quarta-feira, 15 de abril de 2026

A realidade do mal: o julgamento de Adolf Eichmann em 1961, em Jersualém, tese de Hannah Arendt - Zevi Ghivelder (O Globo)

Dica de leitura: Impressionante reportagem de Zevi Ghivelder sobre o julgamento de Eichmann há 65 anos

Artigo:
A realidade do mal
Único jornalista brasileiro a cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, há 65 anos, relembra postura do nazista no tribunal em Jerusalém e contesta tese de Hannah Arendt de que um dos responsáveis pelo holocausto encarnou a ‘banalidade do mal’
Por Zevi Ghivelder
O Globo, 12/04/2026

O criminoso de guerra Adolf Eichmann. Nazista foi capturado pelo Mossad em 1961 e levado a julgamento em Jerusalém — Foto: AFP/11-4-1961

        Na data de 11 de abril, 65 anos atrás completados ontem, um generoso sol de primavera iluminava os tons dourados da cidade de Jerusalém. Naquele dia, às nove horas da manhã, haveria ali um evento histórico: o início do julgamento do criminoso de guerra Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela execução da chamada Solução Final, o extermínio dos judeus na Europa ocupada pela Alemanha nazista.
        Para quem não sabe, ou não se lembra, Eichmann vivia com identidade falsa em Buenos Aires, onde se havia refugiado depois da guerra. Foi capturado em maio de 1960 pelo serviço secreto de Israel e levado para julgamento em Jerusalém.
        O austero auditório de um centro cultural da cidade foi transformado em tribunal, no qual durante seis semanas ocupei o assento número 18, na fila H, designado para a cobertura do julgamento pela revista semanal Manchete. Eu era o único brasileiro, ao lado de umas duas centenas de correspondentes internacionais.         Meu lugar ficava a pouca distância de uma jaula feita com vidros à prova de bala, o banco dos réus. Ao fundo, uma portinhola foi aberta no horário exato para dar passagem ao acusado.

Atento e alheio
        Adolf Eichmann entrou em sua jaula com o olhar fixo em algum ponto distante. Não chegou a se sentar porque todos os presentes, na plateia e no balcão lotados, se levantaram à entrada dos três juízes israelenses que o julgariam. Quando Eichmann ficou de pé, percebi que seu terno azul-marinho e a camisa branca pareciam ser de um número acima do seu tamanho. Não aparentava inquietação, mas não conseguia controlar a mão direita com um leve tremor, pouco perceptível, porém resistente.                 Conservou uma postura firme e ereta naquele momento, que decerto era o mais crucial de sua existência. Seria lugar-comum apontá-lo, naquela circunstância, como um homem frio e intrinsecamente perverso. Era surpreendente sua reação: parecia estar ao mesmo tempo tão atento como alheio àquele acontecimento em que era o foco central. Foi como um autômato que se sentou em frente a uma estreita mesa sobre a qual depositou uma pilha de papéis, que viria a consultar com frequência e sobre os quais fez anotações no decorrer do processo. Em seguida, ajeitou os óculos, colocou fones nos ouvidos para tradução simultânea e fixou o olhar na direção de seu advogado.
        Durante todo tempo observei que, se ele não fosse quem era, poderia ser tomado por um réu de colarinho branco ou um diligente funcionário de repartição municipal, examinando relatórios e anotando pareceres. Ele só demonstrou algum desconforto durante os impressionantes depoimentos de testemunhas do Holocausto. Os relatos dos sobreviventes eram inimagináveis. Enquanto os horrores e as atrocidades nazistas eram descritos, ele torcia o nariz para um lado ou para o outro.
        Somente uma vez o vi tirar um lenço do bolso e passá-lo sobre o rosto.
        O libelo do promotor israelense Hausner começou com um gesto teatral e impactante: ele apontou o braço para a jaula de vidro e exclamou: “Aqui estão ao meu lado seis milhões de inocentes assassinados.”
        O advogado alemão de Eichmann levantou uma objeção que parecia pertinente. Como seu cliente tinha sido sequestrado, e sendo o sequestro um ato ilegal, o julgamento deveria ser anulado. A promotoria estava preparada para essa argumentação. Hausner desfilou uma série de julgamentos em diferentes épocas e localidades, nos quais os réus tinham sido sequestrados e seus procedimentos penais haviam sido validados.
        A defesa tinha outra objeção: era inadmissível Eichmann ser julgado em Israel, onde ele não havia cometido nenhum crime e, portanto, a jurisdição era ilegal.
        O promotor rebateu: Eichmann era responsável por atos criminosos na Alemanha, na Polônia e na Hungria. Qual a jurisdição pertinente? Se fosse a Alemanha, o centro do nazismo, qual Alemanha, a Ocidental ou a Oriental?
        Como não havia uma jurisdição precisa para o réu, arguiu que esta deveria ser a da vítima. Quem era a vítima? O povo judeu. Quem representava o povo judeu? O Estado de Israel. Foi a tese que prevaleceu e, ao cabo do julgamento, Eichmann foi condenado à morte, consumada em julho do ano seguinte.
        As pessoas invariavelmente me perguntam se conheci em Jerusalém a pensadora judia-alemã Hannah Arendt, que cobriu o julgamento para a revista The New Yorker. Na verdade, àquela altura, eu não estava familiarizado com sua obra, nem com sua fisionomia. Mas conheci o pensamento de Arendt quando, um ano mais tarde, li seu livro “Eichmann em Jerusalém”, no qual elaborou uma tese que até hoje viraliza: Adolf Eichmann era a síntese da “banalidade do mal”. Com tal afirmação, expôs que Eichmann, assim como centenas ou milhares de seus similares, tinha sido tão somente um fiel cumpridor de suas obrigações como oficial nazista, não podendo ser diretamente responsabilizado pelos atos malignos que eventualmente tenha cometido. O mal se configurava como uma banalidade interposta em sua trajetória de obediência aos propósitos do Terceiro Reich.
        Hannah Arendt incorreu na negligência de omitir que Eichmann fora designado para chefiar a seção judaica do partido nazista em 1937. Além disso, naquele ano foi enviado para a Palestina para avaliar se os judeus alemães poderiam ser deportados em massa para o território sob administração britânica.
        Também não registrou que coube a Eichmann redigir a ata da Conferência de Wansee, em 1942, na qual foi definida a logística da Solução Final, que ele mesmo implementaria.
        Em seu livro, Hannah Arendt escreve que a Solução Final só pôde ser executada porque contou com a colaboração do establishment judaico. É uma afirmação insidiosa baseada em seu repúdio ideológico a qualquer establishment. Ela classifica como establishment os comitês judaicos que foram formados em guetos com a finalidade de dialogar com os alemães e na medida do possível retardar as deportações para os campos de extermínio. Os próprios membros desses comitês também foram executados.
        A tese da banalidade do mal, que a rigor deve dar lugar à tese da realidade do mal, acabou sendo demolida há dois anos, por conta da descoberta da gravação de uma entrevista que Eichmann concedeu a um jornalista holandês, em Buenos Aires, antes de seu sequestro. A certa altura, ele diz: “Apontam seis milhões de judeus mortos. Acho que poderíamos ter chegado a dez.”

