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domingo, 27 de setembro de 2015

What IF? A big IF: o que teria sido da China se Nixon nao tivesse ido em 1972? - The Globalist

Uma enorme pergunta dessas que podem entrar nos exercícios de história virtual, desta vez econômica. A história virtual -- que eu cultivo, tendo pelo menos três ou quatro livros da série What If? -- se dedica bem mais a episódios militares ou simplesmente políticos (golpes, revoluções, ações humanas), do que propriamente a processos econômicos, que são bem mais "pesados" para serem influenciados facilmente pelas ações humanas.
Mas no caso da abertura americana para a China -- tomada por Nixo por motivos puramente estratégicos e geopolíticos: abrir uma outra frente para enfraquecer a União Soviética, então sob a liderança já gerontocrática, mas ainda extremamente ativa de Brejnev -- ela possui enormes consequências geoeconômicas.
Muito provavelmente a China não teria empreendido seu grande caminho de volta ao capitalismo tão facilmente quanto foi com a permissão dada a empresas americanas, e estrangeiras em geral, para se instalar nas zonas econômicas especiais criadas por Deng Xia-ping na sequência dessa abertura.
Sem uma China capitalista nos anos 70 e 80, não teríamos o gigante econômico da atualidade, e o mundo seria muito, mas muito diferente do que é...
Enfim, vale a reflexão, ainda que seja só um BIG IF...
Paulo Roberto de Almeida

Where Would China Be Without Nixon?

What would today’s global economic landscape look like had Nixon not gone to China in 1973?



Richard Nixon was the first U.S. president to visit China while in office.

Takeaways

  • Almost every inhabitant of China today owes a debt of gratitude to Richard Nixon.
  • U.S. relations with China from 1949 to 1972 were very similar to U.S.-Iran relations today.
  • The official Mao-era vision of the United States as the Imperialist Wolves would have remained dominant among China's decision-makers and most of its people.
U.S. relations with China in the period 1949 to 1972 were very similar to U.S.-Iran relations today. They were stuck in a rut and nobody seemed capable of finding a constructive way forward.
Had President Richard Nixon not gone to China, in February 1972, we can assume that the isolate-China policy of the United States would have persisted much longer. President Jimmy Carter might well have attempted to thaw relations, but he, as a Democrat, would have met with strong opposition from Republicans.
It was said when Nixon opened to China that only a relatively hawkish Republican could have done it. Domestic opposition to the move would otherwise have been too fierce. It would probably have been left to the Reagan Administration to change the policy, probably in President Reagan’s second term (1985-89), when a general thaw in the Cold War occurred.
In these circumstances, with a U.S trade embargo in force, the Chinese opening to the world would have been very difficult to get going. The availability of the gigantic U.S. market was essential to provide the foreign exchange needed to develop Chinese industry and agriculture.
The first burst of increased Chinese exports happened remarkably quickly after China’s government changed orientation in 1976. Exports more than tripled in five years, from $7.3 billion in 1976 to $24.4 billion in 1981 — modest figures now, but a vital source of foreign exchange then.
The further increase in exports was then rather slow until an explosion after 1987. With the United States embargoing Chinese goods in 1976-81, the initial surge would have been impossible.
Had visits by Nixon and President Gerald Ford, who went to Beijing in 1975, not taken place, the official Mao-era vision of the United States as the Imperialist Wolves would have remained dominant among China’s decision-makers and most of its people.
This might well have been sufficient to tip the scales towards triumph for the Gang of Four, doubtless quickly followed by the liquidation of Deng Xiaoping and probably the moderate Hua Guofeng, Mao’s immediate successor.
Had this happened, there would certainly have been no opening to capitalism before death of Jiang Qing, Mao’s last wife, in 1991, and probably not for long thereafter. China today would well be the impoverished, economically unimportant country it was in the later years of Mao.
Almost every inhabitant of China (and the “almost” is purely there for courtesy) owes a debt of gratitude to Richard Nixon.

Without his action, the country would today be no freer than it is and its people would be immeasurably poorer than they are. It is, however, not clear whether Americans should also raise a glass to him for this development.
Had China remained in its Maoist cave, other countries, notably India and Vietnam (if that country had liberalized without China’s example) would equally have been able to provide cheap labor and skills to multinational corporations.
Indeed, some such countries — notably Indonesia, the Philippines and Pakistan — may also be counted as marginal net losers from Nixon’s opening and China’s subsequent emergence. They lost business they would have otherwise obtained.
The two major gainers from China’s emergence are consumers of Chinese-made products and the multinational corporations doing one-stop sourcing from China.
A third group — multinationals selling to China — has notably failed to make adequate returns. For every one of these companies eking out modest profits in China, there are ten that have found it a bottomless pit of loss.
Textile consumers have benefited spectacularly, with prices no higher today in nominal terms than they were 20 years ago. In electronics, 20 years ago, most gadgetry was assembled in the United States and Japan. Today its cost to consumers (or in Apple’s case, to Apple) is greatly reduced by the magic of Foxconn’s Chinese production system.
Without China, sourcing in East Asia, including Foxconn’s own Taiwan, would be possible, but the cost would be much higher.
We now come to the unquestionable gainers from China’s emergence. Just read the profit statements of multinational corporations. U.S. corporate profits are at a level in terms of GDP not seen since the glory days of 1929.
Thanks to China, Apple and its confrères are able to manufacture at — what used to be called — third-world wages and sell at rarified Western prices. That won’t last forever. Indeed, Apple’s shareholders already seem to see the shadow of a coming return to normal.
However, so far the profit wave, which was caused by China’s emergence and benefited top U.S. management, investment bankers and hedge fund managers, has been greater than in any other of the world’s great booms.

