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quinta-feira, 16 de maio de 2024

Os Mercadores do Caos (os bolsonaristas) - Editorial Estadão

 _Opinião do Estadão, 16/05/2024

 Os  Mercadores  do  Caos

Bolsonaristas andam espalhando desinformação em meio à tragédia no RS porque, inimigos da democracia que são, a eles interessa minar a capacidade dos cidadãos de confiar uns nos outros.

_https://www.estadao.com.br/opiniao/os-mercadores-do-caos/_

O bolsonarismo não é uma força política normal. É uma força destrutiva, que só é capaz de prosperar num ambiente de conflagração permanente, desconfiança entre os cidadãos – e entre estes e as instituições – e negação da política como meio de concertação civilizada entre interesses sociais divergentes. Ter esse diagnóstico claro de antemão é fundamental para compreender como e por que bolsonaristas de quatro costados têm agido como mercadores do caos espalhando desinformação em meio à tragédia climática que arrasou o Rio Grande do Sul. Há uma agenda em jogo. E ela não poderia estar mais distante dos interesses nacionais, que dirá dos imperativos morais e humanitários que devem orientar a ação de governos e da sociedade neste momento de amparo aos gaúchos.

A difusão de mentiras e/ou distorções da realidade de forma coordenada entre os bolsonaristas, tal como ocorreu durante a pandemia, não provoca danos na escala dos causados pelas chuvas torrenciais no Estado, mas gera um efeito igualmente devastador: mina o esforço nacional para fazer chegar ajuda vital aos nossos concidadãos gaúchos. “A desinformação é o que mais tem prejudicado o nosso trabalho”, disse ao Estadão o comandante do Exército, general Tomás Paiva. “Ela impede a sinergia entre órgãos governamentais, que é fundamental para ações que são imprescindíveis nesse momento”, lamentou o militar, com toda razão.

A fim de enfraquecer a democracia que tanto desprezam – é disso que se trata –, figuras como os deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Gustavo Gayer (PL-GO), Paulo Bilynskyj (PL-SP), Nikolas Ferreira (PL-MG), Gilvan da Federal (PL-ES), General Girão (PL-RN) e Caroline de Toni (PL-SC), entre outros congressistas – além do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL) –, agem de forma livre e consciente para destruir os laços de solidariedade entre os brasileiros. As mentiras que disseminam da tribuna da Câmara e por meio das redes sociais, a pretexto de criticar supostas omissões do governo federal no enfrentamento da crise, não têm outro objetivo senão o de abalar a capacidade das pessoas de confiarem umas nas outras.

Esse imoral ataque à “verdade dos fatos”, na expressão consagrada por Hannah Arendt, tem como finalidade a instalação de um clima de confusão generalizada no País que seja tóxico o bastante a ponto de, no limite, fazer a democracia soçobrar diante da falta de seu insumo básico: a confiança entre as pessoas, sem a qual não é possível estabelecer consensos mínimos, principalmente o reconhecimento de que adversários políticos, ora vejam, também possuem uma dimensão humana e têm legitimidade para tomar parte no debate público. Sob esse consenso devem permanecer todas as eventuais divergências político-ideológicas que possa haver entre os cidadãos.

Ironicamente, foi esse pacto civilizatório que levou quase toda a chamada classe política a interromper a campanha eleitoral de 2018 a partir do dia 6 de setembro daquele ano, quando o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro sofreu um atentado a faca. Ali ficou claro que a política não é um vale-tudo. Mas, ao que parece, os bolsonaristas ignoraram a lição, pois agora não emitem o mais tênue sinal de constrangimento ao explorar o terrível drama dos gaúchos para auferir, eles mesmos, ganhos político-eleitorais.

Os bolsonaristas têm o direito de criticar o governo federal. Como oposição, estranho seria se não o fizessem. Os bolsonaristas têm até o direito de serem injustos com o presidente Lula da Silva, afirmando que o petista nada tem feito para aliviar o sofrimento dos gaúchos – o que não é verdade. Mas não é de críticas que se está tratando. É de uma desumanização que extrapola as lides políticas entre “direita” e “esquerda”, “conservadores” e “progressistas”. E esse processo há de ser interrompido, a bem do País, não só do Rio Grande do Sul, com mais informações de qualidade e, principalmente, com os genuínos democratas se unindo em defesa da boa política como a expressão mais iluminada da democracia.

https://www.estadao.com.br/opiniao/os-mercadores-do-caos/

domingo, 5 de setembro de 2021

Celso Rocha de Barros acha que já teve golpe (FSP)

 Tem o “Se” na frente, mas não concordo com tudo, pois mais importante que golpe, putsch, quartelada, é o que se há de fazer DEPOIS.

Um artigo meio exagerado sobre as possibilidades de golpe, pois parte do pressuposto de que “as FFAA” — que são tomadas como se fossem um monobloco — já aderiram ao projeto do capitão, que tem sim a intenção de provocar um golpe, via confusão, o que está longe de conformar um início de governo golpista. Os bolsonaristas radicais podem causar confusão nas ruas, mas não têm a mais mínima condição de formar um governo aceitável pela população. Não se governa com baionetas, já disse alguém, nem elas estarão todas ensarilhadas para servir a um psicopata perverso.

Paulo Roberto de Almeida


Se um protesto grande no 7 de Setembro basta para convencer os militares, então já teve golpe

Atos bolsonaristas foram convocados do centro do poder para destruir os limites que a democracia lhe impõe

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Folha de S. Paulo, 5/09/2021

Nesta terça-feira (7) os golpistas de Bolsonaro farão uma manifestação para tentar convencer os quartéis de que um golpe seria popular.

É quase impossível que as manifestações não encham. É, de longe, a manifestação fascista que passou mais tempo sendo planejada. Prefeitos bolsonaristas, pastores bolsonaristas, líderes bolsonaristas do agronegócio, todos estão trabalhando pela manifestação fascista com muito mais empenho do que nos Ustrapaloozas anteriores.

A contabilidade do bolsonarismo é sempre clandestina e ilegal, mas não há dúvida de que será uma manifestação cara.

Não será, nem de longe, uma manifestação como as outras, um análogo das Diretas Já, das marchas dos sem-terra, da Marcha para Zumbi, dos protestos de 2013, dos atos pró-impeachment de 2016, dos protestos recentes contra Bolsonaro.


Todas essas foram manifestações típicas de regime democrático, convocadas para protestar contra o centro do poder ou para apresentar-lhe reivindicações.

A passeata desta terça foi convocada do centro do poder para destruir os limites que a democracia lhe impõe.

Sempre pode haver militantes violentos em manifestações democráticas. Mas há uma diferença radical entre um maluco com um coquetel molotov feito em casa e o presidente da República convocando as Forças Armadas e os policiais à deserção, pedindo-lhes que usem as armas do Estado brasileiro em favor de um dos lados da disputa política.

Por isso é ridículo analisar as ações do Supremo Tribunal Federal contra os extremistas como repressão à liberdade de expressão. A prisão de Roberto Jefferson não é o Estado reprimindo um indivíduo, é a Suprema Corte se defendendo, e defendendo a democracia brasileira, de uma tentativa de destruição pelo Palácio do Planalto.

Roberto Jefferson não é a parte mais fraca diante do poder. Joga como vanguarda de uma conspiração armada que envolve os mais altos escalões do Poder Executivo e começa pelo presidente da República.

Se você é analista político e diz que não compreende essa diferença, eu até gostaria de mudar sua opinião, mas estou meio sem grana.

