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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Depois da saúva-inseto, cem anos atrás, aparece a saúva-humana, personificada no perigo Bolsonaro - Conrado Hübner Mendes (FSP), Paulo Roberto de Almeida

 PRA: cem anos atrás, o maior risco para o Brasil, segundo Monteiro Lobato, era a saúva, essa formiga destruidora de plantações e colheitas. Sendo o Brasil um país "essencialmente agrícola", como se afirmava até a segunda metade do século XX, "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil", dizia o escritor paulista, autor do ciclo infantil do Pica-Pau amarelo (e de muitas outras obras adultas também).
Atualmente, o risco maior para a democracia e para o próprio Brasil está identificado com a família Bolsonaro, uma praga aparentemente mais resistente do que a saúva, e que vem consumindo uma parte importante da energia liberal e democrática da população brasileira, ao lado dos cultos evangélicos extratores da riqueza em favor de pastores negocistas, das bets e da casta de políticos adeptos do estupro orçamentário das emendas impositivas. São muitas pragas ao mesmo tempo, mas a ameaça momentânea é mesmo o bolsonarismo, como argumenta Conrado Hübner Mendes em artigo na Folha de S. Paulo de ontem. PRA

NENHUM RISCO É MAIOR QUE O RISCO-BOLSONARO
Dez lições sobre como atacar a vida, a liberdade, a economia e o país

Conrado Hübner Mendes
Prof FDUSP
FSP 26/08/2025, p. A16

A atenção da liga internacional da extrema direita se concentra hoje no Brasil. A liga tem sido laboratório de produção e exportação de técnicas para esvaziar regimes democráticos dos resquícios de autogoverno coletivo, eleições livres, proteção das liberdades. Essa época histórica não se esgotará em dois ou três ciclos eleitorais.
Quem tenta se posicionar eleitoralmente nos moldes da antiga normalidade, entre esquerda e direita, entre mais ou menos Estado, mais ou menos política social, precisa se dar conta da enormidade de nosso tempo.
O Brasil tem um sócio master na liga internacional: os Bolsonaros. Nenhuma outra candidatura, por maiores que sejam seus riscos econômicos e sociais, tem a dimensão vital e existencial como o risco-Bolsonaro.
As provas são documentadas. Foram vividas por cidadãos nos últimos anos. Estão na memória do corpo e das emoções de quem conseguiu manter consciência humanista e autonomia do juízo no período.

Resumo as dez lições do risco-Bolsonaro.

A primeira está no curriculum vitae do pai e dos filhos. Note a onipresença de milicianos, 'rachadinhas', de dinheiro vivo, do interesse nacional subordinado a interesse familiar. O filho-candidato foi um dos dois votos contra a CPI das milícias. O outro foi do mandante do assassinato de Marielle Franco. Flávio nunca explicou seu conceito de "legalização das milícias".
A segunda foi o uso da incivilidade performática não como grosseria e quebra de etiqueta pública, mas como autorização da violência numa sociedade de grupos tão vulneráveis como os de meninas forçadas à prostituição.
A terceira toca soberania nacional. Membro da família abandonou o cargo eletivo e vive nos EUA para trabalhar contra a economia nacional. Vivemos inédito regime de sanção econômica e na fila por nova intervenção de Trump. A família recusa a não-subalternidade global.
A quarta é a Amazônia. A família optou por ausência do Estado, estímulo ao desmatamento e liberou crime organizado. Abdica da soberania territorial e renuncia à nossa maior riqueza para o século 21. E turbina a mudança climática. Empobrecimento coletivo com enriquecimento privado de economias ilícitas.
A quinta foi o ataque a minorias sociais e a vozes dissidentes de professores, cientistas e jornalistas. A sala de aula gelou. A sexta é a ruína da capacidade estatal: o negacionismo, a desprofissionalização da burocracia e a volta ao Mapa da Fome são exemplos traduzidos em mortes. Eclipse institucional é obra familiar.
A sétima foi o repertório de ilegalismos autoritários. Buscou desinstitucionalizar o que pôde, vencer instituições de controle pela ameaça e pela fadiga. Estimulou desrespeito a lei e assegurou leniência fiscalizatória.
A oitava foi a instrumentalização da fé. Converte disputa política numa guerra entre o bem e o mal, promove pânico moral e viola liberdade religiosa. Mas oferece contratos públicos, renúncia fiscal e perdão de dívidas a corporações eclesiásticas.
A nona é o desempenho econômico. As lições anteriores já impactam por si o potencial do PIB e do PIBB (Produto Interno da Brutalidade Brasileira), índices de correlação inversa. Procure saber.
A décima é a lição democrática. Se você duvida do golpe porque desconfia das provas do STF, leia as memórias do ex-comandante que disse não.
Um futuro melhor, hoje, começa pelo voto de redução de danos.

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