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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A fraude do Banco Master se espalha por toda a classe política, judiciária e financeira do Brasil - Ricardo Bergamini

 Ricardo Bergamini já nem consegue mais se indignar com a promiscuidade geral e absoluta das "elites" dominantes no Brasil:


"A fraude do Banco Master é prova cabal e irrefutável do estado de putrefação do poder público brasileiro, colocando os membros do PCC e CV como pivetes e trombadinhas (Ricardo Bergamini)

Prezados Senhores

Devido ao volume de escândalos diários, o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar, ou seja: o Brasil desmoralizou o escândalo.

Somente os canalhas, pulhas e vigaristas irão tentar politizar o assunto. O Brasil entrou em uma estrada sem retornos.

Cabe lembrar aos incautos que a liquidação dessa fraude de pirâmide financeira não abalou o mercado, mas sim a interferência política de um problema técnico.

Com a minha experiência no mercado financeiro garanto que todas as fontes que abastecem de informações os jornalistas são do mercado financeiro, que irão demolir esse bando refece de demônios soltos no poder público brasileiro, visto que não existe mercado financeiro sem segurança jurídica.

Mercado Financeiro é composto de milhões de pequenos poupadores, com poupança média per capita de R$ 1.500,00. Com isso, vamos apoiar os pequenos poupadores. Expulsando os demônios encastelados no poder público brasileiro corrupto.

O chamado Comitê Consultivo e Estratégico do Banco Master — estrutura formada para assessorar a instituição — contou com nomes de grande relevância no cenário jurídico e econômico brasileiro.

Entre os integrantes estavam:

Ricardo Lewandowski, ministro aposentado do STF e atual ministro da Justiça e Segurança Pública;
Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos governos Lula e Temer;
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda;
Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Michel Temer contratado para negociar a venda do Banco Master para o BRB

O poder público brasileiro corrupto, sem coragem para prender Daniel Vorcaro (dono do Banco Master), o maior fraudador do sistema financeiro brasileiro, atua livremente na destruição de provas dos seus crimes.

Para quem usa o argumento de precipitação do BCB, cabe informar que esse delinquente está sendo investigado desde abril de 2024.

Se essa putaria não for resolvida, em breve, o Brasil corre risco sistêmico de confiança: em novembro de 2025, o volume de operações de crédito foi de R$ 6.971,6 bilhões (55,2% do PIB), Sempre lembrando que essa montanha de dinheiro é de milhões de pequenos poupadores.

Master pagou por consultoria de escritório de Lewandowski quando ele era ministro da Justiça

Mesmo com a saída do ministro, eles seguiram prestando serviços para o Master, que era um dos clientes do escritório.

Redação Jornal de Brasília

26/01/2026

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

O escritório de advocacia da família do ministro aposentado do STF (Supremo Tribunal Federal) Ricardo Lewandowski foi contratado pelo Banco Master de 2023 a agosto de 2025. Em parte desse período, ele era ministro da Justiça do governo Lula.

O ex-ministro saiu do escritório em 17 de janeiro de 2024, pouco antes de assumir o cargo no governo.

Desde então, a banca está a cargo de sua mulher, Yara de Abreu Lewandowski, e do filho do casal Enrique Lewandowski. Mesmo com a saída do ministro, eles seguiram prestando serviços para o Master, que era um dos clientes do escritório.

Matéria completa clique abaixo:

https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/politica-e-poder/master-pagou-por-consultoria-de-escritorio-de-lewandowski-quando-ele-era-ministro-da-justica/

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A ilusão das “regras” e o risco estratégico para o Brasil - DefesaNet

 A ilusão das “regras” e o risco estratégico para o Brasil

Editor DefesaNet, 22 de janeiro de 2026

A ilusão das regras nos artigos de Lula e Celso Amorim e o risco estratégico para o Brasil

Nota DefesaNet
https://www.defesanet.com.br/gh/a-ilusao-das-regras-e-o-risco-estrategico-para-o-brasil/

O Presidente Lula publicou um artigo no jornal The New York Times , edição de18 de janeiro de 2026. O texto original em inglês e tradução em português.

Tanto o artigo de Lula, no dia 18JAN2026, no The New York Times como o de Celso Amorim na revita The Economist seguem uma linha que merece ser analisada,

Claramente texto saidos da pena de Celso Amorim que ao longo de 25 anos, tantop no comando da Diplomacia, Defessa ou eminência parda sempre obteve resultados ou confrontos contestáveis.

1 – The New York Times – 18 Janeiro 2026, edição web, e 20 Janeiro edição impressa

Lula: Este Hemisfério Pertence a Todos Nós
Lula: This Hemisphere Belongs to All of Us

2 – The Economist – 19 Janeiro 2026 edição online
Celso Amorim – Como podemos viver em um mundo sem regras?
Celso Amorim – How can we live in a world without rules?

A ilusão das “regras” e o risco estratégico para o Brasil

Observador DefesaNet

O artigo “How can we live in a world without rules”, assinado por Celso Amorim, não é apenas um exercício acadêmico ou diplomático. Ele expressa uma visão de mundo que, aplicada como política de Estado, representa risco concreto à segurança nacional brasileira. Ao insistir em uma leitura normativista das relações internacionais, o texto ignora a realidade do poder e empurra o Brasil para uma posição de ambiguidade estratégica perigosa, especialmente diante dos Estados Unidos sob Donald Trump.

O problema não é defender regras. O problema é acreditar que regras sobrevivem sem poder — e, pior, moldar a política externa brasileira como se o mundo ainda operasse sob consensos que já não existem.

