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terça-feira, 4 de junho de 2024

O que há de errado com Javier Milei?- Anthony W. Pereira (Estadão)

O que há de errado com Javier Milei?

Presidente da Argentina se autodenomina o primeiro presidente ‘liberal libertário’ da história; análise de discursos mostra, no entanto, que ele promove princípios duvidosos que levantam questões sobre sua capacidade de gerenciar uma economia real

Por Anthony W. Pereira

O Estado de S. Paulo, 3/06/2024

https://www.estadao.com.br/internacional/o-que-ha-de-errado-com-javier-milei/

Javier Gerardo Milei, o presidente da Argentina eleito em 2023, se autodenomina o primeiro presidente “liberal libertário” da história. Ele está atacando o déficit fiscal do Estado para reduzir a inflação, que está quase 300%, embora seu adereço de campanha, uma motosserra, tenha se mostrado desnecessário.

Em janeiro, o governo federal da Argentina experimentou seu primeiro superávit orçamentário mensal em 12 anos. Muitos investidores domésticos e internacionais estão aplaudindo essas reformas. Os argentinos comuns esperam que a austeridade resultante seja em breve substituída por crescimento econômico e melhoria dos padrões de vida.

Até certo ponto, as reformas são uma resposta sensata a anos de gastos excessivos do governo. Os déficits fiscais em países em desenvolvimento são custosos, não apenas por causa da inflação resultante, mas também pelo alto custo dos empréstimos e o dinheiro perdido em pagamentos de juros. Pode-se pensar que Milei, cujo primeiro artigo publicado foi sobre hiperinflação e seu efeito nos mercados, é a pessoa certa na Presidência da Argentina no momento certo, bem preparado por sua educação (ele tem dois mestrados em economia) para reduzir a inflação e restaurar o crescimento da economia.

No entanto, Milei é uma figura complicada. Ele começou na corrente principal do pensamento econômico latino-americano, como um pós-keynesiano com inclinações estruturalistas. Durante seus estudos no Instituto de Desenvolvimento Social e Econômico e na Universidade Torcuato Di Tella, ambos em Buenos Aires, ele se apaixonou pelos pensadores da Escola Austríaca de Economia. Com o fervor de um convertido, ele desenvolveu um apreço particular pelas ideias do economista vienense Friedrich von Hayek (1899-1992). Isso tornou seu pensamento econômico incomum. Uma análise de alguns dos discursos e publicações de Milei revela que ele promove sete princípios duvidosos que levantam questões sobre sua capacidade de analisar e gerenciar uma economia real.

O primeiro princípio é que os mercados são sistemas naturais, espontâneos e autorregulados que antecedem os Estados e que são moralmente puros, pois são baseados na propriedade privada, contratos voluntários e respeito pelas vidas dos outros.

Essa ideia pode ser encontrada em O Caminho da Servidão de Hayek (1944). Os Estados, por outro lado, são artificiais e baseados na violência e predação. Nas palavras de Milei, “o Estado é financiado por meio de impostos, e os impostos são cobrados coercitivamente… Isso significa que o Estado é financiado através da coerção e que quanto maior a carga tributária, maior a coerção e menor a liberdade”.

Portanto, os Estados devem ser radicalmente limitados. Mesmo a aceitação de um Estado “vigia” que se limita à defesa nacional e à proteção da propriedade privada é perigosa. Na mente de Milei, o trabalho libertário de Robert Nozick (1974) é inaceitável. Isso torna Milei muito mais extremo do que os Chicago boys, incluindo Milton Friedman.

O problema com a caricatura de Milei sobre Estados e mercados é que ela ignora a história entrelaçada dos mercados capitalistas e dos estados-nação modernos. Como argumentou o antropólogo Karl Polanyi em A Grande Transformação (1944), os Estados muitas vezes criaram mercados onde antes não existiam. E os Estados não foram os únicos a exercer a coerção historicamente. Atores privados também o fizeram. Na Índia do século XVIII, por exemplo, a Companhia das Índias Orientais, uma empresa capitalista, colonizou o país com um exército privado.

O Estado pode reivindicar o monopólio dos meios de coerção legítima, mas raramente atinge um monopólio absoluto da coerção na prática. No século 21, grupos criminosos privados bem armados são atores significativos na economia global. E empresas legais podem usar a coerção, por exemplo, empresas de retomada de posse, agentes de fiança e empresas de segurança privada. A ideia de que as transações de mercado são sempre puramente voluntárias e consensuais é desmentida pela realidade e pela história do capitalismo.

Como consequência dessa dicotomia simplista que vê o mercado como puro e moral e o Estado como coercitivo e parasitário, Milei articula um segundo princípio enganoso: não há falhas de mercado. Ele apresenta esse argumento invocando uma definição casuística. Porque “o mercado é um mecanismo de cooperação social, onde você troca voluntariamente direitos de propriedade… falar de uma falha de mercado é um oxímoro”.

Mas isso contradiz a observação empírica e a teoria econômica. Os mercados respondem à demanda efetiva (o dinheiro que as pessoas têm para gastar) e regularmente subproduzem bens e serviços que as pessoas desejam: por exemplo, tratamento médico para os pobres ou habitação acessível para os jovens. E o professor Joseph Stiglitz ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001, em parte, por seu trabalho mostrando a ubiquidade das falhas de mercado. Afirmar que os mercados não podem falhar por definição é uma forma perversa de fundamentalismo de mercado.

Milei também adota um terceiro princípio, defendido por Friedrich von Hayek em O Caminho da Servidão, de que qualquer intervenção do Estado nos mercados inevitavelmente arrasta as sociedades ao longo do “caminho da servidão”. 

Isso é um artigo de fé para muitos adeptos da escola austríaca de economia, mas é contradito pela história econômica. A afirmação de Hayek de que qualquer forma de regulamentação estatal ou medidas de Estado de bem-estar social levam inevitavelmente ao totalitarismo foi demonstrada como falsa na Europa, onde o tamanho do Estado de bem-estar variou entre os países e flutuou dentro deles sem qualquer tendência inevitável à asfixia dos mercados ou das liberdades individuais.

As reformas econômicas realizadas pelo presidente Reagan nos Estados Unidos (1981-1989) e por Margaret Thatcher no Reino Unido (1979-1990), inspiradas em parte por Von Hayek, contradizem sua ideia sobre a inevitabilidade do aumento do controle estatal.

Nas democracias, as fronteiras entre Estados e mercados podem ser redesenhadas a cada geração. E nas economias do século 21, a ideia de que os mercados podem funcionar bem sem nenhuma regulamentação – sem testes para novos medicamentos, sem proibições ao trabalho infantil, sem padrões de segurança – é absurda. Em muitos casos, as regulamentações são exigidas por investidores privados. Na privatização do setor de telecomunicações na América Latina nos anos 1990, muitos investidores privados exigiram regulamentação para poder prever seus ganhos futuros; o Estado foi levado ao trabalho de regular as novas empresas de telecomunicações pelas próprias empresas.

Um quarto princípio que Milei defende é que qualquer um que não seja um fundamentalista extremo do mercado é um “coletivista” e um inimigo do “Ocidente”.

Socialistas, social-democratas, democratas cristãos, teóricos do mercado social, progressistas – qualquer um que acredita em tributação progressiva, redes de segurança social e na necessidade de alguns bens públicos – são comunistas cuja ideologia é baseada na inveja, no ressentimento, no ódio e no roubo.

As pessoas no setor privado são “heróis”, mas as pessoas que trabalham para o Estado são burocratas tentando impor sua vontade sobre os outros ou membros parasitários da “casta” política.

De alguma forma, Milei se exclui dessas generalizações, embora esteja na folha de pagamento do setor público. Ele aparentemente quer que acreditemos que ele é motivado pelas intenções mais puras, enquanto todos ao seu redor no aparato estatal querem intimidar e roubar outras pessoas para ganho próprio.

O quinto princípio de Milei é que o establishment (“academia, organizações internacionais, teóricos econômicos e políticos”) é contra o capitalismo.=

Mais uma vez, isso é uma simplificação excessiva que distorce a realidade. A maioria das instituições tradicionais não é anticapitalista. Elas podem ter projetos de reforma, como reduzir a pobreza e a desigualdade, ou mitigar as mudanças climáticas, mas muitos desses projetos reformistas têm os mercados capitalistas em seu núcleo.

Pense em microcrédito ou esquemas de comércio de carbono. O pânico moral de Milei contra o “globalismo” tem mais a ver com seu desejo de se identificar com a extrema-direita transnacional do que com uma leitura precisa da realidade global.

O sexto princípio de Milei é que a União Europeia (UE) é uma performer econômica fraca, crescendo lentamente porque é excessivamente regulamentada.

