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quarta-feira, 8 de maio de 2019

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi? - Fabio de Oliveira Ribeiro

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Humilhado pelo prefeito de New York apesar de fazer tudo o que seus patrões norte-americanos desejam, ele não sabe como reagir.

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Aqui mesmo no GGN teci uma série de considerações sobre o Reich bananeiro. Antes, de falar sobre o assunto que me chamou a atenção retomo algumas delas:
A derrubada de Dilma Rousseff criou o vácuo político utilizado por Jair Bolsonaro para ganhar a eleição. Assim que tomar posse ele pretende expandir esse vácuo de duas maneiras: esvaziando a presidência de suas prerrogativas governamentais e inventando para si mesmo o papel de censor supremo da moralidade e dos bons costumes do Reich bananeiro.
Bolsonaro não é tolerante como Dilma Rousseff. A presidenta petista caiu porque preservou a liberdade de imprensa. Desde que foi eleito o Sieg Heil Führer tupiniquim deixou bem claro que não irá tolerar críticas. Ele prometeu punir financeiramente as empresas de comunicação que façam oposição ao seu governo. Isso foi o suficiente para convencer* algumas delas a demitir jornalistas que criticaram Bolsonaro.
O Führer disse que o dinheiro público investido nas universidades públicas é jogado na lata do lixo. Revogados estão, portanto, o disposto nos arts. 207 e 208, inciso V, da CF/88. A obrigação estatal de custear a educação pública (art. 212, da CF/88) deixará de existir.
Lula é refém da agenda neoliberal que se recusou a endossar. Separado de seu líder, o povo brasileiro não consegue resistir à exclusão social e à opressão político que pretende transformar o Brasil num apêndice do capitalismo financeiro dos EUA. Os juízes deixaram de ser agentes da legalidade. Eles se transformaram em terroristas políticos a serviço de uma ordem econômica que contradiz os fundamentos da constituição cidadã que eles deveriam cumprir e fazer cumprir.
As condições de possibilidade para o presidente Jair Bolsonaro se autoproclamar ditador em 2019 são infinitamente menores do que aquelas que existiam antes do Marechal Castelo Branco derrubar João Goulart em 1964. Além disso, uma rocha imensa está se levantando entre o ambicioso capitão e o poder absoluto que ele deseja exercer. Se continuar trocando a política pelo Twitter, prejudicando o Brasil a apostando no tudo ou nada, Bolsonaro pode acabar sendo deposto pela articulação político-industrial-jornalístico-militarque já começou a se formar em torno do General Mourão.
De maneira geral, quase todas essas afirmações foram confirmadas nos últimos dias. Bolsonaro decidiu estrangular mortalmente o sistema educacional brasileiro sob a dupla alegação: preservação da moralidade e contenção do desperdício de dinheiro. A decisão da Folha de censurar o pronunciamento inicial de Lula e a da Rede TV de não transmitir a entrevista feita com o ex-presidente pelo jornalista Kennedy Alencar são sinais claros de autocensura provavelmente motivadas por chantagens financeiras.
Num dia os advogados de Lula anunciaram que o ex-presidente pedirá seu direito à prisão domiciliar. No outro o Desembargador Gebran Neto, que atua na Câmara Lavajateira do TRF-4, anunciou que o regime semi-aberto deveria ser extinto. Gebran é amigo de Sérgio Moro. Portanto, a interferência inoportuna dele numa questão que diz respeito exclusivamente ao Poder Legislativo – se um desembargador quiser mudar a Lei Penal ele terá que abandonar a toga e disputar o cargo de Deputado Federal – confirma a existência de uma verdadeira conspiração entre membros do Judiciário e do Executivo para manter Lula na condição de refém político do Ministro da Justiça e/ou de Bolsonaro.
A economia real brasileira continua derretendo. O desemprego aumentou e os eleitores de Jair Bolsonaro começaram a abandonar o barco dele. A política externa confusa – e aparentemente orientada por uma mistura explosiva de ideologia anticomunista dos anos 1950 e fanatismo religioso do século dos anos 2000 – está provocando uma contração das exportações. Com consumo interno em queda por causa do empobrecimento da população brasileira, ninguém conseguirá salvar as finanças dos produtores rurais que deixaram e/ou deixarão de exportar seus produtos para o Oriente Médio, para a Venezuela e a China.
O conflito internacional entre Jair Bolsonaro e o prefeito de New York, que resultou numa derrota humilhante para o presidente brasileiro definiram os limites do poder de censor supremo da moralidade e dos bons que Bolsonaro pretendia exercer. Rejeitado pelos gays norte-americanos, ele não pode nem mesmo apelar para o nacionalismo dos gays brasileiros. Isso explica porque coube ao vice-presidente o encargo de confrontar o prefeito de New York.
No momento em que escrevo estas linhas, o presidente do Brasil deve estar se sentindo tão isolado e impotente quanto o último imperador chinês no período em que ele foi governante de Manchukuo. Ao rebaixar nosso país à condição de Estado vassalo dos EUA, Jair Bolsonaro imaginou que teria alguma liberdade para agir dentro e fora do país. Ao ser humilhado pelo prefeito de New York e colocar o rabo entre as pernas, Bolsonaro deve ter percebido que estava enganado. Nenhuma novidade, Aisin Gioro Pu Yi também não demorou muito para descobrir que era apenas um fantoche nas mãos do comandante militar japonês da Manchúria.
Nos anos 1980 Bolsonaro revelou seu desejo de ser ditador. Ao se submeter ao governo dos filhos, dos generais da reserva, de um pastor fanático e do astrólogo que se diz filósofo, ele conseguiu transformar seu sonho em pesadelo.
O isolamento político do presidente é evidente. Ele não comanda a economia, não pode comandar as Forças Armadas, perdeu o controle sobre a imagem internacional do seu governo e luta contra a rebeldia de sua própria base parlamentar. Bolsonaro chegou ao poder surfando na onda de anti-petismo criada e amplificada pela imprensa para derrubar Dilma Rousseff. Ele se tornou o herói dos pobres de direita. Com a economia desmanchando, isso não será bastante para mantê-lo no poder.
Nenhum analista precisa ser muito perspicaz para perceber que o presidente do Brasil será incapaz de ampliar sua base de apoio popular. Para que isso ocorresse seria necessário, por exemplo, que o Pastor Malafia começasse a reconhecer os “gays de Jesus” e a organizá-los em torno do presidente. Os únicos que não abandonarão Bolsonaro serão os robôs que povoam o Twitter e o Facebook tentando espalhar a mensagem do Messias tupiniquim que foi reconhecido publicamente como tal pelo Chanceler caipira.
Com a derrota para o prefeito de NY, o Itamaraty chega ao fundo do poço. Ernesto Araújo envergonha a diplomacia brasileira. Se tivesse um mínimo de patriotismo ele renunciaria ao cargo e pedia asilo político no Burundi, onde poderia viver em paz até ser esquecido.
Um dos aspectos mais interessantes desta fase que estamos vivendo é a oscilação do vice-presidente. De vez em quanto o general Mourão se esforça para aparecer como uma alternativa viável às loucuras bolsonarianas. Entretanto, sempre que Jair Bolsonaro fica vulnerável por causa de seus erros o general-vice corre para defender o presidente e/ou para atuar como se fosse seu fiel cão de ataque. A lealdade desleal de Hamilton Mourão à Bolsonaro já está custando caro ao Brasil. O vice tem que decidir se vai afundar nosso país junto com o presidente maluco ou se afundará o barco dele antes disso para salvar o pouco que restou aos brasileiros.
Hitler acreditava que o III Reich duraria 1.000 anos. Ele somente existiu entre 1933 e 1945. Tudo indica que o Reich bananeiro não vai durar 1.000 dias. Mas se Bolsonaro não for imediatamente deposto o estrago que ele provocará ao sistema educacional do país será sentido por mais de um século.
Aisin Gioro Pu Yi foi coroado imperador da China, mas passou boa parte da vida tentando recuperar o império que havia perdido. Ele também foi coroado imperador de Manchukuo e se tornou um marionete nas mãos dos militares japoneses. Hitler sonhou ser artista. Rejeitado pelo meio artístico vienense ele se tornou soldado e, depois, se voltou para a política. Bolsonaro foi expulso do Exército e sonhou se tornar Hitler. O máximo que ele conseguiu foi virar um exemplo típico de manchurian president latino-americano.
Humilhado pelo prefeito de New York apesar de fazer tudo o que seus patrões norte-americanos desejam, ele não sabe como reagir. Se tivesse prestado atenção à biografia de Pu Yi, Bolsonaro teria aprendido algo útil.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Araujo constrange o Itamaraty : alvo de crescente oposicao interna - Carta Capital