Regras não protegem países fracos — poder protege.

A tese central de Amorim parte de uma premissa falsa: a de que a crise internacional decorre do abandono de normas multilaterais. Não decorre. A crise decorre da ruptura do equilíbrio de poder que sustentava essas normas.

China e Rússia e – agora os Estados Unidos – não desafiam a ordem internacional porque ela é “imperfeita”, mas porque não lhes interessa. E não há nenhum indício de que aceitarão regras que limitem seus objetivos estratégicos. Defender regras universais nesse contexto não é idealismo — é desarmamento intelectual.

Ao adotar essa visão, o Brasil:

• substitui estratégia por retórica;
• confunde desejo com realidade;
• e abdica da lógica do poder em um ambiente internacional brutalmente competitivo.

Neutralidade moral é sinônimo de irrelevância estratégica

A diplomacia defendida por Amorim insiste na ideia de que o Brasil pode ocupar o papel de mediador moral, equidistante entre grandes potências. Esse espaço não existe mais.

No mundo atual:

• quem não se alinha claramente é visto como não confiável;
• quem evita nomear ameaças é tratado como ambíguo;
• quem prega equilíbrio sem poder vira arena, não ator.

A neutralidade defendida no artigo não preserva autonomia. Ela a corrói, pois retira do Brasil capacidade de barganha, previsibilidade estratégica e credibilidade como parceiro de segurança.

Conflito direto com os EUA sob Donald Trump

A visão de Amorim colide frontalmente com a lógica estratégica dos Estados Unidos sob Donald Trump. Washington opera de forma simples e dura: interesses primeiro, alinhamentos claros, reciprocidade concreta.

Nesse contexto, o discurso do “multilateralismo como fim em si mesmo” é interpretado como:

• resistência aos interesses americanos;
• relativização das ameaças centrais (China e Rússia);
• falta de compromisso estratégico.

Para Trump, ambiguidade equivale a oposição potencial. Um Brasil que insiste nessa postura se coloca, voluntariamente, sob suspeita.

Os custos não são teóricos — são práticos

A adoção dessa visão como política de Estado tem consequências diretas:

• restrições ao acesso a tecnologias sensíveis, sobretudo em defesa, aeroespacial, cibernética e inteligência;
• redução da cooperação militar e industrial, com impactos diretos na Base Industrial de Defesa;
• pressões econômicas indiretas, travestidas de exigências regulatórias ou comerciais;
• perda de credibilidade como parceiro estratégico no hemisfério ocidental.

Nenhuma grande potência confia sua segurança a um país que se recusa a definir prioridades estratégicas.

O erro conceitual fatal: confundir ordem com justiça

Amorim confunde ordem internacional com justiça normativa. Ordem não nasce de consenso moral; nasce da capacidade de impor custos a quem a viola. Regras vêm depois — e apenas quando sustentadas por poder.

Ao insistir nessa inversão, o Brasil:

• defende uma ordem que já colapsou;
• antagoniza parceiros estratégicos reais;
• e se aproxima retoricamente de potências revisionistas que não oferecem garantias de segurança, tecnologia ou desenvolvimento autônomo.

Isso não é política externa independente. É exposição estratégica

Conclusão: diplomacia sem poder é risco à soberania

O artigo de Celso Amorim pode soar elegante, coerente e moralmente confortável. Mas, no mundo real, é estrategicamente inadequado e potencialmente danoso.

Persistir nessa linha:

• enfraquece a posição do Brasil diante dos Estados Unidos;
• aumenta desconfiança em Washington, especialmente sob Trump;
• reduz margem de negociação dura;
• e transforma o país em variável passiva da disputa entre grandes potências.

No século XXI, quem não escolhe claramente seus interesses tem seus interesses escolhidos por outros.

Diplomacia sem poder não protege soberania.

E soberania não se sustenta com retórica.

DefesaNet

domingo, 25 de janeiro de 2026

História Virtual do Brasil: brincando de What If? - Paulo Roberto de Almeida

Retomando uma brincadeira antiga:

5199. “História virtual do Brasil; brincando de What If?”, Brasília, 25 janeiro 2026, 16 p. Retomada de alguns trabalhos antigos apenas como brincadeira com a História séria e correta. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/150271221/5199_Hist%C3%B3ria_Virtual_do_Brasil_brincando_de_What_If_2026_

História Virtual do Brasil: brincando de What If?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Retomada de alguns trabalhos antigos.

