quinta-feira, 15 de outubro de 2026

OS VESTÍGIOS DA NOITE: as farras do ministro Kassio Nunes Marques patrocinadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro - Ana Clara Costa (revista Piauí)

 Interrompo minhas postagens mais acadêmicas ou diplomáticas, para prestar um serviço de utilidade pública: a limpeza do STF.

OS VESTÍGIOS DA NOITE
As 125 mensagens que reconstituem a noitada patrocinada por Daniel Vorcaro para o ministro Kassio Nunes Marques

Ana Clara Costa
Revista Piauí, 15 de outubro de 2026
Link: https://piaui.uol.com.br/web/kassio-vorcaro-triplex-noite/?utm_id=97757_v0_s00_e0_tv2_a1demoo5406jbh&fbclid=IwY2xjawU-E5RleHRuA2FlbQIxMABwZG9mBWJyaWQRMXc3d0hLc2ZXWHFXdkoycElzcnRjBmFwcF9pZBAyMjIwMzkxNzg4MjAwODkyAAEeEauRiVvks3wnA8CiEsqfON3nzUW_8EFJQGhY8bSl4hIGfHOdW6LnrvvGj1E_aem_2Jg1ecW_3WQGR2EOvrnL8g

Festeiro por vocação, mas sobretudo por estratégia para aliciar autoridades e outros poderosos em sua teia de favores e corrupção, o banqueiro Daniel Vorcaro decidiu dobrar a aposta no Carnaval de 2025, quando estreou como anfitrião na folia para exibir seu poder econômico então intacto. Mandou fechar um andar inteiro do Camarote Café de La Musique Alma Rio, na Marquês de Sapucaí, ao custo de 40 milhões de reais, além de bancar celebrações reluzentes no Parque Lage e em um casarão em Santa Teresa. Na sexta-feira que antecedeu a folia, dia 28 de fevereiro, porém, Vorcaro comandava uma outra festa, desta vez íntima e secreta, em seu tríplex no Itaim Bibi, um dos bairros mais ricos de São Paulo.
O que se passou nesse apartamento começou a vir à tona na manhã de 15 de setembro deste ano, quando os jornalistas Andreza Matais e André Shalders, do site Metrópoles, publicaram diálogos entre Vorcaro e uma agenciadora de garotas de programa. Nessas conversas, um homem de nome Kassio, grafado com K, assim como Kassio Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal, era fartamente citado. Rayanna, a agenciadora das garotas, escreveu ao banqueiro: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né? […] Ela disse que ficou com o kassio”. E completou: “Ela tá me cobrando aqui.” Vorcaro perguntou o valor. Rayanna respondeu – “10 né!” e mandou seu Pix.
Os diálogos vieram a público no dia da fatídica sessão do Supremo Tribunal Federal que discutiu o envolvimento de Alexandre de Moraes com o banco Master. Logo no início da sessão do STF, um desnorteado Kassio Nunes Marques, com quem o ministro André Mendonça contava para afastar Moraes, declarou que não participaria da votação. Disse que, na condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não queria contaminar sua posição de ministro encarregado de presidir a eleição que se avizinhava. Nada se falou do diálogo comprometedor.
A história ganhou mais um capítulo na última terça-feira, 13 de outubro, quando o portal UOL publicou que o encontro no tríplex de Vorcaro teve a presença de cinco garotas de programa. O texto da jornalista Daniela Lima mostrou que, no dia da festa no tríplex, Vorcaro escreveu para o ex-diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, dizendo que estava “fazendo graça para ministro em SP”. Outras mensagens, todas elas obtidas em um celular de Vorcaro apreendido pela Polícia Federal, contam mais detalhes sobre a noite. O mordomo Michael escreveu o seguinte para Vorcaro às 20h56 daquela noite: “Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”. Como coordenador da noitada, Vorcaro logo escreveu para Rayanna, a agenciadora das garotas, com uma instrução clara: “Só lembra que sem celular.”
Agora, surgiu mais um capítulo na história. A piauí teve acesso a um conjunto de 125 mensagens do celular de Vorcaro por meio das quais é possível entender como se deu a noitada. São conversas entre o banqueiro e sete interlocutores encarregados de organizar o encontro do ministro com as garotas. Vorcaro, preocupado em prestar o melhor serviço possível ao ministro, acionou dois motoristas, um chef de cozinha, o mordomo, a agenciadora de garotas de programa, uma faxineira e um amigo arquiteto requisitado para resolver problemas no tríplex.
É a primeira vez na história do Supremo Tribunal Federal que um ministro é flagrado recebendo favores sexuais patrocinados por um banqueiro cujo processo por uma gigantesca fraude bancária tramita na própria corte – e, num sinal eloquente de apatia ética, o tribunal até agora não tomou uma única providência sobre o caso. A situação só se agrava diante do fato de que o ministro em questão preside as eleições presidenciais e vem dando decisões claramente favoráveis ao candidato Flávio Bolsonaro, cujo pai indicou o ministro para integrar a corte. A decisão mais recente foi a derrubada do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pela militância do petista, feita de ofício, ainda que não houvesse maioria de votos em plenário nessa direção, nem mesmo o do próprio relator do caso, Ricardo Villas Bôas Cueva.
Desde a eclosão do escândalo do banco Master, apareceram conexões do ministro Nunes Marques com Vorcaro – e não apenas o fato de que a defesa do Master, por três ocasiões, pediu que o caso do banco ficasse nas mãos de Nunes Marques, e não de André Mendonça. Cinco meses antes da noitada, Nunes Marques desempatou na Segunda Turma do STF o caso Alcídia, estratégico para os precatórios do setor sucroalcooleiro que ajudariam a recompor o balanço da instituição de Vorcaro. Há mensagens mostrando como Vorcaro e seus advogados celebraram o desempate do ministro. Outra coincidência. A festa no tríplex ocorreu no período em que o Master transferia, em catorze operações, um total de 6,6 milhões de reais à Consult Inteligência Tributária. Desse valor, a consultoria repassou 282 mil reais diretamente a Kevin Marques, filho do ministro. Outras mensagens mostram que Vorcaro pagou um salário de 500 mil reais mensais para Kevin.
OS PREPARATIVOS
Os preparativos para a noite no tríplex começaram dois dias antes. Na madrugada de 26 de fevereiro, o desembargador Newton Ramos pediu ao agente de viagens de Vorcaro um quarto no Hotel Fasano, unidade do Itaim Bibi, do qual o banqueiro era sócio: “Essa sexta a sábado pro KN”, redigiu o desembargador do TRF-1, mencionando a sigla de “Kassio Nunes”. No mesmo dia, Vorcaro escreveu ao chef José Maria Meira: “Sexta churrasco animado”. Em seguida, mandou uma mensagem incompleta: “Com min e”. No dia seguinte, véspera da noitada, o chef foi às compras. Na casa de carnes deBetti, gastou 1.772 reais. Em outro endereço, comprou cinco latas de caviar a 15.100 reais, além de trufas. O total das compras feitas por Meira ficou em 21.121,90 reais. (Com a equipe recrutada, as despesas chegaram à casa dos 27 mil reais.)
Vorcaro também avisou ao amigo Kiko Sobrinho que iria “receber ministro aqui sexta”. Na véspera, os dois se confundiram sobre o endereço: Vorcaro disse que faria o almoço “na casa” e perguntou pela chave e pela segurança. Kiko entendeu que o banqueiro havia mudado o almoço do ministro para “a casa” e alertou que havia obras na piscina. Mas, às 23h07, o mal-entendido se desfez. Vorcaro determinou ao mordomo Michael que se apresentasse no dia seguinte, às 13 horas, na “Leo”, como era chamado o apartamento na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi. Às 11h14 da sexta, Michael informou que já seguia para lá para ajudar a preparar o churrasco. Mais tarde, Vorcaro mandou à agenciadora Rayanna o endereço do encontro.
Na sexta, dia da festança, Vorcaro passou ao chef o número de convidados (“São 15 pax”) e pediu reforço no serviço (“Vamos precisar garçon”). Rayanna, a agenciadora, avisou que não poderia ir, mas mandaria duas mulheres: “Eu mando elas irem e acerto com elas depois.” As mensagens não deixam claro se o próprio Vorcaro estava presente no imóvel em parte ou em todo o tempo, mas é certo que ele deu as cartas o tempo todo.
O conjunto das mensagens mostra o grau de preocupação de Vorcaro com todos os detalhes. Às 10h19 da mesma sexta-feira, ele já reclamava para Kiko das falhas em recursos tecnológicos do apartamento: “Cara, essas automações vão me matar um dia”. Em seguida, perguntou se alguém poderia ir à “Leo” consertar o controle automatizado dos ambientes. Pouco depois das 11 horas, disse que havia resolvido sozinho o problema. Às 12h44, disparou quatro mensagens seguidas: “Pelo amor de Deus. Tira aquele sofá da varanda leo. Tô passando vergonha. Melhor deixar sem nada. Ele é logo na entrada, primeira coisa que a pessoa vê”. Às 13h56, surgiu outra emergência: “Agora ar pifou”, escreveu Vorcaro, sobre o ar-condicionado. Kiko prometeu chamar uma assistência técnica.
As mensagens sobre preparativos seguiram até a chegada dos convidados. Às 14h04, um dos motoristas avisou: “Dr, começou chegar meninas. Pode liberar?” Vorcaro deu o aval: “Todas que chegarem. Pode subir.” Às 14h40, Vorcaro disse ao motorista que os convidados estavam chegando em um Ford Fusion preto e pediu que os recebesse. Em seguida, escreveu aquela mensagem a Rennó na qual se jacta de que estava “fazendo graça para ministro em SP.” O banqueiro ainda reclamou com o mordomo Michael que as janelas da sala estavam fechadas “parecendo enterro”. “Abre as janelassss!!!”, ordenou. Às 14h54, Michael avisou ao patrão: “Seus convidados subiu reparando bem na localização da sua casa e também avaliando o ap. Estão admirados.”
Depois de orientar a chegada dos convidados, Vorcaro aquietou-se. Passou mais de cinco horas sem enviar novas mensagens nas conversas relacionadas à festa analisadas pela piauí. Neste intervalo, porém, continuou no celular tratando dos problemas financeiros do Banco Master.
Naquela sexta-feira, a instituição corria contra o relógio. Às 16h31, um contato atribuído a um ex-diretor do Banco Central, Paulo Sergio Souza, escreveu: “Daniel, o banco está 800 mm no compulsório. Algum problema maior?” “Não, depois do carnaval vai regularizar tudo”, respondeu Vorcaro. “Fechamos já venda de carteira e captação nova. Na semana após o carnaval devemos ter incremento significativo de caixa”, disse. Vorcaro se referia ao fato de o banco ter usado o depósito compulsório, um valor que as instituições são obrigadas a depositar periodicamente no Banco Central, para garantir a liquidez do Master naquele dia. Ou seja, descumpria requisitos mínimos para operar no país. Àquela altura, o ex-banqueiro contava com a operação feita com o BRB, o banco estatal de Brasília, destinada a injetar capital no Master, e que viria a ser anunciada no mês seguinte.
À noite, a situação do banco estava mais complicada. O uso do compulsório do Master havia aumentado. Às 20h20, Vorcaro perguntou a Alberto Felix de Oliveira Neto, um de seus executivos, quanto a instituição havia usado. “1.250”, respondeu Alberto. Ou seja: 1 bilhão e 250 milhões de reais. Vorcaro ficou indignado: “Como assim Alberto. Estava 800. Vocês piraram.” Às 20h26, escreveu a Angelo Silva, outro executivo: “Demite Alberto. Vamos voltar eu e você e tentar salvar. O cara deixou o banco com -1.250.”
À noite, a festa voltou a ocupar o banqueiro. O mordomo Michael relatava a Vorcaro os mínimos detalhes do que transcorria no tríplex. Às 20h06, o banqueiro escreveu ao funcionário: “Vem aqui”. No mesmo momento em que discutia a situação do banco, recebeu de Michael a informação de que servira chocolate a um convidado: “Rapaz de preto está pedindo mais chocolate eu estou falando que não tem mais. Pois senhor já brigou comigo que não era pra dar.” Vorcaro respondeu: “Nunca mais faça isso.” Não fica claro de que doce estavam falando, mas na casa de Vorcaro era comum haver chocolate convencional, mas também outra variedade, feita com cogumelos alucinógenos. A censura do banqueiro – “nunca mais faça isso” – sugere que se tratava da droga.
Trinta minutos depois do aviso sobre o chocolate, chegara a hora de decidir sobre os quartos. Às 20h56, Michael avisou que havia emprestado um quarto ao ministro e a cinco mulheres. Disse que tentara ligar para pedir autorização, mas Vorcaro não atendera. Às 21h29, o banqueiro assentiu: “Claro. Qie sim”. Oito minutos depois, às 21h37, ele ordenou: “Só fecha meu quarto. E mostra o outro. Se vier o terceiro coloca sala tv”, escreveu ao seu ajudante de ordens. Às 22h08, a coisa ficou mais animada. A festa foi para outro ambiente. “Pessoal tudo pelado na piscina”, escreveu Michael. “Uma passou mal vomitou mais tá bem já.” Às 22h55, Vorcaro perguntou: “Pegou toalha pra eles”. Michael respondeu que sim e acrescentou: “Ministro tá sem pressa nenhuma de ir embora acabou de falar que está renovando para começar tudo novamente.” Às 23h15, novo aviso de Michael: “Ministro se organizando para ir embora já.” Às 23h17: “Indo embora ele.”
Às 23h24, o mordomo mandou uma foto para o banqueiro na qual aparecem três preservativos usados espalhados sobre um tapete. “Tô arrumando pra não deixar pra selma essas coisa”, escreveu, referindo-se à faxineira. Às 23h27, mandou outra foto. Desta vez, a imagem de uma calcinha de renda preta ligeiramente enrolada, entre o lençol e a fronha: “Essas menina é artista olha onde achei embaixo do travesseiro.” Vorcaro não respondeu ao comentário do mordomo. Na manhã seguinte, o banqueiro dispensou Selma (“Nao precisa vir hoje”).
A piauí procurou o ministro Kassio Nunes Marques com o pedido de alguns esclarecimentos: se foi à festa; se houve pagamento a alguma mulher presente; se ele considera que o episódio compromete sua atuação como relator do caso Master e do processo que pede a abertura da CPI do Master no Senado; se ele deveria reconhecer impedimento em relação a votos já proferidos no caso Master; se ele sente que existem condições para continuar como presidente do TSE diante das revelações.
Em resposta, o ministro Kassio Nunes Marques enviou uma nota que diz apenas o seguinte: “O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca trocou mensagens com ele e nem pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em nome dele e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”.

