O governo Lula aprofunda o que melhor sabe fazer: aumentar o déficit público e agravar a situação fiscal do país, no futuro imediato e no curto, médio e longo prazo.
Copiado de Ricardo Bergamini:
Tesouro deve rever análise para garantir novo empréstimo aos Correios após críticas do TCU
No fim de dezembro de 2025, os Correios tomaram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos
Redação Jornal de Brasília, 04/07/2026
IDIANA TOMAZELLI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O Tesouro Nacional deverá rever procedimentos para conceder garantia soberana ao novo empréstimo dos Correios, após o órgão virar alvo do TCU (Tribunal de Contas da União) pela conduta na primeira operação de salvamento da estatal, no fim do ano passado.
A corte de contas abriu um processo para apurar a eventual responsabilidade de gestores do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por entender que a análise de risco não foi feita com a profundidade requerida em casos dessa magnitude.
No fim de dezembro de 2025, os Correios tomaram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco bancos, dois deles controlados pelo governo federal (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil). A garantia soberana significa que a União vai assumir os pagamentos em caso de inadimplência.
Em grave crise financeira, os Correios não tinham capacidade de pagamento suficiente para fazer jus ao aval do Tesouro, e o governo precisou flexibilizar regras para permitir à empresa acessar o empréstimo com base nos resultados esperados de seu plano de reestruturação.
Como o pagamento em dia das prestações dependerá do sucesso do plano, o TCU esperava que o governo fizesse uma análise mais detalhada de sua consistência, inclusive avaliando as premissas adotadas. Na visão da corte de contas, isso não aconteceu, o que levou a União a assumir um “risco fiscal relevante”.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, a garantia foi concedida apenas dois dias após o envio formal do contrato ao Tesouro Nacional. O TCU ressaltou que a versão definitiva do plano foi encaminhada apenas três dias antes da tomada de decisão. Para o tribunal, houve apenas verificação formal da existência de fluxos de caixa, e a rapidez da análise não foi condizente com sua complexidade.
Matéria completa clique abaixo:
https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/economia/tesouro-deve-rever-analise-para-garantir-novo-emprestimo-aos-correios-apos-criticas-do-tcu/
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
segunda-feira, 6 de julho de 2026
Tesouro deve rever análise para garantir novo empréstimo aos Correios após críticas do TCU - Idiana Tomazelli (Jornal de Brasília)
domingo, 5 de julho de 2026
Semana de 28/06 a 4/07 no Diplomatizzando comentada por Madame IA - Paulo Roberto de Almeida
Semana de 28/06 a 4/07 no Diplomatizzando comentada por Madame IA
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Apenas transcrição dos links originais no blog Diplomatizzando.
- A recente semana (de 28/junho a 04/julho/2026) de participações da Madame IA no blog Diplomatizzando, em ordem cronológica:
O blog Diplomatizzando e a Inteligência Artificial (via Airton Dirceu Lemmertz):
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/o-blog-diplomatizzando-e-inteligencia.html
Madame (Demoiselle) IA comenta as postagens da semana no Diplomatizzando (via ADL):
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/madame-demoiselke-ia-comenta-as.html
Relembrando os combates da História - Paulo Roberto de Almeida:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/relembrando-os-combates-da-historia.html
Blog Diplomatizzando: Madame IA comenta o primeiro semestre de 2026, via Airton Dirceu Lemmertz:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/blog-diplomatizzando-madame-ia-comenta.html
Um exercício interessante, via Madame IA: comparar PRA e ADL:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/um-exercicio-interessantevia-madame-ia.html
Balanço do Diplomatizzando no primeiro semestre de 2026 - Madame IA e Paulo Roberto de Almeida:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/balanco-do-diplomatizzando-no-primeiro.html
Terror russo na Ucrânia: o mundo não pode ficar em silêncio, mas o governo Lula apoia objetivamente o criminoso de guerra e contra a humanidade: Madame IA comenta:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/terror-russo-na-ucrania-o-mundo-nao.html
Notícias recentes e relevantes sobre o Itamaraty, na visão de madame IA (via Airton Dirceu Lemmertz):
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/noticias-recentes-e-relevantes-sobre-o.html
- "Uma semana com 8 participações da IA Gemini." (ADL).
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5387, 5 julho 2026, 1 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (5/07/2026; link: ).
Madame IA se dedica a desmantelar os quatro anos de bolsolavismo diplomático esquizofrênico
Madame IA sintetiza, interpreta e apresenta tudo o que eu penso sobre o período esquizofrênico do bolsolavismo diplomático, o supremo horror que se abateu sobre o Itamaraty, dominando por uma súcia de amadores ignorantes, operadores incompetentes e fanáticos da extrema-direita mais estúpida ja conhecida em 500 anos de Brasil:
JMB: https://www.youtube.com/post/UgkxX74eBlqZvBHlSDFDYjemDaLNb9dU7ANI
A mediocridade política e moral que se abateu sobre o Brasil no interregno obscurantista da gestão de Jair Messias Bolsonaro representou, sem sombra de dúvida, o período de maior rebaixamento institucional, cultural e diplomático da nossa história republicana. Como analista e diplomata de carreira formado no rigor da racionalidade e das liberdades democráticas, considero um dever de resistência intelectual radiografar o desastre absoluto desse projeto de poder capitaneado por um capitão expulso das fileiras ativas por indisciplina e guindado ao topo por um acidente da história. Trata-se da crônica de uma demolição programada, onde a inépcia administrativa se consorciou com a má-fé ideológica para transformar uma potência emergente em um pária global definitivo. O bolsonarismo não foi uma doutrina política estruturada; foi o triunfo do ressentimento, da ignorância enciclopédica e do barbarismo civilizatório. Na condução dos negócios do Estado, o ex-mandatário demonstrou uma incapacidade crassa de compreender os rudimentos da governança pública, preferindo o cercadinho da bajulação à solenidade do gabinete presidencial. Sob o comando desse tenente medíocre, covarde e preguiçoso — incompetente até mesmo para a formulação técnica de seus próprios ensaios de sedição institucional —, a administração pública foi loteada para uma súcia de oportunistas, fanáticos ideológicos e operadores do fisiologismo mais rasteiro. O resultado econômico foi o agravamento da miséria, a inflação dos alimentos, a destruição do teto de gastos e o endividamento eleitoreiro que comprometeu as finanças públicas sob o pretexto de uma caridade de última hora. O ápice da perversidade bolsonarista manifestou-se na condução criminosa da crise sanitária da Covid-19. Diante de uma emergência de saúde global que exigia coordenação científica, liderança compassiva e racionalidade burocrática, o chefe de Estado optou pelo charlatanismo explícito. A negação da gravidade da pandemia, o deboche público das vítimas que asfixiavam nos hospitais, o boicote aberto à aquisição de vacinas e a promoção ativa de elixires milagrosos ineficazes — como a cloroquina e a ivermectina — transformaram o Palácio do Planalto no epicentro de um experimento de obscurantismo medieval. A recusa em responder aos e-mails da Pfizer enquanto se abriam canais heterodoxos para intermediários suspeitos de propina na compra de imunizantes expôs as entranhas de uma gestão que colocava o cálculo político e a desonestidade acima da sobrevivência de seus cidadãos. Centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas se o país não estivesse sob a égide de um psicopata administrativo. No plano internacional, o estrago perpetrado pelo bolsonarismo foi cirúrgico e devastador. A política externa brasileira, tradicionalmente pautada pelo pragmatismo, pelo multilateralismo econômico e pela busca do equilíbrio universal, foi criminosamente sequestrada pelo que chamei de "bolsolavismo" — uma excrescência pseudofilosófica baseada nos delírios geopolíticos de um astrólogo de internet residente na Virgínia. Sob a liderança do pior chanceler da história do Itamaraty, o Brasil abdicou de sua altivez soberana para se engajar em um alinhamento automático, humilhante e dogmático com o trumpismo mais radical. O ex-presidente rebaixou a diplomacia ao nível de uma milícia digital global, hostilizando gratuitamente nossos maiores parceiros comerciais, como a China, o bloco da União Europeia e os vizinhos da América Latina. O isolamento deliberado foi celebrado de forma patética com a declaração de que seria bom o Brasil ser um pária internacional. O custo desse isolamento foi pago pelos exportadores e pela credibilidade do passaporte brasileiro. A sanha destrutiva estendeu-se ao patrimônio ambiental e à imagem ecológica do Brasil, ativos estratégicos cruciais nas relações internacionais contemporâneas. A política de "passar a boiada" traduziu-se no desmonte deliberado das estruturas de fiscalização do Ibama e do ICMBio, no incentivo indisfarçável ao garimpo ilegal em terras indígenas e no avanço exponencial do desmatamento criminoso na Amazônia. Ao transformar o Ministério do Meio Ambiente em um balcão de negócios para madeireiros ilegais, o governo desmoralizou o país nos fóruns globais, inviabilizou a ratificação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia e afugentou bilhões de dólares em investimentos internacionais verdes. A ignorância arrogante com que o ex-presidente tratava líderes europeus sobre a questão climática apenas reforçava a percepção global de que o Brasil era governado por um chefe tribal hostil à ciência. O comportamento ético e o nepotismo institucionalizado completam o quadro de degradação. O homem que se elegeu sob a falsa promessa de combater o desvio de conduta pública passou quatro anos empenhado em obstruir investigações para blindar seus familiares. A interferência escancarada na Polícia Federal, a demissão de diretores da Abin, o desmonte dos órgãos de controle e o uso de sigilos de cem anos para esconder os gastos do cartão corporativo e as reuniões com pastores negociantes de barras de ouro no Ministério da Educação desnudaram a farsa moralista do regime. O escândalo das joias sauditas apropriadas ilegalmente e desviadas para venda no exterior em malas de assessores militares escancarou a mentalidade de uma liderança que confundia o patrimônio do Estado com o espólio de saques pessoais. Finalmente, o bolsonarismo revelou sua verdadeira face autoritária no epílogo de seu mandato. Incapaz de aceitar as regras do jogo democrático que o sustentou por três décadas no baixo clero parlamentar, o ex-presidente engajou-se em uma campanha sistemática de difamação do sistema eleitoral e de ataques histéricos às instituições judiciais. A covardia moral que sempre o caracterizou atingiu o ápice quando, ao perceber a derrota inescapável, fugiu para os Estados Unidos antes do término do mandato, abandonando seus seguidores radicalizados à própria sorte. O trágico desfecho do vandalismo e da tentativa de insurreição burocrática em Brasília foi o subproduto direto de quatro anos de incitação ao ódio e de pregação golpista. O julgamento da história já foi emitido: Jair Bolsonaro foi o principal artífice da autofagia institucional brasileira, um líder desprovido de dignidade republicana cujo legado é apenas a demolição e o desprezo dos homens sensatos.
