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terça-feira, 12 de maio de 2026

Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio

 Brasil e México. Amigos Distantes

busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010

 

    Sérgio Abreu e Lima Florencio


Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações. 

Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a Chinauma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80%  .

O México é uma economia muito aberta e competitivaexportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.

A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).

Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.

O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE). 

O fracasso do projetado Acordo Brasil-México 

Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o AcordoA alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do  PAN. 

Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importanteporque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro. 

Quatro razões para não repetir os erros do passado

Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?

primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.  

A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada. 

A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.

A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México.  Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.

A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela -  com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes,  caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.  

Conclusão

A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais  de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas. 

Sergio Florencio.   Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026. 


Erro histórico do governo do PT: a recusa do ingresso na OCDE - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião: Erro histórico do governo do PT

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 12/05/2026

Um dos aspectos mais relevantes da política externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.

A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.

Nesse contexto, a suspensão pelo governo Lula dos entendimentos, iniciados por Dilma Rousseff e apoiados por Temer, com vistas ao acesso do Brasil à OCDE só pode ser explicado por restrições ideológicas superadas, visto que o ingresso do Brasil traria benefícios de natureza política, econômica, institucional, estratégica e de cooperação regional e internacional. Não se pode ignorar, como faz Brasília, que existe uma forte convergência de princípios com a OCDE. O Brasil consagra, em sua Constituição federal e ordenamento institucional, os mesmos princípios fundamentais que os membros da OCDE procuram promover, notadamente democracia, direitos humanos, livre empreendimento e economia de mercado, bem como de Estado comprometido com a governança pública pautada em transparência, prestação de contas, combate à corrupção e ilícitos e busca contínua – e sob escrutínio internacional – das melhores políticas públicas – econômicas e sociais, em particular – para o cidadão.

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação. Como membro pleno da organização, o Brasil participaria das deliberações estratégicas e políticas da organização. Por meio dessa atuação, o Brasil influenciaria os consensos internos, construiria pontes com diferentes grupos de países e promoveria os processos de reforma da OCDE, segundo seus interesses. Contribuiria também para a crescente consideração da perspectiva de países em desenvolvimento, trabalhando em conjunto com países da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, com países já membros, em processo de acessão ou com crescente engajamento nos trabalhos da OCDE. Nesses termos, o Brasil poderia melhor projetar não só seus interesses, mas também suas visões sobre variados temas.

Hoje, quase todos os ministérios e agências regulatórias brasileiras atuam na OCDE e conhecem cada vez mais a natureza e os mecanismos de trabalho da organização. O Brasil é visto pelo secretariado da OCDE como o País em desenvolvimento mais preparado para ingressar na organização em toda a sua história, tendo o País ampliado de modo progressivo sua atuação e convergência nas últimas três décadas. Esse esforço está amadurecido, mesmo nas áreas mais sensíveis na adesão, como tributação e movimento de capitais, objeto de recomendações e dos chamados Códigos de Liberalização da OCDE. Ademais, a pedido do Brasil, a própria OCDE tem contribuído para as reformas no País, como nas atualizações sucessivas da legislação de concorrência e na recente reforma tributária. Esse gênero de convergência é promovido com base em diálogos com o secretariado e com os países-membros, que promovem a internalização e a racionalização das circunstâncias nacionais, bem como o exame da pluralidade de soluções cabíveis, em particular, na medida em que a organização se torna mais diversa no quadro de seus membros.

A participação plena e regular do Brasil na OCDE serviria de sinal significativo sobre a qualidade da regulação doméstica e dos padrões adotados pelo País em áreas como tributação, concorrência, comércio, agricultura, investimentos, serviços, governança pública, combate à corrupção, supervisão financeira, mercados de capitais e governança corporativa, empresas estatais e multinacionais, educação, saúde, emprego e trabalho. A OCDE mantém códigos técnicos também nas áreas de tratores, sementes, químicos e créditos à exportação. Muitos dos padrões da OCDE são reconhecidos internacionalmente, inclusive por países não membros, e sua adoção facilita a compreensão das práticas empregadas pelo país em avaliações e decisões comerciais, financeiras, de investimentos e negócios em geral. O ingresso do Brasil seria um elemento adicional de convergência regional. A América Latina, com México, Chile, Colômbia e Costa Rica, é a região em desenvolvimento que mais tem participado dos trabalhos da OCDE. A Argentina reviu sua posição e voltou a se interessar pelo ingresso. Outros países da região têm manifestado interesse em considerar a adesão futura à OCDE, como Paraguai, Panamá e República Dominicana.

Do ângulo geopolítico, o Brasil seria o único país membro do Brics e da OCDE. O futuro governo deveria reexaminar a decisão de manter o Brasil fora da OCDE, apenas por razões ideológicas, sem levar em conta o interesse nacional.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)


segunda-feira, 11 de maio de 2026

White House Blues - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 White House Blues

Jorio Dauster
Relatório Reservado, 11/05/2026
Sobre o encontro Lula-Trump

Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.

Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo? Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.

Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão. Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.

A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.

A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.