Durante alguns anos do início do presente século (ainda estou nele, um quarto de século depois), acumulei uma pequena literatura histórica de livros colocados na rubrica “What If?”, ou seja, história virtual, ou alternativa. Nunca desenvolvi o gênero, a despeito de ter ensaiado algumas brincadeiras com a história do Brasil, começando com a identificação daqueles episódios que poderiam ter representado alguma bifurcação em nosso itinerário como nação (e nos quais talvez tenhamos adotado o caminho errado).
Esse primeiro trabalho, puramente indicativo, se chamou “Momentos decisivos da história brasileira” (Washington, 18 junho 2003, 2 p., n. 1064), e tinha a seguinte descrição: “Relação cronológica de eventos ou processos que podem ser considerados como “turning points” na história do Brasil, desde Tordesilhas (1494) até a eleição de Lula (2002) como presidente do País. Base de um possível futuro trabalho ensaístico”. Imediatamente após, efetuei minhas primeiras brincadeiras nessa categoria, com o trabalho “História Virtual do Brasil: (What if...?)” (Washington, 21 junho 2003, 12 p., n. 1065), descrito da seguinte forma: “Aplicação seletiva de alguns eventos e processos relevantes da história do Brasil num exercício de “história virtual”, concluindo otimistamente pela ascensão do Brasil ao status de grande potência. Para ser desenvolvido progressivamente.”.
Menos de um mês depois, eu tratava de “explicar” o exercício pelo trabalho introdutório seguinte: “História Virtual: limites e possibilidades” (Washington, 7 julho 2003, 3 p., n. 1076). Texto de introdução metodológica e de justificativa didática de uma possível seção de história virtual para uma nova revista de história a ser editada no Brasil: História Viva”. Essa revista nunca foi publicada e meu texto acabou sendo incorporado a um trabalho de síntese que efetuei anos depois, congregando os textos acima citados: “História virtual do Brasil: um exercício intelectual” (Brasília, 29 novembro 2007, 16 p., 1841). Esse texto recebeu, em minha ficha de trabalhos, a seguinte descrição: “Consolidação, em arquivo único, de ensaio de história virtual do Brasil, com base nos trabalhos 1064, 1065 e 1076, feitos em Washington, em 18 e 21 de junho de 2003 e em 7 de julho de 2003. Ele teve uma publicação parcial numa revista acadêmica que já desapareceu (Espaço de Sophia (Tomazina – PR, ISSN: 1981-318X, Ano I, nº 9, p.1-15, dezembro 2007; edição eletrônica), e talvez esteja numa forma mais completa em uma das postagens que efetuei em Academia.edu. Em todo caso, vou retomar aqui essa versão mais completa, que segue abaixo.
(...)

Ler a íntegra, neste link:
https://www.academia.edu/150271221/5199_Hist%C3%B3ria_Virtual_do_Brasil_brincando_de_What_If_2026_

sábado, 24 de janeiro de 2026

A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira - Marcos Degaut Gazeta do Povo

 A burocracia do favoritismo e o fim do mérito na diplomacia brasileira

Marcos Degaut
Gazeta do Povo, 23/01/2026
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores: gestão deixou o mérito de lado.

Poucas instituições no Estado brasileiro cultivam aura de excelência tão persistente quanto o Ministério das Relações Exteriores. Durante décadas, o Itamaraty construiu para si a imagem de corpo técnico sofisticado, profissionalizado e imune às deformações mais comuns da burocracia nacional. Contudo, essa autoimagem tem contrastado de forma crescente com a realidade de seu funcionamento interno, em especial no que diz respeito ao sistema de promoções na carreira diplomática, sintoma de um problema bem mais profundo.

Na primeira parte deste artigo, analisarei a dimensão pontual da recente manipulação do já disfuncionalíssimo sistema de promoções do MRE. Na segunda, tratarei da necessidade de reforma da carreira, de modo a incorporar avanços organizacionais que países desenvolvidos adotaram há décadas em seus serviços diplomáticos e, assim, permitir que o Itamaraty funcione como instituição de Estado, e não como o clube de amigos no qual foi convertido pelos governos lulopetistas.

O Decreto nº 12.815, de janeiro de 2026, que institui o novo Regulamento de Promoções do MRE, não representa uma ruptura com as distorções históricas da instituição. Ao contrário: ele as aprofunda, sistematiza, consolida e legitima, ao lhes conferir verniz normativo, incorporando agora, de forma explícita, elementos da agenda identitária contemporânea a um arcabouço já profundamente marcado pelo personalismo e pela discricionariedade política, práticas infensas à moralidade administrativa.

O problema não é apenas técnico e moral. É político, institucional e estratégico, e ajuda a explicar por que o Brasil perdeu densidade, previsibilidade e relevância no cenário internacional. Trata-se, em essência, do mecanismo que define quem decide, quem ascende, quem formula, quem executa e, sobretudo, quem permanece relevante na política externa brasileira. Alterar esse sistema não é um detalhe administrativo: é intervir diretamente no DNA da diplomacia do país e perpetuar um processo de deformação institucional.

Da meritocracia imperfeita ao arbítrio estruturado
A Lei nº 11.440, de 2006, aprovada sob a condução do então chanceler Celso Amorim ainda no primeiro governo Lula, alterou substancialmente a lógica tradicional da carreira. Até então, o sistema de promoções, embora longe de ser ideal, baseava-se em tripé relativamente claro: antiguidade, interstícios mínimos e avaliação de desempenho funcional. Havia espaço para subjetividade, favoritismos e injustiças – mas também havia certa previsibilidade de carreira e limites relativamente claros à intervenção política.

Ao deslocar o eixo das promoções de critérios predominantemente objetivos para um espaço mais amplo de avaliação subjetiva, a lei abriu margem para uma ampliação inédita de discricionariedade política. Sob o discurso de flexibilizar a carreira e valorizar o “mérito”, desloca-se o centro de gravidade das promoções para critérios amplos, vagos e essencialmente interpretáveis. O conceito de mérito deixa de ser predominantemente funcional e passa a ser político.

O Decreto nº 12.815 não apenas regulamenta essa lógica, mas a radicaliza. Redefine o próprio conceito de mérito, reorganiza os pesos do julgamento e introduz critérios que não encontram respaldo no texto legal. O que era ambíguo torna-se explícito. O que era informal torna-se norma. O que dependia de relações pessoais passa a operar por meio de procedimentos aparentemente técnicos, mas controlados politicamente do início ao fim.