domingo, 13 de setembro de 2015

Revolucao Burguesa? Du cote de chez moi??? Unicamente neste meu livro, saindo do forno - Paulo Roberto de Almeida

Revolução burguesa no Brasil?
Esqueçam, pelo menos com esta "burguesia" que temos: um punhado de amigos do rei, de um lado, e os coitados dos empresários, do outro, sendo dilapidados continuamente pelo Estado obeso.
Na primeira tropa temos os banqueiros satisfeitos com os juros da dívida pública e os capitalistas promíscuos, que acompanham os companheiros totalitários, os neobolcheviques (que alguém já chamou de "burguesia do capital alheio), no assalto ao Estado e que assalto: parece que a extorsão na Petrobras vai ficar nos anais dos grandes roubos da História, como o mais vasta empreendimento de corrupção jamais conhecido em todo o mundo e no itinerário do capitalismo (bem medíocre o nosso).
A maior parte do que deveria ser uma burguesia liberal tenta sobreviver em face do ogro famélico que é o Estado extrator. Sem remédio, pedem proteção, reserva de mercado, subsídios.
Portanto, nada de revolução burguesa no horizonte previsível.
Eu sempre preguei a realização de uma "fronda empresarial" por parte desses capitalistas não amigos do rei, uma capaz de fazer do Brasil um país "normal", ou seja, uma economia de mercado como qualquer outra, e capaz de lutar por um  sistema político simplesmente menos corrupto do que o que temos.
Alguma esperança disso? Não riam...
Acho que não vamos ter, nem fronda empresarial, muito menos uma revolução burguesa, en bonne et due forme.
Em lugar disso, nós, classe média, vamos ter de continuar lutando para expulsar os mafiosos do poder, para depois começar tudo outra vez.
Mas, enquanto esperam, os curiosos pela trajetória da nossa frustrada "revolução burguesa" podem ler, se quiserem, o meu próximo livro, que está sendo publicado nos próximos dias, como informo em seguida:


Paulo Roberto de Almeida:
Révolutions Bourgeoises et Modernisation Capitaliste: Démocratie et autoritarisme au Brésil
(Sarrebruck: Éditions Universitaires Européennes, 2015, 396 p.; ISBN: 978-3-8416-7391-6)


Lombada: Les révolutions bourgeoises et le Brésil

Informação de quarta capa: 
Les rapports du capitalisme avec le système politique, ainsi que l’impact du processus de modernisation économique sur le régime de pouvoir, passant ou non par des bouleversements révolutionnaires, constituent quelques uns des thèmes majeurs de la sociologie historique comparée. Ce long essai sur les révolutions bourgeoises classiques et leur rôle dans l’itinéraire plus ou moins réussi de certaines sociétés vers des formes plus avancées du régime démocratique prend appui sur les traditions marxiste et wébérienne de la théorie sociale pour essayer d’en déceler des expériences similaires, ou comparables, dans le cas brésilien. Le Brésil, en dépit de son processus plus ou moins avancé de modernisation capitaliste et du dépassement de ses épisodes autoritaires, hélas trop fréquents au cours du XXème siècle, reste une économie insuffisamment capitaliste et son système politique possède des nombreuses insuffisances. Cela se doit-il à que le pays n’a pas connu une véritable révolution bourgeoise, capable d’affermir un régime démocratique fonctionnel ? Ce livre fait le parcours de ces questions, appuyée sur une bibliographie représentative de l’état de l’art en sociologie historique. 

SOMMAIRE DU LIVRE 

Avant-Propos :
Capitalisme et démocratie au Brésil, à trente ans de distance , 15

1.    Introduction, 39

Première Partie
THÉORIE ET PRATIQUE DE LA
RÉVOLUTION BOURGEOISE

2.    La carrière d’un concept, 53
3.    Théorie de la Révolution Bourgeoise,  66
4.    La modernisation capitaliste, 91
5.    Classe et Pouvoir, 107
6.    Pratique de la Révolution Bourgeoise, 137
7.    Bourgeoisie et révolution dans la pratique historique et dans
       la théorie sociologique , 191

Deuxième Partie
LA REVOLUTION BOURGEOISE AU BRÉSIL:
MYTHE ET REALITÉ

8.    Les bases de la Révolution Bourgeoise au Brésil , 213
9.    La transition au capitalisme 241
10.  Différenciation sociale et crise des élites, 255
11.  Caractère de la rupture278
12.  L’État et les classes sociales 302
13.  Démocratie et autocratie dans le capitalisme, 334
14.  Bourgeoisie et démocratie: réalité historique et mythe sociologique, 361

       Bibliographie , 379

Este é apenas o sumário; depois vou colocar o índice completo no meu site.
Paulo Roberto de Almeida 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Variedades do capitalismo: liberal de mercado e coordenacao regulada - resenha de livro

Um livro interessante que chama a atenção para aspectos da política econômica dos Países Baixos, cuja experiência pode oferecer elementos úteis de informação para a discussão dos modelos de políticas econômicas mais suscetíveis de oferecer resultados com melhores retornos econômicos e sociais.
Paulo Roberto de Almeida

Published by EH.Net (August 2015)

Jeroen Touwen, Coordination in Transition: The Netherlands and the World Economy, 1950-2010. Leiden: Brill, 2014. xiv + 385 pp. $154 (hardcover), ISBN: 978-90-04-27255-2.

Reviewed for EH.Net by Annette van den Berg, School of Economics, Utrecht University.