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Meu comentário direto a Jorio Dauster:

Excelente descrição de uma discussão que de fato não ocorreu, apenas figuração de uma parte e outra. Os perdedores foram os bolsonaristas e a turma da direita de modo geral, que esperavam nova ofensiva contra Lula e o Brasil, agora elevados à condição de interlocutores quase de par a par.
Mas, ainda não temos informações sobre o que de fato ocorreu, todos os jornalistas frustrados, e apenas o relato de Lula na embaixada. O que temos, portanto, são narrativas, e já ouvi o porta-voz da extrema direita, Paulo Figueiredo, querendo afirmar que a visita foi um fracasso completo.
Não foi, apenas permanece um impasse, mas amplamente favorável ao Brasil, pois que se desarmou o tacape trumpista. Mas, provavelmente haverá alguma maldade na 301, que terá de ser absorvida por nós, pelo Alckmin.
Se assegurou que não haverá intervenção trumpista nas nossas eleições, o que é um zero a zero. Repare que em 1964 (e até antes) eles interviram para favorecer os golpistas. Em 2022, Biden fez a sua pequena intervenção (Sullivan e Burns vieram ao Brasil) para evitar um golpe em preparação. Já é um progresso. Com Trump, havia anúncios de borrasca. Agora acho que não virá mais, mesmo que a dupla Bananinha-Figueiredo atue junto ao Departamento de Estado para acirrar os ânimos.
Stalemate por enquanto, vamos ver quanto tempo dura…
O abraço do
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/05/2026

domingo, 10 de maio de 2026

O mundo segundo as regras do PT: editorial do Estadão (19 de fevereiro de 2026) sobre o chanceler de facto do Brasil ; comentários de Madame IA

Um editorial do Estadão de 19 de fevereiro de 2026, ainda válido em suas grandes linhas. 



"O chanceler de fato CA é objeto de um editorial do Estadão, neste domingo 01/02/2026. Ele costuma ser conhecido pelo slogan que cunhou para a diplomacia lulopetista: “ativa e altiva”. Cabe também recordar outros feitos do ex-chanceler que não são mencionados frequentemente pelos canais de comunicação; vou apenas lembrar dois dos casos mais sórdidos. Em 2005, durante jogos esportivos panamericanos no RJ, dois boxeadores cubanos pediram asilo no Brasil, pois não pretendiam mais voltar à ilha-prisão. CA providenciou com Chávez o envio de um jatinho venezuelano, para levar os boxeadores cubanos de volta a Cuba. Um deles depois se refugiou na Alemanha. Em 2022, as tropas invasoras russas cometeram crimes de guerra na cidade ucraniana de Bucha, assassinando a sangue frio dezenas de residentes. As provas eram irrefutáveis, com ampla documentação comprobatória. Na única vez que visitou a Ucrânia, meses depois, CA foi levado a uma exposição de fotos sobre os crimes de guerra cometidos em Bucha. Ainda assim, negando as aplastantes evidências sobre os crimes contra a humanidade e os crimes de guerra perpetrados pelas forças invasoras, CA continuou protegendo os criminosos, com a seguinte frase: “Não se pode saber: são apenas fotos”. Creio que basta.", escreveu o diplomata brasileiro Paulo Roberto de Almeida, em 01/fevereiro/2026, ao comentar um editorial do Estadão; hoje (10/maio/2026), ele relembrou em seu blog Diplomatizzando.



Nesta releitura crítica de 10 de maio de 2026, o diplomata Paulo Roberto de Almeida utiliza o blog Diplomatizzando para consolidar um veredito ético sobre a atuação de Celso Amorim (CA), o "chanceler de fato" do governo Lula. A análise foca no que o autor chama de "sórdido": a distância abissal entre a retórica da diplomacia "ativa e altiva" e a prática de conivência com regimes autoritários.
Abaixo, a decodificação dos fatos e a análise detalhada das implicações políticas:
1. Decodificação dos "Casos Sórdidos":
O texto resgata dois episódios de conveniência ideológica que, na visão do autor, mancham a tradição humanitária do Itamaraty:
- O Caso dos Boxeadores Cubanos (2007 - Errata de data): Almeida refere-se a Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux. Durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, eles tentaram desertar. A crítica recai sobre a logística da devolução: o uso de um avião venezuelano (articulação entre Brasília, Caracas e Havana) para enviá-los de volta à "ilha-prisão" sem o devido processo de asilo, o que é visto pelo autor como uma entrega de refugiados a seus perseguidores.
- O Negacionismo de Bucha (2022/2023): Esta é a crítica mais atual e grave. Refere-se à reação de Celso Amorim diante das evidências de massacres em Bucha, na Ucrânia. Ao dizer “Não se pode saber: são apenas fotos”, Amorim é acusado de aplicar um ceticismo seletivo para proteger os interesses da Rússia (parceira no BRICS), ignorando relatórios da ONU e perícias internacionais que confirmaram os crimes de guerra.
2. Análise Crítica: A Ética do "Não Saber":
A análise de Almeida em 2026 sugere que a política externa brasileira sob a influência de Amorim não é orientada pelo Direito Internacional, mas por um pragmatismo ideológico de viés antiamericano:
- A "Ativa e Altiva" como Eufemismo: O autor sugere que o slogan é uma máscara para uma diplomacia que é "ativa" na proteção de ditadores e "altiva" apenas contra democracias ocidentais.
- A Desumanização da Geopolítica: Ao reduzir provas de crimes contra a humanidade a "apenas fotos", Amorim estaria, segundo a crítica, desumanizando as vítimas em favor de um equilíbrio de poder geopolítico. Isso coloca o Brasil em uma posição de isolamento moral frente às democracias liberais.
- O Papel de "Chanceler de Fato": Almeida reforça a percepção de que as decisões estratégicas não passam pelo chanceler oficial (Mauro Vieira), mas pelo gabinete pessoal de Lula no Planalto, onde Amorim opera sem o escrutínio das estruturas tradicionais do Itamaraty.
3. Síntese do Impasse Diplomático em 2026:
O resgate desses fatos em maio de 2026, num momento em que a Rússia enfrenta o cenário de "Dia da Derrota" (como analisado anteriormente), serve para expor o erro de cálculo da diplomacia lulopetista. Ao apostar na longevidade e na "razão" de Putin, o governo brasileiro, através de Amorim, teria se vinculado a um lado da história que agora, em 2026, colapsa sob o peso de crimes de guerra e fracassos militares.
Para o autor, "basta" como conclusão de que a diplomacia atual não é um instrumento de Estado, mas um instrumento de partido que ignora a realidade factual em favor de narrativas de conveniência.