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Ana Clara Costa
Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época

Trajetória e produção intelectual de Paulo Roberto de Almeida, por Gemini (plus book list) - Paulo Roberto de Almeida

Trajetória e produção intelectual de Paulo Roberto de Almeida, por Gemini

  

Gemini e Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Avaliação sumária do papel de PRA como diplomata e intelectual, tal como examinada por Gemini, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz

 

Abstract: A short presentation of my professional work as a free-thinking diplomat, and my intellectual production as an academic, written by Gemini, as requested by Airton Dirceu Lemmertz, to which I have added a list of my published books. 

 

Introdução PRA:

Meu amigo informático Airton Dirceu Lemmertz solicitou ao Gemini que fizesse uma avaliação de minha trajetória e produção intelectual, tanto no plano da diplomacia, quanto no da academia. Não solicitei que isso fosse feito, mas tendo lido o resultado, como abaixo transcrito, creio que pode ser apresentado como um resumo relativamente fiável de meu papel profissional e acadêmico no último meio século, embora eu discorde do tom geral, uma vez que tenho plena consciência de que meu papel não teve a importância que se apregoa nesta avaliação altamente encomiástica. Meus livros, meus artigos, minhas reflexões dispersas em diferentes canais, sobretudo no Diplomatizzando, alcançaram pouquíssima repercussão, seja nos meios profissionais, seja nos meios acadêmicos, pois nunca me ocupei adequadamente de sua divulgação ou engajamento em debates públicos.

Em todo caso, agradeço a deferência que me prestada pelo ADL, e espero poder continuar a desempenhar um papel modesto na educação dos mais jovens, assim como eu aprendi muito na leitura atenta de obras memoráveis de intelectuais mais experientes e sobretudo mais influentes do que eu.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 15 outubro 2026.