Vai dar certo? É difícil dizer, pois não está claro se as Forças Armadas teriam que ser convencidas pelas massas a dar um golpe (nesse caso, não vai ter golpe) ou se só querem uma desculpa vagabunda qualquer para fazê-lo (nesse caso, vai).

Os militares sabem ler pesquisa de opinião. Sabem que mesmo uma manifestação enorme não adianta muita coisa se não estiver em sintonia com o que a maioria da população pensa. A grande maioria dos brasileiros acha o governo Bolsonaro uma porcaria.

A passeata não vai fazer a comida, a gasolina ou a energia elétrica ficarem mais baratas, não vai ressuscitar as centenas de milhares de mortos da pandemia, não vai fazer as commodities subirem de novo pra gente ver se dessa vez o Guedes aproveita.

Os problemas e os escândalos que destruíram a popularidade de Bolsonaro ainda existirão no dia seguinte. E, ao contrário de 1964, os militares já são vidraça.

Nesta terça haverá um festival de reacionarismo e de tudo que faz do Brasil um país atrasado, mas, como argumento para justificar golpe de Estado, mesmo uma manifestação grande será uma desculpa bem vagabunda. Se isso for suficiente para convencer as Forças Armadas, então já teve golpe.





quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Radicalização cresce no Telegram e grupos bolsonaristas pedem até ‘contragolpe’ no STF (Estadão)

 Parece que o “golpe” está sendo furiosamente preparado pelos malucos bolsonaristas. O xerife Xandão vai ter de entrar em ação antes do fatídico 7 de setembro do bicentenário. Leiam esta longa reportagem do Estadão.

Paulo Roberto de Almeida

Radicalização cresce no Telegram e grupos bolsonaristas pedem até ‘contragolpe’ no STF

Estudo revela troca de mensagens com desinformação sobre a covid-19 e existência de um suposto complô para fraudar a eleição, além de estratégias para escapar de monitoramento na plataforma

Redação, Estadão, 17 de agosto de 2022 | 12h26


A radicalização nos grupos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) no Telegram aumenta na medida em que a eleição se aproxima. Usuários do aplicativo de troca de mensagens chegam a pedir um “contragolpe” das Forças Armadas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), além de adotar estratégias para escapar da moderação e do monitoramento de conteúdos na plataforma.

O relatório Democracia Digital, elaborado por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mostra a intensificação dos ataques à Corte desde junho, quando se tornaram mais frequentes as convocações para os atos de 7 de Setembro. Bolsonaro tem chamado reiteradamente apoiadores a participar das manifestações.

Logo do Telegram aparece em cima de teclado e à frente de tela escura que exibe códigos binários na cor verde

No Telegram, o Estadão detectou mensagens em grupos bolsonaristas que estimulam apoiadores do presidente a irem às ruas com faixas nas quais defendam a convocação das Forças Armadas para a elaboração de uma nova Constituição que criminalize o comunismo. Foto: Dado Ruvic/Reuters

No ano passado, o feriado da Independência ficou marcado pelo discurso inflamado do presidente contra ministros do Supremo, em São Paulo. Em junho deste ano, os pedidos de apoio ao voto impresso – principal pauta dos protestos de 2021 –, diminuíram significativamente para dar lugar a discursos de incitação a um golpe de Estado.

“Percebe-se um forte esforço para fomentar a percepção de ameaça e de vitimização, que justifica a necessidade de ação imediata”, diz o relatório Democracia Digital. O presidente é um defensor do voto impresso e, mesmo sem apresentar provas, põe sob suspeita o sistema de votação eletrônica, ao afirmar que as urnas são passíveis de fraude. Bolsonaro tem se recusado, ainda, a dizer se reconhecerá o resultado do pleito, caso seja derrotado.

Print de conversa do Telegram detectado pelo Estadão. Ministro Alexandre de Moraes é constantemente menciona em grupos. Foto: Reprodução

O levantamento analisou conteúdos publicados entre o primeiro dia de janeiro e o último de junho deste ano. Foram mais de 6,4 milhões de mensagens coletadas em 156 grupos – onde é possível discutir assuntos entre usuários – e 479 canais do Telegram – que funcionam como listas de transmissão. Foram capturadas, ainda, 641 mil imagens no aplicativo. Segundo pesquisa Mobile Time/Opinion Box de fevereiro deste ano, o Telegram está instalado em 60% dos smartphones no Brasil. Em junho, se tornou o 4º aplicativo mais popular do Brasil em presença na homescreen (tela inicial do dispositivo).

Os pesquisadores desenvolveram um filtro para mensagens de texto com menção a termos específicos. Das 112.636 mensagens publicadas nesse formato em 145 grupos e 349 canais analisados, destacam-se desinformação sobre a covid-19 e a existência de um suposto complô para fraudar a eleição e impedir a vitória de Bolsonaro.

“O número de mensagens que estão aparecendo sobre o 7 de Setembro desde o início deste ano é muito maior do que no ano passado”, diz Leonardo Nascimento, um dos coordenadores da pesquisa, produzida em parceria com Letícia Maria Cesarino e Paulo Fonseca.

Convocação

No Telegram, o Estadão detectou mensagens em grupos bolsonaristas que estimulam apoiadores do presidente a irem às ruas com faixas nas quais defendam a convocação das Forças Armadas para a elaboração de uma nova Constituição que criminalize o comunismo. Uma delas pede a destituição dos ministros do STF, com exceção de Kássio Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro.

As mensagens de convocação justificam que o Exército precisa executar um “contragolpe” para impedir que o PT e o Supremo deem um golpe de Estado por meio de uma fraude eleitoral. Hoje, Luiz Inácio Lula da Silva, petista e ex-presidente, lidera as pesquisas de intenções de voto na corrida pelo Palácio do Planalto.

Print de conversa do Telegram detectado pelo Estadão. Grupos bolsonaristas afirmam que o STF já deu um golpe. Foto: Reprodução

Uma das mensagens afirma, ainda, que o País estaria em marcha para um “golpe nas eleições”. “É isso mesmo? Será que ninguém percebe que um Poder há muito tempo já arregaçou com a nossa Constituição e não está nem aí com as quatros linhas?”, questiona, em referência à expressão futebolística usada por Bolsonaro de que ele atua dentro das regras constitucionais. “(O dia) 7 de Setembro será nossa última chance”, diz o texto.

A professora de Comunicação, Mídia e Democracia da Universidade de Glasgow Patrícia Rossini diz que grupos políticos muito ativos e radicalizados seguem a lógica de transmissão do conteúdo para outros círculos, a fim de furar as bolhas do mundo digital. “São mensagens fortes e preocupantes do ponto de vista do ataque à democracia que podem chegar a grupos de família, amigos de confiança, que a maioria dos brasileiros está em pelo menos um”, afirma.

Estratégias

Em março deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, chegou a determinar a suspensão “completa e integral” do aplicativo de troca de mensagens russo, por descumprimento de medidas judiciais anteriores, que exigiam ações como o bloqueio de perfis ligados ao blogueiro bolsonarista Allan do Santos. Após a plataforma cumprir as medidas que haviam sido ordenadas, Moraes revogou a suspensão.

O aplicativo firmou um memorando de entendimento com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em abril. Das medidas tomadas para conter a disseminação de notícias falsas, o Telegram passou a monitorar diária e manualmente os cem canais mais populares do Brasil. Segundo a empresa, eles são responsáveis por 95% de todas as visualizações de mensagens públicas do aplicativo no País.

