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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Investimento não é tudo - Ricardo Bergamini, Roberto Campos

A taxa de Investimento em 2019 foi de 15,4% do PIB. Em 2013 era de 20,9% do PIB. Redução de 26,32% em relação ao PIB. 

O PAC da Dilma colocou a taxa de investimetos no pico histórico do Brasil de 20,9% do PIB, porém como não houve retorno econômico desses invstimentos (todos com projetos elaborados nas coxas), como afirma o Hélio Beltrão na “live”, com 5.000 obras paralizadas ao custo perdido de US$ 100,0 bilhões, e por esgotamente da capacidade de investimentos do Brasil a taxa em 2019 estava em 15,4% do PIB. Redução de 26,32% em relação ao PIB. 

Apesar de muito boa a “live”, estando todos de parabéns, mas a minha dedicação à leitura de Roberto Campos me deixou com dificuldades de encontrar algo de novo em todos os debates que assisto, visto não haver mais nada a acrescentar após leitura do meu mestre, “tudo se tornou um museu de grandes novidades” - CAZUZA, assim sendo envio abaixo artigo do mestre Roberto Campos, que é por si só explicativo, sobre o tema do debate na “live”.

São sempre soluções fáceis para problemas complexos e difíceis, assim sendo tudo tem como destino garantido: o fracasso. Em economia não há milagres.

Minha proposta baixo tem como destino a lixeira.

Tirando dos 10% que detêm 43,1% da renda, o governo teria em torno de R$ 861,3 bilhões para bancar a crise do coronavirus, mas na realidade vai estourar na mão dos 10% que detêm 0,8% da massa salarial. Quem no Brasil está interessado nessas bobagens?

O artigo abaixo é um orgasmo de saber e conhecimento. 

Ricardo Bergamini


               Não basta investir 

126417*Roberto de Oliveira Campos (30/01/2000)


Até o fim da II Guerra pouco se falava em desenvolvimento econômico. A questão mais quente era como controlar as flutuações cíclicas da economia, os ciclos de prosperidade e depressão. Depois da guerra, no entanto, tudo mudou, e depressa.

Tinha havido uma enorme transformação do ambiente. Depois de 10 anos de depressão e mais seis da guerra, todos os povos queriam recuperar o tempo perdido. A palavra-chave era "reconstrução".

Isso queria dizer políticas, programas e projetos que só pareciam factíveis com recursos e liderança do setor público. Em 1936, Keynes havia feito a cabeça dos economistas - deixando sem graça, por um quarto de século, os neoclássicos tradicionalistas - com uma ideia surpreendentemente simples: a de que, numa conjuntura recessiva, em que há ociosidade de mão-de-obra e de máquinas e equipamentos, pode-se aumentar a demanda real simplesmente pela injeção de recursos para aumentar a demanda monetária. Criando dinheiro, o governo conseguiria provocar um aumento efetivo da renda e, graças a isso, reduzir o desemprego da força de trabalho.

No pensamento de Keynes, isso só ocorreria em situações recessivas, mas a tentação de esquecer esse "detalhe" seria grande demais para os políticos.

Outra novidade teórica de um brilhante economista soviético dos anos 20, N. Kovalesky, que passaria despercebida durante muito tempo, foi o uso da relação capital/produto para projetar o crescimento do país. Essa ideia manipulada décadas mais tarde por dois economistas ocidentais - R. Harrod e E. Domar - se transformou num famoso modelo, que se popularizou de modo fulminante entre os planejadores desenvolvimentistas.

Depois da guerra, todas as regiões coloniais queriam ficar independentes. Alguns partiram para a luta armada contra as metrópoles mais renitentes, como Bélgica, Holanda, França e Portugal. Outros colonizadores, Inglaterra e Estados Unidos, tiveram mais bom senso. No final de três décadas, perto de uma centena de novos Estados havia surgido, todos sequiosos por rápido desenvolvimento.

Receitas simples têm grandes vantagens. E foi o que aconteceu com o modelo Harrod-Domar. Naquele momento, era razoável supor-se que: 1) havia grande redundância de mão-de-obra na agricultura; 2) o capital (máquinas, equipamentos) era o fator mais escasso; e que 3) seus rendimentos eram lineares, isto é, diretamente proporcionais à quantidade disponível. Tornou-se irresistível a tentação de um modelo fácil: com um coeficiente capital/produto de 3, para o país crescer a 7% ao ano, digamos, bastaria ao governo promover um investimento líquido de 21% do PIB - dele próprio, dos investidores privados e de fontes estrangeiras.

Inutilmente Domar, algum tempo depois, renegou sua fórmula por simplista demais. Era exatamente esse simplismo que a popularizava. Os teóricos sérios sempre souberam que a realidade era muito mais complexa, incluindo complicadores tais como a distribuição dos recursos naturais, a posição geográfica, a tecnologia, a cultura, os valores sociais, as instituições, a segurança e estabilidade das leis, a liberdade de iniciativa e o direito aos frutos da atividade econômica. Max Weber chegou mesmo a explicar o êxito histórico do desenvolvimento capitalista do centro-norte europeu pelos valores individualistas do protestantismo.

O simplismo de Harrod-Domar fez esquecer um princípio econômico elementar, que o professor W. Easterly formulou da seguinte maneira: "As pessoas respondem a incentivos".

