quarta-feira, 8 de abril de 2009

1057) Turismo academico (11): Leituras sobre a crise

Em Urbana, na Universidade do Illinois.
Passei a terça-feira dia 7 de abril em pesquisas e leituras.

Pela manhã, retirei seis livros de duas bibliotecas para ler e retirar materiais para um livro que estou escrevendo sobre a diplomacia econômica do Brasil entre 1889 e 1945. Depois comento.
Pela tarde, passei boa parte do tempo, inclusive o começo da noite, numa livraria Barnes and Noble, lendo livros recentes sobre a crise econômica internacional, para preparar uma apresentação que vou fazer para os alunos de pós-graduação do Professor Werner Baer.
Para não ter de comentar cada um isoladamente, vou postar aqui abaixo minhas notas para essa apresentação, com o aviso de que as notas devem apenas servir de base, junto com gráficos e tabelas estatísticas, mais algumas ilustrações (como por exemplo capas dos livros citados), para uma apresentação em PowerPoint.
Aviso que a apresentação e as notas não estão ainda completas, pois falta toda a parte do Brasil.
Serve como um relatório de mid-term presentation and readings...

Brazil and the International Crisis: a personal approach
Paulo Roberto de Almeida
Presentation in April 2009 at the Center for Latin American Studies, University of Illinois, Urbana, by invitation of Professor Werner Baer.

The American or international aspects of the current crisis are already, if not well known, very well discussed and debated, as we can confirm by a bunch of books published lately:

The Gods That Failed: How Blind Faith in Markets Has Cost Us Our Future,
Larry Elliott and Dan Atkinson (New York: Nation Books, 2009)

BUT: It was just at one precise moment of 2008, say, between September and October 2008, that Gods failed and financial thunderstorm fell unto us? This is, perhaps, a conspiratorial view of the financial world, with a secret bunch of market speculators from Wall Street and the City taking control of the market leverages… (Sorry, they are just two English economists-journalists).

Or

Panic: The Story of Modern Financial Insanity, Michael Lewis (ed.)
(New York: Norton 2009)

BUT: It was just a Wall Street black hole that provoked the collapse of the markets? The man in the street also adopted the same behavior as speculators it seems… Why, so many people, during so long a period, trusted the Black-Scholes formula (portfolio insurance, and the short position assumption)?

Some books distribute the sins and responsibilities in an egalitarian way:

Every Man a Speculator: A History of Wall Street in American Life,
Steve Fraser (New York: Harper, 2006)

BUT: History repeats itself, in form of dreams and nightmares? Well, it seems part of American national character and the gospel that ‘greed is good’? That’s the inescapable fate of the ‘shareholder nation’?

Other analysts go direct to the point:

Getting Off Track: How Government Actions, and Interventions Caused, Prolonged, and Worsened the Financial Crisis, by Jeffrey Taylor (Stanford, CA: Hoover Institution, Press, 2009)
From which a synthesis can be read in this paper:
John B. Taylor, “The Financial Crisis and the Policies Responses: an Empirical Analysis of What Went Wrong” (National Bureau of Economic Research, January 2009; Working Paper 14631; available here).

BUT: Why the most brilliant economists did not alert the keepers of the Treasury and the Fed about the unsustainable interest levels?

Some try a more sophisticated approach:

Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy, and Why It Matters for Global Capitalism, by George A. Akerlof and Robert J. Schiller (Princeton: Princeton University Press, 2009)

BUT: Why economists were not counting on psychological aspects of economic behavior all the time, and not just during moments of stress? And why the ‘animal spirits’ of the public at large should be driven by the visible hand of governments, as these two authors suggest in this book? And, would a more robust, and behaviorally informed, kind of Keynesianism suffice to counter such impending crises like this one?

Whereas other search for antecedents:

The Panic of 1907: Lessons Learned from the Market’s Perfect Storm, by Robert F. Bruner and Sean D. Carr (New Jersey: John Wiley, 2007)

BUT: It seems that the all the lessons were not very well learned at all… As William Bernstein recounts in his Preface, financial manipulators – be they English goldsmiths, treasury secretaries or central bankers – always print more money than they have in their vaults…


And one of the explicative variables is, of course,:

The Empire of Debt: The Rise of an Epic Financial Crisis, by William Bonner and Addison Wiggin (New Jersey: John Wiley, 2006)

AND that sound entirely true:
“The Entire homeland economy now depends on the savings of poor people on the periphery to keep it from falling apart. Americans consume more than they earn. The difference is made up by the kindness of strangers – thrifty Asians whose savings glut is recycled into granite countertop and flat-screen TVs all over the United States.” (p. 4).