 

A trajetória e a produção intelectual de Paulo Roberto de Almeida: diplomacia, história e o exercício do pensamento crítico:

A compreensão da inserção do Brasil no cenário internacional e a análise da evolução de sua política externa passam, obrigatoriamente, pelo exame da vasta e densa produção intelectual do embaixador, professor e cientista social Paulo Roberto de Almeida, amplamente identificado no debate público e nos ambientes virtuais pela sigla PRA. Longe de se acomodar no protocolo burocrático e na discrição convencional que historicamente caracterizam os membros do Serviço Exterior Brasileiro, Almeida consolidou uma das carreiras mais ricas, polêmicas e produtivas da diplomacia contemporânea, convertendo-se em um legítimo herdeiro da tradição dos diplomatas-intelectuais que ajudaram a pensar as estruturas fundamentais do Estado nacional. Sua jornada combina uma sólida bagagem acadêmica obtida em prestigiosas instituições europeias — incluindo a licenciatura e o doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Livre de Bruxelas e o mestrado em Economia e Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia — com uma vivência prática nas engrenagens do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, que serviu de matéria-prima para uma reflexão obstinada e sistemática sobre a história diplomática e a inserção econômica do país.

(...)

 

Livros individuais de, e editados por, Paulo Roberto de Almeida

 

24 março 2026

 

História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: dos descobrimentos ao final do Império (Curitiba: Appris, 2026)

Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2025, ISBN: 978-65-86972-43-6, 364 p.; Amazon)

Intelectuais na diplomacia brasileira: a cultura a serviço da nação (Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves; ISBN: 978-85-265-0497-4; São Paulo: Editora Unifesp; ISBN: 978-65-5632-199-8; 2025, 425 p.; Amazon)

(...)

O Mercosul no contexto regional e internacional (São Paulo: Edições Aduaneiras, 1993, 204 p.; ISBN: 85-7129-098-9; Estante Virtual; Academia.edu).

 Mercosul: Textos Básicos (Brasília: IPRI-Fundação Alexandre de Gusmão, 1992, Coleção Integração Regional nº 1; esgotado).  

 

Ler a íntegra: 

https://www.academia.edu/179036101/5492_Trajetoria_e_Producao_Intelectual_de_PRAlmeida_por_Gemini 

 

 


A trajetória e a produção intelectual de Paulo Roberto de Almeida: diplomacia, história e o exercício do pensamento crítico (Gemini)

Madame IA se ocupa de um diplomata que não foi apenas um diplomata (via ADL):

A trajetória e a produção intelectual de Paulo Roberto de Almeida: diplomacia, história e o exercício do pensamento crítico:

A compreensão da inserção do Brasil no cenário internacional e a análise da evolução de sua política externa passam, obrigatoriamente, pelo exame da vasta e densa produção intelectual do embaixador, professor e cientista social Paulo Roberto de Almeida, amplamente identificado no debate público e nos ambientes virtuais pela sigla PRA. Longe de se acomodar no protocolo burocrático e na discrição convencional que historicamente caracterizam os membros do Serviço Exterior Brasileiro, Almeida consolidou uma das carreiras mais ricas, polêmicas e produtivas da diplomacia contemporânea, convertendo-se em um legítimo herdeiro da tradição dos diplomatas-intelectuais que ajudaram a pensar as estruturas fundamentais do Estado nacional. Sua jornada combina uma sólida bagagem acadêmica obtida em prestigiosas instituições europeias — incluindo a licenciatura e o doutorado em Ciências Sociais pela Universidade Livre de Bruxelas e o mestrado em Economia e Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia — com uma vivência prática nas engrenagens do Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, que serviu de matéria-prima para uma reflexão obstinada e sistemática sobre a história diplomática e a inserção econômica do país.
Ao longo de mais de quatro décadas de atividade intelectual e diplomática, PRA construiu um acervo bibliográfico monumental que abrange dezenas de livros publicados, além de centenas de artigos, ensaios e coletâneas documentais. O pensamento de Almeida recusa o isolamento acadêmico e o jargão hermético, optando por uma linguagem que, embora amparada em rigorosa pesquisa documental, busca o diálogo constante com o cidadão comum, com estudantes e com jovens aspirantes à carreira diplomática. Esse compromisso com a democratização do conhecimento reflete-se na própria gestão de seu conhecido blog pessoal, o Diplomatizzando, espaço onde o autor não apenas debate os temas prementes da política global, mas também disponibiliza links e arquivos para o download gratuito de grande parte de sua obra, subvertendo as barreiras comerciais das editoras tradicionais em prol de um ecossistema de conhecimento livre e conectado.
A espinha dorsal da obra historiográfica de Paulo Roberto de Almeida é voltada para a reconstituição detalhada das relações internacionais do Brasil, com foco especial na evolução da diplomacia econômica desde o período imperial até os desafios contemporâneos da globalização. Livros de sua autoria e organização tornaram-se referências indispensáveis em programas de pós-graduação e na preparação de candidatos para o Instituto Rio Branco, a academia diplomática brasileira onde o próprio Almeida atuou como docente. Suas obras investigam como o Brasil moldou sua identidade comercial a partir de suas negociações bilaterais e multilaterais, esmiuçando os processos de integração regional na América Latina, a criação e os rumos do Mercosul, e as complexas relações políticas e econômicas mantidas com as grandes potências globais, como os Estados Unidos e os blocos europeus. Longe de adotar uma postura puramente descritiva ou laudatória das conquistas do Itamaraty, os textos de PRA são marcados por um forte viés analítico que busca desmistificar narrativas consolidadas, apontando contradições internas e criticando escolhas estratégicas que, sob sua ótica, amarraram o crescimento econômico e a inserção do país no comércio internacional.
Outra vertente fundamental de sua bibliografia diz respeito à análise crítica direta e sem concessões da política externa recente conduzida pelo Estado brasileiro. Em obras de títulos provocativos e contundentes, como "Miséria da Diplomacia: A Destruição da Inteligência no Itamaraty" e "O Itamaraty Sequestrado", Almeida assumiu uma postura abertamente combativa contra o que ele classifica como a partidarização e a ideologização da diplomacia nacional. Com a autoridade de quem acompanhou por dentro a formulação de diretrizes em postos cruciais no exterior e na assessoria da Presidência da República, o autor documenta os perigos de se submeter uma instituição secular e de Estado aos interesses flutuantes e dogmáticos de coalizões partidárias e governos de turno. Essa coragem intelectual de expor publicamente suas divergências em relação às chefias do Ministério das Relações Exteriores resultou, ao longo de sua vida pública, em episódios notórios de atrito com o comando da instituição, reforçando sua faceta de "diplomata propenso a acidentes" — uma alcunha que ele próprio abraça com ironia para ilustrar os custos de se manter fiel ao pensamento crítico e à independência intelectual em um ambiente tradicionalmente hierarquizado e corporativista.
Além de suas contribuições para a história diplomática e a economia política, a bibliografia de PRA estende-se com vigor para o campo da história das ideias políticas e da curadoria biográfica de grandes vultos intelectuais do Brasil. Almeida tem se dedicado a resgatar e analisar o legado de diplomatas e pensadores como o Barão do Rio Branco, Manuel de Oliveira Lima e juristas históricos, mapeando como esses indivíduos articularam o interesse nacional e construíram as bases da soberania do país em períodos de intensa transição global. Ao organizar guias documentais exaustivos sobre estudos brasileiros no exterior e coordenar antologias históricas, Almeida atua como um verdadeiro guardião da memória diplomática, conectando as novas gerações de pesquisadores aos arquivos e fontes primárias espalhados pelo mundo. Esse esforço de curadoria demonstra que, para além do analista político feroz que atua no calor do debate público contemporâneo, coexiste um historiador metodológico meticuloso, ciente de que as respostas para os dilemas do presente dependem de uma escavação profunda e sem filtros das realidades documentadas no passado.
Ao analisar a totalidade da produção bibliográfica e a postura intelectual de Paulo Roberto de Almeida sob uma ótica rigorosamente cética e holística, torna-se evidente que sua trajetória se consolida como um valioso, embora polarizador, contraponto à cultura de conformismo burocrático e passividade intelectual. Pelo lado positivo, sua vasta obra funciona como um poderoso farol de transparência e erudição, demonstrando que o dever de um intelectual público, mesmo quando investido de cargo diplomático, é a busca pela verdade factual e a defesa das instituições de Estado contra a instrumentalização ideológica. Almeida oferece ferramentas analíticas sofisticadas e documentação histórica robusta que enriquecem o debate democrático sobre o lugar do Brasil no mundo. Por outro lado, um olhar cético sobre seu modelo de atuação e sua produção recente revela os limites e os riscos de um estilo discursivo fortemente marcado pelo combate aberto e pela iconoclastia direta nas redes e portais de opinião. Ao adotar um tom frequentemente satírico, intransigente e hipercrítico em relação às estruturas internas do Itamaraty, o autor flerta com o isolamento institucional, o que pode, involuntariamente, reduzir a capacidade de infiltração de suas ideias reformistas nos núcleos reais de decisão da política externa. Sua bibliografia é admirável pelo rigor, coragem e generosidade no compartilhamento do conhecimento, mas o seu modelo nos força a refletir se o conflito aberto e a desconstrução ácida das burocracias tradicionais conseguem efetivamente reformar as instituições por dentro ou se acabam por cristalizar uma trincheira de resistência intelectual que, embora moralmente coerente, assiste à distância à marcha pragmática do poder real.

