quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"A estratégia global do Brasil em um mundo em transformação” - discurso do ministro de Estado das Relações Exteriores

 Palestra do Ministro Mauro Vieira na 7ª Conferência Raffles do IISS - "A estratégia global do Brasil em um mundo em transformação”

Singapura, 8 de setembro de 2026
Publicado em 08/09/2026 00h00Atualizado em 08/09/2026 11h39

Excelências, senhoras e senhores,

É uma grande honra para mim proferir esta palestra e um privilégio especial que esta prestigiosa edição receba, pela primeira vez, um palestrante da América Latina.

Fui convidado a falar sobre a política externa brasileira e sua estratégia global em um mundo em transformação.

Mas, antes de entrarmos nos detalhes, é importante que saibam de onde falo, pois nossa posição no mundo condiciona as possibilidades de nossa atuação.

Em abril de 1500, uma frota portuguesa a caminho das Índias desembarcou na costa do que viria a ser o meu país. O Brasil entrou para a história como um incidente no contexto de uma rota a caminho da Ásia.

Durante séculos, foi o que permanecemos sendo, em linhas gerais, deste lado do mundo: um ponto de passagem, um fornecedor, mas não um interlocutor.

Muita coisa mudou desde então. E é isso vim lhes contar.

Para começar, o Brasil vem do Sul. E, por Sul, não me refiro a um conceito puramente geográfico, mas a uma realidade geopolítica.

O Brasil é uma nação em desenvolvimento, empenhada em traçar seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento, em meio a uma ordem global em desordem.

Como uma das principais vozes do Sul Global, o Brasil nunca se esquivou de criticar as falhas e limitações da ordem internacional.

Estamos plenamente conscientes, contudo, de que, com todas as suas deficiências, as instituições internacionais construídas após a Segunda Guerra Mundial conseguiram criar um regime multilateral que proporcionou, de modo geral, respeito à soberania, garantias à integridade territorial, um sistema de segurança coletiva centrado nas Nações Unidas e uma visão de prosperidade por meio de um sistema multilateral de comércio baseado em regras.

Embora imperfeita, a arquitetura do pós-guerra permitiu que os países em desenvolvimento construíssem suas próprias trajetórias sem temer a lei do mais forte. Ao longo de mais de oito décadas, ela promoveu o desenvolvimento, fortaleceu o direito internacional, avançou os direitos humanos e contribuiu para pôr fim ao colonialismo. Muito poucos entre nós conseguem lembrar-se de um mundo sem as Nações Unidas.

De 1945 até o final do século XX, as desigualdades tanto entre os países quanto no interior deles diminuíram. Segundo o Banco Mundial, a participação dos países de baixa e média renda no produto interno bruto mundial aumentou de 20% em 1960 para 35% em 2025. Em paridade do poder de compra, essa participação é ainda maior, chegando a 53% do PIB global.

No mesmo período, o PIB do Brasil passou de meros 17 bilhões de dólares para 2,28 trilhões de dólares, quase dobrando sua participação na produção econômica global. Hoje, o Brasil é a oitava maior economia do mundo.

Hoje, sinais de ruptura estão por toda parte e já não podem ser ignorados. Ao longo dos 50 anos de minha carreira diplomática, nunca houve uma ameaça tão real às regras e aos princípios que regem o comportamento dos Estados quanto a que estamos testemunhando.

O que está em jogo agora não é a crise passageira de uma instituição, mas a própria ideia de que as relações entre os Estados devem ser regidas por regras, e não pela força. Violações à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão tornando-se a regra, e não a exceção.

O paralelo entre as crises do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia é claro. Como uma jovem nação democrática, reconstruída em 1985 após 20 anos de ditadura militar, o Brasil não pode deixar de levantar sua voz enquanto forças antidemocráticas buscam enfraquecer instituições e restringir liberdades em todo o mundo.

Na frente econômica, acompanhamos com preocupação uma tendência à “desglobalização”. Políticas protecionistas, fragmentação comercial, barreiras não comerciais e a desestruturação das cadeias de suprimentos ameaçam aprofundar os desequilíbrios globais.

Como um país do Sul, o Brasil acredita que é chegado o momento de uma reforma efetiva e abrangente da governança global.

Talvez esta crise tenha vindo para demonstrar que as instituições mundiais não têm outra opção senão evoluir para acomodar perspectivas diversas, assegurando que as nações em desenvolvimento não sejam atores passivos, mas arquitetas ativas do futuro.

Retirar-se das instituições internacionais não é uma forma de reformá-las; é abdicar da responsabilidade de fazê-lo.

Em diferentes foros, o Brasil vem defendendo uma nova visão para a governança global — uma visão que priorize inclusão, equidade e cooperação em lugar de hegemonia, desigualdade e unilateralismo.

Como membro fundador do BRICS, o Brasil está firmemente convencido de que o grupo tem uma grande responsabilidade na conformação da ordem global para as próximas décadas. O BRICS, assim como o Brasil, é uma força de mudança positiva na política mundial.

Continuamos acreditando no valor fundamental de um sistema multilateral baseado em regras. A atual paralisia da Organização Mundial do Comércio já não é sustentável. A OMC precisa, sim, de uma reforma — urgente e profunda. Uma reforma que reflita melhor os interesses das nações em desenvolvimento, restaure seu órgão de solução de controvérsias e adapte a organização às novas realidades econômicas.

No campo das finanças internacionais, as instituições de Bretton Woods desempenharam funções importantes ao longo de décadas, mas suas estruturas de governança não acompanharam as mudanças da economia global. As economias emergentes contribuem cada vez mais para o crescimento mundial, mas sua voz nessas instituições continua desproporcionalmente limitada.

O Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS é uma prova de que as economias emergentes podem construir suas próprias instituições, governadas de maneira equitativa, concebidas de forma inclusiva e orientadas para os desafios de desenvolvimento que as instituições mais antigas frequentemente negligenciaram.

Como afirmou recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres: “as superpotências precisam entender que as coisas mudaram, que o peso de diferentes países mudou. É hora de as superpotências compreenderem os limites de seu poder”.

Um mundo multipolar que promova paz e prosperidade não deve ser confundido com um mundo de esferas de influência. Um verdadeiro mundo multipolar é um mundo cooperativo.

Caros amigos,

Para melhor situar o Brasil no mundo, comecei enquadrando nossa posição como um país do Sul, cujas principais armas são nossa confiança no direito internacional e na estabilidade da ordem mundial.

Mas o Brasil é também um país da América do Sul, e sua geografia é fundamental para compreender os limites e as possibilidades de nossa política externa e de nossa projeção global.

Há muito vista como parte de uma esfera de influência que abrangia a totalidade das Américas, a América do Sul historicamente enfrentou dificuldades para alcançar independência política.

Nas últimas quatro décadas, o Brasil dedicou uma parcela considerável de seus esforços diplomáticos à integração regional.

Nossa doutrina regional é de integração colaborativa com os vizinhos, e não aquela que remonta ao século XIX e busca estabelecer uma esfera de influência e transformar nações soberanas em protetorados.

