terça-feira, 4 de agosto de 2026

“Eu Disse Não!” Livro do comandante da Aeronáutica que se opôs ao golpe de Bolsonaro (Estadão)

 Eu Disse Não!’; ex-comandante da FAB revela bastidores da crise que levou ao 8/1

Em livro que será publicado em setembro, Baptista narra como formou a "trincheira antigolpista" e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional

Estadão. 03/08/2026

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do País. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas – um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis.

Em Eu Disse Não, que sai em setembro – publicação da Autêntica Editora -, Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou a “trincheira antigolpista” e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que teria seu desfecho nos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023. É a primeira vez que um integrante da alta cúpula militar daquele período expõe, em livro, os bastidores da crise.

Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior fala com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão – não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.

O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.

Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista – da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe para impedir a posse de Lula.

E, ainda, revelou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas da Força à disposição do plano golpista.

Eu Disse Não mostra em suas páginas que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente em posições estratégicas.

‘Páginas muito importantes da nossa história’

“A decisão de escrever este livro consolidou-se a partir da percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel”, disse Baptista Junior ao Estadão.

Segundo ele, o primeiro levantamento, realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes -, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, diz o oficial.

Dois anos e meio depois, destaca Baptista Junior, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil.

“Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia.”

Roman afirmou que o porcentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%.

“Em suma – avalia o tenente-brigadeiro – já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1.º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia.”

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras”, anota Baptista Junior. “Concluí que este livro seria a melhor opção.”

O militar conta que, após 12 horas de depoimento na Polícia Federal nos autos do inquérito que culminou na ação penal 2662, conversou com dois jovens agentes federais que acompanhavam a audiência. “Ao acabar, eles me sugeriram que tudo aquilo deveria ficar registrado para as gerações futuras, como páginas muito importantes da nossa história.”

Leia abaixo um trecho exclusivo do texto de Baptista Junior sobre o episódio de 1.º de novembro de 2022:

“Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante.

Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado.

Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças.

Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e alguns parlamentares, o presidente sacou da sua caneta BIC, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos:


‘Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.

A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.

Formamos diversas lideranças pelo Brasil.

Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.

Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.

Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição.

Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais.

Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.

É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira.

Muito Obrigado.’


As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas.

No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, ‘houve acomodação ao fato, mas não assimilação’.

Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações à ‘indignação e sentimento de injustiça’, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia.

Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira.

Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia.”


O processo de integração latino-americana, da Alalc ao Mercosul - Paulo Roberto de Almeida (Revista Brasil/Brazil)

Outro artigo publicado, recebido recentemente:
5284. “O processo de integração latino-americana, da Alalc ao Mercosul”, Brasília, 19 abril 2026, 12 p. Breve síntese de uma história inconclusa, com base nos trabalhos 322 e 4829. Submetida à revista Brasil/Brazil (Luiz Fernando Valente). Publicada: Revista Brasil/Brazil (vol. 39, n. 80, 2026, p. 146-159; link: https://seer.ufrgs.br/.../brasilbrazil/article/view/155000 )
Autor: Paulo Roberto de Almeida MRE; Instituto Histórico e Geográfico do DF (https://orcid.org/0000-0003-2332-6233).
Palavras-chave: América Latina, integração, ALALC, ALADI, MERCOSUL

Resumo: Breve síntese de uma história inconclusa: breve apresentação de um complexo processo de integração na América Latina, desde as primeiras iniciativas no pós-guerra, imitando as iniciativas europeias, resultando no primeiro tratado de Montevidéu (1960) criando a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), passando pelo segundo tratado de Montevidéu (1980), criando a Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), até chegar na fase sub-regional de integração, com a criação do Mercado Comum do Sul, pelo Tratado de Assunção (1991), seu desenvolvimento inicial e a relativa estagnação da fase presente. 

Renato Prado Guimarães, um passo atrás: capítulo 1 das crônicas imperdíveis de Panamérica

 Última Forma, como dizem os militares. Depois de ter postado o capítulo 1 das crônicas do embaixador Renato Prado Guimarães, volto atrás e publico o capítulo 1, sobre o qual eu tinha passado batido por excesso de entradas por vários canais (e-mails, Facebook, etc etc....


PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
PA N A M É R I C A — C A P Í T U L O 1

1. COLÔMBIA, CASA DA SOGRA?
(Dedicada in memoriam a Vargas Llosa, há pouco falecido, e a suas Visitadoras amazônicas, eternas!
Igualmente dedicada ao Embaixador Julio César Gomes dos Santos, que ao aposentar-se escolheu Bogotá como sua morada definitiva, com Flavia, sua admirável esposa, celebridade na TV colombiana)

Comecinho dos anos 1970. Domingo sim, domingo não, era de esperar: lá pelas onze horas o telefone de plantão da Embaixada tocava em Bogotá. Era o Cônsul Privativo3 em Letícia, nos confins do Solimões, que chamava, desesperado porque um avião militar brasileiro havia invadido o espaço aéreo colombiano e pousado, sem autorização prévia, na pista asfaltada do Apostadero Naval, onde fora apreendido pela Guarnição local e jazia circundado por fuzileiros de arma em riste. A tripulação da FAB vagava pela cidade, livre, mas, pressionado pelo comando militar brasileiro, em Tabatinga, ali perto águas jusantes, o Cônsul implorava para que conseguíssemos a licença a posteriori do comando da Aeronáutica colombiana, na Capital, e com
isso a liberação da aeronave para sua missão periódica de apoio a destacamentos de nosso Exército na fronteira.