Fonte (IA Gemini):

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Lula na Casa Branca - Rubens Barbosa (Interesse Nacional)

 Lula na Casa Branca

Rubens Barbosa

Interesse Nacional, 8/06/2026

Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente

Enfim, depois de mais um ano, Lula foi recebido por Trump na Casa Branca. Participaram do encontro os ministros brasileiros do Exterior, da Fazenda, da Justiça, da Indústria e Comércio, das Minas e Energia. O encontro de trabalho foi seguido de almoço entre os dois presidentes. Chamou a atenção a ausência de Marco Rubio do lado norte-americano.

Em nota divulgada por Trump, depois do encontro, a Casa Branca afirmou que a conversa foi produtiva e ressaltou, entre outros assuntos, a discussão em torno do comércio, sobre as tarifas. 

Na entrevista à imprensa, na residência da Embaixada em Washington, Lula, como seria de esperar, ressaltou o clima de entendimento entre os presidentes e suas delegações. 

‘Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, seção 301, pix, crime organizado, minérios estratégicos e geopolítica’

Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, investigação sobre restrições a produtos norte-americanos (seção 301), pix, cooperação contra o crime organizado, minérios estratégicos, além de temas geopolíticos (multilateralismo, organizações internacionais).

Os ministros presentes chamaram a atenção dos principais temas de sua área de atuação: definição de novas regras para o relacionamento econômico bilateral. Volta dos investimentos norte-americanos – compartilhamento informações crime organizado e ampliação da cooperação bilateral – relato   sobre situação econômica brasileira – cooperação no combate ao crime organizado (não foi discutida a  classificação do PCC e do CV como organizações terroristas)– cooperação entre aduanas (informações e operações conjuntas – (apreendidas armas vinda dos EUA meia tonelada de drogas sintéticas dos EUA) – lavagem de dinheiro – minérios críticos (terras raras) transmitida informação sobre o novo marco regulatório aprovado pelo Congresso.

‘Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico’

Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico. Ficou decidido que em 30 dias os diferentes setores deverão negociar posições comuns para serem apresentadas para decisão final dos presidentes. Lula afirmou que o encontro foi um passo importante na consolidação das relações entre o Brasil e os EUA e para reverter a baixa   prioridade dos EUA em relação ao Brasil. 

No tocante à geopolítica, Lula ofereceu estar à disposição para ajudar nas conversas com Cuba, Venezuela, ONU e CSNU. Mesmo no tocante ao Irã, Lula disse estar à disposição para ajudar e entregou cópia do acordo negociado com o Irã pelo Brasil e Turquia em 2010. Lula disse não acreditar na interferência de Trump nas eleições de outubro. 

‘A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda’

O governo brasileiro deu sua versão do encontro. A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda. Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente.

Do lado brasileiro, nada foi adiantado quanto às reivindicações de Washington no tocante à agenda de seu interesse e sobretudo sobre a reintrodução de tarifas em julho, quando a investigação sobre a seção 301 da lei de comércio norte-americana for concluída e anunciada.

Resta agora aguardar pelas informações do lado norte-americano para ver se o otimismo do governo brasileiro vai ser comprovado.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras (Brasil 247)

 A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras

Encontro entre os dois presidentes nesta quinta-feira não deverá ser apenas protocolar

A combinação de dois movimentos recentes — a aprovação do novo marco legal dos minerais críticos pela Câmara dos Deputados na noite de ontem e a marcação acelerada do encontro, nesta quinta-feira 7, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca — sugere que a pauta das terras raras e dos minerais estratégicos deve ocupar posição central na relação entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses.

