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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"A estratégia global do Brasil em um mundo em transformação” - discurso do ministro de Estado das Relações Exteriores

 Palestra do Ministro Mauro Vieira na 7ª Conferência Raffles do IISS - "A estratégia global do Brasil em um mundo em transformação”

Singapura, 8 de setembro de 2026
Publicado em 08/09/2026 00h00Atualizado em 08/09/2026 11h39

Excelências, senhoras e senhores,

É uma grande honra para mim proferir esta palestra e um privilégio especial que esta prestigiosa edição receba, pela primeira vez, um palestrante da América Latina.

Fui convidado a falar sobre a política externa brasileira e sua estratégia global em um mundo em transformação.

Mas, antes de entrarmos nos detalhes, é importante que saibam de onde falo, pois nossa posição no mundo condiciona as possibilidades de nossa atuação.

Em abril de 1500, uma frota portuguesa a caminho das Índias desembarcou na costa do que viria a ser o meu país. O Brasil entrou para a história como um incidente no contexto de uma rota a caminho da Ásia.

Durante séculos, foi o que permanecemos sendo, em linhas gerais, deste lado do mundo: um ponto de passagem, um fornecedor, mas não um interlocutor.

Muita coisa mudou desde então. E é isso vim lhes contar.

Para começar, o Brasil vem do Sul. E, por Sul, não me refiro a um conceito puramente geográfico, mas a uma realidade geopolítica.

O Brasil é uma nação em desenvolvimento, empenhada em traçar seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento, em meio a uma ordem global em desordem.

Como uma das principais vozes do Sul Global, o Brasil nunca se esquivou de criticar as falhas e limitações da ordem internacional.

Estamos plenamente conscientes, contudo, de que, com todas as suas deficiências, as instituições internacionais construídas após a Segunda Guerra Mundial conseguiram criar um regime multilateral que proporcionou, de modo geral, respeito à soberania, garantias à integridade territorial, um sistema de segurança coletiva centrado nas Nações Unidas e uma visão de prosperidade por meio de um sistema multilateral de comércio baseado em regras.

Embora imperfeita, a arquitetura do pós-guerra permitiu que os países em desenvolvimento construíssem suas próprias trajetórias sem temer a lei do mais forte. Ao longo de mais de oito décadas, ela promoveu o desenvolvimento, fortaleceu o direito internacional, avançou os direitos humanos e contribuiu para pôr fim ao colonialismo. Muito poucos entre nós conseguem lembrar-se de um mundo sem as Nações Unidas.

De 1945 até o final do século XX, as desigualdades tanto entre os países quanto no interior deles diminuíram. Segundo o Banco Mundial, a participação dos países de baixa e média renda no produto interno bruto mundial aumentou de 20% em 1960 para 35% em 2025. Em paridade do poder de compra, essa participação é ainda maior, chegando a 53% do PIB global.

No mesmo período, o PIB do Brasil passou de meros 17 bilhões de dólares para 2,28 trilhões de dólares, quase dobrando sua participação na produção econômica global. Hoje, o Brasil é a oitava maior economia do mundo.

Hoje, sinais de ruptura estão por toda parte e já não podem ser ignorados. Ao longo dos 50 anos de minha carreira diplomática, nunca houve uma ameaça tão real às regras e aos princípios que regem o comportamento dos Estados quanto a que estamos testemunhando.

O que está em jogo agora não é a crise passageira de uma instituição, mas a própria ideia de que as relações entre os Estados devem ser regidas por regras, e não pela força. Violações à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão tornando-se a regra, e não a exceção.

O paralelo entre as crises do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia é claro. Como uma jovem nação democrática, reconstruída em 1985 após 20 anos de ditadura militar, o Brasil não pode deixar de levantar sua voz enquanto forças antidemocráticas buscam enfraquecer instituições e restringir liberdades em todo o mundo.

Na frente econômica, acompanhamos com preocupação uma tendência à “desglobalização”. Políticas protecionistas, fragmentação comercial, barreiras não comerciais e a desestruturação das cadeias de suprimentos ameaçam aprofundar os desequilíbrios globais.

Como um país do Sul, o Brasil acredita que é chegado o momento de uma reforma efetiva e abrangente da governança global.

Talvez esta crise tenha vindo para demonstrar que as instituições mundiais não têm outra opção senão evoluir para acomodar perspectivas diversas, assegurando que as nações em desenvolvimento não sejam atores passivos, mas arquitetas ativas do futuro.

Retirar-se das instituições internacionais não é uma forma de reformá-las; é abdicar da responsabilidade de fazê-lo.