[Vcs mesmo ajustem agora os saltos de linha...]

Com o tempo, já sabíamos dos hábitos domingueiros dos brigadeiros colombianos. Em geral os
encontrávamos no "Los Lagartos", clube de golfe, ou em alguma "finca" em "tierra caliente",
algumas dezenas de quilômetros distante e umas tantas centenas de metros abaixo da fria Bogotá
do altiplano. Mas era muito constrangedor, o pedido, embora sempre elegante e pronta a resposta
de nossos interlocutores, que abandonavam sua folga semanal para chamar seus subordinados e
autorizar a liberação do Catalina intruso em Letícia, lá no distante Solimões.
Fui a Letícia/Tabatinga, pela primeira vez, para um Seminário sobre o projeto maluco dos
grandes lagos amazônicos, do Herman Kahn e do Hudson Institute. Mas esse assunto é objeto de
rabiscos vindouros4. Aqui me ocupo de outras questões que vieram a lume na mesma viagem,
ligadas a nosso pesadelo dominical em Bogotá, por conta do Catalina impertinente - e reincidente.
O problema estava em que o avião vinha de Manaus a fim de recolher, na guarnição de
Tabatinga (Brasil), mantimentos e equipamentos necessários para aprovisionar, em duas viagens,
os pelotões de fronteira estabelecidos em Ipiranga e Estirão do Equador, terra e floresta adentro,
ao norte e ao sul do Solimões, acessíveis só por avião ou por barco (no todo, a operação de
reabastecimento comportava três pousos e três decolagens em Tabatinga/Letícia). Se a pista de
Tabatinga, de terra (e barro; Tabatinga quer dizer "barro branco"), não estivesse boa, havia que
pousar, de emergência, no asfalto vizinho de Letícia, seguro e confortável. A escolha cabia à
tripulação do Catalina, à luz de como percebesse as condições de Tabatinga. Se o pouso fosse em
Letícia, os mantimentos e as munições para os pelotões que cabia abastecer, via aeronaval, tinham
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
de vir de Tabatinga por terra, atravessando a fronteira sob os olhos vigilantes mas felizmente
compreensivos dos militares colombianos.
A repetição das emergências começou, contudo, a dar o que falar. Quando fui para o seminário
dos grandes lagos, o Cônsul chamou-me de lado e sussurrou que havia um clima de antagonismo
disfarçado mas delicado entre as duas guarnições, a do Exército brasileiro em Tabatinga e a da
Marinha colombiana em Letícia. Por conta das "invasões" assíduas da Aeronáutica, com a
agravante do temperamento dos comandantes militares do momento, o do lado colombiano
ríspido e autoritário, o da parte brasileira... também.
O Cônsul temia algum incidente grave, que pudesse comprometer as relações entre as duas
guarnições, as duas cidades, os dois países (era megalomaníaco em seus temores), tão boas até
então e como sempre. Ácido, censurava os brasileiros, que estariam se comportando como na
"casa da sogra", agindo na Colômbia como se fosse Brasil. Também fofoqueiro, ele insinuava que
na cidade corria a boca pequena que os jovens tenentes-pilotos brasileiros tinham outras razões
para pousar na Colômbia, e não na pista precária de Tabatinga - razões ligadas a prazeres que
Letícia oferecia e não eram disponíveis em sua vizinha menor brasileira. Já teriam mesmo surgido
rivalidades entre eles e oficiais marinheiros do lado colombiano, a propósito de determinada
musa, pelas duas partes animosamente cobiçada - justificadamente, a julgar pelo que dizia nosso
funcionário, timorato mas ainda interessado, sonhador.
"- Um pedaço de mau caminho! E manhosa: dizem que adora semear ciúme, sobretudo em milico".
Uma diva divisora, e binacional - além de aeronaval, como o Catalina...
Até parecia que era aí mesmo, nesse mau pedaço, que as relações na divisa tropeçavam...
Jovem e zeloso diplomata, arvorei-me prontamente mediador no conflito denunciado. Não sei
como arrumei uma "voadeira" (canoa veloz, com motor de popa) e lá fui para Tabatinga, visitar o
protagonista brasileiro mais importante na confrontação (depois do Catalina, claro), o coronel
titular do Comando da Fronteira do Solimões, o nome, àquela altura, da guarnição nascida com o
valoroso forte de São Francisco Xavier de Tabatinga, no lugar desde 1766.
Topei com um oficial educado, culto e competente5. Revelou-se igualmente muito simpático e
amistoso, mas ante as preocupações do Cônsul, que descrevi, qualificando-as prudentemente -
claro -, sua reação se resumiu num "É isso mesmo" meio brusco; não acenou com nenhuma
mudança de atitude e comportamento, dele ou dos seus colegas aviadores, que cavalgavam os
Catalinas lascivos.
Perguntei, ainda esperançoso: Por que o Catalina, paradigma da aeronave anfíbia, não desce na
água do Solimões, quando a pista em terra não estiver boa? Nem pensar, foi a resposta. Operando
na água o Catalina não pode levar toda a carga que precisamos transportar para os dois pelotões.
Perguntei ainda: por que não pedir, então, com a antecedência de praxe, uma licença de sobrevoo
e pouso condicional em Letícia, válida para o caso de não ser segura a operação em Tabatinga? O
coronel, meio surpreso diante da sugestão, deu de ombros: "Sei lá, isso é coisa da Aeronáutica". Em
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
nenhum momento deixou transparecer, mas acho que a guarnição brasileira de Tabatinga tinha
também algum ressentimento ante os Catalinas esquivos, trabalhando os do Exército todo o tempo
para preparar e conservar a pista lamacenta, só para vê-los ao cabo desprezá-la, atraídos para
mais aconchegante pouso, em Letícia.
Ciúmes pela diva, ainda? A bem da verdade, em minha missão não colhi qualquer indício de