Nesse ponto, ele é extremamente inconsistente. Segundo Milei, o capitalismo é bom porque criou prosperidade. Se Milei estivesse genuinamente interessado em prosperidade, em vez da promoção do fundamentalismo de mercado, ele poderia ter notado que 24 dos 50 países mais prósperos (medidos pelo PIB per capita em paridade do poder de compra) são membros da UE.

A receita tributária como porcentagem do PIB na UE é em média de cerca de 20%. Por outro lado, a lista de países onde a receita tributária é mais baixa como porcentagem do PIB, e, portanto, têm mais “liberdade”, pela definição de Milei, inclui alguns dos países mais pobres do mundo, como a República Centro-Africana, Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Chade, Bangladesh e Sudão.

Em vez de encontrar uma correlação estrita entre prosperidade e um Estado minimalista, o que encontramos é que as economias mais ricas do mundo, a maioria das quais também têm o maior desenvolvimento humano, são economias mistas com Estados ativos que combinam mercados capitalistas e setores públicos fortes que entregam serviços que as pessoas desejam, como transporte, saúde e educação.

O sétimo princípio de Milei é implícito, e não diretamente declarado. Este é o de que a Argentina prova a correção da economia da Escola Austríaca e que seus concidadãos devem apoiar suas reformas.

Em seu discurso inaugural, ele argumentou que a história do crescimento econômico na Argentina de 1850 a 1930, quando comparada ao período pós-1930, prova a superioridade da economia liberal sobre seus rivais heterodoxos. Mas as taxas de crescimento econômico nacional raramente têm uma única causa, e as condições na economia global criam variáveis que estão fora do controle dos formuladores de políticas no nível do Estado-nação.

A repulsa de Milei ao “coletivismo” não o impede de invocar um coletivismo próprio, o nacionalismo argentino. Em uma entrevista recente, ele foi citado dizendo: “Não há chance de uma revolta social, a menos que haja um evento politicamente motivado ou [um envolvendo] infiltrados estrangeiros. Governos de esquerda trabalham juntos para tentar sabotar aqueles que não são como eles”.

As simplificações excessivas e a certeza moral dos sete princípios de Milei se encaixam com a aspiração do presidente argentino de ser o bad boy da extrema-direita global.

Milei foi à Conservative Political Action Conference (CPAC) nos Estados Unidos em fevereiro de 2024 e abraçou entusiasticamente Donald Trump, interferindo na corrida eleitoral dos EUA, ao mesmo tempo que tentava obter o apoio da administração Biden para suas reformas econômicas. Milei também viajou para a Espanha para se misturar com seus irmãos no Partido Vox em 18-19 de maio de 2024.

Milei insultou o papa e outros presidentes da América Latina, incluindo Lula do Brasil, Gustavo Petro da Colômbia e Andrés Manuel López Obrador do México, bem como o primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez. O argentino também descartou as mudanças climáticas como uma “mentira socialista” e criticou o feminismo, sem reconhecer a enorme contribuição que o aumento da igualdade de gênero tem feito para o desenvolvimento econômico mundial.

Os princípios de Milei não são baseados em pesquisas empíricas sobre economias reais. Eles são artigos de fé. Milei grita slogans, exige lealdade e evita perguntas. Seu argumento de que não se pode falar de “justiça social” porque a frase foi contaminada pela esquerda não é coerente.

As palavras mais importantes no debate político – democracia, direitos humanos, legitimidade, consenso – são inerentemente contestadas. Se não pudermos usá-las quando são empregadas por pessoas com quem discordamos, o discurso democrático se torna impossível.

Por que as ideias de Milei importam? Pode-se pensar que são irrelevantes para seu desempenho como presidente. Muitos líderes de Estados tiveram ideias incoerentes ou ridículas, ou até mesmo nenhuma ideia. No entanto, o governo de Milei está engajado em uma luta intransigente para reduzir o déficit fiscal do Estado a zero. A questão é que isso provavelmente não vai satisfazer Milei.

Como um liberal libertário que acha que o Estado não tem direito de existir e que apenas o mercado deve operar em um nirvana de autorregulação, ele provavelmente quer reduzir o setor público a ponto de torná-lo disfuncional.

A visão excessivamente simplificada de Milei sobre o mundo, seus princípios enganosos e seu messianismo moral podem, portanto, eventualmente torná-lo muito perigoso para o bem-estar de seus concidadãos.


terça-feira, 23 de abril de 2024

Depois de 100 dias brutais, mercados começam a acreditar em Javier Milei - The Economist

Milei acaba de completar 100 dias. Pouco mais de 100 anos atrás, Rui Barbosa, em visita à Argentina, saudava o seu crescimento inédito na América Latina de então, miseravelmente pobre, e predizia que não poderia impedir o país de se projetar entre os países mais desenvolvidos do planeta, à frente até de vários países europeus. 

Como um país anunciado como modelo para o Brasil poderia descer tanto no declínio e na decadência não estava nas previsões do estadista brasileiro, e no entanto a classe política argentina conseguiu acumular um rotundo fracasso. A recuperação vai ser muito difícil e deve demorar bem mais do que o período de uma presidência. (PRA) 

Depois de 100 dias brutais, mercados começam a acreditar em Javier Milei

O presidente da Argentina se colocou como outsider, fez campanha empunhando uma motosserra e prometeu cortar gastos, mas esbarra na falta de apoio da classe política para aplicar uma reforma profunda 


The Economist , 23 Abril 2024

 “Nós estamos genuinamente muito satisfeitos”, declarou o presidente da ArgentinaJavier Milei, numa rádio local, após a inflação em seu país cair mais que o esperado em fevereiro, para 13%. Esse índice, contudo, é mensal. Ao longo do ano recente a inflação argentina atingiu 276% — é a maior do mundo. Inflações de apenas 8% ao ano sacodem a política em países mais ricos. Milei ter motivo para celebrar uma inflação mensal de 13% mostra a escala da bagunça econômica que ele herdou e o quanto ele ainda tem de fazer para consertar a economia.

Milei, um outsider irascível, que se descreve como “anarco-capitalista”, fez campanha empunhando uma motosserra, prometendo cortar gastos. Em 10 de dezembro, ele assumiu um Estado inchado, com vastos déficits de orçamento financiados por impressão de dinheiro. A inflação galopava, o valor do peso se esvaia. O governo devia US$ 263 bilhões para credores estrangeiros, incluindo US$ 43 bilhões para o FMI, mas não tinha nenhum dólar sequer. Como muitos governos argentinos, a gestão anterior gastou muito mais do que tinha para comprar popularidade, ao mesmo tempo que inventou reparos macroeconômicos temporários cada vez mais absurdos (como controles pesados sobre os preços) para manter a economia de pé.

Milei está tentando conduzir a Argentina para um caminho perigosamente estreito, descartando esses reparos duvidosos. Seu problema político básico é que atacar estridentemente o establishment e os políticos comuns, um grupo que ele chama de “casta”, é crucial para sua popularidade. Contudo, ele precisa de algum apoio da classe política para aplicar uma reforma profunda, já que seus membros dominam o Congresso. Mas se fizer acordos demais, ele arrisca perder o status de outsider e, portanto, parte de seu apoio popular — seu único ativo político sólido.

Depois de 100 dias, Milei pode se gabar de um sucesso econômico real. Sua popularidade está se mantendo, ainda que lhe falte apoio no Congresso. Se conseguir manter o público de seu lado até as eleições de meio de mandato no próximo ano, ele poderia impulsionar sua influência e portanto sua capacidade de reformular a economia. Mas os argentinos já estão sofrendo intensamente. E podem abandoná-lo muito antes da votação. Isso seria um golpe para reformadores radicais de todo o mundo.

Comecemos com os sucessos econômicos de Milei. Para mostrar que não haverá mais impressão de dinheiro, ele está obcecado em alcançar um superávit orçamentário, o que significa o governo arrecadar mais do que gasta. Ele afirma que este ano alcançará um superávit (anterior aos pagamentos de juros) de 2% do PIB, uma enorme mudança em relação ao déficit de 3% no ano passado. Em janeiro e fevereiro, o governo alcançou superávits mensais, os primeiros em mais de uma década. E o fez em parte usando a motosserra de Milei, cortando subsídios em energia e transporte, transferências para as Províncias e despesas de capital. E também recorreu a outra ferramenta: o liquidificador. Aumentar o gasto a uma taxa menor que a inflação é uma redução em termos reais, o que é conhecido na Argentina como liquidação. O gasto em pensões a contribuintes, o maior item no orçamento, caiu quase 40% em termos reais em comparação com os dois primeiros meses do ano passado.

O governo fez outros dois grandes movimentos. Em dezembro, desvalorizou o peso em quase 50% para diminuir o abismo entre o câmbio oficial e o clandestino. Mas isso fez a inflação aumentar, assim como os cortes na taxa de juros em dezembro. Normalmente, bancos centrais elevam juros para conter a inflação. A lógica do banco foi que cortar juros reduziria os pagamentos sobre seus próprios títulos, o que diminuiria a quantidade de dinheiro em circulação. Inicialmente a inflação mensal saltou para 26% em dezembro. Isso doeu nos argentinos, mas fortaleceu o liquidificador de Milei.