Em diferentes foros, o Brasil vem defendendo uma nova visão para a governança global — uma visão que priorize inclusão, equidade e cooperação em lugar de hegemonia, desigualdade e unilateralismo.

Como membro fundador do BRICS, o Brasil está firmemente convencido de que o grupo tem uma grande responsabilidade na conformação da ordem global para as próximas décadas. O BRICS, assim como o Brasil, é uma força de mudança positiva na política mundial.

Continuamos acreditando no valor fundamental de um sistema multilateral baseado em regras. A atual paralisia da Organização Mundial do Comércio já não é sustentável. A OMC precisa, sim, de uma reforma — urgente e profunda. Uma reforma que reflita melhor os interesses das nações em desenvolvimento, restaure seu órgão de solução de controvérsias e adapte a organização às novas realidades econômicas.

No campo das finanças internacionais, as instituições de Bretton Woods desempenharam funções importantes ao longo de décadas, mas suas estruturas de governança não acompanharam as mudanças da economia global. As economias emergentes contribuem cada vez mais para o crescimento mundial, mas sua voz nessas instituições continua desproporcionalmente limitada.

O Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS é uma prova de que as economias emergentes podem construir suas próprias instituições, governadas de maneira equitativa, concebidas de forma inclusiva e orientadas para os desafios de desenvolvimento que as instituições mais antigas frequentemente negligenciaram.

Como afirmou recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres: “as superpotências precisam entender que as coisas mudaram, que o peso de diferentes países mudou. É hora de as superpotências compreenderem os limites de seu poder”.

Um mundo multipolar que promova paz e prosperidade não deve ser confundido com um mundo de esferas de influência. Um verdadeiro mundo multipolar é um mundo cooperativo.

Caros amigos,

Para melhor situar o Brasil no mundo, comecei enquadrando nossa posição como um país do Sul, cujas principais armas são nossa confiança no direito internacional e na estabilidade da ordem mundial.

Mas o Brasil é também um país da América do Sul, e sua geografia é fundamental para compreender os limites e as possibilidades de nossa política externa e de nossa projeção global.

Há muito vista como parte de uma esfera de influência que abrangia a totalidade das Américas, a América do Sul historicamente enfrentou dificuldades para alcançar independência política.

Nas últimas quatro décadas, o Brasil dedicou uma parcela considerável de seus esforços diplomáticos à integração regional.

Nossa doutrina regional é de integração colaborativa com os vizinhos, e não aquela que remonta ao século XIX e busca estabelecer uma esfera de influência e transformar nações soberanas em protetorados.

O melhor exemplo dessa abordagem é o MERCOSUL, composto por Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, que é o mais ambicioso bloco de integração econômica de toda a América Latina, um mercado de quase 300 milhões de pessoas e com um PIB combinado superior a 3,1 trilhões de dólares.

Em um momento em que o cenário do comércio global se torna cada vez mais desafiador, com o aumento do protecionismo, o fechamento de mercados e medidas comerciais unilaterais, o Brasil e o MERCOSUL estão conduzindo uma agenda externa muito ativa.

Diante desse cenário de crise, escolhemos seguir na direção oposta: preservar e ampliar a abertura comercial e diversificar nossas parcerias econômicas.

Na verdade, o Brasil está convencido de que a América do Sul, como região, tem muito a ganhar com uma estreita cooperação com atores extrarregionais.

Nos últimos três anos, o MERCOSUL assinou acordos de livre comércio com Singapura, em 2023, com a Associação Europeia de Livre Comércio, o EFTA, e com a União Europeia, o que criou uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com quase 700 milhões de pessoas. A parcela do comércio exterior brasileiro abrangida por acordos comerciais aumentará de 12% para 31,2%.

A entrada em vigor do Acordo MERCOSUL-Singapura, em 1º de agosto, é um marco muito importante. Agora precisamos assegurar que as oportunidades criadas pelo acordo se traduzam em maiores fluxos comerciais, oportunidades de investimento e relações empresariais.

Ao mesmo tempo, estamos olhando para a próxima onda de acordos comerciais. Três das quatro negociações em andamento são com parceiros asiáticos — Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Japão — além das negociações, bastante avançadas, com o Canadá. As discussões também avançam para ampliar nosso atual acordo preferencial de comércio com a Índia, e estamos explorando a melhor forma de retomar as negociações com a Coreia do Sul.