incursão dela também em nossa valente força terrestre.
Era aeronaval, mas não anfíbia.
De volta a Letícia, achei-me na obrigação diplomática de visitar a outra parte, o Comandante do
Apostadero Naval colombiano. Muito simpático, também, cooperativo. Um tanto formal.
Minimizou as inquietações do Cônsul ("Você sabe como ele é, sozinho aqui acaba vendo chifre em
cabeça de cavalo..."), mas admitiu que a convivência e a indispensável cooperação na fronteira
poderiam beneficiar-se de uma mudança de tom e temperamento nas relações entre as duas
guarnições, por alguma razão desmerecidas.
Quando retornei a Bogotá, e narrei essas coisas a meu Embaixador6, ele riu muito, sobretudo
das razões que comandariam o tráfego aéreo na região, mas me ordenou que pusesse tudo
imediatamente no papel. Quando leu meu rascunho, discreto, diplomático, determinou mais:
"Transforma isso numa carta minha ao tal Comandante brasileiro de Tabatinga". Não gostei da
ideia e o disse ao Chefe: essas mensagens têm de seguir um caminho, via Brasília e o Estado-Maior
do Exército, Comando Militar da Amazônia, etc. etc. Ele desprezou minha argumentação, mais
experiente da gente de farda e com as costas aquecidas7 por um antepassado Almirante,
pranteado herói da Marinha, e por dois irmãos também coronéis, em Brasília.
Saiu a carta, direta a Tabatinga.
Resposta?
Nunca houve, postal, ou ao menos nunca nada nos chegou de volta às mãos. Mas talvez a
mensagem não se tenha perdido, a carta pode ter até merecido a reação mais pertinente e
desejável nas circunstâncias: em pouco tempo o Cônsul inquieto nos comunicava seu alívio ante
convites que passara a receber, para ricas feijoadas oferecidas aos oficiais colombianos em
Tabatinga, lautos "ajiacos de pollo" (são uma delícia!) promovidos em Letícia para os brasileiros do
outro lado, churrascos fraternos, lá e cá, para toda a oficialidade do Exército brasileiro e da
Marinha colombiana.
Em tudo o Cônsul pegava carona, de ofício, gostosamente. Não tardou muito, também, para que
o Brasil construísse uma pista de categoria internacional em Tabatinga. E para que os colombianos
passassem a igualmente usá-la, sobretudo quando tiveram que renovar, em Letícia, a favorita de
nossos tenentes da FAB (refiro-me à pista!). Não me lembro bem, mas acho que a escala em Letícia
da SATENA, ligada à Força Aérea Colombiana, dava-se na verdade em Tabatinga, onde despejava e
recolhia seus passageiros nos já então antiquados DC-4 da Segunda Guerra Mundial, de enésima
mão, a mais recente da própria FAB, da qual haviam sido adquiridos.
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PANAMÉRICA — Renato Prado Guimarães
Os colombianos operavam no Brasil como se em Colômbia fosse.
"Casa da sogra"? Não, casa de irmão, fraterno abrigo!8
NOTAS DE RODAPÉ
3. Categoria Funcional antiga no Itamaraty; nem sei se ainda existe. Era ocupada por funcionários de fora da Carreira.
4. As futuras "Crônicas Tardias, Memórias Precoces".
5. Nada menos do que o então Coronel Moraes Rego, não sei por que isolado na fronteira distante pela cúpula da
"Revolução", mas que mais tarde viria a ter papel de relevo em Brasília, General de confiança de Ernesto Geisel nos
governos militares e na Abertura do regime político.
6. Fernando Ramos de Alencar, grande Embaixador e admirável figura humana. Com sua Paz Baraona, viúva chilena com
cinco filhos ainda crianças, casou-se e formou uma família admirável e até comovente no amor puro e perene que todos
os seus membros ciosamente entretinham e mesmo contagiavam os que desfrutavam o privilégio de com eles conviver. O
colega Embaixador Julio Cesar Gomes dos Santos foi testemunha de um pedido de apoio logístico em posto que ele foi,
modestamente (era, à época, nosso Embaixador mais jovem, e já havia ocupado a Chefia da Administração e a Secretaria-
Geral do Ministério), apresentar ao então Chefe da Administração, e que este acabou patrocinando no todo, alegando,
comovido e entusiasta, ante seus Assistentes, atônitos: "Este menino está apaixonado!". Se houve diplomatas movidos pelo
Amor, Fernando terá sido um deles. Amor e paixão por sua família, por seu País e pelo Chile, onde viria a falecer, muito
cedo, cercado pelos seus. Gostava de contar estórias em torno da relação Brasil-Chile, em particular sobre o Baile da Ilha
Fiscal e o fato pouco divulgado de que dito festejo fora de acolhida a tripulação de fragata que viera ao Rio em missão de
agradecimento do povo do Chile por gesto geopolítico e fraternal de Pedro II, que ajudara aquele país a sobreviver como
nação soberana. Na mesma belonave o Imperador deposto se asilou depois da Proclamação da República a 15 de
novembro, enquanto aguardava o paquete transoceânico que o levaria a seu penoso exílio na Europa.
7. "Costas aquecidas". Diz-se em português de quem tem as "costas quentes", bem protegidas.
8. Eita! Tropeço pro tradutor! A tão útil expressão "Casa da Sogra" não existe em espanhol, com o sentido que lhe damos
em português, de abuso abagunçado em morada alheia. Amigos hispano-hablantes me sugeriram alternativas: Guillermo
Gianelloni: "Esto es um viva la Pepa!"; "Te crees que esto es un conventillo?"; Julio César Gomes dos Santos: "Hacían lo que
se les daba la gana, como se estuvieran em su misma casa!"; "Hacían lo que les daba la p... gana!". Falta a malvada sogra
em espanhol, enquanto nossa língua, profusa na trapalhada, tem mais, ainda, para a mesma situação, a "casa da mãe
Joana" (JCGS). Vamos ver como o tradutor se vira; Eita 2! - Alertei para um tropeço de tradução e acabei gerando outro:
"abagunçado"?