‘Un momentito, señor’
Poucos anos depois do julgamento, fiz grande amizade com Zvi Malkin, conhecido como Zvika, o agente do Mossad que foi incumbido de interceptar Adolf Eichmann na Rua Garibaldi, localizada num subúrbio de Buenos Aires. Zvika me contou muitos pormenores da captura de Eichmann, que nunca foram divulgados. O maior cuidado da equipe de agentes israelenses era se certificar se aquele homem que vinham monitorando à distância era realmente o coronel nazista. Depois, coube a Zvika aprender a dizer em espanhol: “Un momentito, señor.”
        O criminoso nazista desceu de um ônibus e seguiu caminhando, quando foi abordado por Zvika, que lhe disse a frase decorada e deu mais um passo para capturar Eichmann. No entanto, foi ele quem segurou Zvika, e os dois caíram numa vala aberta junto à rua sem calçamento. Outro agente veio em socorro, e conseguiram arremeter Eichmann abaixo do banco traseiro de um automóvel.
        O carro partiu em velocidade e, minutos depois, já com o rosto encapuzado, ele murmurou: “Já sei que vocês são de Israel.”
        Zvika foi o primeiro a se comunicar com Eichmann, que lhe falou sobre a viagem à Palestina. Relatou ter admirado as conquistas dos judeus na agricultura, a modernidade que começava a chegar a Tel Aviv e até aprendeu o verso inicial do “Shemah”, a mais tradicional oração judaica, que recitou em hebraico. Zvika me revelou que quando ouviu aquele texto sagrado dito por Eichmann, soube se conter para não agredi-lo.
        Em outra ocasião, Zvika lhe falou que sua irmã e dois sobrinhos tinham sido mortos numa câmara de gás. Adolf Eichmann respondeu: “Sinto muito. Mas eles eram judeus, não eram?”
        O julgamento de Adolf Eichmann deixou o importante legado de estimular pesquisas e estudos sobre o Holocausto, que hoje se contam aos milhares.
        Além disso, reafirmou um princípio transcendental: cumprir ordens não exime de culpa.

 

O Livro do Nordeste II - André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar; capítulo de Paulo Roberto de Almeida


Livro do Nordeste II

Participei, em 2025, com um capítulo no Livro do Nordeste II, uma homenagem aos 200 anos de vida do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco, fundado em 1825, um ano e meio depois da revolução de 1824.

Um primeiro Livro do Nordeste, em 1925, aos cem anos do Diário, tinha um artigo de Oliveira Lima, discorrendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1825 a 1925. Tive a honra de ser convidado pelo meu colega historiador, diplomata e editor, André Heráclio do Rêgo, a fazer o mesmo que Oliveira Lima, escrevendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1925 a 2025, conforme este registro:

1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0).
Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/164473055/4840_Um_seculo_de_relacoes_internacionais_do_Brasil_1925_2025 ) e no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/um-seculo-de-relacoes-internacionais-do_7.html ). Relação de Originais n. 4840.

Livro do Nordeste II

organização André Heráclio do Rêgo , Múcio Aguiar.