One of the great debates of the late twentieth century has been around the well-known study Varieties of Capitalism: The Institutional Foundations of Comparative Advantage (VoC) by Peter Hall and David Soskice, in which developed countries are characterized as either a Liberal Market Economy (LME) or a Coordinated Market Economy (CME), based on five interrelated criteria (spheres). Many scholars have applied the VoC approach since then — including economic historians — trying to reconcile the rather static nature of the approach with a historical, more dynamic analysis. Jeroen Touwen (lecturer in Economic and Social History at Leiden University, and the scientific director of the N.W. Posthumus Institute) adds to this line of research, by applying VoC to the case of the Netherlands after World War II in a careful, critical manner. This has resulted in an impressive and voluminous book of which the principal title, Coordination in Transition, neatly captures the key theme: How did a typical CME react to the structural changes as a result of ongoing globalization (influenced by trade liberalization and technological developments, foremost in information and communications technology), causing a shift to a market-based and knowledge-based economy? One of the new contributions of this book is that it also analyzes recent economic history of the Netherlands, in contrast with most other Dutch studies that only treat the twentieth century.

The Netherlands makes for an interesting case because it is seen as a successful and hybrid CME, with a liberal tradition in business relations as in Anglo-American countries; a strong welfare state like in Scandinavia; and a high degree of coordination similar to Germany. Also readers with no particular interest in the Dutch case (or those who think they already know the country, for that matter) will find this book worthwhile to read, as each chapter sets out with a broader treatment of theoretical considerations before analyzing the Netherlands, each time accompanied by a comparison with several other western OECD countries; and as the author makes relevant statements about (developments of) LMEs and CMEs in general. In so doing, he uses theoretical concepts from several socio-political fields of science, and of many statistical sources, thereby providing the reader with ample information and guidance for further research. The large number of interesting footnotes and references underline the thoroughness and dedication with which the book was written.

In my view, Chapter 2 is the most innovative part of the book because here the author comes up with a novel view on how the original, static VoC framework can accommodate for changes through time by adding a temporal dimension and by focusing on the central concept of non-market coordination, which not only encompasses state-induced regulation, but all kinds of information exchange and negotiation between different stakeholders operating at various levels in the economy. He argues that CMEs, despite all having become more liberal in reaction to structural change, remained characterized by a high degree of deliberative institutions (although often in an adjusted form). Hence, whereas Hall and Soskice theorized that due to institutional complementarities, deregulation of financial markets could “snowball into changes in other spheres as well,” possibly causing a break-up of CMEs, Touwen contends that the overall convergence to the LME did not take place, for which he provides plentiful evidence in the subsequent four chapters.

The limited space in this review does not allow me to elaborate on these chapters in depth. In a nutshell, in all of them Dutch postwar economic history is analyzed by focusing, in succession, on the business system, labor relations, the welfare state and economic policy. As these concern strongly overlapping topics an inevitable disadvantage thereof is that the same themes are addressed several times (be it from different perspectives), which is somewhat tiresome if one would read the whole book in one go. On the other hand, each chapter comes up with additional information and interesting details, thereby delivering further building blocks for the main message of the book: when faced by shocks and external threats, almost in all time periods (except during the polarized 1970s) the Dutch responded gradually but nevertheless adequately via an intricate system of coordination in all five distinguished spheres of the economy (in industrial relations, information sharing with employees, corporate governance, inter-firm networks, and vocational training). Although a deliberate choice of the author, it is a missed opportunity not to elaborate on this last-mentioned sphere, for reasons not explicitly mentioned.  Here and there he just touches upon this important topic, while a bit more comprehensive discussion thereof would have made the application of VoC to the Dutch case complete.

The book clearly describes how non-market coordination in the Netherlands originated in the interwar years and how it developed thereafter. At first this occurred in great harmony under guidance of the state (demand-side, Keynesian policy) in order to restore international competitiveness, culminating in the so-called Golden Years (1950s-1960s). There was close collaboration between government, employer associations and unions at all levels. During the stagflation period of the 1970s unemployment rose, labor relations hardened and the government failed to cut spending. Finally, forced by the structural changes in the world economy, by 1982 the sense of urgency was strong enough for all parties to switch to a more liberal, supply-side economic policy. Wage restraints were accepted in return for the creation of jobs, which were often part-time and temporary. The labor market thus became more flexible. Although this whole process coincided with a drastic reform of the welfare state, it was also accompanied by an active labor market policy, preventing segregation of the labor market as well as a rise in income inequality. So, “more market” went hand in hand with sustained coordination. Addressing the most recent time period, the financial crisis of 2007-10 clearly demonstrates the negative consequences of introducing too much free market, and underscores the continued need for coordination and government regulation. Touwen describes the success of the Dutch CME in terms of “managed liberalization under the wing of consultation.” The ability of non-market coordination to accommodate change forms the connecting thread.

Annette van den Berg (lecturer at Utrecht University School of Economics) is the author (together with Erik Nijhof) of “Variations of Coordination: Labour Relations in the Netherlands” in: K. Sluyterman (ed.), Varieties of Capitalism and Business History. The Dutch Case (Routledge, 2015) and (together with John Groenewegen and Antoon Spithoven) of Institutional Economics. An Introduction (Palgrave Macmillan, 2010). 