O melhor exemplo dessa abordagem é o MERCOSUL, composto por Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que é o mais ambicioso bloco de integração econômica de toda a América Latina, um mercado de quase 300 milhões de pessoas e com um PIB combinado superior a 3,1 trilhões de dólares.

Em um momento em que o cenário do comércio global se torna cada vez mais desafiador, com o aumento do protecionismo, o fechamento de mercados e medidas comerciais unilaterais, o Brasil e o MERCOSUL estão conduzindo uma agenda externa muito ativa.

Diante desse cenário de crise, escolhemos seguir na direção oposta: preservar e ampliar a abertura comercial e diversificar nossas parcerias econômicas.

Na verdade, o Brasil está convencido de que a América do Sul, como região, tem muito a ganhar com uma estreita cooperação com atores extrarregionais.

Nos últimos três anos, o MERCOSUL assinou acordos de livre comércio com Singapura, em 2023, com a Associação Europeia de Livre Comércio, o EFTA, e com a União Europeia, o que criou uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com quase 700 milhões de pessoas. A parcela do comércio exterior brasileiro abrangida por acordos comerciais aumentará de 12% para 31,2%.

A entrada em vigor do Acordo MERCOSUL-Singapura, em 1º de agosto, é um marco muito importante. Agora precisamos assegurar que as oportunidades criadas pelo acordo se traduzam em maiores fluxos comerciais, oportunidades de investimento e relações empresariais.

Ao mesmo tempo, estamos olhando para a próxima onda de acordos comerciais. Três das quatro negociações em andamento são com parceiros asiáticos — Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Japão — além das negociações, bastante avançadas, com o Canadá. As discussões também avançam para ampliar nosso atual acordo preferencial de comércio com a Índia, e estamos explorando a melhor forma de retomar as negociações com a Coreia do Sul.

Essa abordagem universalista — respaldada por uma tradição de política externa independente — é precisamente o que permite ao Brasil ser, ao mesmo tempo, um parceiro próximo dos Estados Unidos, da China e da Europa, sem que nenhuma dessas relações condicione as demais. Poucos países estão em posição de fazer o mesmo.

No ano passado, o comércio exterior brasileiro alcançou 629 bilhões de dólares, e recebemos cerca de 77 bilhões de dólares em investimento estrangeiro direto, o terceiro maior volume do mundo. Em um período de dois anos, sediamos o G20, a Cúpula do BRICS e a COP30. Estamos presentes em todos esses arranjos, mas não estamos subordinados a nenhum deles.

Aqui em Singapura, esse raciocínio exige pouca explicação. Há seis décadas, Singapura defende que potências médias e pequenas não devem ser obrigadas a escolher lados, e que o sistema multilateral é mais importante para países como os nossos, porque um mundo organizado pela rivalidade não atende aos interesses de países em desenvolvimento que prezam por sua independência.

A estratégia global do Brasil segue o mesmo raciocínio, formulado do outro lado do mundo.

Assim como Singapura e sua notável estrutura diplomática — cuja sofisticação eu mesmo tive o prazer de testemunhar de perto quando fui Embaixador junto às Nações Unidas —, recusamo-nos a escolher lados. Falamos com todos. Atravessamos as fronteiras entre partes diferentes, e às vezes opostas. É isso que o Brasil entende por universalismo.

Por mais de cem anos, os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2009, a China assumiu essa posição e nela permanece até hoje.

Em 2025, o comércio bilateral com a China ultrapassou 170 bilhões de dólares, um recorde pelo oitavo ano consecutivo, e um valor próximo à soma de nosso comércio com os Estados Unidos e a União Europeia, respectivamente nosso segundo e terceiro maiores parceiros.

A China compra mais de um quarto de tudo o que o Brasil vende ao exterior e fornece um quarto de tudo o que compramos.

Em 2025, o Brasil foi o maior destino individual de investimento direto chinês em qualquer lugar do mundo: 6,1 bilhões de dólares, em 52 projetos, distribuídos por 20 dos nossos 27 estados. Isso corresponde a 11% de todo o capital chinês investido no exterior, à frente dos Estados Unidos.

A composição desses investimentos importa mais do que seu volume. Entre 2023 e 2025, a indústria manufatureira tornou-se o segundo maior setor para os investimentos chineses no Brasil, superando o petróleo e a mineração. A BYD e a Great Wall Motors estão produzindo veículos no Brasil; outras empresas estão seguindo o mesmo caminho; e esses veículos se destinam ao nosso mercado e ao mercado sul-americano.

Estamos abertos ao capital chinês e à tecnologia chinesa em um grau que poucas economias de nosso porte estão. Em troca, esperamos fábricas, e não apenas contêineres; cadeias produtivas que se estabeleçam no Brasil; engenheiros formados no Brasil; e um mercado chinês aberto aos produtos brasileiros que tenham valor agregado.

“Uma relação dessa magnitude limita a liberdade de ação do Brasil?”, perguntam algumas pessoas. Certamente não, pois não se trata de uma relação exclusiva, e esse é precisamente o meu ponto nesta palestra: o Brasil está ampliando, simultaneamente, suas relações com a União Europeia, a Índia, a África e o Sudeste Asiático, ao mesmo tempo em que trabalha para preservar 203 anos de amizade e comércio com os Estados Unidos.

O que realmente buscamos é cooperação e diversificação. No mundo fragmentado de hoje, diversificar parcerias é uma espécie de seguro contra a instabilidade e a coerção econômica. É, de fato, a condição sine qua non para a independência.

Caros amigos,

Permitam-me apresentar agora outra característica definidora da posição do Brasil no mundo.

Além de vir do Sul e da América do Sul, a terceira coordenada que desejo enfatizar é que o Brasil é um país intrinsecamente pacífico.

Não temos disputa territorial com nenhum de nossos dez vizinhos imediatos. A última guerra que travamos na América do Sul terminou há mais de um século e meio.

Nossa própria Constituição Nacional estabelece que toda atividade nuclear em nosso território terá fins pacíficos.

A América Latina é, por sua vez, uma região livre de armas nucleares, conforme estabelecido pelo Tratado de Tlatelolco. Em nosso entorno estratégico, temos promovido consistentemente uma Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, a ZOPACAS.

A arma de escolha do Brasil é a diplomacia. Nosso excedente de poder é energia, alimentos e recursos naturais. Para nossa segurança nacional, dependemos do próprio sistema de segurança coletiva que hoje está sob pressão.

No ano passado, os gastos militares globais ultrapassaram 2,8 trilhões de dólares, um aumento de 41% na última década, com aproximadamente 60% concentrados em apenas cinco países. As despesas militares foram mais de 16 vezes superiores aos recursos destinados à assistência internacional ao desenvolvimento.

O que esses números revelam é a erosão da confiança entre as nações. O principal risco que enfrentamos é uma profecia autorrealizável: há um século, a militarização em meio à profunda desconfiança entre as nações nos levou a duas Guerras Mundiais.

E a maioria dos conflitos atuais ocorre no Sul Global. O aumento dos preços dos alimentos e da energia, bem como os custos indiretos das guerras, recaem fortemente sobre os países em desenvolvimento.