Em 1960, W.W. Rostow publicou um best-seller, Os Estágios do Crescimento Econômico, em que classificava cinco estágios econômicos até se chegar à "decolagem" para o desenvolvimento autossustentado. Este dependeria do aumento da formação de capital. E se tornaria mais ou menos automático, quando atingida uma relação adequada entre investimentos e o PIB. No contexto da Guerra Fria, quando os Estados Unidos pareciam estar perdendo a corrida tecnológica e econômica contra a falecida União Soviética, surgiram os grandes planos de ajuda externa para subsidiar o crescimento econômico. Era preciso fazer alguma coisa para ganhar a guerra, e a fórmula de crescimento automático pela intensificação de investimentos era uma arma disponível para os países ricos exportadores de capital.

Solow, cujo modelo foi o sucessor do de Domar, chamou atenção para o princípio que ficou conhecido como "produtividade total dos fatores". Ou seja, a produção não é função apenas do capital e do trabalho, mas também da tecnologia. Disso tirou o resultado surpreendente de que o crescimento em longo prazo é função apenas das mudanças tecnológicas e não da taxa de investimento, a qual determina só o nível do produto. Ultimamente, houve uma inovação teórica importante. A lei dos rendimentos decrescentes só se aplicaria aos setores convencionais. Nos setores de alta tecnologia, como a Internet, os rendimentos seriam crescentes, pois a ampliação indefinida dos usuários reduziria os custos de transação, aumentando a produtividade global.

Dois exemplos ilustram a importância da qualidade e eficiência do investimento. Um deles é o da União Soviética, que experimentou estagnação econômica na década dos 80, apesar de taxas de investimento da ordem de 30% do PIB. Outro é o do Brasil em seus investimentos sociais. Nossos gastos sociais são bastante elevados como proporção do PIB, mas os resultados são pífios, colocando-nos em posição desonrosa em matéria de índice de desenvolvimento humano.

Na ânsia de descobrirem o milagre do desenvolvimento, os economistas vêm sempre acrescentando novas variáveis explicativas. No final, talvez aprendam que não podem prever trajetórias tão exatas como a física permite em relação aos foguetes. Voltamos sempre aos velhos fundamentos conhecidos desde Adam Smith: governo pequeno e honesto, tributação moderada, respeito ao direito de propriedade e melhoria do agente econômico pela competição e pela educação. Não basta investir. É preciso investir bem.


*Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planejamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. Sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington, e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra.

quarta-feira, 25 de março de 2020

O socialismo é uma miséria moral - entrevista de Paulo Roberto de Almeida a Celso Assis (2017)

O socialismo é uma miséria moral
  
Paulo Roberto de Almeida
Entrevista concedida ao animador do Clube Bastiat de Goiânia, Celso Assis
Goiânia, 24 de março de 2017; Divulgado em formato de vídeo anteriormente (link: https://www.youtube.com/watch?v=SZYneYwri8M) e em forma transcrita


Paulo Roberto de Almeida: “O socialismo é uma miséria moral” — entrevista

Medium, Mar 24, 2018 · 7 min read



Diplomata conta como foi marxista quando jovem, explica sobre o caos na Venezuela e descreve a figura de Roberto Campos
Professor Paulo Roberto de Almeida. Foto ilustrativa retirada do site O Livre.

Entrevista realizada em 24 de março de 2017 para o Clube Bastiat na oportunidade que Paulo Roberto de Almeida ministrou uma palestra na Universidade Federal de Goiás. Foi transcrita recentemente para melhor aproveitamento do material.

Paulo Roberto de Almeida é diplomata de carreira, professor universitário e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984). Desde agosto de 2016, é diretor do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IPRI), afiliado à Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), do Ministério das Relações Exteriores.

COMO O SENHOR CHEGOU AOS IDEAIS LIBERAIS?
Paulo Roberto de Almeida: Eu não me defino teoricamente como um liberal ou como um progressista ou qualquer outro rótulo. Eu tive um caminho vindo do marxismo na juventude e tanto no plano teórico pelas leituras, quanto no plano prático pela observação, pelas viagens, pela vida vivida em diversos socialismos e capitalismos, eu fui caminhando naturalmente para soluções mais racionais. Aquela que encarnam uma relação, uma compatibilidade entre as verdades dos fatos e as intenções.
É claro que na juventude você tem aquelas aspirações igualitárias, socializantes, de justiça social, construídas sobre utopias, sobre falsas soluções. É um fato que se descobre pela vida de que o socialismo é um fracasso material. Mais que um fracasso material, o socialismo é uma miséria moral. Um regime de delação, de repressão.
Saindo do Brasil, jovem com vinte anos, fui direto ao socialismo, na Europa central, no socialismo real de tipo soviético. Eu me deparei não apenas com a penúria material, mas com a miséria moral. Ao cabo de pouco tempo, menos de três meses, eu saí e me estabeleci na Bélgica. Não é o socialismo real, mas o capitalismo quase ideal. Trabalho e estudando, sobretudo na biblioteca, fui fazendo o caminho natural do socialismo estatizante da juventude indo para um socialismo mais light. Depois naturalmente, eu aceitei a realidade das democracias de mercado.