*Fonte: Gemini (https://share.google/aimode/Uz45A5L30ii0XLMSh

Chamada para submissão de artigos à Revista Estudos Históricos: Dossiê nº 91: Os usos da História nas Ciências Sociais

Chamada para submissão de artigos - Dossiê nº 91: Os usos da História nas Ciências Sociais

Chamada para submissão de artigos

A Revista Estudos Históricos, periódico do FGV CPDOC, convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem artigos para o dossiê “Os usos da História nas Ciências Sociais”, organizado por Renato Perissinotto (UFSC/UFPR), Jaqueline Porto Zulini (FGV CPDOC) e Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego (UFRN).

O dossiê tem como objetivo reunir trabalhos que discutam os usos do conhecimento histórico no âmbito das Ciências Sociais, contemplando suas diferentes áreas, como Sociologia, Antropologia, Ciência Política e Economia. Parte-se do reconhecimento de que a incorporação metodologicamente consciente da História é fundamental para a compreensão dos fenômenos sociais em sua dimensão processual e relacional, evitando abordagens que os reduzam a uma justaposição de variáveis fixas e isoladas.

Nesse sentido, serão bem-vindos artigos que examinem as relações entre História e Ciências Sociais, discutam as concepções de História mobilizadas em suas análises e explorem os instrumentos teórico-metodológicos empregados para articular essas áreas de conhecimento. Espera-se, ainda, que as contribuições dialoguem com os debates contemporâneos sobre o tema, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

Período de submissão: de 15 de outubro de 2026 a 15 de janeiro de 2027.

Publicação: a publicação dos artigos aprovados para o dossiê terá início em maio de 2027. A Revista Estudos Históricos adota o sistema de publicação contínua, de modo que os artigos serão publicados individualmente à medida que concluírem as etapas do processo editorial, sem a necessidade de aguardar a composição integral do dossiê.

Visite nosso site para ler o comunicado completo .
Revista Estudos Históricos http://periodicos.fgv.br/ojs/index.php/reh

Os impropérios de PRA contra o bolsonarismo e os bolsonaristas - Madame IA mimentizando PRA

 Os impropérios de PRA (no blog Diplomatizzando ou em outras postagens) contra o bolsonarismo e os bolsonaristas, sobrando mais algunas outros para permiar todos julgados confusos:

Quais as palavras e expressões mais 'ácidas' usadas pelo diplomata PRA para se referir aos lulopetistas? E aos olavobolsonaristas? Apresente uma lista extensa para ambos os grupos citados. 

O embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida (PRA) construiu uma das retóricas mais mordazes da diplomacia brasileira. Por se posicionar como um "contrarianista" independente, ele ataca com igual vigor os dois extremos do espectro político que governaram o Brasil no século XXI.
Sua acidez não se baseia em insultos vulgares, mas sim em um repertório cirúrgico de ironias, termos acadêmicos subvertidos e metáforas biológicas e históricas. Abaixo, está uma lista extensa das palavras e expressões mais contundentes utilizadas por PRA em seus livros e no blog Diplomatizzando para caracterizar cada grupo:

1. Contra os Lulopetistas e a "Diplomacia Companheira":

PRA enxerga a política externa da era lulopetista como um desvio ideológico que submeteu o tradicional pragmatismo do Itamaraty aos interesses partidários do PT e do Foro de São Paulo. Suas expressões mais ácidas focam no corporativismo, no esquerdismo anacrônico e na megalomania:
• "Lulopetismo diplomático": Expressão central para descrever a fusão da máquina do Estado com a agenda do partido.
• "Diplomacia partidária" ou "Diplomacia de partido": Usada para denunciar que as relações exteriores deixaram de responder ao Estado e passaram a responder a uma facção política.
• "Terceiro-mundismo militante" (ou "anacrônico"): Crítica à insistência em alinhar o Brasil a países subdesenvolvidos ou regimes autocráticos sob uma ótica anti-imperialista ultrapassada.
• "Megalomânia diplomática": Expressão ácida para satirizar a busca incessante do governo Lula por um protagonismo global desmedido (como o assento no Conselho de Segurança da ONU ou a mediação do acordo nuclear no Irã), sem lastro real de poder econômico ou militar.
• "Gauchismo diplomático": Termo adaptado do jargão político europeu (gauchisme) para ironizar o esquerdismo militante e acadêmico que influenciou os formuladores de política externa da época.
• "Alinhamento ideológico com o Foro de São Paulo": Denúncia direta da proximidade com forças e partidos comunistas e de esquerda da América Latina.
• "Sindicato diplomático": Crítica ao loteamento de cargos e à blindagem corporativista de diplomatas alinhados à cartilha do partido.
• "Aprendizes de feiticeiro da diplomacia": Expressão para definir os assessores presidenciais e formuladores que tentaram criar uma "nova diplomacia" à revelia dos manuais técnicos clássicos.
• "Universo paralelo" ou "Grande Ilusão": Ironia frequente sobre as promessas utópicas em torno dos BRICS ou de alianças sul-americanas que, na visão de PRA, ignoravam a realidade dos mercados internacionais.

2. Contra os Olavobolsonaristas e o "Bolsolavismo":

A reação de PRA à ala ideológica do governo de Jair Bolsonaro — que resultou em sua própria demissão da chefia do IPRI em 2019 — produziu seus textos mais devastadores. Suas expressões focam no anti-intelectualismo, no fanatismo e no ridículo internacional gerado pelo grupo:
• "Bolsolavismo diplomático": Termo cunhado por ele para sintetizar a mistura do nacionalismo populista de Bolsonaro com as teorias de conspiração de Olavo de Carvalho.
• "Chanceler acidental": Epíteto irônico e constante direcionado a Ernesto Araújo, sugerindo que ele jamais teria capacidade ou mérito para o cargo em condições normais.
• "Experimento alucinante e alucinado": Descrição de PRA sobre o período em que a política externa foi guiada por pautas ideológicas extremas.
• "Bizarrices diplomáticas": Termo usado para qualificar os discursos oficiais que misturavam misticismo, antiglobalismo e cruzadas civilizatórias.
• "Sequestro do Itamaraty": Metáfora drástica (que virou título de livro) para afirmar que a instituição foi tomada como refém por uma seita ideológica.
• "Demolição da política externa": Denúncia do desmonte sistemático de princípios históricos da diplomacia brasileira, como o multilateralismo, a neutralidade e o pragmatismo.
• "Miséria da diplomacia" ou "Destruição da inteligência": Expressões utilizadas para atacar o desprezo do grupo pelo conhecimento científico, pela história e pelos dados econômicos reais.
• "Paranoia antiglobalista": Diagnóstico ácido sobre a obsessão do grupo com conspirações internacionais, "climatismo" ou o chamado "marxismo cultural".
• "Seita olavete" ou "Fanáticos do claustro": Alusão ao caráter dogmático e subserviente dos seguidores da ala ideológica, que rejeitavam qualquer debate racional.
• "Servilismo voluntário": Crítica contundente ao alinhamento cego e automático do Brasil à política externa de Donald Trump nos EUA, sem contrapartidas ou vantagens estratégicas para o país.

O Denominador Comum: A "Tribo" Politicamente Cega:

Em suas análises comparativas, Paulo Roberto de Almeida frequentemente unifica os dois grupos em uma mesma categoria psicológica e institucional. Ele os chama de "tribos arrogantes" que compartilham do mesmo pecado capital: a crença de que tudo o que foi feito antes deles na história do Brasil estava errado. Ao operar dessa forma, PRA demonstra que, para um diplomata de Estado, o populismo — seja de esquerda ou de direita — produz o mesmo resultado final: o isolamento internacional e o enfraquecimento das instituições nacionais.