According to some economic theorists (Hyman Minsky, for instance), all credit operations fell into three categories: hedging, speculative, and Ponzi. We have had allt three in the most recent times… And William Bernstein – from whom I have recently read the splendid A Splendid Exchange: How Trade Shaped the World – believes, as a trained neurologist, that we all have “greed centers” in our brains…


And here we are: Almost all, if not all, of the Brazilian crises of the past were provoked by external debt, huge amounts of debt, in every and each downturn of the international economy.

Even those crises not directly provoked by external constraints, such as the hyper-inflationary experiences of the 1980s and 1990s, are due, in last resort, to huge amounts of debt, either internal or external, which provoke mistrust, capital flight, insolvency of the State and some sort of default in government bonds.

When there is an external constraint, there is a lack of credit, say a credit crunch, and it is all: the economy stops, like today.
Today’s Brazil is not in crisis, but it is IN the crisis, for the first time.

Questions:

Does Brazil need stimulus? If so, what sort, exactly? Monetary stimulus, fiscal stimulus, what kind of it?
Government is trying every sort of government expenditures, to counter the credit crunch. It started by reducing the compulsory deposits in the banks, then extending some credit to the same banks, afterwards introduced old sorts of sectoral policies, such as one for automotive sector and so on.

Is there a lack of confidence in Brazil? Not exactly, but entrepreneurs took already a big surprise by the reverse behavior of the dollar at the reversal of exchange markets, last October.

So, the government tried everything:
1) Enlarging the provision of capital (compulsory, credits by Central Bank and so on…
2) Direct Injections of Capital (BC, to foreign trade companies and banks dealing with foreign trade, extending money for non renewed borrowings by Brazilian companies)
3) Direct credit from government banks (BB, BNDES)

(to be continued...)

Urbana (freezing), April 7th, 2009.

terça-feira, 7 de abril de 2009

1056) Turismo academico (10): instalado em Urbana, e ja viajando

Estava em falta com os seguidores habituais desta série dedicada a meu "turismo acadêmico", depois de mais de uma semana em silêncio. Aliás, nem tão turismo e nem tão acadêmico, assim, pois que tenho alternado providências práticas e atividades acadêmicas diversas.

Desde que cheguei em Urbana, cidade universitária conectada a Champaign, no Illinois (cerca de 180 km ao sul de Chicado), em 1. de abril (bela data para enganar incautos), tive de tomar diversas providências para minha instalação. Recebi um bom apartamento mobiliado da Universidade, mas vazio de comida e outras pequenas comodidades da vida diária. Assim, passei o primeiro dia circulando pelos centros comerciais da cidade (que nos EUA são sempre nos subúrbios, bastante espalhados) para abastacer a geladeira e também para nos precavermos contra o frio implacável que se abateu sobre toda a região nem bem chegamos nestas planicies geladas do meio oeste. Blusas, casacos, pijamas, meias (me está faltando uma par de luvas para dirigir), até sapato mais reforçado para enfrentar a neve, esta voltando de maneira triunfante em plena primavera. Eu estava preparado apenas para a primavera, com camisas de mangas curtas e nenhum casaco, não para temperaturas invernais...
Mas, a primeira providência foi comprar dois telefones celulares, já que o meu brasileiro perdeu qualquer conexão assim que atravessei os limites de Indiana para Illinois. Comprei o mais barato que havia, já que não servirá para mais nada depois de abril. Aos muito necessitados de me contatarem, recomendo o envio de uma mensagem para meu e-mail (ou pelo contato da minha página na internet), para comunicação direta do número. Acho que vai ser bom ficar sem muita chamada telefônica...

Depois, fui fazer uma identidade da Universidade, sem a qual eu simplesmente não existiria: ela me permite me conectar na rede da Universidade, retirar livros na biblioteca, enfim, existir, como qualquer ser vivo... Isso implicou em registro, foto, cadastro no sistema de conexão por rede. Mas, tudo muito simples, desburocratizado: as pessoas acreditam em você, basta declarar nome, algum telefone, e-mail e pronto...
Depois recebi um escritório na universidade, onde vou poder ler, receber visitas, enfim, cumprir meus compromissos acadêmicos. Falta decoração na parede, mas tem mesa, cadeira, estante, conexão e uma janela, nada mais, além do meu nome na porta e uma chave...