MESMO COM TANTOS RELATOS DAS MISÉRIAS QUE PASSARAM E PASSAM AS PESSOAS EM NAÇÕES SOCIALISTAS, POR QUE AINDA HÁ PESSOAS QUE INSISTEM EM UMA “REVOLUÇÃO”?
PRA: A concepção marxista do mundo é instigante e atraente. Ela proclama as misérias materiais do mundo e nenhum regime é perfeito, as pessoas têm que trabalhar duro. Ela proclama um ideal mais elevado, o da igualdade. Aponta a causa da miséria a propriedade privada dos meios de produção, a existência de burgueses concentradores de riquezas. Apontam também o caminho revolucionário ou pelo meio eleitoral, mas para superar o capitalismo e a propriedade privada.
Isso atrai muito a juventude, pois ela é mais propensa a maior justiça social, a maior igualdade, a maior generosidade, a uma grande reforça na sociedade. Eles não atentam que a construção humana é feita de progressos graduais, constantes e acumulativos. Esse é um processo que todas as sociedades atravessam. A tentativa de reordenar a sociedade para construir igualdade redunda geralmente na distribuição da pobreza.
A sociedade precisa ter o processo de acumulação, efeito de trabalho e competição. Não é um sistema generoso. O capitalismo em si mesmo não é um sistema moral ou imoral, ele é amoral. Ele é um sistema amoral. As pessoas trabalham, tem algo para vender, para oferecer. O retorno vem pelo mercado, não pela mão generosa do estado.
O estado é uma extorsão da riqueza social produzida pelos empresários e pelos trabalhadores em benefício do conjunto da sociedade. Com isso você diminui os incentivos à acumulação. É um sistema falho, onde todos esperam receber algo de um ente supostamente neutro que não existe. O estado é uma construção social feita pelos homens para facilitar as relações humanas, mas ele próprio não é um criador de riqueza. Ele vive da riqueza da sociedade.
Basear todo o progresso econômico e social sobre um sistema estatizante é apoiar-se apenas na miséria, na pobreza e na estagnação.

COMO O BRASIL PODE AJUDAR A VENEZUELA E COMO PODEMOS NOS PROTEGER DAQUELE DESTINO?
PRA: A Venezuela é um caso extremo, mas a exacerbação de um fenômeno tipicamente latino-americano. De um lado a demagogia política, as mentiras, as promessas irrealistas e de outro lado o populismo econômico. Isso não acontece apenas na América Latina, mas ela é especialmente devotada a essas deformações.
A Venezuela tem um traço diferente de seus vizinhos latino-americanos que é sua riqueza em petróleo. Pode ser uma coisa boa se bem administrada, mas pode ser uma maldição. Ele deforma as condições econômicas de um país. Muitas vezes ele está à flor da terra, permite uma riqueza imediata.
A sociedade venezuelana foi deformada pelo petróleo durante décadas. Aquilo atraiu comportamentos rentistas, o que os economistas chamam de rent-seeking. A sociedade passou a ficar dependente do petróleo.
O [falecido ditador Hugo] Chávez criou aquilo que se chama assistencialismo estatal, distribuindo a riqueza do petróleo de uma forma desigual. E também atraído pelo socialismo dos cubanos, ele passou a reprimir a atividade capitalista privada e a estatizar e a monopolizar diversos setores. Com isso ele tirou diferentes estímulos de produção. A Venezuela é um estado falido e possivelmente em situação de pré-guerra civil.


A ex-presidente Dilma Rousseff recebe um retrato de Hugo Chávez do ditador venezuelano Nicolás Maduro em 2013.

O Brasil poderia talvez criar um grupo de “amigos do povo venezuelano” e obrigar a Venezuela a fazer uma eleição verdadeiramente livres. Tecnicamente, a Venezuela já é uma ditadura. As instituições estão deformadas. Antes o parlamento era majoritariamente chavista, hoje tem uma oposição maior, mas que está sendo sabotada. O Brasil e os outros países da América Latina, através de mecanismos de defesa da democracia do Mercosul, da Unasul, da OEA, deveriam pressionar a Venezuela por eleições livres. Daí começa um processo muito duro de reconstrução da economia.

[ATUALIZAÇÃO: Algo assim aconteceu em fevereiro de 2018 por um grupo de países latino-americanos, incluindo o Brasil. Mais informações por meio deste link.]

QUANDO O PRESIDENTE MICHEL TEMER DISSE QUE NO GOVERNO DELE O BRASIL NÃO VAI TRABALHAR COM VISÕES DE MUNDO ENVIESADAS, ENTÃO ELE ESTAVA FALANDO SOBRE ISSO?
PRA: Exato. O Brasil, como todo país latino-americano, alterna entre visões mais demagógicas, mais populistas e mais realistas. Infelizmente, o Brasil atravessou nos últimos treze anos, com os governos petistas, por governos estatizantes, dirigistas, apoiadores de governos socialistas e inimigos da liberdade, como o cubano.
Nisso a política externa foi deformada, ela passou de abstencionista da democracia para um apoiador de ditaduras. O Brasil é em grande parte responsável pela manutenção do Chávez e de outros regimes populistas e bolivarianos na América Latina.
Felizmente acabou, houve um desastre na economia. A presidente Dilma foi impedida de continuar seu mandato. O presidente Temer é um político tradicional e o Itamaraty retoma seu caráter profissional e isento, sem esse viés progressista e bolivariano dos últimos treze anos.