A Lei 11.440 fala em mérito funcional, pressupõe avaliação impessoal e não menciona identidade, representatividade ou correções estatísticas. O decreto, por sua vez, reinterpreta o mérito à luz de uma agenda política específica, transformando o processo de promoção em instrumento de política interna e reescrevendo a lei por via infralegal.

O mito da objetividade: planilhas a serviço do arbítrio
O novo sistema é apresentado como moderno e técnico. Metade da nota final decorre de pontuação funcional; a outra metade provém de avaliações da Câmara de Avaliação (20%) e da Comissão de Promoções (30%). A aparência de objetividade, no entanto, não resiste a uma análise mais atenta.

As instâncias responsáveis por 50% da pontuação subjetiva são compostas exclusivamente por ocupantes de cargos de confiança, assessores diretos do ministro e altos dirigentes politicamente escolhidos. O chanceler define as prioridades estratégicas, escolhe quem avalia, estabelece os parâmetros interpretativos e pode intervir diretamente no resultado final.

Como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento

Em outras palavras, chamar esse arranjo de “avaliação colegiada” é mero exercício de retórica administrativa, pois o que existe de fato é verticalização do poder decisório – centralização hierárquica – com verniz procedimental travestido de governança.

A sofisticação do personalismo
As acusações históricas dirigidas ao Itamaraty – personalismo, favorecimento de grupos, proteção de castas familiares, punição silenciosa de dissidentes – nunca foram adequadamente enfrentadas. O novo regulamento tampouco o faz. Não houve redução da discricionariedade, e sim a complicação das etapas preliminares de avaliação que em nada vinculam a decisão sobre as promoções no contexto de uma definição objetiva de mérito.

Antes, a exclusão era tácita e pouco explicada. Agora, ela se reveste de linguagem tecnocrática e de jargão progressista: “alinhamento com prioridades estratégicas”, “geração de valor público”, “trabalho colaborativo”, “valorização da diversidade”. Conceitos amplos, vagos e essencialmente não verificáveis, que, ao invés de reduzir, ampliam o espaço para decisões arbitrárias, pois é flagrante a total ausência de definições operacionais.

Nesse contexto, como se mede, de forma objetiva, o “alinhamento estratégico” de um diplomata? Ora, a resposta não pode ser outra a não ser: pela proximidade com o comando político do momento.

O novo sistema não premia competência técnica isoladamente, nem capacidade analítica, nem produção intelectual relevante, nem experiência acumulada em áreas sensíveis. Ele premia comportamentos: adesão narrativa, prudência excessiva, autocensura, capacidade de ler o ambiente político interno. O diplomata deixa de perguntar “qual política é melhor para o Brasil?” e passa a perguntar “qual posição é mais segura para minha carreira?”.

Diversidade como engenharia de resultado
O ponto mais sensível, juridicamente frágil e institucionalmente mais corrosivo do novo Regulamento reside na introdução de mecanismos explícitos de correção identitária ex post, isto é, após a avaliação de desempenho e a atribuição de pontuações. Essa escolha altera a própria lógica do que significa ser promovido em uma carreira de Estado.

Em termos simples, o decreto permite que as listas finais de promoção não reflitam a ordem de classificação decorrente do desempenho, mas sejam ajustadas para atingir resultados considerados desejáveis sob o prisma identitário. Para isso, autoriza a inclusão de candidatos adicionais e a superação da ordem de pontuação, segundo parâmetros de “representatividade” definidos periodicamente pelo ministro.

Esse desenho institucional não corresponde ao que, tradicionalmente, se entende por ação afirmativa. Políticas afirmativas clássicas – legítimas ou não, conforme o debate – atuam no acesso (concurso), na formação ou na redução de desigualdades estruturais ao longo do percurso, criando condições para que todos disputem em bases mais equilibradas. Aqui, o mecanismo é outro: o critério não atua antes da corrida, mas no pódio.

A matriz intelectual desse modelo não é jurídica nem administrativa; é ideológica. Deriva de uma visão de mundo típica da agenda progressista identitária contemporânea, segundo a qual desigualdades de resultado são, por definição, prova de injustiça estrutural, e, portanto, devem ser corrigidas independentemente do percurso individual.

Transportada para uma carreira de Estado, essa lógica produz efeito profundamente desagregador. O desempenho concreto do servidor deixa de ser o elemento decisivo; passa a ser apenas uma variável entre outras, subordinada a um objetivo superior: ajustar a fotografia final.

Em termos práticos, isso significa que dois diplomatas podem ser avaliados de forma desigual não porque um serviu melhor ao interesse público, mas porque um deles se encaixa melhor em uma categoria estatística que a administração deseja expandir naquele momento. O mérito deixa de ser critério suficiente. Passa a ser condição necessária, mas não decisiva, e, em certos casos, sequer necessária.

Esse modelo afeta de modo particularmente severo o diplomata técnico, discreto, não militante e orientado por resultados concretos. A excelência silenciosa – aquela que se traduz em parâmetros definidos, análises sólidas, negociações bem conduzidas, conhecimento acumulado e defesa consistente do interesse nacional – torna-se invisível diante de critérios simbólicos e narrativos.

Mais grave ainda: o sistema cria incentivos perversos. Se o resultado final não depende prioritariamente do desempenho, mas de ajustes políticos e identitários, o racional passa a ser outro. O diplomata racional deixa de investir em excelência técnica e passa a investir em posicionamento, sinalização e alinhamento discursivo. O mérito funcional perde centralidade; a aderência ao espírito do tempo ganha valor. Assim, a neutralidade institucional, valor clássico do serviço público profissional, deixa de ser virtude e passa a ser risco.

