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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

E por falar em diplomacia ideológica, eis aqui um exemplo: a luta contra o terrível comunismo

Numa fase em que nem o PCdoB deseja realmente implantar o comunismo no Brasil – eles só querem extorquir os capitalistas, para seu maior conforto material –, ainda tem gente que pensa em buscar chifre em cabeça de cavalo.
Eis aqui um perfeito exemplo.
Paulo Roberto de Almeida

Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores.
Em artigo exclusivo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, traça um panorama da ameaça comunista nos países latinos

O intelectual e ativista marxista boliviano Álvaro García Linera, logo após ser eleito vice-Presidente da Bolívia na chapa de Evo Morales, em 2005, declarou: “O horizonte geral da nossa era é o comunismo.”
Não há dúvida de que a América Latina viveu dentro de um horizonte comunista desde 2005, ou possivelmente desde um pouco antes, desde a vitória de Lula em 2002, ou desde a vitória de Chávez em 1999. Na verdade, esse horizonte começou a raiar com a criação do Foro de São Paulo, em 1991.
Veja-se bem a expressão: dentro de um horizonte comunista. Não em um sistema explicitamente comunista. Muitas pessoas ridicularizam a discussão sobre a presença do comunismo na América Latina atual dizendo que os partidos autoproclamados comunistas são fracos ou inexistentes e que em nenhuma parte – exceto um pouco na Venezuela – cogita-se de instaurar um sistema com propriedade coletiva dos meios de produção ou ditadura do proletariado.
Em primeiro lugar, há que observar o seguinte: o comunismo não é a propriedade coletiva dos meios de produção. O comunismo não é a ditadura do proletariado. Propriedade coletiva e ditadura do proletariado – o socialismo – são instrumentos para chegar ao comunismo, que é o estágio último da sociedade humana concebido por Marx, o zero absoluto do ser humano, onde o controle sobre o homem é tão completo que já prescinde do Estado (portanto prescinde da ditadura do proletariado). Um controle sem sujeito, apenas objetos imbecilizados, onde já não há propriedade coletiva nem individual porque já não há diferença entre indivíduo e coletividade, um sistema que se autoperpetua infinitamente, um buraco negro da humanidade, de cujo horizonte já nenhuma luz escapa. O comunismo não é a abolição do capitalismo, o comunismo é (para tomar emprestado um título de C.S.Lewis) a abolição do homem.
O socialismo, dentro da loucura marxista, é apenas um instrumento para chegar ao comunismo, mas isso não significa que não haja outros. Desde 1989-1991, quando desabou o “socialismo real”, o marxismo vem trabalhando para desenhar novos instrumentos de construção do comunismo. O principal desses instrumentos é o globalismo (termo que utilizo numa acepção algo distinta daquela mais corrente que o define como a criação de uma governança mundial; para mim, diferentemente, o globalismo é a captura da economia globalizada pelo aparato ideológico marxista através do politicamente correto, da ideologia de gênero, da obsessão climática, do antinacionalismo). 
Assim, tudo o que os marxistas desde 1989 fazem e pensam é manter aberto o horizonte comunista. Sabem que já não podem pregar abertamente o comunismo porque o mainstream (ainda) o rejeita, mas podem ir-se aproximando, avançando aqui e ali, ganhando terreno e ocupando espaços. Horizonte por definição é um lugar aonde nunca se chega, mas que necessariamente orienta e referencia nossa localização espacial. O objetivo ficou talvez mais distante do que era no tempo da União Soviética, mas continua presente. Talvez tenha ficado mais próximo É isso o que querem dizer com o “horizonte comunista”. 