Copyright (c) 2015 by EH.Net. All rights reserved. This work may be copied for non-profit educational uses if proper credit is given to the author and the list. For other permission, please contact the EH.Net Administrator (administrator@eh.net). Published by EH.Net (August 2015). All EH.Net reviews are archived at http://eh.net/book-reviews/

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Livro: Capitalismo, Modo de Usar - Fabio Giambiagi (disponivel)








CAPITALISMO: MODO DE USAR
Fabio Giambiagi 
Rio de Janeiro, Campus-Elsevier, 2015

Por que o Brasil precisa aprender a lidar com a melhor forma de organização econômica que o ser humano já inventou
 
Prefácio: Fernando Gabeira
Orelha: Marcelo Madureira
Contracapa: Guilherme Fiúza

Parte I – Introdução

1. 17 anos, 5 meses e 4 dias
2. O óbvio ululante
3. Por que alguns países dão certo e outros não?
4. A cultura do coitado ou “o Haiti não é aqui”

Parte II – Falha nossa

5. O analfabetismo financeiro
6. Educação para o subdesenvolvimento
7. Produtividade: tudo errado
8. Imprensa golpista? Conta outra...
9. A Venezuela é logo ali

Parte III – Capitalismo: modo de usar

10. Sucesso, essa ofensa pessoal
11. O ciclo da vida
12. Um tal Schumpeter
13. Os incentivos, sempre eles
14. Darwin e as empresas
15. Histórias e modelos
16. O nome do jogo

Capitalismo – modo de usar
Livro mostra como a luta ideológica contra o capitalismo alimenta o subdesenvolvimento do Brasil
O atoleiro político e econômico no qual o país adentrou nos últimos anos fez com que o economista Fabio Giambiagi decidisse fazer uma análise descomplicada para os leitores em geral – e não direcionada unicamente ao universo dos conhecedores do árido terreno da economia - de como o progresso futuro está rigorosamente atrelado às leis do capitalismo - com valorização da competitividade e do empreendedorismo. O desafio está, em boa medida, no alcance de uma mudança na mentalidade de grande parte da sociedade brasileira, estacionada no passado em sua desconfiança profunda do sistema capitalista e ilusão com o ideal socialista.
Em seu 26º livro “Capitalismo – Modo de usar” (editora Campus/Elsevier), a ser lançado  em  agosto, no Rio de Janeiro,  Fabio Giambiagi percorre a trajetória recente da economia do país  para  demonstrar, de forma crítica, que o Brasil tem um componente anticapitalista densamente enraizado na sociedade,  aprofundando o debate sobre como esta cultura pode explicar algumas das principais causas do subdesenvolvimento do país.
Capitalismo – Modo de usar traz no prefácio um novo olhar sobre o sistema capitalista do jornalista e antigo militante esquerdista Fernando Gabeira e, ainda, na orelha, a revelação do comediante Marcelo Madureira, que provocou o autor a escrever um livro sobre Economia acessível ao grande público. A obra guia o leitor por citações inspiradoras, revelando um hábito antigo do autor de colecionar reflexões literárias e filosóficas. Entre os vários teóricos mencionados, Giambiagi rende um tributo especial ao austríaco Joseph Schumpeter, por suas considerações acerca das inovações tecnológicas e seu papel renovador no capitalismo. O Brasil, contudo, caminha em direção contrária aos ensinamentos do prestigiado economistaalerta Fábio Giambiagi.
Com uma linguagem leve e boas pitadas de humor e ironia, Giambiagi joga luz sobre como informações manipuladas e alguns mitos perpetuam e acentuam a visão  anticapitalista no país. E denuncia como a mídia é sistematicamente acusada de “cometer crime de lesa pátria” ao questionar as convicções do Governo e noticiar a opção por uma política econômica que impede o país de progredir.  “A superação do preconceito contra o sistema capitalista é um imperativo  para o desenvolvimento do Brasil”, afirma Giambiagi, para quem a luta ideológica contra a ortodoxia econômica se traduz em um viés antiempresarial e conspira contra o progresso e a riqueza.  
Enquanto sociedades de países da Europa e dos EUA se destacam pela obsessão pela produtividade o Brasil, em contraposição, está entre os 25% menos produtivos da América Latina: a produtividade do trabalho no Brasil é de US$17.295 por trabalhador, enquanto nos EUA é de US$ 93.260 e, na Coréia do Sul, US$ 59.560. Ainda assim, o aumento  real dos ganhos dos trabalhadores  brasileiros ficou acima dos ganhos de produtividade do país entre 2003 e 2010.

 Opção pelo passado
Para ajudar o leitor a entender melhor algumas das questões acerca do tema,  Giambiagi demonstra como a cultura nacional mantém viva a noção de que a solução de todos os problemas virá dos favores estatais, ao defender uma  forte presença do Estado e bem estar social amplo. A Previdência é o maior símbolo deste equívoco, traduzida na despesa do INSS: em 1988 foi de 2,5 % do PIB, em 2015, será de quase 7,5 % do PIB - e  continuará subindo, uma vez que  o número de idosos aumentará em torno de 4% a.a. nos próximos 15 anos. “É uma  tragédia anunciada. É como se o país tivesse feito uma escolha pelo passado em detrimento das gerações futuras”.
O ponto essencial do livro é mostrar que para que uma economia tenha êxito, no mundo moderno, cabe aos governos, um papel crucial na regulação e na coordenação de certas políticas, mas a chave do dinamismo é a competição travada no campo do setor privado. As coordenadas para a correção do rumo são indicadas pelo economista. “É para os EUA que temos que olhar. É um país com uma boa base de contrato social e, no restante, o que prevalece é a competitividade”. 
Para progredir, finalmente, o Brasil precisa, de uma vez por todas, se assumir como uma economia capitalista. O papel do Governo será fundamental para liderar uma agenda de reformas. Estas requerem cinco condições: a) um bom diagnóstico; b) convicções firmes; c) energia para implementar a agenda; d) uma enorme capacidade de persuasão; e, finalmente, e) um grande poder de articulação. Se estes requisitos forem cumpridos, o país vai dar um salto.

 
O autor
FABIO GIAMBIAGI. Economista, com graduação e mestrado na UFRJ. Ex-professor da UFRJ e da PUC/RJ. Funcionário concursado do BNDES desde 1984. Ex-membro do staff do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) em Washington. Ex-assessor do Ministério de Planejamento. Coordenador do Grupo de Acompanhamento Conjuntural do IPEA entre 2004 e 2007. Autor ou organizador de mais de vinte e cinco livros sobre Economia Brasileira. Assina uma coluna mensal no jornal Valor Econômico e outra no jornal O Globo.