===
LILS: https://www.youtube.com/post/UgkxY5--DSibdoXbnhA_Qe_KZu4hzDtBshUj
A tragédia institucional do Brasil contemporâneo reside na nefasta dinâmica de um pêndulo que oscila perpetuamente entre o obscurantismo miliciano e a mistificação demagógica. Superado o interregno do bolsonarismo destrutivo, o país reergueu ao topo do aparato estatal a figura senil de Luiz Inácio Lula da Silva, um líder político aprisionado no anacronismo ideológico dos anos 1970. Como analista comprometido com o rigor da racionalidade e com o realismo econômico, constato com profundo desalento que o atual mandatário converteu o Palácio do Planalto em um palco de feira para a revenda de ilusões fiscais e ressentimentos históricos. Trata-se da crônica de um retrocesso anunciado, capitaneado por um monarca sindicalista que confunde o orçamento da República com o caixa de seu partido e a diplomacia do Estado com o proselitismo de palanque. O lulopetismo contemporâneo não possui um projeto de futuro; é uma infatigável máquina de nostalgia burocrática e redistribuição de privilégios corporativistas. Na condução da economia nacional, o atual presidente exibe uma ignorância crassa dos mecanismos de mercado, tratando a responsabilidade fiscal como um capricho herético de banqueiros e o teto de gastos como um estorvo à sua sanha gastadora. Sob a égide de sua atual gestão, o Brasil assiste ao renascimento do pior desenvolvimentismo de compadrio, onde a gastança pública desenfreada é maquiada com malabarismos contábeis. O inchaço da máquina pública, com ministérios loteados para acomodar o fisiologismo partidário, e o apetite voraz por aumentos disfarçados de impostos sufocam a produtividade do país. Em vez de reformas estruturais urgentes para destravar a infraestrutura, o governo prefere o endividamento e a expansão do crédito artificial pelos bancos públicos, reeditando a mesma receita irresponsável que mergulhou o país na recessão catastrófica da década passada. O oportunismo retórico do mandatário atinge o ápice na sua sistemática instrumentalização da justiça social. Lula erigiu um monopólio moral fictício sobre a pobreza, utilizando programas de transferência de renda não como portas de saída para a emancipação econômica, mas como instrumentos permanentes de dependência eleitoral. Enquanto discursa contra a desigualdade em jantares nababescos no exterior, sua bancada atua para blindar os privilégios da alta burocracia estatal e subsidiar setores industriais ineficientes escolhidos a dedo. O combate à corrupção, bandeira histórica que o petismo outrora ostentava, foi sepultado sob uma espessa camada de cinismo institucional. A reabilitação política de figuras carimbadas do submundo fisiológico e o desmonte dos mecanismos de controle interno e de governança das empresas estatais escancaram que a moralidade pública continua sendo tratada como um mero detalhe estético descartável pela liderança governante. No plano internacional, o estrago perpetrado por esta encarnação do lulopetismo assume contornos de pura comédia diplomática, não fosse o custo real para a credibilidade do Itamaraty. A política externa brasileira capitulou diante de um "antiamericanismo infantil" e de um "terceiro-mundismo" jurássico, ambos reciclados por assessores ideológicos que parecem habitar uma realidade paralela da Guerra Fria. Movido por uma vaidade senil e pela ambição patética de conquistar um Prêmio Nobel da Paz, o mandatário brasileiro transformou a tradicional neutralidade pragmática do país em uma cumplicidade vergonhosa com autocracias globais. Suas declarações desastrosas sobre a invasão russa na Ucrânia, equiparando agressor e agredido, e sua vergonhosa complacência com a ditadura venezuelana de Nicolás Maduro — cuja fraude eleitoral escancarada foi tratada pelo presidente com uma frivolidade ultrajante — rebaixaram o Brasil ao papel de linha de frente dos regimes mais retrógrados do planeta. Essa sanha ideológica estende-se à obsessão pelo fortalecimento de blocos disfuncionais como o BRICS, operando como uma engrenagem auxiliar para os interesses geopolíticos de Pequim e Moscou. Ao insistir em discursos anacrônicos contra a hegemonia do dólar e ao sabotar deliberadamente a conclusão do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia devido a melindres protecionistas disfarçados de nacionalismo, Lula sabota o próprio agronegócio e a inserção das indústrias nacionais nas cadeias globais de valor. A diplomacia presidencial, outrora respeitada por sua sofisticação técnica, converteu-se em um festival de improvisos vergonhosos em viagens internacionais caríssimas, onde o presidente emite opiniões superficiais sobre conflitos complexos no Oriente Médio, gerando crises diplomáticas artificiais e expondo o país ao ridículo geopolítico. No cenário doméstico, a gestão lulopetista caracteriza-se pelo ressentimento institucional e pela vingança política. Incapaz de pacificar uma nação polarizada, o mandatário alimenta o conflito ao governar exclusivamente para sua bolha ideológica, dividindo o país entre "nós e eles" a cada pronunciamento oficial. O aparelhamento descarado de agências reguladoras, de fundos de pensão e de tribunais superiores com militantes e advogados de estrita confiança pessoal desidrata a autonomia das instituições republicanas, submetendo o Estado de Direito ao capricho da hegemonia partidária. As promessas de pacificação nacional revelaram-se uma imensa fraude eleitoral, destinada apenas a pavimentar o retorno de um grupo político que encara o poder não como um mandato temporário de serviço, mas como um direito de propriedade histórica. O julgamento histórico da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva será implacável com a sua incapacidade de se elevar à estatura de um estadista moderno. Ao escolher o caminho do populismo fiscal, da cumplicidade com o autoritarismo internacional e do divisionismo social interno, o presidente demonstra que seu único legado real é a perpetuação da mediocridade nacional. Ele permanece como o símbolo máximo de um Brasil que se recusa a crescer, preferindo o conforto das velhas mentiras corporativistas à coragem das reformas liberais e cosmopolitas que poderiam, finalmente, inserir o país no concerto das nações desenvolvidas.
EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque - O Estado de S. Paulo
EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque
Capa do video - EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque
O passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência.
O Estado de S. Paulo, 4/07/2026
BRASÍLIA E SÃO PAULO — Esse é o momento mais grave das relações entre o Brasil e os Estados Unidos em mais de 200 anos. O assombro e a perplexidade com a aparente falta de diálogo, a aposta no unilateralismo e as mudanças provocadas pela presidência de Donald Trump, além do comportamento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estão entre os ingredientes dessa situação e são descritos por diplomatas entrevistados para o projeto Memórias da Diplomacia da Brasileira, uma parceira do Museu da Pessoa e da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).