EM ABRIL (DE 2017), ROBERTO CAMPOS COMPLETARIA 100 ANOS. O SENHOR PODERIA DIZER QUAL FOI O LEGADO DELE PARA O BRASIL?
PRA:O Roberto Campos (1917–2001) foi um intelectual de qualidade excepcional. Vindo de estudos seminaristas, entrou na diplomacia e ao ser encarregado de questões econômicas, tanto no Itamaraty quando na sua primeira missão nos Estados Unidos, ele participou de conferências extremamente importantes, como a Bretton Woods e a de Havana.
Com isso ele se tornou um economista altamente capacitado em uma fase que o Brasil estava se deslanchando para o desenvolvimento. Ele fez uma tese de mestrado sobre flutuações e ciclos econômicos de qualidade tão excepcional que Joseph Schumpeter, famoso economista que lecionava em Harvard, disse que ela tinha qualidade de doutorado — e de fato tinha.


Roberto Campos. Foto retirada do site do jornal Gazeta do Povo.

Observando o Brasil, os Estados Unidos, a América Latina, o Roberto Campos concluiu que a melhor forma de desenvolvimento para o Brasil seria via mercado, estabilidade macroeconômica, combatendo a inflação, competição no campo microeconômico, instituição de governanças fiáveis, alta qualidade de capital humano — ele sempre insistiu na educação — e sobretudo a abertura ao mercado internacional e aos investimentos estrangeiros. Ele tinha uma receita para o desenvolvimento e tentou aplicar.
Roberto Campos foi um dos criadores e um dos presidentes do BNDE [posteriormente renomeado BNDES], um dos principais relatores do Plano de Metas do Juscelino Kubitschek em 1955. Essa experiência prática, de não só estudar economia e comparar o Brasil a outros países, mas também de formular políticas econômicas, de ver o efeito devastador da inflação e de um mercado protecionista, fez com que ele chegasse nessa receita ideal.
Infelizmente o Brasil não era propenso a aceitar essas receitas liberais. Tanto que ele era chamado de Bob Fields [a tradução do nome Roberto Campos para o inglês] por sua visão americana do mundo. Mesmo não tendo parte no golpe militar de 1964, ele foi convidado posteriormente para o Ministério do Planejamento. De 1964 a 1967, junto com o Ministro da Fazenda Otávio Gouveia de Bulhões, um liberal, ele pode transformar radicalmente a economia brasileira, modernizá-la e fazer todas as reformas necessárias para colocar o Brasil em um patamar de desenvolvimento. E ele conseguiu.
Em 1967, quando ele saiu do governo, o Brasil enveredou em um ciclo de crescimento extraordinário, em taxas chinesas, digamos — aliás, os asiáticos vinham ao Brasil para tomar receitas de crescimento econômico. Chegou a 14% o crescimento em 1973, mas os militares exageraram. O Roberto Campos criticava seus antecessores e seus sucessores. Apontava a leniência com a inflação, a estatização exagerada, o apoio no endividamento externo. Ele não tinha problema em criticar.
E durante todos esses anos, de 1950 até sua morte, ele foi um debatedor. Escrevi artigos semanais para os grandes jornais do Rio e de São Paulo. Lembro que quando eu era jovem, eu até tentei me opor ideologicamente a ele, mas não consegui.
Se a gente ler os escritos dele desde aquela época, todas as prescrições econômicas que ele fez para o Brasil continuam válidas e pungentes. Ele tem uma atualidade muito concreta. Teve a felicidade de sobreviver ao socialismo e também a felicidade de não ver essa lástima que aconteceu à economia graças aos petistas.



Algumas semanas depois desta entrevista, o professor Paulo Roberto de Almeida lançou o livro “O homem que pensou o Brasil — trajetória intelectual de Roberto Campos” (Editora Appris, 2017).

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Repetindo o óbvio - Roberto Campos (2000)

Descontando o machismo involuntário de Eugênio Gudin, e os "50 anos de ditadura" de Ricardo Bergamini (mesmo cumulativamente não dá isso, somando os 21 anos do regime militar, mais os oito  do Estado Novo, e mais alguns aqui e ali, Floriano, por exemplo), o artigo de Roberto Campos de 20 anos atrás, um ano antes dele morrer, é absolutamente atual, descontando as circunstâncias específicas. O Brasil é um país que dá voltas em torno do nada, ou seja, fica rodando em círculos sem avançar.
A mediocridade de nossas elites explica em parte essa longa estagnação: incapaz de fazerem as reformas relevantes, como Campos já falava de Colbert, séculos atrás...
Paulo Roberto de Almeida



Que tal procurarmos reformar os homens, ao invés de culparmos as instituições (Roberto Campos).

Prezados Senhores
Se ditadura fosse solução para os nossos problemas, Roberto Campos não teria escrito o magistral e impecável artigo abaixo em 09/01/2000, após mais de 50 anos de ditadura no Brasil.