Nos últimos seis meses, o Estreito de Ormuz esteve fechado. Um quinto do petróleo e do gás do mundo foi interrompido ou está se movimentando de forma demasiadamente lenta. Os custos de frete e seguro aumentaram, e as consequências são sentidas nos mercados do Sudeste Asiático.

Paralelamente, e por razões completamente diferentes, medidas tarifárias unilaterais desestruturaram fluxos comerciais que o Brasil e diversas economias da ASEAN levaram décadas para construir.

Nenhum de nós causou esses acontecimentos, e ambos estamos pagando seu preço. Juntos, eles demonstraram que a concentração é uma vulnerabilidade, tanto em energia quanto em alimentos.

Nossa defesa da paz é, portanto, plenamente legítima. Construir pontes em vez de muros é uma tradição de longa data da diplomacia brasileira. Sempre fomos inequivocamente favoráveis ao diálogo, ao consenso e ao respeito ao direito internacional, em lugar de antagonismos artificiais e do unilateralismo equivocado.

Não aceitamos a ideia de que uma parceria com um país exija distanciamento ou mesmo hostilidade em relação a outro. Ao longo da história, já nos pediram mais de uma vez que escolhêssemos lados. Não o fizemos e não o faremos.

O Brasil vislumbra uma arquitetura de promoção da paz mais ampla e plural: maior capacidade de mediação das Nações Unidas, maior utilização dos instrumentos do Capítulo VI, cooperação mais estreita com organizações regionais e sub-regionais, uso melhor e mais sistemático da Comissão de Consolidação da Paz e plena implementação da agenda de Mulheres, Paz e Segurança nas Nações Unidas.

Como o Presidente Lula tem insistido desde o início de seu mandato, é hora de mudar a narrativa e trazer a paz de volta ao centro do debate internacional. Devemos isso a nós mesmos e também aos milhões de pessoas que vivem sob conflitos em todo o mundo.

Como o Brasil tem afirmado repetidamente, a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas já não corresponde à diversidade e ao dinamismo do nosso mundo. O mundo mudou muito desde 1945, quando as Nações Unidas tinham 51 membros fundadores; o Conselho de Segurança, não.

A virtual paralisia do Conselho de Segurança está contribuindo para a erosão da arquitetura internacional de paz e segurança que — com todas as suas falhas — impediu gerações de sofrerem o flagelo de uma guerra generalizada.

A reforma não é apenas uma questão de representação: é essencial para restaurar legitimidade e aumentar eficácia. Somente um Conselho de Segurança ampliado, tanto em assentos permanentes quanto não permanentes, será capaz de cumprir plenamente sua responsabilidade primordial pela manutenção da paz e da segurança internacionais.

Estou convencido de que os países do Sudeste Asiático, a partir de sua própria perspectiva, coincidem com o Brasil quanto à necessidade de construir instituições robustas de governança global baseadas no pleno respeito ao direito internacional e em um conjunto claramente definido de regras acordadas para a construção de consensos. Digo isso porque vocês já fizeram isso em nível regional, com a ASEAN. Permitam-me, então, voltar-me à ASEAN e a como ela se encaixa na estratégia global do Brasil em um mundo em transformação.

Permitam-me começar com alguns números, porque não são os números que a maioria das plateias espera.

Em 2025, o comércio entre o Brasil e os países da ASEAN alcançou 38,4 bilhões de dólares. Há duas décadas, era de aproximadamente 3 bilhões.

Ele se multiplicou por dez, a uma taxa sustentada de cerca de 12% ao ano, resistindo a cada mudança do ciclo das commodities.

Considerada como uma entidade única, a ASEAN é hoje o quinto maior parceiro comercial do Brasil, depois da China, da União Europeia, dos Estados Unidos e do MERCOSUL.

Um número merece atenção especial. No ano passado, nosso superávit comercial com a ASEAN caiu de 15,5 para 10,3 bilhões de dólares. Não porque vendemos menos, mas porque vocês nos venderam mais. Considero isso um número muito positivo. Um fluxo que se move em apenas uma direção é um mercado; um fluxo que se move em ambas as direções é uma parceria.

Nossa relação institucional avançou na mesma medida. O Brasil aderiu ao Tratado de Amizade e Cooperação em 2012, tornando-se o primeiro país latino-americano a fazê-lo.

Em 2022, a ASEAN aceitou o Brasil como Parceiro de Diálogo Setorial e, novamente, o Brasil foi o primeiro de nossa região. Em 2023, abrimos uma Missão dedicada à ASEAN em Jacarta, e continuamos sendo o único Parceiro de Diálogo Setorial a fazê-lo.

Em outubro passado, o Presidente Lula tornou-se o primeiro Chefe de Estado brasileiro a participar de uma Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur. Ficamos então extremamente satisfeitos ao ver a adesão de Timor-Leste, país com o qual compartilhamos uma língua e uma longa história comum, como o décimo primeiro membro da ASEAN.

Em janeiro deste ano, o Brasil formalizou seu interesse em tornar-se Parceiro de Diálogo da ASEAN. Enxergamos esse movimento como um próximo passo natural na consolidação de uma parceria que temos construído ao longo de décadas.

O que o Brasil tem a oferecer à ASEAN? Quatro coisas, em termos concretos.

Começarei pelos alimentos. O Brasil está entre os maiores exportadores de soja, carne bovina, carne de frango, açúcar e café. Somos um fornecedor confiável e contribuímos para a segurança alimentar e nutricional de muitas nações.

A segunda coisa é energia, e aqui refiro-me a muito mais que petróleo. Ao longo do último meio século, o Brasil construiu uma das maiores indústrias de bioetanol do mundo e uma frota nacional de veículos adaptada a ele.

A maioria dos países da ASEAN já possui mandatos de biocombustíveis em vigor. Podemos oferecer tecnologia e experiência regulatória e encurtar a curva de aprendizado, nem que seja apenas mostrando quais de nossos próprios erros poderiam ser evitados.

O terceiro é a indústria. O Brasil possui reservas estratégicas dos minerais necessários para a transição energética e para a economia digital, e temos nossa própria indústria aeroespacial, liderada pela EMBRAER.

Nosso interesse é processar e fabricar em casa, em vez de exportar commodities e comprar de volta produtos industrializados. Acredito que esse seja um interesse que compartilhamos com muitos países desta região.

O quarto são as florestas — e o financiamento das florestas. O Brasil e o Sudeste Asiático detêm a maior parcela das florestas tropicais remanescentes do mundo.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado na COP30 em Belém, em novembro passado, foi concebido precisamente para países como os nossos, e tenho a satisfação em lembrar que, desta região, a Indonésia esteve entre seus investidores fundadores. O TFFF é, de fato, um marco no campo dos mecanismos inovadores para a preservação do meio ambiente, uma vez que não consiste em uma doação, mas em um investimento no futuro do planeta, remunerado a taxas de mercado e com os países em desenvolvimento na liderança.

O Brasil deseja tornar-se um Parceiro de Diálogo pleno da ASEAN, e não consideramos isso uma mera formalidade. Dos doze Parceiros de Diálogo da Associação, nenhum vem da América Latina, do Caribe ou da África.