No entanto, para driblar a moderação, há grupos que cifram as mensagens, mostra o relatório. O “supergrupo B-38 oficial”, um dos principais aglomerados de apoiadores de Bolsonaro no Telegram, já foi suspenso em maio deste ano até que moderadores removessem um conteúdo ilegal. Desde que retomou as atividades no dia seguinte, usa um recurso automático de remoção das mensagens após 24 horas.

O estudo detectou também que há grupos que mudaram de nome mais de uma vez, realizaram eventos de apagamento de milhares de mensagens e restringiram o acesso, tornando-os privados e apenas possível de acessá-los por convite.

Outra ação adotada foi o uso de substituição de palavras-chave por códigos. Em vez de escrever STF, urnas eletrônicas ou até nomes de ministros com letras do alfabeto latino, usuários optam por mudar o S por $ e o A por 4, por exemplo. Com isso, os conteúdos ficam mais difíceis de serem encontrados em buscas ou por moderadores da plataforma. O mesmo recurso é usado por usuários do YouTube – site de exibição de vídeos – para fugir da moderação automática de conteúdo.

Recirculação

O YouTube lidera, em termos de links, os endereços divulgados no Telegram para redirecionar a outro conteúdo. Foram mais de 530 mil links gerados que levaram à rede.

Para Leonardo Nascimento, da UFBA, essa recirculação mostra que o desafio imposto pela desinformação é multiplataforma. “O problema não é o Telegram, mas o ecossistema de desinformação”, disse.

“Esforços individuais de plataformas específicas não vão resolver o problema da desinformação. É preciso esforços multiplataformas, com especialistas do governo e da academia analisando e, se possível, de maneira transnacional.”

O analista de dados do Rooted in Trust Brazil e pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) João Guilherme dos Santos vê facilidades na distribuição de desinformação quando o Telegram atua com o WhatsApp ou replica conteúdos do YouTube. “É muito importante entender o Telegram não como algo isolado, mas como uma peça, uma engrenagem dentro de uma arma”, diz.

Procurado, o Telegram não respondeu até a publicação desta reportagem. /Levy Teles e Gustavo Queiroz

Tudo o que sabemos sobre: TelegramEleições 2022fake newsgolpe militardemocraciaJair Bolsonaro”


Finalizo (PRA):

Parece que o Brasil está prestes a cair sob o comunismo, mas uma tropa de abnegados seguidores do capitão vai salvar o país desta desgraça. 

Retifico minha avaliação: não é mais apenas um fenômeno, mas tampouco é um movimento, no sentido clássico da palavra. Trata-se de uma loucura generalizada entre os mais extremados adoradores do “mito”, disseminada de forma errática em difeentes plataformas — com destaque para o Telegram - e que deveria culminar nessa catarse coletiva do 7/09.

Aux armes, citoyens, literalmente e para ambos os lados…

Paulo Roberto de Almeida

domingo, 21 de março de 2021

Estereótipos bolsonaristas - Sergio Sayeg (um iconoclasta)

Um crítico contundente da atual "gestão", como acontece de acontecer nessa classe de humoristas profissionais.

Paulo Roberto de Almeida 

quinta-feira, 18 de março de 2021

ESTEREÓTIPOS BOLSONARISTAS

 

A gestão de Bolsonaro, a despeito de sua nocividade às ciências, às artes, à cultura, à educação, ao meio-ambiente e de levar o Brasil a tornar-se o epicentro mundial da pandemia, conserva um respeitável grupo de apoiadores, em torno de 30% da população. 

Mas de quem estamos falando? É costume referir-se ao apoiador de Bolsonaro como se fosse uma entidade homogênea, apelidado genericamente de ‘GADO’. Ledo engano. Uma atenta abordagem sociológica revela que esse personagem tem perfil bastante diversificado.

Elencamos 12 categorias em que ele pode se classificar. Se você é bolsonarista, certamente vai se identificar com um dos estereótipos abaixo.

1)    MISERÁVEL: Tem simpatia por quem lhe deu o ‘auxílio emergencial’ que podia ser o ‘bolsa-família’ ou qualquer quantia minguada que lhe possibilitasse comer a refeição do dia. Agradece ao ‘benfeitor’ Bolsonaro, que podia ser Lula, Ciro ou Lampião. Não tem a menor noção das injunções políticas, econômicas e sanitárias que resultaram na graninha que permitiu complementar sua escassa renda mas é muito grato por ela. Não tem acesso a informações, (sobre)vive alheio ao mundo que o cerca. Representa uma fatia importante da base de apoio ao presidente pois é um contingente expressivo da população deste país, miserável como ele. Não pode ser responsabilizado por sua opção pois, como miserável, não teve opção.

2)    MOTOBOY: Morador da periferia das grandes cidades, ganha por entrega. Alguns têm consciência social e percebem que são explorados até a alma pelas firmas de delivery, mas são minoria. Prevalecem os bolsonaristas. Não têm sentimento de classe e competem entre si. Ficam irritados com o governador e o prefeito por decretarem medidas de restrição, melando os pancadões de fim de semana. Machistas, acham as mulheres safadas. Não estão nem aí com o coronavírus. No trabalho, ignoram as regras de trânsito e aplaudem as medidas de Bolsonaro para aliviar os infratores.

3)    CRÉDULA: Também chamada de CRENTE, predominantemente mulher e evangélica.  É crédula não apenas em relação às pregações que recebe nos cultos mas também quanto à figura mítica de Bolsonaro, que acredita ser provido de uma aura celestial, enviado por Deus com uma metralhadora israelense em punho, com a missão divina de exterminar os comunistas ateus. A ministra Damares é sua porta-voz no primeiro escalão.

4)    SIMPLÓRIO: outra categoria das camadas mais pobres que apoia Bolsonaro. Prestigia artistas midiáticos (quase todos bolsonaristas) e programas de auditório especialmente as pegadinhas onde vibra com as humilhações vexatórias a que pessoas de sua condição social (a quem paradoxalmente despreza) são submetidas. Delira quando o presidente aparece com chinelo e camiseta de time de futebol falando palavrões como se estivesse num botequim: “um homem do povo” que corajosamente passa por cima dos especialistas e recomenda cloroquina, a droga milagrosa.

5)    ALIENADO: Embora com perfil semelhante ao do SIMPLÓRIO, distingue-se por sua melhor condição social. Detesta jornais, livros e ciências humanas. Suas ilações sobre a sociedade têm a profundidade de um pires. Facilmente cooptado pelas redes sociais, é um contumaz difusor de fake-news. Acredita que a terra é plana e que o nazismo foi um movimento esquerdista, porque seu cunhado escreveu no whatsapp.

6)    PIT BOY: De classe mais alta, cultua o corpo, só assiste filmes de ação politicamente incorretos, pratica artes marciais e gosta de arrumar confusão em bares por não usar máscara. Os exemplares do sexo feminino (PIT GIRLS), alternam suas tardes entre cabeleireiro, shopping e academia. Abominam o movimento feminista e adoram ser subjugadas pelo macho. 

7)    RURALISTA: Residente e líder político em cidades menores do Norte e do Centro-Oeste, regiões onde o Capitão é muito bem avaliado. É eternamente grato pelo governo por devastar as florestas, liberar todo tipo de agrotóxico cancerígeno e facilitar o acesso a armas para proteger suas propriedades e exterminar índios. De nada adianta explicar a esse troglodita sobre a importância do meio-ambiente. Só lhe interessa o preço da arroba do boi e da saca de soja no mercado de commodities. 