Araújo constrange o Itamaraty e é alvo de crescente oposição interna


Carta Capital,   

Diplomatas mais jovens estão constrangidos em defender as ideias do chefe. E os mais velhos se sentem afrontados

Passados os cem dias de governo Bolsonaro, é cada vez menor a tolerância a Ernesto Araújo dentro do Itamaraty. Diplomatas mais jovens estão constrangidos em defender as ideias do chefe. E os mais velhos se sentem afrontados por ele, que ofereceu posições importantes a diplomatas mais jovens — muitos até evitam lhe dirigir a palavra.
Araújo divide o protagonismo nessa área com Felipe Martins, Eduardo Bolsonaro e com o guru Olavo de Carvalho, o grande fiador de sua indicação. Martins, uma espécie de chanceler paralelo do governo, chama essa turma de ala anti-establishment. Um funcionário veterano do Itamaraty resumiu melhor: está mais para diplomacia religiosa.
Muitos subordinados consideram Araújo um true believer do olavismo, cativado pelas ideias do filósofo e envaidecido da missão de lutar contra o globalismo e a decadência do ocidente. “Bobo”, “maluco” e “cooptado” foram alguns adjetivos que jovens diplomatas ouvidos por CartaCapital usaram para defini-lo.
“Não acho que ele seja manipulador ou mau-caráter. Naquele discurso de posse, deu pra ver que ele quase chorou”, disse um terceiro-secretário lotado em Brasília. 
Tom mais elogioso recebem os secretários do ministro, tidos como competentes no papel de “adultos na sala” do dia a dia do MRE. Já os militares, em especial o General Santos Cruz, são vistos como “preparados e pragmáticos”, embora com mais influência dentro do Planalto do que no Itamaraty.
Durante a carreira, Araújo sempre teve atuação discreta e protocolar. Seus arroubos ideológicos só ficaram conhecidos em 2016, depois que ele publicou nos cadernos do IPRI um artigo em defesa de Trump. No texto, Araújo considera o presidente americano o único capaz de salvar a civilização ocidental, representante de uma “longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler”. Em meados de outubro do ano passado, passou a defender abertamente a candidatura de Bolsonaro em seu blog Metapolítica 17.
O maior temor é de que o país esteja se isolando ao aderir a Trump e ao consórcio de extrema-direita que tomou países como Hungria, Polônia e Turquia. “Todo mundo fala em prejuízos econômicos, mas o prejuízo imediato é diplomático. Nunca a imagem do Brasil esteve tão ruim”, analisa Marcelo Zero, especialista em Relações Internacionais e assessor técnico no Senado.
Há também quem o veja como oportunista. Anos antes, Araújo dedicou sua tese exigida para virar embaixador à política externa colocada em prática a partir dos governos Lula. Quando era ministro-conselheiro nos Estados Unidos, em 2011, defendeu o envolvimento de Dilma na luta armada contra a ditadura. “Especialmente entre os jovens não havia esperança de ver a democracia restabelecida por meios pacíficos. (…) Então muitas pessoas, a despeito das instituições, decidiram pegar em armas. Ela [Dilma] foi parte disso.”