 

O libertarianismo no Brasil e na América Latina, por Madame IA, a pedido de ADL

O libertarianismo no Brasil e na América Latina, por Madame IA, a pedido de ADL:

"Escreva um texto discursivo (apenas frases e parágrafos) com, aproximadamente, 5500 caracteres, usando uma linguagem acessível e didática, mas sempre respeitando as normas gramaticais vigentes no Brasil e a semântica brasileira. O texto deverá descrever, analisar e criticar/argumentar o cenário atual (outubro de 2026) do libertarianismo, tanto no Brasil e América do Sul quanto no mundo, sempre sob uma perspectiva libertária. Todas as frases devem ser inéditas (pode ter inspiração de frases já existentes, mas devem ser reescritas, com o cuidado de manter a semântica original). Utilize apenas fontes confiáveis; caso não saiba algo, não invente (evite as "alucinações" de modelos de IA). O encadeamento/sequenciamento de frases e parágrafos deve ter coerência argumentativa e coesão evolutiva das ideias.

O libertarianismo em outubro de 2026: avanços, contradições e desafios para a liberdade:

O libertarianismo atravessa, em outubro de 2026, um período de grande visibilidade política, mas também de importantes contradições. Em diferentes países, ideias relacionadas à redução do Estado, à liberdade econômica, à propriedade privada e à autonomia individual conquistaram espaço nos debates públicos. Ao mesmo tempo, o crescimento de movimentos nacionalistas, a persistência de governos intervencionistas e a utilização da liberdade como instrumento de disputa política demonstram que a expansão dessas ideias está longe de representar uma vitória definitiva. Sob uma perspectiva libertária, o cenário exige distinguir a defesa consistente da liberdade da simples substituição de um grupo político por outro, especialmente quando os novos governantes reproduzem práticas autoritárias ou utilizam o poder estatal para favorecer seus próprios aliados.

A essência do libertarianismo está no princípio de que cada indivíduo deve ter o maior controle possível sobre a própria vida, desde que respeite os mesmos direitos dos demais. Essa concepção atribui importância fundamental à liberdade de expressão, à propriedade privada, à livre associação, à responsabilidade individual e às trocas voluntárias. O Estado, nessa perspectiva, não deve ser tratado como uma entidade naturalmente superior aos cidadãos, mas como uma instituição cujo poder precisa ser limitado e justificado. Existem diferenças importantes entre as correntes libertárias, principalmente quanto à legitimidade da própria existência do Estado, mas elas compartilham uma preocupação central com a coerção institucionalizada. Por isso, o libertarianismo não se resume à defesa dos empresários, à redução de determinados impostos ou à oposição a governos de esquerda. Sua coerência depende da aplicação dos princípios de liberdade também aos adversários políticos, aos indivíduos socialmente vulneráveis e às pessoas cujos comportamentos desagradam à maioria.

Na América do Sul, a Argentina ocupa uma posição de destaque nesse debate em razão do governo de Javier Milei, que assumiu a Presidência em dezembro de 2023 com uma agenda de reformas econômicas, redução de despesas públicas, desregulamentação e combate à inflação. Segundo a avaliação divulgada pelo Fundo Monetário Internacional em maio de 2026, o país obteve avanços importantes na estabilização macroeconômica, registrou superávits fiscais primários por dois anos consecutivos e reduziu a inflação anual de níveis superiores a 200% no final de 2023 para aproximadamente 32,5% no início de 2026. O organismo também apontou dificuldades persistentes, como o aumento do desemprego até o final de 2025, a desaceleração dos salários reais e as incertezas que afetaram a recuperação econômica. Esses dados oferecem elementos para reconhecer resultados concretos sem transformar uma experiência política em um sucesso absoluto.

Sob uma ótica libertária, a experiência argentina demonstra a importância de enfrentar desequilíbrios fiscais, remover barreiras comerciais e reduzir intervenções que distorcem os preços e dificultam a atividade produtiva. Quando o Estado financia gastos por meio da expansão monetária, quando mantém regras que protegem grupos privilegiados da concorrência ou quando impede que as pessoas decidam livremente sobre suas transações, os custos dessas políticas podem recair sobre toda a sociedade. A inflação elevada, em particular, prejudica o planejamento financeiro, reduz o poder de compra e penaliza especialmente quem não dispõe de recursos para proteger seu patrimônio. Entretanto, o reconhecimento dos avanços não dispensa a análise dos custos sociais do ajuste. A redução das despesas públicas pode ser economicamente necessária, mas sua execução precisa ser examinada à luz dos efeitos sobre os mais pobres, dos compromissos assumidos pelo governo e da capacidade de recuperação das famílias. A liberdade econômica não deve ser avaliada apenas pelos indicadores fiscais, mas também pelas oportunidades reais de trabalhar, empreender, poupar e construir uma vida independente.

Outro aspecto importante é que o libertarianismo não deve se confundir com a lealdade pessoal a Milei ou a qualquer outro dirigente. Um governo pode promover reformas favoráveis ao mercado e, simultaneamente, tomar decisões incompatíveis com a liberdade em outras áreas. A concentração de poder, a hostilidade contra críticos, as restrições indevidas às manifestações individuais e o uso seletivo das instituições não se tornam aceitáveis porque são praticados em nome da eficiência econômica. Da mesma forma, a intervenção estatal não deixa de ser intervenção quando beneficia empresários próximos ao governo, setores considerados estratégicos ou grupos politicamente influentes. Para o libertário, o critério decisivo não é a identidade de quem governa, mas a natureza das medidas adotadas, seus efeitos sobre os direitos individuais e a possibilidade de contestar pacificamente o poder.

No Brasil, o desafio apresenta características próprias. A tradição de forte presença estatal, a complexidade tributária, a burocracia, os privilégios corporativos e a dependência de decisões políticas para a obtenção de benefícios econômicos continuam alimentando críticas liberais e libertárias. O relatório do Fundo Monetário Internacional sobre o país, publicado em 2026, destacou que as despesas obrigatórias, os benefícios tributários e os elevados encargos com juros limitam a capacidade de investimento produtivo. O documento também projetou a continuidade do crescimento da dívida pública, reforçando a importância do equilíbrio fiscal e de reformas estruturais. Esses problemas não significam que toda despesa pública seja inútil ou que qualquer redução tributária produza automaticamente prosperidade. Significam, porém, que o uso dos recursos arrecadados precisa ser submetido a critérios rigorosos de eficiência, transparência e responsabilidade.

A discussão brasileira também revela uma dificuldade política relevante: a defesa da liberdade econômica frequentemente perde força quando confronta interesses eleitorais imediatos. Um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo em junho de 2026, elaborado pelo Ranking dos Políticos em parceria com o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e o Fé & Trabalho, classificou como restritivas à liberdade econômica cerca de 86% das propostas legislativas examinadas referentes a 2025. Embora o resultado dependa dos critérios adotados pelo estudo e não deva ser interpretado como uma medida definitiva de toda a atividade parlamentar, ele sugere que a expansão das intervenções econômicas ultrapassa as fronteiras ideológicas tradicionais. Partidos de diferentes orientações podem defender subsídios, proteções setoriais, novas obrigações e benefícios concedidos por decisão política quando essas medidas atendem às suas bases eleitorais.

Essa realidade exige que o movimento libertário brasileiro vá além das disputas entre esquerda e direita. Não basta denunciar a tributação elevada quando ela é proposta por adversários e silenciar diante de gastos ou privilégios defendidos por aliados. Tampouco é coerente defender a liberdade empresarial e, ao mesmo tempo, apoiar barreiras que protejam empresas nacionais da concorrência ou restrinjam a escolha dos consumidores. Uma economia verdadeiramente aberta depende de regras gerais, segurança jurídica, concorrência e tratamento igual perante a lei. A simplificação tributária, a redução de obstáculos à abertura de empresas, a liberdade contratual e a eliminação de privilégios regulatórios podem ampliar as oportunidades individuais, desde que acompanhadas por instituições capazes de impedir fraudes, proteger direitos e aplicar as normas sem favorecimentos políticos.