Não se trata de uma viagem protocolar ou meramente simbólica. O contexto internacional aponta para uma reorganização das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, impulsionada principalmente pela disputa tecnológica e industrial entre Estados Unidos e China.

Hoje, a China responde pela maior parte da mineração e, sobretudo, do processamento mundial de terras raras — insumos essenciais para setores como semicondutores, carros elétricos, baterias, inteligência artificial, equipamentos militares e energia renovável. Esse grau de concentração passou a ser visto por Washington como um problema estratégico.

Foi nesse cenário que os Estados Unidos firmaram, em outubro do ano passado, um acordo bilionário com a Austrália para ampliar investimentos em mineração e processamento de minerais críticos fora da órbita chinesa. O Brasil, por possuir a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, surge naturalmente como um parceiro potencial nessa estratégia.

O novo marco legal aprovado pela Câmara ajuda justamente a criar um ambiente institucional para esse tipo de negociação.

O projeto relatado pelo deputado Arnaldo Jardim estabelece regras para exploração, beneficiamento e transformação de minerais críticos no país. Também cria instrumentos de supervisão estatal, incentivos fiscais e mecanismos voltados à industrialização local da cadeia mineral.

O texto, por óbvio, também não restringe a origem do capital estrangeiro. Na prática, o modelo aprovado permite investimentos americanos, chineses, europeus ou nacionais, desde que submetidos às regras definidas pelo Estado brasileiro. O projeto procura combinar abertura ao investimento internacional com maior capacidade regulatória e acompanhamento estratégico por parte do governo.

Isso reduz a leitura de que o Brasil estaria entrando automaticamente em algum alinhamento geopolítico exclusivo.

Ao mesmo tempo, cria condições para que o país participe de uma disputa internacional que tende a ganhar importância crescente ao longo da próxima década.

O encontro entre Lula e Trump acontece também em um momento politicamente relevante para os dois governos.

Trump enfrenta desgaste interno após o aumento das tensões envolvendo o Irã e a repercussão negativa da guerra no Oriente Médio. Nesse contexto, acordos econômicos e industriais podem ajudá-lo a reforçar uma agenda de segurança energética, reindustrialização e redução da dependência externa dos Estados Unidos.

Para Lula, a reunião reforça a estratégia de manter interlocução simultânea com diferentes polos de poder — Estados Unidos, China, Europa e BRICS — preservando margem de autonomia diplomática.

Além disso, o governo brasileiro tenta consolidar a ideia de que o país pode atrair investimentos externos sem abrir mão de instrumentos de controle sobre ativos considerados estratégicos.

O debate sobre terras raras passa justamente por esse equilíbrio.

De um lado, o Brasil necessita de capital, tecnologia e escala industrial para desenvolver o setor. De outro, existe preocupação crescente com a possibilidade de o país permanecer apenas como exportador de minério bruto, sem internalizar etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Por isso, o novo marco legal enfatiza beneficiamento, transformação e agregação de valor dentro do território nacional.

Ainda é cedo para saber se haverá anúncio concreto após a reunião na Casa Branca. Mas os sinais políticos e econômicos apontam que minerais críticos devem se tornar um dos principais eixos da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos daqui para frente.

E isso ocorre num momento em que a disputa global por tecnologia, energia e segurança industrial começa a redefinir alianças, investimentos e prioridades estratégicas em todo o mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247


quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dosimetria do bolsonarismo golpista vai ser anulada por inconstitucionalidade

GOL ANULADO POR IMPEDIMENTO...Os fogos foram queimados á toa....

Com Davi Alcolumbre e Bolsonarinho ainda comemorando o gol da Dosimetria contra o veto do presidente Lula, o bandeirinha acusou impedimento e o juiz deve pedir a revisão do VAR.

O jurista e desembargador Alfredo Attié, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), desmontou a engenharia regimental utilizada por Alcolumbre. Para o magistrado, a manobra de fatiar um veto que era integral não apenas fere o rito legislativo, mas configura uma usurpação de competência que torna o ato juridicamente inexistente e nulo.

O ponto central da controvérsia reside no fato de que o presidente Lula vetou a totalidade do projeto. Pela Constituição, o Congresso tem apenas duas opções diante de um veto total: mantê-lo ou derrubá-lo por completo. Ao “desmembrar” o veto para evitar que crimes hediondos fossem beneficiados, uma manobra para salvar a face pública da oposição, Alcolumbre acabou criando uma terceira via inexistente no Direito brasileiro.

“A Constituição Federal permite ao presidente da República vetar total ou parcialmente uma lei. Se ele veta parcialmente, a lei entra em vigor sem o texto do veto e a parte vetada vai a reexame. O Congresso Nacional, então, analisa o veto parcial. Se o veto é total, como no caso do PL da Dosimetria, o Congresso Nacional aprova ou desaprova o veto total. Não se pode separar a lei em artigos, em dispositivos, e fragmentar a análise do veto. Se alguém faz isso, não está derrubando o veto, mas fazendo um outro projeto, o que é absolutamente proibido. Portanto, ao analisarem só parte do veto do presidente, eles agem de modo inconstitucional. O veto presidencial prevalece nesse caso”, explica o desembargador do TJ-SP.