Embaixador Renato Prado Guimarães: Panamérica: crônicas imperdíveis

 O embaixador Renato Prado Guimarães está dando início a uma série (quatro dezenas) de publicações, crônicas saborosas sobre nuestra América, com um domínio incomparável da escrita e do humor. PRA

Transcrevo sua postagem na circular da ADB, passando o primeiro capítulo e reportando o segundo:

PANAMÉRICA!
Renato Prado Guimarães
Prólogo de Julio María Sanguinetti


Os Leitores, amigos, serão os juízes supremos na avaliação e para o aperfeiçoamento destes mal traçados rabiscos: comentem, sugiram, emendem via o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com, com cópia para a Associação dos Diplomatas Brasileiros - ADB.
Reparos, críticas, serão bem-vindos, tanto quanto (quase...) os elogios.

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Para informações sobre esta Panamérica!, suas razões e seus propósitos, bem como o Prólogo de Julio María Sanguinetti,
Epígrafes, Pretexto e Índice - o porvir da leitura - reportar-se à crônica inaugural desta sub-Série planejada para divulgar os 40 Capítulos do Livro, dia a dia - circulada, dita crônica, por este mesmo Google Group no último dia 1° de Agosto.

PANAMÉRICA — CAPÍTULO 2

2. O TANGO TAMBÉM É BRASILEIRO!
Numa festa diplomático-folclórica promovida na Casa Amarilla, sede da diplomacia venezuelana, argentinos e uruguaios apresentaram espetáculos de tango. Ao final, começou um animado bate-boca entre os colegas Embaixadores da Argentina e do Uruguai, ambos grandes amigos, entre si e meus. Diante do constrangimento da assistência venezuelana, achei oportuno intervir para desarmar o conflito platino, e nada encontrei de melhor do que dizer que o tango não era só argentino, nem uruguaio, mas também brasileiro.
A intrigante mediação foi bem-sucedida, com a disputa arrefecendo prontamente, em meio à perplexidade geral. Obrigou-me, no entanto, a já no dia seguinte enviar cartas a meus colegas Embaixadores, bem como ao Ministro Interino das Relações Exteriores, Horácio Arteaga, que presenciara o episódio, explicando os fundamentos de minha atrevida mas bem-intencionada intervenção. Não encontrei em meus "diskettes" da época cópia daquelas missivas, mas pude recuperar o texto de mensagem de teor equivalente expedida mais tarde a Roy Chaderton, Chefe do Departamento Político da Chancelaria, depois Chanceler venezuelano, que soubera da minha "tese" e manifestara interesse por conhecê-la (sua curiosidade musical era diversificada; àquela altura já havia colecionado 25 interpretações diferentes, em disco, da belíssima e comovedora Ária da Bachianas no. 5, de Villa-Lobos!).
Traduzo a mensagem a Roy:
"Relutei sempre em tratar do assunto do 'tango brasileiro', sobre o qual conversamos esta tarde. Por prudência diplomática, pois nós, os brasileiros, temos por supremo princípio diplomático jamais intervir em assuntos internos de outros países (e o tango, claro, é assunto doméstico e soberano da Argentina e do Uruguai). Também me inibe uma certa perplexidade pessoal. Acostumei-me desde a infância ao tango platino, que sempre apreciei, e de repente, há bem poucos anos, topo com esse tango indígena, culturalmente excêntrico, do qual a grande maioria de meus compatriotas nada sabe mas que poderia ser historicamente anterior ao de nossos irmãos ao Sul.
"Junto mando 'cassette' com amostras musicais e xerox de informações sobre nosso tango. Assinalei as partes mais significativas dos textos. Por exemplo, quando se menciona que em nossos arquivos nacionais existem partituras de tangos compostos na década de 1870, ou se explicita haver 'evidência de que o tango, que se tornou uma paixão mundial e ainda mantém extensa popularidade, não somente se originou no Brasil, mas de fato com o próprio Nazareth'. Verdade ou não, a responsabilidade pelo desenvolvimento do tango brasileiro cabe em grande parte a Ernesto Nazareth, que dele escreveu mais de 100 peças' (texto na capa de CD editado nos EUA nos anos 1970, com tangos de Nazareth interpretados ao piano por Arthur Moreira Lima).