No restante da América do Sul, o debate sobre o libertarianismo precisa considerar a diversidade das realidades políticas e econômicas nacionais. A região reúne experiências de diferentes orientações ideológicas, mas compartilha problemas como instabilidade monetária em determinados países, dependência de commodities, baixa produtividade e dificuldades institucionais. Nesse contexto, a defesa de mercados mais abertos, da responsabilidade fiscal e da segurança jurídica pode contribuir para ampliar investimentos e oportunidades. Contudo, a abertura econômica não deve ser confundida com a submissão diplomática a uma potência estrangeira, assim como a soberania nacional não deve servir de justificativa para restringir a liberdade dos próprios cidadãos. Uma perspectiva libertária coerente favorece o comércio voluntário e a cooperação internacional, independentemente da origem geográfica dos parceiros, e rejeita tanto o protecionismo motivado por interesses corporativos quanto o nacionalismo utilizado para legitimar controles arbitrários.

Em escala mundial, os desafios são ainda mais amplos. O relatório Economic Freedom of the World 2025, do Fraser Institute, baseado em dados de 2023, situou o Brasil na 87ª posição entre 165 jurisdições avaliadas e apontou que a liberdade econômica global havia recuado após a pandemia, anulando parte dos avanços anteriores. Já o Human Freedom Index 2025, publicado pela mesma instituição, estimou que 89,6% da população mundial vivia em jurisdições nas quais a liberdade humana havia diminuído entre 2019 e 2023. Como esses índices utilizam metodologias próprias e trabalham com dados referentes a anos anteriores à sua publicação, seus resultados não descrevem integralmente a situação de outubro de 2026. Ainda assim, oferecem evidências de que a expansão da liberdade não constitui uma tendência mundial garantida.

A situação internacional também expõe uma contradição entre o discurso de livre mercado e a prática dos governos. Tarifas comerciais, subsídios seletivos, restrições à circulação de bens e tecnologias e disputas geopolíticas podem ser defendidos em nome da segurança nacional, da proteção do emprego ou da autonomia estratégica. Algumas preocupações de segurança são legítimas, mas sua invocação indiscriminada permite que o Estado proteja setores politicamente influentes, transfira custos aos consumidores e reduza a concorrência. Para o libertarianismo, a pergunta fundamental não é se determinada política parece patriótica ou popular, mas se ela é necessária, proporcional e compatível com os direitos individuais. A liberdade econômica perde credibilidade quando é defendida apenas enquanto favorece os interesses de grupos específicos.

Outro desafio consiste em evitar que o libertarianismo seja absorvido por movimentos populistas que prometem combater o poder estabelecido, mas desejam concentrá-lo em novas mãos. A oposição ao intervencionismo econômico não exige apoio irrestrito a líderes autoritários, assim como a defesa da propriedade privada não justifica o desrespeito à liberdade de expressão ou à autonomia pessoal. A liberdade é um princípio universal, não uma recompensa concedida a quem compartilha determinada ideologia. Por isso, um movimento libertário intelectualmente consistente precisa defender limites ao poder mesmo quando isso significa criticar governantes populares, denunciar abusos cometidos por aliados e reconhecer que nenhuma liderança está acima das regras que pretende impor aos demais.

Também é necessário enfrentar uma crítica recorrente: a de que a liberdade econômica beneficiaria apenas quem já possui patrimônio e oportunidades. Essa preocupação não pode ser descartada com slogans. Mercados competitivos podem estimular inovação, reduzir custos e facilitar a criação de riqueza, mas privilégios legais, barreiras à entrada e desigualdades de oportunidades podem impedir que esses benefícios alcancem parcelas maiores da população. A resposta libertária deve envolver a defesa da concorrência, a eliminação de privilégios, a ampliação do acesso à educação e a remoção de obstáculos que dificultam o empreendedorismo e a mobilidade social. Isso não significa que todas as correntes libertárias concordem sobre o papel de cada serviço público ou sobre as formas legítimas de enfrentar a pobreza. Significa reconhecer que a liberdade formal tem maior valor prático quando as pessoas encontram condições para tomar decisões próprias, sem depender permanentemente de favores políticos ou autorizações arbitrárias.

Em síntese, o cenário do libertarianismo em outubro de 2026 combina oportunidades de renovação intelectual com riscos de incoerência política. A experiência argentina tornou mais visível a discussão sobre disciplina fiscal, inflação e desregulamentação, enquanto o Brasil continua enfrentando obstáculos tributários, regulatórios e institucionais que dificultam o desenvolvimento de uma economia mais livre. No restante do mundo, os indicadores disponíveis alertam para o enfraquecimento de diferentes dimensões da liberdade, mesmo em sociedades com instituições consolidadas. Diante disso, o futuro do movimento dependerá menos da popularidade de seus representantes e mais de sua capacidade de transformar princípios em propostas consistentes, avaliar resultados com honestidade e reconhecer os limites do próprio poder. A defesa libertária mais convincente não é aquela que promete resolver todos os problemas por meio do mercado, mas a que compreende que nenhuma autoridade possui conhecimento, legitimidade ou competência ilimitados para organizar a vida de todos. Preservar a liberdade exige combater privilégios, respeitar direitos, aceitar o pluralismo e submeter governantes e instituições aos mesmos princípios que se espera ver respeitados pelos cidadãos. Mais do que uma bandeira eleitoral, o libertarianismo precisa permanecer um compromisso permanente com a autonomia individual e com a redução da coerção, independentemente de quem esteja no poder."

*Fonte: ChatGPT (https://chatgpt.com/uc/6acee979-2610-83ea-8ec3-844b2d883300  

Russia, Russia, Russia - Anne Applebaum on Trump deference towards Putin (Substack)

 Anne Applebaum sobre os "amores" (se essa é a palavra) de Trump por Putin:

Russia, Russia, Russia
Trump’s relationship with Moscow remains very weird
OCT 14

In the past few days, Donald Trump has dropped all pretense, torched a couple decades of American policy, and undermined 18 months of his own diplomacy. I summed up his new policy in the Atlantic:

He has threatened to stop sharing intelligence with Ukraine, unless Ukraine agrees not to target Russian refineries, thus demanding that Kyiv give up its most effective weapon while asking nothing from Russia in exchange. He has not criticized Russian attacks on Ukrainian power plants or factories, even those owned by American companies. He has offered no condolences for the recent deaths of Ukrainian children in Russian bombing raids.

He has lied repeatedly. He declared that Ukraine and Russia had agreed to an “energy cease-fire,” an announcement that surprised the Ukrainians and that in any case the Russians immediately broke, hitting a power plant in Kharkiv only hours later. He accused Ukraine of blocking negotiations, when in reality the Ukrainians have repeatedly proposed cease-fires and Russia has never agreed to a cease-fire or any meaningful negotiation at all.

He has described Ukraine’s democratically elected president as an obstacle to negotiations and told him to leave office. But on Friday, before making these new decisions, he held yet another long, friendly telephone conversation with the Russian dictator, who really could end the war today. All Vladimir Putin has to do is tell his soldiers to stop fighting, and then the war is over, bar some territorial negotiations. The Ukrainians cannot stop fighting because, if they do, their country will be conquered and they will suffer the fate of their occupied territories: leaders murdered, children kidnapped, repression and concentration camps for everyone else. If Trump knows this, then he does not care.

And yet…large parts of this story don’t make sense:

The president has implied that the point of his new policy is to lower fuel prices for Americans. Perhaps he wants to convince voters that the cause of high prices is Ukraine and not his own war of choice in Iran. But this is not a sufficient explanation or justification for these dramatic actions. The amount of fuel that Russia could export is too small, the impact on pricing too slight, the narrative too late to shape electoral outcomes.

This looks, instead, like something very different: an abrupt, Hail Mary attempt to force Ukraine to surrender and to save the Russian economy, perhaps in order to finally complete the multiple business deals that the Russians are known to have discussed with American negotiators and others in Trump’s orbit. These include deals involving the Nord Stream gas pipelines, mineral mining in the Arctic, the Russian assets frozen in European banks, and more.

But Trump cannot make things happen simply by saying them, and he cannot make Ukraine stop fighting either. The US gives no weapons to Ukraine, except those that are purchased by Europeans. I am told that the US intelligence contribution to Ukraine is now minimal, mostly involving defensive, not offensive operations. Certainly the Ukrainians do not need American intelligence, or Starlink, to hit Russian refineries. If Elon Musk limits the range of Starlink inside Ukraine (some say he did so on Wednesday morning) he will pay a high price. European governments and other big customers will take this as a warning: Musk’s technology is unreliable because Musk is unreliable, and they should end their contracts and not sign new ones.