Essa abordagem universalista — respaldada por uma tradição de política externa independente — é precisamente o que permite ao Brasil ser, ao mesmo tempo, um parceiro próximo dos Estados Unidos, da China e da Europa, sem que nenhuma dessas relações condicione as demais. Poucos países estão em posição de fazer o mesmo.

No ano passado, o comércio exterior brasileiro alcançou 629 bilhões de dólares, e recebemos cerca de 77 bilhões de dólares em investimento estrangeiro direto, o terceiro maior volume do mundo. Em um período de dois anos, sediamos o G20, a Cúpula do BRICS e a COP30. Estamos presentes em todos esses arranjos, mas não estamos subordinados a nenhum deles.

Aqui em Singapura, esse raciocínio exige pouca explicação. Há seis décadas, Singapura defende que potências médias e pequenas não devem ser obrigadas a escolher lados, e que o sistema multilateral é mais importante para países como os nossos, porque um mundo organizado pela rivalidade não atende aos interesses de países em desenvolvimento que prezam por sua independência.

A estratégia global do Brasil segue o mesmo raciocínio, formulado do outro lado do mundo.

Assim como Singapura e sua notável estrutura diplomática — cuja sofisticação eu mesmo tive o prazer de testemunhar de perto quando fui Embaixador junto às Nações Unidas —, recusamo-nos a escolher lados. Falamos com todos. Atravessamos as fronteiras entre partes diferentes, e às vezes opostas. É isso que o Brasil entende por universalismo.

Por mais de cem anos, os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2009, a China assumiu essa posição e nela permanece até hoje.

Em 2025, o comércio bilateral com a China ultrapassou 170 bilhões de dólares, um recorde pelo oitavo ano consecutivo, e um valor próximo à soma de nosso comércio com os Estados Unidos e a União Europeia, respectivamente nosso segundo e terceiro maiores parceiros.

A China compra mais de um quarto de tudo o que o Brasil vende ao exterior e fornece um quarto de tudo o que compramos.

Em 2025, o Brasil foi o maior destino individual de investimento direto chinês em qualquer lugar do mundo: 6,1 bilhões de dólares, em 52 projetos, distribuídos por 20 dos nossos 27 estados. Isso corresponde a 11% de todo o capital chinês investido no exterior, à frente dos Estados Unidos.

A composição desses investimentos importa mais do que seu volume. Entre 2023 e 2025, a indústria manufatureira tornou-se o segundo maior setor para os investimentos chineses no Brasil, superando o petróleo e a mineração. A BYD e a Great Wall Motors estão produzindo veículos no Brasil; outras empresas estão seguindo o mesmo caminho; e esses veículos se destinam ao nosso mercado e ao mercado sul-americano.

Estamos abertos ao capital chinês e à tecnologia chinesa em um grau que poucas economias de nosso porte estão. Em troca, esperamos fábricas, e não apenas contêineres; cadeias produtivas que se estabeleçam no Brasil; engenheiros formados no Brasil; e um mercado chinês aberto aos produtos brasileiros que tenham valor agregado.

“Uma relação dessa magnitude limita a liberdade de ação do Brasil?”, perguntam algumas pessoas. Certamente não, pois não se trata de uma relação exclusiva, e esse é precisamente o meu ponto nesta palestra: o Brasil está ampliando, simultaneamente, suas relações com a União Europeia, a Índia, a África e o Sudeste Asiático, ao mesmo tempo em que trabalha para preservar 203 anos de amizade e comércio com os Estados Unidos.

O que realmente buscamos é cooperação e diversificação. No mundo fragmentado de hoje, diversificar parcerias é uma espécie de seguro contra a instabilidade e a coerção econômica. É, de fato, a condição sine qua non para a independência.

Caros amigos,

Permitam-me apresentar agora outra característica definidora da posição do Brasil no mundo.

Além de vir do Sul e da América do Sul, a terceira coordenada que desejo enfatizar é que o Brasil é um país intrinsecamente pacífico.

Não temos disputa territorial com nenhum de nossos dez vizinhos imediatos. A última guerra que travamos na América do Sul terminou há mais de um século e meio.

Nossa própria Constituição Nacional estabelece que toda atividade nuclear em nosso território terá fins pacíficos.

A América Latina é, por sua vez, uma região livre de armas nucleares, conforme estabelecido pelo Tratado de Tlatelolco. Em nosso entorno estratégico, temos promovido consistentemente uma Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, a ZOPACAS.

A arma de escolha do Brasil é a diplomacia. Nosso excedente de poder é energia, alimentos e recursos naturais. Para nossa segurança nacional, dependemos do próprio sistema de segurança coletiva que hoje está sob pressão.