"Você verá que, sim, tivemos um tango, 'tout court', e mesmo um 'tango brasileiro', que se confunde - ou não! com o do Prata, na inspiração e na evolução paralela de nossa música argentina, uruguaia, brasileira. Na realidade, são coisas distintas, diferentes derivações regionais e nacionais da dança andaluza chegada ao Continente em meados do Século XIX, possivelmente via Cuba. O tango de Nazareth, de Chiquinha Gonzaga, de muitos outros, nós o conhecemos como 'chorinho', 'maxixe', o que seja. Mas o certo é que sobrevive, e com imensa vitalidade. 'Odeon' e 'Brejeiro', por exemplo, que você poderá ouvir na gravação do piano eminentemente clássico de Arthur Moreira Lima, são peças constantes de nosso cotidiano musical - popular e erudito. Peças de terna suavidade, com intrigantes alternâncias entre a provocação alegre e uma vaga melancolia.
"Nós também temos certo orgulho de havermos cedo reconhecido o imenso talento de Piazzolla, e apreciado sem reservas seu a princípio controvertido (mesmo na Argentina) tango renovador (bossa nova portenha?).
Com todos os precedentes que estou indicando, você suporá que temos títulos para competir com Gardel e a Boca...
"Nada disso, porque, na verdade, o que mais nos liga ao tango é gostar imensamente dele e uma carinhosa admiração pelo que se produziu nas margens do Prata. Ainda quando ouço Lupicínio Rodrigues, um 'gaucho' de Porto Alegre, no Sul do Brasil, cujos sambas-canções são um equivalente literário e psicológico das mais platinas letras de tango, o sentimento que me ocorre é o de identidade jamais de competição.
"Veja os versos, adiante transcritos, de 'Vingança' e 'Nervos de Aço' (...). Não entro no mérito das letras, tão-somente assinalo que poderiam ter sido escritas em algum bar de Buenos Aires e Montevidéu, com a mesma atormentada - muitas vezes curtida - desilusão.
"Não penso em rivalidades, apenas registro afinidades. O fato de que tenhamos no Brasil surpreendentes manifestações nacionais do tango sugere que somos mais parecidos, os latino-americanos, do que imaginamos. Nossas aproximação política e integração econômica já preexistiam no plano cultural, mais além do que nos atrevemos a imaginar."
Post Scriptum
1) O reconhecimento do tango brasileiro progrediu sobremaneira durante os anos 1990. Desde aquele tempo já não surpreende tanto a menção a sua existência. Há numerosos sites na INTERNET, sobretudo norte-americanos, que ligam nosso "choro" ao tango e lhe dão primazia histórica. O livreto de CD gravado na Alemanha, em 2002, pelo "Cello Trio", conjunto de músicos alemães e brasileiros, sob o título "Tango Brasileiro", proclama com desenvoltura até abusada: os conjuntos de choro do Rio foram os criadores "de uma forma de música que se tornou conhecida como Tango Brasileiro, numa época em que na vizinha Argentina ninguém sequer falava de tango";
2) Há indicações de que o tango chegou à América Latina via Cuba, como uma forma de dança andaluza;
3) Um ex-Embaixador do Marrocos em Buenos Aires certa vez me disse, em São Paulo, que era gratuita a disputa em torno das origens do tango: a briga entre argentinos e uruguaios, os colombianos se julgando herdeiros do gênero porque Gardel morreu em Medellin, japoneses e finlandeses reinventando a música e sobre ela arrogando-se direitos... Quando me aprestava para invocar os títulos brasileiros e aclarar de vez suas aparentes dúvidas, ele me atalhou para afirmar, taxativamente, que o tango é... marroquino! Contou que até hoje existe, na região de Tânger, uma dança folclórica chamada "tanga". Tânger, Andaluzia bem perto, a poucos quilômetros do outro lado do Mediterrâneo quem sabe ele não tenha razão?
4) Na verdade, em sua expressão argentina e uruguaia o tango é hoje uma dança de prestígio universal, como certamente merece. Mas igualmente nas origens parece ter sido deveras ecumênica. Não é preciso ir longe na pesquisa para encontrar outras fontes possíveis. O Aurélio dá também, como significados de menor emprego para o vocábulo, "espécie de pequeno tambor africano" e "a dança executada ao som desse instrumento". O Houaiss consigna que a palavra "aparece primeiro fora da Argentina como nome de uma dança da ilha de Hierro, nas Canárias e, em outras partes da América, com o sentido de 'reunião de negros para dançar ao som de um tambor' e ainda como nome do próprio tambor, provavelmente de origem onomatopaica". Canárias, o arquipélago ali ao largo do Marrocos...
Post-Post-Scriptum
1) Tanta coisa por nada. A Enciclopédia da Música Brasileira, da Publifolha resume com definitiva autoridade, no verbete "tango", o que acima se procurou costurar, a partir de remendos esparsos:

"Dança cantada, originária da Andaluzia, Espanha, onde surgiu por volta de 1850-1855. Expandindo-se pelas Américas na década de 1860, aclimatou-se em alguns países latino-americanos. Na Argentina fundiu-se com a habanera cubana e com a milonga criolla, e por 1880 já apresentava características nacionais argentinas, com as quais iria se internacionalizar, sob o nome tango argentino, nas primeiras décadas deste século (XX). No Brasil, o processo de fusão se dá com a havaneira, a polca e o lundu, apresentando, já nos fins da década de 1870, indícios evidentes de nacionalidade brasileira através do maxixe e do tango brasileiro, cujos modelos mais definidos foram fixados na obra do compositor carioca Ernesto Nazaré".

Um século de relações internacionais do Brasil, 1926-2026 - Paulo Roberto de Almeida (Revista do IHG-DF)

 Mais recente artigo publicado: 


1661. “
Um século de relações internacionais do Brasil, 1926-2026”, Revista do Instituto Histórico e Geográfico do DF (vol. 15. N. 1, 2026, p. 1-21; link: https://revistaihgdf.com.br/index.php/ojs/article/view/22/29

Resumo: Ensaio histórico sobre os cem anos decorridos desde a saída do Brasil da Liga das Nações, em 1926, repassando as principais etapas e episódios das relações internacionais e das relações exteriores do Brasil, evidenciando uma política externa equilibrada, na maior parte do tempo, pelas qualidades de uma diplomacia competente e comprometida com o interesse nacional do desenvolvimento econômico. O atual cenário, no entanto, é o de um progressivo desmantelamento do multilateralismo político e econômico, promovido tanto pelo unilateralismo do atual presidente americano, quanto pelo novo expansionismo do líder russo. As incertezas se acumulam no cenário prospectivo, com sinais de turbulência talvez similares, embora não semelhantes, aos que se manifestaram no entre guerras.
Palavras chaves: Relações internacionais; Diplomacia brasileira; turbulências internacionais; Segunda Guerra Fria; unilateralismo imperial.

A CENTURY OF BRAZILIAN INTERNATIONAL RELATIONS, 1926-2026
Abstract: Historical essay dealing with the century long period, since Brazil’s abandonment of the League of Nations, in 1926, examining the various developments connected to the international relations and external relations of Brazil, known by a balanced foreign policy, and a very competent diplomatic institution, both devoted to the nation interest of economic development. Current situation, nevertheless, shows a progressive dismantling of the political and economic multilateralism, provoked by the combined unilateralist action of the American president, as well as the new expansionism by the Russian leader. Uncertainties are amassing at the foreseeable future, with new turbulences perhaps with some similarity, but not equal, to those that appeared in the inter war period.
Key words: International relations; Brazilian diplomacy; world turbulences; Second Cold War; Imperial unilateralism.