Cabe lembra que o Congresso Nacional teve 120 milhões de votos, e Bolsonaro insignificantes 57 milhões de votos, se ousar enfrentar a maioria, vai para o impedimento.
Ricardo Bergamini
Repetindo o óbvio
126417*Roberto de Oliveira Campos
(09/01/2000)

Aceito o risco de parecer repetitivo. Diante das grandes questões que preocupam mais no nosso país, a originalidade do articulista fica em segundo lugar. Estamos atravessando dias pesados, um ambiente de insatisfações e sombras. Os mais jovens sentem-se angustiados diante das incertezas do futuro, da ameaça de desemprego, de falta de horizontes. Os mais velhos tentam lembrar-se daqueles períodos em que o Brasil não atravessava um estado de crise permanente. Salvo alguns breves anos do começo do Plano Real, parte da Era Kubitschek e o otimismo do "milagre econômico" do fim dos anos 60 - que, no entanto, foi tisnado pela situação política de exceção -, todo o resto de nossa História contemporânea é um confuso mosaico de problemas e condições institucionais instáveis.

Não chegamos felizmente ao extremo dos gulags, campos de extermínio, "limpezas étnicas" e coisas que tais. Nossos chamados "anos de chumbo", comparados às experiências de outras nações (e certamente aos "anos de aço" dos regimes comunistas), pareceriam antes de papel de cigarro metalizado. Se afundamos numa situação crítica injustificável, é por nossa própria culpa, por falta coletiva de bom senso e de responsabilidade.

O público exprime sua perplexidade naquela conhecida anedota de como Deus, tendo presenteado nossa geografia com uma abundância de vantagens materiais, colocou no Brasil, como contrapeso, um "povinho ruim". Essa autodepreciação está errada. O trabalhador brasileiro, ainda que subinstruído, é diligente e flexível, como as empresas estrangeiras são as primeiras a reconhecer. Os engenheiros e gerentes especializados têm em alguns casos nível bastante alto. Somos a oitava economia do mundo e temos conseguido adaptar-nos a mudanças tecnológicas complexas. Falta-nos reduzir os excessivos contrastes em matéria de educação, informação e saúde - demanda social justa, mas não um impedimento real ao nosso desenvolvimento tecnológico ou industrial.

A verdade é que nosso grave subdesenvolvimento não é só econômico ou tecnológico. É político. Somos um gigante preso por caguinchas dentro de estruturas disfuncionais. A máquina político-administrativa que rege hoje nossos destinos é uma fábrica de absurdas distorções cumulativas. O regime presidencialista e o voto puramente proporcional, cada um dos quais, já de si, dificilmente funcionam bem, transformam-se, quando combinados, numa crise quase ininterrupta. O presidencialismo americano, que nos serviu de modelo, é conjugado ao voto distrital, e a federação é autêntica, porque foram os Estados que a criaram, enquanto que no Brasil estes resultaram do desfazimento do império unitário.

Não é que os políticos só pensem em si ou sejam "corruptos" de nascença. Essa é uma visão popular deformada. A maioria é dedicada e séria. Mas o deputado, o senador, o prefeito, o governador e, obviamente, o presidente têm de ser eleitos, ponto de partida do qual não há escapatória. Nas eleições proporcionais de hoje, os deputados são obrigados a catar votos por todo o Estado, garimpando aqui e ali - um processo caro e tremendamente incerto, porque eleitor em geral não sabe como discriminar entre dezenas de representantes eleitos. Como é que o eleitor médio vai se lembrar de quem propôs medidas ou leis, para poder avaliar quem merece o seu voto? Um americano ou um inglês pode falar no "seu" deputado: sabe exatamente quem ele elegeu e tem como cobrar respostas ao representante do "seu" distrito. O alemão, com um sistema misto, tem o "seu" deputado distrital e também o da lista do seu partido. E, como o regime é parlamentarista, pode cobrar de ambos.

No Brasil, cobrar o quê? De quem? Mal acaba de ser eleito por um partido, o deputado ou senador se sente à vontade para mudar de partido. Não existe sanção. A eleição presidencial então é sempre um trauma violento, agravado pela percepção de que o vencedor passará a controlar a máquina pública, os mecanismos de dar ou negar favores. Gerir a coisa pública é, entre nós, um contínuo varejo. Dá para estranhar que, desde o início da República, raros tenham sido os governos que não se envolveram em conflitos com o Congresso, com riscos de descontinuidade institucional? Contra um sistema tão ruim, tanto faz se os políticos são santos ou bandidos. Num ônibus sem freios, o perigo de desastre é o mesmo para todos.Há perto de três séculos e meio, Colbert, o famoso ministro protecionista da França monárquica, assim se lamentava na Carta de Luís XIV aos funcionários e ao povo de Marselha (26 de agosto de 1764):

"Como desde a morte de Henrique IV temos tido só exemplos de carências e necessidades, precisamos determinar como aconteceu que, durante tão longo tempo, não tenhamos tido, se não abundância, pelo menos uma renda toleravelmente satisfatória..." Colbert põe a culpa no sistema fiscal e afirma que piores do que os muitos corruptos foram aqueles altos funcionários "cuja incompetência prejudicou mais o Estado e o povo do que os roubos pessoais". Entre os vícios da burocracia fiscal da época, Colbert lista os seguintes: "Consumir com despesas correntes as receitas ordinárias e extraordinárias dos dois próximos anos..." e "negligenciar as receitas gerais ordinárias afazendadas, dedicando-se ativamente à busca de fontes de renda extraordinárias..."