Essa expressão, aliás, serve de título a um livro da marxista Jodi Dean, publicado em 2012, The Communist Horizon um de tantos trabalhos surgidos desde o final dos anos 90 discutindo justamente as formas de preservar a “utopia” comunista e reinseri-la na realidade política e social concreta de um mundo aparentemente avesso ao comunismo. Na mesma linha vão os três volumes intitulados The Idea of Communism, coleção de ensaios de dezenas de autores marxistas, coordenados pelos dois principais pensadores dessa horripilante corrente na atualidade, Alain Badiou e Slavoj Zizek. O “horizonte comunista”, a “ideia do comunismo” são a mesma coisa: mil maneiras de manter viva a ideologia comunista, tantas vezes derrotada pela realidade. Dizia Mao Tse Tung: “De derrota em derrota, até a vitória final.” Esse é o programa. Aproveitar as aparentes derrotas para fortalecer-se e seguir avançando. Pode-se argumentar que neste Século XXI o projeto comunista está mais forte do que nos anos 80, justamente porque ninguém o vê e pode operar à sombra da sociedade de consumo. Em lugar de combater o capitalismo em nome de uma alternativa socialista claramente fracassada, infiltrar-se de maneira sutil dentro do capitalismo. 
Vão já, portanto, quase trinta anos – mas os últimos 20 são especialmente significativos – em que o marxismo está cavando túneis por baixo da superfície aparentemente segura e tranquila da sociedade liberal. Os marxistas nunca se renderam a essa sociedade. Reúnem-se, pensam, programam, aplicam diferentes estratégias que vão solapando o mundo liberal-democrático, de diferentes modos, com diversas geometrias, explorando de forma inteligente e perversa as fragilidades do sistema liberal.
A principal fragilidade do sistema liberal é a seguinte: o sistema liberal não pensa. Não trabalha no mundo das ideias. Criou uma repulsa por tudo aquilo que chama de “ideológico”. Curiosamente, o sistema liberal em geral – e no Brasil os isentões em particular – aplicam a pecha de “ideológico” àqueles que procuram estudar o marxismo contemporâneo e entender seu “horizonte comunista”. Ou seja, os ideólogos que se esforçam dia e noite por criar os novos instrumentos do comunismo (e que publicam suas ideias em livros amplamente disponíveis) são ignorados e deixados trabalhar em paz, sob uma espécie de indiferença benigna por parte do establishment. Já os amantes da liberdade que lêem esses trabalhos marxistas para entender o novo projeto comunista e assim poder combatê-lo são chamados de “ideológicos”. O mundo isentão lida apenas com a figura fictícia de um certo comunismo “derrotado em 1989” e recusa-se terminantemente a reconhecer – muito menos a enfrentar – o projeto comunista real que atua hoje por toda parte.
O isentismo é antes de mais nada uma forma de preguiça intelectual. 
Também é uma forma de acomodação. O isentismo não enfrenta o comunismo. Não chega nem perto. Não quer enfrentar. Não quer reconhecer que ele existe porque, se reconhecer, vai ter de fazer alguma coisa. Assim, o isentismo se inscreve confortavelmente dentro do horizonte comunista e, no dia em que o comunismo chegar e roubar-lhe a liberdade que ele acredita possuir de graça sem precisar lutar por ela, o isentão não vai nem perceber, pois sua cegueira ideológica – ou seja, sua cegueira para a ideologia que penetra na sua mente – já lhe terá consumido todas as faculdades e sentimentos de resistência. 