O Estadão consultou uma dezena dessas entrevistas, feitas sob a curadoria do jornalista e historiador Mauro Malin. Os entrevistados, como o embaixador Rubens Ricupero, serviram nos EUA e contaram a sua experiência, bem como avaliaram a atual situação da relação entre os dois países após o tarifaço de Trump. “Em Washington, o êxito ou não do teu trabalho depende das condições do país que você representa e eu, quando era embaixador lá, já tinha começado no Brasil a investigação do impeachment do (presidente Fernando) Collor. E depois houve o agravamento da inflação; o Brasil estava muito mal”, disse Ricupero
Na época, segundo o diplomata, o país latino-americano mais festejado nos EUA era o México, em razão do acordo de livre comércio. “Depois, admiravam muito o Chile. A própria Argentina de (Carlos) Menem. O Brasil era visto como um país muito complicado”, contou. A solução para lidar com essa imagem foi procurar think tanks e organizar seminários na embaixada brasileira, em Washington.
“E foi uma experiência boa. Agora, eu acho que não, com esse presidente que eles têm hoje, o Trump, é o momento mais grave do relacionamento com o Brasil. Nunca vi nada parecido em 200 anos de relação”, afirmou. Para ele, não há nada que se assemelhe ao momento atual. “Porque mesmo no golpe de 1964, que eles participaram da conspiração, mas não eram ostensivos, eles faziam isso clandestinamente. Dessa vez, é público, notório, ostensivo, com declarações de apoio a (Jair) Bolsonaro. Se isso continuar, é muito grave, porque nós vamos chegar às eleições e eles vão querer influir sobre as eleições”, disse Ricupero.
Para ele, no entanto, o tiro vai sair pela culatra. “Porque vai ajudar mais o presidente Lula do que o Bolsonaro, mas é uma tensão muito grande na relação com o Brasil.” O embaixador lembrou outro momento grave das relações entre os dois países: os meses que antecederam o golpe de estado de 1964. Em dezembro de 1962, ele testemunhou a visita inesperada ao Brasil de Robert Kennedy. Irmão do presidente americano John Kennedy, Robert era o chefe do Departamento de Justiça.
“Ele veio para dar um aperto no (presidente João) Goulart, porque os americanos já estavam conspirando no Brasil contra o governo Goulart, que era um governo de esquerda.” Ricupero contou que já estava deitado, quando o ministro das Relações Exteriores, Hermes Lima, que estava no Rio, telefonou e disse: “Olha, vai chegar o Robert Kennedy, você convoca aí os automóveis da garagem e vai recebê-lo na base militar (de Brasília).”
Ricupero disse: “Mas, ministro, como é que eu vou? Eu sou terceiro-secretário, é a função mais modesta da carreira”. Lima respondeu: “Não, você diz que é o representante do governo brasileiro. Porque eu não posso, estou no Rio de Janeiro e não vou chegar a tempo”. Ricupero foi lá. Robert Kennedy chegou às 2 horas. O embaixador americano em Brasília, Lincoln Gordon, estava ali. De manhã, às 11 horas, Robert foi recebido por Goulart no Palácio da Alvorada.
“Eu nunca soube, aliás nunca ninguém soube o que aconteceu. Apenas agora, 50 anos depois, os americanos publicaram um memorando de 11 páginas em que o Lincoln Gordon conta a conversa, porque na conversa só estava o João Goulart, do nosso lado não tinha ninguém, nem intérprete. E do lado americano tinha o Robert Kennedy, o Lincoln Gordon e o intérprete americano (José de Seabra), que eu conheci até por acaso. Então ele conta, é um aperto enorme, que ele vem dizer: ‘Olha, se isso continuar, você não conta com a nossa ajuda’. Ele diz claramente, ele só não diz que iam dar o golpe, mas é bem próximo disso. É uma entrevista dramática. Eu estava do lado de fora, eu não assisti.”
A dramaticidade dos eventos lembrados por Ricupero foi traduzida para o presente pelo também embaixador Paulo Sérgio Traballi Bozzi. “Estamos enfrentando o leão da montanha. O cara (Trump) é muito poderoso, um homem que tem um porta-aviões que leva 6 mil sujeitos embarcados, e tem 160 aviões de todo tipo e tamanho e sai de casa com uma força-tarefa, um submarino nuclear. Não se pode brincar com esse cara, não dá para brincar com esse cara. Não estou dizendo que temos que nos submeter à vontade dele. Não é isso.”
Além do período que antecedeu a derrubada de Goulart, os diplomatas entrevistados para o registro da memória do Itamaraty lembraram outros momentos das relações entre o Brasil e os Estados Unidos e apontaram também o papel do Brasil nesses episódios. A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej trabalhou em Washington no tempo em que a embaixador do Brasil na capital americana era Marcílio Marques Moreira. “A simpatia pelo Brasil era tanta que o diplomata do Departamento de Estado coava cafezinho, na mesa dele, para me servir um café quando eu chegava. Não é porque eu sou bonitinha, é porque o Brasil tinha um peso, que em algum momento deixou de ter nos EUA.”
Baremboim-Salej atribuiu essa situação ao que chamou de a “politização, a ‘petização’ da diplomacia, em particular da embaixada em Washington”. Para ela, houve muita “pisada de bola” do governo Lula, como o apoio à candidata democrata Kamala Harris nas eleições presidenciais de 2024, quando ela foi derrotada por Trump. Para ela, “não tinha nada que dizer que queria que a Kamala ganhasse as eleições". “Isso é um tipo de ingerência em outros países, que não faz parte da diplomacia brasileira, não podia ter falado e pesou; é um dos fatores que criou o começo do mal-estar com o atual governo Trump.”
O embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima trabalhava em Washington em outro momento importante da história do hemisfério: quando a Argentina decidiu invadir as Ilhas Malvinas, em 1982. “Essa questão do conflito das Malvinas foi muito importante, porque o Brasil tinha um acordo, que se chamava Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Isso significava que se você tivesse uma potência de fora do hemisfério, de fora das Américas, atacando algum país (das Américas), como aconteceu, todos os países das Américas deveriam se apoiar por esse tratado”, contou.
Mas os americanos não fizeram isso. Os EUA decidiram apoiar o Reino Unido e cederam a base da Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, para os britânicos. O Brasil não apoiou os argentinos, mas, de acordo com o diplomata, a decisão de Washington “abalou a confiança na própria liderança americana”. “E mostrou que nós teríamos que buscar um entendimento a respeito da segurança hemisférica.”
Moreira Lima conta que o episódio ajuda a “entender o funcionamento dos poderes, entender o jogo”. “Perceber que, de repente, existe um tratado, acredita-se naquilo e que os americanos iriam apoiar os países da região, mas eles concedem todo o apoio à Inglaterra. Foi interessante. Para o Brasil foi um enorme desafio”, concluiu.
Na época, o Itamaraty adotou uma postura equidistante e conseguiu se credenciar para cuidar dos interesses dos dois beligerantes. Quatro décadas depois, o diplomata se espanta com a situação atual da diplomacia. “Nunca imaginei que fosse viver esse momento, um momento em que estamos nos afastando de uma ordem que tinha seu fundamento no direito.” Segundo ele, de repente, o mundo entrou em um terreno do unilateralismo, que significa uma desconstrução de séculos de tudo que o Brasil contribuiu – até com ajuda dos americanos – para construir.
Mário Vilalva, que foi foi cônsul-geral em Boston (EUA) entre 1996 e 1999, realçou a importância da “facilidade de acesso” para o trabalho dos diplomatas. “Se você não tiver essa facilidade, não consegue nada. Veja hoje o que está se passando aí, que ninguém consegue conversar com o governo norte-americano no momento, não tem facilidade de acesso neste momento”, disse.
O embaixador comparou a crise a partir da chegada ao poder de Trump ao momento em que viveu nos Estados Unidos. Também, naquela época, era preciso levar aos atores políticos e econômicos dos EUA “o conhecimento sobre o que era o Brasil” com o objetivo de evitar que legislações americanas comprometessem as exportações brasileiras. “Hoje, passamos por uma situação muito parecida, em que há um presidente nos Estados Unidos (Trump) que conhece pouco o Brasil e, quando você conhece pouco, você se arrisca a tomar medidas que não são justas”.
O diálogo e a estratégia de levar conhecimento do Brasil aos EUA foi o que fez o embaixador Carlos Alberto Lazary Teixeira. “Fui diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida. Ali desenvolvemos um trabalho importante de projeção do Brasil, de participação em feiras, toda a área comercial”. Esse interesse depende não apenas da diplomacia, mas do momento do País.
Teixeira conta que, após o Plano Real (1994), o interesse dos americanos pelo Brasil cresceu. “Eu fazia oito palestras por ano. No momento em que houve o lançamento do Plano Real, eu fui convidado, no ano seguinte, a fazer mais de 50 palestras. O Brasil entrou no radar com o Plano Real.”