1. ed. -- Recife, PE: AIP, 2025; ISBN 978-85-5726-003-0

O indice é o seguinte:

INTRODUÇÃO, 9
O CENTENÁRIO DE UM DIÁRIO AMERICANO, 21
DIARIO DE PERNAMBUCO: UM JORNAL COMO ESPAÇO DE LIBERDADE, 27
O DIARIO DE PERNAMBUCO: UM LEGADO E SUA RELEVÂNCIA HISTÓRICA, 33
UM SÉCULO DE JORNALISMO EM PERNAMBUCO, 41
UM SÉCULO DE VIDA LITERÁRIA EM PERNAMBUCO, 53
O SUPLEMENTO LITERÁRIO DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 63
MEMÓRIAS DE MÃOS GIGANTES, 73
GILBERTO FREYRE E O DIARIO DE PERNAMBUCO, 87
GILBERTO FREYRE, O RECIFE E OLINDA NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 107
DOIS PERSONAGENS DA CULTURA BRASILEIRA:
GILBERTO FREYRE E ARIANO SUASSUNA, 123
O VIGOR DAS CONVICÇÕES: BARBOSA LIMA SOBRINHO, UM NACIONALISTA, 131
CEM ANOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL, 1925-2025, 141
MEMÓRIA DO MUNDO, 159
O NORDESTE DE DOM PEDRO II, 171
1925–2025: UM SÉCULO DE POLÍTICA NO NORDESTE, 187
OS “SANTOS” DO NORDESTE NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 209
SECAS E DESERTIFICAÇÃO, 221
SABORES DO NORDESTE, 237
OS NOVOS MASCATES, 259
COMPLEXO INDUSTRIAL PORTUÁRIO DE SUAPE: O HUB LOGÍSTICO NO NORDESTE BRASILEIRO, 271


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Leo XIV , a true pope

 “Are you deaf, blind, or simply too afraid to admit that this administration poisoned the system from top to bottom?” Pope Leo XIV said firmly, his voice echoing through the hall as his hand struck the table sharply.

The room instantly grew tense. This was not the calm, ceremonial tone people usually expected from a papal appearance — it was a moment of unmistakable moral confrontation. His voice carried deep intensity as he looked toward the audience and the cameras, making it clear that his words were meant to be heard without dilution.

“I have spent my life serving faith, conscience, and humanity,” he continued. “And what we have witnessed is not leadership — it is chaos, deception, and the arrogance of power imposed upon the public.”

Pope Leo XIV went on to accuse the administration of Donald Trump of “trying to bend reality until it submits,” arguing that truth had been treated as expendable in political battles.

“They shouted ‘fake news’ while suffocating the truth,” he said with visible disappointment. “That is not politics. That is a moral failure.”

Someone off camera reportedly attempted to intervene, perhaps worried about the diplomatic consequences of such direct criticism. The Pope responded with a calm but unmistakably dismissive gesture.

“Let us not pretend that silence serves justice,” he said. “If laws and institutions still carry meaning, then accountability must reach every level — advisers, enablers, and those who designed the system that allowed this disorder to flourish.”

Within minutes, the clip began spreading rapidly online. Supporters praised the Pope’s remarks as courageous and morally necessary, arguing that spiritual leaders have a responsibility to speak out when truth and justice are threatened. Critics, however, described the moment as unusually political for a pontiff and questioned whether such direct language blurred the traditional line between spiritual leadership and political debate.

Pope Leo XIV appeared unmoved by the controversy.

“I do not need permission to speak for truth and conscience,” he said calmly in closing. “History does not remember those who stayed silent when integrity was at stake.”

And with that, the room — filled with diplomats, journalists, and observers — fell into a heavy silence.

Don't miss out on the full story of Pope Leo XIV's powerful speech. Learn how integrity and accountability are essential in today’s world👉 https://ifeg.info/2026/04/08/pope-leo-xivs-bold-confrontation-a-call-for-truth-and-accountability/

O mundo ainda é uma selva, mas já devidamente cartografada - Paulo Roberto de Almeida

O mundo ainda é uma selva, mas já devidamente cartografada pelos seus “animais” carnívoros e herbívoros 