Isso na melhor das hipóteses. Em outra hipótese, o isentão sabe conscientemente que seu isentismo se insere dentro do horizonte comunista e está muito feliz com isso. Faz parte voluntariamente do projeto. Não se acha comunista, mas compartilha com o projeto comunista todo o essencial: o materialismo e o ódio ao espírito, a sede insaciável de poder e de controle absoluto. A pressa com que hoje, no Brasil, os isentos correm para os braços da extrema esquerda e vice-versa, formando uma estranha “isentoesquerda”, é o sinal abjeto dessas afinidades profundas.
Então, temos em todo o mundo, a partir da virada do século, a progressiva construção de uma sociedade que é liberal apenas na suferfície, na aparência de uma economia capitalista com instituições democráticas e direitos humanos bem bonitinhos, mas que na sua subestrutura não é nada disso. Debaixo do liberalismo, no porão, os engenheiros do “ideal comunista” manejam suas alavancas. No porão grassa a corrupção, o conluio com o crime organizado, a tolerância para com a violência mais brutal, as drogas (seu tráfico e seu uso), o capitalismo distorcido pelo controle estatal, a repressão ao pensamento e à livre expressão, o anticristianismo e o antiespiritualismo, o furioso moralismo materialista, a manipulação da ciência.
E os isentões, onde estão? Estão jogando pedra justamente naqueles líderes que, no Brasil e no resto do mundo, querem descer ao porão para lutar contra todas essas mazelas. O isentão, quando você aperta, ele não quer uma economia livre, ele não quer uma internet livre, não quer um idioma livre capaz de expressar a complexidade e beleza do espírito humano em sua aventura multidimensional. Quer uma economia direcionada pelo conchavo político, quer o controle social da comunicação pelo monopólio da grande mídia, quer uma novilíngua continuamente empobrecida pela ditadura do politicamente correto que substitui a ditadura do proletariado como instrumento preferencial de construção do comunismo. Sim, o isentão está enclausurado no horizonte comunista. 
No Brasil estamos rompendo o horizonte comunista e reenquadrando o liberalismo no horizonte da liberdade. O horizonte comunista está sendo rompido igualmente em outros lugares, certamente nos EUA, também no Reino Unido, na Hungria e na Polônia, penso que está sendo rompido na África, onde os últimos laivos da associação espúria entre comunismo e libertação, que vigorou por décadas desde as lutas anticoloniais, parecem estar-se dissipando. A Igreja Católica, em parte, se havia inscrito também dentro do horizonte comunista, a partir dos anos 60 e 70, mas ali a verdadeira fé parece estar resistindo e repelindo o avanço marxista sobre a sua doutrina bimilenar. 
O horizonte comunista está sendo rompido na própria Bolívia, onde o povo deu um basta a Evo Morales e García Linera, que queriam continuar arrastando os bolivianos para o abismo à custa da fraude eleitoral. 
Porém o horizonte comunista quer voltar a estrangular-nos. Quer regressar na Bolívia (Evo Morales foi acolhido pelo novo governo e está ali, a poucos quilômetros da fronteira, à espreita). Quer voltar no Chile, no Equador e na Colômbia, quer voltar no Brasil. Quer “iluminar” com suas trevas essas grandes nações que são a Venezuela, o México e a Argentina.
Precisamos olhar para além desse horizonte comunista, que não é um horizonte onde há árvores e campos mas sim as paredes de uma cela, esse horizonte que não é onde a terra encontra o céu mas onde a terra encontra o inferno. Tudo o que temos para combater o avanço dessas paredes e a aproximação desse abismo é o apego à liberdade. A liberdade que, insisto, não é uma ideologia, mas o eixo central do ser humano. 
Para começar, precisamos estudar o comunismo a partir do que dizem e fazem os comunistas, em lugar de sair aos gritos de “ideológico, ideológico” condenando quem o estuda e quem o enfrenta.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi? - Fabio de Oliveira Ribeiro