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Este livro é dedicado a todos aqueles que, ao longo dos últimos anos, têm se feito – e, alguns deles, têm me feito – uma indagação angustiante: “Será que o Brasil vai dar certo?”. Os capítulos a seguir constituem uma modesta tentativa de contribuir para que a resposta a essa pergunta seja positiva.

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 “O Brasil não gosta do sistema capitalista. Os congressistas não gostam do capitalismo, os jornalistas não gostam do capitalismo, os universitários não gostam do capitalismo... O ideal, o pressuposto que está por trás das cabeças, é um regime não-capitalista e isolado, com Estado forte e bem-estar social amplo” (Fernando Henrique Cardoso, “A arte da política”).

 
Apresentação

Num dia qualquer de junho de 2013, Pedro Galindo saiu de sua residência, num bairro de classe média do Rio de Janeiro. Estava animado. Na véspera, tinha visto no noticiário a matéria sobre os tumultos e depredações que tinham acontecido no Centro da cidade e sentiu-se identificado com aquelas figuras de preto que tinha vislumbrado no meio do quebra-quebra. Aluno medíocre, passara sempre com notas baixas. Tentara a Faculdade, mas a nota que conseguiu no ENEM não lhe permitiu ingressar sequer na terceira reclassificação para o segundo semestre de uma das carreiras menos requisitadas. Assim, só lhe restou ter que arrumar trabalho. No lugar onde conseguiu um emprego como auxiliar de escritório, os R$ 1.200 que levava para casa todo final do mês não lhe permitiam grandes sonhos, ainda que fossem suficientes para levar a sua vida de saídas com amigos como ele, já que ainda morava com os pais. Na sua vida, tinha substituído o mantra de que “estudar é um saco” pelo mais atual de “o trabalho é uma merda”. Eufórico com a perspectiva dos tumultos do dia anterior se repetirem, ele tinha a secreta esperança de ser aceito naquele grupo, os tais “black blocs”. No final do dia, seria um dos mascarados que, sem camisa, invadiu o prédio da Assembléia Legislativa. Sua revolta contra o sistema tinha encontrado o canal para poder se expressar à altura do que ele sentia no fundo da sua alma. Sem se conter, tirou fotos de um caixa de banco destruído e de um carro pegando fogo e mandou para um amigo por celular, com o comentário: “Maior barato!”. Era seu dia de glória. No dia seguinte, seria preso. Favorecido pela ação de um grupo de advogados, saiu da delegacia esbravejando para a imprensa, reclamando da “brutalidade da ação da polícia, totalmente desproporcional”.

Vinte anos antes, em 1993, pertencente a uma família humilde, órfã de pai, criada pelos avôs e com a mãe trabalhando como doméstica sem carteira de trabalho há mais de trinta anos, Kátia Fernandes tinha saído da periferia de Governador Valadares, em Minas, para tentar comprovar a máxima de Eça de Queiroz, de que “a distância mais curta entre dois pontos é uma curva vadia e delirante”. Na época com dezoito anos, Kátia não andava feliz com os rumos que a sua vida estava tomando. Mesmo tendo tirado boas notas na escola, não conseguia ver muito bem o horizonte. Foi quando uma amiga lhe falou que um conhecido de Brasília, diplomata, estava precisando de uma pessoa para tomar conta do casal de gêmeos que sua esposa tinha tido duas semanas antes. Ainda que a perspectiva de seguir os passos da mãe fosse a princípio frustrante, o pagamento era bom e lá foi ela atrás do destino. Passado algum tempo, o diplomata foi enviado em missão para os EUA e propôs a ela levá-la junto para as tarefas de apoio doméstico, com passagem e tudo incluído. E “tudo incluído” era o pacote completo de residência, visto e um pagamento mensal de US$ 800, praticamente líquido, pois seus gastos seriam muito pequenos. Lá aproveitou para aprender inglês, para o qual revelou ter grande facilidade. Três anos depois, a família do diplomata foi transferida para a Alemanha – e ela foi junto. Com mais quatro anos, com uma licença especial para trabalhar, acabou contratada como secretária – nessa altura, seu alemão era muito bom – de uma Câmara de Comércio local. A saudade, porém, apertava. Tendo conhecido um brasileiro com quem se casou no exterior, acabaram voltando anos depois. Hoje, é dona de uma escola de inglês em Juiz de Fora, onde mora há alguns anos. A escola vai de vento em popa e já tem mais de 500 alunos.

Essas duas pessoas definem dois perfis diferentes de brasileiros e de país. O primeiro, ranzinza, de mal com a vida, sem nada a fazer nem a esperar dela, reclamando de tudo e de todos, joga nos demais a culpa pelo próprio infortúnio. O segundo, empreendedor, ativo, desejoso de progresso, correto, exemplar, ciente de que o que se faz na vida deve decorrer fundamentalmente do seu próprio empenho. Este livro é um pequeno tributo a esses brasileiros, mas é ao mesmo tempo o resultado da constatação de que, para que o Brasil dê um salto, é preciso aumentar – e muito – a proporção de Kátias e diminuir bastante a proporção de Pedros.