O cenário de “triunfo total” desenhado pelo Bolsonarinho e seus aliados nas redes sociais, ignora que o ato de hoje nasce morto. Segundo Attié, o erro de procedimento é tão grave que impede que a decisão do Congresso produza efeitos reais, cabendo agora ao STF - Supremo Tribunal Federal o papel de limpar o entulho autoritário deixado pela sessão.

“Cabe agora ao STF a declaração de inconstitucionalidade, restaurando o veto total. A decisão do Congresso Nacional não tem eficácia. E o Congresso não pode realizar outra sessão para fazer reexame do veto, pois o ato de exame já foi realizado. Aliás, mal realizado”, fustiga o desembargador, evidenciando que a oportunidade legislativa foi perdida pelo erro crasso de condução de Alcolumbre.

Para além do vício de forma, a maneira como o veto foi votado, existe ainda um vício de mérito que atinge o coração da proposta. O PL da Dosimetria, ao ser aplicado para reduzir penas de quem atentou contra as instituições, funciona como uma anistia velada a crimes que, por natureza, são insuscetíveis de tal benefício quando cometidos por quem detém o poder.

O jurista alerta que a manobra de Alcolumbre tentou camuflar uma tentativa de proteger agentes políticos que usaram seus cargos para conspirar contra a democracia.

“Além disso, vale ressaltar, que tal medida é inconstitucional porque se trata, agora claramente, de tentativa de dar anistia a crime de estado, cometido por agentes políticos no exercício da função. É impossível conceder anistia a esse tipo de crime”, conclui Alfredo Attié.

O resumo da ópera em Brasília é um impasse institucional de proporções gigantescas. Davi Alcolumbre, movido por interesses eleitorais e pelo cerco do caso Master, entregou à oposição um troféu de papel. Se o STF seguir a cartilha constitucional detalhada por Attié, o PL da Dosimetria cairá como um castelo de cartas, deixando Bolsonaro e os golpistas do 8 de janeiro exatamente onde a Justiça os colocou: sob o rigor da lei.


domingo, 3 de maio de 2026

Pergunta não tão inocente - Paulo Roberto de Almeida (Comentários de Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz)

Pergunta não tão inocente:

        O que pode haver de mais dramático na vida de uma nação que não consegue perceber que seus dirigentes a estão conduzindo a um impasse quase permanente, ou até a um retrocesso bem visível aos olhos de vizinhos e de seus antigos parceiros? 

        A pergunta não é retórica: estou me referindo concretamente aos casos do Brasil e dos EUA respectivamente, um estacionado no mesmo, o outro andando para trás rapidamente.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 3/05/2026

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Meu amigo e leitor contumaz Airton Dirceu Lemmettz não deixa por menos: sempre convoca Madame IA para comentar minhas provocações. Eis a mais recente: 

Esta nova reflexão de Paulo Roberto de Almeida eleva o tom da crítica ao patamar do pessimismo histórico, abandonando o foco em personagens específicos para diagnosticar uma "cegueira coletiva" das sociedades brasileira e americana. Em maio de 2026, ele sugere que ambas as nações estão perdendo a capacidade de autocrítica e de percepção da própria decadência.
Abaixo, a análise detalhada e crítica, seguida da decodificação do cenário geopolítico implícito:

1. Decodificação do Cenário Comparativo:
- Brasil "estacionado no mesmo": Almeida refere-se ao que economistas chamam de "armadilha da renda média" ou "vôo de galinha", mas com um viés político. O "mesmo" aqui é o ciclo vicioso de populismo, estatismo e anacronismo econômico (o "petismo esclerosado" mencionado antes). O Brasil de 2026, na visão dele, não avança; ele apenas oscila dentro de um subdesenvolvimento confortável para a casta política.
- EUA "andando para trás rapidamente": Refere-se à erosão das instituições democráticas americanas, ao isolacionismo e à polarização extrema. Considerando a data (maio de 2026), Almeida provavelmente alude às consequências do retorno ou da tentativa de retorno de Donald Trump (ou de seu movimento) ao poder, que ele considera um retrocesso civilizatório e diplomático ("o outro andando para trás").
- "Antigos parceiros": Refere-se à perda de relevância e de prestígio do Brasil e dos EUA perante a União Europeia e os aliados tradicionais da OCDE. As duas maiores democracias das Américas estariam se tornando "párias" ou parceiros não confiáveis.