8)    EMPRESÁRIO: ao contrário do que ocorre na Europa, onde esse personagem urbano é dotado de responsabilidade social e ambiental, o equivalente brasileiro tem ideias retrógradas, e é, entre todos os tipos, o mais entusiasta na defesa de Bolsonaro (e Paulo Guedes). Promove manifestações contra o STF e carreatas em carros de luxo onde luta pelo direito do pobre de se amontoar no transporte público para não faltar ao emprego. É contra a corrupção no Parlamento mas compra produto falsificado no Xing Ling e não respeita vagas de cadeirantes.

9)    TIRA: Classe formada por delegados, policiais militares, seguranças particulares e profissões congêneres. Categoria que cresceu muito nos últimos anos em virtude do aumento dos efetivos, devido à expansão da violência urbana. Embora uma minoria seja estritamente cumpridora da lei e tenha apreço pelos valores da democracia, grande parte pede a volta da ditadura. Regozija-se em surrar pobres, pretos e homossexuais nas favelas.

10)           NOUVEAU RICHE: Grupo heterogêneo composto por jogadores de futebol, artistas populares, pastores charlatães, negociantes ilegais e políticos corruptos que têm em comum a característica de em pouco tempo terem adquirido muita grana e nenhuma cultura. Adoram esbanjar dinheiro em festanças onde exibem mansões, carrões de luxo e caríssimas roupas de grife. Tripudiam sobre os pobres que já foram um dia e dos quais querem distância. Congratulam-se com os filhos do presidente quando estes elogiam a ‘meritocracia’ que chancela sua ascensão social. 

11)           COXINHA: Foge do padrão geral, por serem mais instruídos, fizeram boas faculdades e acabaram se bandeando para a direita obscurantista por medo do comunismo. Dar carteirada no segurança do shopping ainda lhes dá a sensação de poder. Alguns mais sensatos se arrependeram de seu voto e chegaram à conclusão que colocar na presidência um ogro obtuso para combater o PT talvez não tenha sido a melhor saída. Mas não dão o braço a torcer. Entram em parafuso ao justificar a insanidade do dia cometida pelo presidente ou terem que explicar para o filho porque comprar um revólver é preferível a comprar um livro.

12)           NAZI: Embora não sejam muito numerosos, é o grupo que exerce maior influência sobre o presidente, principalmente através do filho 03, seu proeminente representante, também conhecido como Dudu Bananinha. São fãs de Trump e do escritor Olavo de Carvalho e emplacaram nomes de relevância no governo como Weintraub que mesmo defenestrado do ministério da Educação pelo Centrão continua a proferir diatribes contra a China, e o bizarro ministro Ernesto Araújo que considera as mudanças climáticas um complô marxista para dominar o Ocidente.


sábado, 30 de outubro de 2021

Tudo o que une petistas e bolsonaristas (e não só no Congresso): no discurso e na retórica também - Daniel Weterman e Thiago Faria (O Estado de S.Paulo)

Interesses corporativos unem PT e bolsonaristas no Congresso

Maior partido de oposição se alinha à base do presidente em votações de projetos que beneficiam classe política e enfraquecem órgãos de controle

Daniel Weterman e Thiago Faria, O Estado de S.Paulo 

30 de outubro de 2021 | 05h00 

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,interesses-corporativos-unem-pt-e-bolsonaristas-no-congresso,70003884675


BRASÍLIA — A votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que aumenta o poder do Congresso sobre o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), na semana passada, contou na Câmara com uma inusitada união entre o PT, maior partido da oposição, e aliados do presidente Jair Bolsonaro. Embora a proposta tenha sido rejeitada, não foi a primeira vez que os adversários se juntaram para apoiar medidas que beneficiam políticos e enfraquecem órgãos de controle. Levantamento da consultoria Inteligov, feito a pedido do Estadão, mostra que os petistas se alinharam ao líder do governo em uma a cada dez votações nominais, desde 2019. 

Houve um casamento de interesses, por exemplo, no projeto que afrouxou a Lei de Improbidade Administrativa, sancionado nesta semana por Bolsonaro. O texto aprovado foi o do relator, Carlos Zarattini (PT-SP), com apoio do líder do governo, Ricardo Barros (Progressistas-PR), nome do Centrão. Os 52 deputados do PT foram a favor da medida, que dificulta a punição de políticos ao exigir a comprovação de “dolo específico”, ou seja, a intenção de cometer irregularidade. 

O PT e o governo também se aliaram quando estavam em jogo interesses partidários. Foi assim nas votações do novo Código Eleitoral, que fragiliza a fiscalização das contas de partidos; da proposta que permitia a volta das coligações – barrada no Senado –; e da que retoma a propaganda das legendas no rádio e na TV. Nos três casos, o PT votou 100% fechado com a orientação do Planalto. 

O levantamento da Inteligov indica que esta situação ocorreu em 349 das 3.672 votações nominais realizadas na Câmara e no Senado desde que Bolsonaro tomou posse, em 2019. O cálculo leva em conta votações de projetos, PECs, medidas provisórias e requerimentos do Legislativo, como pedidos para retirar uma proposta da pauta. 

‘Sobrevivência’. Para o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper, há nessas alianças um instinto de sobrevivência da classe política. “No caso da PEC do CNMP e da Lei de Improbidade, há uma agenda de blindagem. O governo e o PT têm, hoje, claramente uma agenda contra esse tipo de medida, em que pese já terem ambos levantado a bandeira contra a corrupção.” 

“Todos estão olhando para o próprio umbigo e as bases eleitorais exigem recursos. Não há preocupação com a transparência”, disse o analista do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) Neuriberg Dias

Nos últimos anos, o Congresso aumentou as emendas parlamentares e passou a destinar recursos diretamente para Estados e municípios. Trata-se das chamadas “emendas cheque em branco”. O modelo foi criado a partir de uma PEC da presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), mas encontrou maior adesão na base do governo. Em 2021, sete em cada dez deputados que usaram essas emendas votaram com o governo em 70% das ocasiões, apontou a Inteligov.  

‘Política’. “Esses são temas da política, não se trata de oposição e situação. Na Lei de Improbidade, temos o abuso do MP sobre o julgamento de pessoas que, por questões apenas administrativas, são retiradas da vida política. Outra questão é a vida do povo, e aí o Bolsonaro está fora da democracia”, disse o líder do PT na Câmara, Bohn Gass (RS). 

Mesmo na pauta econômica, porém, houve convergências, como na reforma do Imposto de Renda. A bancada petista votou em peso para aprovar a medida, que, além de reduzir impostos de empresas, cria uma cobrança sobre lucros e dividendos. 

Pautas comuns

Emendas

Petistas e governistas votaram juntos no projeto que determinou a execução obrigatória de emendas parlamentares de bancada, ampliando o poder de deputados e senadores sobre o Orçamento. 

Improbidade administrativa

Também se alinharam na análise do projeto que afrouxou a Lei de Improbidade Administrativa, dificultando a punição a políticos. 

Coligações 

A proposta que previa a volta das coligações nas eleições para o Legislativo, prática proibida com o intuito de reduzir o número de legendas no País, uniu petistas e parlamentares governistas. 

Código Eleitoral

O novo Código Eleitoral, que prevê regras mais brandas para o uso de recursos públicos por partidos, reduz a fiscalização e tira poderes da Justiça Eleitoral, teve apoio tanto do PT quanto de parlamentares bolsonaristas. 