O Brasil está disposto e é capaz de preencher essa lacuna, com pleno respeito a uma decisão que cabe aos onze membros da Associação.

Não vemos ocasião melhor para abrir este novo ciclo de cooperação do que durante a presidência de Singapura da ASEAN em 2027, sendo Singapura nosso maior parceiro comercial no Sudeste Asiático e uma nação com um histórico de longa data, com quem mantemos relações bilaterais mutuamente benéficas, e com quem compartilhamos abordagens semelhantes no campo da política internacional.

Senhoras e senhores,

A presidência filipina da ASEAN escolheu para este ano o tema “Navegando Nosso Futuro, Juntos”. Para um país que entrou para a história moderna porque uma frota estava navegando em direção à Ásia, esse é um convite difícil de recusar.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa escreveu certa vez que o real não se encontra nem na partida nem na chegada, mas na própria jornada. O Brasil não está pedindo ao Sudeste Asiático que o escolha como destino. Estamos convidando vocês a fazer a jornada conosco.

Muito obrigado.


O caso Marka–FonteCindam e Francisco Lopes: A amarga história de um réu da estabilidade - Edmar Bacha (Substack)

 Edmar Bacha possui algo precioso, talvez raro na atualidade, no ambiente contaminado dos meios financeiros por atores políticos oportunistas: honestidade intelectual, dignidade pessoal, para aprofundar a pesquisa e resgatar a verdade factual sobre um dos casos mais tristes na história do Banco Central: a injustiça que fizeram com Francisco Lopes. Eis a história.

O caso Marka–FonteCindam e Francisco Lopes
A amarga história de um réu da estabilidade

EDMAR BACHA
SEP 8, 2026

Em 7 de maio deste ano morreu, no Rio de Janeiro, o economista Francisco Lafaiete de Pádua Lopes — o Chico Lopes. Escrevo aqui sobre o episódio que lhe devastou a vida: o chamado caso Marka–FonteCindam, de janeiro de 1999. Trata-se de resumo de artigo mais extenso que publiquei no número de setembro de 2026 da revista piauí. A pesquisa documental que empreendi para esse texto autoriza uma conclusão que enuncio desde já: o crime pelo qual Chico Lopes foi condenado, preso e humilhado — o peculato, que é o desvio de dinheiro público em proveito próprio ou de terceiros — absolutamente não ocorreu. E não houve “socorro aos bancos”. Ninguém embolsou recurso público. Nenhum banqueiro saiu beneficiado.

Recordo o cenário. Janeiro de 1999: o momento mais frágil da história monetária recente do país, a transição do câmbio administrado, que ancorava o Plano Real, para o câmbio flutuante. Em 13 de janeiro, com a saída de Gustavo Franco, Chico Lopes assumiu interinamente a presidência do Banco Central, com o encargo de conduzir essa travessia. No próprio dia 13, o dólar saltou de R$ 1,21 para R$ 1,32, e seguiu subindo, até quase dois reais no fim do mês.

Revelou-se então que dois pequenos bancos — o Marka, de Salvatore Cacciola, e o FonteCindam — haviam apostado muito mais do que podiam na continuidade da política cambial sob Gustavo Franco. Na Bolsa de Mercadorias e Futuros, a BM&F, haviam se comprometido a vender dólares a preço fixo, o do câmbio administrado. Do outro lado desses contratos estava a maior parte do mercado, apostando exatamente no contrário, e foi ela que ganhou. Quando o câmbio cedeu, o dólar que os dois teriam de entregar tornou-se muito mais caro do que o preço pelo qual haviam se comprometido a vendê-lo, e a diferença virou prejuízo — a ser pago em dinheiro, dia após dia, como manda a bolsa. Prejuízo maior do que eles podiam suportar: o Marka apostara vinte vezes o seu patrimônio. Os dois não tinham como pagar.

O problema não era a sobrevivência de dois pequenos bancos. Era a confiança. A BM&F era a contraparte central do mercado: todas as posições, compradas e vendidas, eram contratadas com ela. Se os dois bancos inadimplissem, esgotadas as margens e os fundos de garantia, a Bolsa teria que ratear o prejuízo restante entre todos os seus membros. Uma inadimplência de dimensão desconhecida, ali, no coração do sistema, poderia disparar o que mais se temia: o pânico, com as quebras recentes da Tailândia, da Coreia, da Rússia ainda na memória de todos. Foi a própria BM&F que telefonou ao Banco Central, pedindo que interviesse.

Em 14 de janeiro, a diretoria do BC decidiu agir. E aqui está o que jamais ficou claro para o público. Naquele dia, o dólar estava em 1,32, colado no teto da banda cambial. Ao FonteCindam, que era ilíquido mas solvente — tinha com que pagar, só não naquele momento —, o BC vendeu dólar futuro no teto, sem lhe conferir vantagem alguma. Ao Marka, insolvente, vendeu a 1,275, abaixo do teto, mas dentro da banda, e friamente calculado para zerar o patrimônio do banco. Condicionou, ademais, a operação à extinção do Marka como banco.

A acusação exibiu por vinte anos um documento como prova do favorecimento. Naquela manhã, Cacciola escrevera um bilhete pedindo que o diretor de Fiscalização fosse “menos rigoroso”: o ideal, dizia, seria o dólar a 1,25. Pediu, mas não obteve. Saiu com preço pior do que o que implorava, e sem o banco. Um pedido negado não é um favor concedido. O documento que a acusação usou como prova do crime é a prova de que ele não houve.

E o pânico? O pânico não houve, precisamente porque a intervenção o conteve. Quinze dias depois, já sob câmbio flutuante, um simples boato de bloqueio de ativos bastou para deflagrar uma corrida aos bancos, a chamada sexta-feira negra. Se um boato produziu uma corrida bancária, o que não faria uma inadimplência real na contraparte central do mercado? Julgar aquela decisão do BC pela calma que se seguiu é avaliar o trabalho dos bombeiros pela casa que não pegou fogo, quando foi precisamente a sua atuação que conteve o incêndio.

Pois bem. Em toda parte do mundo, intervenções de emergência como essa se trataram como episódios de política econômica. No Brasil, transformou-se em caso de polícia.

A acusação partiu do próprio Cacciola, que alegou ter pago por informações privilegiadas a pessoas ligadas a Lopes. Em artigo recente na Folha de São Paulo, Candido Bracher resumiu o paradoxo com precisão: como quebrar dispondo de informação privilegiada? Há uma única resposta: dispondo da informação errada, comprada de quem não a tinha. O banco que mais perdeu com a desvalorização era a prova viva de que dela não fora informado.

Seguiu-se a via-crúcis. Busca e apreensão na casa de Chico Lopes, com vazamento seletivo. A CPI. E o episódio mais dramático: em 26 de abril de 1999, orientado por seus advogados, Lopes recusou-se no Senado a assinar o termo de compromisso de testemunha. No tumulto, uma senadora gritou “esteja preso”, antecipando-se ao presidente da comissão, que lhe deu voz de prisão. Chico Lopes passou a noite detido. De madrugada, o Supremo concedeu o habeas corpus que se tornou referência, até hoje, do direito ao silêncio perante CPIs.