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Humilhado pelo prefeito de New York apesar de fazer tudo o que seus patrões norte-americanos desejam, ele não sabe como reagir.

O que Bolsonaro poderia ter aprendido com Aisin Gioro Pu Yi?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Aqui mesmo no GGN teci uma série de considerações sobre o Reich bananeiro. Antes, de falar sobre o assunto que me chamou a atenção retomo algumas delas:
A derrubada de Dilma Rousseff criou o vácuo político utilizado por Jair Bolsonaro para ganhar a eleição. Assim que tomar posse ele pretende expandir esse vácuo de duas maneiras: esvaziando a presidência de suas prerrogativas governamentais e inventando para si mesmo o papel de censor supremo da moralidade e dos bons costumes do Reich bananeiro.
Bolsonaro não é tolerante como Dilma Rousseff. A presidenta petista caiu porque preservou a liberdade de imprensa. Desde que foi eleito o Sieg Heil Führer tupiniquim deixou bem claro que não irá tolerar críticas. Ele prometeu punir financeiramente as empresas de comunicação que façam oposição ao seu governo. Isso foi o suficiente para convencer* algumas delas a demitir jornalistas que criticaram Bolsonaro.
O Führer disse que o dinheiro público investido nas universidades públicas é jogado na lata do lixo. Revogados estão, portanto, o disposto nos arts. 207 e 208, inciso V, da CF/88. A obrigação estatal de custear a educação pública (art. 212, da CF/88) deixará de existir.
Lula é refém da agenda neoliberal que se recusou a endossar. Separado de seu líder, o povo brasileiro não consegue resistir à exclusão social e à opressão político que pretende transformar o Brasil num apêndice do capitalismo financeiro dos EUA. Os juízes deixaram de ser agentes da legalidade. Eles se transformaram em terroristas políticos a serviço de uma ordem econômica que contradiz os fundamentos da constituição cidadã que eles deveriam cumprir e fazer cumprir.
As condições de possibilidade para o presidente Jair Bolsonaro se autoproclamar ditador em 2019 são infinitamente menores do que aquelas que existiam antes do Marechal Castelo Branco derrubar João Goulart em 1964. Além disso, uma rocha imensa está se levantando entre o ambicioso capitão e o poder absoluto que ele deseja exercer. Se continuar trocando a política pelo Twitter, prejudicando o Brasil a apostando no tudo ou nada, Bolsonaro pode acabar sendo deposto pela articulação político-industrial-jornalístico-militarque já começou a se formar em torno do General Mourão.
De maneira geral, quase todas essas afirmações foram confirmadas nos últimos dias. Bolsonaro decidiu estrangular mortalmente o sistema educacional brasileiro sob a dupla alegação: preservação da moralidade e contenção do desperdício de dinheiro. A decisão da Folha de censurar o pronunciamento inicial de Lula e a da Rede TV de não transmitir a entrevista feita com o ex-presidente pelo jornalista Kennedy Alencar são sinais claros de autocensura provavelmente motivadas por chantagens financeiras.
Num dia os advogados de Lula anunciaram que o ex-presidente pedirá seu direito à prisão domiciliar. No outro o Desembargador Gebran Neto, que atua na Câmara Lavajateira do TRF-4, anunciou que o regime semi-aberto deveria ser extinto. Gebran é amigo de Sérgio Moro. Portanto, a interferência inoportuna dele numa questão que diz respeito exclusivamente ao Poder Legislativo – se um desembargador quiser mudar a Lei Penal ele terá que abandonar a toga e disputar o cargo de Deputado Federal – confirma a existência de uma verdadeira conspiração entre membros do Judiciário e do Executivo para manter Lula na condição de refém político do Ministro da Justiça e/ou de Bolsonaro.
A economia real brasileira continua derretendo. O desemprego aumentou e os eleitores de Jair Bolsonaro começaram a abandonar o barco dele. A política externa confusa – e aparentemente orientada por uma mistura explosiva de ideologia anticomunista dos anos 1950 e fanatismo religioso do século dos anos 2000 – está provocando uma contração das exportações. Com consumo interno em queda por causa do empobrecimento da população brasileira, ninguém conseguirá salvar as finanças dos produtores rurais que deixaram e/ou deixarão de exportar seus produtos para o Oriente Médio, para a Venezuela e a China.