Depois, como ninguém é de ferro e já era sexta-feira, fui com o Professor Werner Baer e com Carmen Lícia, assitir Der Rosenkavalier, ópera de Richard Strauss (libreto de Hugo von Hoffmansthal), no centro de Performing Arts da Universidade do Illinois, um impressionante edifício de espetáculos, no coração da Universidade. Como diversos outros prédios, bibliotecas e facilidades diversas, foi financiado por um generoso dom de muitos milhões de dólares de um desses benefactors, que por vezes nem estudantes da Universidade foram: apenas pretendem perpetuar os seus nomes no solido granito (mármore italiano, no caso do prédio da Ópera) dos prédios que financiam tão prodigamente. Provavelmente metade da Universidade, e sobretudo suas várias bibliotecas, cada uma melhor do que a outra, foram dons de capitalistas beneficientes.

Bem, no sábado, como todo fim de semana, urge sair, passear. Fomos a Chicago, o que há de mais refinado em todo o meio Oeste: uma cidade impressionante pela sua arquitetura, riqueza em museus, diversidade consumista. Certas coisas marcam mais do que outras. Por exemplo: devo ter gasto mais em estacionamentos do que em comida, tanto porque não tivemos tempo de frequentar grandes restaurantes, porque aproveitamos a maior parte do tempo para passeios culturais, sobretudo o imenso Field Museum de Natural History, que eu já conhecia de outras visitas. Desta vez, fomos a duas exposições especiais, com entradas separadas; uma sobre o antigo mundo azteca, com peças vindas de vários museus mexicanos e diversos americanos -- algumas inclusive eu já tinha visto nos Smithsonian de Washington, no Dumbarton Oaks --, e outra sobre "real Pirates", ainda que em versão um pouco edulcorada. Na verdade, se tratava da reconstituição perfeita do Widah, um navio negreiro inglês, capturado por piratas e convertido ao banditismo de alto mar, entre 1620 e 1630, e que naufragou nas costas na Terra Nova, perto do Canadá. Ele foi quase todo recuperado em seu conteúdo por um desses caçadores de tesouros, que encontrou, de fato, um cofre inteiro com moedas de prata que seria, supostamente, dividido com os "empregados" da empresa de pirataria, numa trajetória bem documentada em documentos e em relatos de sobreviventes (todos os seis enforcados, com a única exceção do mestre de bordo, engajado à força e libertado no julgamento). Extremamente instrutiva essa aula sobre um microempresário da pirataria independente -- já que também havia corsários trabalhando oficialmente para soberanos, na mesma época--, que subsistiu enquanto as nações não se organizaram para combatê-los, um pouco como se faz hoje nas costas da Somália. Enfim, piratas são nossos companheiros constantes, nas esquinas das cidades brasileiras, ou até nos escritórios de lobbies de Brasília.
Também compramos livros (como parece inevitável) e passeamos de carro (já que a pé seria impossível, nesta windy city de ventos uivantes e gelados) por Chicago, realmente muito bonita (se não fosse por esse clima miserável).
Na volta deixamos de visitar o Oriental Institute da Universidade de Chicago, pois ele estará inaugurando, justamente nesta segunda-feira 6 de abril, novas coleções, que vamos visitar no dia 18 de abril, quando pretendemos retornar à cidade. Voltamos mais cedo do que o pretendido, pois estava anunciada uma nevasca para ninguém botar defeito. De fato, na estrada pegamos um pouco de neve-granizo, e depois muita chuva gelada pelo caminho. Abasteci na saída e não fizemos nenhuma parada até chegar em casa (com uma passada pelo supermercado para comprar um vinho)...

Segunda-feira, 6 de abril: comprei um novo MacBookPro, poderosíssimo, que estou instalando agora, e me apresentei na Biblioteca para verificar as condicoes de pesquisa e retirada de livros. Não poderiam ser melhores. Conversei com a chefe da Biblioteca Latino-Americana, mas não vai ser preciso nenhum favor especial: tudo é extremamente facilitado para qualquer um, pesquisador, estudante, curioso de passagem, não existe melhor lugar no mundo para quem gosta de livros do que uma biblioteca universitária americana. Eu seria capaz de morar dentro de uma delas, se não existissem objeções familiares e provavelmente institucionais. Mas, um dia ainda vou tentar.