Paulo Roberto de Almeida

        Os EUA não são um “tigre de papel”: o potencial ofensivo de suas Forças Armadas, de sua inteligência e da sua rede de monitoramento exterior é, de longe, o monstro bélico mais poderoso do planeta, e da História, insuperável por qualquer outro adversário no horizonte histórico previsível, ainda alimentado por uma máquina econômica não alcançável por qualquer outro competidor nos anos à frente. Força bruta não é o problema desse “tigre”.
        O problema, grave, gravíssimo, é que o “tigre” foi capturado por um chimpanzé autocentrado, infantil, totalmente despreparado e absolutamente errático, que atua como um “domador” alienado quanto ao exercício das ações desse “tigre de aço”, e que o conduz por sendas incompatíveis com a trajetória mais adequada ao seu papel na ordem global que costumava ser administrada de forma racional, até ser capturado por esse chimpanzé tresloucado.
        Na verdade, o chimpanzé se submete a um urso envelhecido e semiparaplégico, mas pretende enfrentar e dominar um dragão rejuvenescido, com o qual poderia estabelecer uma convivência aceitável e até uma parceria benéfica a ambos numa administração condizente com a situação transitória da “selva” econômica mutuamente partilhável.
        Não é o que ocorre atualmente, pois o chimpanzé conseguiu produzir uma desordem indescritível na “selva” relativamente previsível, criada 80 anos atrás, desde sua última reorganização, após a derrota de hienas e chacais.
        Os herbívoros mais racionais deveriam juntar forças para conter, com a ajuda do dragão, os instintos mais primitivos desse tigre alienado e desse urso senil que causaram todos os estardalhaços indesejáveis desde o início do século.
        Uma nova cartografia poderia ajustar a convivência entre todos os animais, que reconhecem sua unidade fundamental, na igualdade soberana de todos eles, embora alguns animais sejam mais iguais do que outros. 
        Vai ser uma tarefa difícil, mas factível, desde que os herbívoros mais racionais se concertem entre si, sem qualquer ilusão quanto a um convencimento possivel dos atuais “trouble makers” dessa selva em fase de mutação.
        Uma proposta modesta por um mero observador do zoo civilizatório…

Paulo Roberto Almeida
Brasília, 13/04/2026

Caso Master: o Brasil entrou na era dos grandes crimes financeiros - Adriana Fernandes, Lucas Marxhesini (FSP)

Caso Master teve espionagem e envolveu uma teia de 216 fundos e 143 empresas

ADRIANA FERNANDES / LUCAS MARCHESINI

FSP 10.04.2026

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).

Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.

Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.

A despeito do nível 5, grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, o ex-banqueiro também soube com antecedência que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido para prendê-lo na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões de carteiras de crédito para o BRB.

O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à Folha, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.

Ao mesmo tempo em que corria para conseguir autorização pelos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo para Malta, no Mediterrâneo, a defesa dele apresentava uma petição ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que fosse expedida para evitar a prisão.

No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.

Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado "A Turma", ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.

Mourão morreu, no início de março, após tentativa de suicídio em uma cela da superintendência do órgão em Minas Gerais, segundo informações da PF, logo depois de ter sido preso na segunda fase da Compliance Zero.

ESTADO TERMINAL

A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.

O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:

"As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras", justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).

Funcionários antigos do BC contaram à reportagem que nunca tinham visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou um episódio às vésperas da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro, que retrata a situação:

"Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando", contou.

Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.

"Conforme conhecimento público, diversos veículos de comunicação firmaram contratos de publicidade com a dupla Master/BRB", completou.

Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto de lei permitindo ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC.

Os dois movimentos resultaram numa união maior no colegiado do BC, que no início do processo estava dividido. Essa fragmentação ficou representada pelos diretores Aquino, que defendia uma venda do banco, e Gomes, que era a favor de uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha em caixa R$ 4,8 milhões, enquanto os vencimentos de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) eram de R$ 48,6 milhões naquela data. Somando os vencimentos de toda aquela semana, o passivo era de R$ 123,8 milhões.

O banco de Vorcaro terminou com um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. Ao TCU, o BC disse que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e o FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Procurada nesta quinta (9) e sexta-feira (10), a defesa de Vorcaro não se manifestou.

TEIA DE FUNDOS E EMPRESAS

As fraudes do Master contavam com pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, de acordo com levantamento da Folha, que começou a ser montado a partir de janeiro deste ano. Um software especial foi utilizado para montar as conexões como se fossem um sistema solar e seus satélites. A lista é abastecida regularmente.

O fio dessa rede começou a ser puxado com base nos seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC na investigação sobre o Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Juntos, eles tinham um patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Nesses fundos estão os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como os papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), conhecidas como cártulas, e créditos de carbono.

Esses ativos de difícil avaliação tinham o seu valor estimado como bilionário pelos fundos. A partir daí, suas cotas se valorizavam.

O dinheiro obtido era injetado em outros fundos e empresas da ciranda de fraudes. Em um desses casos, o dinheiro serviu para comprar a mansão de R$ 36 milhões que Vorcaro usava quando estava em Brasília e que foi frequentada por autoridades.

LINHA DO TEMPO

3 de setembro de 2025

BC veta o pedido de autorização para venda de ativos do Master para o BRB. O indeferimento foi fundamentado no fato de que a operação não satisfazia o requisito de viabilidade econômica-financeira exigido para esse tipo de transação

23 de setembro de 2025

Vorcaro vende sua participação na seguradora Kovr para os sócios minoritários no negócio e tenta renovar a linha de assistência do FGC com promessa de venda de outros ativos pessoais

30 de setembro de 2025

Reportagem da Folha revela que a PF abriu inquérito sigiloso sobre o banco Master após o BC denunciar suspeitas de fraudes ao MPF. Com o inquérito, Vorcaro não tem mais chance de renovação de linha no FGC devido à cláusula das regras contratuais do fundo

Novembro de 2025

BC faz nova comunicação ao MPF após descobrir novos indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta

17 de novembro de 2025

Reunião entre Vorcaro e a supervisão do BC, entre 13h30 e 14h10, sem apresentação de propostas formais de solução. É protocolada no mesmo dia proposta de sócios da Fictor para aquisição do Master. Operação é anunciada no final da tarde

17 de novembro de 2025

Diretoria do BC aprova a liquidação extrajudicial dos bancos Master, Master de Investimentos, Letsbank, Master corretora e Raet (Regime de Administração Especial Temporária) para o Will Bank. Vorcaro é preso no Aeroporto Internacional ao tentar embarcar em jatinho particular ao tentar embarcar para Dubai.