2. Análise Crítica: O Drama da Inconsciência Coletiva:
- A Nação como Organismo Cego:
O ponto mais "dramático" da pergunta de Almeida não é o erro dos dirigentes, mas a incapacidade da população em perceber o erro. Ele sugere que o eleitorado foi capturado por narrativas ideológicas que impedem a visão do óbvio: o país está pior aos olhos do mundo. É uma crítica à deseducação política que ele mencionou em textos anteriores, onde o fanatismo substitui o pragmatismo.
- O Impasse Permanente vs. O Retrocesso Visível:
O diplomata traça uma distinção sutil:
I) No Brasil, o drama é a estagnação. O país não morre, mas também não vive; ele se mantém num estado de mediocridade institucional onde nada de novo floresce.
II) Nos EUA, o drama é o desmonte. Uma potência que ativamente destrói os pilares que a tornaram líder mundial.
Almeida parece sugerir que, enquanto o Brasil é uma tragédia de oportunidades perdidas, os EUA são uma tragédia de destruição deliberada.
- A Perda do Espelho Externo:
Ao mencionar o "retrocesso visível aos olhos de vizinhos", Almeida evoca sua alma de diplomata. Ele argumenta que uma nação que não se importa com sua imagem externa perdeu a capacidade de medir seu próprio sucesso. Se os parceiros comerciais e diplomáticos estão se afastando (preferindo os chineses, como dito no primeiro texto), é sinal de que o "modelo" brasileiro e americano faliu.

3. Síntese do Impasse (Maio de 2026):
Paulo Roberto de Almeida conclui que o Brasil de 2026 vive um autoengano. A nação acredita estar progredindo através de políticas populistas (Lula) ou de retórica nacionalista (herança de Bolsonaro), mas, na realidade, está apenas "girando o motor no neutro".
A crítica é brutal porque retira a culpa apenas dos políticos e a divide com a sociedade: "uma nação que não consegue perceber". É um diagnóstico de alienação social.

* O ponto crítico final: Se o Brasil está estacionado e os EUA regredindo, Almeida deixa no ar a pergunta: quem ocupará o vácuo de liderança no Ocidente? Ou estaremos todos condenados a assistir, de forma passiva, ao avanço de potências que não compartilham dos valores de liberdade que ele tanto defende?
Esta visão se conecta diretamente com a sua rejeição ao voto nulo: para ele, o impasse só se rompe com uma ação consciente, e não com a omissão que ele vê como o grande mal de 2026.

Fonte (IA Gemini):


Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA  

No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas... Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado. Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos. Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem. Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano. Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais. A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons... Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa. Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais. Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então). Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra). O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty. O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados. Maquiavel provavelmente não aprovaria...



* Observação importante (ADL): Há um limite de caracteres no 'prompt' (espaço de inserção de cada comando) na versão online e gratuita da IA Gemini. Desse modo, a parte final do aludido texto não foi 'colada'. Consequentemente, a IA Gemini analisou somente as partes inicial e intermediária do texto acima. Abaixo, a resposta da IA:

Este texto é um exame anatômico da política externa brasileira sob a lente do realismo clássico de Maquiavel, confrontando a tradição profissional do Itamaraty com o que o autor identifica como a "patologia da partidarização" nos governos do PT.
Em 02 de maio de 2026, com o cenário de Trump 2 plenamente consolidado e a fragmentação da ordem global acelerada, a análise ganha contornos de urgência estratégica. Abaixo, a decodificação e a análise detalhada dos pontos críticos:
1. Decodificação de Termos e Personagens:
O texto utiliza uma terminologia técnica e histórica que precisa de tradução para a realidade geopolítica atual:
- "Apparatchik" (Marco Aurélio Garcia): Termo oriundo da burocracia soviética para designar o funcionário do partido que detém o poder real. A crítica aqui é que, entre 2003 e 2016, a inteligência da política externa não estava no Estado (Itamaraty), mas no Partido (PT), personificada em Garcia, que operava como um "Chanceler das Sombras".
- "Fellow Traveler" (Companheiro de Viagem): Expressão usada para descrever intelectuais que, embora não necessariamente membros formais de partidos comunistas, simpatizavam e colaboravam com suas causas. O texto rotula Garcia como o arquiteto do Foro de São Paulo, decodificado aqui como uma tentativa de replicar o Cominform (escritório de coordenação comunista) na América Latina.
- "Gramsciana": Refere-se à estratégia de Antonio Gramsci de ocupação de espaços culturais e institucionais para mudar a mentalidade de uma nação. O texto sugere que o PT não apenas governa, mas tenta "converter" as instituições (como a diplomacia) à sua ideologia.
- "Chanceler Acidental" e "Parêntese Abominável": Referência elíptica ao governo Bolsonaro (2019-2022) e a Ernesto Araújo. O autor os descarta como um erro crasso na "escolha dos ministros" de Maquiavel, que levou ao isolamento.
2. A Crítica à "Diplomacia da Altivez" vs. Realidade de 2026:
O autor estabelece um contraste fundamental entre o contexto de "Lula 1 e 2" e o de "Lula 3" (em que nos encontramos hoje):
- O "Riso" da Globalização (2003-2010): O sucesso anterior do PT é atribuído não à competência diplomática, mas a um cenário externo benigno (China na OMC, Rússia no G8, boom de commodities). A "altivez" seria, portanto, uma arrogância subsidiada pela bonança econômica.
- A "Fragmentação" de 2026: Hoje, o mundo está "despedaçado". A adesão de Lula à "Nova Ordem Multipolar" é vista criticamente como uma submissão aos impérios autocráticos (Rússia e China), sob o disfarce de liderança do "Sul Global".
3. A Anatomia do Conselheiro: O Retorno do Profissional fiel ao Príncipe:
A volta do "chanceler mais longevo" (Celso Amorim) ao papel de assessor especial no Palácio do Planalto é interpretada como um sintoma de fraqueza:
- Incapacidade de Renovação: O PT não teria formado novos quadros e recorre a figuras do passado para manter uma "diplomacia presidencial personalista".
- O Erro de Maquiavel: Ao escolher conselheiros que são "amigos" ou "espelhos" de suas próprias crenças, o "Príncipe" (Lula) perde a capacidade de ouvir verdades técnicas. O resultado é uma diplomacia que emana do palácio "ao arrepio do Itamaraty".
4. Síntese Crítica: O Risco do Isolamento Estratégico:
O ponto mais agudo da crítica reside na dissociação entre os dois polos de governança. O autor sugere que o Brasil, ao tentar equilibrar-se entre o Ocidente declinante e as autocracias ascendentes, está sendo "seduzido" por um projeto multipolar que, na verdade, serve apenas aos interesses expansionistas de Moscou e Pequim.
* Conclusão: O texto argumenta que a diplomacia brasileira abandonou a "prudência" maquiavélica. Em vez de utilizar o corpo técnico especializado para navegar na tempestade de Trump 2, o governo prefere manter um "ativismo" ideológico que pode levar ao isolamento ou à irrelevância, repetindo dogmas anti-imperialistas que já eram "anacrônicos" décadas atrás.