Não se está querendo com isso, evidentemente, dizer que o país tem milhões de black blocs. O que gerou a motivação para este livro é a percepção de que ainda hoje, 239 anos depois da publicação do livro de Adam Smith sobre a riqueza das Nações (uma espécie de “Bíblia” do capitalismo), 193 anos depois da nossa Declaração da Independência, 126 anos depois da proclamação da República, 85 anos depois da Revolução de 30 comandada por Getúlio (o homem que, na prática, inventou o Brasil, até então um aglomerado de Estados com escassas relações entre si) e 21 anos depois da estabilização do Plano Real, o Brasil continua sendo um país onde uma parte considerável das pessoas continua sem estar preparada e sem entender como funciona adequadamente o regime capitalista. A epígrafe deste livro, na frase de Fernando Henrique Cardoso – manifestada mais com “chapéu” de sociólogo que com o de então Presidente da República - para Armínio Fraga ao prepará-lo para a sabatina no Senado em 1999, é a mais pura expressão dessa realidade. Não haverá um futuro de prosperidade para o Brasil, sem que essa limitação seja superada.

Nossa tradição jurídica de colocar as mais diversas exigências na legislação gera, no limite, pérolas como a do Artigo 3 do Estatuto do Idoso, que reza que “é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida”. A redação deixa a família de um moribundo na difícil situação, na iminência da partida de um ser querido, de se perguntar o que significa exatamente isso. Tais fatos seriam meramente folclóricos, se não tivessem uma contrapartida importante na alocação dos recursos do país. O problema surge justamente da combinação deletéria entre a utilização cada vez maior de recursos públicos para a “garantia de direitos” e a disseminação de uma cultura que colide com o que são os princípios do bom funcionamento de uma economia capitalista.

Winston Churchill dizia que “é uma idéia socialista que lucrar é um vício. Eu considero que o vício verdadeiro é gerar prejuízo”. Essa idéia singela parece não ter sido devidamente absorvida por um contingente expressivo de brasileiros.

Tome-se o noticiário dos dias em que a decisão de fazer este livro estava sendo tomada. A simples leitura das manchetes daquelas semanas mostrava os seguintes fatos:
i)               Distúrbios em São Paulo. Um prédio - ou seja, uma propriedade privada - tinha sido invadido por membros de um coletivo de pessoas consideradas sem teto. Os proprietários tinham conseguido uma decisão judicial determinando a saída dos invasores e a reintegração de posse. Diante da recusa, a polícia, como representante da ordenação formal do país nos casos em que alguém se recusa a cumprir uma ordem judicial, foi chamada ao local, sendo recebida com pedras, coquetéis molotov e até por uma cama que foi jogada de uma janela, convertendo a rua numa praça de guerra. As manchetes dos jornais no noticiário on line foram todas referentes à “violência policial”.
ii)             Propaganda eleitoral. Nos dias da campanha presidencial de 2014, o principal partido do país, crítico da proposta de conceder autonomia operacional ao Banco Central na forma da Lei – como vigente em democracias consolidadas como os EUA, a Inglaterra, a Nova Zelândia, o Canadá e os países da Europa da zona do euro, entre outros – denunciou a iniciativa como a implantação de um “Quarto Poder”. Além disso, ele colocou no ar na TV um anúncio, onde associava a idéia ao desaparecimento da comida do prato do povo, mostrando um comercial onde a medida em que o locutor falava sobre a autonomia do Banco Central, a comida ia sumindo da mesa.
iii)            Ameaças. Em ato em defesa do petróleo, diante da crítica da candidata Marina Silva de que a exploração do mesmo seria um “mal necessário”, o MST, convertido em braço operacional de uma das candidaturas à Presidência, expressou-se de forma explícita dizendo que, se Marina ganhasse, a organização iria para a rua para promover manifestações diárias.
iv)            Propostas dos candidatos. Nas ruas e nos jornais, proliferavam as propostas dos candidatos a Deputado, com proposições como “fim do fator previdenciário” ou “contra a cobrança de pedágio”.
v)              Promessas. Na eleição para Governador do Rio de Janeiro, um dos candidatos prometia “cancelar a concessão do Maracanã”.
vi)            Adiamento do leilão da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, usina com capacidade de geração de 8 mil MW. A matéria do Globo dizia que “o componente indígena foi fundamental para o cancelamento do leilão”. No mundo da tecnologia 4G, a reportagem era ilustrada pela fotografia dos índios mandakurus, de arco e flecha, apontando para as águas que circundam o Ministério da Justiça em Brasília.

A lista seria longa. O denominador comum dessas posições é o fato de ignorarem olimpicamente as conseqüências desses atos sobre a organização econômica de um país e sobre as causas de longo prazo do desenvolvimento de uma Nação. Estas se relacionam com o aumento da produtividade, o investimento e a existência de instituições sólidas, incluindo uma gestão fiscal responsável.

A idiossincrasia local está dominada pela crença de que um mítico “projeto nacional”, com um pacote de grandes investimentos coordenados por uma central governamental, deveria conduzir o país para o ideal do Progresso. Ignora que, nas palavras de Gustavo Franco em um livro (“O Brasil tem jeito?”) publicado há anos pela Editora J. Zahar, “o investimento privado é determinado de forma descentralizada, individual. [É] um complexo processo social, uma teia de decisões interdependentes que precisa de uma atmosfera positiva, na qual horizontes precisam ser claros, a carga tributária moderada, o custo do capital razoável, a macroeconomia previsível, o marco regulatório consolidado, o mercado de capitais profundo, os investidores institucionais prestigiados, o empreendedorismo celebrado e a chance de intervenções discricionárias de autoridades de vezo redentor desprezível”.