Clubes Militares criticam a política externa de Lula e Amorim (Diário do Poder)

 Clubes Militar, Naval e de Aeronáutica criticam política externa e alertam para riscos ao país

Manifesto afirma que condução diplomática e cenário interno ampliam incertezas econômicas, institucionais e políticas

Diário do Poder, 03/08/2026

Os Clubes Militar, Naval e de Aeronáutica divulgaram nesta segunda-feira (3) um manifesto conjunto em que criticam a condução da política externa brasileira e alertam para o agravamento da crise institucional e econômica do país.

No documento, intitulado Os riscos à Nação, as entidades classificam como “ruídos diplomáticos desnecessários” ações recentes do Brasil e afirmam que críticas personalistas, desalinhamentos e a antecipação do debate eleitoral prejudicaram relações bilaterais consolidadas ao longo de décadas. Embora não cite os Estados Unidos, o texto faz referência às recentes medidas tarifárias impostas ao Brasil.

Segundo o manifesto, as retaliações poderiam ter sido evitadas por meio de uma atuação mais pragmática nas negociações internacionais. As entidades também afirmam que a prioridade dada à pré-campanha eleitoral desviou o foco de temas estratégicos para o país.

O documento ainda atribui à corrupção, à criminalidade e à má gestão dos recursos públicos o enfraquecimento das condições econômicas e institucionais do Brasil. Na avaliação dos clubes, o país perdeu competitividade, enfrenta desgaste institucional e convive com um ambiente político marcado pela polarização, revanchismo e clientelismo.

Ao final, as entidades alertam para o risco de o Brasil enfrentar maior fragilidade econômica e defendem a construção de consensos para enfrentar os desafios nacionais.

Veja a nota na íntegra:

“Os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, entidades compostas majoritariamente por militares e um expressivo número de cidadãos preocupados com o futuro da Nação, não se furtam ao dever de reafirmar seus valores e expressar suas opiniões em benefício do bem comum e da Pátria. Assim, vêm a público alertar a sociedade brasileira sobre os riscos que cercam o País neste momento de sua história.

É evidente o inconformismo de uma parcela significativa da sociedade, da qual faz parte a maioria de nossos associados, diante da necessidade de uma reação cívica capaz de reverter a situação em que o Brasil se encontra. Sob essa perspectiva, a leniência com a corrupção, a tolerância com o crime e o descaso com a gestão da coisa pública contribuíram para levar o País a um cenário de crescente falência moral, institucional e econômica.

O atraso brasileiro deixou de ser apenas uma recorrente frustração, com a lentidão do crescimento e do desenvolvimento, para se transformar em um retrocesso alarmante em diversas dimensões do poder nacional. Essa realidade pode ser constatada por indicadores amplamente divulgados e reconhecidos. Enquanto outras nações avançam, o Brasil permanece para trás e em ritmo acelerado.

O País perde espaço para economias mais produtivas e competitivas, distancia-se cada vez mais das nações que concentram elevado capital tecnológico, financeiro e humano e enfrenta um cenário internacional cada vez mais instável, complexo e imprevisível. Soma-se a isso a perda de conquistas construídas ao longo de décadas, o enfraquecimento das instituições e um ambiente político marcado pela polarização, pelo revanchismo e pelo clientelismo.

Em um momento de elevada sensibilidade da economia mundial, a opção por criar ruídos diplomáticos desnecessários, adotar críticas personalistas, antecipar o debate eleitoral e promover desalinhamentos políticos com importantes países, acabou comprometendo relações bilaterais construídas ao longo de mais de dois séculos de cooperação.

As retaliações comerciais poderiam ter sido evitadas por meio de uma condução mais técnica e pragmática, como defenderam diversas entidades durante audiências públicas ao longo do último ano. Enquanto isso, temas fundamentais para o interesse nacional deixam de ser tratados com a prioridade necessária, ao passo que a pré-campanha eleitoral ocupa o centro das atenções, mesmo diante de graves desafios internos e externos que exigem respostas imediatas.

Os riscos à Nação são concretos e podem ser resumidos na possibilidade de o Brasil tornar-se um país economicamente insolvente, politicamente ingovernável e, por consequência, cada vez mais irrelevante no cenário internacional. Os sinais dessa trajetória já se acumulam e não podem ser ignorados.

Neste momento decisivo da vida nacional, parece pouco provável que soluções consistentes surjam de um ambiente político marcado por sucessivas crises. Por isso, conscientes de suas responsabilidades, de seu papel histórico e de sua tradição, os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica conclamam os brasileiros a refletirem sobre os grandes desafios do País com discernimento, lucidez, conhecimento e espírito público. Somente por meio do diálogo, da busca de consensos e da convergência de esforços será possível enfrentar os riscos que hoje pesam sobre a Nação e construir um futuro mais seguro e próspero para o Brasil.”