Ainda estou aguardando me chamarem para alguma palestra, do contrário vou ficar lendo e escrevendo. Claro, planejando viagens também: na Páscoa, que já é na próxima sexta-feira, vamos voltar a Indiana, visitar Terre Haute e outras localidades de antiga ocupação francesa na região.
Por enquanto, vou continuar lendo e pesquisando (e bebendo vinho e tomando café, um de cada vez)...

1055) Um mito a ser desmontado: o golpe de 1964

Acabo de publicar mais um texto da série "Falácias Acadêmicas", desta vez sobre os mitos históricos em torno do governo Goulart e do golpe militar de 1964.
Leiam aqui:

Falácias acadêmicas, 7: os mitos em torno do movimento militar de 1964
Brasília-Rio de Janeiro, 20 março 2009, 23 p.
Continuidade do exercício, tocando no maniqueísmo construído em torno do golpe ou da revolução de 1964, condenando a historiografia simplista que converteu-se em referencia nos manuais didáticos e paradidáticos.
Espaço Acadêmico (ano 9, n. 95, abril 2009; link; pdf).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

1054) Um candidato à carreira altamente motivado

Segue abaixo uma correspondência de um leitor de meus textos, no site ou nos blogs, que corresponde exatamente àquilo que eu mesmo espero encontrar -- e ajudar a 'produzir' -- através destes meus meios eletrônicos de interação indireta com os jovens candidatos à carreira, ou a qualquer outra atividade profissional.
Permito-me transcrever sua carta, omitindo nome e local, pois se trata de um exemplo relevante de consciência elevada e alto sentido vocacional.

Primeiro a correspondência que me chegou:

On 02/04/2009, at 00:00, Xxxxxxx Zzzzzzzz wrote:

Caro Professor Paulo,

Primeiramente, solicito imensas desculpas em adentrar no seu email sem a devida permissão, mas diante da oportunidade que apareceu, numa forma de adequar o útil ao agradável, tomei essa liberdade.
Acredito que trarei para esse texto frases óbvias, mas mesmo nesta singela mensagem eletrônica, queria transparecer o quanto sinto orgulho por saber que teremos um representante do nosso povo nas terrasyankes e que essa pessoa seja o senhor, Professor Paulo.
Apresentando-me. Sou acadêmico do último ano do curso de Direito da Universidade de Xxxxxx Xxxxxx (uma cidade incrustada no interior do Norte de [estado]) e descobri, meio por acaso, o seu blog e com ele os meios necessários para o ingresso na carreira de diplomata.
Não adentrarei nas vicissitudes que me trouxeram a baila do Itamaraty, mas se hoje posso me orgulhar de estar trilhando esse caminho árduo, que é a fase de admissão ao Instituto Rio Branco, devo creditá-lo ao senhor.
O seu blog, principalmente sua sugestão de bibliografia necessária para a famigerada prova e outras dicas, foi o primeiro contato no âmbito diplomático e depois seus textos, com seus nuances e conselhos sensatos, foram de uma utilidade tamanha, que não trarei exemplos de situações em que elas foram úteis, porque encheria esse texto de assuntos dos mais diversos, mas conseguiu despertar o método de estudo numa forma macro, não praticada, infelizmente, pelo resto dos “estudantes”. Este método, fazendo clara alusão às recomendações de Sir Karl Popper, que afirma que “a [...] tarefa mais importante é escapar da visão estreita de uma especialização excessiva, interessando-se ativamente por outros campos em busca do aperfeiçoamento pelo saber que é a missão cultural da ciência” conseguiu transformar-me, ser diferente dos demais.
E assim, sabendo que hoje, não sou um “peixe fora d’água” (mesmo ainda tendo problemas em explicar para a minha familia que pretendo algo que foge das carreiras comuns do meu curso), mas que somente tenho uma visão diferente das coisas que cercam esse mundo.
E imbuído de uma necessidade de ser útil, aliado a uma forma romântica de representar e mostrar o que nosso país pode ser maravilhoso aos demais entes do cenário internacional, irei tentar (como estive tentando) ingressar na carreira de diplomata.
Portanto, mesmo tão distante, mesmo sem nos conhecermos, quero que saiba Professor, que possui um grande admirador, e que os obstáculos são muitos, mas este que te escreve, irá num futuro te agradecer pessoalmente nas dependências do Ministério de Relações Exteriores, mas além da eterna condição de aluno, como um colega de trabalho.