Uma interpretação parecida de como deve ser entendido o bom funcionamento de uma economia foi exposta também pelo ex-Ministro e ex-Deputado Antonio Delfim Netto, que em artigo no Valor, no dia 16 de setembro de 2014, assim se manifestou: “Em larga medida, os mercados são o produto da cooperação natural espontânea entre os homens que possibilitou a vida em sociedade. Com eles, a divisão do trabalho aumentou a eficiência produtiva e coordenou as necessidades de cada um com a capacidade dos outros para atendê-las. Mas os mercados não são o ‘capitalismo’. O capitalismo é o velho mercado da antiguidade, somado a mais um – o mercado de trabalho – e à instituição da propriedade privada. Ele separou a sociedade em duas classes: os detentores de capital e os que lhes vendem a força de trabalho. Isso aumentou ainda mais a eficiência produtiva, mas criou dois grandes problemas: por um lado, produziu uma exagerada desigualdade de renda e, por outro, aumentou as incertezas do trabalhador com a aleatoriedade do seu emprego. É por isso que o capitalismo só funciona quando protegido por um Estado forte, constitucionalmente limitado, capaz de garantir a propriedade privada e de regulá-lo para reduzir seus inconvenientes. O capitalismo não é uma coisa: é um instante de um processo evolutivo que prossegue e vai construindo instituições que vão tornando viável a sociedade civilizada”.

Em 2007, antes da revisão das Contas Nacionais que mostrou um desempenho melhor da economia nos anos anteriores em relação aos dados que tinham sido divulgados pelo IBGE até a época, eu publiquei um livro chamado “Brasil – Raízes do atraso”, em assumida analogia com o título de “Raízes do Brasil” do mestre Buarque de Holanda. O livro tinha o subtítulo “Paternalismo vs.Produtividade” e tentava investigar onde se localizavam algumas causas profundas de nosso subdesenvolvimento. Pouco depois, o IBGE divulgou novos dados das Contas Nacionais desde 1995, mostrando, particularmente para 2006, um crescimento maior do PIB que o que até então se tinha considerado. E, como todos sabem, a economia teve um crescimento bastante acentuado no segundo Governo Lula.

Anos depois, tive a grata surpresa de ser comunicado que uma instituição financeira que escolhe todos os anos um livro para fazer uma edição de brinde para alguns dos seus principais clientes, tinha escolhido aquele meu livro para doar a esses clientes top. Fui então chamado para dar uma palestra por ocasião do lançamento dessa edição especial. Os anos Lula tinham deixado seqüelas positivas no ânimo nacional e me vi, portanto, na curiosa contingência de falar sobre um livro que tratava do atraso, em um contexto em que tudo ia bem no Brasil, aparentemente.

O mais estranho, porém, relendo o livro, é que todos os problemas para os quais ele apontava continuavam lá, intactos, no que poderíamos chamar de “Brasil profundo”. Minha palestra, consequentemente, talvez algo frustrante para a platéia que creio que estaria mais interessada em ouvir notícias boas, focou-se em: a) refletir por que o país poderia exibir bons números, apesar de ter tanta coisa que precisava ser corrigida; e b) apontar para a conclusão de que a mensagem do livro, de que o país precisava de mudanças, continuava de pé, apesar da euforia reinante.

A reforma mais importante de todas, porém, pela qual o Brasil precisa passar, é uma mudança de mentalidade. Há, na política brasileira, por uma série de razões históricas que não cabe aqui analisar, uma grande ojeriza pelos EUA. Durante sua Presidência, homenageado pela Assembléia Nacional da França no exercício do mandato, Fernando Henrique Cardoso concluiu seu discurso, para delírio da platéia de parlamentares franceses, com a exclamação “Vive la France!”, sem maiores conseqüências políticas aqui no Brasil. Pois bem, um Presidente brasileiro que fosse aos EUA e exclamasse “God save the USA” estaria politicamente morto na hora, pela péssima repercussão que tal manifestação teria por estas bandas, diante da acusação retórica de ser, supostamente, a manifestação de uma subserviência inaceitável.

E, entretanto, é para lá que deveríamos olhar. Há traços da sociedade norte-americana - como, por exemplo, certo individualismo algo exacerbado ou a cultura das armas - que, particularmente, não me agradam. Entretanto, considero que a base do contrato social dos EUA é essencialmente correta. E o que estabelece esse contrato social? Que é dever do Estado prover a seus habitantes uma boa educação e dispor de uma rede de atendimento de saúde razoável, além de procurar dar uma vida minimamente digna aos idosos. Fora isso, porém, como diria Arnaldo César Coelho, “a regra é clara”, ou seja, prevalece a competição. Os detratores chamam esse modelo de “capitalismo selvagem”, pelo fato de que é um sistema em que há ganhadores e perdedores. A analogia que cabe fazer, porém, é um pouco como no esporte: há ganhadores e perdedores, sim, mas isso é parte inerente ao sistema, da mesma forma como no Brasileirão, com 20 times, a cada ano há um único campeão, mais 3 ou 4 classificados para a Libertadores e 4 times caem para a segunda divisão.

Em contrapartida, a economia dos EUA exibe uma pujança que a levou a ter uma das maiores rendas per capita do mundo e a ser a terra de algumas das principais marcas globais e um lugar marcado pela constante inovação, além da capacidade de gerar empregos. Este livro se destina a que o Brasil do futuro se pareça mais com os EUA e se distancie do que temos visto nos últimos anos, em alguns casos; e há décadas, em outros.

Cabem, aqui, três esclarecimentos. O primeiro é que este não é um texto para economistas. Como o leitor poderá observar, praticamente não há tabelas e não há gráficos. É um texto que procura conquistar corações e mentes para os argumentos aqui defendidos, numa linguagem que o leigo possa entender perfeitamente. Economistas, evidentemente, se quiserem poderão ler estas páginas, mas elas se destinam ao público em geral e não ao público especializado. Ainda que correndo o risco de abandonar a pureza da Academia – algo que muitas vezes não é visto com bons olhos pelos meus colegas – o esforço de fazer chegar a mensagem a outro tipo de leitor justifica encarar o desafio de vencer a barreira da linguagem, para ir além das estreitas fronteiras do “economês”.

