Conversas sobre o Brics: uma visão contrarianista
A Funag - Fundação do Itamaraty - produziu, provavelmente sob instruções do governo (mais até do que do Itamaraty), uma dúzia de depoimentos a propósito do Brics, provavelmente com o objetivo de legitimar não apenas o bloco, hoje muito distante de sua conformação original, mas também a última declaração, gigantesca, tirada, sob a coordenação brasileira, de seu encontro de cúpula (bastante esvaziado) realizado no RJ em 2025.
Foi notável o esforço de diversos representantes oficiais em defender o trabalho desse foro informal, que deixou de abordar, na pletora de uma centena e meia de itens em sua declaração final, os pontos mais relevantes da atualidade mundial, entre eles a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia.
É certo que a ordem internacional está hoje em frangalhos, e não se deve apenas às últimas tribulações de Mister Trump. A coisa vem de longe, muito longe, e sua deterioração mais recente começou há pelo menos duas décadas, na verdade bem mais.
É notável que nenhum dos depoentes brasileiros — salvo parcialmente um economista — atentou para um fato simplório: o de que a própria ideia do Bric-Brics vai contra alguns dos pressupostos fundamentais da política externa e da diplomacia do Brasil, valores e princípios que vêm de longe, provavelmente de Rio Branco, de Rui Barbosa, em suas bases doutrinais, aperfeiçoados por estadistas como Oswaldo Aranha, San Tiago Dantas e alguns outros mais recentes: a autonomia decisória na política externa, a independência de sua diplomacia em relação a conflitos entre grandes potências, um acatamento exemplar às bases conceituais do Direito Internacional (antes mesmo da Carta da ONU) e o respeito a algumas cláusulas básicas das relações internacionais, vários delas, aliás, inscritas na nossa Carta constitucional.
Parece claro, a qualquer observador mais atento da história da política mundial, que as violações mais flagrantes, e frequentes, ao Direito Internacional e à própria Carta da ONU provêm das grandes potências, entre elas os cinco membros permanentes do seu Conselho de Segurança. Isso é publico e notório, e não precisaríamos estar aqui lembrando Berlim, Indochina, Suez, Vietnã, Afeganistão, Iraque, Oriente Médio em geral, Ucrânia, Venezuela.
A ideia do Bric-Brics, que teve origem numa improvisação econômica puramente oportunista, de ganhos financeiros para grandes fundos institucionais, foi acatada numa ligeireza de causar estranheza numa diplomacia que sempre foi respeitada pela suposta qualidade intelectual dos integrantes de seu corpo profissional. Talvez eles julgassem, na origem, uma ideia interessante na conjuntura de meados da primeira década do século, mas certamente não esperavam que essa ideia levaria a desenvolvimentos imprevistos seja em relação à concepção de início, seja no formato que o foro veio a ter em suas ampliações mais recentes.
Provavelmente, os diplomatas pensantes não consideraram que, à falta de estudos técnicos e políticos mais abalizados, a sugestão respondia mais a determinados instintos políticos, derivados da diplomacia partidária que passou a impregnar a diplomacia profissional desde o inicio do século, do que aos princípios e objetivos fundamentais que sempre caracterizaram a política externa desde os tempos do Barão, ou mesmo desde o Segundo Reinado.
Não pretendo, nesta curta nota, desmerecer ou diminuir a capacidade de raciocínio e de articulação de alguns de meus colegas que tiveram participação nesse exercício das “Conversas”, alguns por obrigação funcional, outros para atender a um convite feito em total boa-fé por um desses colegas.
Mas não posso deixar de mencionar o fato de que, desde as primeiras movimentações em torno da ideia e da concretização do foro, eu formulei algumas considerações críticas a esse respeito, várias delas depois consolidadas num pequeno livro digital divulgado em 2022: “A Grande Ilusão do Brics e o Universo Paralelo da Diplomacia Brasileira” (Kindle Amazon).
A ideia básica da critica era a de que se tratava da primeira vez na história da consolidação da diplomacia moderna brasileira que se consentia em uma vinculação dos interesses nacionais aos interesses de grandes potências, não quaisquer umas, mas precisamente duas grandes potências nucleares, cujas concepções políticas e sociais não se situavam exatamente no universo político e doutrinal em que sempre se movimentou o Brasil, uma potência média fundamentalmente comprometida com objetivos de desenvolvimento econômico e social, sem pretensões a participar de conflitos interimperiais situados num âmbito geopolítico que não é e não deveria ser o seu.
O Brasil, uma potência média supostamente líder de uma vaga entidade chamada de Sul Global (antigamente Terceiro Mundo ou países em desenvolvimento), deveria presumivelmente unir-se a outras potências médias, do Sul e do Norte (e aqui entram Canadá, nórdicos e grande parte da Europa ocidental), vários outros asiáticos e africanos, para justamente defenderem seus objetivos prioritários, de busca de prosperidade dentro do respeito à ordem e ao Direito internacionais, em contraposição aos grandes jogos geopolíticos das grandes potências, que são justamente as principais violadoras da ordem internacional.
Esta é a a razão de meu distanciamento critico da ideia do Bric-Brics desde a origem, postura da qual jamais me afastei, mesmo ao custo de prejuízos funcionais, mas jamais em detrimento de minhas razões intelectuais na capacidade de julgar determinados passos da política externa oficial e mesmo da diplomacia que julguei contrários aos interesses nacionais de longo prazo.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/01/2026