Colbert se revelou um reformista e desenvolvimentista avant la lettre. Mas a França já estava politicamente entalada, e ele não conseguiu realizar sua "reforma fiscal". O mundo está cansado de esperar pelas "reformas" brasileiras. E de ouvir lamentações sobre a nossa pobreza. Há muito, exceto em regiões desérticas da África ou gravemente sobrepovoadas da Ásia, a pobreza deixou de ser uma fatalidade. É um acidente histórico de povos que preferem externalizar a culpa em vez de fabricar seu próprio destino.

*Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planejamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. Sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington, e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Roberto Campos e a utopia constitucional - Paulo Roberto de Almeida

Paulo Roberto de Almeida: A Constituição Contra o Brasil

(Podcast) 

https://www.youtube.com/watch?v=V9cKqjispGI

O autor e diplomata Paulo Roberto de Almeida, esclareceu quantas constituintes o Brasil teve e porque a Constituição age contra o desenvolvimento do país. Resenha escrita: https://politicaedireito.org/br/2019/10/21/a-constituicao-contra-o-brasil/


“Na constituinte de 1988, a lógica econômica entrou de férias” – Roberto Campos. 

https://youtu.be/V9cKqjispGI


terça-feira, 11 de junho de 2019

O FMI recebe uma visita de... Lord Keynes - Rahim Kanani, IMF magazine: Finance and Development

Muito tempo  atrás, três anos depois da morte de Roberto Campos, eu imaginei uma conversa entre o nosso grande economista-diplomata, Friedrich Hayek e o fundador da moderna macroeconomia, John Maynard Keynes, não numa visita ao próprio FMI, como faz abaixo o editor da revista do FMI, mas no céu. Eis meu artigo: 

“O que Roberto Campos estaria pensando da política econômica?”, Brasília, 30 set. 2004, 4 p. Ensaio colocando RC em conversa com Keynes, Hayek e Marx, no limbo, a propósito do terceiro ano de sua morte. Publicado em formato reduzido no jornal O Estado de São Paulo (sábado, 9/10/2004); divulgado em versão integral no blog Diplomatizzando (6/01/2017; link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/01/ainda-roberto-campos-com-marx-e-hayek.html).

Mas, alguns anos à frente dessa brincadeira, eu também coloquei Tocqueville a serviço do Banco Mundial, primeiro numa visita ao Brasil, depois a vários outros países latino-americanos: 

De la Démocratie au Brésil: Tocqueville de novo em missão”, Brasília, 10 agosto 2009, 10 p. Resumo de relatório da missão ao Brasil empreendida por Alexis de Tocqueville, a pedido do Banco Mundial, para determinar a situação do Brasil em termos de democracia e de economia de mercado. Publicado na Espaço Acadêmico (ano 9, n. 103, dezembro 2009, p. 130-138; ISSN: 1519-6186; link: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/8822/4947); blog Diplomatizzando (12/07/2011; link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2011/07/tocqueville-de-novo-em-missao-o-brasil.html).

“De la (Non) Démocratie en Amérique (Latine): a Tocqueville report on the state of governance in Latin America”, Brasília, 9 junho 2018, 41 p. Paper presented in the Estoril Political Forum; round-table “Brazil and Latin America: the challenges ahead”.  Academia.edu (link: https://www.academia.edu/s/a4cbf778cf/de-la-non-democratie-en-amerique-latine-a-tocqueville-report-on-the-state-of-governance-in-latin-america), em Research Gate (link: https://www.researchgate.net/publication/325809199_De_la_Non_Democratie_en_Amerique_Latine_A_Tocqueville_report_on_the_state_of_governance_in_Latin_America) e divulgado no blog Diplomatizzando (17/06/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/06/de-la-non-democratie-en-amerique-latine.html). Publicado na Revista de Estudos e Pesquisas Avançadas do Terceiro Setor, REPATS (vol. 5, n. 1, janeiro-junho 2008, p. 792-842; ISSN: 2359-5299; link: https://portalrevistas.ucb.br/index.php/REPATS/article/view/10020/5909). 


Agora leiam esta brincadeira do editorialista da revista do FMI: 


Lord Keynes Pays a Visit

Finance & Development, June 2019, Vol. 56, No. 2 
Rahim Kanani
Digital Editor, F&D Magazine
International Monetary Fund