Permito-me um testemunho pessoal. Havia advogados que recomendavam o oposto do silêncio: que Lopes falasse, pois era a autoridade mais qualificada do país para explicar, em rede nacional, por que a operação fora necessária. Mas a defesa tratou como matéria penal o que era um evento político. O próprio Chico me reconheceria, anos depois, o erro de julgamento. Venceu no Supremo; perdeu na opinião pública, onde a versão de Cacciola reinou sem contraditório.

Há de se notar que o escândalo oferecia, ao mesmo tempo, algo a interesses que raramente convergem: a magistrados e procuradores de primeira instância, projeção pública e canal direto com a imprensa; à oposição, munição para desgastar a gestão de Fernando Henrique Cardoso; e ao próprio governo, a possibilidade de descarregar sobre um nome o ônus da implosão da política cambial anterior. Uma confluência de interesses que ajuda a explicar a violência e a duração da perseguição que se abateu sobre Chico Lopes.

Em 2005, veio a sentença de primeira instância: dez anos de reclusão, em regime fechado, para Lopes, para Demosthenes Madureira de Pinho Neto e para Claudio Mauch; seis anos para Tereza Grossi, que viria a ser a primeira mulher na diretoria do Banco Central. Condenados por peculato, sem que jamais se comprovasse que um único centavo chegara ao bolso de qualquer deles ou ao dos banqueiros supostamente beneficiados.

O tempo, e a Justiça, desfizeram tudo. Em 2016, a prescrição extinguiu a ação penal sem trânsito em julgado. Perante a lei, é como se a condenação jamais houvesse existido. Em 2017, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, por quatro votos a um, declarou que as operações foram legais e não causaram prejuízo ao erário. Nessa ação, tanto o Banco Central como a BM&F litigaram ao lado dos réus. Em 2018 e 2019, o Tribunal de Contas da União, por unanimidade, julgou regulares as contas de todos.

Mas a que preço. Bens bloqueados por décadas, em foros distintos, liberados ao fim cartório a cartório. Aposentadorias cassadas em sentença. Uma dívida imputada de quase cinco bilhões de reais. Tereza, Mauch, Demosthenes — carreiras marcadas por anos a fio pela condição de réus. E Chico, naturalmente tímido, fez-se recluso. Um ano depois do escândalo, dizia a amigos que “estou até bem, considerando ter sido atropelado por um ônibus”. Guardou a mágoa pelo resto da vida. Como disse em seu depoimento à história oral do Banco Central: “nunca há absolvição. Quando há um escândalo e a imprensa vem como um predador, você já está condenado”.

E no entanto, o teste dos resultados fala por ele. A transição para o câmbio flutuante se fez sem crise bancária, sem recessão, com inflação baixa: uma das mais bem-sucedidas do mundo. Quando a Argentina fez a sua, três anos depois, teve cinco presidentes em duas semanas. E a flutuação abriu caminho para o regime de metas de inflação, operado pelo Copom, o comitê que o próprio Chico Lopes criara em 1996 e que o Banco Central, em sua nota de pesar, apontou como a sua contribuição mais duradoura ao país.

Fica a lição institucional. Quando o Estado pune por vinte anos os servidores que, numa madrugada de crise, tomaram a decisão que a seu juízo evitaria a ruptura do sistema financeiro, a mensagem aos futuros ocupantes desses cargos é inequívoca: na próxima crise, não decidam. O custo do caso Marka–FonteCindam não se mede apenas nas vidas que devastou; mede-se no medo que legou.

Este texto, escrito quando Chico Lopes já não pode lê-lo, é a reparação possível, que aqui se lega à história.

Um ÚNICO diplomata disputa as eleições em 2026: o embaixador Aldemo Garcia

Um ÚNICO diplomata disputa as eleições em 2026: o embaixador Aldemo Garcia


Prezados colegas da ADB,

Gostaria de compartilhar com todos vocês que sou candidato a Deputado Estadual por São Paulo, pelo PSD, nas eleições de 4 de outubro.

Nesta eleição, sou o único diplomata brasileiro a disputar um cargo eletivo em todo o país. Em contraste, mais de mil candidatos oriundos das forças de segurança — entre delegados, policiais civis e militares e integrantes das Forças Armadas — concorrem a cargos eletivos nos 27 estados da Federação.

Acredito que a experiência adquirida ao longo de 44 anos na carreira diplomática, representando o Brasil no exterior e trabalhando em defesa dos interesses do nosso país, pode contribuir de maneira significativa para a vida pública e para o Estado de São Paulo.

Por isso, aos colegas que votam em São Paulo, bem como àqueles que têm familiares, amigos e pessoas próximas no estado, peço a oportunidade de apresentar minha candidatura e contar com o seu apoio.

Será uma honra poder levar para a Assembleia Legislativa de São Paulo a experiência, o conhecimento e o espírito de serviço público construídos ao longo de uma vida dedicada ao Brasil.

Visitem o meu Instagram para conhecer minhas propostas

Muito obrigado pela atenção, pela consideração e pelo apoio.

Embaixador Aldemo Garcia
Candidato a Deputado Estadual por São Paulo – PSD
55.322

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A Economist avalia a economia de Milei - The Economist

 

Milei foi mexer com os ingleses ameaçando retomar as Malvinas, e a The Economist se vinga com um retrato irônico de Milei e do seu governo...

Maurício David

 

... Os peronistas também estão divididos. Sergio Massa, que perdeu para Milei nas últimas eleições, pode tentar novamente. Juan Grabois, um deputado inflamado, também pode concorrer. Ele promete justiça social financiada por impostos dramaticamente mais altos sobre os ricos. "Você não precisa temer Axel [Kicillof]," ele ri, "você tem que me temer, tem que temer Myriam Bregman."

Bregman é uma trotskista de alto perfil, à esquerda até mesmo dos peronistas. Surpreendentemente, sua aprovação é muito melhor do que a de Kicillof e Milei...

 


Enviada em: terça-feira, 8 de setembro de 2026 16:02
Assunto: THE ECONOMIST / Milei promete radicalizar reformas, mas experimento liberal perde popularidade

 

THE ECONOMIST

08set26

 

Milei promete radicalizar reformas, mas experimento liberal perde popularidade

Buenos Aires

The Economist

 

"Meu brinquedo favorito", diz Javier Milei, olhando para a motosserra dourada em seu gabinete na Casa Rosada, a sede da Presidência da Argentina.

"Há muito mais gastos a cortar e muitos mais impostos a reduzir", ele afirma, acrescentando que vai realmente mostrar a que veio assim que for reeleito no ano que vem.

Se as reformas até agora foram "mais do que tudo o que foi feito nos últimos cem anos na Argentina somados, garanto que o próximo pacote de reformas será muito mais profundo".

Ele promete que a Argentina vai abraçar a inteligência artificial como nenhum outro país e diz acreditar que isso pode ajudá-la a "se tornar uma potência mundial líder, como os Estados Unidos" em apenas 20 anos. Prepare-se para Milei 'recarregado', ele sorri.