Do ponto de vista jurídico-institucional, o problema é igualmente sério. O princípio constitucional da impessoalidade não exige apenas ausência de favoritismo individual; exige que critérios gerais sejam aplicados de forma previsível e verificável. Ao permitir correções discricionárias definidas semestralmente pelo ministro, o decreto amplia de maneira inédita o espaço para decisões personalizadas, ainda que justificadas por linguagem moralizante.

A agenda identitária, nesse arranjo, funciona como instrumento legitimador do arbítrio. Decisões que, em outro contexto, seriam percebidas como favoritismo ou intervenção indevida passam a ser apresentadas como “justiça social”, “inclusão” ou “correção histórica”. O conteúdo muda pouco; a narrativa muda muito.

Há ainda um efeito colateral raramente reconhecido: nem mesmo os grupos nominalmente beneficiados são fortalecidos por esse modelo. Ao promover pessoas com base em correções estatísticas, o sistema mina a legitimidade individual dos promovidos, que passam a carregar a suspeita de não terem ascendido por mérito próprio.

Em vez de inclusão real, produz-se instrumentalização simbólica. A diversidade deixa de ser consequência de um sistema justo e passa a ser objetivo administrativo a ser atingido, custe o que custar.

A “gabinetização” do Itamaraty
Ao concentrar poder decisório no topo da hierarquia, o decreto reforça um velho vício institucional: a corrida por cargos de gabinete. Por quê? Porque é ali que se constroem relações de confiança política; se ganha visibilidade junto aos avaliadores; se participa da definição das “prioridades estratégicas”.

As áreas finalísticas – divisões temáticas, departamentos técnicos, setores de análise – tornam-se periferia institucional. O trabalho substantivo da política externa passa a valer menos do que a proximidade com o centro decisório.

A criação de listas semestrais intensifica esse fenômeno, estimulando campanhas internas, intrigas e desperdício de capital humano altamente qualificado. O contribuinte financia um sistema em que diplomatas passam a dedicar tempo e energia a disputas internas de baixa relevância estratégica, em detrimento da formulação de políticas públicas. O resultado é um ministério cada vez mais cartorial, autorreferente e politizado internamente, mas paradoxalmente irrelevante externamente.

Seria um erro, contudo, atribuir ao Decreto nº 12.815 todos os males do Itamaraty. Ele é sintoma, não causa. Vítima de suas próprias fraquezas, vícios, tibieza, isolamento, comodismo e conformismo, o Itamaraty é o principal culpado pelo seu próprio esvaziamento. A instituição tem sido incapaz de se posicionar frente aos governantes e de identificar com precisão sua arena de atuação no cenário internacional, que possibilite ao Brasil detectar oportunidades para ampliar sua visibilidade e capacidade de diálogo nos grandes temas de interesse regional e mundial.

Para além da retórica oficial de reforma da governança global de alteração da geografia econômica do globo, a análise da atual política externa indica não haver identificação clara de nossos principais objetivos econômicos e políticos, tampouco a formulação de uma agenda internacional consistente e integrada. A diplomacia brasileira, que deveria traduzir nossos interesses na arena internacional, está completamente sem rumo e sem bússola.

Ao que tudo indica, pragmatismo e visão de longo prazo não mais fazem parte do repertório de nossa política externa, o qual manifesta acentuado empirismo e penosa carência de paradigmas. Adotamos apenas medidas tópicas e descoordenadas, sem perceber que um conjunto de ações dispersas não configura uma estratégia coerente. Inexistem indicadores para determinar metas, priorizar objetivos e avaliar resultados.

Isso é consequência não só de uma interpretação equivocada e ideológica da realidade internacional, mas também de uma clara inadequação institucional que fez o órgão parar no tempo. Seu desprestígio emana de sua estagnação.

Ao incorporar a agenda identitária progressista diretamente ao núcleo decisório das promoções, o MRE não se torna mais justo, moderno ou plural. Torna-se menos profissional, menos previsível e mais dependente do poder político. A promoção deixa de ser reconhecimento de excelência e passa a ser ferramenta de engenharia social e controle interno.

O mérito, que deveria ser o eixo estruturante de uma carreira de Estado, transforma-se em retórica residual – invocado nos discursos, relativizado na prática. E uma diplomacia que relativiza o mérito internamente dificilmente terá autoridade, consistência ou credibilidade para defender interesses nacionais em um sistema internacional cada vez mais competitivo e implacável.

Essas constatações não significam dizer que não existam funcionários qualificados e com vocação, o que seria uma injustiça e uma inverdade. Sim, existem. E muitos. Na maioria das vezes, entretanto, potencial e vocação são desperdiçados por uma estrutura burocrática que aprisiona, estimula o carreirismo e desincentiva o aperfeiçoamento buscado de forma individual, autônoma. Como antídoto e válvula de escape para a frustração profissional, muitos obtêm maiores êxitos se dedicando à literatura, à pintura ou a outras artes.

Somente uma profunda reforma estrutural, administrativa e de gestão de recursos humanos – só discernível em um futuro governo de corte conservador – pode salvaguardar a grandeza do Itamaraty. Seu reerguimento e valorização, com o consequente resgate da capacidade de formular uma agenda internacional pró-ativa e de articular uma grande estratégia coerente e integrada, por meio da qual possamos nos antecipar a novas circunstâncias e desafios, são fundamentais para assegurar a defesa do interesse nacional e auxiliar na missão de retomada do crescimento.