Além da economia, temas como a proliferação de armas atômicas no hemisfério também despertavam a atenção dos americanos. E foram motivo de atritos entre os países. O embaixador Paulo Roberto Almeida, que trabalhou entre 1999 e 2003 nos EUA, contou que, naquela época, o “grande inimigo do Brasil era John Bolton”, descrito por ele como o homem forte do Departamento de Estado. Era Bolton, segundo Almeida, quem proibia a exportação de qualquer material sensível ao Brasil.
“Não estou falando de materiais militares, mas sim de supercomputadores, por exemplo, que você usa para definir clima, ambiente. Você precisa de supercomputadores para fazer a previsão de chuvas. E o John Bolton achava que os supercomputadores seriam usados para simulações de explosões nucleares clandestinas. Então, vetava tudo.” Isso ocorrido, de acordo com Almeida, porque o Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.
A reação americana ao programas nuclear e aeroespacial brasileiros começou ainda nos anos 1970, quando, durante o regime militar, o País assinou um acordo de cooperação espacial com a França para o lançamento de foguetes, mas que, para os americanos, podia significar mísseis. A mesma oposição ocorreu quando o Brasil firmou o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, para a construção de reatores nucleares, além das pesquisas sobre a tecnologia de enriquecimento de urânio.
“Os americanos fizeram enormes pressões sobre o Brasil em 1975, 1976 e 1977, sendo contrários a esse acordo Brasil e República Federal Alemã”, disse o diplomata. Essa foi uma das causas que levou o presidente Ernesto Geisel cancelar o acordo de cooperação militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos. “Era uma cooperação antiga, vinha da Segunda Guerra Mundial”, lembrou.
Para ele, é preciso que o Brasil se lembre que é uma potência média, que deveria manter uma posição “imparcial, neutra, autônoma, em relação aos conflitos entre grandes potências”. Mas, segundo ele, não é o que Lula fez. Primeiro com os Brics, quando se uniu à China e à Rússia. Depois, ao apoiar “todas as eleições dos seus colegas esquerdistas na América Latina, desde 2003″. “Ou seja, interferiu nos assuntos internos de outros Estados.”
Ele citou ainda a declaração de Lula de apoio à candidata democrata Kamala Harris. Tudo isso aumentaria os desafios da atual situação. “E o Brasil, como potência média, devia estar unido a outras potências médias contra as violações do direito internacional pelas grandes potências. Infelizmente, não é o que está acontecendo hoje”, afirmou.
Seu colega, Tadeu Nascimento Valadares, afirmou que os desafios estão além dos desencontros entre a gestão de Trump e a de Lula. “Os desafios são muito claros: o que nós estamos vivendo não é só um momento; estamos vivendo uma época de grandes riscos. E por quê? Simplificando a mais não poder, vivemos uma época que os historiadores da longa duração chamam de um momento de mudança de paradigmas ou de mudança de transição de hegemonias.”
E como esse processo atinge a América Latina? Para ele, a região continua sendo dominada pelos EUA na área militar, por meio da projeção de sua força, como ocorreu na Venezuela, mas, ao mesmo tempo a “hegemonia comercial de cooperação hoje, apesar das diferenças de regime, já é chinesa”. O diplomata lembrou que “transições de hegemonia foram sempre resultantes de enormes conflitos bélicos”. “Esse é o quadro geral dos grandes desafios da diplomacia brasileira”, concluiu.
sábado, 4 de julho de 2026
Em torno de uma guerra de agressão que já entrou no seu quinto ano - Paulo Roberto de Almeida
Em torno de uma guerra de agressão que já entrou no seu quinto ano:
Paulo Roberto de Almeida
Falando como simples cidadão, não como diplomata.
Acredito que qualquer pessoa de bom senso sabe distinguir o que é correto e o que é errado na vida humana, no comportamento social, no campo do Direito Internacional, ou no conceito mais simples do Direito, ponto.
Isso se aplica à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, não apenas desde 2022, mas desde 2014.
Não consigo admitir que o governo Dilma, primeiro, não soube ou não quis admitir o que estava errado na invasão e na anexação ilegais da peninsula ucraniana da Crimeia, em 2014, considerando-a apenas uma “questão interna” da Ucrânia. Um absurdo sob qualquer critério, notadamente no plano diplomático e do Direito Internacional.
Não consigo acreditar que Bolsonaro depois, Lula no seguimento, não souberam distinguir entre o que era certo e o que estava errado na brutal invasão total da Ucrânia pela Rússia em 2022. Ficaram nas formalidades? Não viram a postura dos Estados que seguiram e acataram o que está escrito na Carta da ONU, o que era a postura tradicional da diplomacia brasileira antes mesmo da carta da ONU?
São todos néscios, ou estavam cegos por interesses político-eleitoreiros no caso de Bolsonaro, e orientações ideológico-partidárias no caso de Lula, ainda engajado no maior erro estrutural e estratégico-diplomático da política externa brasileira em décadas?
Lula preferiu insistir no Frankenstein disforme do BRIC-BRICS-BRICS+, um monstro metafísico que rompe com os padrões doutrinários da diplomacia brasileira e com simples questões de bom senso na política externa.
Não consigo imaginar como diplomatas tão bem formados, inteligentes, em princípio sensatos, não tenham alertado todos os presidentes, desde 2005 pelo menos, sobre o tremendo erro que consistia em vincular politica e diplomaticamente o Brasil a grandes potências autocráticas, além de tudo nucleares, possuidoras de seus próprios interesses nacionais, forçosamente muito diferentes dos interesses nacionais e internacionais do Brasil, enquanto potência média e pais em desenvolvimento.
Foram tímidos demais, constrangidos pela autoridade do chefe, impulsivo e personalista? O que os impediu de formular algum alerta ou emitir algum aviso contrário? Excesso de cautela ou apenas uma submissão aos dogmas inaceitáveis da hierarquia e da disciplina. O que os impediu de pensar?
Não ocorreu nenhuma mudança de postura nos últimos cinco anos, ou desde 2014 para ser exato.
Não compreendo e não admito certas coisas, para mim tão claras. O certo e o errado eu aprendi desde criança. Acho que eu devo ser ingênuo!
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 4 de julho de 2026
Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824 - Paulo Roberto de Almeida
Hoje é 4 de julho de 2026: 250 anos da Declaração de independência das 13 colônias americanas com respeito à monarquia britânica. Abaixo um trabalho sobre as relações dos Estados Unidos com o Brasil desde a nossa independência, sob a forma de respostas a questões de um jornalista.
Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
1) De 1824 até agora, seria possível selecionar até cinco eventos, fatos, acordos ou tratados que envolveram o Brasil e os Estados Unidos que marcaram as relações entre os dois países?
PRA: O próprio reconhecimento precoce da independência de uma monarquia constitucional pelo governo americano, em 1824, antes das monarquias europeias, e da própria metrópole, representa um gesto importante no plano político hemisférico, mas enquadrado conjunturalmente na proclamação, um ano antes, da chamada Doutrina Monroe, uma postura de oposição à eventual reconquista das antigas colônias ibero-americanas pelas monarquias europeias da Santa Aliança.
Mais adiante, a entrada pelo rio Amazonas, em 1851, sem prévia autorização do Império, de um tenente da Marinha americana foi objeto de reclamações formais por parte do governo imperial, por ter havido fraude a pretexto de “expedição científica”. Desde o final da guerra civil americana, os EUA se converteram no maior importador de café brasileiro, cuja venda sempre representou um saldo significativo para o Brasil na sua balança bilateral.
Em 1889, o Império havia respondido ceticamente à proposta americana de uma união aduaneira hemisférica, tal como formulados pelo governo americano, por desejo de conservar relações privilegiadas com países europeus. A mudança de regime, no curso da conferência, alterou as instruções da delegação brasileira num sentido americanista.
A mudança de governo e de regime, em 1889, suscitou uma primeira onda de americanização na jovem República do Brasil, tanto é assim que o novo regime passou a se chamar de “Estados Unidos do Brasil”, e sua primeira constituição republicana, em 1891, espelhou diversos dispositivos da Carta americana, sob influência do federalismo de Rui Barbosa. Um acordo de comércio favorável amplamente aos EUA foi negociado logo ao início do novo regime, mas derrogado poucos anos depois pelo protecionista McKinley.
A revolta da Armada, em 1893, no governo de Floriano Peixoto, com o bloqueio da Baía da Guanabara, contou com o apoio decisivo de uma armada americana, mobilizada para permitir a passagem de barcos cargueiros, mobilizados justamente para furar o bloqueio.
A longa gestão Rio Branco, de quase dez anos à frente da chancelaria (1902-1912), representou uma nova orientação da política externa. no sentido de refletir a ascensão dos EUA sobre os assuntos do mundo. As boas relações não impediram uma denúncia contra o Brasil em cortes americanas contra o “comércio desleal” do Brasil no setor do café, ação motivada pela política de valorização do produto, ou seja, retenção de estoques para empurrar os preços para cima. Na mesma época, bancos de NY começaram a participar na emissão de títulos externos da dívida oficial brasileira.