O governo afirma que os resultados justificam suas escolhas difíceis. Além dos superávits fiscais mensais e da inflação em queda, a diferença entre as taxas de câmbio oficiais e clandestinas se situa agora em apenas cerca de 20%. As reservas estrangeiras aumentaram em mais de US$ 7 bilhões. E o governo foi bem-sucedido em prolongar o prazo de vencimento de seus títulos, reduzindo a pressão sobre o Tesouro. O FMI está satisfeito; os mercados estão começando a ter fé. O índice argentino de risco-país, uma medida relativa à chance de calote, caiu de forma tranquilizadora. Em relação à economia, Milei merece um 8 numa escala de zero a 10, entusiasma-se Andrés Borenstein, da consultoria Econviews, em Buenos Aires, a capital.

Os meios importam

Os custos, contudo, são brutais. Assolados pela inflação, estimados 50% dos argentinos vivem na pobreza, contra 38% em setembro. Em termos reais, os salários recuaram para os níveis de 20 anos atrás, segundo calcula a Invecq, outra consultoria. As compras de medicamentos com prescrição caíram 7%. As vendas das farmácias caíram 46%. Os volumes de vendas de empresas pequenas e médias caíram quase 30% em janeiro, em comparação ao ano anterior. A economia argentina encolherá 4% este ano, calcula o banco Barclays.

Agruras desse tipo podem se tornar perigosas para presidentes — literalmente. Em 2001, o incumbente fugiu da Casa Rosada, que abriga o gabinete presidencial, em um helicóptero, apavorado com manifestantes violentos. Mas os índices de aprovação de Milei continuam notavelmente altos, em torno de 50%, apesar da dor econômica. Isso se deve principalmente ao seu sucesso em culpar a casta por bagunçar a Argentina dessa maneira.

Ainda assim, os primeiros 100 dias de Milei revelaram graves problemas. Para além da dor, seu plano econômico está repleto de incertezas. Um risco é a taxa de câmbio. Tentando diminuir a inflação, o governo está desvalorizando o peso em 2% a cada mês. Mas com a inflação mensal muito maior que 2%, isso provavelmente é menos que o necessário. Infelizmente, um passo mais acelerado ou uma desvalorização súbita acentuada causaria mais inflação.

Inevitavelmente, a Argentina logo terá de mudar para um novo regime monetário e cambial. A dúvida é quando — e para qual regime. O plano de Milei é eliminar controles sobre o capital e unificar as taxas de câmbio. Mas o governo introduzirá um programa monetário ortodoxo para o peso ou continuará a dolarizar a economia? A promessa de dolarização da campanha de Milei tornou-se vaga desde que ele assumiu a função. O governo fala agora mais a respeito de “competição monetária” (permitindo transações em dólares e pesos). Mas quando questionado a respeito da dolarização estar ou não fora do jogo, o secretário de Finanças, Pablo Quirno, se equivocou. A dolarização é “basicamente uma maneira de enterrar a impressora (de dinheiro)”, afirma ele. É “mais uma discussão moral”. A incerteza já está provocando inquietações entre investidores. O governo também sugeriu que buscará um novo programa do FMI, talvez na casa de US$ 15 bilhões, mas isso também pode ser difícil sem planos mais claros.

Reduzir a inflação forçando uma recessão causará outros problemas. “Não é atrativo investir em um país no qual a recessão é um ingrediente crítico de sua política monetária”, afirma Eduardo Levy, da Universidade Torcuato Di Tella, em Buenos Aires. Além disso, acrescenta ele, quando o crescimento voltar, a inflação poderia acelerar.

Finalmente, esses superávits fiscais podem se provar difíceis de sustentar. O superávit de fevereiro já foi menor que o de janeiro, e a recessão prejudica gravemente as receitas tributárias. Uma grande economia ocorreu em relação aos subsídios sobre a energia, mas grande parte foi apenas suspensa, não cancelada. Governadores de Províncias protestaram furiosamente, incluindo nos tribunais, contra os cortes em suas transferências. Apesar da atual fórmula de pensão ajudar o governo a reduzir o gasto, conforme a inflação cair isso eventualmente surtirá o efeito oposto.

A política tem sido atribulada. Milei ainda é popular, mas sua coalizão não tem nenhum governador e conta com apenas 15% dos assentos na Câmara Baixa. O colossal pacote “omnibus”, com 664 artigos, que ele mandou para o Congresso em dezembro, foi rejeitado. Eventualmente Milei o retirará, uma derrota marcante. A falta de priorização também o prejudica. Desregular autorizações de pesca e fechar o Instituto Nacional do Teatro são medidas irrelevantes diante da reforma nas pensões. Mas tudo isso — e muito mais — entrou no mesmo saco, diminuindo a velocidade de tramitação do projeto e ocasionando incontáveis razões para votar contra.

Um amplo decreto presidencial anterior teve o mesmo problema. Abrangendo do importante (desregulação do mercado de trabalho) ao desimportante (permitir que bancos cobrem mais juros sobre dívidas de cartão de crédito). O decreto foi rejeitado pelo Senado em 14 de março. Isso aprofundou preocupações sobre a vulnerabilidade política de Milei, apesar do decreto continuar vigorando a não ser que a Câmara Baixa também o rejeite. Suas reformas trabalhistas e tentativas de neutralizar os sindicatos também estão sendo contestados na Justiça.

Milei também cometeu erros simples. Este mês, a oposição revelou um decreto com a assinatura de Milei que, entre outras coisas lhe concedeu um aumento 48% no salário — algo terrível na foto do homem que empunhou a motosserra fiscal. Ele disse que o aumento era resultado de um decreto do presidente anterior, o reverteu rapidamente e despediu seu secretário do Trabalho.

Nos próximos 100 dias, política e economia se entrelaçarão. O governo quer que pelo menos 1 ponto porcentual de consolidação fiscal venha da reinstalação de impostos sobre a renda e outras reformas tributárias. A fórmula das pensões também precisa urgentemente de atualização. Tudo isso requer aprovação parlamentar. Milei também precisa de sucessos no Congresso para tranquilizar investidores demonstrando que tem aliados suficientes para refrear futuros protestos e caos políticos — ou pelo menos sobreviver. Ele está longe de ser à prova de impeachment. “Há muitas bombas-relógio acionadas”, afirma Sebastián Mazzuca, da Universidade Johns Hopkins.

Milei parece entender isso. Em 1.º de março, ele abriu uma janela para negociações a respeito de um “Pacto de Maio”, uma série de princípios em prol do livre mercado. Seu ministro do Interior encontrou-se na ocasião com governadores de Províncias, que influenciam o Congresso. Muitos pareceram apaziguados. Um acordo pode envolver a restauração de transferências para algumas Províncias e reinstalação de impostos sobre a renda (que ambas as partes desejam, mas pelas quais ninguém quer se responsabilizar). Em troca, o presidente obteria alguns poderes de emergência para lidar com a economia, a reforma nas pensões e a desregulação do setor de minas e energia. Muitas outras coisas ficarão paralisadas.

Estética da obstinação

Ainda que seja incerto se isso será suficiente para Milei, que ainda troveja que não recuará “nenhum milímetro” em relação aos planos fiscais e que chamou os senadores que votaram contra seu decreto de “inimigos da sociedade”. O governo alcançará sua meta fiscal “custe o que custar”, afirma Quirno. Se reformas tributárias forem bloqueadas no Congresso, o governo poderia continuar a suspensão nas transferências para as Províncias para compensar a diferença, ameaça ele. Isso seria explosivo.

O destino de Milei depende de duas incógnitas. Quanta dor econômica os argentinos conseguem aguentar antes de se voltar contra ele? E ele será capaz de reunir o apoio político necessário para acelerar suficientemente o progresso econômico para não permitir que tudo se despedace? Por agora, os sinais são moderadamente positivos. O sucesso poderia fazer com que Milei domine as eleições de meio de mandato do próximo ano. Mas se seus índices de popularidade despencarem primeiro, seus rivais certamente empunharão suas próprias motosserras para derrubar seus planos. E então tentarão jogar sua presidência no liquidificador. 