Nunca antes na história do Itamaraty

Fato é que nunca antes um ministro na posição de Araújo teve tanta oposição dentro do Itamaraty. E, apesar do mal-estar, há certa blindagem. A carreira diplomática se parece um pouco com a carreira militar: há muito respeito à hierarquia e à institucionalidade, e essa disciplina obriga os sujeitos a obedecer quem está no andar de cima. Por isso os levantes, embora mais frequentes, seguem anônimos. 
Costumam confrontar o governo abertamente veteranos como Roberto Abdenur e os ex-chanceleres Rubens Ricupero e Celso Amorim, já afastados das funções cotidianas da diplomacia. “Os governos anteriores não fizeram nenhuma reforma, então o poder do ministro ainda é imenso”, critica um diplomata veterano, já aposentado.
“Sempre existe a possibilidade de não cumprir pedidos à risca, de fazer certo ‘corpo mole’, mas a capacidade do corpo diplomático de resistir a certas diretrizes e interpretações é um tanto limitada”, explica Zero.
Episódios recentes ilustram bem esse desbalanço. Um grupo anônimo de quarenta diplomatas divulgou uma carta de repúdio às manifestações do governo em favor do golpe de 64. Dias depois, em telegrama à ONU, o Itamaraty confirmou a versão oficial do Planalto, de que não houve um golpe militar no Brasil.
No Brasil, a Associação dos Diplomatas Brasileiros não costuma se envolver em confusão. A última manifestação de cunho político oficial ocorreu em 2017, depois que funcionários do Itamaraty divulgaram uma carta, também anônima, criticando a truculência do governo na repressão a manifestações contra o então presidente Michel Temer. Na época, a ADB contestou a posição, considerada pela associação um ataque ao caráter institucional da diplomacia. 

Dança das cadeiras nas chancelarias

Enquanto isso, o governo vai trocando as peças na tentativa de melhorar a imagem do país. Em março, Paulo Roberto de Almeida foi demitido depois de publicar na internet um artigo nada elogioso à tal ala anti-establishment, no qual Olavo de Carvalho era chamado de “sofista da Virgínia”. 
Mario Vivalva foi exonerado da Apex, principal braço do comércio exterior, depois de protestar publicamente contra um golpe estatutário que deu poder máximo a dois protegidos de Ernesto Araújo. Diplomata de carreira com passagens por Alemanha, Chile e Portugal, Vilalva havia assumido a agência para acalmar os ânimos depois da breve e desastrada nomeação de Alecxandro Carreiro, um amigo de Eduardo Bolsonaro que mal falava inglês.



Também perdeu o cargo Sérgio Amaral, que há três anos chefiava a embaixada de Washington, considerado o posto mais destacado do Brasil no exterior. Amaral não é o que pode se chamar de “petista”: assumiu o posto pouco depois do impeachment, defendeu o veto a Lula nas eleições e vinha mantendo uma boa relação com o novo governo. Mesmo assim, foi limado. E deve ser substituído por um discípulo de Olavo.

domingo, 20 de agosto de 2017

Um duelo (diplomatico) a distancia com Mangabeira Unger (2002) - Paulo Roberto de Almeida

Mais um desses "inéditos redescobertos". 
Em fevereiro de 2002, em fase de pré-campanha presidencial, o professor de Harvard Roberto Mangabeira Unger, conselheiro político, e supostamente diplomático, do então (e eterno) candidato Ciro Gomes, publicava um artigo vitriólico contra a política externa e a diplomacia brasileira, que transcrevo abaixo imediatamente.
Eu comentei também imediatamente, e mandei o texto para o próprio, em seu endereço de Harvard. Nunca recebi resposta, sequer uma nota acusando recepção. Tampouco publiquei ou divulguei este texto que segue após o artigo original.
Transcrevo agora pois talvez alguns dos debates de 2002 ainda tenham algum significado nos dias que correm. Provavelmente, pois durante os 13 anos da gestão companheira não avançamos em praticamente nada, nem em diplomacia, nem em qualquer outro terreno, a não ser na corrupção.
Acho que o Brasil está rigorosamente atrasado mais de duas décadas, em suas políticas públicas e até em sua diplomacia. Mas este é outro debate.
Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 20 de agosto de 2017

Artigo original de Roberto Mangabeira Unger:




Por que o Brasil não tem política exterior?