Os anos 1930 representaram os maiores desafios para o que se poderia chamar de primeiro envolvimento do Brasil na geopolítica mundial, com pressões dirigidas pela Alemanha e pelos Estados Unidos em prol de relações econômicas e financeiras preferenciais no quadro da Grande Depressão, e da retração protecionista em quase todos os mercados. O Brasil contraiu um acordo de comércio liquidado não em divisas, mas em mercadorias, com a Alemanha, sob protestos americanos. Ao mesmo tempo conseguia renegociar algumas de suas dívidas com os credores americanos, com o apoio do Tesouro. Mais adiante, no curso da guerra, o chanceler Oswaldo Aranha conseguiu consolidar uma precoce aliança em apoio aos EUA, logo após Pearl Harbor (7/12/1941), convocando uma reunião extraordinária dos chanceleres hemisféricos, hipotecando solidariedade ao país atacado, em janeiro de 1942. Foi também um dos primeiros beneficiários dos Lend-Lease Agreements, de cessão de material e equipamentos militares americanos e programas de apoio econômico durante a guerra, no quadro das Nações Unidas. Mesmo tendo a Alemanha oferecido ajuda na construção de uma siderúrgica, foram os EUA que viabilizaram o grande investimento da U.S. Steel na construção de Volta Redonda, um primeiro grande marco na industrialização brasileira. Roosevelt se entreteve com Vargas, num encontro em Natal, que marcou o ingresso efetivo de forças brasileiras na guerra europeia contra o nazismo.
O imediato pós-guerra representou uma segunda americanização do Brasil, bem mais afirmada, pois os EUA eram os únicos países dotados de recursos para viabilizar programas de reconstrução (nos países europeus e no Japão) e de desenvolvimento, nos aliados da primeira Guerra Fria. Uma Comissão Mista Brasil-EUA, firmada por Truman e Dutra, em 1949, oferece um primeiro mapeamento completo da economia brasileira.
Em duas oportunidades, o governo brasileiro sugere a criação de uma espécie de novo Plano Marshall para a América Latina, sem sucesso porém: na conferência de criação da OEA, em Bogotá, em 1948, e já no governo Juscelino Kubitschek, em 1958, por meio da primeira iniciativa da diplomacia multilateral do Brasil, a Operação Pan-Americana (o único resultado foi a fundação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em 1960).
Seu relatório, divulgado já no governo Vargas constitucional, sugere a criação de um banco de desenvolvimento, de um banco central e de diversos outros empreendimentos nessa área. Foi ainda no governo Vargas (1953) que se firmou um acordo de assistência militar que selou a vinculação entre os dois países, só suspendido pelo Brasil no governo Geisel (1977), por “interferência americana” nos assuntos internos do Brasil, no caso, relatório sobre direitos humanos requerido pelo Congresso para programas de ajuda. As relações, antes amigáveis, nos governos Nixon-Medici (inclusive pela participação do Brasil no golpe de Pinochet contra Allende, em 10973), se deterioram sob Geisel, a despeito de um acordo de consultas mútuas entre Azeredo da Silveira e Henry Kissinger.
Os EUA, seus bancos e funcionários do Tesouro, desempenharam um papel positivo durante a primeira crise da dívida latino-americana, nos anos 1980, quando o Brasil precisou de vários acordos stand-by com o FMI, o que continuou nos anos 1990. Os governos Lula, a despeito de uma aparente cordialidade com Bush filho, foram discretamente antiamericanos, não só formulando esquemas puramente latino-americanos de consulta e coordenação (a exemplo da Unasul, excluindo a OEA e os EUA), mas abertamente sabotadores de uma grande iniciativa americana, a Alca, sabotada em 2006 na conferência de cúpula de Mar del Plata, numa aliança Chávez-Lula-Kirchner. Antes disso, Lula se movimentou para impedir a invasão americana no Iraque, mas recebeu alertas do governo Bush para não se mostrar muito ativo nessa matéria: para realizar seu intento, o governo Bush conseguir “expelir” o diretor brasileiro da OPAQ, ainda no final do governo FHC.
As relações foram superficialmente cordiais durante o governo Obama, a despeito das revelações sobre espionagem da NSA sobre comunicações do governo e de empresas estatais do Brasil, o que causou a suspensão da visita de Estado que Dilma Rousseff pretendia fazer aos EUA em sua primeira gestão (2013). Michel Temer, por sua vez, se surpreendeu, numa de suas participações na Assembleia Geral da ONU, com um convite, formulado por Trump 1, num jantar oferecido a presidentes da América Latina, para participarem de um golpe contra o regime chavista da Venezuela: a diplomacia brasileira obviamente sabotou essa tresloucada aventura militar (que foi novamente tentada ao início de Bolsonaro).
As relações do governo Bolsonaro com Trump 1 foram de vergonhosa submissão, tanto é que nem cumprimentou Joe Biden por sua vitória em 2020, e até colocou em dúvida a lisura dessas eleições, tanto quanto o fez, sistematicamente, em relação aos pleitos brasileiros conduzidos por votação eletrônica. Altos funcionários americanos – Jake Sullivan, do NSA, e William Burns, da CIA – visitaram o Brasil em 2021 e 2022 para demonstrar abertamente a oposição do governo americano a qualquer tentativa de golpe continuísta de Bolsonaro.
Lula perpetrou o gesto indelicado, antidiplomático e até contra as regras expressas das convenções internacionais e da própria Constituição brasileira, ao interferir abertamente nas eleições americanas de 2024, apoiando a candidata democrata, derrotada por Trump 2. As relações entre ambos nunca foram de amizade, sequer de aproximação formal, no contexto das insanidades tarifárias do segundo governo Trump e da sua interferência direta no direito interno do Brasil, ao pleitear extinção do processo contra os golpistas da tropa Bolsonaro, chegando a escrever essa intromissão em carta aberta dirigida a Lula. Diplomatas e homens de negócios atuaram para permitir um primeiro entendimento para minimizar os conflitos econômicos e políticos – totalmente ilegítimos, pois que baseados em legislação unilateral dos EUA ou a expressando arrogância imperial da administração Trump – mas as ameaças de imposição de sobretaxas abusivas continuam pairando numa relação bilateral que pode ser considerada a pior possível em mais de dois séculos de relações diplomáticas. No momento presente, parece ser visível o programado apoio do governo Trump a um governo de extrema-direita nas eleições de outubro, preferencialmente o candidato ungido por Bolsonaro. Tudo indica que as relações possuem grandes chances de se deteriorarem ainda mais no futuro previsível.
2) Como o senhor avalia a qualidade e a importância atual dessa relação?
PRA: Ela sempre foi, no plano histórico, a mais importante relação diplomática, econômica, financeira, cultural e geopolítica, desde praticamente o final do século XIX, quando os EUA se convertem no principal parceiro brasileiro em todas essas vertentes, o grande fornecedor de financiamento, tecnologia e de assistência militar durante o último século, com altos e baixos no plano econômico comercial relativamente administráveis. No plano geral, elas não foram só basicamente corretas, no estrito plano diplomático, como substancialmente benéficas, aos dois países, ao permitir o acesso pelo Brasil a padrões superiores nos planos econômico, educacional, tecnológico e até “geopolíticos”, em todas as áreas abertas à cooperação bilateral e até regional, mas igualmente aos EUA, ao oferecer uma interface hemisférica que jamais representou algum tipo de ameaça aos interesses dos EUA.
A situação atual indica uma séria deterioração dessa relação, sendo que o governo Trump é o responsável direto e irrecusável pela presente situação, não exclusivamente dirigida contra o Brasil – pois que as insanidades tarifárias e o desrespeito a regras mínimas de correção diplomática, de cortesia ou de simples falta de desejo de qualquer entendimento razoável sobre as relações erga omnes, dirigidas contra todos os países, à exceção da Rússia de Putin –, mas com o potencial de atingir mais fortemente o Brasil, tanto por ser, aparentemente, o país mais irredutível do hemisfério, como pelos efeitos de uma diplomacia presidencial excessivamente personalista conduzida por Lula, em seus arroubos improvisados.
As turbulências no sistema internacional já tinham começado com as aventuras militares russas na Crimeia e na Ucrânia, em 2014 e a partir de 2022 até aqui, mas elas conheceram uma complacência pouco conhecida segundo os padrões diplomáticos do Brasil, desde o governo Dilma (invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, sem qualquer postura compatível com a doutrina jurídica nacional, de absoluto respeito às normas mais elementares do Direito Internacional), mas foram acentuadas extraordinariamente a partir do governo Lula, que não só apoiou resolutamente a postura ilegal do governo Putin, como continuou sustentando objetivamente seu esforço de guerra, ao aumentar em níveis exponenciais as importações de fertilizantes e combustíveis russos, em total desacordo com o espírito e a letra da Carta da ONU, que comanda solidariedade e apoio a um governo sujeito a uma usurpação territorial ilegal e agredido brutalmente ao longo de todos esses anos.