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O Milei não é nem o Bolsonaro argentino nem ultradireitista’, diz Helio Beltrão (Estadão)

 O Milei não é nem o Bolsonaro argentino nem ultradireitista’, diz Helio Beltrão 


Para o fundador do Instituto Mises Brasil e um dos principais pregadores das ideias libertárias no País, é ‘surpreendente e excitante’ a possibilidade real de o candidato à presidência da Argentina se tornar o primeiro presidente anarcocapitalista do mundo 

 O fundador e presidente do Instituto Mises Brasil, Helio Beltrão, é um dos principais pregadores das ideias libertárias no País. Formado em engenharia elétrica pela PUC do Rio de Janeiro, com MBA em finanças pela Universidade Columbia, nos Estados Unidos, Beltrão, de 56 anos, é um fiel seguidor do pensamento do economista Ludwig von Mises (1881-1973), um dos expoentes da chamada Escola Austríaca, que defende o ultraliberalismo na economia, centrado no poder soberano do mercado na formação dos preços de produtos e serviços. Nesta entrevista ao Estadão, Beltrão analisa a real possibilidade de o economista Javier Milei, candidato do partido Liberdade Avança à presidência da Argentina e também entusiasta das ideias da Escola Austríaca, vencer as eleições no país, cujo primeiro turno ocorre neste domingo. “Para mim, é algo absolutamente surpreendente e excitante que an Argentina tenha um candidato anarcocapitalista como favorito nas eleições”, diz. 

 Ele fala também sobre as principais propostas econômicas e de costumes de Milei, a quem conheceu de passagem num evento realizado na Argentina em meados da década passada, e comenta os rótulos políticos que lhe são atribuídos no Brasil, como “Bolsonaro argentino”, “ultradireitista”, “ultraconservador”, “extrema direita” e “populista”. “O Milei não é nada disso”, afirma. Qualquer pessoa que conhece um pouco de libertarianismo e anarcocapitalismo sabe que não tem nada a ver com ultradireita Como o sr. vê a ascensão de um candidato anarcocapitalista, como o Javier Milei, na Argentina e a possibilidade de ele chegar ao segundo turno das eleições e eventualmente se tornar o próximo presidente do país? Para mim, é algo absolutamente surpreendente e excitante que an Argentina tenha um candidato anarcocapitalista, que defende as ideias da Escola Austríaca de Economia, como favorito nas eleições. Eu não esperava que já houvesse viabilidade política para que um libertário como o Milei – que vai até o extremo na ideia de que é o mercado privado que tem de dar conta de todos os serviços, de toda a governança da sociedade – pudesse disputar as eleições com reais condições de sair vencedor. 

Se ele ganhar, será o primeiro presidente anarcocapitalista da história. Isso para mim será inacreditável. O que explica, em sua opinião, essa receptividade às ideias libertárias defendidas pelo Milei na Argentina? Eu atribuo isso ao caos econômico, ao caos inflacionário argentino. Pela primeira vez na história, os níveis de pobreza na Argentina estão maiores do que os do Brasil. A pobreza na Argentina já atinge mais de 40% da população e o nível de pobreza absoluta está acima dos 10%. No Brasil, a pobreza total atinge cerca de 30% da população e a pobreza absoluta está em torno de 8%. Hoje, an Argentina, que tinha o dobro da renda per capita do Brasil até pouco tempo atrás e já chegou a ter muito mais do que isso, está numa situação dramática. Houve um colapso do poder aquisitivo, da renda, do nível de emprego. 

O país quebrou e teve de recorrer novamente ao FMI (Fundo Monetário Internacional). Foi o oitavo ou nono calote da Argentina na história. Acredito que tudo isso convenceu a população de que eles precisam de soluções novas. Eles viram que não dá mais para seguir com os kirchneristas, os peronistas. Até o (Mauricio) Macri (ex-presidente da Argentina), que prometeu ser um pouco mais liberal, mas não foi, deu com os burros n’água. E quem é o novo? É o Milei. Então, eles resolveram apoiá-lo. Não sei se é tanto pela sua visão doutrinária, mas pela percepção de que ele apresenta uma solução realista para an Argentina. Agora, desde que o Milei venceu as primárias, em agosto, ele tem sido chamado de tudo aqui no Brasil: “Bolsonaro argentino”, “ultradireitista”, “ultraconservador”, “extrema direita”, “populista”. 

Como o sr. analisa isso? Até que ponto esses rótulos têm mesmo a ver com as ideias e as propostas que ele defende? Primeiro, deixe eu pegar o mais chocante, que é chamar o Milei de ultradireitista. Quando começaram a falar o nome dele na mídia, eu estava no ar na CNN e disse: “Pode parar. Ultradireitista nem a pau”. Aí tentei explicar isso, na medida em que eu podia. Acredito que deu certo, porque de repente as pessoas começaram a falar que ele é anarcocapitalista, o que é surpreendente para mim aqui no Brasil, ou ultraliberal, que é mais justo. Qualquer pessoa que conhece um pouco de liberalismo, libertarianismo e anarcocapitalismo sabe que não tem nada a ver com ultradireita.

 O ultradireitista defende o nacional-desenvolvimentismo, com forte interferência do Estado na economia, e neste aspecto é muito parecido com o que a gente vê a esquerda defender no Brasil. O ultradireitista também é contra o casamento gay e a favor da proibição das drogas. O Milei não é nada disso. Em relação a chamá-lo de “Bolsonaro argentino”, qual a sua avaliação? Quanto a “Bolsonaro argentino” até entendo de onde vem a crítica. Ele teve alguns contatos com o Bolsonaro e com o Eduardo (filho do ex-presidente). Falaram-se muito durante o governo Bolsonaro e o Milei tentou navegar nessa onda, mas ele não é Bolsonaro, assim como eu não sou Bolsonaro, mas sei que algumas pessoas acham que eu sou Bolsonaro. Não coloco a minha mão no fogo, mas acredito que ele é muito mais hábil politicamente, menos dogmático e menos radical do que o Bolsonaro. 

Já está construindo alianças, para o caso de vencer as eleições. Também não tem nenhuma identificação com os militares. Aliás, ele conta que, quando tinha 8/9 anos, na época da guerra das Malvinas, tomou uma surra do pai, com quem acabou rompendo, porque falou que a Argentina não tinha de entrar em guerra. Não sei se foi a palavra que ele usou quando falou do assunto, mas ele ficou com um trauma por causa disso e considera que isso representou um aspecto importante da sua formação. O Milei é um cara pacífico. Não é por esse lado de jeito algum. Sobre ele ser chamado de “populista”, qual a sua a visão? Sobre populista também entendo de onde vem, porque o Milei criou essa persona amalucada, que ele não é. É claro que ele não é 100% normal. Não é isso que estou dizendo. Mas é um acadêmico, que criou uma persona, com aquele cabelo despenteado, fazendo quadros histéricos na televisão, para passar a mensagem dele. Isso teve eco na sociedade argentina, porque ele manda bem nessa persona. Embora isso não o caracterize, quando ele faz esse papel, quando usa essa retórica, dá para entender que as pessoas pensem que é um populista. 

Só que ele não está prometendo uma porção de coisas para um monte de gente, que é o que o populista mais faz, sem explicar de onde vem o dinheiro. Ao contrário. Está falando que vai tirar um monte de coisas das pessoas, porque que não tem como pagar, em um debate franco, direto, falando que esse pessoal que tomou conta da política argentina é uma corja, uma casta, como ele diz. Então, neste aspecto, no sentido mais tradicional da esquerda paternalista, que fica prometendo coisas para ganhar apelo popular, o Milei não é um populista. Não acredito que o Milei vai adotar um estilo Bolsonaro de governar Agora, tem uma característica comum entre o Milei e o Bolsonaro que é a postura antipolítica e antissistema. O caso do Milei é um pouco diferente do caso do Bolsonaro, porque o ex-presidente tinha essa retórica, mas estava há 40 anos na política, enquanto ele só se tornou deputado há dois anos. 

Mas isso não contribui para relacioná-lo com Bolsonaro? Você tem toda a razão, mas acho que é uma estratégia de campanha. Como falei há pouco, o Milei já está fazendo coalizões. A forma como ele se coloca em relação aos políticos tradicionais, dizendo que vai varrer os peronistas, os kirchneristas, que são uma vertente peronista, sugere uma semelhança entre os dois, mas não me parece que ele vai passar o rodo como o Bolsonaro quis fazer quando chegou lá, porque tinha recebido 57 milhões de votos. Ele me parece bem diferente do Bolsonaro. Não acredito que queira subverter o sistema nem que vá tentar enfiar suas propostas goela abaixo da população e adotar um estilo Bolsonaro de governar. Acho que ele entende as limitações da política. 

Vai ser tudo negociado e mediado pelo sistema político. Agora, que ele usa a retórica antissistema na campanha para benefício eleitoral não tem dúvida, mas isso faz parte do jogo. Ainda nessa questão do Milei e do Bolsonaro, ele já se disse admirador do ex-presidente e mantém uma relação próxima com seu filho Eduardo. Se o Milei tem mesmo todas essas características diferentes do Bolsonaro que o sr. diz, o que explica isso? Não sei se ele tem expressado isso ultimamente. Ele realmente expressou um ano atrás. Ele já veio para o Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, é um economista austríaco, que conhece a Escola de Chicago, e um anarcocapitalista. Essa é a sua essência. Se o Milei conversar mais de meia hora com o Bolsonaro vai descobrir que ele é nacional-desenvolvimentista, militarista, não gosta de privatização, acha que tudo é questão estratégica, essas coisas todas. Vai encher o saco dele rapidinho. Agora, eu acredito que, quando você está numa briga em que o outro lado tem uma cabeça intervencionista, defende pautas de classe marxistas e pautas identitárias, não adianta ficar no seu nichinho liberal, tradicional, falando só de economia. 