Roberto Mangabeira Unger


Folha de São Paulo, 12/03/2002



              O Brasil não tem política exterior. Em vez dela, tem uma prática minúscula e malograda de negociações comerciais. Mas o Brasil precisa ter política exterior. Estão se reunindo as condições para criá-la.

              Os defensores da redução da política exterior a negociações comerciais afundaram num pragmatismo antipragmático. Prometeram resultados e entregaram frustrações. A única iniciativa forte da diplomacia brasileira, o Mercosul, agoniza e só ressurgirá se for reconstruída radicalmente.

A razão básica pela qual não temos política externa é que não temos projeto interno, a não ser um projeto que resultou no enfraquecimento progressivo da nossa afirmação nacional e que inibiu o dinamismo extraordinário da nossa economia. Mas o descalabro tem outras causas também.

Satisfeitas em ter um presidente apresentável em salões e seminários, as elites brasileiras esqueceram que política exterior é um ramo da política, não da indústria de entretenimento. Encobertos pelo nevoeiro retórico da "diplomacia presidencial" e sem balizamento numa discussão nacional da nossa posição no mundo, nossos diplomatas tomaram conta da política externa. Não souberam, porém, o que fazer, a não ser regatear, sem rumo nem força, um pouco mais de vantagem comercial aqui e acolá. Ficaram paralisados e confundidos pelo medo dos Estados Unidos.

A perversão das práticas convergiu com o desvio das idéias. Rio Branco fundou a tradição da nossa política exterior sobre certos princípios elementares: que a política predomina sobre a economia; que a defesa da nossa soberania tem por objetivo criar condições para o desenvolvimento de uma experiência nacional própria; que essa defesa se consubstancia tanto no resguardo de um espaço sul-americano quanto na construção mundial de um pluralismo que se contraponha a hegemonias; que o Brasil precisa reconhecer na sua política exterior sua personalidade moral e que nosso engrandecimento é inseparável da nossa generosidade. Esses compromissos foram sacrificados a um realismo que se revelou falso e contraproducente.

Quatro tarefas (a discutir) devem nortear uma nova política exterior que encarne hoje esses princípios. A primeira tarefa é trabalhar pela construção de instituições que definam uma ordem política e econômica multilateral capaz de lidar com o fato do poderio americano. E que abram caminho para uma diversidade de trajetórias de desenvolvimento. É obra que exige entendimentos arrojados com alguns dos outros grandes países continentais, sobretudo a China e a Índia, com a União Européia e com nossos aliados potenciais dentro dos Estados Unidos. Nenhum país está mais bem posicionado do que o Brasil para liderar iniciativas nesse sentido. A segunda tarefa é aproveitar as contradições da economia global, buscando acordos e parcerias não só com Estados e blocos regionais mas também com empresas. E ampliar nossa margem de manobra por meio da multiplicação dos vínculos em vez de nos refugiarmos no isolamento. A terceira tarefa é começar a refazer nossa situação na América do Sul através dos empreendimentos comuns e das instituições comuns que faltaram ao Mercosul. A quarta tarefa é cumprir nossa obrigação sagrada para com a África sofredora, ajudando o Brasil, desse modo, a reconciliar-se consigo mesmo e a ganhar a energia dos magnânimos.

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A diplomacia que temos e a que não queremos



Paulo Roberto de Almeida





Em provocador artigo sob o título “Por que o Brasil não tem política exterior?” (Folha de São Paulo, 12.02.02; site: http://www.idj.org.br/art0001.asp?SelectID=45), o coordenador do Instituto Desenvolvimento com Justiça, Roberto Mangabeira Unger, tece considerações sobre uma suposta diplomacia brasileira corrente em relação à qual eu, como diplomata com mais de 23 anos de carreira, tenho dificuldades em conectá-la à realidade de nossas relações exteriores ou de nossa prática diplomática. Certamente mais inspirado em seu papel de conselheiro intelectual do candidato presidencial Ciro Gomes, do que em sua função de intelectual público e respeitado acadêmico de Harvard, Mangabeira traça um retrato de uma (falta de) política exterior do Brasil da qual parece complicado reconhecer a existência, ainda mais em concordar com a maior parte de suas afirmações levianas.

Ainda que descontando-se o fato de que ele possa estar atuando motivado mais pelo impulso eleitoral do que pela necessidade legítima de estimular um debate que tem estado ausente das campanhas presidenciais no Brasil, deve-se reconhecer que os argumentos adiantados por Mangabeira não condizem com sua reconhecida capacidade analítica e com a presumida honestidade intelectual de que goza o conselheiro do candidato do PPS.