No ano passado, os gastos militares globais ultrapassaram 2,8 trilhões de dólares, um aumento de 41% na última década, com aproximadamente 60% concentrados em apenas cinco países. As despesas militares foram mais de 16 vezes superiores aos recursos destinados à assistência internacional ao desenvolvimento.

O que esses números revelam é a erosão da confiança entre as nações. O principal risco que enfrentamos é uma profecia autorrealizável: há um século, a militarização em meio à profunda desconfiança entre as nações nos levou a duas Guerras Mundiais.

E a maioria dos conflitos atuais ocorre no Sul Global. O aumento dos preços dos alimentos e da energia, bem como os custos indiretos das guerras, recaem fortemente sobre os países em desenvolvimento.

Nos últimos seis meses, o Estreito de Ormuz esteve fechado. Um quinto do petróleo e do gás do mundo foi interrompido ou está se movimentando de forma demasiadamente lenta. Os custos de frete e seguro aumentaram, e as consequências são sentidas nos mercados do Sudeste Asiático.

Paralelamente, e por razões completamente diferentes, medidas tarifárias unilaterais desestruturaram fluxos comerciais que o Brasil e diversas economias da ASEAN levaram décadas para construir.

Nenhum de nós causou esses acontecimentos, e ambos estamos pagando seu preço. Juntos, eles demonstraram que a concentração é uma vulnerabilidade, tanto em energia quanto em alimentos.

Nossa defesa da paz é, portanto, plenamente legítima. Construir pontes em vez de muros é uma tradição de longa data da diplomacia brasileira. Sempre fomos inequivocamente favoráveis ao diálogo, ao consenso e ao respeito ao direito internacional, em lugar de antagonismos artificiais e do unilateralismo equivocado.

Não aceitamos a ideia de que uma parceria com um país exija distanciamento ou mesmo hostilidade em relação a outro. Ao longo da história, já nos pediram mais de uma vez que escolhêssemos lados. Não o fizemos e não o faremos.

O Brasil vislumbra uma arquitetura de promoção da paz mais ampla e plural: maior capacidade de mediação das Nações Unidas, maior utilização dos instrumentos do Capítulo VI, cooperação mais estreita com organizações regionais e sub-regionais, uso melhor e mais sistemático da Comissão de Consolidação da Paz e plena implementação da agenda de Mulheres, Paz e Segurança nas Nações Unidas.

Como o Presidente Lula tem insistido desde o início de seu mandato, é hora de mudar a narrativa e trazer a paz de volta ao centro do debate internacional. Devemos isso a nós mesmos e também aos milhões de pessoas que vivem sob conflitos em todo o mundo.

Como o Brasil tem afirmado repetidamente, a composição do Conselho de Segurança das Nações Unidas já não corresponde à diversidade e ao dinamismo do nosso mundo. O mundo mudou muito desde 1945, quando as Nações Unidas tinham 51 membros fundadores; o Conselho de Segurança, não.

A virtual paralisia do Conselho de Segurança está contribuindo para a erosão da arquitetura internacional de paz e segurança que — com todas as suas falhas — impediu gerações de sofrerem o flagelo de uma guerra generalizada.

A reforma não é apenas uma questão de representação: é essencial para restaurar legitimidade e aumentar eficácia. Somente um Conselho de Segurança ampliado, tanto em assentos permanentes quanto não permanentes, será capaz de cumprir plenamente sua responsabilidade primordial pela manutenção da paz e da segurança internacionais.

Estou convencido de que os países do Sudeste Asiático, a partir de sua própria perspectiva, coincidem com o Brasil quanto à necessidade de construir instituições robustas de governança global baseadas no pleno respeito ao direito internacional e em um conjunto claramente definido de regras acordadas para a construção de consensos. Digo isso porque vocês já fizeram isso em nível regional, com a ASEAN. Permitam-me, então, voltar-me à ASEAN e a como ela se encaixa na estratégia global do Brasil em um mundo em transformação.

Permitam-me começar com alguns números, porque não são os números que a maioria das plateias espera.

Em 2025, o comércio entre o Brasil e os países da ASEAN alcançou 38,4 bilhões de dólares. Há duas décadas, era de aproximadamente 3 bilhões.

Ele se multiplicou por dez, a uma taxa sustentada de cerca de 12% ao ano, resistindo a cada mudança do ciclo das commodities.

Considerada como uma entidade única, a ASEAN é hoje o quinto maior parceiro comercial do Brasil, depois da China, da União Europeia, dos Estados Unidos e do MERCOSUL.