Respeitosamente,
Xxxxxxxx Zzzzzzzz

Agora minha resposta:

Meu caro Xxxxxxxx,
Muito grato por suas palavras, que muito me sensibilizaram. Todo o meu trabalho academico, e o que faço em carater voluntario em outras areas tambem, está justamente voltado para a formação de jovens como você, que pretendem ir um pouco além do normalmente esperado pela familia ou sociedade, ou seja, romper as barreiras do meio de origem, alçar-se a um conhecimento mais elevado e enriquecer-se intelectualmente, contribuindo também para a elevação moral da sociedade.
Espero que voce persista nesta trilha e consiga realizar os seus objetivos de vida, o que deverá ocorrer com essa tremenda força de vontade que você demonstra. Os requerimentos são sem dúvida excessivamente duros, mas não impossíveis para quem possui essa força interior e, sobretudo, essa consciência clara das relações entre fins e meios.
Meus parabéns, acima de tudo, pela sua linguagem cristalinamente clara, elegante, perfeita, o que prova que você é um grande leitor e um redator impecável. Ou seja, você já tem uma parte do caminho feita e poderá mais facilmente percorrer o que falta.
O abraço do
-------------
Paulo Roberto de Almeida

1053) Sorry folks: o convite irrecusavel de Harvard vai ter de esperar mais um pouco

Bem, faz parte da tradição, mas gostaria de me desculpar sinceramente com todos os true believers em minha palavra aparentemente séria, quanto ao convite feito pela Universidade de Harvard, para me integrar como seu professor de história latino-americana (ver post abaixo).

Vou ter de esperar mais um pouco pelo convite de Harvard...
Os mais atilados, ou desconfiados, ou aqueles que simplesmente olharam o calendário, logo perceberam a embromação, e m'o fizeram (com desculpas pelo pernosticismo linguístico) saber, alguns em paralelo, outros publicamente, o que retirou-me o prazer de receber outros cumprimentos tão sinceros quanto a minha mentira.
Não foi ainda desta vez, mas pode ser que venha, algum dia. De fato, alguns julgaram plausível (eu entre eles) essa nova guinada profissional, já que acredito, sinceramente mais uma vez, estar em condições de ser selecionado e de exercer atividades docentes naquela universidade americana. Pode ser que venha um dia, e não deixarei de anunciar publicamente, esperando que me creiam, de fato, e não façam como aquela história do menino e o lobo...
Bem, mil desculpas a todos os que se sentiram lesados intelectualmente por minha pequena fraude de ocasião, mas isso talvez os incite a preparar uma boa mentira pessoal para o próximo primeiro de abril...

PAULO ROBERTO DE ALMEIDA (Urbana-Champaign, Illinois, 2 de abril de 2009)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

1052) Convite irrecusavel: Harvard University

Acabo de receber um convite para dar aulas de história latino-americana na Universidade de Harvard, em programa administrado pelo David Rockefeller Center for Latin American Studies.
Como se trata, simplesmente, da melhor universidade dos EUA, e possivelmente do mundo, achei que não devia recusar esse convite, que me obrigará a mudar-me, de armas e bagagens, para os EUA, mais especificamente para Boston, ou Cambridge.
Vou tratar da mudança agora mesmo...

terça-feira, 31 de março de 2009

1051) Turismo academico (9): 500 milhas de Indianapolis

Não, corrijo de imediato: não participei, nem pretendo participar das 500 milhas de Indianapolis, que por sinal estão comemorando o 100. aniversário este ano; vejam o site oficial neste link. Mas, acabo de conferir: 1909 é de fato o centenário da corrida, mas a primeira ocorreu apenas em 1911... (embromadores esses automobilistas locais...)