Mangabeira começa peremptoriamente por afirmar que o Brasil “não tem política exterior”, mas tão simplesmente “uma prática minúscula e malograda de negociações comerciais”. Quaisquer observadores isentos de nossa tradição diplomática, entre eles vários outros serviços diplomáticos de países vizinhos ou mesmo de países desenvolvidos, sabem que se trata aqui de uma simplificação grosseira da realidade. Também soam como exagerados seus argumentos segundo os quais nosso “pragmatismo antipragmático” apenas entregou “frustrações” e que o Mercosul, descrito como “agonizante”, apenas poderá ressurgir “se for reconstruíd[o] radicalmente”. Nenhuma linha segue, porém, sobre as condições em que tal reconstrução poderia ser operada, nesta ou em outras frentes de trabalho diplomático. Na verdade, o artigo de Mangabeira apresenta poucas propostas concretas ou suscetíveis de implementação prática. Senão vejamos.

Concordo com Mangabeira quando ele vincula a política externa à existência de um “projeto interno”, mas torna-se singularmente difícil ver nos últimos anos de estabilização macroeconômica um processo que teria resultado, unicamente, “no enfraquecimento progressivo da nossa afirmação nacional e que inibiu o dinamismo extraordinário da nossa economia”. O que é descrito como “descalabro” não corresponde à realidade de uma diplomacia que tem colocado o Brasil como interlocutor incontornável de processos negociadores nos mais diversos foros formais e informais das relações internacionais contemporâneas. Algo desse sucesso pode ser certamente creditado ao que vem jocosamente caracterizado por Mangabeira como sendo o “nevoeiro retórico da ‘diplomacia presidencial’”, mas o bom desempenho também pode ser creditado ao trabalho sistemático e paciente de nossas representações no exterior e de nossa Secretaria de Estado na defesa constante dos interesses do Brasil nos mais diversos foros abertos ao engenho e arte de nossa diplomacia. Acusar esses diplomatas de terem ficado “paralisados e confundidos pelo medo dos Estados Unidos” é no mínimo criar uma figura de estilo para justificar uma crítica que não guarda a menor relação com a realidade, e que apenas ofende quem está na linha de frente de negociações por certo duras e sensíveis, mas que em nenhum momento foram caracterizadas por temor ou vacilação.

Não se consegue perceber onde estaria ocorrendo uma imaginária “perversão das práticas” como resultado de um suposto “desvio das idéias” do mítico chanceler Rio Branco (a ele são creditados os “fundamentos” da nossa política exterior). Que a política predomine sobre a economia, não deixa de ser verdade hoje como nos tempos do Barão; que “a defesa da nossa soberania” tenha como objetivo principal “criar condições para o desenvolvimento de uma experiência nacional própria” é tão válido hoje como há exatos cem anos atrás, quando Rio Branco assumia por dez longos anos o comando de nossa diplomacia; que essa defesa passe pelo estabelecimento de um espaço sul-americano não representa nada mais do que o que vem sendo pacientemente articulado pela diplomacia brasileira desde o início dos anos 90, pelo menos; que essa visão possa ser materializada pela “construção mundial de um pluralismo que se contraponha a hegemonias”, como quer Mangabeira, corresponde exatamente aos discursos brasileiros nas assembéias gerais da ONU desde muito tempo, como poderia ser facilmente verificado por Mangabeira. Enfim, as críticas de Mangabeira, aos conhecedores, soam como um déjà vu, all over again.

Ele elenca, em seguida, quatro tarefas que deveriam “nortear uma nova política exterior”. Suas propostas são simples e diretas e merecem citação explícita, seguidas de comentários.


1) “A primeira tarefa é trabalhar pela construção de instituições que definam uma ordem política e econômica multilateral capaz de lidar com o fato do poderio americano.”


De acordo, mas a proposta não contradiz o que já vem sendo dito e feito pelo Brasil.


Corolário: “E que abram caminho para uma diversidade de trajetórias de desenvolvimento.”


Não poderia ser de outra forma. O irracional seria tentar perseguir a todo custo uma ilusória uniformização de posições em matéria de políticas econômicas e de modelos de desenvolvimento, o que apenas violentaria as condições próprias e o contexto exclusivo em que se dão nosso próprio processo de desenvolvimento e nossa inserção internacional. Não se compreenderia aliás uma política externa que tentasse encaixar o Brasil em moldes pré-fabricados.


Corolário: Essa tarefa, segundo Mangabeira, “exige entendimentos arrojados com alguns dos outros grandes países continentais, sobretudo a China e a Índia, com a União Européia e com nossos aliados potenciais dentro dos Estados Unidos”.


Não se percebe bem o ineditismo de tais propostas, uma vez que a diplomacia do Brasil vem atuando precisamente nessa linha, de diversificar parcerias externas e lograr uma intensificação do relacionamento com grandes países emergentes, como podem ser a China, a Índia e a Rússia. A relação com a UE é tradicional e muito intensa, atuando como contrapeso aos Estados Unidos pelo menos desde o Império e começo da República. Seria, por outro lado, muito útil que fossem identificados esses “aliados potenciais” dentro dos Estados Unidos que não estão muito claros quem sejam exatamente. Se forem os anti-globalizadores do movimento sindical e ecológico ou, ainda, protecionistas enrustidos ou declarados à la Ralph Nader, o Brasil teria muito pouco a ganhar com eles, já que eles atuam, justamente, para dificultar o acesso de nossos produtos (sobretudo agrícolas) ao mercado dos EUA.


2) “A segunda tarefa é aproveitar as contradições da economia global, buscando acordos e parcerias não só com Estados e blocos regionais mas também com empresas.”