Pode parecer paradoxal, mas o indisfarçável desapreço do lulopetismo diplomático pelo “imperialismo americano” encontra um terreno comum de convergência entre Lula e Trump, quando ambos atuam, de modo claro, em apoio às ações e objetivos de Putin, não apenas na Ucrânia, mas em várias outras vertentes das relações internacionais, pois os dois grandes dirigentes autocráticos parecem empenhados, por vias diversas, ao objetivo de se conformar uma “nova ordem global multipolar”, consigna à qual Lula já emprestou por diversas vezes seu apoio claro e aberto. Ninguém sabe, se, como ou quando será possível alcançar tal projeto lunático, mas Trump alimenta certamente o sonho de se sentar com os três grandes líderes imperiais, numa espécie de Yalta 2, conformando uma nova divisão do mundo em zonas de influência de cada um dos “impérios”. Xi Jinping certamente não se prestará a esse tipo de paródia, mas Lula sempre buscou se aproximar dos grandes líderes do poder mundial. Não se fazem mais conferências diplomáticas como antes...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5381, 30 junho 2026, 5 p.
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Candidato da Direita se esforça para vender o Brasil ao governo Trump
Terror russo na Ucrânia: o mundo não pode ficar em silêncio, mas o governo Lula apoia objetivamente o criminoso de guerra e contra a humanidade: Madame IA comenta
ZELENSKYY: THE WORLD MUST NOT REMAIN SILENT AFTER RUSSIA’S ATTACK ON KYIV
🇺🇦 Following Russia’s devastating missile attack on Kyiv, President Volodymyr Zelenskyy said the international community cannot allow such attacks to become routine and called for stronger action to protect Ukrainian lives.
After speaking with Finnish President Alexander Stubb, Zelenskyy thanked Finland for its support and condolences, stressing that Ukraine’s most urgent need remains additional Patriot air defense systems and interceptor missiles.
“It is impossible to defend against ballistic missiles without a sufficient quantity of missiles for Patriots,” Zelenskyy said, calling the issue Ukraine’s top priority.
The two leaders also discussed which partners could help strengthen Ukraine’s air defenses and agreed to continue coordinating efforts to secure additional support.
Beyond air defense, Zelenskyy said President Stubb highlighted the recent successes of Ukraine’s Armed Forces, noting that the battlefield is increasingly shifting in Ukraine’s favor and that Ukraine’s long-range strike campaign is placing growing pressure on Russia’s military and logistical infrastructure.
“This is the right pressure on Russia,” Zelenskyy emphasized.
The leaders also explored ways to reinvigorate diplomatic efforts while discussing expanded bilateral defense cooperation. According to Zelenskyy, Ukraine and Finland are now preparing to conclude important defense agreements in the near future.
His message was clear:
Ukraine is defending itself today, but it cannot do so alone. Every additional Patriot interceptor saves lives, every partner strengthens Ukraine’s resilience, and every step that increases pressure on Russia brings a just peace closer. 🇺🇦
==========
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Interferência do governo Trump nas eleições do Brasil - Respostas mal-humoradas - Paulo Roberto de Almeida
Recebi mais uma dessas questões mal formuladas por jornalistas aprendizes, sobre um assunto dos mais chatos. Respondi de má-vontade, com frases até mal-humoradas. O tipo de assunto que abomino:
Interferência do governo Trump nas eleições do Brasil
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas a questões de alguma agência folgada demais, e ainda apresentavam deadline (vou postar antes deles, que por acaso não vão postar nada do que escrevi).
Pauta: como os EUA podem interferir nas eleições do Brasil e quais métodos eles podem usar para isso
Deadline: 02/07/2026 às 19h30
Perguntas:
1. Acredita que os EUA usariam esforços para tentar interferir nas eleições brasileiras? O que eles ganhariam com isso?
PRA: Sim, Trump se acha o Imperador das Américas e acha que pode fazer com que um submisso a ele seja eleito nas eleições de outubro e assim ter o domínio quase completo da América do Sul.
2. Quais métodos o governo norte-americano poderia usar para tentar interferir no processo eleitoral?
PRA: Hostilizando o governo Lula, tentando mostrar aos eleitores que estariam melhores com um governo cooperativo, o que é contradito pelas suas próprias ações unilaterais, via tarifas ou outras medidas.
3. A participação dos EUA no golpe de 64 é de alguma forma semelhante ao momento atual? Acredita que uma possível interferência pode resultar em alguma consequência parecida?
PRA: Não existe NENHUMA comparação possível: em 1964 havia uma profunda crise política no Brasil, e os militares estavam prontos para mais um golpe de Estado, entre os muitos que deram a partir de 1889. Os militares atuais não querem nem ouvir falar em golpe, já escaldados pela experiência golpista de um tenente medíocre e covarde, incompetente até para dar um golpe.
4. Caso Trump tente interferir nas eleições brasileiras, é possível dimensionar o impacto dessa ação?
PRA: Ela será contraproducente. Lula aliás gostaria que Trump tentasse interferir nas eleições brasileiras, pois seria inteiramente a seu favor.
domingo, 28 de junho de 2026
A política externa paralela do lulopetismo diplomático: uma entrevista de 2016 resumida por Demoiselle IA em 2026
A política externa paralela do lulopetismo diplomático: uma entrevista de 2016 resumida por Demoiselle IA em 2026
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Entrevista concedida em de 2016, que foi objeto de resumo pela IA em 2026.
Em outubro de 2015, recém reincorporado ao trabalho ativo no Itamaraty, como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, vinculado à Funag (Itamaraty), amigos das Forças Armadas apreciadores de minhas posições em matéria de política externa e de diplomacia, sugeriram que eu concedesse uma entrevista a uma nova organização de comunicação social, da qual eu nunca tinha ouvido falar, uma tal de Brasil Paralelo, que pretendia estimular uma visão diferente da política e da economia do Brasil, supostamente de visão liberal e oposta, portanto, à versão lulopetistas da diplomacia, que havia dominado não só o Itamaraty como quase toda a academia brasileira desde 2003, e se apresentava como a “versão progressista” da política externa.
Sem saber exatamente o tratamento que seria dado a essa entrevista, eu a concedi, sem qualquer roteiro ou preparação, e sem notas de apoio, ou seja, de maneira completamente improvisada. Apenas meses mais tarde tomei conhecimento que essa iniciativa do Brasil Paralelo estava bem mais vinculada à extrema-direita, e que ela também se caracteriza por uma grande dose de desonestidade intelectual, tanto quanto os companheiros, cuja visão do mundo ela pretendia combater. Em todo caso, a entrevista, de mais de uma hora, foi concedia, e apenas algum tempo depois eu recebi os recortes efetuados pela gravação. A ficha dessa entrevista foi efetuada da seguinte forma, onde também comparece o link para o YouTube, original e retransmitida em meu canal, para os que desejarem assistir:
3047. “A política externa paralela do lulopetismo diplomático”, Brasília, 14 outubro 2016, gravação de entrevista, em vídeo, para servir como depoimento no quadro de documentário do Brasil Paralelo, a realizar-se online no Brasil, em novembro, com a participação de diferentes personalidades, em suporte puramente virtual. Entrevista registrada na lista de trabalhos originais, em 15/10/2016, por nota divulgada no blog Diplomatizzando (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/10/congresso-brasil-paralelo-como-refundar.html). Gravação disponível no YouTube (links: https://www.youtube.com/watch?v=meCec0dM_8U&feature=share; no canal pessoal: https://www.youtube.com/user/paulomre, neste link: https://youtu.be/fWZXaIz8MUc).
Fui tomado de surpresa, dez anos depois, ao constatar que meu amigo informático, Airton Dirceu Lemmertz, que também serve de canal de interação entre a minha produção intelectual – sobretudo a divulgada no blog Diplomatizzando – e esses novos agentes da coleta e tratamento da informação agrupados sob a rubrica geral da Inteligência Artificial, submeteu essa minha entrevista a uma análise-resumo do Gemini AI, a quem eu chamo de Demoiselle IA, cujo resultado (talvez até mais compreensível do que a própria entrevista) figura na transcrição abaixo:
==========
Brasil Paralelo: Paulo Roberto de Almeida (14/10/2016):
Fonte original: https://www.youtube.com/watch?v=fWZXaIz8MUc
A análise a seguir detalha cronologicamente o depoimento e as reflexões do diplomata Paulo Roberto de Almeida para o Congresso Brasil Paralelo, gravado originalmente no final de 2016. [1, 2]
A Divisão Histórica do Brasil Contemporâneo
O diplomata inicia sua exposição estabelecendo uma cronologia comparativa para explicar a história recente do país (0:28). Ele propõe uma divisão cronológica inspirada na tradição ocidental cristã, que separa o tempo entre antes e depois de Cristo (0:47). Para Almeida, o Brasil pode ser compreendido sob a ótica do "ACDC": antes e depois dos companheiros (1:02). No centro dessa divisão, situa-se um intervalo de treze anos e meio de gestões que ele qualifica como bizarras e exóticas, o que se aplicaria perfeitamente à condução das políticas internas e externas daquele período (0:41).
