

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Cabe registrar que uma postagem relativamente recente, a nota relativa à minha exoneração do cargo de diretor do IPRI, ascendeu rapidamente às primeiras colocações, em paridade com uma outra postagem bastante acessada, um conjunto de informações relativas à carreira diplomática, um tema muito buscado em minhas ferramentas de comunicação social, a despeito do fato que eu nunca estive no “mercado” de cursos preparatórios e jamais tenha escrito manuais ou guias de estudo para os exames de ingresso na carreira. Ao longo de minha já extensa (e intensa) carreira paralela de professor universitário tenho convivido de forma bastante frequente com estudantes de áreas afins à diplomacia, mas não me dediquei especialmente aos preparativos de acesso à carreira, tendo sempre me concentrado em estudos pós-graduados, em pesquisas de maior densidade conceitual e também à discussão dos problemas brasileiros (em diversas áreas). Uma nota ainda mais recente – na verdade terceirizada, uma vez que se trata de matéria relativa a um personagem do momento, o sofista da Virgínia – ascendeu igualmente às primeiras posições, quem sabe por curiosidade legítima ou malsã?
E qual o sentido de tudo isso, e como isso se conecta com o Dia do Diplomata? Não ouso responder de maneira peremptória a essa questão, a não ser para dizer que faço da minha dupla carreira, a profissional diplomática e a acadêmica, como professor, uma plataforma e uma alavanca para o que mais gosto de fazer: leituras, intensas, notas e reflexões sobre todos os temas de minha insaciável curiosidade intelectual, como forma de transmissão aos mais jovens. Tendo uma formação básica absolutamente ordinária na origem – vindo de uma família de avós analfabetos, imigrantes, e pais com escolaridade primária incompleta –, pude ascender ao que comumente se chama de elite do funcionalismo federal, ou às elites tout court, unicamente devido ao estudo, em escolas públicas e em bibliotecas idem, considero ser meu dever fundamental contribuir para que outros jovens em posições eventualmente similares às minhas possam também ascender a posições de maior relevo social graças ao estudo e à dedicação ao trabalho intelectual de qualidade. O fato de estar na carreira diplomática, e mais, numa posição totalmente independente da tradicional adesão aos “dogmas” da Casa, em relação aos quais sou um contrarianista convencido e profissional, me habilita a dizer o que quero, sem pagar nenhum “imposto” de fidelidade funcional, ou de repetição hipócrita e não assimilada ao linguajar padrão de meus colegas, que eu classifico, em total despudor, como sendo “bullshit diplomático”.
Estas são as motivações, e este é o trabalho que conduzo, no isolamento solitário do que já chamei de “quilombo de resistência intelectual”, que constitui o meu blog Diplomatizzando, e que me serviu de maneira excepcional quando, nas desventuras de uma carreira marcada, como já disse, pelos sacrossantos princípios da hierarquia e da disciplina, eu fui um dissidente aberto nos momentos não convencionais da política externa, sob o lulopetismo e, atualmente, sob o bolsonarismo. Meu blog, para eventual desgosto de meus “algozes”, sempre me serviu para continuar fazendo exatamente o que eu gosto de fazer: ler, anotar, refletir e repercutir minhas ideias em total independência em relação ao “Vaticano” do Itamaraty, com todos os seus “cardeais” e dogmas. Sou livre tanto quanto pode ser um “servo do Estado”, e orgulho de ser um contrarianista, que é o que me distingue fundamentalmente.
Por todas essas razões, recebo com satisfação mensagens de meus leitores, como esta que acabo de receber no Dia do Diplomata, uma entre muitas outras do mesmo teor ou vazada em termos similares. Transcrevo:
Obrigado, senhor Embaixador, por ter me aceitado em seu Face. Adorava ler seu blog Diplomatizzando na adolescência.
PRA: Puxa! Na adolescência? Então estou ficando velho.
Haha! Pois é. O senhor me salvou do esquerdismo no Ensino Médio.
PRA: Pelo menos uma boa obra. Mas eu mesmo fui esquerdista, pelo menos até os 30 anos...
Só queria agradecer ao senhor por tudo o que fez na minha vida. Sei que não me conhece, mas o senhor foi muito importante na minha formação intelectual. Que Deus o abençoe. Sempre. E à sua família.
PRA: Eu tenho em meu blog Diplomatizzando uma frase de um humorista americano, Will Rogers, que diz o seguinte: a gente aprende nos livros ou com pessoas mais espertas. Foi o que fiz: tive bons professores na infância e juventude e aprendi sobretudo nos livros, hoje internet. É isso: vá em frente. E hoje, confie mais em bons livros do que nos professores.
Ah, certamente. Se eu dependesse dos meus professores esquerdistas no [xxx] eu estaria ferrado, he, he...

Termino por aqui esta minha já longa digressão sobre o meu blog e sobre o dia dos diplomatas, que devem certamente ser homenageados, à sua justa medida, por suas contribuições à defesa do interesse nacional, junto com outras corporações do Estado, em primeiro lugar nossos irmãos das FFAA, ou militares individualmente, como forças identificadas com objetivos mais altos do que simples ambições particulares (embora estas por vezes prevaleçam sobre o interesse geral da nação), como acredito que fomos capazes de nos desempenhar nestes quase 200 anos de nação independente. O Brasil que temos hoje não é certamente o país de nossos sonhos, a nação desenvolvida e desprovida das gritantes mazelas sociais e políticas que contemplamos todos os dias, ao abrir os jornais, ao visualizar os instrumentos de mídia. De minha parte tenho procurado desempenhar o meu papel de cidadão consciente e ativo, engajado na melhoria social progressiva da nação e na elevação educacional e intelectual de nossos concidadãos. Se mais não fiz, foi por falta de meios e de oportunidades, tendo sido aliás afastado durante longos anos do serviço ativo na diplomacia justamente por divergir das orientações que pautavam nossa atividade diplomática, o que ocorre neste mesmo momento novamente.
Não vou esmorecer na tentativa, e volto a refugiar-me em meu quilombo de resistência intelectual, aguardando dias melhores. Enquanto não surgem novas oportunidades de me exercer em minhas competências funcionais, vou me exercendo em minhas atribuições tradicionais: ler, anotar, refletir, ponderar, escrever, divulgar, eventualmente publicar aquilo que considero relevante no debate público sobre os problemas mais relevantes do Brasil, que não são, obviamente, os da diplomacia, e sequer os das relações exteriores, e sim as questões sociais, em primeiro lugar, e nas cinco primeiras prioridades, a educação pública de qualidade.
Termino por aqui: desejo bom dia do diplomata a todos os meus colegas de profissão, a meus confrades de carreira, desejando bons estudos a todos os aspirantes à carreira, que, a despeito de burocrática e por vezes enfadonha, é gratificante, e, pelo menos para mim, certamente gratificante, por todos os seus aspectos intelectuais e de abertura às coisas do mundo que eu e minha mulher, a historiadora Carmen Lícia Palazzo, valorizamos tremendamente. Sempre fomos muito felizes, nós e nossos filhos, em todos os postos nos quais nos foi dado servir, nos mais agradáveis, e nos mais duros (que também existiram), e sempre retiramos de cada um ensinamentos para a vida e recompensas intelectuais, turísticas, gastronômicas, tudo o que fosse aproveitável.
Feliz dia dos diplomatas a todos e a cada um.
Vale!

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20 de abril de 2019