A distinguished figure from the past appears at the IMF on its 75th anniversary 

“ID. I gotta see some ID.”
The elderly gentleman, attired elegantly in a three-piece suit and striped tie, stared back blankly. The guard gave an exaggerated sigh. “Who are you? What’s your name?”
“Keynes. John Maynard Keynes. Lord Keynes.”
“Look, buddy, I don’t care if you’re Lord of the Rings. I still need to see some ID before I let you into the building.”
A nameless bureaucrat, scurrying past, late for work, stopped dead in his tracks and whirled around. It was Keynes! He recognized the face from the bronze bust in the executive boardroom. “Excuse me,” he said, flashing his pass at the guard, “I’ll take care of this gentleman.”
“Make sure he gets a visitor pass,” the guard called after them.
They entered IMF Headquarters. “Please, Lord Keynes, won’t you have a seat, while I…”
“Weren’t you expecting me? Didn’t you receive my telegram?”
“Um…I’m afraid not. Let me call the Managing Director’s office. I’m sure they will sort it out.”
“Well, I am a bit late. American trains, you know, never punctual…” muttered Keynes, as he sat on the hard leather bench, appearing a bit dazed by the wide array of flags that adorned the lobby.
It was almost 20 minutes before the bureaucrat reappeared. “The Managing Director will be pleased to meet you now,” he announced.
“That’s most kind of him…um, what’s his name?”
“Lagarde. Christine Lagarde.”
“A lady? A French lady?”
The bureaucrat nodded.
“Oh, well, I suppose we have the No. 2 slot?”
“The First Deputy Managing Director is an American, David Lipton.”
“Ah, of course, the Americans. But surely, we have the No. 3 position? I mean, Great Britain has the second largest quota.1 I should know: I negotiated it myself.”
The bureaucrat coughed apologetically. “Actually, Japan has the second largest IMF quota now. Followed by China and Germany. But the United Kingdom has the fifth largest quota—tied with France,” he added consolingly.
Keynes was just digesting this piece of information when he was ushered into the Managing Director’s office.
“Lord Keynes, what an honor to meet you.”
“Enchanté, Madame.”
“I am so sorry that we haven’t arranged a better reception for you. To be honest, we weren’t really expecting…”
Keynes smiled thinly. “I know. I’ve been ‘in the long run’ for some time now.2 But I couldn’t resist visiting the Fund today, on its 75th birthday.”
Lagarde motioned him to the sofa, strode over to her Nespresso machine, and began to prepare two cups of coffee.
“So, tell me,” said Keynes, “Has the IMF been a success? What’s been happening? I understand there’ve been some changes since the Conference.”
“I scarcely know where to begin,” replied Lagarde. “So much has changed.”
“Well, the Articles. We labored so hard to negotiate every word. I trust  they haven’t changed.”
“On the whole, no. But there’ve been a few amendments.”
“Such as?”
“The first amendment was for the creation of the SDR—the special drawing right. It’s a sort of … well, it’s complicated. But think of it as a virtual currency among central banks. It’s to provide liquidity to the international monetary system when it’s needed. We did a massive allocation in 2009.”
“Sounds like my bancor!”
“Yes, exactly,” Lagarde laughed. “I forgot. I need hardly explain how the SDR works to you. Let’s see, what else? I suppose that the other big change was the second amendment, which legitimized floating exchange rates.”
“Floating rates! But we established the IMF precisely to get stability in the foreign exchanges after the utter chaos between the wars.”
“The Bretton Woods system of fixed exchange rates collapsed in the early 1970s.”
“Then why wasn’t the IMF shut down?”
“Oh, the world soon discovered it still needed us. Besides, even with floating rates, we exercise firm surveillance over members’ exchange rate policies to make sure they do not manipulate their currencies and gain unfair trade advantage.”
“Indeed. And do they listen to you?”
Lagarde gave a little laugh. “Well, not always, perhaps,” she conceded. “The United States is always complaining about surplus countries not allowing their currencies to appreciate—it used to be Germany and Japan that were the main culprits. Until recently it’s been China. A few years ago, we were even accused of being ‘asleep at the wheel’ on our most fundamental responsibility of surveillance.’ ”3
“Ah, I told Harry Dexter White at the time: You’re hobbling the IMF’s ability to force surplus countries to adjust—I wanted symmetric penalties for surplus and deficit countries, you know. But White and the US Treasury gang resisted strongly. I warned White, You won’t always be a surplus country, and then you’ll be sorry. He used to say, ‘That doesn’t matter—the United States will always champion free trade.’ Presumably that’s still the case?”
“Oh, quite,” Lagarde replied dryly.
“So central banks no longer intervene in the foreign exchange markets?”
“Not if they have floating rates. They’re not supposed to, except under disorderly market conditions.”
“Aren’t markets always disorderly?”
Lagarde stood up to retrieve the espressos from the machine, when she suddenly changed her mind. She instead went to a small refrigerator hidden in the wood paneling of the wall and took out a bottle of La Grande Dame.
“How very appropriate,” Keynes laughed. “You must have heard, the one thing I regret in life…”4 He stood up and walked toward Lagarde.
“I found this in the fridge when I first arrived. I was saving it for a very special occasion. I think today qualifies,” Lagarde smiled, handing him a glass.
They toasted. “Tell me,” said Keynes, settling back in his chair. “How well did my bancor idea work? What did you call it? Special drawing right? You mentioned you made a large distribution a few years ago. Why was that?”
Lagarde stared at him blankly and then said, “Of course. You haven’t heard of the global financial crisis.”
“Indeed not! We had another Great Depression?”
“No. A decade ago, we had a major financial crisis that might have turned into a Great Depression. But luckily, we had learned your theories. The IMF advocated an immediate fiscal stimulus by all major economies as well as massive monetary easing.”