Como aduzi em artigo publicado nesta Gazeta em novembro de 2024, intitulado “Como salvar o Itamaraty das garras do lulopetismo”, os serviços diplomáticos das chancelarias mais eficientes do mundo não adotam modelo sequer vagamente próximo ao do Itamaraty, cujos competentes quadros, que perfazem um dos melhores capitais humanos disponíveis na administração pública brasileira, veem-se na contingência de se movimentar, internamente, em um ambiente de modus operandi mais similar ao de um clube de amigos que ao de uma burocracia estatal de inspiração weberiana, pois o modelo organizacional vigente é em si uma cadeia de incentivos à politicagem em detrimento do desempenho.

A defasada estrutura da carreira, contudo, serve perfeitamente ao propósito de ideologização do sistema de promoções e de remoções implementado pelas gestões lulopetistas. Como o processo de promoções não é público, não produz registros e não é informado por ferramentas formais de avaliação de desempenho, ele é um instrumento sob medida para a viabilização de favorecimentos de todo tipo, com ênfase naqueles que privilegiam laços pessoais e de afinidade ideológica.

Trata-se de uma estrutura fundamentalmente distinta de todas as demais carreiras de Estado civis, nas quais a progressão funcional ocorre com base no cumprimento de requisitos previstos em lei e regulamentados por outros atos normativos, e não a partir de preferências pessoais e de proximidade com o núcleo de poder institucional. A atual estrutura, ao não atender aos interesses nacionais e aos profissionais da ampla maioria dos diplomatas, prejudica a realização da missão constitucional do Itamaraty.

A essa luz, confio em que a reforma da carreira diplomática deverá perfazer prioridade administrativa de um futuro governo conservador cioso da importância de contar com um material humano motivado e prestigiado para a implementação de seu programa de política externa.

Sem essa reforma, continuaremos exercendo o papel de coadjuvante de luxo, aplaudindo as iniciativas de países mais arrojados, mas exercendo pouca ou nenhuma influência na elaboração das políticas globais. Que a desconstrução a que foi submetido o Itamaraty possa se converter em oportunidade para resgatar o orgulho e a dignidade da política externa brasileira.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.

Diplomatizzando sobre Lula e os petistas, entre 2006 e 2015 - Paulo Roberto de Almeida

Airton Dirceu Lemmertz selecionou postagens minhas no Diplomatizzando sobre Lula, o PT e as aventuras petistas no poder, de 2009 até 2015. PRA

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 - No blog Diplomatizzando, relembre algumas postagens atreladas a Lula e/ou aos companheiros:


Ele era informante do governo na ditadura brasileira?

Sindicalistas pagam mercenários para engrossar manifestação por greve:

"Gabinete do ódio" da esquerda. E usando estrutura pública:

O "gabinete do ódio" ataca novamente:

Crime de Estado por quem está no Estado:

Ameaças às instituições democráticas e a seus membros:

Ele chantageou um Ministro do STF?! E as instituições democráticas reagiram?
https://diplomatizzando.blogspot.com/2012/05/frase-da-semana-falta-alguem-em.html

Simpatizantes aos quadrilheiros do Mensalão ameaçam o STF e seus ministros:

Notícias deprimentes em 2015:

Lula sabia do Mensalão, diz Mujica:

As ramificações do Petrolão:

Petrolão: a refinaria de Pasadena.

Prisão de empreiteiros:

Marolinha?

A morte da economia brasileira:

Argentina x Brasil: companheiros se entendem bem.

Desconstrução do Brasil:

Em 2006, o Brasil queria retaliar a China?

As joias da Arábia Saudita? Não, essa não foi [aparentemente] a primeira vez 'disso' em Brasília. Outro mandatário "fez algo parecido"?

O governo brasileiro ajudou a Venezuela a sufocar protestos na Bolívia?

Ditadores? Se for de esquerda, tudo bem.

A Venezuela em 2014:

Mafiosos no Brasil e em Brazil:

A 'escravidão moderna' dos médicos cubanos:

A fome em Cuba - culpa de quem: do governo americano ou do cubano?

Um livro de Paulo Roberto de Almeida:

Dica de leitura : "O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico ?", de Mailson da Nóbrega - Felipe Erlich (Revista Veja)

Dica de leitura :

O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico ?, de Mailson da Nóbrega


Em novo livro, Maílson da Nóbrega analisa os desafios para o Brasil se tornar um país rico. Reparar os alicerces da economia, especialmente o quadro fiscal do governo, deveria estar no topo das prioridades, observa o ex-ministro da Fazenda
Por Felipe Erlich
Felipe Erlich
Veja, 24 janeiro 2026