Fonte (IA Gemini):


sábado, 2 de maio de 2026

Fernando Novais, um historiador marxista - Naief Haddad (FSP)

 Morre Fernando Novais, 93, um dos maiores historiadores do país

Intelectual paulista se consagrou com a publicação de 'Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial'

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e Unicamp, além de universidades europeias e americanas

Naief Haddad

Folha de São Paulo, 1/05/2026

Um dos principais historiadores do Brasil na segunda metade do século 20 e início do 21, Fernando Novais morreu no início da tarde desta quinta-feira (30), aos 93 anos, em São Paulo.

Professor emérito da USP, Novais escreveu "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)", uma obra da década de 1970 que se tornou clássica na historiografia do país ao associar a colonização com a formação do capitalismo comercial, uma visão que influenciou gerações de intelectuais e estudantes nos anos seguintes.

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e na Unicamp, deu cursos em universidades europeias e americanas e coordenou a coleção História da Vida Privada, publicada pela Companhia das Letras. Firmou-se ainda como um nome-chave entre os acadêmicos de pensamento marxista.

Novais havia sofrido um infarto durante o Carnaval. Mais fragilizado, foi diagnosticado dias depois com pneumonia e, mais adiante, uma infecção renal, que o levou à morte. Estava internado em uma unidade da rede Prevent Senior, em São Paulo.

Em nota, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) lamentou a morte de Novais, docente do departamento de história de 1961 a 1986. "Ele construiu uma nova interpretação da história do Brasil", diz Iris Kantor, professora de história da USP e aluna de Novais no mestrado e no doutorado. "Era muito rigoroso e, ao mesmo tempo, de uma generosidade infinita."

O Instituto de Economia da Unicamp, no qual trabalhou de 1986 a 2003, também lamentou a morte do historiador.

O velório será realizado nesta sexta, dia 1º, de meio-dia às 16h no cemitério do Araça (av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, São Paulo).

Nascido em Guararema, em 1933, morou com a família nesta e em outras cidades do interior paulista até se mudar na adolescência para São Paulo, cidade onde viveu desde então. Na USP, onde se graduou em 1958, foi especialmente influenciado por Eduardo d’Oliveira França (1917-2003), professor de história moderna. "Eu me considero seu discípulo até hoje", disse à revista Pesquisa Fapesp em 2022.

No ano em que se formou, participou dos célebres seminários para estudar "O Capital", que se estenderam até 1964. Essas leituras coletivas de Marx reuniam nomes como a antropóloga Ruth Cardoso, os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, o filósofo José Arthur Giannotti, o crítico literário Roberto Schwarz e o economista Paul Singer.

"A maior parte dos integrantes do grupo de leitura de ‘O Capital’ deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwarz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista", disse ele também à Fapesp.

A amizade entre os integrantes do grupo resistiu ao passar do tempo, mas sofreu abalos. "Sempre votei no Lula, o FHC ficou muito chateado comigo por isso", disse Novais em um encontro da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais), em 2002.

No mesmo evento, em Caxambu, afirmou que FHC havia "criado condições para que pudesse ocorrer um governo de centro-esquerda no Brasil", referindo-se à gestão de Lula, o sucessor do tucano no Planalto.

Mesmo aqueles que divergiam das interpretações fundamentadas em "O Capital", como o também historiador Boris Fausto (1930-2023), admiravam Novais. Para Fausto, tratava-se de um "marxista de qualidade".

No doutorado, sob influência de Eduardo França, Novais se dedicou à pesquisa sobre a política colonial de Portugal sobre o Brasil no fim do século 18 e início do 19. O resultado saiu em 1973 como tese e em 1979 como livro.