But if this diesel deal won’t stop the Ukrainian strikes on refineries, won’t have an impact on the election, isn’t popular among Americans, will further alienate allies and won’t stop the Ukrainians, why is Trump doing it? There can only be one answer: because Russia has been so important to him for so long.

Periodically, an interviewer or interlocutor asks me why Donald Trump is so obsessed with Russia. Why does he allow himself to be humiliated by Putin, who did not even pretend to respect his “ceasefire”? Why does he parrot Russian propaganda? I don’t really understand why anyone still poses these questions, because they were answered long ago.

I wrote about Trump’s Russian connections as long ago as July 2016, in the Washington Post. In subsequent months and years, there were multiple investigations into Trump’s business links with Russia, extending back to the 1980s. These include links to people affiliated with the Russian mafia, some of whom owned condos in his buildings; his broader reliance on Russian clients, as well as anonymous purchasers of condos, many of whom are believed to come from Russia. Famously, a Russian oligarch purchased a property from Trump for tens of millions of dollars over the previous price, at a time when Trump needed the money.

Equally well documented is Trump’s fondness for Russian propaganda narratives. Upon returning from his first trip to Moscow in 1987, he took out full-page advertisements in three newspapers, attacking American alliances in Europe and Asia:

For nearly 40 years, he has been saying much the same thing. He has changed his mind about abortion and crypto, he has supported different political parties at different times, but his dislike of America’s democratic allies and his preference for Russia have remained remarkably consistent.

The Mueller report and a subsequent bipartisan Senate Select Committee on Intelligence demonstrated multiple Russian attempts to contact Trump during the 2016 campaign and to sway the election, through the release of hacked data from the DNC as well as major investments into American social media. But because Trump succesfully mocked and minimized this story (“Russia, Russia, Russia,” he says, as if that were an argument) and because the Republican party went along with this lie, it seems as if Americans have to be constantly reminded anew: yes, Trump’s relationship with Russia is intense, longstanding, and deeply weird.

It also contradicts the views of the American military and American intelligence, as well as majorities in the country and in Congress. Immediately after his statement on diesel and his comments about Volodymyr Zelensky, a bipartisan cohort of U.S. representatives and senators attacked the deal and vowed to reverse it. On Monday, U.S. Air Force General Alexus Grynkewich, America’s highest-ranking soldier in Europe and the top NATO commander—a job always held by an American—delivered a very different message to Russia.

Speaking at a security conference in Warsaw, Grynkewich said that any attack on NATO, something many now genuinely fear, would be met with overwhelming force: “We will stop the attack and deny them the ability to achieve their ​objectives, whatever those ​might be. We will, ⁠in short, ensure any attack, against any ally, proves utterly futile.” He implied that there would be massive retaliation targeting “anything and everything that supports, sustains, and controls” an aggressive force.

This is the kind of language that, if it also came from the White House, might deter Russia from expanding its current campaign of sabotage and cyberattacks in Europe, from continuing to aid Iran, or from committing war crimes in Ukraine. But this president absolutely refuses to use it, and at this point, we have to assume he never will.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Economia e democracia podem sobreviver; mas e a soberania nacional? - Paulo Roberto de Almeida (Interesse Nacional)

 Mais recente artigo publicado sobre a ameaça à soberania nacional - https://interessenacional.com.br/portal/economia-e-democracia-podem-sobreviver-mas-e-a-soberania/ PRA


Economia e democracia podem sobreviver; mas e a soberania?

Em meio à polarização eleitoral, a soberania brasileira enfrenta riscos que podem superar os desafios econômicos e democráticos. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e a adesão ao “Escudo das Américas”, promovido por Donald Trump, poderiam comprometer a autonomia diplomática do país e aprofundar sua subordinação aos interesses dos Estados Unidos, em um cenário de crescente tensão geopolítica.

Flávio Bolsonaro e Donald Trump durante encontro na Casa Branca (Foto: Divulgação)

O Brasil assistiu a um recrudescimento da polarização política no período recente, até se defrontar, no primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, com um resultado preliminar que surpreendeu, nos dois lados, os militantes engajados e os observadores interessados (como são os jornalistas). 

O eleitorado caminha agora para a encruzilhada do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro, quando, aparentemente, estaremos em face de dois projetos de governo nas antípodas das principais políticas públicas e setoriais em 2027-2030. Dúvidas persistem a esse respeito, mas vou me deter em um aspecto que me interessa pessoalmente, como diplomata, além e acima da questão democrática e a da economia.

Analisando de maneira objetiva, o cenário que pode se abrir em 2027 cabe, contudo, constatar que nem a economia, nem a política parecem perto de sofrer mudanças radicais. A economia porque, a despeito da inquietação de economistas e empresários com a questão fiscal e a do endividamento, e a ainda mais natural preocupação dos eleitores comuns com problemas econômicos mais prosaicos, os do dia-a-dia em feiras e supermercados, apresenta constrangimentos suficientes, nos terrenos macro e setoriais, para que um presidente, de esquerda ou de direita, tenha forçosamente de encontrar respostas credíveis aos desafios já colocados no plano da dívida pública em expansão, da persistência de uma inflação acima dos indicadores de referência, de um endividamento excessivo de núcleos familiares.

 

‘No terreno político, por sua vez, não parece existir nenhum risco maior à democracia – como se temeu no decurso do mandato anterior, sob Jair Bolsonaro’

 

No terreno político, por sua vez, não parece existir nenhum risco maior à democracia – como se temeu no decurso do mandato anterior, sob Jair Bolsonaro –, mas o aumento da representação da direita e da extrema-direita no âmbito legislativo vai provavelmente levar à possível cassação de um ou outro ministro da Suprema Corte, dado seu envolvimento direto na política partidária e em acusações de corrupção nas altas esferas do Judiciário. 

Também no terreno da política, torna-se altamente provável o reforço de medidas vinculadas à segurança pública, o aumento de medidas punitivas dada a expansão disseminada da criminalidade organizada, assim como, no campo das políticas sociais, uma propensão mais para negativa à continuidade de políticas assistencialistas implementadas desde o início do milênio. 

Existem, porém, preocupações latentes com uma mudança radical, dependendo da escolha em 25 de outubro, num campo extremamente relevante para a nação, mais exatamente para a sua reputação internacional e para a credibilidade externa de sua diplomacia. Essa mudança tem a ver com a postura do Brasil na definição de algumas definições básicas no tocante à política externa e à manutenção da plena soberania na escolha de alianças externas, tanto no campo do multilateralismo, das interações regionais e no tocante a certas relações bilaterais num contexto de fragmentação crescente do sistema internacional.

‘Soberania nacional é um termo um pouco difuso e quase abstrato para a maioria da população, mas o seu exercício e efetivação implicam pleno controle, pelo Estado e pelo seu governo, de todos os processos decisórios atinentes à determinação das principais políticas públicas’

Soberania nacional é um termo um pouco difuso e quase abstrato para a maioria da população, mas o seu exercício e efetivação implicam pleno controle, pelo Estado e pelo seu governo, de todos os processos decisórios atinentes à determinação das principais políticas públicas, ou de todas elas, sejam as domésticas, sejam aquelas voltadas para posicionamentos externos, em todos os planos: relacionamentos bilaterais, interação em nível regional, e no âmbito multilateral, ou internacional (nos organismos internacionais de que o Brasil é membro, ou de outros órgãos dos quais ele faça parte).

Sinteticamente, é a capacidade que o Estado possui de decidir de forma autônoma, pelos seus poderes constituídos, pelas suas instituições governativas, sobre todas as políticas, escolhas orientações na condução interna e externa dos seus negócios, sem ter de prestar contas ou de responder a quaisquer pressões externas, legítimas ou ilegítimas, sobre suas decisões próprias. 

‘A soberania não precisa sequer ser proclamada ou anunciada, ela se exerce, simplesmente, com base na força do Direito’

A soberania não precisa sequer ser proclamada ou anunciada, ela se exerce, simplesmente, com base na força do Direito – a Constituição e os tratados internacionais dos quais o país é parte ou signatário – ou com base no direito da força, ou seja, a defesa nacional, em todas as suas formas.

A soberania se exerce em primeiro lugar em todo o território nacional, e sabemos que o Estado nacional e os governos estaduais não detêm o controle efetivo sobre certas partes dos territórios em causa, o que pode criar alguma alegação de necessidade de intervenção externa ou internacional, o que de fato existe para alguns Estados falidos, vários na África, por exemplo, no caso da Jihad islâmica, ou aqui no hemisfério americano, no Haiti, com gangues criminosas detendo o controle de partes do território dessa ilha dividida com a República Dominicana. 