18 de novembro de 2025

Anúncio da liquidação é feito na manhã do dia seguinte após liquidante entrar na sede do Master em São Paulo


domingo, 12 de abril de 2026

A cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham seu desenvolvimento - Paulo Roberto de Almeida (Espaço Acadêmico)

Dez anos depois de escrito e publicado, um leitor autodesignado Epicuro, me questiona sobre este artigo, perguntando se eu ainda me encontro trabalhando sobre o assunto. Tive de responder que eu sempre me ocupo de assuntos importantes.
Segue o registro, cujo link ainda funciona. Parece que esquerdistas ainda ficam incomodados com os meus arrgumentos, por isso deixo o registro aqui.

1412. “A cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham seu desenvolvimento”, Brasília, 25 março 2005, 22 p. Comentários sobre obsessões da esquerda (antimercado, igualitarismo, estatismo, etc.), que conformam pensamento ultrapassado para suas tarefas políticas. Publicado na revista Espaço Acadêmico (a. IV, n. 47, abr. 2005; link: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/58847; pdf: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/58847/751375152060 . Objeto de crítica de Robinson dos Santos, intitulada “‘Milk-shake’ indigesto ou sete equívocos de uma crítica à esquerda?: Réplica a Paulo de Almeida” (Espaço Acadêmico, na. IV, n. 48, abr. 2005). Feita tréplica registra em Trabalhos n. 1425, publicada no número de junho. Reproduzido no blog português “O Insurgente”, em 10/2005, com comentários agregados por leitores de Portugal (registrados no dossiê 1412). Nova réplica de outro leitor, respondida com o trabalho n. 1432. Relação de Publicados n. 549.

Resumo:
Identificação e discussão de sete equívocos que dificultam a formulação de políticas públicas que permitiriam um processo de crescimento sustentado, com transformações tecnológicas e desenvolvimento social qualificado, nomeadamente os seguintes:

1) A esquerda é estupidamente anti-mercado
2) Ela é (falsamente) igualitarista
3) Ela se posiciona contra a “democracia formal”, preferindo a “democracia real”
4) A esquerda é geralmente estatizante (o que é, realmente, uma pena)
5) Ela é anti-individualista, preferindo os “direitos coletivos”
6) Ela é tristemente populista e popularesca
7) Também costuma ser voluntarista e anti-racionalista

(...)


Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil - Paulo Roberto de Almeida (Revista de História da Biblioteca Nacional)

A Revista de História da Biblioteca Nacional, enquanto existiu, me pediu um artigo de divulgação geral sobre o papel de Monteiro Lobato na história do petróleo no Brasil. Escrevi esse artigo na China, em 2010.

Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil

Escritor antecipou, meio século atrás, a condição do Brasil como grande produtor
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Originais 2158. Relação de Publicados n. 1002.

O nome de José Bento Monteiro Lobato domina a primeira história do petróleo no Brasil. Despertado para a importância crucial do petróleo para o desenvolvimento nacional pelo exemplo dos Estados Unidos, ele começou cedo: já em 1918, fundou a Empresa Paulista de Petróleo, sem que, no entanto, dela adviessem resultados concretos, à falta de capitais, equipamentos e competências. Durante sua estada como adido comercial no Consulado do Brasil em Nova York, entre 1928 e 1931, Lobato aprofundou seus conhecimentos no setor. De volta ao Brasil, empreendeu campanhas de mobilização pública e de incitamento à ação do Estado em direção da libertação do Brasil do petróleo importado.
Suas iniciativas eram dotadas de otimismo exagerado e o que mais ele acumulou, ao longo dos anos, foram frustrações e decepções com prospecções mal-sucedidas. Os insucessos não o esmoreceram; Lobato conduziu, através da imprensa e de sua editora, um esforço intenso para conscientizar o país e as autoridades da necessidade de encontrar petróleo, contra a “má vontade da geologia”.
Em 1934, Lobato escrevia a um amigo: “Se o governo não me atrapalhar, dou ferro e petróleo ao Brasil em quantidades rockefellerianas”. Investindo contra as autoridades do setor, ele se convenceu, nessa época, que o principal culpado pela não descoberta de petróleo era o Serviço Geológico Nacional, cuja política, para ele, encampava a dos “trusts” internacionais: “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.
As Forças Armadas, conscientes da fragilidade estratégica do País, impulsionavam os esforços nessa área. A elas foi dedicado seu livro-denúncia, O Escândalo do Petróleo, que teve três edições no mês do seu lançamento (agosto de 1936) e várias outras ao longo dos anos. O papel fundamental de Lobato, nessa fase, foi o de um agitador petrolífero, quase um panfletário. Ele chegou a exibir uma atitude conspiratória, acusando os “trusts” internacionais e as próprias autoridades nacionais de agir contra a extração de petróleo no País:
O petróleo está hoje praticamente monopolizado por dois imensos trusts, a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Esta rede de dominação constitui o que chamamos os Interesses Ocultos. (...) Os trusts sabem de tudo [e] lá entre si combinaram: – Nada mais fácil do que botar um tapa-olho nessa gente. Com um bom tapa-olho, eles, que vegetam de cócoras sobre um oceano de petróleo, ficarão a vida inteira a comprar o petróleo nosso; enquanto isso, iremos adquirindo de mansinho suas terras potencialmente petrolíferas, para as termos como reservas futuras. Quando nossos atuais campos se esgotarem, então exploraremos os “nossos” campos do Brasil.