O conflito internacional entre Jair Bolsonaro e o prefeito de New York, que resultou numa derrota humilhante para o presidente brasileiro definiram os limites do poder de censor supremo da moralidade e dos bons que Bolsonaro pretendia exercer. Rejeitado pelos gays norte-americanos, ele não pode nem mesmo apelar para o nacionalismo dos gays brasileiros. Isso explica porque coube ao vice-presidente o encargo de confrontar o prefeito de New York.
No momento em que escrevo estas linhas, o presidente do Brasil deve estar se sentindo tão isolado e impotente quanto o último imperador chinês no período em que ele foi governante de Manchukuo. Ao rebaixar nosso país à condição de Estado vassalo dos EUA, Jair Bolsonaro imaginou que teria alguma liberdade para agir dentro e fora do país. Ao ser humilhado pelo prefeito de New York e colocar o rabo entre as pernas, Bolsonaro deve ter percebido que estava enganado. Nenhuma novidade, Aisin Gioro Pu Yi também não demorou muito para descobrir que era apenas um fantoche nas mãos do comandante militar japonês da Manchúria.
Nos anos 1980 Bolsonaro revelou seu desejo de ser ditador. Ao se submeter ao governo dos filhos, dos generais da reserva, de um pastor fanático e do astrólogo que se diz filósofo, ele conseguiu transformar seu sonho em pesadelo.
O isolamento político do presidente é evidente. Ele não comanda a economia, não pode comandar as Forças Armadas, perdeu o controle sobre a imagem internacional do seu governo e luta contra a rebeldia de sua própria base parlamentar. Bolsonaro chegou ao poder surfando na onda de anti-petismo criada e amplificada pela imprensa para derrubar Dilma Rousseff. Ele se tornou o herói dos pobres de direita. Com a economia desmanchando, isso não será bastante para mantê-lo no poder.
Nenhum analista precisa ser muito perspicaz para perceber que o presidente do Brasil será incapaz de ampliar sua base de apoio popular. Para que isso ocorresse seria necessário, por exemplo, que o Pastor Malafia começasse a reconhecer os “gays de Jesus” e a organizá-los em torno do presidente. Os únicos que não abandonarão Bolsonaro serão os robôs que povoam o Twitter e o Facebook tentando espalhar a mensagem do Messias tupiniquim que foi reconhecido publicamente como tal pelo Chanceler caipira.
Com a derrota para o prefeito de NY, o Itamaraty chega ao fundo do poço. Ernesto Araújo envergonha a diplomacia brasileira. Se tivesse um mínimo de patriotismo ele renunciaria ao cargo e pedia asilo político no Burundi, onde poderia viver em paz até ser esquecido.
Um dos aspectos mais interessantes desta fase que estamos vivendo é a oscilação do vice-presidente. De vez em quanto o general Mourão se esforça para aparecer como uma alternativa viável às loucuras bolsonarianas. Entretanto, sempre que Jair Bolsonaro fica vulnerável por causa de seus erros o general-vice corre para defender o presidente e/ou para atuar como se fosse seu fiel cão de ataque. A lealdade desleal de Hamilton Mourão à Bolsonaro já está custando caro ao Brasil. O vice tem que decidir se vai afundar nosso país junto com o presidente maluco ou se afundará o barco dele antes disso para salvar o pouco que restou aos brasileiros.
Hitler acreditava que o III Reich duraria 1.000 anos. Ele somente existiu entre 1933 e 1945. Tudo indica que o Reich bananeiro não vai durar 1.000 dias. Mas se Bolsonaro não for imediatamente deposto o estrago que ele provocará ao sistema educacional do país será sentido por mais de um século.
Aisin Gioro Pu Yi foi coroado imperador da China, mas passou boa parte da vida tentando recuperar o império que havia perdido. Ele também foi coroado imperador de Manchukuo e se tornou um marionete nas mãos dos militares japoneses. Hitler sonhou ser artista. Rejeitado pelo meio artístico vienense ele se tornou soldado e, depois, se voltou para a política. Bolsonaro foi expulso do Exército e sonhou se tornar Hitler. O máximo que ele conseguiu foi virar um exemplo típico de manchurian president latino-americano.
Humilhado pelo prefeito de New York apesar de fazer tudo o que seus patrões norte-americanos desejam, ele não sabe como reagir. Se tivesse prestado atenção à biografia de Pu Yi, Bolsonaro teria aprendido algo útil.