Não é meramente um colóquio de economistas discutindo as melhores práticas do Consenso de Washington. É uma briga cultural. Acredito que o Milei entende o componente cultural da briga. Não tem medo de discutir política identitária. Vai no âmago da questão quando joga na cara dos peronistas, dos kirschneristas que eles querem tirar dinheiro de Pedro para dar para Paulo. Neste sentido, consigo até entender que o Milei tenha estado próximo do Bolsonaro. Afinal, o Bolsonaro teve êxito até um certo ponto em fazer essa guerra cultural, embora tenha perdido de goleada depois. Hoje, não sei como eles estão. Acho que, hoje, se o Milei é esperto, não está mais falando essas coisas. O Bolsonaro está cada vez mais radioativo. Em relação às propostas de governo, o Milei defende a realização de uma profunda reforma do Estado, que ele chama de “organização criminosa” e diz ser responsável pelo empobrecimento da Argentina. 

O sr. concorda com ele? Ele tem toda razão. Foram as políticas públicas implementadas pelo kirchneristas e antes pelos peronistas, com um pequeno intervalo de Macri, que não teve muito efeito, porque mesmo ele também foi destrutivo em muitos aspectos, que destruíram an Argentina. O Estado é o grande culpado pelo desastre argentino. O efeito mais óbvio é a inflação, que é um reflexo do nível de impressão de dinheiro que se fez no país, para cobrir gastos para os quais não era possível levantar mais recursos em impostos. No fundo, tudo volta para os tais gastos dos programas sociais que eles estão tentando fazer, porque querem dar uma porção de benefícios para ter curral eleitoral. Foi essa política populista que causou o caos na Argentina. 

 O argentino pensa em dólar. Praticamente todo o dinheiro usado na rua já é em dólar Na economia, além de um ajuste fiscal rigoroso, com corte de gastos e redução de ministérios, das reformas trabalhista e da Previdência e das privatizações, o Milei pretende também promover a dolarização e acabar com o Banco Central. Como o sr. analisa isso? Se não me engano, a plataforma dele não previa acabar com o Banco Central logo na largada, mas os fatos o estão levando a defender a dolarização de imediato. 

Os argentinos já decidiram que politicamente eles precisam resolver a questão da inflação e estão escolhendo o Milei, porque querem uma solução anarcocapitalista para a moeda. Como ele diz, o foco é tirar essa casta política e resolver o problema da inflação. Você tem de tirar o poder de emissão de dinheiro das mãos dos políticos e dos burocratas. Se não resolver o problema da inflação primeiro, você não consegue resolver o problema das contas públicas. Neste aspecto, é um pouco parecido com o Plano Real. Precisava ter o foco para debelar a inflação e depois tratar das outras questões, da diminuição do tamanho do Estado.

 Não precisaria ser anarcocapitalista para defender isso. Já foi feito em El Salvador, no Panamá, no Equador. Alguns economistas estão dizendo que an Argentina precisaria de US$ 40 bilhões para fazer a dolarização da economia. Só que o país não tem dólar nem para pagar a dívida externa nem para bancar importações. Onde o Milei vai buscar esse dinheiro? O grande problema da Argentina hoje são as Leliqs (Letras de Liquidez), que são títulos emitidos pelo Banco Central, carregados pelo sistema bancário, e que representam cerca de 90% do passivo da instituição. 

Todo o problema é como equacionar essa dívida do Banco Central, que no fundo é uma dívida do país com os argentinos, porque o resto é automático. No dia seguinte à dolarização, as contas correntes serão automaticamente convertidas em dólar, pelo câmbio paralelo, óbvio, porque o câmbio oficial de 350 pesos por dólar não representa a realidade do mercado. Hoje, 80% das transações, não em número, mas em valor, já são baseadas em dólar. O argentino pensa em dólar. 

Praticamente todo o dinheiro usado na rua já é em dólar. É quase como se o peso fosse usado só para troco, para transações de baixa monta, pela destruição absoluta que fizeram da moeda. Então, eles já estão acostumados com essa realidade. Agora, como obter os dólares para equacionar a dívida do Banco Central? Nos cálculos dos economistas Emilio Ocampo, que acabou de ser indicado por Milei para presidir o Banco Central se vencer as eleições, e Nicolás Cachanosky, autores do livro Dolarización: uma solución para la Argentina’, publicado no início do ano passado, já seria possível bancar as Leliqs com um câmbio de 750 pesos por dólar. Se for no câmbio de mil pesos, que é mais ou menos a cotação atual do dólar paralelo, o chamado dólar blue, será mais moleza ainda. Então, não é que ele vai precisar de dólares, porque os títulos públicos argentinos que dão lastro ao balanço do Banco Central já serão denominados em dólar. 

A questão é que esses títulos estão cotados hoje a 25% do valor de face e têm prazos mais longos do que os das Leliqs. O problema é como casar o que o Banco Central tem no ativo, que são os títulos públicos argentinos, com o que tem ele tem no passivo, que são basicamente as Leliqs. Pelas contas do Ocampo e do Cachanosky, ao câmbio de mil pesos já haveria lastro suficiente para pagar as Leliqs e não seriam necessários esses US$ 30 bi de que estão falando por aí. O Milei está 100% certo de eliminar as tarifas de importação No passado, na gestão do ex-presidente Carlos Menem (1930-2021) já fizeram a dolarização na Argentina e não deu certo. Por que acreditar que, desta vez, vai funcionar? O que foi feito na pelo Menem não era dolarização. Era um sistema parecido com o de Hong Kong. 

Havia um currency board (fundo de estabilização cambial), pelo qual cada dólar que entrava no país gerava um peso correspondente e cada peso que queria sair era trocado por dólar. Enquanto an Argentina manteve esse sistema, funcionou muito bem. O problema foi quando o Domingo Cavallo (então ministro da Economia) resolveu que eles não precisavam lastrear tudo em dólar e que dava para ter um pedaço da base lastreado em títulos públicos denominados em dólar emitidos pela República Argentina. Aí, a coisa foi para o vinagre. O sistema explodiu, porque os políticos trocaram a Lei de Conversibilidade, que dizia que precisava ter lastro em dólar, em título público americano, por uma nova regra, que abriu o caminho para o descontrole monetário. Numa dolarização real, não há uma taxa de conversão. 

As pessoas usam a moeda que o banco aceita como depósito em conta corrente, no caso o próprio dólar ou outra moeda forte. Então, não tem esse risco. No atual cenário econômico do país, em que é urgente atacar a inflação, essa solução não só é a mais sensata como talvez seja a única possível que eles têm na mesa. Sorte do Milei, que está defendendo essa proposta. Outra proposta polêmica é o corte dos impostos de importação. Faz sentido isso? Estou 100% de acordo com a ideia de zerar as tarifas. Mas, se não me engano, ele colocou na página inicial da plataforma de governo zerar tarifas sobre bens essenciais na partida e não sobre bens finais, como fez o Chile, na década de 1990, que veio baixando gradualmente as taxas até ter uma tarifa de 3% pra tudo. No fundo, 3% e zero é quase a mesma coisa, dado o que o Brasil e an Argentina praticam hoje. Então, o Chile já fez isso e países pequenos fazem isso até por necessidade. 

Hoje, há tarifas de importação para computador, para maquinário, para uma porção de coisas que você precisa para produzir. Você jamais vai conseguir competir com uma China, que não tem tarifa de importação, ou com os Estados Unidos, que têm tarifas mínimas. Você sempre vai ficar fora das cadeias de suprimento, porque nunca vai poder competir com outros países que compram computador e insumos pagando metade do preço. No Brasil, o empresário é competitivo da porta para dentro da fábrica, mas não é competitivo no resto do mundo, porque é obrigado a pagar o “custo Brasil” e dentro disso um dos principais componentes é a tarifa de importação, que deixa tudo muito mais caro aqui. Por isso, a gente é bom em agro lá fora, porque não tem tanto imposto sobre insumos importados, como fertilizantes. Você não transforma os produtos agropecuários aqui e consegue se livrar da “senzala Brasil” de tarifas de importação. Mas industrialmente não tem jeito. A Embraer escapa e é competitiva porque consegue importar sem tarifa de importação desde que exporte o produto final. 

