sábado, 10 de janeiro de 2026

Uma breve história monetária- Fausto Godoy

 AMARELANDO...LITERALMENTE...

A matéria que o Estadão publicou no seu caderno de Economia, no dia 29/12, da analista Marianna Gualter, intitulada “Diante da incerteza global, BC aumenta reserva de ouro em 33%”, revela a crescente consolidação de uma tendência global determinante nestes tempos de incerteza “trumpista”. 

Conforme a matéria, esta tendência – recente – “alinha o Banco Central do Brasil a outros pelo mundo na busca por reduzir a exposição a títulos da dívida americana”, que, como sabemos, é cotada em US dólares. Ainda segundo ela, “a participação total de ouro no nível das reservas internacionais do BC também aumentou no período de janeiro a novembro, de 3,6% para 6,5%.” Para acalmar o mercado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, observou que esta política “não tem como objetivo, no curto prazo, um retorno ao padrão ouro”... 

Para a economista Luíza Pinese, da XP Investimentos, esta política “reflete uma estratégia de diversificação das reservas internacionais alinhada a uma tendência global observada nos últimos anos....o ouro é considerado como um ativo de proteção, especialmente em períodos de maior incerteza geopolítica e volatilidade nos mercados financeiros.” Ela assinala, ainda, que “o Brasil possui hoje um colchão sólido de reservas internacionais para poder enfrentar choques externos”.

Este fenômeno não é aparentemente um caso isolado brasileiro. No levantamento feito junto aos bancos centrais das economias emergentes foi constatado que o desempenho das reservas em ouro é fator principal: ou seja, trata-se de um ativo seguro. Tal avaliação é também compartilhada por 77% das economias avançadas. Segundo os analistas “esta política ocorre em meio a um cenário de aumento da incerteza global e de recorde da alta do preço dos ativos (em dólares) considerados seguros. A mesma percepção é corroborada pelo Banco Central Europeu (BCE), o qual indicou num relatório que, “no ano passado, os BCs pelo mundo, em geral, aumentaram suas reservas de ouro em mais de 1 mil toneladas, pelo terceiro ano consecutivo...o volume representa o dobro do nível médio anual observado na década anterior.” Segundo a “London Bullion Market Association” (LBMA), “o ouro acumulou uma variação superior a 60% em 2025”.

Para alguns analistas esta tendência sinaliza que a “era do dólar” estaria paulatinamente cedendo espaço para um outro paradigma geoeconômico e refletindo as  profundas mudanças que o cenário internacional vem registrando, sobretudo desde que Donald Trump voltou à Casa Branca. 

Para entender o processo recorramos, como sempre, à História. O chamado "gold exchange dollar system" nos remete a um momento conturbado na História moderna, mais especificamente a 1971, quando os Estados Unidos da era Nixon abandonaram o padrão-ouro e romperam com o sistema de Bretton Woods que “lincava” o valor das moedas internacionais ao ouro. Esta atitude deu início à política de câmbios flutuantes baseada num sistema centralizado no dólar; este foi, de acréscimo, um dos momentos mais críticos da economia mundial, sobretudo em 1973/74 quando o preço do petróleo quadruplicou devido ao embargo da OPEP em retaliação ao apoio ocidental a Israel, causando inflação global e recessão. De “positivo” estimulou o surgimento de políticas energéticas alternativas, como o Proálcool no Brasil. 

Obviamente o que segurou a política do dólar ao longo dos tempos foi a percepção, em esfera mundial, da supremacia política e econômica dos Estados Unidos, ou seja, a certeza de que o dólar e a economia americana seriam o sustentáculo sólido da ordem mundial...

Só que…o tempo passou e o processo de globalização das economias tomou um ritmo distinto. Novos atores assumiram papel protagonista no cenário planetário, sobretudo os asiáticos, com a China e a Índia liderando o processo. Grupos de países também se firmaram, isoladamente ou em grupo, como o BRICS, a ASEAN, o MERCOSUL/União Europeia, que hoje lideram o impulso desenvolvimentista da economia – e por que não – da política planetária... Cito sempre o exemplo da minha geração (nasci no final da Grande Guerra, em 1945). Desde então, ela conviveu com cinco hegemonias no prazo de oitenta anos: 1) a queda do Império Britânico, que dominara o cenário internacional desde o espraiamento do colonialismo europeu, no final do século XVII; 2) a hegemonia compartilhada a partir de então entre os Estados Unidos e a União Soviética, sob a ameaça do holocausto nuclear; 3) a supremacia absoluta americana após a queda da URSS, em 1991; 4) no início deste século, a reemergência da China - que fora a principal potência econômica mundial durante séculos -, em “tandem” com os Estados Unidos; e 5) e atualmente as hegemonias compartilhadas entre EUA, RPC, os grupos geoeconômicos -BRICS...ASEAN...- e...a Índia (?), o país mais populoso do planeta, já a 5ª maior economia, e a passos largos para tornar-se a 3ª até o final deste século, segundo as previsões.

Como sabemos os chineses e os membros do BRICS, entre outros, advogam cada vez mais que as transações entre eles se façam por parâmetros e moedas próprios. Nós, mesmos, já estamos considerando esta hipótese...Neste cenário, ainda haveria espaço para a supremacia inconteste do dólar / EUA (?), sobretudo num planeta tão conturbado???


OURO  X  US$$$$$ ? ...to be continued.

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