Ministério Público

Os adversários votaram juntos na proposta que mudava a composição do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e aumentava a influência do Congresso no órgão, responsável por fiscalizar a atuação de procuradores. 

Propaganda 

Projeto que retoma a propaganda gratuita de partidos políticos no rádio e na TV, suspensa em 2017 após a aprovação do Fundo Eleitoral, obteve votos de petistas e de parlamentares governistas.


domingo, 28 de abril de 2019

O desafio do movimento revolucionário-reacionário do olavismo-bolsonarismo - Augusto de Franco (Dagobah)

Um importante artigo, conceitual e de natureza tático-estratégica, sobre o movimento revolucionário-reacionário representado pelo olavismo-bolsonarismo. Ele não é tão desprovido de doutrina quanto parece: tem narrativa, tem estratégia, tem metas e objetivos, assim como métodos e ferramentas para alcançá-los, enfim representa um poderoso desafio ao caráter democrático (mas de baixíssima qualidade) de nosso sistema político. Ler, refletir e, portanto, levar a sério o movimento reacionário em curso. Não subestimem a capacidade dos atuais inimigos da democracia, ainda que eles sejam toscos, rústicos, intelectualmente medíocres e culturalmente paupérrimos, mas eles têm uma imensa sede de poder e nenhum escrúpulo.
Paulo Roberto de Almeida
Uberlândia, 28/04/2019

Está em curso, no Brasil, um movimento revolucionário (para trás) contra a democracia