Mas o resto do Brasil, o Brasil real, que não é agro nem Embraer, está ferrado. Então, o Milei está 100% certo de eliminar as tarifas de importação. O Emilio Ocampo, que é o braço direito do Milei na economia, diz que é realista fazer um ajuste fiscal de 3% do PIB Na área social, o Milei defende um corte nos benefícios sociais. Ele diz inclusive que “direitos são ótimos, mas alguém tem de pagar”. Considerando que an Argentina tem hoje mais de 40% da população na linha de pobreza, como o sr. mesmo afirmou, faz sentido cortar benefícios sociais? Isso eles têm falado bastante. Eu não sei os detalhes dos cortes que ele propõe, mas o Emilio Ocampo, que é o seu braço direito na economia e quem mais importa, diz que é realista fazer um ajuste fiscal equivalente a 3% do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro ano, para tornar crível o plano de governo. Então, ele vai precisar encontrar as áreas para fazer esse corte. 

Acredito que não será cortando programa social na porrada, no primeiro ano. Pode ter um pente fino, para reduzir as fraudes, cortar benefícios de gente que recebe o que não deveria receber, essas coisas, aqueles exageros que os kirchneristas fazem, mas acho que não deve ir muito além disso. Agora, ele defende também o fim da educação pública com a distribuição de vouchers e a privatização gradual da saúde. A educação e a saúde estatais não são indispensáveis para a população de baixa renda? Essa privatização da saúde e da educação que ele pretende implementar faz sentido? Ele não fala em privatização da educação. 

Ele fala em começar um programa de distribuição de vouchers. Isso não quer dizer que ele vai vender as escolas públicas e distribuir voucher para todo mundo estudar em escolas privadas imediatamente. Ele não falou isso nem está no programa de governo dele. Na saúde, deve ser feito algo parecido, com mais soluções privadas. Mas ele não pretende acabar com o atendimento público. Na minha opinião, o maior gerador de desigualdade de oportunidade é a educação pública. 

Quem tem acesso à escola privada tem oportunidade maior do que quem tem acesso à educação pública. Isso acontece em boa medida porque quem faz a gestão da escola, a gestão predial, a compra da merenda, essas coisas todas, e define a pedagogia é o governo. Faz sentido, então, pensar em separar o pagamento do serviço da gestão. Você pode fazer todo uma privatização, vamos chamar assim, da infraestrutura, e continuar pagando para todo mundo que precisa da educação e da saúde um determinado valor para a pessoa ter acesso aos serviços privados. Uma prefeitura que, por exemplo, precisa de 10 mil vagas por ano na rede pública poderia contratar esse valor, pagar esse valor para as escolas privadas acomodarem esses alunos. 

O dinheiro sai do orçamento da prefeitura, mas não é o governo que faz a gestão. Vai ser um valor de X por aluno, com metas de desempenho, e isso representará uma revolução. Alguns vão acusar que será uma privatização da educação. Mas o governo não estará deixando de atender quem precisa e isso é o mais importante. A mesma lógica vale para a saúde. O sr. acredita que isso vai melhorar a qualidade da saúde e da educação? Não tenho a menor dúvida. Mas eu não estou dizendo que o Milei vai implementar isso no primeiro ou no segundo ano de governo. Ele está querendo ir nesta direção. Não está dizendo que vai explodir tudo no dia zero. 

Há oito anos, quando discuti esse assunto em Curitiba, a secretária da Educação falou para mim que cada aluno na educação pública custava R$ 850 por mês de custo direto, sem incluir os custos indiretos da máquina pública. e que, se contratasse uma escola privada para o serviço, sairia por R$ 350. Mas, segundo ela, quando quis implementar o novo sistema, ficou tomando porrada do Ministério da Educação, que não a deixou seguir e frente. Mesmo que você fale que quer que todos os professores sejam da rede pública, tudo bem. Mesmo neste caso, que não seria o ideal, daria para converter uma escola pública numa O.S. (Organização Social), que passaria a ter um contrato com a prefeitura. O professor continuaria na folha de pagamento da prefeitura, mas todo o resto seria administrado pela iniciativa privada, como já é feito em alguns casos na área de saúde no Brasil. Existem soluções intermediárias, com as quais imagino que o Milei vai começar seu governo, se ele for eleito. Não há contradição entre ser um libertário e ser contra o aborto Na área de costumes, o Milei parece bem liberal. 

Ele diz, por exemplo, que é favorável ao casamento do pessoas do mesmo sexo e à adoção de crianças por casais homossexuais. Mas ele é contra o aborto. Isso não é uma contradição, para quem é um libertário e deveria defender a liberdade de escolha individual? Não. Não há contradição nenhuma. O liberal defende a liberdade do indivíduo e da propriedade. O que costumo dizer é que não tem resposta certa para isso, porque há o conflito de dois direitos, o direito à vida humana, desde que o embrião é fecundado, e o direito do corpo da mulher. Como o feto consegue sobreviver a partir de cinco meses de idade, se você abortar depois disso vai matá-lo. 

Tem também uma discussão sobre o que acontece antes desse prazo. É uma questão complexa. De um lado, há a liberdade individual da mulher; de outro, a vida do ser humano. Como você resolve esse conflito? Para onde você vai pender? Não tem resposta dentro da doutrina libertária. Tem que resolver fora da doutrina, conforme as suas visões de mundo, visões morais, talvez sua lógica. Então, não tem contradição entre um libertário que permita o aborto no segundo mês e um libertário que diga que isso não deve acontecer. Agora, no quinto mês, acho que é assassinato. Para finalizar, gostaria de saber a sua opinião sobre a liberalização do porte de armas e a legalização do mercado de órgãos, que o Milei defende. Isso estaria dentro também do capítulo das liberdades individuais? Em relação à legalização do mercado de órgãos é uma questão polêmica. Não está no programa dele. Foi uma pergunta feita por um jornalista, que queria saber qual era sua visão sobre isso. 

Ele respondeu que há X mil pessoas precisando de órgãos e não sei quantos potenciais doadores e que, se houvesse um incentivo para a doação, haveria muito mais gente querendo doar. Eu expliquei isso na CNN também, fiz toda a defesa da proposta, dizendo que, no Brasil, também pode haver venda de órgão, só que a custo zero. Agora, se houver um incentivo para quem está doando, possivelmente a fila para recepção de órgãos vai diminuir e você vai beneficiar as pessoas mais simples. Mas, mais uma vez, isso não está no programa dele. Foi uma resposta a uma pergunta de um jornalista, que usaram aqui no Brasil para ferrar o Milei. A questão das armas é complicada, porque ele colocou no programa dele para permitir porte de armas, que é o que um liberal defende, desde que o sujeito tenha passado em testes psicotécnicos e tudo o mais. Mas, quando a Patricia Bullrich (candidata da coalização Juntos por el Cambio, de centro-direita), perguntou ao Milei sobre isso ele deu um escape. 

Disse que havia falado é que o cumprimento da lei atual já seria suficiente para atender o que ele defende. Mas não é isso que está escrito no programa. Então, acho que ele tentou dar um “migué”, para não gerar muita polêmica. Deu uma recuada.  

domingo, 3 de setembro de 2023

¿Puede Javier Milei ganar las elecciones en primera vuelta? - Raúl Kollmann (El País)

¿Puede Javier Milei ganar las elecciones en primera vuelta? El veredicto de los encuestadores

El País, 3/09/2023

La posibilidad de que Javier Milei gane en primera vuelta, sin ballotage, no fue descartada por los encuestadores consultados por Página/12, aunque la mayoría lo ve muy improbable.

Facundo Nejamkis, de Opina Argentina, sostiene que “luego de la confirmación del escenario de tres tercios, corresponde analizar cuál de ellos es el que más chances tiene de crecimiento. Si analizamos la falta de legitimidad del sistema político en su conjunto, si a eso le agregamos la voluntad de cambio que una mayoría clara expresa en las encuestas y si por último vemos el cambio de expectativas a favor de Milei, uno tiende a pensar que es el que que más chances tiene de crecer. Los límites que presentan las candidaturas de Massa (por oficialismo) y de Bullrich (por parecido de familia con Milei) confirman estas especulaciones. Como Milei ahora es el centro de gravedad del sistema político, solo resta saber cómo afecta eso a los votantes que, por miedo, pueden llegar a movilizarse en contra del candidato libertario. A su favor le juega que este factor miedo o de rechazo suele ser más desequilibrante cuando este tipo de políticos tienen o han tenido un paso por el poder. Solo restan dilucidar dos interrogantes principales. Primero: qué ocurrirá con los votantes que voten en octubre y no lo hicieron en las PASO. Segundo: hasta dónde puede llegar ese crecimiento de Milei y si es posible que tengamos un desenlace sin pasar por la segunda vuelta".