De acordo novamente, mas é preciso obter um mapeamento preciso, a ser fornecido por Mangabeira, dessas contradições existentes na economia global, a partir das quais seria possível traçar o quadro de alianças preferenciais que a diplomacia brasileira buscaria. Do que pode ser observado atualmente, trata-se exatamente do que vem sendo feito pela atual diplomacia, que está longe de refugiar-se no “isolamento”, como quer nosso articulista.


3) “A terceira tarefa é começar a refazer nossa situação na América do Sul através dos empreendimentos comuns e das instituições comuns que faltaram ao Mercosul.”


Perfeito: mais uma vez aguarda-se o detalhamento desses empreendimentos e instituições comuns “que faltaram ao Mercosul”, pois fica parecendo que a crise deste último deve-se à falta dessas instituições, não à existência de condições econômicas objetivas em cada um dos países membros.


4) “A quarta tarefa é cumprir nossa obrigação sagrada para com a África sofredora, ajudando o Brasil, desse modo, a reconciliar-se consigo mesmo e a ganhar a energia dos magnânimos.”


Esta parte entra num terreno que pertence mais à obrigação moral do que ao cálculo racional. Se temos alguma obrigação sagrada para com a “África sofredora”, que justifique sacarmos nosso talão de cheques para atender necessidades daqueles povos, seria o caso de discutir com o Congresso como empregar esse dinheiro, pois vários parlamentares podem argumentar que temos sofredores de sobra, aqui mesmo no Brasil, com os quais temos deveres igualmente, ou mais, sagrados.


Em síntese, o Brasil dispõe de uma diplomacia que pode e deve sofrer diversos aperfeiçoamentos de forma e de conteúdo. Tal tarefa será empreendida com a colaboração de todos aqueles interessados num debate sério sobre a questão. A condição primeira para que tal debate seja feito seria evitar as simplificações e as meias-verdades, evitando caracterizar os dados da realidade pelo seu travestimento indevido numa série de conceitos que relevam mais da acusação gratuíta do que da análise serena.




875: Washington, 12/03/2002
 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Deficit diplomatico - Rubens Barbosa (OESP)

DÉFICIT DIPLOMÁTICO
Rubens Antonio Barbosa
O Estado de S.Paulo, 22/09/2015

As consequências dos erros na condução da economia estão sendo sentidos por todos. A avaliação das opções estratégicas dos governos do PT na área externa  mostra resultados em geral contrários aos interesses nacionais.
A ação da politica externa e de comércio exterior dessas administrações partiu de premissas e percepções que  se provaram equivocadas. As prioridades foram, nas grandes linhas, as mesmas dos governos anteriores (África, Oriente Médio, CSNU, América do Sul, China, Mercosul). O que mudou foram a ênfase e a forma da implementação das políticas por influência da plataforma de um partido político.
O declínio do poderio dos EUA e a crítica ao processo de globalização econômica e financeira estavam no centro da visão de mundo do lulopetismo, que requentou temas da esquerda da década de 60 contra a  opressão capitalista e o imperialismo.
A retórica oficial ressaltou o interesse do governo em mudar a geografia politica, econômica e comercial global pelo fortalecimento do multilateralismo e pelo fim da hegemonia dos EUA, por meio da reforma dos organismos internacionais e, em especial, do Conselho de Segurança da ONU. Como corolário, politicas começaram a ser desenhadas para mudar o eixo da dependência comercial do Brasil pela redução da influência dos países desenvolvidos e pelo aumento da cooperação com os países em desenvolvimento.
A relações Sul-Sul passaram a ser uma das prioridades da política externa com maior aproximação e ativismo na América do Sul, na África e no Oriente Médio e a participação nos blocos integrados por países dessas regiões e outros emergentes (BRICS, IBAS, UNASUL, CELAC).
Ampliar a integração regional e fortalecer o Mercosul e sua expansão para formar uma área de livre comércio na América do Sul como forma de oposição aos EUA, foram outras vertentes da política externa que afetaram as reais prioridades do Brasil no seu entorno geográfico.
A aplicação da plataforma do PT com a partidarização da política externa e a criação na América Latina de canal paralelo ao do Itamaraty culminou com a politica de afinidades ideológicas, generosidade e paciência estratégica nas relações econômicas e comerciais com os países sul-americanos como Venezuela, Argentina, Bolívia, Cuba e com países africanos.
A prioridade absoluta nas negociações comerciais multilaterais e a crítica à abertura comercial com a rejeição dos acordos de livre comércio colocaram o Brasil na contramão das tendências atuais de maior integração econômica global
O resultado dessas opções criou um verdadeiro déficit diplomático para o Brasil.
Na política externa, de pouca relevância no governo Dilma, deu-se o  enfraquecimento da voz do Brasil no contexto internacional o que afetou nossa  projeção externa. Isso criou no Itamaraty  crescentes problemas operacionais de gestão pela falta de recursos e resultou na redução do perfil brasileiro nos temas globais discutidos nos organismos internacionais especializados. A desintegração regional se acentuou pela ausência de liderança brasileira e pelo apoio à ALBA (Aliança Bolivariana). Pela dificuldade de fazer avançar o Mercosul, deu-se ênfase às relações bilaterais com os países sul-americanos. O antiamericanismo e o congelamento das relações com os EUA, refletiram-se na criação de novas instituições sul-americanas (CELAC, UNASUL). Sem visão estratégica, abandonaram-se as prioridades de projetos de infraestrutura na América do Sul. A baixa prioridade dada às importantes nações democráticas e a aproximação e o apoio a regimes de clara inspiração antidemocrática são reflexo da confusão entre valores e interesses na definição de políticas nos temas globais (democracia e Direito Humanos). A ausência de uma clara visão do interesse brasileiro se manifesta em relação aos países desenvolvidos (União Europeia, EUA e Japão), China e BRICS.
No tocante ao comércio exterior, essas políticas geraram o isolamento do Brasil das negociações comerciais no âmbito da OMC. Enquanto foram assinados mais de 400 acordos comerciais, o Brasil assinou apenas quatro (Israel, Egito e Autoridade Palestina e África meridional (SACU).  Hoje vemos o Mercosul comercial paralisado e cedendo lugar a temas sociais e políticos. Além de que o intercâmbio com a África e o Oriente Médio pouco cresceu em termos percentuais no total do comércio exterior brasileiro. O empobrecimento da pauta comercial brasileira e a perda de espaço no comércio internacional estão associados à manutenção de uma economia fechada. E, por causa de nossa reduzida inserção nas cadeias produtivas globais e à aplicação de políticas restritivas no comércio exterior, acabamos tendo limitado acesso à inovação e à tecnologia.
No inicio do segundo mandato, o governo Dilma até ensaiou alguma evolução na política externa e na negociação comercial externa. Porém, em tempos de ajuste da economia, o governo se vê diante de uma escassez de meios que limitam a ação externa. Os resultados das conversações com os EUA e a Alemanha foram limitados e mais de boas intenções do que de ações concretas. Prossegue, entretanto, a influência partidária, como evidenciado pela não retomada do acordo de salvaguardas tecnológicas com Washington.
As opções equivocadas geraram custos enormes ao pais e terão de ser revistas. Em virtude da partidarização e da falta de visão estratégica, faltou,  como recomendou o Barão do Rio Branco, “tomar a dianteira e construir uma liderança serena, coerente com nossa dignidade de nação”.
O ministro Mauro Vieira procura movimentar a ação externa com viagens à Africa, ao Irã e Líbano e afirma que a única ideologia que guia o Itamaraty é a da defesa do interesse nacional. Trata-se de importante mudança de política que, espera-se, possa de fato produzir resultados concretos.

Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Golias anao e o David gigante: apenas um conflito de egos em torno do conflito Israel-Palestina? (sic)

24/7/2014 14:44
Por Redação, com agências internacionais - de Jerusalém

segundo o porta-voz israelense Yigal Palmor, o Brasil não passa de um "anão diplomático"
segundo o porta-voz israelense Yigal Palmor, o Brasil não passa de um “anão diplomático”
Além das mortes de mais de 700 palestinos, o governo de Israel conseguiu, nesta quinta-feira, ferir gravemente a diplomacia brasileira ao afirmar, por intermédio de sua Chancelaria, que o “comportamento” do Brasil “ilustra a razão por que esse gigante econômico e cultural permanece politicamente irrelevante”. Além disso, o governo disse que o país escolhe “ser parte do problema, em vez de integrar a solução” e, segundo o porta-voz israelense Yigal Palmor, o Brasil não passa de um “anão diplomático”. O “comportamento” que mereceu as duras críticas de Tel Aviv trata-se do comunicado distribuído na noite passada, no qual o Itamaraty condena o “uso desproporcional da força” por parte de Israel e não faz referência às agressões de palestinos contra israelenses.
– Essa é uma demonstração lamentável de por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua sendo um anão diplomático – afirmou Palmor ao diário israelense The Jerusalem Post.
Outra medida que irritou o Estado judeu foi a reprimenda diplomática brasileira ao chamar o embaixador de Israel em Brasília, Rafael Eldad, para expressar seu protesto, e convocar o embaixador brasileiro em Tel Aviv, Henrique Pinto, de volta a Brasília. Segundo as regras da diplomacia, o protesto feito a Eldad e a convocação de Pinto mostram sinais de forte desagrado. Em sua página na internet, a diplomacia israelense acusou o Brasil de “impulsionar o terrorismo” e afirmou que isso, “naturalmente”, afeta a “capacidade do Brasil de impulsionar influência”.
Na nota, Israel se diz “decepcionado” com a convocação do embaixador brasileiro e observa que a atitude “não reflete” o nível das relações bilaterais, além de “ignorar o direito de Israel de se defender”. “Israel espera apoio de seus amigos em sua luta contra o Hamas, reconhecido como uma organização terroristas por muitos países”, afirma o documento.
Apenas algumas horas após a crítica sem precedentes do governo israelense, o chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, colocou panos quentes na crise ao afirmar que a “discordância entre amigos é natural”. Figueiredo acrescentou que o comunicado do Itamaraty na noite passada, que recebeu o aval da presidenta Dilma Rousseff, segundo apurou o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, “não apaga as críticas feitas anteriormente ao Hamas só porque não as menciona”.
– O gesto que tinha que ser feito foi feito. O Brasil entende o direito de Israel de se defender, mas não está contente com a morte de mulheres e crianças – explicou.
Fontes citadas pela Folha afirmam que o Itamaraty e o Palácio do Planalto ainda estudam a melhor reação para um comentário considerado “tão duro”. “Se, de um lado, alguns diplomatas brasileiros alertam para que não se ‘bata boca’ com Tel Aviv, outros analisam ser necessário uma resposta enérgica da própria presidente da República para responder a crítica à altura. Em Gaza, o gesto brasileiro foi recebido com festa. Palestinos se aproximaram da reportagem da FSP para expressar gratidão ao governo Dilma Rousseff”.
– Obrigado por convocar seu embaixador. O Brasil é melhor do que os países árabes, como o Egito, que não fazem nada – disse Tawfiq Abu Jamaa, em Khan Yunis.
Desde que começou a operação israelense Margem Protetora, no dia 8 deste mês, mais de 700 palestinos, na grande maioria civis, foram mortos. Do lado israelense, morreram 32 militares e três civis, sendo um cidadão tailandês. O intuito da operação é desmantelar o movimento radical islâmico Hamas, que governa a Faixa de Gaza.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Brasil: um anao diplomatico? Nao! So tem um governo hipócrita e esquerdista - Bernardo Santoro