A origem do livro foi uma carta aberta dirigida por Lobato ao Ministro da Agricultura, denunciando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. Diante da grave denúncia, o presidente Getúlio Vargas determinou a instalação de uma Comissão de Inquérito, à qual Lobato ofereceu um depoimento escrito, que veio a ser o núcleo de seu livro.
Para o escritor paulista, a Lei de Minas, elaborada pelo DNPM, criara embaraços “para impedir que os trusts estrangeiros se apossassem das riquezas do nosso subsolo. Mas como para embaraçar os estrangeiros fosse necessário também embaraçar os nacionais, resultou o que temos hoje: o trancamento da exploração do subsolo, tanto para nacionais como para estrangeiros – exatamente o que os trusts queriam...” Lobato desconfiava “de todas as entidades estrangeiras que se metem em petróleo no Brasil, já que a intenção confessada não é tirá-lo, e sim, impedir que o tiremos”. Curiosamente, mesmo denunciando a ação dos “trusts” internacionais, Lobato não era contra a participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo, e lamentava a postura nacionalista do Código de Minas:
Não sou chauvinista, nem inimigo da técnica e das empresas estrangeiras. Reconheço a nossa absoluta incapacidade de fazer qualquer coisa sem recurso ao estrangeiro, à ciência estrangeira, à técnica estrangeira, à experiência estrangeira, ao capital estrangeiro, ao material estrangeiro. Tenho olhos bastante claros para ver que tudo quanto apresentamos de progresso vem da colaboração estrangeira. E nesse caso do petróleo nada faremos de positivo, se insistirmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau.

Frustrado com o insucesso de sua campanha junto aos adultos, Monteiro Lobato leva o tema ao público infantil: em outubro de 1937 é lançado O Poço do Visconde, apresentado como um livro de “geologia para crianças”, mas que constituía um manifesto em favor da descoberta e da exploração do petróleo no Brasil.
Não obstante o empenho das autoridades na viabilização da exploração do petróleo, Monteiro Lobato estava convencido de que o governo agia contra as companhias privadas, sabotando suas atividades de empreendedor. Escrevendo, em 1938, a Getúlio Vargas, ele investia contra o diretor do Departamento Nacional da Produção Mineral, autor do Código de Minas, acusando-o de ser “agente secreto dos Poderes Ocultos hostis ao petróleo brasileiro”. Em janeiro de 1940, o presidente sancionou o novo Código de Minas, confirmando todas as disposições nacionalistas existentes e exigindo, dos candidatos ao direito de pesquisar ou lavrar jazidas, “prova de capacidade financeira”, o que foi recebido por Monteiro Lobato como um óbice às suas iniciativas.
Em carta ao general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, no início de 1940, ele volta às acusações: “sou obrigado a continuar na campanha, não mais pelo livro ou pelos jornais, porque já não temos a palavra livre, e sim por meio de cartas aos homens do Poder”. Ele então acusa o CNP de agir em favor dos “interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch”, perpetuando “a nossa situação de colônia econômica dos trustes internacionais”. Sua carta mais desafiadora, em maio de 1940, foi dirigida ao próprio chefe de Estado, quando acusou o CNP de perseguir as empresas nacionais, de criar embaraços à exploração do subsolo e de manter a “idéia secreta” do monopólio estatal.
Getúlio Vargas consultou o presidente do CNP, general Júlio Horta Barbosa, que, em agosto de 1940, desmentia as acusações de Lobato: “àqueles que se dispõem a cumprir a lei o Conselho tem tudo facilitado, mas ao que pretendem burlá-la, como é o caso do Sr. Monteiro Lobato, este organismo, como é de seu dever, vem, não só se opondo, como também dando publicamente as razões [de] porque o faz”. Entre as irregularidades das empresas de Lobato eram apontadas a insuficiente provisão de fundos e a nacionalidade estrangeira de alguns dos seus sócios. Ato contínuo, Horta Barbosa enviou ofício ao Tribunal de Segurança Nacional no qual pedia abertura de inquérito contra o escritor. Esta é a origem das duas prisões de Lobato, em janeiro e em março de 1941, por “injúrias aos poderes públicos”.
Monteiro Lobato se batia pelo petróleo nacional com todas as suas forças, movido bem mais pelo instinto do que pelo conhecimento técnico e pela boa informação geológica. Sua atividade empresarial foi quase amadora – daí a razão do não-credenciamento de suas “empresas de petróleo” pelo CNP – e sua agitação panfletária estava no limite das ofensas às autoridades governamentais. Ele tocava, porém, nos pontos que a seu ver dificultavam e atrasavam a exploração do petróleo no país. Numa carta a Getúlio Vargas de maio de 1940, ele assim se pronunciava em relação ao pretendido monopólio estatal que se cogitava criar nessa área: “Outro aspecto do monopólio é a impossibilidade de o Governo criar com ele a grande indústria do petróleo de que o Brasil precisa. O senhor não ignora a incapacidade do Estado, no mundo inteiro, para dirigir empresas industriais, incapacidade por demais evidente no Brasil. O Lóide Brasileiro e a Central do Brasil são casos típicos.”
Monteiro Lobato se insurgia contra geólogos e funcionários do governo que não estivessem de acordo com suas iniciativas empresariais, confundindo muitas vezes a cautela necessária com que eles viam seus rompantes de entusiasmo pela causa do petróleo com o que ele considerava ser uma sabotagem deliberada em torno desses empreendimentos. Grande escritor, mas dotado de conhecimentos escassos na geologia do petróleo, Lobato agitou mais do que qualquer outro homem público o problema do petróleo no Brasil. Foi um nacionalista sem ser contrário ao capital estrangeiro, e antecipou uma realidade que se materializaria meio século depois de sua morte, em 1948.