 Marina Acosta, de Analogías, se refiere específicamente a la posibilidad de que Milei gane en primera vuelta. Lo ve improbable. “En estos momentos estamos observando un escenario de balotaje entre la ultraderecha y el oficialismo. Esto es, estimamos improbable que Milei pueda imponerse en primera vuelta ya sea porque logre el 45 por ciento de los votos afirmativos o porque alcance el 40 por ciento de los votos y saque una diferencia porcentual mayor a 10 puntos respecto de la fórmula que le sigue. El principal movimiento del desplazamiento del voto que estamos notando es el que se está dando desde Juntos por el Cambio hacia Milei. Vemos a una ciudadanía expectante por los movimientos de las distintas fuerzas políticas, en un contexto de crisis de UxP y JxC, las dos coaliciones predominantes”.

Campaña con vacíos

Prácticamente todos los consultores perciben una enorme debilidad en las campañas que se están haciendo.

Santiago Giorgetta de Proyección lo formula así. “Bullrich está muy desorientada. El crecimiento de Milei es inevitable. Massa tiene que buscar el 33 o 34 por ciento de los votos y tal vez las medidas lanzadas van en esa dirección: apuntalar a una mayoría, en especial a los sectores de menos recursos que perdieron poder de salario. UxP tiene que recuperar en esa franja, sí o sí”.

Timerman es aún más duro. “El tema es que Milei hasta ahora había sido el único que presentaba propuestas. Apareció esta semana una lista de propuestas de Bullrich-Melconian. Pero no existen las propuestas de Sergio Massa. Y en las elecciones, si no hay promesas, no hay campaña, dice un viejo slogan norteamericano. Si no hay promesa, no hay campaña. Y por ahora no sabemos cómo va a ser la República Argentina si Sergio Massa es presidente”.

“Los tres candidatos está modificando el discurso -sostiene Analía Del Franco-. Milei empezó a moderarse. Habla poco de dolarización, Banco Central o venta de órganos. No impacta en su electorado, pero sí en los nuevos votantes que puede captar. Bullrich recurrió a Melconian, porque la cuestión económica era de gran debilidad. Massa por ahora transita su posición de ministro y presentador de acciones de gobierno. No aparece la propuesta. Igual creo que es el que mejor actúa y trabaja y canaliza a los que tienen miedo al crecimiento de Milei”


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Medo do argentino de perder subsídios garante a Massa segundo turno contra Milei - Lourival Sant'Anna (O Estado de S. Paulo)

 Medo do argentino de perder subsídios garante a Massa segundo turno contra Milei 

Lourival Sant'Anna
O Estado de S. Paulo, 23/10/2023

Mesmo com inflação anual de 140%, o ministro da economia conseguiu sair na frente no primeiro turno da eleição presidencial argentina.

 Os votos destinados à Patricia Bullrich, elegerão o presidente Mesmo com inflação anual de 140%, o ministro da economia conseguiu sair na frente no primeiro turno da eleição presidencial argentina. Os votos destinados à terceira colocada, Patricia Bullrich, elegerão o presidente O ministro da Economia, Sergio Massa, realizou um feito notável. Com inflação anual de 140%, conseguiu sair na frente no primeiro turno da eleição presidencial da Argentina. 

Ele disputará o segundo turno no dia 19 com o libertário Javier Milei. Os votos destinados à terceira colocada, Patricia Bullrich, elegerão o presidente. Bullrich é liberal na economia e conservadora nas questões sociais, sobretudo a segurança, o que favorece Milei. Entretanto, uma parte de seu eleitorado é mais moderado que ela, e votou, nas primárias de agosto, em seu rival dentro do partido Juntos pela Mudança, o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta. Massa chegou ao seu teto, ou conseguiria atingir uma fatia suficiente desse eleitorado moderado? 

A resposta a essa pergunta ficará mais clara nas próximas semanas. O peso continuará se desvalorizando perante o dólar e minando a confiança dos argentinos na política econômica de Massa. Afinal, Milei, que emerge do primeiro turno com grandes chances de chegar à Casa Rosada, quer fechar o Banco Central e adotar o dólar como moeda O êxito de Massa nesse primeiro turno se explica, em parte, pela força política do peronismo e, em outra parte, pelo receio dos argentinos de perder os benefícios sociais. É uma vulnerabilidade que se retro-alimenta: quanto mais gastos sociais, mais déficit público, mais endividamento, mais inflação, mais empobrecimento e mais necessidade de amparo do Estado. 

 Desde 2015, os argentinos têm tentado escapar da crise econômica alternando experiências à direita e à esquerda. A situação só tem piorado.Agora, uma parcela substancial dos eleitores optou pela ruptura: uma experimentação radical, com Milei, que além de substituir o peso pelo dólar propõe cortar drasticamente gastos e impostos. O plano econômico de Milei é o mais atraente para seus eleitores porque parece ser o mais distante possível da terrível realidade inflacionária que eles enfrentam. Além disso, faz sentido para os argentinos que compreendem que o endividamento causado pelos gastos acima da arrecadação está na origem dos problemas econômicos. 

 A Argentina trocar o peso pelo dólar também faz sentido de duas maneiras fundamentais para muitos eleitores. Afinal, é isso o que quem pode faz: troca peso por dólar e guarda debaixo do colchão ou em contas no exterior. Há ainda uma identificação simples, quase infantil: como se o que trouxesse estabilidade e prosperidade para os Estados Unidos fosse o nome de sua moeda, não os fundamentos de seu sistema econômico, jurídico, educacional e assim por diante. Não se pode culpar os argentinos por querer algo novo. Em 2015, a peronista Cristina Kirchner, de esquerda, entregou o governo com uma inflação de 25%; em 2019, o liberal Mauricio Macri, saiu com 50%; este ano, o peronista Alberto Fernández encerra com 140% ou mais, até dezembro. Bullrich é a candidata de Macri, de quem foi ministra da Segurança Pública. Massa é o ministro da Economia de Fernández. 

 A figura excêntrica de Milei pode assustar muitos, mas para outros combina com o desejo de ruptura do atual sistema político. Esses gastos públicos excessivos são produtos de decisões dos políticos, de suas negociações orçamentárias e de suas práticas clientelistas para manter apoio das populações locais. Isso também está em xeque, com vários líderes sendo desbancados de seus “currais” eleitorais, para usar uma expressão tosca mas pertinente. Ninguém se parece menos com os políticos tradicionais argentinos, seja à esquerda ou à direita, do que Milei. Isso pode atender ao desejo de mudança dos argentinos, mas também traz incertezas com relação à própria capacidade de Milei de entregar. Exatamente pela falta de amplitude político-partidária, ele não terá maioria no Congresso. 

 Diante da consequente frustração de seus eleitores com o descumprimento das promessas, o que Milei faria? Muitos de seus eleitores são jovens, de todos os extratos sociais. Poderim ir às ruas e pressionar o presidente. Milei e, em especial, sua vice, Victoria Villarruel, filha de um falecido tenente do Exército, são admiradores declarados da ditadura militar argentina. Milei tentaria algo como fechar o Congresso? Nessa hipótese, não teria apoio das Forças Armadas nem de outras instituições. Mas desestabilizaria ainda mais an Argentina. 

 Outro fator é a intenção de Milei de rever o direito ao aborto, aprovado na Argentina em 2020. Mulheres liberais que recebem bem suas ideias radicais no campo econômico não gostam da reversão dessa conquista, que consumiu muita energia dos progressistas. Em contrapartida, claro, ela atrai o voto dos conservadores. O mesmo se aplica à facilitação do acesso às armas. 

 O aumento da pobreza, que alcança 40% da população, agravou a criminalidade. Bullrich fez do endurecimento contra os criminosos uma de suas principais bandeiras, além de reformas econômicas. Mas grande parte dos argentinos perdeu a fé em soluções baseadas no poder do Estado. A última década de desordem econômica criou um ambiente de salve-se quem puder. Milei responde a esse sentimento, prometendo liberdade para os argentinos buscar prosperidade individualmente e fazer justiça com as próprias mãos. 

 A alternativa, representada por Massa, é a continuação de um Estado inchado e ineficiente, que suga as riquezas do setor público. Não é uma escolha fácil a que os argentinos se impõem a si mesmos.  

domingo, 4 de fevereiro de 2024

A Libertarian President! (em intenção talvez…) - John Stossel (Taki's Magazine)

 

February 02, 2024

Javier Milei

Javier Milei

Source: Wikipedia Commons

Argentina actually elected a libertarian president.

Javier Milei campaigned with a chainsaw, promising to cut the size of government.

Argentina’s leftists had so clogged the country’s economic arteries with regulations that what once was one of the world’s richest countries is now one of the poorest.

Inflation is more than 200%.

People save their whole lives — and then find their savings worth nearly nothing.

They got so fed up they did something never done before in modern history: they elected a full-throated libertarian.

Milei understands that government can’t create wealth.

“Milei understands that government can’t create wealth.”

He surprised diplomats at the World Economic Forum this month by saying, “The state is the problem!”