Um número merece atenção especial. No ano passado, nosso superávit comercial com a ASEAN caiu de 15,5 para 10,3 bilhões de dólares. Não porque vendemos menos, mas porque vocês nos venderam mais. Considero isso um número muito positivo. Um fluxo que se move em apenas uma direção é um mercado; um fluxo que se move em ambas as direções é uma parceria.

Nossa relação institucional avançou na mesma medida. O Brasil aderiu ao Tratado de Amizade e Cooperação em 2012, tornando-se o primeiro país latino-americano a fazê-lo.

Em 2022, a ASEAN aceitou o Brasil como Parceiro de Diálogo Setorial e, novamente, o Brasil foi o primeiro de nossa região. Em 2023, abrimos uma Missão dedicada à ASEAN em Jacarta, e continuamos sendo o único Parceiro de Diálogo Setorial a fazê-lo.

Em outubro passado, o Presidente Lula tornou-se o primeiro Chefe de Estado brasileiro a participar de uma Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur. Ficamos então extremamente satisfeitos ao ver a adesão de Timor-Leste, país com o qual compartilhamos uma língua e uma longa história comum, como o décimo primeiro membro da ASEAN.

Em janeiro deste ano, o Brasil formalizou seu interesse em tornar-se Parceiro de Diálogo da ASEAN. Enxergamos esse movimento como um próximo passo natural na consolidação de uma parceria que temos construído ao longo de décadas.

O que o Brasil tem a oferecer à ASEAN? Quatro coisas, em termos concretos.

Começarei pelos alimentos. O Brasil está entre os maiores exportadores de soja, carne bovina, carne de frango, açúcar e café. Somos um fornecedor confiável e contribuímos para a segurança alimentar e nutricional de muitas nações.

A segunda coisa é energia, e aqui refiro-me a muito mais que petróleo. Ao longo do último meio século, o Brasil construiu uma das maiores indústrias de bioetanol do mundo e uma frota nacional de veículos adaptada a ele.

A maioria dos países da ASEAN já possui mandatos de biocombustíveis em vigor. Podemos oferecer tecnologia e experiência regulatória e encurtar a curva de aprendizado, nem que seja apenas mostrando quais de nossos próprios erros poderiam ser evitados.

O terceiro é a indústria. O Brasil possui reservas estratégicas dos minerais necessários para a transição energética e para a economia digital, e temos nossa própria indústria aeroespacial, liderada pela EMBRAER.

Nosso interesse é processar e fabricar em casa, em vez de exportar commodities e comprar de volta produtos industrializados. Acredito que esse seja um interesse que compartilhamos com muitos países desta região.

O quarto são as florestas — e o financiamento das florestas. O Brasil e o Sudeste Asiático detêm a maior parcela das florestas tropicais remanescentes do mundo.

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado na COP30 em Belém, em novembro passado, foi concebido precisamente para países como os nossos, e tenho a satisfação em lembrar que, desta região, a Indonésia esteve entre seus investidores fundadores. O TFFF é, de fato, um marco no campo dos mecanismos inovadores para a preservação do meio ambiente, uma vez que não consiste em uma doação, mas em um investimento no futuro do planeta, remunerado a taxas de mercado e com os países em desenvolvimento na liderança.

O Brasil deseja tornar-se um Parceiro de Diálogo pleno da ASEAN, e não consideramos isso uma mera formalidade. Dos doze Parceiros de Diálogo da Associação, nenhum vem da América Latina, do Caribe ou da África.

O Brasil está disposto e é capaz de preencher essa lacuna, com pleno respeito a uma decisão que cabe aos onze membros da Associação.

Não vemos ocasião melhor para abrir este novo ciclo de cooperação do que durante a presidência de Singapura da ASEAN em 2027, sendo Singapura nosso maior parceiro comercial no Sudeste Asiático e uma nação com um histórico de longa data, com quem mantemos relações bilaterais mutuamente benéficas, e com quem compartilhamos abordagens semelhantes no campo da política internacional.

Senhoras e senhores,

A presidência filipina da ASEAN escolheu para este ano o tema “Navegando Nosso Futuro, Juntos”. Para um país que entrou para a história moderna porque uma frota estava navegando em direção à Ásia, esse é um convite difícil de recusar.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa escreveu certa vez que o real não se encontra nem na partida nem na chegada, mas na própria jornada. O Brasil não está pedindo ao Sudeste Asiático que o escolha como destino. Estamos convidando vocês a fazer a jornada conosco.

Muito obrigado.


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