sábado, 16 de março de 2019

Chanceler anti-economico: uma aula não recomendada - Vinicius Torres Freire

Eu costumo colocar neste blog coisas inteligentes para pessoas inteligentes.
É o caso do artigo deste jornalista econômico.
Mas certamente não é o caso do objeto de seu artigo, uma aula inédita, dita “magna”, mas que não merece sequer o epíteto de mínima, surrealista, do atual chanceler, aos pobres estudantes do Instituto Rio Branco, que tiveram de sofrer por duas horas ataques insanos de “irrealismo mistificador” por parte de quem, supostamente deveria lhes ensinar a pensar sobre o Brasil e sua diplomacia.
O quadro é deveras assustador.
Fiquei sem palavras para descrever o que assisti, depois de 2 horas de surpresas desagradáveis.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16 de março de 2019

Artigo de Vinicius Torres Freire na Folha de S. Paulo (15/03/2019), a propósito da aula mínima do chanceler atual.


Quem quer comprar a nossa alma

Ministro cria teoria biruta do comércio para justificar nova ideologia do Itamaraty

A China passou a ser o maior parceiro comercial do Brasil e, “por coincidência ou não, tem sido um período de estagnação do Brasil”.
De qualquer modo, ainda que queiramos vender soja e ferro aos chineses, não o faremos em troca da nossa alma.
Essa teoria geral impressionista estocástica dos efeitos do comércio no crescimento econômico foi apresentada por Ernesto Araújo aos novos estudantes do Instituto Rio Branco.
Araújo ocupa a cadeira de ministro das Relações Exteriores e, pelo jeito, a cátedra de economia sideral do Itamaraty.
Segundo Araújo, o Brasil era o país que mais crescia no mundo quando “seu principal parceiro de desenvolvimento eram os Estados Unidos”. “Parceiro de desenvolvimento” é, digamos, uma expressão mais sentimental, mas suponha-se, por paralelismo, que o diplomata ainda tratasse de exportações.
É verdade. Nos quinquênios de crescimento mais rápido da história do Brasil, 1957-61 e 1969-73, o principal destino das nossas vendas externas eram os Estados Unidos. Mas, como nos casamentos antigos, que o diplomata deve prezar, os americanos estiveram conosco na saúde e na doença. Ainda eram nossos principais fregueses no pior quinquênio do crescimento brasileiro, 1989-92.
Mas esses argumentos e contra-argumentos são birutas. Pelo método da associação livre comercial, é possível chegar a outras conclusões, “coincidência ou não”.
Nos anos JK, nossos principais produtos de exportação eram café (56% do total), açúcar, algodão e minérios, pauta quase idêntica à dos anos 1870, no Império da escravidão e do atraso, período que marcou tão fundo a nossa alma (ou o caráter nacional brasileiro?), tema caro ao diplomata.
O Brasil “estagnou quando desprezou essa parceria com os Estados Unidos” e procurou alianças com Europa, a integração latino-americana e o mundo pós-americano dos Brics”, discursou Araújo. Hum.
Ainda pelo método da associação livre, é possível pensar que a nossa fase chinesa esteve associada ao período de crescimento mais rápido desde a ditadura, os anos Lula 2. Foi então que a China se tornou o principal freguês das nossas exportações, ultrapassando Estados Unidos e Argentina.
Foi também então que as compras chinesas de soja e ferro, de comida e matérias-primas em geral, aqui e alhures, elevaram preços de produtos brasileiros, com o que o Brasil pagou sua eterna dívida externa e deixou de padecer de crises cambiais, crônicas desde a Independência (sim, 1822). 
Nesses mesmos anos Lula 2, porém, o governo do Brasil passou a arrebentar as contas domésticas, um dos motivos dessa ruína.
Mas, repita-se, isso não é maneira de pensar comércio exterior e desenvolvimento, é apenas pensamento mágico, em parte tão ideológico quanto o de algumas variantes de “marxismo cultural”, como aqueles de linha desenvolvimentista mais desvairada ou atrasada.
O Brasil é uma ilhota nas flutuações da divisão internacional do trabalho, com certas vantagens comparadas e lá não muito capaz de criar vantagens novas ou tidas como relevantes, o que talvez modificasse a inserção do país no comércio internacional. 
Por falar nisso, há alguma controvérsia se é relevante ou producente tentar forçar a barra a fim de alterar a “complexidade” das nossas exportações (para a maioria dos economistas padrão, não é).

Mas essa é outra conversa, ainda no universo da razão, do realismo e do pragmatismo nas relações internacionais, econômicas ou quaisquer.  









Artigo protegido contra cópia, acessável no link seguinte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2019/03/quem-quer-comprar-a-nossa-alma.shtml

Quem quiser assistir à aula mínima, pode fazê-lo num destes links que eu informei em postagem do último dia 14:
Se por acaso o URL do vídeo original da Aula Magna: 
          https://www.youtube.com/watch?v=0Qt1kCY7D0M
for descontinuado, por razões de edição, por exemplo, eu preservei o vídeo da gravação direta em meu próprio canal no YouTube, neste link: 
         https://youtu.be/qXD0khwGdzc 

Aproveitem, pois não haverá novas palestras como esta, pelo menos não tão sincera e tão verdadeiramente representativa do personagem.


