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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O cerco à ordem liberal - Rafael Ferreira (Inteligência Democrática)

O cerco à ordem liberal
Rafael Ferreira
Inteligência Democrática, 17/09/2026

 
A falsa alternância e a exigência de uma postura inflexível

Os historiadores podem ratificar ou contradizer o que vou afirmar aqui, mas há bastante semelhança entre o período que vivemos e aquele que testemunhou a ascensão dos totalitarismos no século XX. O ponto que quero enfatizar é o ataque massivo ao liberalismo, visto por populistas de direita e de esquerda como o que de mais abjeto pode haver na humanidade.

Os sinais estão aí para ser detectados: a ascensão de populistas como Trump e a aliança tácita desses líderes — incluindo Lula — com os principais agressores da ordem democrática no mundo, agressão que envolve a mortandade de civis na Ucrânia e táticas diversas no interior das sociedades democráticas.

O último episódio de avanço da estratégia iliberal pode ter sido a vitória contundente da chamada extrema-direita em uma disputa regional na Alemanha. A insistência em definir a AfD apenas como organização extremista obscurece a principal ameaça que está por trás dela: o governo russo.

São movimentos constantes de posição que estabelecem um padrão de guerra. Neutralizar eventuais apoios que possam ser dados à ordem liberal também faz parte dessas movimentações.

O Brasil está alinhado a essa estratégia, por mais que haja, na imprensa e na academia, defensores do posicionamento do presidente frente aos grandes conflitos no mundo — a saber, na Ucrânia e no Oriente Médio. A suposta dubiedade em relação a agressores russos ou a terroristas palestinos revela apenas um descompromisso com a ordem liberal-democrática.

Em sintonia com isso, o lulopetismo sempre dividiu o mundo entre “nós” e “eles”. Os liberais só foram úteis quando se precisou de apoio para vencer a eleição. Com isso, contam com a maleabilidade de agentes como Simone Tebet e Alckmin para dar o devido lastro a um organismo predominantemente iliberal.

O que fizeram com essa tática eleitoreira foi apenas enfraquecer quem defende a democracia como forma de controlar o poder. O furor pelo poder arrasou qualquer possibilidade de alternância democrática. O que estamos testemunhando hoje é apenas uma disputa de visões iliberais de mundo, tendo como palco uma democracia cada vez mais fragilizada.

Pode ser difícil transitar no mundo defendendo um ponto de vista atacado inúmeras vezes pelo furor dos iliberais. Numa lógica de guerra, em que a vitória é exaltada, fazer parte do “time dos perdedores” pode parecer ruim para os negócios, mas tal postura fere a dignidade de quem se posiciona assim e também dificulta a vida de quem ainda defende a democracia liberal.

O jornalismo precisa adotar uma postura inflexível em defesa da democracia. Pode ser o pouco que nos resta em termos de resistência política.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Eleições 2026: Eduardo Leite? - Rafael Ferreira (Revista Inteligência Democrática)

 

Qual seria a aposta numa candidatura Eduardo Leite?


Rafael Ferreira, Inteligência Democrática (26/03/2026)

Qual seria a aposta numa candidatura de Eduardo Leite? Uma candidatura com pouca articulação encaminhada, sem coalizões amplas ou sinal claro de viabilidade teria algum ganho para o eleitor? Ou seria só mais um nome a ser queimado como tantos outros na história recente das eleições no Brasil?

Antes de mais nada é preciso dizer, qualquer eleição é uma aposta. Não existe resultado prévio mesmo que o candidato seja um Garrincha e que ele não esteja nenhum pouco preocupado ‘com os russos do outro lado’. Qualquer análise de gabinete mesmo que amparada por pesquisas as mais bem elaboradas possíveis não elimina o fator acaso, que é desconhecido.

Mas dito isso, do ponto de vista de alguém que possa aconselhar os agentes incumbidos da decisão de escolher entre Leite e Caiado mesmo sem nenhuma autoridade para isso, apenas com o sentimento e o compromisso com o aprimoramento da democracia, por que recomendaria essa aposta? Além dos próprios responsáveis por decidirem essa escolha, obviamente também tem o componente humano presente na figura representativa do candidato. Ou seja, se é uma aposta, é bom que fique claro para o homem comum que está ali quais perdas e ganhos podem advir de uma possível derrota na eleição presidencial.

Para o comandante do processo de escolha dentro do PSD, o presidente do partido Gilberto Kassab, a aposta pode ser aquela mais conservadora, de usar uma candidatura apenas como elemento agregador do partido nos diversos estados. A viabilidade eleitoral nessa linha de raciocínio nem faria tanta diferença contanto que o candidato servisse de articulador para possíveis ganhos em eleições de bancada e posições estratégicas no próximo governo.

É bom que se diga aqui que esse comportamento conservador como player importante no xadrez das decisões que servirão de base nas eleições deste ano não tem relação direta com uma possível postura conservadora em termos de políticas públicas. O conservadorismo aqui, no jogo pesado da polarização, é apenas covardia. E a covardia tem nome nesse caso, é o nome de Ronaldo Caiado.

Aqui já ficou claro que a razão de uma aposta num candidato como Eduardo Leite tem a ver com coragem. Coragem de enfrentar os esquemas que se nutrem dessa polarização para manter as estruturas intocadas. Estruturas essas que são cada vez mais questionadas pelo eleitor e que estão bastante evidentes nas últimas pesquisas publicadas sobre grau de confiança nas instituições.

De qual aposta estamos falando então? De simplesmente correr o risco de perder as eleições ou de vedar o debate sobre o aprimoramento real da nossa democracia, incluindo aí o papel dos partidos políticos que muitas vezes se assemelham a organizações piramidais onde só o chefe pode determinar o que pode ou não acontecer?

Entendo que Kassab tem a oportunidade de demonstrar sua capacidade de visão de futuro e demonstrar que está acima do papel que exerce no momento, de ultrapassar a função de um simples chefe de partido e se tornar realmente em uma liderança para novos tempos sem a polarização estiolante que vivemos no país. É a grandeza que se espera.

A candidatura Leite não é uma aposta apenas na vitória, apesar dela ser o norte que baliza a decisão do partido. Ela é uma aposta na liderança que precisamos para poder reconectar a política profissional com as pessoas comuns. Cabe ao partido e seu chefe reconhecerem que isso deve ser o papel fundamental de uma instituição política.

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