Alguém tem de dizer o óbvio (que, frequentemente, não é percebido em toda sua crueza). Há em curso, no Brasil atual, um movimento revolucionário (para trás) contra a democracia. O próprio presidente, seus filhos, seu guru e seus sequazes alimentam, ostensiva ou ocultamente, esse movimento bolsonarista.
Isso não significa dizer que esse movimento vai prosperar, mas que há um movimento, há. Negar o que é evidente é sucumbir diante da ameaça. Para os democratas equivale a um suicídio político.
Vejamos agora as características desse movimento revolucionário (para trás) bolsonarista.
1 – Qual é a sua narrativa?
2 – Qual é a sua estratégia?
3 – Quem são os seus principais agentes?
4 – Como se configuraram as condições para que tal movimento vicejasse?
5 – Por que e como esse movimento ameaça a democracia?
6 – Qual deve ser a atitude dos democratas diante da revolução bolsonarista?
A NARRATIVA
A narrativa bolsonarista (na verdade, olavista) começou a ser formulada durante o processo de impeachment e foi estruturada e codificada durante a campanha eleitoral de 2018. O encadeamento da narrativa olavista-bolsonarista é tão simplório que acaba colando em mentes rudes e nas pessoas sem experiência política. Neste sentido, é uma boa narrativa do ponto de vista da propaganda. Ela pode ser resumida em 7 pontos (tal como formulada durante a campanha eleitoral):
1 – Os comunistas querem destruir a religião, a família, a nação, a pátria, enfim, a civilização ocidental cristã e seus valores (a ordem, a hierarquia, a disciplina, a obediência, o comando-e-controle, a fidelidade). Eles são o inimigo.
2 – Os comunistas dominaram o Brasil e ensejaram a corrupção. Os comunistas são corruptos e os corruptos são comunistas. Todos os políticos e os partidos da (falsa) democracia brasileira são comunistas-corruptos ou corruptos-comunistas. É tudo a mesma coisa.
3 – Só não vivemos numa ditadura comunista graças aos militares que fizeram a revolução redentora de 1964 (já na antessala da ditadura do proletariado que seria instalada pela esquerda). Houve uma guerra civil entre 1967 e 1977 que, felizmente, foi vencida pelos militares patriotas. Não houve ditadura militar: os militares fizeram uma intervenção saneadora atendendo ao clamor da maioria da população.
4 – Os comunistas assumiram o governo após o impeachment de Collor, colocaram no poder FHC (também comunista e corrupto) que, como um Kerenski brasileiro, preparou o caminho para a ascensão de Lula (outro comunista-corrupto). Neste período, a esquerda subsidiada, com o apoio da mídia comprada, satisfez os interesses da elite bilionária globalista e antinacional. Para tanto, desarmaram o povo, tentaram sexualizar e tirar a pureza de nossas crianças (induzindo-as para que elas sejam gays) e estimularam a bandidagem geral na sociedade (o objetivo principal dos comunistas-corruptos, não se pode esquecer, é destruir a civilização ocidental cristã).
5 – Os comunistas-corruptos continuaram organizados antes, durante e após o impeachment de Dilma. E querem voltar ao poder, seja por meio de alguém do PT, seja por meio dos demais candidatos do campo democrático, que são todos comunistas ou corruptos ou ligados à elite globalista: Álvaro, Alckmin, Amoedo, Marina ou Meirelles – todos são a mesma coisa. O único diferente, não-contaminado pela ideologia comunista ou globalista ou pela corrupção, o único verdadeiro patriota, é Bolsonaro.
6 – Eleger Bolsonaro em 2018 é a última chance de acabar com a patifaria dos políticos e botar ordem na casa. Só Bolsonaro pode fazer isso, evitando a volta dos esquerdistas. Do contrário os comunistas, globalistas e corruptos predominarão e acabaremos virando uma Venezuela ou coisa pior.
7 – Foram os mesmos comunistas e corruptos, a serviço das elites globalistas, os mandantes da facada contra Bolsonaro. Votar em Bolsonaro é votar contra os comunistas, globalistas e corruptos, que além de tudo são assassinos – tanto é assim que, diante do medo da vitória de Bolsonaro, não hesitaram em mandar esfaquear o único candidato honesto e patriota. São, aliás, os mesmos que estão planejando fraudar as eleições manipulando as urnas eletrônicas – único meio de impedir a vitória de Bolsonaro.
As respostas para tais alegações piradas já foram apresentadas no artigo A narrativa olavista-bolsonarista em 7 pontos.
Depois da campanha, com a vitória de Bolsonaro, a narrativa permaneceu basicamente a mesma, com pequenas adaptações e acréscimos:
8 – Toda a imprensa é comunista (é a “extrema-imprensa”) e ataca Bolsonaro, publica fake news para destruir seu governo, por ideologia e porque sabe que a fonte de recursos públicos vai secar.
9 – Articulação com partidos e parlamentares significa negociação espúria, velha política, troca de votos por cargos ou dinheiro.
10 – O Congresso ameaça não aprovar as reformas porque está querendo aprisionar Bolsonaro na sua dinâmica corrupta e enlameá-lo com a velha política do toma-lá-dá-cá.
11 – Os elementos do parlamento que se opõem a Bolsonaro devem ser denunciados, se possível perseguidos e processados pelos justiceiros lavajatistas (com o fim do foro privilegiado).
12 – O STF é a principal instituição que protege os comunistas-corruptos e, por isso, deve ser desmoralizado, neutralizado, reformado ou destruído.
A ESTRATÉGIA
Em primeiro lugar é preciso entender que o bolsonarismo é um populismo. A estratégia bolsonarista (quer dizer, olavista) só poderia ser uma estratégia populista, ainda que acentuadamente autoritária. O seu objetivo é tornar a nossa democracia menos liberal e, em seguida, pervertê-la de democracia eleitoral em autocracia eleitoral (ou seja, em um regime claramente i-liberal). O objetivo dos bolsonaristas nunca foi trocar de governo nos marcos da democracia realmente existente e sim operar uma mudança no regime político. Este é o propósito comum do populismo-autoritário que viceja em várias partes do mundo nesta segunda década do século 21.
Para tanto, tal como em outros países estão procedendo os populistas-autoritários, os bolsonaristas concorreram às eleições com o fito de eleger um líder capaz de estabelecer uma ligação direta com as massas, bypassando as mediações institucionais vigentes no Estado democrático de direito. A estratégia aposta na formação de uma vigorosa corrente de opinião pública capaz de reproduzir a narrativa bolsonarista (já exposta acima) e de dar apoio às mudanças que, gradualmente, serão capazes de alterar o DNA do regime democrático (transformando-o em uma democracia i-liberal e, em seguida, numa autocracia eleitoral).
Todavia, há um problema nessa estratégia. Esse processo gradual – de mudar progressivamente o regime (tornando-o i-liberal) a partir do governo, em vez de encetar um golpe de Estado em termos clássicos – leva tempo e seu caminhar é incerto diante da natural resistência das instituições democráticas (como o judiciário e a imprensa, por exemplo). Orban levou uma década para conseguir transformar a democracia eleitoral húngara em (quase uma) autocracia eleitoral. Erdogan levou também o mesmo tempo para dar uma guinada autoritária na Turquia (e ainda precisou inventar ou aproveitar um golpe fajuto ou fracassado). Na Polônia de Kaczynski e Duda e na Itália de Salvini e Di Maio, processos semelhantes que estão em curso vão igualmente demorar e não se sabe se e quando serão vitoriosos.
Ademais, as energias dispendidas para formar uma maioria ideologicamente alinhada – na sociedade e nas instituições – sem o que não se poderá alterar a natureza do regime, já que Bolsonaro e os demais bolsonaristas não têm, pelo menos inicialmente, o poder de desferir um golpe militar – prejudicam a governança, diminuindo a capacidade de governo. O governo, engalfinhado em disputas secundárias para a maioria da população, conquanto essenciais para coesionar uma legião de seguidores, não consegue dar respostas efetivas de curto prazo para problemas prementes (como baixo crescimento, desemprego e falta de boas políticas setoriais nas áreas de saúde, segurança, educação etc.). Dissipando forças em mil frentes de batalha, o governo tem dificuldade até mesmo de aprovar as reformas consabidamente necessárias (como a da Previdência, mas não só). E na medida em que não dá solução para os problemas reais, o governo tende a perder popularidade, elemento indispensável na estratégia do curto-circuito institucional promovido por um führer ou condutor de rebanhos.
Por último, essa estratégia exige algum tipo de intervenção nos tribunais superiores e nas liberdades de imprensa e de expressão em geral. Enquanto o judiciário estiver reformando medidas governamentais e a imprensa e as mídias sociais estiverem criticando essas medidas, torna-se dificílimo implementá-las. Esta é a razão pela qual populistas-autoritários como Orbán e Erdogan fizeram intervenções em suas supremas cortes e reduziram a liberdade de expressão em seus países.
Bolsonaro, no Brasil, atuando através de seus filhos e sequazes nas mídias sociais manipuladas, tenta diariamente jogar a população contra o Supremo Tribunal Federal e contra a imprensa. Mas isso é insuficiente para promover mudanças efetivas a seu favor nessas instituições do establishment.