500 milhas, da Virginia a Indianapolis...
Estou apenas conferindo minhas milhagens (que não me dão direito a milhagens extras, pois isso eu já venho fazendo): fiz exatamente 574 milhas nesta terça-feira, 31 de março de 2009, desde a Virginia (Alexandria, onde estava no Marriott), passando por Washington (DC), estados de Maryland, West Virginia, Pennsylvannia, novamente West Virginia, Ohio e finalmente Indiana, onde estou muito próximo a Indianapolis.
Isso dá exatamente 923,5 kms, numa média aproximada de 90 kms/h, sem visita nenhuma desta vez, apenas estradas (aliás, muito boas: não vi um buraco sequer...).

As estradas são boas, as paradas apenas razoáveis: aquela coisa de MacDonalds, BurgerKing e as variantes de fast-food, além dos mesmos hotéis de sempre.
Pelo menos a rede de Comfort Inn e Comfort Suites tem internet rápida gratuita, o que já é um progresso, depois da exploração comercial de Miami e Washington.
Paisagens bucólicas, com aquela sucessão de barns de rednecks, ou seja, os celeiros dos agricultores (subsidiados, of course), algumas vaquinhas e sobretudo campos colhidos, mas limpinhos, como se tivessem sido pintados para alguma foto de cartão postal. Algumas cidades pelo caminho, mas pouca coisa de realmente interessante, a não ser alguns prédios magnificos pela sua arquitetura moderna, pontes e viadutos bonitos e seguros, controle razoável de velocidade pelos state troopers.
Tempo magnífico, na maior parte do percurso, com sol e pouco vento. Apenas um pouco de chuva já na passagem de Ohio para Indiana. Boa música em todo o percurso, alternando duas estações de jazz.
Todas estradas inter-estaduais, construídas a partir do National Security Act do presidente Eisenhower, são de concreto, sem pedágio, e com abundante sinalização. Entre os mapas e o GPS do carro, o trajeto correu como se fosse planejado milimetricamente, sem qualquer problema.

Não observei sinais de crise, mas tampouco registrei os excessos de consumo de outros tempos: paramos várias vezes em centros comerciais (outlets, em grande parte, mas shoppings, também) para algumas compras, e os estacionamentos estão relativamente vazios, sem aquelas enormes vans carregando toneladas de bugigangas, como ocorria alguns anos atrás, ou talvez até o ano passado...
Pelas matérias da CNN, registro que a confiança do consumidor americano está voltando, e pelo menos a metade acredita que a crise está passando. O desemprego chegou a dois dígitos em alguns estados da costa leste e do Pacífico (os de maior comércio exterior), mas aparentemente o país parece recobrar algum sinal de vitalidade. Tenho lido matérias pelos jornais que demonstram a grande flexibilidade do sistema produtivo e o espírito de inovação de seu povo (vários sugeriram emissão de bônus nacionais, como durante as duas guerras mundiais, em lugar de depender de dinheiro chinês [que, aliás, é americano]).

O presidente Obama partiu hoje para a Inglaterra, mas suspeito que a maior cobertura será dada a sua esposa Michelle. A CNN já entrevistou seu "biógrafo", e me pergunto quando surgirá o biógrafo do cachorro presidencial...
A imprensa americana adora futilidades, aliás como qualquer imprensa, mas nisso acho que ela tem razão: a esposa do presidente parece mais interessante do que essa reunião do G20, que não deve decidir grande coisa.

Amanhã devo me apresentar na Universidade do Illinois, onde vou passar o mês de abril, fazendo pesquisa, leituras, e dando algumas palestras para alunos de pós-graduação.