Saiba Mais:
Azevedo, Carmen Lucia de; Camargos, Marcia Mascarenhas de Rezende; Sacchetta, Vladimir. Monteiro Lobado: Furacão na Botocúndia (3a. ed.; São Paulo: Senac, 2001)
Lobato, Monteiro. O Escândalo do Petróleo (4a. ed.; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936)
Vargas, Getúlio. A Política Nacionalista do Petróleo no Brasil (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964)
Victor, Mario. A Batalha do Petróleo Brasileiro (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970)

Paulo Roberto de Almeida é doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas, 1984) e diplomata de carreira desde 1977. Trabalhou no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2007). É professor de Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). E-mail: pralmeida@me.com.

[Beijing, 2158: 28 de junho de 2010]
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Publicados n. 1002.

Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165644966/2158_Monteiro_Lobato_pioneiro_do_petr%C3%B3leo_no_Brasil_2010_

Monteiro Lobato e a emergência da política do petróleo no Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Já que estamos falando de petróleo, apresento aqui um trabalho meu sobre a luta de Monteiro Lobato para que o Brasil desenvolvesse uma indústria nesse setor, chegando inclusive a ser preso no Estado Novo por sua postara incisiva nesses debates.

1925. “Monteiro Lobato e a emergência da política do petróleo no Brasil”, Brasília, 14 setembro 2008, 23 p. Capítulo de colaboração ao livro: Omar L. de Barros Filho e Sylvia Bojunga (orgs.), Potência Brasil: Gás natural, energia limpa para um futuro sustentável (Porto Alegre: Laser Press Comunicação, 2008, 144 p; ISBN: 978-82-61450-01-4; p. 12-33). Disponível na plataforma Academia.edu (link:

Divulgado no blog Diplomatizzando (12/04/2026; link:

Relação de Publicados nº 865. 

Pequeno registro histórico sobre os percalços de um itinerário civilizatório:- Paulo Roberto de Almeida

Pequeno registro histórico sobre os percalços de um itinerário civilizatório

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre benfeitores e malfeitores da Humanidade

        Estamos no primeiro quarto do século XXI, depois de alguns milhares de anos de progressos, de benfeitorias, mas também de guerras e de massacres bárbaros, comprovando uma vez mais que toda a evolução positiva, em termos científicos, culturais e humanitários, não foi capaz de obstar, impedir, eliminar ou reduzir o potencial de irracionalidades, maldades, ódios que alguns seres humanos, por vezes comunidades inteiras, são capazes de perpetrar contra outros seres ou povos inteiros.
        A Humanidade melhorou? Certamente. Mas isso ainda não foi suficiente para impedir a ignorância, a burrice e os mais baixos instintos de aflorar nas mentes de certos indivíduos, para prejudicar outros seres humanos e até a si próprios e seus respectivos povos.
        Para não ficar apenas em generalidades filosóficas, vou me permitir descer à nominata de alguns desses monstros que já infelicitaram a espécie humana, sendo que alguns ainda estão em ação. Para ficar apenas nos últimos cem anos, vamos nomeá-los: Stalin, Hitler, militaristas japoneses dos anos 1930-40, Mao, Mobutu, Pol Pot, Saddam Hussein, Muammar Kadaffy, Idi Amine Dada, Pinochet, generais argentinos do golpe de 1976, Putin, Milosevič, Netanyahu, generais sudaneses da guerra do Darfur, todos os processados pelo TPI e, coroando um período infeliz da história americana o inacreditavelmente estúpido, bárbaro, narcisista maligno, psicopata e sádico (diagnóstico feito por psiquiatras responsáveis) DJT, o personagem mais sombrio de uma história relativamente benigna (pelo menos para uma parte da nação, excluindo-se os nativos e os africanos escravizados e seus descendentes discriminados) nos últimos 250 anos, agora adentrando numa triste fase de declínio destruidor.
        Falta mencionar grandes benfeitores da Humanidade, mas estes são em muito maior número dos que os poucos monstros acima referidos.
        Progredimos, a despeito de tudo, como já demonstrou Steven Pinker, mas a passos pequenos e ainda insuficientes. Vamos continuar melhorando os seres humanos, com base no conhecimento, na tolerância, na ausência de fanatismo e no amor ao próximo e na fraternidade universal.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5276, 12 abril 2026, 2 p.