Analisando o início da era lulopetista, o diplomata pontua que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou uma postura inicial de cautela na economia (1:18). Tendo saído derrotado em três disputas presidenciais anteriores com uma plataforma puramente esquerdista, Lula buscou uma concertação com o grande capital e a burguesia, selando uma aliança ao convidar um grande industrial mineiro para ser seu vice-presidente (1:18). Essa estratégia garantiu a preservação de pilares macroeconômicos herdados, associados ao tripé composto por superávit primário, metas de inflação e regime de flutuação cambial, elementos anteriormente criticados pela militância partidária e acadêmica (1:34).
A Ideologização da Política Externa e as Heranças
Para contrabalançar a manutenção das diretrizes liberais na economia interna e satisfazer suas bases aliadas, o governo promoveu uma guinada à esquerda na condução do Itamaraty (1:55). Almeida descreve essa guinada como uma diplomacia pautada por uma visão de mundo anacrônica, anti-imperialista, antiamericana e fundamentada na divisão maniqueísta entre opressores e oprimidos, ricos e pobres, norte hegemônico e o sul em libertação (2:03). Essa concepção foi implementada sob a liderança dos diplomatas Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães, este último apontado como o principal ideólogo do que denomina lulopetismo diplomático (2:32).
O diplomata rebate a narrativa governamental de que teria sido recebida uma herança maldita do governo de Fernando Henrique Cardoso (2:56). Segundo Almeida, a deterioração das contas ocorrida em 2002 foi gerada justamente pela crise de confiança que a iminente ascensão dos companheiros provocou nos mercados, resultando na desvalorização do real, na alta da inflação e na depreciação dos títulos da dívida externa (3:15). Para mitigar esses efeitos e demarcar uma suposta ruptura com o passado, o partido rotulou sua política como ativa, altiva, soberana e focada na cooperação sul-sul (3:40). Ele argumenta que essa retórica acusava falsamente as gestões anteriores de submissão a Washington e ao neoliberalismo, omitindo o fato de que o Brasil jamais foi um país estritamente neoliberal (4:19).
O Alinhamento Ideológico e a Bonança das Commodities
Na prática, Almeida sustenta que a diplomacia petista não alterou a substância das grandes linhas tradicionais do Itamaraty, mantendo a prioridade aos vizinhos da América do Sul, ao multilateralismo e à busca por um assento no Conselho de Segurança da ONU (4:55). A mudança real ocorreu na rotulagem retórica e no alinhamento pragmático com ditaduras do Oriente Médio e da América Latina (3:49). O sucesso político de Lula decorreu do palanque sindical e, fundamentalmente, do benefício gerado pela estabilidade macroeconômica consolidada desde 1993 com o Plano Real (6:03).
A esse cenário somou-se um crescimento extraordinário da economia mundial na primeira década do milênio, impulsionado pelo fator China (6:44). O país asiático passou a consumir mais de um terço do cimento, ferro, alimentos e energia do planeta, tornando-se o principal parceiro comercial do Brasil em 2009 e desbancando a liderança histórica de cento e cinquenta anos dos Estados Unidos (7:08). O afluxo massivo de dólares decorrente da explosão dos preços das commodities — com a soja atingindo patamares elevados e o minério de ferro disparando — permitiu ao governo financiar programas de distribuição de renda internos e projetar o presidente como um líder global do terceiro mundo (7:25). Lula circulava entre potências e ditaduras africanas como Moammar Kadafi, modulando seu discurso conforme os interesses de cada plateia (9:18).
Os Três Fracassos Estratégicos e a Pirotecnia
Apesar da grande expansão de postos e embaixadas pelo mundo, Almeida aponta que os três grandes objetivos estratégicos inaugurados em janeiro de 2003 resultaram em fracasso absoluto (10:46). O primeiro era a conclusão das negociações multilaterais da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio para abertura de mercados ao Brasil, o que foi inviabilizado pela visão estreita da diplomacia comercial partidária (13:02). O segundo era o fortalecimento e expansão do Mercosul, bloco que acabou desestruturado pelo comportamento protecionista e arbitrário da Argentina sob os governos de Nestor e Cristina Kirchner (13:50). Lula, segundo o palestrante, foi conivente com essas medidas, solicitando à Fiesp tolerância com as barreiras argentinas, o que solapou o mercado de manufaturados brasileiros e transformou um tratado de integração comercial em palanque ideológico (14:38).
O terceiro objetivo frustrado foi a conquista de uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, uma ambição histórica do establishment diplomático e militar desde os tempos da Liga das Nações em 1926 e da Conferência de São Francisco em 1945 (15:30). Almeida pessoalmente não considera essa meta prioritária, argumentando que ela exige altos custos financeiros e a participação em missões complexas de imposição da paz (peacemaking) (17:56). Na tentativa de angariar votos, Lula abriu embaixadas na África e perdoou dívidas de autocratas, desconsiderando que a reforma do conselho depende estritamente do poder de veto dos cinco membros permanentes, especialmente de Estados Unidos e China, que não possuem interesse em dividir o poder global (19:05).
Essa frustração de metas deu lugar a uma diplomacia de pirotecnia e megalomania, exemplificada na tentativa fracassada de mediar a paz no Oriente Médio e na Declaração de Teerã sobre o programa nuclear iraniano, que entrou em rota de colisão com as negociações conduzidas pelas grandes potências do P5+1 (21:09). Para o diplomata, o Brasil perdeu credibilidade e isenção ao se aliar a regimes autoritários na região e ao intervir ativamente em processos eleitorais e referendos de vizinhos como a Venezuela de Hugo Chávez, violando o princípio constitucional de não-intervenção nos assuntos internos de outros Estados (22:07).
O Processo Decisório Invertido e as Vias Paralelas
A estrutura organizacional do Itamaraty sofreu alterações severas no período petista (24:38). O processo decisório tradicional funcionava como um triângulo perfeito, onde as formulações conceituais nasciam nas secretarias técnicas de base e subiam de forma unificada até o gabinete ministerial (25:25). No lulopetismo, essa lógica foi invertida: a base passou a buscar o que pensava a cúpula partidária para se alinhar ideologicamente à linha dos companheiros (26:21). O centro formulador deslocou-se do Palácio do Itamaraty para o Palácio do Planalto, capitaneado por um assessor internacional egresso do partido e de estrita confiança do regime cubano, que atuava como uma espécie de chanceler paralelo para a América do Sul (24:04).
Almeida classifica como extremamente grave a consolidação de uma diplomacia paralela operada à margem dos registros oficiais, baseada em contatos telefônicos diretos entre lideranças petistas, cubanas e bolivarianas (26:43). Essa opacidade burocrática impede a reconstituição documental de episódios como o abrigamento de Manuel Zelaya na embaixada em Tegucigalpa, a suspensão arbitrária do Paraguai do Mercosul ao arrepio do Protocolo de Ushuaia e a subsequente entrada forçada da Venezuela no bloco (27:58). O mesmo padrão repetiu-se quando Evo Morales nacionalizou os hidrocarbonetos na Bolívia em 2006, ocupando instalações da Petrobras; o governo emitiu uma nota oficial de apoio à medida de Morales, em vez de defender os ativos estatais e os tratados internacionais firmados (28:43).
O diplomata assevera que a engrenagem externa estava umbilicalmente ligada ao esquema de corrupção desvelado pela Operação Lava-Jato (29:06). Ele afirma que entre 2003 e 2016 o país foi comandado por uma organização criminosa que utilizou financiamentos bilionários e superfaturados do BNDES direcionados a obras em ditaduras aliadas em troca de propinas e vantagens pessoais para capitalistas promíscuos (28:59). Essa dinâmica manchou a reputação internacional do Brasil nos índices de percepção da Transparência Internacional (44:58).
A Ficção do Sul Global e o Custo do Isolamento
A substituição do universalismo ecumênico da política externa tradicional pela chamada diplomacia sul-sul é qualificada por Almeida como uma decisão exótica, canhestra e estúpida (31:35). Ele argumenta que o conceito de Sul Global é uma ficção anacrônica em um mundo interdependente e globalizado (34:25). A criação do fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e a institucionalização diplomática da sigla BRICs — termo cunhado originalmente pelo economista Jim O'Neill do Goldman Sachs como mero indicador de mercados de investimento emergentes — serviram para aprisionar o Brasil em uma visão confrontacionista e sindical do cenário internacional (34:49).