Sem um fato extraordinário – uma mega-catástrofe, um atentado terrorista de grandes proporções, uma guerra com um país vizinho, uma tentativa de golpe de Estado (desferida pelo “inimigo interno”), um colapso institucional – a estratégia que prevê operar uma mudança de regime a partir do governo demora muito para ser implementada, mais do que a paciência da população é capaz de suportar.
Como a catástrofe é imponderável, atentados terroristas internos e guerras são improváveis, a única alternativa que resta é a provocação de uma crise seguida de colapso institucional, que dê motivos para a aprovação de leis autoritárias ou force a entrada em cena das forças armadas. É com isso, fundamentalmente, que os bolsonaristas contam.
Um governo democrático não precisa de altos índices de popularidade para continuar governando. Não cai só por isso, como vimos no caso de Michel Temer. Mas Temer não queria fazer revolução nenhuma, ao contrário do bolsonarismo. Um governo orientado por uma estratégia revolucionária (para trás) populista-autoritária – como é o bolsonarismo – precisa, sim, manter sua popularidade em altos níveis. Sem o mito e seu efeito mesmerizador de multidões, nada feito. Caso a popularidade de Bolsonaro continue caindo, a força política bolsonarista poderá partir para o desespero e não é despropositado supor que tentará forjar atentados (contra o presidente ou os seus filhos) ou cavar uma guerra (por exemplo, com a Venezuela). Tudo isso, todavia, é altamente arriscado, além de incerto. Resta, portanto, investir na crise institucional.
Desgraçadamente para o bolsonarismo, também é improvável que se consiga produzir uma crise institucional de alto impacto no Brasil que autorize e viabilize mudanças regressivas na Constituição Federal ou obrigue os militares a “pacificar” o país assumindo novamente o poder. Mas… eis o ponto! O investimento nessa saída autoritária, por si só, instalará no país uma guerra civil fria, acelerando a dilapidação do nosso capital social e enfreando o processo de democratização. Ou seja, em qualquer caso, mesmo no caso de fracasso político imediato, o revolucionarismo bolsonarista sairá vitorioso em termos sociais. Na pior hipótese, para o bolsonarismo, conseguirá reconfigurar o campo (ou deformar a rede) social, ensejando que nossa democracia fique menos liberal (como veremos mais adiante).
OS AGENTES
Os agentes principais da revolução (para trás) em curso no Brasil são o próprio presidente, seus filhos, seu guru e seus sequazes bolsonaristas (ou melhor, olavistas-bolsonaristas). Como em todo processo revolucionário, esses agentes se distribuem em diferentes níveis: dirigentes, formuladores, propagadores, apoiadores e simpatizantes (incluindo os famosos inocentes úteis). Quem são (excluído o próprio Jair Bolsonaro, que também é bolsonarista)?
01 – Carlos Bolsonaro
02 – Eduardo Bolsonaro
03 – Flávio Bolsonaro
04 – Olavo de Carvalho
05 – Abraham Weintraub
06 – Alexandre Borges
07 – Alexandre Garcia
08 – Allan dos Santos
09 – Ana Caroline Campagnolo
10 – Ana Paula
11 – Augusto Nunes
12 – Bene Barbosa
13 – Bernardo Küster
14 – Bia Kicis
15 – Bruno Garschagen
16 – Carla Zambelli
17 – Damares Alves (trata-se de uma fundamentalista-evangélica levada ao bolsonarismo pelas circunstâncias)
18 – Danilo Gentili
19 – Emilio Dalçoquio (empresário que puxou o locaute dos caminhoneiros)
20 – Ernesto Araújo
21 – Fabio Wajngarten
22 – Felipe Moura Brasil
23 – Flavio Morgenstern (Flávio Azambuja Martins)
24 – Flavio Rocha
25 – Filipe Martins
26 – Filipe Valerim (e a galera do Brasil Paralelo, que se esforça para não aparecer)
27 – Italo Lorenzon
28 – Joice Hasselmann
29 – José Carlos Sepúlveda
30 – Leandro Ruschel
31 – Luciano Hang (dono das Lojas Havan)
32 – Luiz Philippe de Orleans e Bragança
33 – Marcelo Reis
34 – Meyer Nigri
35 – Nando Moura
36 – Osmar Stábile (o cara que assumiu ter financiado o vídeo de falsificação histórica sobre o golpe de 1964 divulgado criminosamente pelo Planalto)
37 – Ricardo de Aquino Salles
38 – Roger Moreira (parecido com o Lobão, porém muito mais reacionário)
39 – Sebastião Bomfim (empresário)
A lista acima é apenas demonstrativa, não exaustiva. Faltam muitos agentes menos conhecidos. E nela não constam os nomes de milhares de militantes anônimos, as dezenas de milhares de pessoas-bot e as centenas de milhares de eleitores normais de Jair Bolsonaro (a maior parte dos quais nem é bolsonarista, mas apenas simpática a Bolsonaro) que, inadvertidamente, replicam as mensagens emitidas pelos chefes (os hubs da rede descentralizada bolsonarista), sobretudo aproveitando a possibilidade de broadcasting privado e de fluxo descendente em árvore no WhatsApp (a grande falta de proteção das mídias sociais contra a manipulação hierárquica que está permitindo a escalada do ataque à democracia no Brasil e em vários países).
E não estão incluídos na lista acima os militares que infestam o governo, alguns dos quais intervencionistas (e claramente antidemocratas) e os jacobinos-restauracionistas que compõem a “liga da justiça”, uma espécie de milícia legal (não prevista em nosso arcabouço constitucional) em que se transformou a Lava Jato: ambos aliados, explícitos ou tácitos, dos bolsonaristas.
Mas… atenção! É preciso dar nome aos bois. Se essas cerca de 40 pessoas, mencionadas na lista acima, pararem de emitir diretivas, se alguns desses hubs forem desativados (pela pressão social pacífica ou por outro meio legal), o bolsonarismo propriamente dito – no estágio organizativo em que atualmente se encontra – se desfaz.
AS CONDIÇÕES SUBJETIVAS E OBJETIVAS
O populismo-autoritário bolsonarista chega ao governo brasileiro num momento de recessão e desconsolidaçãodemocrática mundial com a ascensão de populismos de direita ou de esquerda.
Já se sabe que hoje, no mundo e no Brasil, os principais adversários das democracias realmente existentes – sobretudo das democracias liberais – não são mais os fascistas ou os comunistas e sim os populistas (sejam ditos “de direita” ou de “esquerda”) que usam a democracia contra a democracia para torná-la menos liberal e mais majoritarista.
O populismo, seja na suas versões de esquerda, neopopulistas, seja nas suas versões autoritárias de extrema-direita, contribuiu para invalidar as ideias liberais como as seguintes:
i) que é normal que a sociedade esteja dividida entre muitas — e às vezes transversais — clivagens,
ii) que a melhor maneira de lidar com essas clivagens é por meio de um debate aberto e livre, sob uma cultura política que valoriza a moderação e busca o consenso, e
iii) que o Estado de direito e os direitos de minorias precisam ser respeitados.
Ao contrário, os populismos reforçaram ideias avessas à democracia, como as de que:
i) a sociedade está dividida por uma única clivagem, separando a vasta maioria (o povo) do “establishment” (as elites),
ii) a polarização (elites x povo) deve ser encorajada e os representantes do povo (que seriam os atores legítimos ou mais legítimos) não devem fazer acordos (a não ser táticos) ou construir consensos (idem) com os representantes das elites (posto que estes são ilegítimos ou menos legítimos) e sim buscar sempre suplantá-los, fazendo maioria em todo lugar (majoritarismo),
iii) minorias políticas (antipopulares) não devem ser toleradas (e devem ser deslegitimadas) quando impedem a realização das políticas populares e a legalidade institucional (erigida para servir às elites) não deve ser respeitada quando se contrapõe aos interesses do povo.
É o caso, à direita, de Orbán (na Hungria), mas também os de Putin (na Rússia) e Recep Erdogan (na Turquia) – que já viraram ditaduras; e também o de Jaroslaw e Lech Kaczynski e  Andrzej Duda (na Polônia), de Matteo Salvini (na Itália), de Le Pen (na França), de Geert Wilder (na Holanda), de Hans-Christian Strache (na Áustria), de Jörg Meuthen e Alexander Gauland (na Alemanha) e, na Asia, de Rodrigo Duterte (das Filipinas); além, é claro, de Donald Trump (nos USA) e dos líderes do Brexit (como Boris Johnson e Nigel Farage, na Inglaterra) e agora, na América Latina, de Jair Bolsonaro (no Brasil) – que se transformaram nas principais ameaças à democracia liberal no plano global. Todos estes representam, com suas especificidades, forças políticas populistas-autoritárias.
E é o caso, à esquerda, de Hugo Chávez e Nicolás Maduro (na Venezuela) e de Daniel Ortega (na Nicarágua) – que também já viraram ditaduras; mas ainda de Evo Morales (na Bolívia), de Rafael Correa (no Equador), assim como foi o de Mauricio Funes (em El Salvador), o de Manuel Zelaya (em Honduras), o de Fernando Lugo (no Paraguai), o de Néstor e Cristina Kirchner (na Argentina) e o de Lula e Dilma (no Brasil). E todos estes representam, com suas especificidades, forças políticas neopopulistas (nas diversas variantes, hard ou soft, do que ficou conhecido como bolivarianismo).
É importante notar que, para todos esses populistas – sejam considerados de direita ou de esquerda -, o principal inimigo é a democracia liberal. Ou seja, todos os populistas pervertem a democracia como uma continuação da guerra por outros meios, mas não propriamente para se engalfinhar em processos de destruição mútua (direita x esquerda) e sim para neutralizar, desativar ou destruir as forças políticas democráticas.