Ainda assim, este é um momento delicado. Após herdar uma situação econômica terrível, Milei conseguiu reduzir a inflação e desregulamentar fortemente a economia.

Os eleitores recompensaram isso na eleição de meio de mandato do ano passado, mas hoje dizem aos institutos de pesquisa que se importam muito mais com perspectivas de emprego e salários do que com a inflação.

O crescimento econômico está em crise, e ainda faltam apenas 14 meses para que novas medidas políticas tragam resultados antes que ele enfrente as urnas em outubro do próximo ano.

Com sua aprovação pessoal profundamente negativa, há o risco de que um rival mais esbanjador da ala à esquerda do movimento peronista da Argentina, que defenda um Estado intervencionista, possa capturar o coração dos eleitores.

O experimento radical, que inspirou defensores do livre mercado pelo mundo, está em jogo. A grande questão para o próximo ano é se redobrar a aposta agressiva —o Milei "recarregado"— é o caminho para vencer a reeleição.

Ele pode se orgulhar de sucessos notáveis. Antes de assumir o cargo em dezembro de 2023, a inflação batia em 13% ao mês e os gastos do governo estavam fora de controle, financiados pela impressão de dinheiro.

Milei usou sua motosserra contra os gastos e entregou superávits fiscais. A inflação caiu, para cerca de 2% ao mês. Isso ajudou a reduzir a parcela de pessoas vivendo na pobreza em cerca de um terço, para 28%.

Os mercados estão muito mais contentes. O governo tem lidado com a dívida externa e, este ano, o BCRA (banco central argentino) tem comprado reservas em dólares de forma agressiva. Isso é facilitado pelo boom das exportações de petróleo.

Milei também reduziu a burocracia excessiva da Argentina. "Eliminamos 17 mil regulamentos", ele diz. No início deste ano, ele aprovou uma reforma trabalhista abrangente.

O presidente continua sendo um otimista convicto com a tecnologia. A IA "só pode fazer o bem; o único mal que pode ser causado é se os Estados interferirem", afirma. A teoria econômica "prova" isso.

Ele quer conceder plenos direitos legais às empresas administradas exclusivamente por IA. "Por que eu deveria discriminá-las?", questiona —embora o projeto de lei que empodera a IA pareça exigir alguma intervenção humana.

O alinhamento estreito com o governo Trump também deu resultados. Antes das eleições de meio de mandato do ano passado, com os peronistas gastadores indo bem nas pesquisas, o peso argentino estava sob tanta pressão que o banco central gastou mais de US$ 1 bilhão em dois dias tentando impedir a queda da moeda.

Trump veio ao resgate com uma linha de swaps de US$ 20 bilhões e compras diretas pelo Tesouro de pesos argentinos. A moeda se estabilizou, ajudando o partido de Milei a transformar uma provável derrota dolorosa em uma vitória expressiva.

Milei demonstrou pragmatismo em relação à China, grande parceiro comercial. Antes de assumir o cargo, ele vociferou contra a liderança chinesa, classificando-a de "assassina". Agora, se derrete ao dizer que "trabalhar com os chineses é muito agradável".

Isso valeu a pena. No mês passado, a China estendeu uma linha vital de swaps de US$ 19 bilhões com o banco central argentino. Ele diz que não pediram nada em troca.

E ainda assim, Milei tem problemas. A economia está a caminho de um segundo ano consecutivo de crescimento, algo raro na Argentina; mas em um ritmo mais lento do que o planejado.

Seu governo havia previsto um crescimento de 5% este ano, mas após vários meses de contração, a maioria dos analistas espera quase metade disso.

O crescimento está concentrado em setores como hidrocarbonetos, mineração e agricultura, que não são intensivos em mão de obra. A atividade econômica em setores mais importantes, como manufatura e construção, ainda é pelo menos 10% menor do que quando Milei assumiu o cargo.

Em parte, isso se deve ao fato de Milei estar expondo as fábricas protegidas da Argentina à concorrência estrangeira. Isso faz sentido, mas a transição é dolorosa.

"É como se estivéssemos financiando nossa própria autodestruição", diz Martín Rapallini, chefe da associação industrial argentina, que defende uma reforma fiscal ampla que Milei nem sequer tentou.

O resultado é 230 mil empregos formais a menos no setor privado do que em 2023, uma queda de 3,6%. Ele se gaba de ter cortado 86 mil cargos no setor público.

A taxa de desemprego aumentou apenas dois pontos percentuais porque as inscrições no âmbito de um regime tributário para pequenos empresários de baixa renda aumentaram acentuadamente. O trabalho informal também cresceu. "Também é trabalho", retruca Milei.

Salários são outra preocupação. No setor privado formal, eles ainda estão abaixo do que eram quando Milei assumiu o cargo. No setor público, eles são dramaticamente menores, fato que o presidente celebra.

Muitos argentinos estão enfrentando dificuldades. Quase 6 milhões de pessoas estão com dívidas atrasadas há mais de 90 dias. Taxas de juros altas e voláteis não ajudam.

Para combater a inflação, o banco central manteve a oferta monetária restrita e interveio para conservar o peso forte. Mas isso prejudica o crescimento porque limita o crédito. Também prejudica a manufatura, tornando as importações rivais mais baratas e as exportações caras.

Milei, concentrado em combater a inflação, simplesmente nega que seus esforços tenham qualquer custo para o crescimento da Argentina.

Esse foco em um único problema pode diminuir os retornos eleitorais. Quando o presidente argentino assumiu o cargo, os eleitores classificaram a inflação como seu principal problema, de longe. Atualmente, ocupa a oitava posição; a falta de empregos e os baixos salários estão no topo da lista.

Os eleitores também estão insatisfeitos com uma série de escândalos de corrupção em seu governo. Sua aprovação se aproxima dos 30%.

Isso parece estar irritando Milei. Ele ficou furioso com jornalistas argentinos por questionarem suas conquistas econômicas e escreverem sobre os supostos casos de corrupção. "Merda humana" é um de seus insultos favoritos para os jornalistas.

Ele pode atacar a imprensa várias vezes ao dia nas redes sociais. Quando questionado sobre economia na pergunta inicial da entrevista a The Economist, sua resposta incluiu ataques à mídia argentina "verdadeiramente vergonhosa" e suas mentiras "arrepiantes".

Seus aliados temem que essa agressividade esteja afastando os eleitores. "Eu não justifico, eu não faço isso", diz Patricia Bullrich, uma das principais senadoras de seu partido.

Com dificuldades internas, Milei parece cada vez mais tentado pelos assuntos externos. Desde que assumiu o cargo, visitou os Estados Unidos cerca de 17 vezes e Israel três vezes, mas ainda não visitou 8 das 23 províncias da Argentina. 

No entanto, viajar não parece divertido para Milei. No vizinho Brasil, em um comício de campanha para Flávio Bolsonaro (PL), candidato de direita na eleição presidencial, ele se referiu ao atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como "ladrão" e "condenado".

O Brasil, maior parceiro comercial da Argentina, retirou seu embaixador em resposta. Milei não se arrepende. "O comunista Lula", diz, "contaminou todo o continente com o socialismo do século 21".