A construção de um país é o resultado das escolhas de seus líderes e cidadãos, organizados em instituições funcionais. A trajetória de desenvolvimento — ou retrocesso — da economia não está escrita em pedra, e sempre há espaço para fazer ajustes de rota e enfrentar mazelas antes tidas como incontornáveis. Ao longo da história recente, o Brasil perdeu sucessivas oportunidades para enriquecer. Muitos fatores jogam contra o país. A baixa taxa de poupança, a insegurança jurídica, os juros altos e o protecionismo são apenas alguns dos entraves para o crescimento. Mas houve, também, muitas conquistas, entre as quais a consolidação de um Banco Central técnico e autônomo, um sistema financeiro sólido, um agronegócio protagonista e indústrias extrativas competitivas. Reparar os alicerces da economia, especialmente o quadro fiscal do governo, deveria estar no topo das prioridades para colocar o país, enfim, no clube das nações ricas.
Esse cenário está descrito em profundidade no livro O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico?, de autoria de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA. A obra chega às livrarias no início de fevereiro e já está disponível em pré-venda on-line. O economista esteve à frente da pasta de 1988 a 1990 e, desde então, é um dos principais analistas econômicos do país.
Aquele período dos primeiros anos da Nova República foi marcado pela promessa de um Brasil próspero e socialmente justo, uma ambição impulsionada pela Constituição recém-promulgada. Ao longo das décadas seguintes, Maílson, hoje com 83 anos, presenciou governos de diferentes matizes políticos, com seus avanços e declínios, mas em todos identificou uma dificuldade em comum: promover ganhos de produtividade, “o principal fator de geração de riqueza de um país”.
Para compreender o impacto econômico dos fatos que marcaram a história recente do Brasil, como o Plano Real, as três vitórias eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva, a recessão da era Dilma Rousseff e as reformas promovidas por Michel Temer, o ex-ministro da Fazenda recorre primeiro a uma análise histórica do que os países devem ou não fazer ao buscar o desenvolvimento.
Da criação de instituições liberais resultantes da Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra, até as reformas promovidas por Deng Xiaoping na China do século XX, a explanação de Maílson não poupa o leitor da erudição necessária para responder às grandes perguntas que ajudam a colocar em perspectiva também a realidade brasileira.
Para o autor, a história econômica mundial mostra uma clara trajetória de progresso. A garantia de direitos e deveres essenciais ao capitalismo, como a propriedade privada e o cumprimento de contratos, e as revoluções tecnológicas propiciaram aumento na produtividade. O que aguarda o Brasil no médio prazo, contudo, vai na direção contrária do enriquecimento. Segundo Maílson, a dinâmica político-econômica inaugurada em 1988 pode produzir, nos próximos anos, uma crise inédita, caracterizada por um arrocho puramente fiscal, em que o governo não terá dinheiro para despesas básicas, com o orçamento comprimido por despesas obrigatórias.
A análise do ex-ministro da Fazenda aponta para os dois lados do colapso iminente das contas públicas: ele pode “desaguar em uma crise financeira de graves repercussões para a economia brasileira”, mas “tende a criar o ambiente para um promissor ciclo de reformas estruturais”. A história mostra que o Brasil costuma aprender com a dor. Foi assim no período do Plano Real, quando a sociedade não podia mais suportar a inflação e encontrou uma saída.
Assim como ocorreu no passado, o país depende de lideranças para conseguir capitalizar a crise e lidar de frente com suas fragilidades. Apesar das previsões negativas no médio prazo, Maílson deposita esperança na capacidade de o Brasil aprender com seus erros.
Na avaliação de Maílson da Nóbrega, a economia brasileira não vai bem e é praticamente certo que o país vai enfrentar uma grave crise fiscal no médio prazo. Apesar disso, o ex-ministro da Fazenda não acredita que a questão fiscal vai pautar a eleição deste ano.

O BRASIL AINDA PODE SER UM PAÍS RICO?, de Maílson da Nóbrega
(Editora Matrix), 373 págs., R$ 99 e R$ 69 em e-book)

Qual será o impacto do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, assinado neste mês?
É o mais importante acordo de comércio da história mundial. A extensão e a abrangência de normas são inéditas. Ele representaria um passo gigantesco para o enriquecimento do Brasil, ajudando a superar o desafio do aumento de produtividade.

O senhor costuma dizer que o Judiciário brasileiro é um freio para a economia. Por quê?
Os juízes brasileiros não são preparados para entender o impacto de suas decisões na economia. Fico feliz em ver a disciplina análise econômica do direito sendo introduzida em faculdades. Não existe capitalismo sem Judiciário.

Seu livro cita o Banco Central e a solidez do sistema financeiro como alguns dos principais ativos do Brasil. Como isso se relaciona com o caso do Banco Master?
A liquidação do Master é prova dessa solidez. Trata-se, provavelmente, do caso mais barulhento da história, mas não gerou dano relevante ao sistema. Tudo continua funcionando. Mas crises deixam lições: acredito que veremos uma reformulação do Fundo Garantidor de Créditos, que perdeu bilhões com esse escândalo.

A inteligência artificial pode ter um papel no desenvolvimento do país?
Essa tecnologia é transformadora e vai enriquecer a sociedade, a despeito de haver uma bolha no mercado. Cada país terá que aproveitar as oportunidades criadas pela IA para não ficar para trás. É o que cabe ao Brasil.

A armadilha da renda média é um desafio enfrentado pelo Brasil há décadas. O que há de diferente hoje?

A economia brasileira está doente. Os fundamentos básicos para o desenvolvimento passam por uma crise. É o caso do regime fiscal, do endividamento e da produtividade. São problemas urgentes, por isso fiz questão de lançar o livro neste ano em que o futuro do país está em foco.

Como esse debate deve aparecer nas eleições?
Não tenho ilusão de que o ajuste fiscal vai constar nas campanhas eleitorais. Seria ingenuidade minha. O candidato que defender o fim de vinculações da saúde e da educação ou uma nova reforma da Previdência vai perder a eleição.