Diga-se o que se quiser dizer, o PT é o principal responsável por Bolsonaro ter sido eleito. O lulopetismo gerou o bolsonarismo. Um populismo engendrou outro populismo (de sinal trocado), afastando os democratas – os verdadeiros inimigos de ambos – da cena pública. Mas dizer que o PT é o principal responsável pela eleição de Bolsonaro não é dizer que ele é o único responsável e sim, apenas, como está escrito, que é o principal. Em segundo lugar vem o PSDB, que se recusou a fazer oposição para valer durante mais de uma década e se descredenciou aos olhos da população revoltada com os abusos lulopetistas.
Os abusos lulopetistas provocaram uma reação em cadeia da população, sobretudo nos setores sociais que não participavam da política, não tinham – e não têm – a menor noção de democracia e viraram agentes, em grande parte inconscientes, da escalada autoritária em curso.
Mas não é possível negar que sem o lajatismo militante, Bolsonaro jamais teria vencido a eleição. Como já foi dito em outro artigo, o lavajatismo militante, quer dizer, a instrumentalização política da operação Lava Jato, levou Bolsonaro ao governo. Há uma evidência incontrastável. O apoio popular ao combate à corrupção virou campanha política: mais de 90% de todos os grupos que se formaram para apoiar a Lava Jato e endeusar Moro e Deltan (como as tais “Repúblicas de Curitiba”) viraram comitês eleitorais de Bolsonaro. Vencida a eleição, o lavajatismo original foi entronizado no governo, via Sérgio Moro, para se transformar em bolsolavajatismo oficial.
A NATUREZA DA AMEAÇA
É difícil compreender a natureza da ameaça bolsonarista. Não é um movimento político tradicional. Não é um partido (o PSL foi apenas a sigla comprada por Bolsonaro para poder concorrer). Apesar das semelhanças com o lulopetismo – justas na medida em que ambos são populistas e pretendem, inicialmente por vias legais, eleitorais, alterar o DNA da democracia – o bolsonarismo é muito diferente do PT e tem características inéditas no Brasil.
O PT já era um partido consolidado e sua estratégia visava conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido com o fito de nunca mais sair do governo. Essa estratégia neopopulista preconizava ganhar eleições sucessivamente até poder conquistar as instituições por dentro, privatizando-as partidariamente para colocá-las a serviço do seu projeto. Poderia até dar certo, mas não deu por várias razões que não cabem neste artigo. Pode-se dizer aqui apenas que se não tivesse sido interrompido pelo impeachment e se Dilma tivesse se comportado de maneira mais razoável, é bem provável que, dispondo de mais 4 anos, o PT conseguisse alcançar seu intento. O Brasil seria transformado em uma democracia formal, menos liberal, parasitada por uma força política manipuladora, com discurso socialista e comportamento bolivariano, porém à brasileira. O Brasil petista dificilmente seria uma Venezuela (onde o projeto neopopulista descambou para o vale-tudo da narco-ditadura e gerou uma crise política e social de grandes proporções e um desastre humanitário) e se consolidaria como um regime autoritário de facto, porém não reacionário no que tange aos costumes e aos direitos humanos.
Ou seja, bolsonarismo e lulopetismo são, ambos, ameaças à democracia, mas não a mesma ameaça.
Como já foi dito, o bolsonarismo ensejou a irrupção repentina de matrizes da cultura patriarcal – preconceituosa, intolerante, excludente, deslegitimadora do outro, do diferente, do divergente, não valorizadora do diálogo, do entendimento e da negociação e avessa aos direitos humanos – que sempre esteve no fundo do poço da consciência (ou inconsciência) da maioria da nossa população (ainda que em termos de convicções privadas).
O bolsonarismo se transformou, assim, num desaguadouro dessas matrizes de pensamento e comportamento mais incompatíveis com a democracia que repousam no baixo ventre da história (desde que existe Estado). A democracia surgiu precisamente como uma brecha nesse tipo de cultura patriarcal, hierárquica e guerreira. Só a democracia pode domesticar esse monstro que se esconde nos subterrâneos da cultura predominante no que chamam de civilização (que ainda é a civilização patriarcal).
Sim, o papel da democracia, como modo de administração política do Estado, é domar (ou drogar) o Leviatã (com a fórmula do Estado democrático de direito, capaz de conter, em parte, a fome pantagruélica, a belicosidade e a ferocidade do Estado-nação – um fruto da guerra, da paz de Westfália). Mas o papel da democracia como modo de vida é modificar, pelo processo interativo de fermentação de opiniões, inerente à formação da opinião pública, esses elementos desumanizantes da cultura patriarcal, impedindo que eles irrompam em estado puro na cena pública e acabem definindo o rumo das sociedades. Toda vez que isso acontece, não pode haver democracia. Ora, como já mostrou Ralf Dahrendorf, não há democracia sem democratas. Como há um deficit de democratas atuando na cena pública brasileira, as portas do inferno se abriram e multidões de zumbis levantaram de suas tumbas.
De um ponto de vista político, pode-se dizer que o lulopetismo era (e talvez ainda seja, conquanto improvável) mais perigoso do que o bolsonarismo na medida em que tinha (e talvez ainda tenha) força política organizada, enraizamento social, agentes infiltrados em todos os escaninhos do Estado, narrativa ideológica estruturada, apoio internacional e recursos de monta e de toda ordem. Mas o bolsonarismo, de um ponto de vista cultural (quer dizer, social), é a invasão dos bárbaros: a subida da lama que está depositada, camada sobre camada, no fundo do poço da cultura patriarcal.
A ameaça bolsonarista é mais perigosa do ponto de vista social do que político. É uma revivescência patriarcal, antissocial (no sentido em que Maturana emprega o termo). Todavia, se essa ameaça social se transformar em força política, triplicando (ou mesmo apenas dobrando) o número de seus agentes, aí sim poderemos ter um colapso do regime democrático.
De qualquer modo, mesmo que não consiga se expandir em termos políticos, o bolsonarismo já causou uma deformação social irreparável no curto prazo. Seja qual for o desfecho do projeto bolsonarista, nossa democracia já está ficando menos liberal diante da sua simples presença na cena pública.
A ATITUDE DOS DEMOCRATAS
A atitude dos democratas diante da ameaça que está posta só pode ser uma: a combinação de oposição formal, de caráter partidário-parlamentar, nas instituições, sobretudo no Congresso e a resistência democrática na sociedade. Não se trata de escolher uma ou outra: as duas coisas – oposição e resistência – são necessárias.  Este tema já foi tratado no artigo Como resistir ao avanço de ideias e práticas autoritárias na sociedade brasileira.
Apesar dos alertas insensatos de alguns analistas e jornalistas políticos pollyannas, está havendo, sim, resistência democrática no Brasil. Felizmente, instituições do Estado e da sociedade estão resistindo ao avanço do bolsonarismo (e isso nada tem a ver com a tal resistência “democrática” anunciada pelo PT). Se tivéssemos dado ouvidos aos metidos a bem-pensantes, racionais e moderados, a revolução para trás dos malucos olavistas estaria correndo solta. Não está, pelo menos por enquanto. Graças à (verdadeira) resistência democrática.
Os jornalistas e analistas pollyannas dificultaram bastante a compreensão do fenômeno ao propagarem ideias erradas sobre (o caráter de) Bolsonaro e (a natureza) do bolsonarismo. Não entenderam bem qual é a ameaça à democracia que está em curso. Seguem abaixo alguns exemplos de avaliações erradas cometidas por muitos considerados bem-pensantes:
Bolsonaro é conservadorErrado. É reacionário.
Olavo é conservadorErrado. É retrogradador.
O bolsonarismo é de direitaErrado. É de extrema-direita.
Guedes é liberalErrado. É apenas um liberal-econômico, mas nunca foi um liberal político.
Bolsonaro é liberalErrado. É nacionalista, quer dizer, estatista.
Bolsonaro em campanha foi uma coisa, no governo será outraErrado. Ele continua em campanha há mais de 80 dias no governo.
Bolsonaro é contra a velha políticaErrado. Como parlamentar ele sempre fez a velha política corporativa durante 30 anos e, no governo, está se mostrando contra a política.
O establishment vai domesticar BolsonaroErrado. O bolsonarismo é anti-establishment e Bolsonaro é bolsonarista.
Guedes e os Generais vão controlar Bolsonaro e afastá-lo da influência dos seus filhosErrado. Erigiu-se uma familiocracia impenetrável e ela é bolsonarista.
Depois de um período inicial de adaptação Bolsonaro vai acabar aprendendo o que é ser presidenteErrado. Bolsonaro não é uma entidade capaz de aprender.
Agora chegou a hora de rever tais avaliações equivocadas. Há um movimento antidemocrático no Brasil, como nunca houve na história – nem mesmo durante a ditadura militar. Esse movimento tem base social e fôlego para durar por muito tempo, independentemente do destino de seu líder Jair Bolsonaro. Somente a oposição formal – necessária e comum em qualquer democracia – não é suficiente para barrar o avanço das ideias e práticas autoritárias na sociedade. É necessário resistir pacificamente a essa escalada autoritária, em todo lugar e por todos os meios legais disponíveis.

Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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