A reforma da Carta da ONU e a ampliação do seu Conselho de Segurança: um sonho impossível? - artigo de Ljubo Runjic (Brazilian Journal of International Law)

 A reforma da Carta da ONU e a ampliação do seu Conselho de Segurança: um sonho impossível? - artigo de Ljubo Runjic (Brazilian Journal of International Law)

Em 2017 fui convidado para efetuar um parecer sobre um artigo bastante importante em torno dos projetos de reforma da Carta da ONU, visando especificamente o Conselho de Segurança das Nações Unidas, ou seja, sua ampliação e incorporação de novos membros. A despeito de muita discussão desde quando o assunto foi incluído na agenda da Assembleia Geral, em 1992, o tema nunca progrediu como esperado pelos eventuais candidatos, entre eles o Brasil, em função, obviamente, da oposição dos cinco membros permanentes. Não se pode dizer que o assunto continue na pauta depois da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, desde 2014 (na Crimeia) e amplamente desde 2022, e também depois da mudança de política externa do governo Trump nos EUA, em seus dois mandatos (2017-2020 e 2025-20??), com uma orientacão baseada na forca bruta, em lugar do diálogo multilateral. O artigo foi este aqui:

Reform of the United Nations Security Council: The Emperor Has No Clothes
Brazilian Journal of International Law, v. 14, n. 2, 2017
23 Pages Posted: 7 Nov 2017
Ljubo Runjic
Polytechnic of Sibenik

Date Written: November 1, 2017

Abstract:
Although the United Nations General Assembly included the issue of the Security Council's reform on its agenda in 1992, the negotiations on this vital issue haven't broken the impasse even after a quarter of a century. At the same time we have testified to a series of major armed conflicts worldwide. This article emphasizes the need for an urgent reform of the Security Council, i.e. unacceptability of its further postponement, because the Council has largely failed in performing its main function – maintenance of international peace and security. Furthermore, the Security Council has no longer the necessary credibility, legitimacy and representativeness for the enactment and implementation of key decisions. The article analyzes key issues of the reform of the Security Council and proposes some possible solutions regarding the composition of the Council and the issue of veto. Finally, the article reviews the unsuccessful efforts to reform the Council with a special emphasis on the events on the eve of the 70th anniversary of the United Nations.

Keywords: United Nations, Security Council, reform
License Information
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JEL Classification: K33

Suggested Citation:
Runjic, Ljubo, Reform of the United Nations Security Council: The Emperor Has No Clothes (November 1, 2017). Brazilian Journal of International Law, v. 14, n. 2, 2017, Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3065295

Regulating Open Source - Andrew Polk, Kendra Schaefer (Sinica)

 A batalha da IA Open Source já começou, e quem deve ganhar é a China:


Regulating Open Source
ANDREW POLK
Sinica, JUL 26, 2026

Xi Jinping’s speech at last week’s World AI Conference in Shanghai was an exercise in “balancing development and security.”

Xi expressed full-throated support for AI development, while indicating that regulation is moving up Beijing’s priority list.
Read together, the message was that China intends to compete hard on AI, but on its own terms, with stability ranked ahead of any near-term gains.

The bit that attracted the most attention was Xi’s reaffirmation of China’s commitment to open-source AI.

There has been growing speculation that AI safety concerns may force Chinese regulators to disallow ongoing release of open-source models.
But Xi’s message was that China isn’t going to walk away from open source.
That’s likely because the global popularity of Chinese open-source tools is a once-in-a-generation opportunity to bring the international community onto China’s AI stack – particularly in the absence of cheap, open US alternatives.

Beijing intends to press that advantage for as long as it can.
Running alongside the open-source pitch, however, was a notable elevation of regulation, ethics, and governance in Xi’s remarks.

The speech raised deep questions about practical and existential AI risk and called for new laws and risk-monitoring systems.
Beijing was already an early and fast mover on AI regulation, but Xi’s talk indicated that China will double down on AI safety, potentially placing stronger controls on both the release of new open-source models and the distribution of open model weights.
Then there was the announcement of the World Artificial Intelligence Cooperation Organization, formally launched on the eve of the conference last week.

This represents Beijing’s bid to compete with the US on global AI governance and offer the Global South an alternative to Western-led bodies.
Whether it gains traction is an open question – China’s track record on tech governance organizations is patchy at best, and the recent past is littered with abandoned Chinese-led cooperative platforms.
Zoom out from the individual announcements, though, and a bigger picture emerges: Xi believes that while AI is deeply important and transformative, it should never become so all-consuming that policymakers lose sight of what really matters.

Technology is not an end unto itself – instead, AI should serve social development and stability.
The implications of that framing are far-reaching. Beijing is prioritizing AI’s long-term development over a sprint race to build the most advanced frontier model.

Viewed through that lens, the tighter regulations, willingness to slow model releases, and the hard line on NVIDIA chip imports all begin to make a lot more sense.
The bottom line: The AI race won’t be decided this year – it is a decade-long play for who owns the AI stack that the developing world runs on, who sets the rules of global AI governance, and ultimately, whose industries make the best use of these tools for economic gain.

Kendra Schaefer, Partner and Head of Tech Policy Research, Trivium China

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