1050) Turismo academico (8): visitas e leituras em Washington

Parte do dia em Washington, nesta segunda-feira 30.03, foi ocupada com visitas e leituras.
Na parte turística, passamos no Museu de História Natural, onde Carmen Lícia comprou alguns posters de animais, e depois fomos às galerias Freer e Sackler, que fazem parte do conjunto de museus Smithsonian. Além das coleções do acervo, que ja conhecíamos de incontáveis visitas no período 1999-2003, algumas exibições especiais estavam em curso, entre elas uma sobre arte cerâmica na Ásia oriental meridional e outra sobre uma legenda tradicional japonesa, um herói samurai que mata um monstro devorador de donzelas (clássico, esse tipo de enredo, nas sociedades fortemente patriarcais); o interesse desta legenda é que ela foi objeto de desenhos de alta qualidade artística, uma espécie de manga do século XVIII e XIX (mas a legenda é do século XII, no calendário cristão, obviamente).
Aproveitamos as visitas para comprar alguns livros; escolhi uma história do Oriente Médio contemporâneo, por um ex-diplomata inglês que se tornou jornalista depois que se decepcionou com a aventura de Suez (1956). Excelente, me pareceu, mas depois eu falo sobre ele. Um outro livro me chamou a atenção, percorri várias páginas, mas acabei não comprando. Anotei, em todo caso, os dados, para buscá-lo em alguma biblioteca americana: Lucette Lagnado, 'The Man in the White Sharskin Suit: My Family's Exodus from Old Cairo to the New World' (New York: Harper Collins 2007), uma história pessoal sobre uma tragédia humana e social: a expulsão dos judeus do Egito (onde viviam desde séculos) depois da tomada do poder por Nasser, nos anos 1950. Conheci judeus egípcios que acabaram emigrando para o Brasil...
Na livraria que fica ao lado do FMI, que já frequentei muitas vezes, tomei um capuccino enquanto lia rapidamente dois livros:
1) John B. Taylor: 'Getting Off Track: How Government Actions and Interventions Caused, Prolonged, and Worsened the Financial Crisis' (Stanford, CA: Hoover Institution, 2009). Percorri vários capítulos e fiz anotações. Devo dizer que já conheço as posições do autor, a quem aliás tinha conhecido pessoalmente, quando cuidava de assuntos financeiros na Embaixada em Washington, e acompanhei algumas reuniões de trabalho entre funcionários dos dois Tesouros, sendo que Taylor era o Secretário de Assuntos Internacionais do Tesouro americano. Ele é o autor da famosa "regra de Taylor", basicamente um método de cálculo da taxa de juros de equilíbrio em função da inflação e dos preços dos ativos. Eu já li um resumo dessa obra, "What Went Wrong?", disponível na internet, que resume o essencial do livro.
2) Nancy Birdsall (org): Rescuing the World Bank: A CGD Working Group Report and Selected Essays (Washington, DC: Ccenter for Global Development, 2006). Trata-se de uma compilação de ensaios operacionais sobre a reforma do Banco Mundial, feita ao início da gestão anterior, de Paul Wolfensohn, um dos falcões do Bush no Pentágono, mas que não durou muito tempo no BIRD.
Acabei comprando um outro livro, de Deepak Lal, um liberal indiano, chamado 'Reviving the Invisible Hand', mas depois falo sobre o livro...

Também li os jornais do dia, mas os temas são sempre os mesmos: tentativa de salvamento da indústria automobilística americana -- para mim, ela já deveria ter sido reestruturada, ou vendida para os japoneses, 20 anos atrás -- e a gestão da crise atual, segundo as visões de europeus e americanos. Parece que Londres vai ser uma bela confusão, devidamente maquiada pelos assessores presidenciais...

1049) Turismo academico (7): em Washington, de volta ao centro do poder mundial (hoje, um pouco em andrajos...)

Depois de chegar a Washington, dediquei-me à informação sobre o estado de saúde do Império, lendo o Washington Post, assistindo canais de informação e debate, conversando com alguns interlocutores.
Um diagnóstico: o Império não tem justamente um diagnóstico preciso sobre o que vai mal e se esse mal é uma simples gripe ou alguma pneumonia galopante. Ninguém espera que o gigante venha a ser posto por terra, mas o fato é que temos hoje um grandalhão com sérias dúvidas sobre seu futuro imediato e sobretudo o de médio e longo prazo.
Os comentaristas de TV e jornal -- basicamente jornalistas bem informados, economistas, observadores internacionais -- não conseguem se colocar de acordo sobre o diagnóstico e, portanto, sobre o receituário a ser aplicado, que prescrição fazer e que dose de qual remédio aplicar. Não há consenso sobre a natureza da doença e não existe acordo sobre os remédios: o Plano Geithner, por exemplo, tem defensores (mitigados) e críticos acerbos, e na verdade ainda não passou por nenhum teste prático.