Como vai ficar o Brasil a partir de 2027?
Lula poderia sair da Presidência no auge, como um Pelé, mas hoje ele é favorito à reeleição e tomaria posse com as condições fiscais no limite extremo. É aritmética: a alta dos gastos obrigatórios vai levar o país a uma grande crise fiscal, e o governo pode acelerá-la. Além disso, desde o primeiro Orçamento da República, em 1989, deputados tentam inflar emendas deturpando a estimativa de receita.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O mundo "sem regras" de Celso Amorim - Thiago Padovan (Revista ID)

 

O mundo "sem regras" de Celso Amorim

Um manifesto da hipocrisia diplomática

Não vejo como aceitar", diz Celso Amorim sobre convite do "Conselho da Paz"  de Trump

Em seu recente artigo para a The Economist, intitulado “How can we live in a world without rules?”, o Assessor Especial da Presidência, Celso Amorim, pergunta retoricamente como podemos sobreviver em um cenário geopolítico onde as normas internacionais parecem ter colapsado.

O texto, escrito na esteira de uma intervenção em Caracas em janeiro de 2026, é uma peça de retórica refinada, mas intelectualmente desonesta.

Ao analisarmos o texto, o cinismo de Amorim salta aos olhos em quatro incoerências fundamentais.

1. A soberania como escudo para tiranos

Amorim inicia seu lamento comparando a “abdução forçada” do presidente venezuelano à captura de Saddam Hussein, classificando o ato como “tragicamente surreal”.

Aqui, é preciso deixar claro que a ação unilateral ordenada por Trump é, de fato, condenável. Trata-se de mais uma uma operação de “cowboy diplomacy” executada sem qualquer planejamento para o “day after”, sem consulta aos organismos multilaterais e, claramente, sem o bem-estar do povo venezuelano como prioridade criando mais um precedente perigosíssimo de que a lei do mais forte substitui a diplomacia.

No entanto, a crítica de Amorim não nasce dessa preocupação legítima com a ordem global ou com a vida dos venezuelanos. Se nascesse, ele teria condenado com a mesma veemência a invasão russa à Ucrânia.

O cinismo de Amorim reside no uso seletivo da indignação:

  • Para Amorim, a “tragédia” não é a fome, a tortura sistemática ou o êxodo de 8 milhões de venezuelanos sob o regime que ele protege; para ele, a “tragédia” é o momento em que um aliado ideológico perde o poder, mesmo que pelas mãos de outro agente irresponsável.

  • Quando tanques russos violam a fronteira de uma democracia soberana (Ucrânia), matando civis e anexando território, Amorim e o governo Lula pedem “paz”, “diálogo” e evitam condenar o agressor, relativizando a soberania ucraniana em nome de “preocupações de segurança” da Rússia.

  • Mas quando uma intervenção — ainda que ilegal e temerária — remove um ditador sul-americano, Amorim subitamente se torna um purista da Carta da ONU.

A “soberania” defendida por Amorim, portanto, não é a do Estado ou a do povo, e muito menos a soberania das regras; é o habeas corpus do governante amigo. Em seu mundo, a soberania serve para blindar o ditador de interferências externas, enquanto o povo permanece refém tanto da tirania interna quanto dos jogos de poder externos.

Devemos rejeitar tanto a irresponsabilidade de Trump quanto a cumplicidade autocrática de Amorim.

2. O mito do “Continente de Paz”

Amorim afirma, com uma audácia que beira o delírio, que algo foi estilhaçado: “a certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.

Que paz é essa, Embaixador?

A “paz” das prisões políticas em Caracas? A “paz” da perseguição religiosa na Nicarágua? A “paz” das ameaças de anexação de Essequibo (Guiana) feitas pelo próprio regime que o senhor protegeu diplomaticamente por décadas?

Amorim ignora a tortura interna porque, para ele, a violência só conta se vier do Ocidente.

Sua definição de ‘paz’ é a estabilidade do cárcere.

3. A hipocrisia da “Incerteza de Heisenberg”

Amorim invoca o “Princípio da Incerteza” de Heisenberg para descrever o novo cenário global, onde “qualquer coisa pode acontecer”.

O cinismo aqui reside no fato de que o governo brasileiro, sob sua tutela intelectual, trabalhou ativamente para criar essa incerteza.

  • Quem ajudou a corroer as regras internacionais ao se aliar ao Irã, patrocinador global do terrorismo?

  • Quem enfraqueceu o sistema de direitos humanos da ONU ao se abster de condenar violações na Nicarágua e na China?

  • Quem trabalha para expandir o BRICS, transformando-o em um sindicato de autocracias que buscam reescrever as regras globais para favorecer as ditaduras?

Amorim reclama de um mundo sem regras, mas a política externa que ele desenhou dedicou-se a sabotar a “Ordem Baseada em Regras” (Rules-Based Order) liderada pelas democracias liberais, em favor de uma “multipolaridade” caótica onde a Rússia e a China ditam as normas.

4. O cinismo da “solução” via BRICS

Como remédio, Amorim sugere “diversificação de parcerias”, citando explicitamente o BRICS. É o ápice da contradição. Ele sugere que, para restaurar a ordem e o respeito ao direito internacional, devemos nos abraçar mais forte com a Rússia (que rasgou a Carta da ONU), a China (que ameaça Taiwan) e o Irã (que financia o caos no Oriente Médio).

Conclusão: o medo da accountability

A pergunta do título do artigo de Amorim — “Como podemos viver em um mundo sem regras?” — deve ser traduzida para o que ele realmente sente: “’Como nossos parceiros vão sobreviver num mundo onde os EUA decidiram ignorar a lei internacional com a mesma frieza que a Rússia?”

O lamento de Amorim na The Economist é o obituário de uma doutrina de política externa que escolheu, consistentemente, o lado errado da história.

O Brasil merece uma diplomacia que defenda valores, não ditadores.

Uma publicação convidada por
Thiago Padovan
Projeto Villa Global Village

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