Lula joga o STF aos leões- Editorial Estadão

 Lula não pensou duas vezes em colocar Dirceu ou seu filho na fogueira...pq não faria o mesmo com Moraes ou qq outro.

Lula joga o STF aos leões

Ao sugerir suspeição de Alexandre de Moraes no caso Master, Lula tenta se descolar do escândalo que ameaça o STF, expõe sua estratégia de sobrevivência e reafirma que só é leal a si mesmo.

Por Notas & Informações

12/04/2026 | 03h00

Notícia de presente

Nem a militância petista mais ingênua pode ter dúvida de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um incorrigível pregador de si mesmo. Sua lealdade é invariavelmente submetida ao cálculo de dividendos e prejuízos políticos que cada circunstância lhe oferece. Foi assim no mensalão e na Lava Jato, quando o demiurgo petista não hesitou em entregar aos leões a companheirada encalacrada para conter, tanto quanto possível, o risco de contaminação. Essa memória é essencial para compreender a entrevista que ele concedeu recentemente ao canal ICL Notícias, na qual, ao tentar se proteger, Lula revelou mais do que gostaria.

Ao comentar o escândalo do Banco Master, as estripulias do banqueiro Daniel Vorcaro e suas ramificações no Supremo Tribunal Federal (STF), Lula afirmou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a declarar-se impedido: “Não permita que esse caso do Vorcaro jogue fora a sua biografia”. Acrescentou que desvios devem recair sobre indivíduos, e não sobre o tribunal, e foi além: “Se o cara quer ficar milionário, não pode ser ministro do Supremo”. E, ao tocar no ponto sensível, lembrou: “Mas a sua mulher estava advogando”.

A suspeição é evidente. A mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, prestou serviços milionários ao Banco Master, posteriormente liquidado sob suspeita de fraudes. Ainda assim, o ministro segue atuando em temas ligados ao caso, amparado pela complacência de seus pares e pela crença militante de que a autoproclamada “defesa da democracia” autoriza ignorar conflitos evidentes.

A fala de Lula é, no fundo, o reconhecimento de que o desgaste do STF e o avanço do caso Master terão impacto direto na disputa presidencial. Mas não há, aqui, qualquer súbito despertar ético. Lula não mudou. O que mudou foi o risco. Com o instinto de quem atravessou décadas de crises, Lula percebeu que o escândalo deixou de ser periférico e ganhou contornos de crise sistêmica, com potencial de atingir não apenas ministros da Corte, mas o próprio ambiente político que sustenta sua reeleição. Some-se a isso o fato de que, além de Moraes e Dias Toffoli, orbitam o caso lideranças do Centrão, governadores e nomes associados ao próprio PT.

Diante desse cenário, Lula moveu-se com rapidez. Ao aconselhar Moraes a preservar a biografia, não defende a moralidade pública nem propõe depuração institucional. Demarca distância. No limite, envia um recado inequívoco: se houver naufrágio, cada um cuide do seu bote.

O efeito colateral é potencialmente devastador. Ao admitir que ministros do STF podem ter ultrapassado limites éticos, e ao associar a toga à incompatibilidade com o enriquecimento, Lula implode a narrativa construída pelo consórcio político-institucional que orbita o Supremo e o Palácio do Planalto. Durante meses, vendeu-se a ideia de que críticas à Corte eram ataques à democracia. Agora, é o próprio presidente quem sugere o contrário: o problema pode estar em condutas individuais que exigem escrutínio.

A tentativa de separar o tribunal de seus membros é correta em tese, mas nasce viciada. Lula não age para proteger a instituição, mas para proteger-se. Sua preocupação não é a credibilidade do STF nem a reputação de Moraes. É o impacto eleitoral de um escândalo que pode crescer rapidamente. Em síntese, o recado ao ministro é claro: não comprometa a campanha.

Há ainda um elemento adicional. Ao tornar público esse distanciamento, Lula parece antecipar-se a um possível desdobramento mais grave, que é uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro. Habituado a crises, o presidente sabe que escândalos dessa natureza seguem uma lógica própria e que todo tsunami começa com uma onda de uns poucos centímetros. O caso Master reúne todos os ingredientes de uma tempestade política de grandes proporções: fluxos financeiros opacos, proximidade com o poder e potenciais revelações explosivas. Lula percebeu o risco e mudou de posição. Resta saber se a manobra será suficiente ou se apenas confirma a dimensão da crise que se tenta evitar.



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