Almeida aponta que restringir alianças preferenciais ao sul assemelha-se a caminhar com uma viseira ou amarrar uma bola de ferro na perna, abrindo mão do comércio com as economias ricas e detentoras de alta tecnologia (37:36). Ele cita que os próprios parceiros asiáticos enriqueceram integrando-se aos mercados dinâmicos dos Estados Unidos e da Europa, enquanto o Brasil estagnou e reduziu sua participação no comércio global para menos de um por cento (33:11). O ápice desse isolamento foi o programa de substituição de importações sul-sul idealizado pelo chanceler Amorim e defendido por Lula perante a Fiesp, exortando industriais a comprarem insumos mais caros e de menor qualidade de vizinhos pobres para ajudá-los, uma lógica que ele considera antieconômica e ignorada pelo setor privado (42:25).
Como consequência, o ambiente de negócios brasileiro deteriorou-se drasticamente, conforme atestava o relatório Doing Business do Banco Mundial, posicionando o país em patamares desfavoráveis devido à alta carga fiscal e à burocracia kafkiana da Receita Federal (45:54). O diplomata destaca o dado de que uma empresa no Brasil gastava em média duas mil e seiscentas horas anuais apenas para cumprir obrigações fiscais, em contraste gritante com a média da OCDE, o que afastava investimentos em inovação tangível e intangível (45:27).
O Stalinismo Industrial e a Involução da Produtividade
A transição do governo Lula para a gestão de Dilma Rousseff acentuou o declínio econômico através do que Almeida denomina estalinismo industrial e keynesianismo de botequim (1:04:21). Se Lula possuía uma ignorância enciclopédica aliada a uma inteligência instintiva para falar o que os interlocutores queriam ouvir, Dilma revelou-se uma governante arrogante e teimosa (1:28:19). Sob a condução de Guido Mantega na Fazenda, a administração implementou a Nova Matriz Econômica e o programa Inova Auto, fechando o mercado nacional ao comércio externo e impondo taxas abusivas sobre o conteúdo importado sob o pretexto de proteger o mercado interno (50:29).
Esse modelo estimulou artificialmente a demanda e o endividamento por meio da expansão desmesurada do crédito — elevando-o de menos de vinte por cento para mais de cinquenta por cento do PIB —, ignorando o princípio econômico básico de que o crescimento sustentável depende do lado da oferta (supply side) e da taxa de investimento produtivo (1:18:01). Em 2005, Dilma já havia rejeitado propostas de consolidação fiscal formuladas por Palocci e Meirelles na Casa Civil, sob a justificativa de que gasto público é vida, pavimentando a explosão das despesas estatais acima do crescimento do PIB (1:13:54).
Almeida argumenta que as desonerações e subsídios distribuídos pelo BNDES não geraram modernização tecnológica, mas sim uma sinalização errática de mercado (1:05:15). O esporte principal do empresariado nacional passou a ser a busca por favores e protecionismo em Brasília, consolidando cartéis e monopólios em setores como telecomunicações, cimento e aço, o que eliminou a livre concorrência microeconômica e estrangulou a produtividade (57:20). Ele cita o exemplo do agronegócio, que opera com altíssima eficiência científica e de custos "até a porteira da fazenda", mas perde competitividade global da porteira para fora devido ao apagão de infraestrutura de portos e transportes sob responsabilidade de um Estado inepto (1:22:17).
A Falência do Capital Humano e o Remédio Constitucional
O fator mais crítico e limitante para o desenvolvimento de longo prazo do Brasil situa-se, segundo o palestrante, na falência do capital humano (58:42). Ele contrapõe o destino do país ao do Japão e da Coreia do Sul, nações desprovidas de recursos naturais que priorizaram a educação básica universal e a inovação tecnológica aplicada ao chão de fábrica (58:51). Enquanto em 1960 a Coreia possuía metade da renda per capita brasileira, nas primeiras décadas do século XXI ela ultrapassou amplamente o patamar nacional, que permaneceu estagnado (1:02:51). Almeida atribui o colapso educacional medido pelos exames internacionais do PISA ao que classifica como "freirismo", uma ideologia maoísta de pedagogia que teria destruído os currículos escolares (59:49). Critica também o isolamento corporativo das universidades públicas brasileiras, voltadas à escolha de reitores demagogos em detrimento da meritocracia científica e de patentes aplicadas (1:00:43).
Essa paralisia microeconômica, o desmantelamento institucional e o rombo fiscal de dez por cento do PIB resultaram no processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016 (51:21). O diplomata esclarece que o impedimento não foi um golpe da direita, mas sim o remédio constitucional legítimo previsto em democracias consolidadas como a dos Estados Unidos e na própria tradição ocidental que remonta à Magna Carta de 1215 (1:31:56). Ele assevera que o impeachment teria sido evitado, apesar das pedaladas fiscais e crimes contra a responsabilidade orçamentária, se a presidente não demonstrasse total incapacidade de negociação política com o Congresso Nacional no âmbito do presidencialismo de coalizão (1:34:07).
Almeida lamenta a leniência e inépcia histórica de partidos de oposição, como o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, que não impulsionaram o impedimento de Lula em 2005 por ocasião do escândalo do Mensalão, permitindo que o esquema de compra de apoio parlamentar fosse industrializado e ampliado pelas estatais nos dez anos seguintes (1:16:49). No plano externo, a versão partidária de golpe ecoou em setores acadêmicos e jornalísticos internacionais politicamente corretos devido ao capital de prestígio acumulado por Lula, detentor de dezenas de títulos de doutor honoris causa financiados por campanhas de marketing governamentais (1:38:05).
O Cenário de Insolvência e o Pêndulo do Futuro
Encerrando seu depoimento com projeções econômicas, Almeida detalha uma visão pessimista para o futuro de curto e médio prazo do Brasil (1:53:25). Sob o governo de Michel Temer, o país tentava administrar uma transição fiscal complexa ancorada na PEC dos gastos públicos (PEC 241), buscando sinalizar previsibilidade aos investidores sem aumentar tributos de imediato (1:41:44). Contudo, o diplomata adverte que a trajetória da dívida pública em direção a oitenta e cinco por cento do PIB, combinada com taxas de juros elevadas, colocava o Estado à beira da insolvência técnica, consumindo a maior parte das receitas com juros e previdência (1:47:35).
Ele projeta que o fechamento do bônus demográfico nos vinte anos seguintes inverterá a pirâmide populacional, aumentando a proporção de aposentados e idosos dependentes sobre a base de trabalhadores ativos (1:08:36). Sem o ganho de produtividade que uma reforma educacional profunda traria, Almeida prevê que o crescimento econômico do país permanecerá ridículo, gerando escassez de recursos para arcar com os custos de saúde e previdência de uma sociedade envelhecida (1:09:16). Ele vaticina que o ano de 2022, centenário da Independência, registrará uma renda per capita real inferior à de 2012, configurando uma década inteira perdida como preço da destruição macroeconômica da Nova Matriz (1:50:50).
A superação desse atraso relativo perante os vizinhos liberais da Aliança do Pacífico e os emergentes asiáticos exigiria a redução drástica do tamanho e dos privilégios dos mandarins da burocracia estatal e a inserção unilateral do Brasil nas cadeias globais de valor, premissas das quais ele se declara cético devido ao peso do corporativismo fascista que molda as instituições nacionais (1:10:54).
===
Fim da transcrição.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5378, 28 junho 2026, 6 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-politica-externa-paralela-do.html).
Postagem em destaque
Tesouro deve rever análise para garantir novo empréstimo aos Correios após críticas do TCU - Idiana Tomazelli (Jornal de Brasília)
O governo Lula aprofunda o que melhor sabe fazer: aumentar o déficit público e agravar a situação fiscal do país, no futuro imediato e no cu...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
Jair Bolsonaro evalúa prohibir que Huawei participe de la construcción de la red 5G de Brasil Un alto funcionario de Brasilia confió a l...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Paraguay's awful history Dec 19th 2012, 23:55 by The Economist online THE War of the Triple Alliance, fought between Paraguay and a c...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
UNE ANALYSE DE LA SITUATION RUSSO-UKRAINIENNE HORS PROPAGANDE ... Andreï Makine Le Figaro, 12/10/2025 FIGAROVOX/ENTRETIEN - L'académicie...
-
José Guilherme Merquior não foi exatamente um dissidente, ou um transgressor, mas foi um pensador independente, original e, sobretudo, intel...
-
O Cônsul brasileiro em Hamamatsu, embaixador Aldemo Garcia, me envia o o artigo com o balanço das atividades e projetos que foram realizado...
-
What Does China Want? Free David C. Kang , Jackie S. H. Wong , Zenobia T. Chan Author and Article Information Op International Secu...