Em 3 de setembro, em um pronunciamento televisionado, ele intensificou sua retórica sobre as reivindicações da Argentina às Ilhas Malvinas, no que parece um esforço grosseiro para mobilizar apoio.

Será que preocupações com o emprego e a queda das pesquisas podem provocar mudanças antes das eleições? "Não vou parar de fazer o que é certo só pelo resultado da eleição", ele responde.

"Se o povo argentino decidir virar as costas para o modelo de liberdade porque eu permaneci fiel às minhas convicções... bem, isso depende do povo argentino."

As fortes convicções do Sr. Milei estão por trás de grande parte de seu sucesso, mas ele não alcançará uma reforma duradoura sem um segundo mandato.

Ele insiste que suas políticas centrais em breve impulsionarão o crescimento e os salários. Ainda assim, seu governo recentemente fez várias pequenas mudanças que parecem particularmente favoráveis ao crescimento: permitir que as taxas de juros caiam um pouco, usar o fundo de pensões dos argentinos para ajudar os bancos a reduzir as taxas de financiamento imobiliário e permitir que os bancos emprestem mais em dólares do que em pesos.

Milei diz que está apenas "liberando restrições". Seja o nome que isso tenha, se oferecer melhores salários e mais empregos, os eleitores vão gostar mais dele.

A salvação de Milei pode ser seus rivais. O principal provável desafiante é Axel Kicillof, atual governador peronista da província de Buenos Aires.

Ex-ministro das finanças profundamente associado a excessos de gastos passados, sua taxa de aprovação é tão ruim quanto a de Milei. Kicillof insiste que, no momento, não é candidato, mas mesmo assim se esforça para destacar os problemas econômicos.

Ainda assim, sua própria economia pouco ortodoxa aterroriza os mercados e assusta muitos eleitores. Ele não aceita que a principal causa da inflação no passado tenha sido a emissão de dinheiro. Em vez disso, diz que a conjuntura é "muito complexa".

Os peronistas também estão divididos. Sergio Massa, que perdeu para Milei nas últimas eleições, pode tentar novamente. Juan Grabois, um deputado inflamado, também pode concorrer. Ele promete justiça social financiada por impostos dramaticamente mais altos sobre os ricos. "Você não precisa temer Axel [Kicillof]," ele ri, "você tem que me temer, tem que temer Myriam Bregman."

Bregman é uma trotskista de alto perfil, à esquerda até mesmo dos peronistas. Surpreendentemente, sua aprovação é muito melhor do que a de Kicillof e Milei.

Com os principais candidatos sendo tão impopulares, outros nomes também estão de olho nas eleições. Hernán Lacunza, um ex-ministro das finanças de centro-direita, oferece uma economia no estilo Milei, mas sem os palavrões do presidente.

Governadores provinciais e pastores pentecostais que aparecem na televisão estão sondando o terreno. Milei ainda é o favorito. Mas, enquanto a economia cambaleia, a situação parece desconfortavelmente apertada.

The Beginning of the End of History: The story of an essay - Francis Fukuyama (Persuasion)

 The Beginning of the End of History
The story of an essay.
FRANCIS FUKUYAMA
Persuasion, September 8, 2026

Today marks the publication of Francis Fukuyama’s new memoir In the Realm of the Last Man.

I composed my essay “The End of History?” sitting in my in-laws’ house in Las Vegas in the winter of 1988–89. I was preparing for a lecture at the University of Chicago organized by Allan Bloom and Nathan Tarcov at the Committee on Social Thought. Bloom was habitually pessimistic about the ability of Western liberal democracies to defend themselves, and the overall rubric of the lecture series was “The Decline of the West.” I told Bloom I was happy to participate, but that I would have a more optimistic take on what was going on in the world. He said that was fine, and I gave my talk a year before the fall of the Berlin Wall. Owen Harries, an Australian former ambassador, was the new editor of a small magazine founded by Irving Kristol called The National Interest. He had lunch with me at the Beverly Hills Hotel that winter and asked whether I had anything to contribute. I told him about my upcoming lecture, and he promised to publish the written version, which came out in the summer of 1989. The phrase “the end of history” was not my invention; rather, it was central to the thought of the philosopher Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Hegel was the first explicitly historicist philosopher; that is, a philosopher who argued that human thought and institutions were not fixed but evolved over historical time, and that the “truth” of a particular assertion needed to be judged in relation to the historical era in which it was articulated. We may not believe in the legitimacy of monarchy or slavery today, but there were certainly times in the past when many people did support such ideas. The fact that we believe in democracy and equal rights today is testimony to the reality of “History” in Hegel’s sense.

The idea that human societies evolved over time was something that took root only in modern times. Both Plato and Aristotle argued that there was a cycle of regimes that succeeded one another, but this led to cyclical change that simply reproduced previous forms of government in succession. The idea that history was progressive, that it had a beginning point in primitive societies but moved toward more complex and advanced ones, was adumbrated by Jean-Jacques Rousseau in his Discourse on the Origin of Inequality under the heading of “perfectibility.” His description of “man in the state of nature” was not simply a thought exercise, as it was for Thomas Hobbes, but an actual effort to describe human behavior that drew on what Europeans at that time knew about non-Western societies. Europeans were aware of the existence of other sophisticated societies, such as those of Islam and China, but the opening up of the New World suggested societies differed in what we would today call their level of development. Hegel simply systematized the idea of History and provided an intellectual structure for understanding what drove that evolution.

The notion that societies evolve over historical time in a progressive fashion is tacitly accepted by almost everyone today, whether they self-consciously understand that fact or not. The idea of a Hegelian history is embedded in our words “development” and “modernization.” Organizations such as the former US Agency for International Development (USAID) and the International Bank for Reconstruction and Development (i.e., the World Bank) were both dedicated not to simply helping poor countries become rich, but to helping them create modern institutions that make life more secure and predictable.

The most important intellectual to accept and then modify Hegel’s concept of history was Karl Marx. Hegel argued that history had evolved into the modern liberal state in the wake of the French Revolution. Marx criticized Hegel’s understanding of the end of history and argued that the true end of the human development story would be a Communist utopia. This would come only after the working class rose up and displaced the bourgeoisie, establishing a dictatorship of the proletariat. At the Marxist end of history, the alienation brought on by the capitalist division of labor would be abolished and human beings would be able, as Marx said in The German Ideology, “to hunt in the morning, fish in the afternoon, rear cattle in the evening, criticize after dinner.”

My particular understanding of Hegel did not come directly from Hegel but from Hegel’s twentieth-century interpreter, the Russian-French philosopher Alexandre Kojève. Kojève taught an extremely influential seminar on Hegel’s Phenomenology of Spirit in Paris in the late 1930s that was attended by many luminaries who would go on to become major figures in the French postwar intellectual firmament: Georges Bataille, Raymond Queneau, Jacques Lacan, André Breton, Éric Weil, Maurice Merleau-Ponty, and Raymond Aron. He had an extended dialogue with Leo Strauss on philosophy and tyranny, and got to know Allan Bloom as well. Kojève’s lectures were later transcribed and published as Introduction to the Reading of Hegel.