He spoke up for capitalism, “Do not be intimidated by the political caste or by parasites who live off the state … If you make money, it’s because you offer a better product at a better price, thereby contributing to general well-being. Do not surrender to the advance of the state. The state is not the solution.”

Go, Milei! I wish current American politicians talked that way.

In the West, young people turn socialist. In Argentina, they live under socialist policies. They voted for Milei.

Sixty-nine percent of voters under 25 voted for him. That helped him win by a whopping 3 million votes.

He won promising to reverse “decades of decadence.” He told the Economic Forum, “If measures are adopted that hinder the free functioning of markets, competition, price systems, trade and ownership of private property, the only possible fate is poverty.”

Right.

Poor countries demonstrate that again and again.

The media say Milei will never pass his reforms, and leftists may yet stop him.

But already, “He was able to repeal rent controls, price controls,” says economist Daniel Di Martino in my new video. He points out that Milei already, “Eliminated all restrictions on exports and imports, all with one sign of a pen.”

“He can just do that without Congress?” I ask.

“The president of Argentina has a lot more power than the president of the United States.”

Milei also loosened rules limiting where airlines can fly.

“Now (some) air fares are cheaper than bus fares!” says Di Martino.

He scrapped laws that say, “Buy in Argentina.” I point out that America has “Buy America” rules.

“It only makes poor people poorer because it increases costs!” Di Martino replies, “Why shouldn’t Argentinians be able to buy Brazilian pencils or Chilean grapes?”

“To support Argentina,” I push back.

“Guess what?” Says Di Martino, “Not every country is able to produce everything at the lowest cost. Imagine if you had to produce bananas in America.”

Argentina’s leftist governments tried to control pretty much everything.

“The regulations were such that everything not explicitly legal was illegal,” laughs Di Martino. “Now … everything not illegal is legal.”

One government agency Milei demoted was a “Department for Women, Gender and Diversity.” DiMartino says that reminds him of Venezuela’s Vice Ministry for Supreme Social Happiness. “These agencies exist just so government officials can hire their cronies.”

Cutting government jobs and subsidies for interest groups is risky for vote-seeking politicians. There are often riots in countries when politicians cut subsidies. Sometimes politicians get voted out. Or jailed.

“What’s incredible about Milei,” notes Di Martino, “Is that he was able to win on the promise of cutting subsidies.”

That is remarkable. Why would Argentinians vote for cuts?

“Argentinians are fed up with the status quo,” replies Di Martino.

Milei is an economist. He named his dogs after Milton Friedman, Murray Rothbard and Robert Lucas, all libertarian economists.

I point out that most Americans don’t know who those men were.

“The fact that he’s naming his dogs after these famous economists,” replies Di Martino, “shows that he’s really a nerd. It’s a good thing to have an economics nerd president of a country.”

“What can Americans learn from Argentina?”

“Keep America prosperous. So we never are in the spot of Argentina in the first place. That requires free markets.”

Yes.

Actually, free markets plus rule of law. When people have those things, prosperity happens.

It’s good that once again, a country may try it.


sábado, 19 de outubro de 2024

Milei quer que todos os diplomatas defendam suas posições malucas - Brenda Struminger (InfoBae)

Extraordinário Milei. 

Bolsonaro não chegou a tanto, mas o atual assessor internacional de Lula, assim que assumiu como chanceler de Lula, em 2003, pediu que os diplomatas “vestissem a camisa” do governo. 

Muitos o fizeram. 

Essa gente confunde o serviço do Estado, ou da nação, com o seu próprio e medíocre governo. PRA

 

 Milei le exigió a todo el cuerpo diplomático que se alinee con la política exterior del Gobierno o renuncie 

En un documento oficial inédito, el Presidente se dirige a todos los funcionarios del Ministerio y a los representantes en el exterior, a través de la canciller Mondino, para conminarlos a que “den un paso al costado” si no están de acuerdo con la doctrina libertaria. Recientemente había echado al vicecanciller y al representante ante la ONU 

Brenda Struminger 

InfoBae, 19/10/2024 

 Luego de remover a Ricardo Lagorio de la representación argentina ante la ONU y a Leopoldo Sahores del cargo de vicecanciller de Diana Mondino, Javier Milei le envió un duro e inédito mensaje a todo el cuerpo diplomático, donde les exige a aquellos que no estén de acuerdo la política exterior del Gobierno que renuncien a sus cargos. Lo hizo a través de una nota dirigida, uno por uno, a todos los representantes y funcionarios de la Cancillería. La nota salió directamente de la Casa Rosada, con los nombres de más de 400 miembros de la Cancillería, con copia a la ministra de Relaciones Exteriores. El Presidente le pide expresamente que les haga llegar la exigencia “a la totalidad de los funcionarios y personal de su jurisdicción, así como el personal diplomático y civil del Servicio Exterior de la Nación”. La funcionaria había estado ayer en la Casa Rosada, reunida con el asesor del jefe de Estado, Santiago Caputo. En el texto es dedicadamente elogiada por el Presidente, que le agradece su labor a pesar de que durante la mayor parte de este año Mondino fue duramente cuestionada por la cúpula del Gobierno. Al punto de que la secretaria Karina Milei envió a una funcionaria propia, Úrsula Basset, para que interviniera la cartera. Milei hizo lo propio al nombrar como secretario de Culto a un hombre propio, Nahuel Sotelo, que se puso al frente de la cruzada con los funcionarios y diplomáticos de línea. En la nota, donde están citados cientos de funcionarios y diplomáticos con sus nombres y apellidos y los lugares que ocupan, Milei cita un fragmento de su discurso ante la Asamblea General ONU, hace dos semanas, donde cuestionó la Agenda 2030, llamada ahora “Pacto por el Futuro”. “No es otra cosa que un programa de gobierno supranacional de corte socialista que pretende resolver los problemas de la modernidad con soluciones que atentan contra la soberanía de los estados-nación, y violentan el derecho a la vida, a la libertad y a la propiedad de las personas”, dice. En ese momento, Lagorio, que había actuado en contra de los lineamientos libertarios, aún estaba en el cargo. Días después fue reemplazado, una señal en la línea del comunicado enviado hoy al resto de los diplomáticos. En su explicación, Milei agrega que esta nueva doctrina implica, por definición, “que ningún funcionario de esta administración ni quienes representan a la Argentina en el exterior deben acompañar ninguna iniciativa (que vaya en contra) de valores que son pilares de esta nueva administración”. Y al final, conmina al cuerpo diplomático, con claridad, a renunciar en caso de que no estén alineados con los lineamientos de la política exterior libertaria: “Quienes no se encuentren en condiciones de asumir los desafíos que depara el rumbo adoptado en defensa de las ideas de la libertad, deberán dar un paso al costado”. Hace tiempo que en la Casa Rosada mastican bronca contra los funcionarios y diplomáticos de línea, al punto de que un importante funcionario había dicho, off the record, hace dos semanas, que consideraba que “son todos comunistas”. Ya entonces cerca de Milei manifestaban intenciones de deshacerse de aquellos que no estuvieran alineados con sus ideas, pero sopesaban maneras de avanzar. Además de los despidos, la carta enviada por el sistema GEDE a todas las casillas de correo de los mencionados diplomáticos es otro paso en ese sentido. La carta fue discutida ayer a media tarde en la mencionada reunión en el despacho de Santiago Caputo en Balcarce 50, con Mondino, Sotelo, el asesor en comunicación Juan Carreira -mano derecha del poderoso asesor, mejor conocido en redes como “Juan Doe”- y Caspar Sprungli, que acaba de reemplazar a Federico Bartfeld como jefe de Gabinete del ministerio. Aunque en realidad, había sido gestada para discutir los pasos a seguir tras el reemplazo de Sahores. La Cancillería es un hervidero desde hace meses. Tras el desembarco de Basset y de Sotelo, el vicecanciller Sahores fue sido echado para ubicar en el cargo a un miembro de PRO, Eduardo Bustamante, que trabajó en las filas de Patricia Bullrich durante el macrismo. Y poco antes había ocurrido lo propio con Lagorio, que fue obligado a renunciar a su rol en Nueva York frente a Naciones Unidas. Pero más allá de las internas, también está latente la fuerte disputa por el impuesto a las Ganancias, que se prolonga largamente entre las autoridades de la cartera y los funcionarios y diplomáticos, y llegó a la Justicia. Ahora el Gobierno está a la expectativa de una resolución dirima la la disputa. Mientras tanto, hay un incipiente conflicto por una medida de recorte de gastos en concepto de traslados, que es fuertemente resistida en las distintas líneas del ministerio y, sobre todo, en las embajadas. Mientras crece el malestar, en en la Casa Rosada y en los cargos jerárquicos redoblan la apuesta. Y esta noche, el secretario de Culto se encargó de contar en sus redes sociales que acababa de colgar la resolución de Milei en la puerta de su oficina.

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