Brasil não é anão diplomático, só tem um governo hipócrita e esquerdista

anaobrasil
O Governo brasileiro soltou ontem uma nota oficial declarando que considera inaceitável a escalada de violência entre Israel e Palestina. Condenou ainda o uso desproporcional de força por parte do exército israelense que teria resultado na morte de milhares de crianças e mulheres. Em resposta, a chancelaria de Israel chamou o Brasil de “anão diplomático” e que mais atrapalha que ajuda.
O Brasil não é um anão diplomático, sendo um ator internacional ativo desde a criação da ONU, o que demonstra certo despeito e rancor, até compreensíveis, por parte da chancelaria israelense. O problema do Brasil é mais profundo, de ordem moral e emocional: o governo brasileiro é hipócrita e esquerdista.
A hipocrisia do Governo ao retirar o embaixador local para explicações por causa da violência é tão risível que até o momento não consegui imaginar como a nossa chancelaria teve tamanha cara de pau. O “Escritório sobre Drogas e Crime das Nações Unidas” classifica o Brasil como o 16º país mais violento do mundo em termos relativos e o mais violento do mundo em números absolutos de homicídios anuais. A soma populacional das capitais Maceió e João Pessoa equivale ao número de habitantes da Faixa de Gaza. Em 2013 foram 1310 homicídios nessas duas cidades somadas, em tempos de paz, o que equivale a metade dos mortos em Gaza durante essa guerra aberta. Se fôssemos adentrar na discussão da violência do Estado, com suas leis interventoras, e da polícia despreparada sobre o indivíduo brasileiro, os números seriam igualmente assustadores.
Dado o atual panorama da segurança pública brasileira, seria absolutamente razoável que todos os países do mundo com representação diplomática no Brasil convocassem seus embaixadores para explicações sobre o porquê da violência aqui ser tão grande se estamos supostamente em tempos de paz. Mas para o Governo brasileiro é melhor criar um fato político com o problema humanitário alheio do que ter a decência de admitir suas próprias falhas na promoção de direitos humanos.
Falando em direitos humanos e países islâmicos, nessa semana tivemos a declaração do líder do grupo jihadista Estado Islâmico (ISIS), Abu Bakr al-Baghdadi, ordenando a prática da mutilação genital nas mulheres do califado muçulmano organizado por ele dentro da Síria e do Iraque. Há rumores de que o ISIS já está operando também dentro de Gaza e da Cisjordânia, ou seja, em breve teremos mulheres mutiladas aos borbotões em vários pontos do Oriente Médio, inclusive na Palestina. Esse, que é um dos crimes mais horríveis feito sistematicamente contra mulheres, não é feito em Israel, mas esquerdistas são bastante incongruentes na hora de escolher seus rivais.
De acordo com a Anistia Internacional, são 27 os países que hoje praticam sistematicamente a mutilação feminina: Benin, Burkina Faso, Camarões, República Central Africana, Chade, Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné Bissau, Quênia, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Togo e Uganda.
Dado o horror dessa prática, imaginei que um Governo tão diligente com os direitos humanos como o Brasil parece querer se mostrar ser, certamente deveria ter pedido esclarecimentos para os governos citados e até retirado seu corpo diplomático de países bárbaros como aqueles.
Então dei uma entrada no site da chancelaria brasileira, e descobri que temos representantes diplomáticos em praticamente todos os países e que nenhum diplomata brasileiro jamais foi convocado para explicar a barbárie cometida lá contra mulheres indefesas. Pelo contrário, o Governo brasileiro fez questão de perdoar a dívida de vários ditadores desses países com o Brasil.
Dada toda essa situação deprimente, sinceramente, acho que seria melhor se fôssemos apenas anões diplomáticos, e não esquizofrênicos antissemitas. Direitos humanos devem ser defendidos para todos: mulheres, judeus, muçulmanos… indivíduos!

Sobre o autor


Bernardo Santoro
Diretor do Instituto Liberal
Mestre em Teoria e Filosofia do Direito (UERJ), Mestrando em Economia (Universidad Francisco Marroquín) e Pós-Graduado em Economia (UERJ). Professor de Economia Política das Faculdades de Direito da UERJ e da UFRJ. Advogado e Diretor-Executivo do Instituto Liberal.