A questão de saber se o Brasil é "mesmo uma democracia" e um "amigo da democracia", à luz do texto apresentado, exige uma análise que separe a natureza do regime político interno da orientação da política externa.
Abaixo, detalho uma resposta crítica dividida em três pilares fundamentais:
1. A Natureza da Democracia Brasileira (Interna vs. Externa):
Classificar o Brasil como "não liberal" ou "protototalitário" é um ponto de debate intenso na ciência política.
- Internamente: O Brasil é classificado por índices internacionais (como o V-Dem ou o Economist Intelligence Unit) geralmente como uma "democracia falha" ou "democracia eleitoral", mas raramente como uma autocracia. Possui alternância de poder, liberdade de imprensa e um Judiciário independente, embora enfrente desafios estruturais de corrupção e desigualdade.
- Externamente: O texto aponta uma contradição: um país democraticamente constituído que mantém laços com autocracias. Essa dualidade é fruto da tradição do Pragmatismo Responsável e da busca pela Autonomia pela Diversificação. Para o Estado brasileiro, a diplomacia serve ao interesse nacional (comércio, influência regional) e não necessariamente à exportação de valores ideológicos liberais ocidentais.
2. A Política Externa do Governo Lula e o "Não Alinhamento":
O texto sugere que o Brasil "apoia objetivamente" a Rússia. Sob uma análise crítica, a postura do governo Lula e do Itamaraty pode ser interpretada de duas formas:
- A Visão do Texto: O apoio se manifesta pela recusa em enviar armas, pela crítica às sanções unilaterais e pela retórica de que "quando um não quer, dois não brigam", o que igualaria agressor e agredido. Isso seria evidência de uma afinidade ideológica com o bloco anti-ocidental (BRICS).
- A Visão Diplomática: O Brasil adota a "Neutralidade Ativa". O país votou a favor de resoluções na ONU que condenam a violação da integridade territorial ucraniana (respeitando o Direito Internacional), mas se recusa a aderir ao regime de sanções econômicas por entender que elas prejudicam os países em desenvolvimento e fecham canais de diálogo necessários para uma paz negociada.
3. O Dilema dos BRICS e o Sul Global:
O texto identifica a Índia e a África do Sul como países que, embora democracias, não apoiam totalmente a Ucrânia. Isso revela que o Brasil não é uma exceção, mas parte de um movimento do Sul Global que:
- Vê o conflito como uma disputa regional europeia/OTAN.
- Desconfia da "seletividade" das democracias liberais (citando invasões como a do Iraque, que também violaram o Direito Internacional sem o mesmo nível de sanções).
- Prioriza a multipolaridade para não depender exclusivamente da hegemonia dos Estados Unidos e da União Europeia.
* Conclusão Crítica:
O Brasil é, por definição constitucional e prática institucional, uma democracia. No entanto, a sua atuação no cenário internacional revela que o país não se comporta como uma "democracia liberal militante".
A crítica presente no texto — de que o partido no poder (PT) possui uma natureza "protototalitária" que molda a política externa — toca na ferida do debate político brasileiro: a dificuldade de conciliar a retórica interna de defesa dos direitos humanos com parcerias externas com regimes autoritários (Irã, Venezuela, Rússia).
Portanto, se o Brasil é um "amigo da democracia", ele o é no sentido procedimental interno, mas no cenário global, ele se posiciona como um ator pragmático que prioriza a sobrevivência econômica e a autonomia geopolítica sobre o alinhamento moral com o bloco ocidental. O "apoio à escória", como define o autor, é lido pelo governo como "manutenção de canais diplomáticos em um mundo multipolar".