Kojève of course accepted Hegel’s historicism, but he made historical progress revolve around a critical human characteristic: the desire for recognition. Human beings do not simply desire material resources such as food, clothing, and shelter; they also crave the respect or recognition of other human beings. This struggle for recognition results in bloody battles at the beginning of history as individuals seek dominance; those who achieve it become masters, while the losers become slaves. But neither the master nor the slave finds his desire for recognition fully satisfied: the slave for obvious reasons, but the master as well because he is recognized not by another master but by a slave.

In Kojève’s account, human beings are unique insofar as they seek recognition for their willingness to risk their lives in a bloody battle. Other creatures in nature are instinctively programmed to preserve their own lives or the lives of their offspring; only human beings are willing to risk their biological lives for the sake of recognition alone, as opposed to, say, the material spoils that come as a result of victory in war.

In this respect, Kojève’s human being is similar to that of his predecessor Immanuel Kant. Kant believed that what made human beings distinctive was their possession of moral will, an ability to choose right or wrong that was ultimately not subject to the laws of physics. Human beings therefore had to be treated as ends in themselves rather than as a means to other ends. But in Kojève’s interpretation of Hegel, masters cannot achieve the satisfaction of recognition until they realize that this will come only with the equal and mutual recognition by fellow citizens. My particular gloss on Kojève/Hegel was that this could only come about in a modern liberal state, where the equal and mutual recognition of all citizens was guaranteed by a rule of law that granted them basic rights. The liberal state was legitimate and stable not necessarily because it distributed material rewards equally, but because it provided equal recognition and thus satisfied the thymotic side of human striving.

In his Introduction to the Reading of Hegel, Kojève playfully asserted that history ended in 1806 at the Battle of Jena-Auerstedt, where Napoléon defeated the Prussian monarchy. The idea that history ended that year, prior to all of the huge political upheavals that followed in the two subsequent centuries—Italian and German unification; the American Civil War; the colonization and later decolonization of much of the non-European world; two World Wars; the Holocaust; revolutions in Russia, China, Iran, and elsewhere—is on the face of it much more absurd than an assertion that it ended in 1989 or 1991 when Communism collapsed. But what Kojève meant by this was summed up in the following passage from his lectures on Hegel:

What has happened since then [i.e., the Battle of Jena] has been nothing but an extension in space of the universal revolutionary force actualized in France by Robespierre-Napoleon. From the genuinely historical perspective, the two World Wars with their train of small and large revolutions have only had the effect of bringing the backward civilizations of the outlying provinces into line with the (really or virtually) most advanced European historical stages . . . It might even be said that, from a certain point of view, the United States has already reached the final stage of Marxist “communism,” since all the members of a “classless society” can, for all practical purposes, acquire whatever they please, whenever they please, without having to work for it any more than they are inclined to do.

With the defeat of the Prussian monarchy in 1806, Napoléon brought to the core of old Europe the Code Napoléon, the modern legal framework coming out of the French Revolution. The latter established the underlying principles of a modern liberal order, namely, the two principles of liberty and equality, or the equality of liberty. Obviously, these principles were nowhere truly implemented. As Napoléon was advancing in central Europe, for example, the French colonial authorities were putting down a slave revolt led by Toussaint Louverture in Haiti; colonization of Algeria and Vietnam were still decades in the future. But Kojève’s point was that once the idea of universal freedom got out, it was only a matter of time before those principles became accepted and practiced around the world. Toussaint himself had started his uprising, for example, under the banner of the Rights of Man and Citizen that had been recently declared in Paris. So there were rearguard actions to defend the old order everywhere, but in the end they would not stop the march of the idea of liberty, or of the equality of liberty.

The implication of this understanding of Kojève/Hegel was that no amount of “stuff happening” out in the real world of global politics could by itself falsify the notion that history had ended, whether in 1789, 1806, or 1989. The actual diffusion and spread of the ideas of liberty and equality have been very uneven both temporally and geographically since the French Revolution. The real question had to be understood not just in terms of the flow of day-to-day events around the world, but on the level of ideas: Was there an alternative set of principles upon which a different society could be based that were fundamentally at odds with those of the French Revolution? And were there societies built around those ideas that looked like they were sustainable, and would satisfy the wishes of their inhabitants better than existing liberal democracies built around those principles?

These would be the grounds for a serious refutation of Kojève’s assertion that history had ended.

The original essay “The End of History” appeared in The National Interest in the summer of 1989, when I had started working as a Deputy Director of the State Department’s Policy Planning Staff under my old colleague Dennis Ross. The Berlin Wall came down a few months later, on November 9, and set in motion a series of events that would lead to the dissolution of the former Soviet Union two years later. The emergence of a Europe “whole and free,” as George H. W. Bush put it, was the greatest geopolitical event of my lifetime, and vindicated the historical direction I had pointed to in the article.

Today’s ideological landscape is obviously far more fragmented than it was thirty-five years ago. There is today far more consensus on the democratic side of liberal democracy than there is on the liberal part. While there are obviously huge remaining social inequalities in many societies, few try to assert that there are reasons why a certain subgroup of people have an intrinsic right to rule over others. The PRC is a dictatorship, but the Chinese Communist Party claims a right to rule because it believes it represents the people: it is the People’s Republic of China. Ethno- and religious nationalism have been on the rise in recent decades. Most of these groups represent rearguard efforts to protect perceived privileges, rather than assertions of the inherent inequality of groups. In the United States, we’ve seen the ugly return of earlier forms of racism and misogyny. But groups taking such positions do not seem poised to systematically overturn the Declaration of Independence’s assertion that “all men are created equal.”

What has been under much more sustained attack in recent years is the liberal part of liberal democracy; that is, the idea that governments should be constrained in their powers by a rule of law and constitutional checks on state power. Much of the democratic backsliding we’ve seen over the past decade has in fact been driven by groups claiming to represent “the people,” whose democratic legitimacy gives them the right to dismantle the constraints imposed by liberal restrictions on state power. Hence Viktor Orbán’s claim to be presiding over an “illiberal democracy.”

Support for liberalism, as opposed to democracy, has always been more fragmented and episodic. The reason for this, as I explained in Liberalism and Its Discontents, is that one of its important justifications is a pragmatic one concerning the management of political diversity, rather than any deep commitment to the liberal principle. Support for liberal constraints on state power is often derived from the experience of authoritarian government and the wars and privation that the latter often entail. So seventy years of relative peace and prosperity can lead to a broad forgetting of what illiberal rule can bring.

Liberalism also raises the problem of the Last Man, which is not a contingent but an intrinsic issue buried in the heart of the doctrine. This requires further discussion.

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Francis Fukuyama is the Olivier Nomellini Senior Fellow at Stanford University. His latest book is In The Realm of the Last Man. He is also the author of the “Frankly Fukuyama” column, carried forward from American Purpose, at Persuasion.

From In the Realm of the Last Man. Used with permission of the publisher, Farrar, Straus & Giroux. Copyright © 2026 by Francis Fukuyama.

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