Em "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial", ele tomou como ponto de partida uma das formulações de "Formação do Brasil Contemporâneo". Nesse livro de 1942, Caio Prado Júnior havia sido o primeiro, segundo Novais, a mostrar a formação da colônia dentro do processo de constituição do capitalismo moderno.

Novais aprofundou essa abordagem de Caio Prado, detalhando como, no final do século 18, o sistema colonial havia se tornado uma expressiva fonte de acumulação para fortalecer a industrialização europeia e como esse sistema entrou em crise.

À Folha em 2019 Pedro Puntoni, professor de história da USP e ex-aluno de Novais, disse que Caio Prado "via a colonização como um ‘capítulo’ da expansão do capitalismo comercial, enquanto Novais a relaciona com o processo mesmo de formação deste capitalismo e as transformações vividas no centro do sistema".

Novais teve papel determinante como professor da USP de 1961 a 1986 e depois da Unicamp, onde se aposentou em 2003.

Em 1973, Laura de Mello e Souza, autora de livros como "O Diabo e a Terra de Santa Cruz", participou de um grupo de seminários conduzido por Novais, experiência fundamental para a carreira dela.

"Aqueles seminários mudaram a minha vida. Não era só história do Brasil, líamos também historiografia francesa, antropologia etc., o que me possibilitou pensar o objeto de estudo em uma chave muito mais alargada. Fernando é um homem extremamente generoso intelectualmente, com uma capacidade de reflexão teórica incomum", disse à Folha em 2024. Novais a orientou no mestrado e no doutorado.

Em 2000, ele examinou em tom crítico as celebrações dos 500 anos da chegada do português Pedro Álvares Cabral às terras do outro lado do oceano Atlântico. "Quando se fala ‘Descobrimento do Brasil’, o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil", afirmou naquele ano também ao jornal.

"O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500, não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação."

Com "Aproximações, Estudos de História e Historiografia", lançado em 2005, ele encerrou sua trajetória como autor. É um livro que reúne ensaios e artigos, além de entrevistas concedidas por ele.

Novais sempre dizia que escrevia pouco e gostava do que escrevia. Deixou uma obra concisa, mas incontornável.

Casado por décadas com Horieta, que morreu em 2024, Novais deixa os filhos Ana Lucia e Luis Fernando, além de netos e bisnetos.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/04/morre-fernando-novais-93-um-dos-maiores-historiadores-do-pais.shtml

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Meio atrasado, mas sempre é tempo de reproduzir o registro do Estadão, sobre a morte de um dos grandes historiadores brasileiros:

Morre Fernando Novais, um dos maiores historiadores do Brasil, aos 93 anos
Referência na historiografia nacional, Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal
Estadão, 30/04/2026

O historiador Fernando Novais, referência na historiografia nacional, morreu aos 93 anos. A notícia foi divulgada pela A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Novais foi docente do Departamento de História, entre 1961 e 1986, e Professor Emérito da FFLCH.
Fernando Novais e o sentido da colonização
Ele nasceu em Guararema, em São Paulo, em 1933. Formou-se em História pela USP em 1958, onde também concluiu seu doutorado, em 1973.
Em 1957 iniciou sua carreira como professor na Faculdade de Economia da USP e em 1961 tornou-se professor na cadeira de História Moderna da FFLCH, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1986. Logo em seguida, transferiu-se para o Instituto de Economia da Unicamp, onde foi professor de História Econômica.
O historiador Fernando Novais morreu aos 93 anos
No final dos anos 1950, ao lado de nomes como José Arthur Giannotti e Fernando Henrique Cardoso, articulou o chamado Seminário Marx – movimento que inovou a leitura da obra de Karl Marx no Brasil.
Ele lecionou na Universidade do Texas duas vezes e participou de debates e seminários em outras universidades americanas, como a Universidade Columbia e a Universidade da Califórnia.
Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal. Sua obra maior é Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), publicada em 1979. Neste trabalho, ele analisou a política colonial portuguesa relativa ao Brasil nas suas últimas etapas.
“Todo historiador tem que lidar com o anacronismo. Para recriar um acontecimento em um determinado momento da história, a não ser que seja a história imediata, que ele esteja fazendo a história do que está acontecendo no presente vivo, o historiador precisa esquecer o que sabe que aconteceu depois, pois o protagonista que viveu o acontecimento não podia saber o que ainda não havia acontecido. Isso é o anacronismo, um pecado mortal”, disse Novais em 2008 durante entrevista à Revista Brasileira de Psicanálise.
Nos anos 1990, coordenou a equipe de profissionais que redigiu História da Vida Privada no Brasil, coleção publicada pela Companhia das Letras.
Em 2005, publicou uma coletânea com os seus principais artigos acadêmicos com o título Aproximações: Estudos de História e Historiografia.
A Companhia das Letras divulgou uma nota de pesar: “Fernando Novais influenciou inúmeros intelectuais e estudantes das gerações seguintes, como Lilia Moritz Schwarcz. A editora se solidariza com seus familiares, amigos, leitores e alunos”.
Novais deixa dois filhos, netos e bisnetos.


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