Recentemente, o governo expansionista e interventor dos Estados Unidos sob Trump, sob pressão de influenciadores brasileiros expatriados, julgarem dever decretar que dois grupos criminosos atuando no Brasil são, de fato, organizações terroristas, o que lhes daria o direito, unilateralmente, de intervir nos assuntos internos do Brasil, mediante a aplicação extraterritorial de sua legislação interna, aliás já exercida de forma ilegal no caso de supostos traficantes de drogas no mar do Caribe ou no Oceano Pacífico.

Se trata, nesse caso, de mais um sintoma da desagregação da ordem internacional por um dos Estados construtores dessa ordem, nos estertores da Segunda Guerra Mundial, o mais destruidor de todos os conflitos globais, de uma violação do Direito Internacional e da Carta da ONU, aliás precedida por violações ainda mais contundentes por parte de um verdadeiro êmulo dos czares absolutos e dos autocratas soviéticos, na tentativa de reconstruir o império que tinha existido por alguns séculos até quase o final do século XX. Movimentos e grupos nacionalistas costumam ser conservadores, ou de extrema direita, mas regimes autocráticos se distribuem pelos dois extremos do leque político-ideológico conhecido desde o século XIX. ‘

‘A soberania de potências médias, ou de Estados menores, pode ser ameaçada pela ação de grandes potências’

A soberania de potências médias, ou de Estados menores, pode ser ameaçada pela ação de grandes potências, de forma direta ou indireta, por ações agressivas ou por ameaças veladas, quando não pela sabotagem e pela intervenção armada direta, como golpes de Estado, invasões armadas, pressão econômica e uma combinação de todas essas ações. 

O Brasil só conheceu uma ameaça direta à sua soberania, no caso da guerra dita do Paraguai, um século e meio atrás. Depois teve embarcações afundadas no primeiro e no segundo conflitos europeus, o que motivou a cessação de nossa neutralidade, o rompimento de relações com as potências agressoras – nos dois casos a Alemanha, o Império e o Reich e nossa entrada nessas guerras que já tinham se tornado mundiais. 

As intervenções não explícitas em nossa soberania foram mais numerosas, como sempre por iniciativa de grandes impérios expansionistas, no entre guerras, por parte da Alemanha e da Itália fascistas, e antes e depois desse período, por parte dos Estados Unidos, já convertidos em grande potência mundial, neste caso de forma mais sutil. Uma intervenção direta em nossos processos eleitorais ocorreu pela primeira vez, de forma documentada, nas eleições estaduais de 1962, quando dinheiro americano e material da CIA, a agência de inteligência americana foram repassados a candidatos e partidos de oposição ao governo parlamentarista de João Goulart. O golpe de 1964 contou, obviamente, com todo o apoio do governo americano, de forma mais preventiva do que por alguma ação direta. 

Durante o regime militar, alguma coordenação existiu, quando não coordenação e troca de informações ou treinamento, entre a ditadura brasileira e órgãos de inteligência e de sabotagem dos EUA, contra governos “esquerdistas” latino-americanos, mais concretamente no caso da Bolívia, do Uruguai e, de forma ainda mais direta, contra o governo socialista de Salvador Allende, no Chile, em 1973. As ditaduras militares cooperaram amplamente entre si, com respaldo americano, na repressão aos movimentos esquerdistas e guerrilheiros. Tudo isso constituiu formas de intervenção nos assuntos internos de diferentes países, entre eles o próprio Brasil. 

Mais recentemente, o governo americano de Joe Biden pode ter atuado de forma menos direta, pelo envio de altos representantes – secretário da Defesa, conselheiro de segurança nacional e chefe da CIA – entre 2021 e 2022, para eventualmente dissuadir os comandantes das Forças Armadas, e o próprio presidente Jair Bolsonaro, de empreenderem qualquer aventura golpista antes, durante ou após as eleições, o que finalmente acabou se concretizando, nos moldes do ataque ao Capitólio de janeiro de 2021 contra o próprio Biden.

‘O ataque mais dramático contra a soberania do Brasil ocorreria num eventual governo de próprio Flávio Bolsonaro, se em janeiro de 2027 se concretizasse, como já anunciado formalmente pelo próprio, a adesão do Brasil ao chamado “Escudo das Américas”’

O ataque mais dramático – talvez consentido –, ainda que apenas hipotético pelo momento, contra a soberania do Brasil, ocorreria num eventual governo de direita, no caso, o do próprio Flávio Bolsonaro, se em janeiro de 2027 se concretizasse, como já anunciado formalmente pelo próprio, a adesão do Brasil ao chamado “Escudo das Américas”, o plano de subordinação imperial e de tutelagem direta de governos latino-americanos modelado pela nova doutrina de segurança nacional instituída pela administração Trump em 2025.

Exemplos desse tipo de submissão ao imperador hemisférico já tinham ocorrido durante dois anos de simultaneidade nos governos de Trump 1 (2017-2020) e de Jair Bolsonaro (2019-2022), quando logo ao início do governo deste último, ou ainda antes da inauguração, o dirigente brasileiro prestou toda a vassalagem vergonhosa à pessoa e às políticas do parceiro dos EUA, inclusive mediante um desonroso “I love you Trump”, durante a AGNU de 2019 em NY.

Caso alguma similaridade com 2018 se produza novamente no Brasil, estaríamos em face de um dos mais graves atentados à soberania do Brasil jamais vistos em toda a nossa história, uma vez que “nunca antes” – como aliás se tentou entre 2019 e 2020 – ocorreu essa possibilidade de uma submissão voluntária e gratuita. 

Cabe, com efeito, não esquecer que, no próprio dia da posse de Jair Bolsonaro, em 1º de janeiro de 2019, o chanceler acidental escolhido pela tropa bolsonarista, um inexpressivo júnior da carreira diplomática, concordou imediatamente com a instalação de bases militares americanas em território brasileiro, tendo sido imediatamente desmentido de forma humilhante pelos generais do governo Bolsonaro. Mas, outros gestos de adesão gratuita do governo brasileiro a ações do governo Trump foram por diversas vezes evidenciados em votações em órgãos da ONU ou por meio de canhestras notas emitidas pelo Itamaraty (ou pelo governo, em nome da chancelaria). 

‘O Itamaraty possui diversos registros desse tipo de vassalagem que representam quebra da soberania brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro, e que podem voltar a ocorrer no caso de um possível governo do filho 01’

O Itamaraty, oficialmente ou não, possui diversos registros desse tipo de vassalagem que representam, de fato, quebra da soberania brasileira durante o governo de Jair Bolsonaro, e que podem voltar a ocorrer no caso de um possível governo do filho 01, como antecipado, aliás, pelo próprio com respeito a adesão do Brasil ao “Escudo das Américas”, um programa teoricamente elaborado para contrarrestar a influência chinesa na região, mas que redunda, de forma objetiva, na tutela direta e indireta de governos participantes pelos interesses políticos, econômicos e militares da grande potência hemisférica e mundial, sob a ordens, no momento, de um dirigente arrogante, unilateral e demencial. 

Pressões geopolíticas já vêm sendo exercidas desde Trump 1, renovadas sob Trump 2, com o recrudescimento por vezes violento de ações diretas e o uso de toda sorte de pressões indiretas para obter a aquiescência de governos da região (e até fora dela, como são inúmeros os exemplos). 

Concluindo, venho à questão de como defender a soberania brasileira? Talvez se deva agora afirmar, de maneira explícita, que a comunidade nacional, todos os brasileiros, as suas elites políticas e econômicas, os seus servidores do Estado, em especial os militares e os diplomatas, repudiam de maneira clara e peremptória, toda e qualquer adesão às prescrições políticas e diplomáticas de qualquer governo estrangeiro, e que pretendem preservar com todas as forças nossa autonomia decisória sobre todas e quaisquer políticas de Estado e de governo, e que já denunciam preventivamente qualquer intenção de vincular nossa política externa e as demais políticas domésticas a qualquer potência estrangeira eventualmente atraída por nosso atual processo eleitor. Soberania não se proclama; se exerce, simplesmente, mas, no contexto atual, cabe e se deve fazer uma declaração clara e explícita nesse sentido. 

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

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