“And the slump passed?”
“More or less. The global economy has been a bit shaky ever since.”
“But the fiscal stimulus worked?”
“Yes, very well. Though some governments spent too much, and debt levels have soared.”
“And what of the monetary easing?”
“It was crucial.”
“But didn’t it result in hot money flows? Or, I suppose nowadays you have much better capital flow management?”
Lagarde shrugged. “There were large flows to developing and emerging market economies. And companies in those countries have increased their dollar exposure to dangerously high levels.”
“Productive capital should be allowed to go where it can be put to best use. But fully unfettered hot money flows…” Keynes shook his head in dismay. “White and I were in full agreement on that point when we were drafting the Articles, but then the New York bankers got hold of our draft and that was the end of it.Anyway, all this was a few years ago. What is the Fund dealing with nowadays?”
“So many problems,” Lagarde replied. “As I mentioned, even 10 years after the crisis, the world economy is still shaky. Plus, we’re dealing with a host of new issues: income inequality, achieving greater gender equity, global climate change.”
Climate change? You mean the weather? How can the climate change?”
“The world produces thousands of tons of carbon dioxide every year, as well as other pollutants, and this has led to higher average temperatures, melting ice caps, rising sea levels…”
“My goodness,” said Keynes. “That sounds dreadful. But what does it have to do with the Fund?”
Lagarde explained. She was just finishing when there was a discreet knock and her assistant popped her head around the door. “Mme. Lagarde, you’re due to chair the Board in a few minutes.”
“Again?” Lagarde sighed. “OK. Thank you. I’ll be there in a moment.”
Keynes stood up. His moustache twitched into a smile. “I always said the Fund should have a nonresident Board.”
“Look, why don’t you spend the rest of the day at the Fund?” asked Lagarde, preparing to head out. “My assistant will show you around, and you can see for yourself how the Fund is doing. Come by and see me before you leave.”
* * *
Dusk was falling on what promised to be a beautiful Washington summer evening when Keynes returned to the Managing Director’s office.
“So, what do you think?” asked Lagarde.
“It seems to me that everything has changed. In my day, there were three constants: the weather; labor’s share of national income;6 and—I am sorry to say—women’s place in society.7 It’s all in flux now. Yet, at the same time, nothing has changed. The Fund still needs to help countries adjust to balance of payments problems without ‘resorting to measures destructive to national or international prosperity.’ It still needs to help achieve an equitable burden of adjustment between surplus and deficit countries and to manage volatile capital flows between source and recipient countries. And, on occasion, it still needs to regulate global liquidity. The only thing that’s changed is the nature of the shocks and problems that countries confront. But the fundamental mission of the Fund—helping its member countries cope with these problems—remains the same. Our real achievement at Bretton Woods was not in setting up the system of par values and fixed parities. It was in setting up an institution that could—and would—adapt to serve its membership.”
“Quite so,” replied Lagarde. “Come, I will walk you out.”
They rode the elevator in silence, lost in thought.
“Any other observations?” asked Lagarde, as she shepherded Keynes through the door.
“Yes,” replied Keynes. “When I see men—and women—of every race, of every nationality, and of every creed working together for the common good, I know that the IMF is in good hands.8 And,” he smiled, “when the IMF is in good hands, the world is in good hands.”
With a slight bow, Keynes turned and walked away, disappearing down 19th Street, NW.
ATISH R. GHOSH is the IMF’s historian.
References:
Adams, Timothy. 2005. “The IMF: Back to Basics.” Speech delivered at the Peterson Institute for International Economics, September 23.
Council of Kings College. 1949. John Maynard Keynes, 1883–1946, Fellow and Bursar: A Memoir. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
Ghosh, Atish R., Jonathan D. Ostry, and Mahvash S. Qureshi. 2019. Taming the Tide of Capital Flows. Cambridge, MA: MIT Press.
Helleiner, Eric. 1994. States and the Re-emergence of International Finance: From Bretton Woods to the 1990s. Ithaca, NY: Cornell University Press.
Keynes, John M. 1924. A Tract on Monetary Reform. London: Macmillan.
———. 1939. “Relative Movements of Real Wages and Output.” Economic Journal 49 
(193): 34–51.
Notes: 
1 Keynes’s surprise is understandable: until the ninth quota review (1990), the United Kingdom had the second largest quota, after the United States. In 1947, the five countries with the largest quotas were the United States (31.68 percent), the United Kingdom (15.12 percent), China (6.56 percent), France (6.28 percent), and India (4.85 percent).
2 As Keynes (1924, 80) famously said, “In the long run, we are all dead.”
3 Adams (2005).
4 Keynes reportedly once said that his only regret in life was that he had not drunk more champagne (Council of Kings College 1949, 37).
5 See Helleiner (1994); and Ghosh, Ostry, and Qureshi (2019), Chapter 2.
6 Keynes (1939) called the stability of labor’s share of national income “one of the most surprising, yet best-established facts in the whole range of economic statistics.” Since the 1980s, however, labor’s share has been declining in most advanced economies.
7 Keynes was a strong supporter of women’s rights, becoming vice chair of the Marie Stopes Society in 1932.
8 On September 25, 1946, long before its member governments had adopted similar legislation, the IMF Executive Board adopted Rule N1: The employment, classification, promotion and assignment of personnel in the Fund shall be made without discriminating against any person because of sex, race, or creed.

ART: JOHN CUNEO; ISTOCK/ MOLLYPIX
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