Conversas 1: almocei, nesta segunda-feira 30.03, com Murilo Portugal, vice-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional, no próprio restaurante do FMI -- aparentemente sem mais subsídios, como no passado, pois os preços me pareceram de mercado, ou pelo menos comparáveis a restaurantes de nível médio -- com a conta gentilmente coberta pelo meu anfitrião. Conversamos basicamente sobre a crise americana, a próxima reunião do G20 em Londres -- e as posições dos principais países --, e a situação no e do Brasil, obviamente. Eu era mais ouvinte do que propriamente um parceiro, tanto porque sou um observador distante de processos decisórios, justamente, e meu interlocutor ocupa uma posição importante no principal órgão monetário do planeta (o que aparentemente não impressiona muita gente, pois a única coisa que se discute é como dar mais recursos ao FMI, não mais poder...).
Como disse Murilo, a regulação que vem por aí -- e alguma, mais reforçada, vai ter de ser implementada, pois a demanda dos regulacionistas, entre eles França, Brasil, Rússia e China, vai nesse sentido -- será feita com olho no retrovisor, como sempre ocorre nesses casos: os reguladores levam em conta o que deu errado na presente conjuntura. Obviamente, a próxima crise -- tenham certeza de que virá, em alguns anos -- terá outros elementos, não os mais os responsáveis pela crise atual.

Conversas 2: jantei com Otaviano Canuto, que em duas semanas assume como vice-presidente do Banco Mundial, tendo tido a mesma posição (mas com outras funções) no BID. Conversamos bem mais sobre o Brasil, a política e a economia, do que sobre os EUA e a agenda mundial. Falamos (mal) da academia brasileira, como não podia deixar de ser, e bem sobre nossos filhos, como eles são maravilhosos e estudiosos (mas isso faz parte). Basicamente, trocamos idéias sobre os desafios econômicos do próximo governo brasileiro, em face das não-reformas não-executadas pelo governo Lula. Concordamos em que a herança fiscal será pesada, além de outras coisinhas mais não publicáveis.

Conversas 3: Na noite de domingo, dia da chegada em Washington, havia conversado com um jornalista brasileiro, Francisco Mendez, que está terminando os créditos de mestrado na Georgetown University, e se prepara para voltar ao Brasil no mês de maio. Abordamos, basicamente, temas da vida universitária, nos EUA e no Brasil. Como era de se esperar, fomos impiedosos (com razão) sobre o estado lamentável do debate intelectual no Brasil, para o que muito contribui a pobreza da vida universitária e a miséria acadêmica, de modo geral (mas miséria no sentido moral, não material).

Abstenho-me de comentar a gastronomia americana, uma contradição nos termos, pois ela é lamentável: eles conseguem estragar qualquer culinária reputada, francesa, italiana, etc... Enfim, parece que quanto mais poderoso o império, pior se torna a sua comida.
Esperemos que o mesmo não ocorra com a China, aliás apontada em todas as matérias de imprensa que li como o parceiro indispensável que pode salvar este império em dificuldades. Se a China cortar os suprimentos (em dólares), os americanos caem no abismo, e vai ser uma queda bonita (ops, horrível, quero dizer). Acho que os americanos deveriam virar budistas, ou confucionistas, whatever...

domingo, 29 de março de 2009

1048) Turismo academico (6): terrorismo meteorologico e contabilidade da viagem

Depois de todo o alarmismo da sexta e sábado, em torno de tornados e chuvas fortes, feito pelo Weather Channel, em relação ao tempo ao longo da costa leste, sobre a I-95, onde eu estava viajando, confesso que pensei até em comprar equipamento de mergulho, mas nao foi preciso. Na verdade, só comprei um guarda-chuva e um casaco de chuva, Nautico, supostamente de marinheiro, e portanto impermeável.
Mas, o dia neste domingo 29 de março não podia ter sido melhor: sol em toda a estrada, por muitas milhas, apenas um pouco de vento, ou brisas mais fortes, o que aliás fez o tempo ideal para viajar.
Saimos de Lumberton e seguimos sem problemas pela I-95, chegando a Washington as 16h30, desta vez num hotel de Alexandria, perto do aeroporto de Washington.
Chuva forte ocorreu, de fato, mas na própria Flórida, de onde já tinhamos saído na sexta, e nas planícies centrais.

Conferindo agora o contador do automóvel, verifico que deixei Miami com o contador a 11.504 milhas, e cheguei ao hotel com 12.680 milhas, o que perfaz um total de 1.176 milhas, ou 588 milhas por dia. Convertido em quilometros, daria 946 quilometros por dia, ou 1.892 no total. Está na minha média histórica do viagens, incluindo visitas interessantes pelo caminho.
Vou jantar com um jornalista conhecido e conversar sobre as novidades brasileiras e americanas.
PRA, 29.03.2009, 19h5.

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