O segundo esclarecimento é que os capítulos podem ser lidos de forma independente entre si, porque eles são, de certa forma, autônomos. Há um fio condutor do relato, mas cada capítulo trata de um tema e, embora a idéia é que, ao concluir um capítulo, o leitor fique com gosto de “quero mais” e procure iniciar logo a leitura do seguinte, cada capítulo é auto-contido e pode ser lido individualmente ou mesmo fora de ordem.

Já para o terceiro esclarecimento, acerca da proliferação de citações ao longo dos capítulos, há – reconheço – leitores que podem julgar a abundância dessas “quotations” excessiva ou até, eventualmente, pedante. Gostaria (ou deveria dizer “torço”?) que o número de leitores que apreciem esses comentários espirituosos ditos por terceiros seja maior que o daqueles que não aprovam o estilo. Pessoalmente, sempre aprendo um pouco com as boas citações.

O livro está dividido em três partes e dezesseis capítulos, em alguns casos com títulos que envolvem certa “licença poética” e não explicitam de forma imediata o seu conteúdo. A primeira parte, meramente introdutória, inclui quatro capítulos. O capítulo 1 (“17 anos, 5 meses e 4 dias”) apresenta alguns traços de nossa sociedade, marcadamente paternalista. O capítulo 2 (“O óbvio ululante”) expõe certos conceitos e princípios que serão importantes no desenvolvimento da argumentação do restante do livro. O capítulo 3 (“Por que alguns países dão certo e outros não?”) tenta explicar as razões das diferenças entre os graus de desenvolvimento dos países. O capítulo 4 (“A cultura do coitado ou o Haiti não é aqui”) faz a transição para a segunda parte do livro, com título auto-explicativo.

A segunda parte do livro, com cinco capítulos, mostra por que, apesar de tantas vezes nos considerarmos vítimas de alguma conspiração alheia, os problemas que vivemos no país são de nossa própria responsabilidade. O capítulo 5 (“O analfabetismo financeiro”) aborda um dos problemas mais sérios para sermos um país mais desenvolvido: o atraso enorme da maior parte da população no entendimento dos rudimentos das finanças, algo essencial hoje em dia para poder crescer na vida. O capítulo 6 (“Educação para o subdesenvolvimento”) trata das chagas da nossa educação. O capítulo 7 (“Produtividade: tudo errado”) explica as diversas coisas equivocadas que fazemos e que geram como resultado uma baixa produtividade. O capítulo 8 (“Imprensa golpista? Conta outra...”) critica a idéia de que a imprensa seja parte de alguma conspiração. O capítulo 9 (“A Venezuela é logo ali”) mostra os perigos de insistirmos em seguir certos caminhos.

Por último, a terceira parte expõe como deve ser entendido o funcionamento do capitalismo e se compõe de sete capítulos. O capítulo 10 (“Sucesso, essa ofensa pessoal”) destaca a necessidade de o Brasil rever a forma com que encara certas características intrínsecas ao sistema. O capítulo 11 (“O ciclo da vida”) descreve como as etapas da vida do ser humano influenciam a sua capacidade de geração de poupança, como à luz disso certas decisões devem ser pensadas no processo de desenvolvimento de uma pessoa e como afetam a dinâmica econômica dos países. O capítulo 12 (“Um tal Schumpeter”) explica as idéias do famoso economista Joseph Schumpeter. O capítulo 13 (“Os incentivos, sempre eles”) destaca o papel que incentivos adequados desempenham para o bom funcionamento do sistema. O capítulo 14 (“Darwin e as empresas”) enfatiza que o nascimento e a morte de empresas são parte do dia-a-dia de uma economia capitalista. O capítulo 15 (“Histórias e modelos”) estabelece um contraste entre processos de desenvolvimento que deram certo em algumas Nações e a frustração de outras. O capítulo 16 (“O nome do jogo”) põe luzes de néon na palavra-chave para entender o livro – e o capitalismo. Essa palavra é “competição”.

Este é um livro de um autor engajado. Em carta a Roberto Fernández Retamar, em 1967, um Julio Cortazar militante das causas políticas, tratando da “situação do intelectual latino-americano contemporâneo”, revela a sua conversão, de “escritor que considerava que a realidade devia culminar em um livro”, em um “homem que considerava que os livros deveriam culminar na realidade”. Parodiando Cortazar, em que pesem as diferenças ideológicas, é justamente a tentativa de tentar influenciar a realidade, mediante a construção de uma narrativa alternativa à vigente, que orienta as páginas que o leitor lerá a seguir.

Cabe o registro de umas palavras de agradecimento, neste espaço, para Tamires Freitas, que compensou minhas deficiências flagrantes sobre o tema oferecendo uma colaboração fundamental na escolha e tratamento das fotografias que acompanham este livro.

As chamadas “revistas do coração” e até mesmo certo tipo de livros tratam de forma profunda temas inteiramente superficiais. Este livro, por contraste, busca tratar de forma ligeira, em linguagem acessível que induza o leitor a procurar por novas abordagens sobre os assuntos tratados, temas de grande profundidade, tais como:
i)Que tipo de país queremos?
ii)Que papel deveríamos esperar do Estado?
iii)Qual deve ser a inserção do Brasil na economia mundial?

Se, a partir da leitura destas páginas, o leitor se interessar pelo aprofundamento dessas questões, o livro terá alcançado seu objetivo.

Karl Popper disse certa vez que “a guerra das idéias é uma das invenções mais importantes de toda a História, porque a possibilidade de lutar com palavras constitui o fundamento de nossa civilização”. Na guerra das idéias, cabe agora utilizar a arma da palavra. Vamos então para o campo de batalha. 

O Autor 
Rio de Janeiro, março de 2015