O jornal O Estado de São Paulo fez um editorial sobre um dos temas da aula, que ele chamou de "Diplomacia medíocre":
 https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,diplomacia-mediocre,70002754642
Coloquei também em meu site: 
https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/03/diplomacia-mediocre-editorial-do-jornal.html
e em meu Facebook: 
https://www.facebook.com/paulobooks/posts/2360298620700241

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 14 de março de 2019 




quinta-feira, 14 de março de 2019

Semana da Francofonia afetada por arbitrariedade no Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida


Itamaraty: a animosidade pessoal se transfere ao plano institucional

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: relato sobre eventos cancelados; finalidade: informação aos interessados]

Em janeiro deste ano, a pedido da seção cultural da embaixada da França em Brasília, e no quadro da “Semaine de la Francophonie”, eu havia sido convidado a participar de um evento e consultado sobre a possibilidade de ajudar a organizar um outro, ambos no mesmo dia em 19 de março. Esses dois eventos estavam relacionados à visita ao Brasil da professora Laurence Badel, historiadora da Universidade de Paris-1 (Sorbonne), que faria no Itamaraty duas conferências, seguidas de debates.
Esses eventos seriam, respectivamente, uma conferência sobre os diplomatas escritores, já objeto de um colóquio, na França, quase dez anos atrás, e objeto de uma obra coletiva, da qual a professora Badel foi uma das editoras, e uma outra conferência sobre o centenário da conferência de paz de Paris em 1919. Fiz uma postagem sobre o livro resultante do colóquio desde que o recebi de uma encomenda na França, em 21 de maio de 2018, neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/05/ecrivains-et-diplomates-livre-francais.html
O que se previa, no primeiro evento, seria suscitar, após a conferência da profa. Badel, um debate sobre experiências talvez similares no caso brasileiro, para o qual eu fui convidado a título pessoal, não como diretor do IPRI, a partir de minha iniciativa de preparar uma 3ª. edição da obra O Itamaraty na Cultura Brasileira, cuja primeira edição, organizada pelo embaixador Alberto da Costa e Silva, havia sido publicada em 2001, sob os auspícios do então chanceler, e intelectual, Celso Lafer. Para ilustrar minha participação nesse primeiro evento, e informar a visitante francesa, eu cheguei a compor um pequeno ensaio, em francês, sobre os diplomatas escritores do Brasil, que coloquei à disposição dos interessados em meu blog e numa plataforma acadêmica: “Diplomates brésiliens dans les lettres et les humanités” (blog Diplomatizzando, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/02/diplomates-bresiliens-dans-les-lettres.html; Academia.edu, link: https://www.academia.edu/s/d1a565519e/diplomates-bresiliens-dans-les-lettres-et-les-humanites-2019).
Para o segundo evento, eu estava compondo um outro ensaio sobre os famosos 14 pontos de Woodrow Wilson, relidos a cem anos de distância, que não cheguei a terminar pelo simples fato de ter sido exonerado do cargo de diretor do IPRI em plena segunda-feira de Carnaval, o que atrapalhou o meu lazer laborioso, quando deveria estar me dedicando à sua redação, exatamente. De toda forma, pretendo terminar esse ensaio, pois ele deveria, em princípio, integrar um livro resultante de três seminários centrados sobre o Brasil e a Grande Guerra, dois já realizados e um terceiro previsto para meados deste ano, se é que ele será organizado e realizado. Os três diplomatas engajados na organização dos seminários e na composição do livro estão sendo igualmente afastados do IPRI, e pode ser que eu tenha de compor o livro solitariamente.
Ao aproximar-se a data de realização dos dois eventos, para os quais eu já tinha preparado os convites e a informação de base (transcritos in fine), fui informado de que a alta chefia do Itamaraty tinha decidido alterar completamente a organização desses dois eventos, presumivelmente com a intenção de afastar-me de qualquer participação num e noutro, mas de uma forma lamentável, pois retira dos demais interessados, como da própria conferencista, a possibilidade de assistir, em evento aberto, duas palestras e debates sobre temas de alta relevância histórica e cultural. Segundo me foi transmitido, as duas conferências da profa. Badel não mais estariam abertas ao público diplomático e acadêmico de Brasília, encerrando-as no âmbito de uma sala de aula, unicamente abertas a duas dúzias de alunos do próprio Instituto Rio Branco.
A medida me parece absurdamente mesquinha, vingativa, castradora, pois impede a visitante francesa, historiadora distinguida da Sorbonne, de se expressar em favor de um público mais amplo, apenas porque a intenção não declarada, mas clara em sua evidência cristalina, foi afastar-me de ambos eventos e impedir não só a minha participação, como a simples assistência na qualidade de membro da audiência geral de cada um deles. Uma tal atitude abjetamente retaliatória contra mim atinge em primeiro lugar a professora francesa, agora impedida de se dirigir ao público natural da Semana da Francofonia – os representantes dos países francófonos e os demais interessados na agenda cultural desse ciclo – e condenada a ficar restrita exclusivamente aos próprios alunos do Instituto Rio Branco.
Posso, sem hesitação, classificar tal atitude de censória no mais alto grau, como também vergonhosa, indigna das mais altas tradições culturais do Itamaraty. Tampouco hesito em acusar o chanceler atual como o responsável por essa decisão totalmente desrespeitosa para com nossos amigos da embaixada da França, como para todos os demais membros da comunidade francófona de Brasília, brasileiros e estrangeiros, diplomatas ou não. Suponho que as respectivas embaixadas se sentirão afetadas pela mudança de uma programação já preparada com antecipação de vários meses, e que fazia parte de uma iniciativa cultural tradicional no ambiente da capital federal desde muitos anos. Elas se sentem logradas por um gesto tão desrespeitoso.
Em meu nome, e acredito que assumindo a voz de muitos colegas, diplomatas e acadêmicos, apresento as mais sinceras desculpas por um gesto indigno de figurar no calendário de realizações deste ano de 2019; ao contrário, tal censura mesquinha, tomada no âmbito puramente pessoal, mas que reverbera no plano institucional, diminui o rol de realizações da Semana da Francofonia de 2019.
Excusez-nous, Français et francophones, on en fera d’autres…


Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 14 de março de 2019


Convites preparados para os dois eventos programados
(não expedidos)

1)     
L’Ambassade de France à Brasília
Instituto Rio Branco (IRBr)
Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI-Funag)

L'écrivain en diplomatie : identités et pratiques

Laurence Badel
Historienne, professeur à la Sorbonne ;
Commentaires :
Paulo Roberto de Almeida, sociologue, directeur de l’IPRI.

Auditório João Augusto de Araújo Castro, Instituto Rio Branco
19 Mars, 10h30

La professeure Laurence Badel est historienne, directrice du Centre d’histoire des relations internationales contemporaines (Institut Pierre Renouvin) et du Master en Études européennes et relations internationales à la Sorbonne (Paris-1), membre du conseil scientifique de son École doctorale en Histoire, Secrétaire générale du Prix Jean-Baptiste Duroselle, et membre de plusieurs revues scientifiques, françaises et étrangères. Auteur et éditeur de nombreuses ouvrages dans les domaines des relations internationales, mondialisations et régionalisations, diplomatie économique, et acteurs non-étatiques et pratiques diplomatiques, dont l’ouvrage collectif Écrivains et diplomates : l’invention d’une tradition, XIXe-XXIe siècles (Armand Colin, 2012).


2)     
L’Ambassade de France à Brasília
Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI-Funag)

La Conférence de la Paix de Paris de 1919, premier sommet mondial ?
Laurence Badel
Historienne, professeur à la Sorbonne

Auditório João Augusto de Araújo Castro, Instituto Rio Branco
19 Mars, 15h00

La professeure Laurence Badel est historienne, directrice du Centre d’histoire des relations internationales contemporaines (Institut Pierre Renouvin) et du Master en Etudes européennes et relations internationales à la Sorbonne (Paris-1), membre du conseil scientifique de son École doctorale en Histoire, Secrétaire générale du Prix Jean-Baptiste Duroselle, et membre de plusieurs revues scientifiques, françaises et étrangères. Auteur et éditeur de nombreuses ouvrages dans les domaines des relations internationales, mondialisations et régionalisations, diplomatie économique, et acteurs non-étatiques et pratiques diplomatiques, dont plusieurs ouvrages sur l’histoire contemporaine de l’Europe et de ses rapports mondiaux, spécialement avec l’Asie.