O show de Obama
Andre Gustavo
Jornal de Brasilia, 19/03/2011
Visitas de presidente dos Estados Unidos constituem um grande show. O espetáculo proporcionado pela grande potência é tão importante quanto eventuais resultados das rapidíssimas conversas entre governantes. O aeroporto de Brasília tornou-se local de estacionamento de aviões enormes, helicópteros gigantescos, que desembarcam desde carros blindados até água mineral, tudo devidamente protegido por fuzileiros navais armados até os dentes. É a presença do Império, que anda meio decadente, mas ainda possui impressionante poder de fogo.
A preocupação da presidente Dilma Rousseff, nos últimos dias, foi não inflar, além da medida certa, as expectativas provocadas pela visita de Barack Obama. Ele é um superstar, sem dúvida. Sua decisão de viajar ao Brasil pegou o Itamaraty de surpresa. A idéia inicial era a presidente brasileira ir a Washington justamente neste mês. Ele se antecipou e anunciou o desejo de vir a Brasília. A segunda conversa entre os dois na capital dos Estados Unidos deverá ocorrer em setembro, na ocasião da abertura dos trabalhos nas Nações Unidas.
Problemas - O problema é que o Departamento de Estado norte-americano não vê com bons olhos o acesso do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. É posição conhecida, porque há na América Latina vozes contrárias à pretensão brasileira que não teria a força para representar a região, segundo os críticos. No outro lado, a presidente não quer discutir, neste momento, compra dos aviões da FAB. Mesmo que a venda dos F-18, da Boeing, seja embrulhada em magnífico pacote de ofertas, a presidente se preparou para fazer cara de paisagem. É assunto para o ano que vem na sua agenda de prioridades.
O principal problema entre os dois países é o comércio. O Brasil sempre obteve lucro nas relações de troca com o grande vizinho do norte. Agora, ao contrário, os norte-americanos conseguem fazer um superávit de quase oito bilhões de dólares no ano. Esse dado significa que empresas brasileiras estão gerando milhares de empregos lá. São empregos que fazem falta aqui. Dilma quer aumentar as vendas para os Estados Unidos, pretende acabar com a sobretaxa imposta a alguns produtos, como suco de laranja ou álcool. O pessoal do outro lado trabalha ao contrário: elevar as vendas no mercado nacional.
O resto é simbólico. Obama aos pés do Cristo Redentor no Rio de Janeiro é imagem para se reproduzida nas primeiras páginas de todo o mundo. Seu discurso no Teatro Municipal do Rio – ele preferiu falar em ambiente fechado – também vai render repercussões em todo o planeta. Os projetos do governo brasileiro, da era Dilma, poderão surpreender o ilustre visitante. O objetivo dela é trabalhar na redução da pobreza, em projeto estilo bolsa-família, para formar em pouco tempo um grande país de classe média.
Porta de saída - É um plano audacioso, que dificilmente vai se completar em quatro anos. A presidente ainda vai anunciar seu projeto, que segundo assessores, tem entrada e saída. Isso significa que os beneficiários serão obrigados a prestar uma contrapartida daquilo que receberem. Mães, por exemplo, serão obrigadas a colocar filhos no colégio. E quem receber auxílio para entrar na sala de aula deverá ser encaminhado a colégios profissionalizantes. As medidas, ainda em estudo, têm por objetivo primeiro definir o que é a extrema pobreza, depois tirar gente das ruas e por último colocar esse contingente no mercado de trabalho. É o país de classe média.
Se for implantado, como está sendo imaginado, poderá ser o salto nacional no sentido de reduzir a pobreza e tornar a sociedade menos desigual. É projeto semelhante ao desenvolvido na reconstrução da Espanha após a longa e triste era Franco. O país, neste momento, dispõe de recursos energéticos capazes de sustentar o desenvolvimento pelas próximas décadas. O petróleo do pré-sal, que vai começar a irrigar os cofres do Tesouro dentro de dois ou três anos e as novas hidrelétricas na Amazônia vão gerar a energia para o crescimento econômico.
O desastre das usinas nucleares no Japão demonstrou à farta, que o quilowatt gerado a partir de urânio além de ter custo elevado não oferece as garantias necessárias. Na verdade, os técnicos ainda não sabem lidar com os humores nucleares. O reator esquenta, os serviços emergenciais não funcionam e a população sofre com a radiação. Não existem medidas adequadas para proteger o cidadão. Esse exercício prático e trágico insinua que a resistência à construção de hidrelétricas como a de Belo Monte vai diminuir. E a idéia de construir uma termonuclear nas margens do São Francisco – entre outras cinco no nordeste – será convenientemente esquecida.
Esse é o cenário que Barack Obama encontrou no Brasil. Um país que pretende se desenvolver, não mais na base do auxílio vindo de Washington. Esse tempo passou. O país está industrializado. É, também, a base de produção de grande parte dos alimentos consumidos em todo o mundo. Portanto, a questão básica entre Obama e Dilma é puramente comercial. Mas o presidente dos Estados Unidos fala para o mundo. Além disso, estabelece o contato pessoal, olho no olho, que é fundamento importante para o diálogo produtivo entre chefes de estado. Obama vai para o Chile amanhã e depois segue para El Salvador, na América Central. Trata-se do seu badalado tour latino-americano. Detalhe importante: o cara vai sobrevoar a Argentina, mas não descerá em Buenos Aires. Nossos vizinhos do sul não gostaram de serem esnobados pelo grande líder do Ocidente.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sábado, 19 de março de 2011
A frase da semana, de toda uma vida: Bertrand Russell
Um leitor anônimo (não sei, sinceramente, por que as pessoas escolhem ser anônimas, mesmo para coisas inocentes como esta) escreveu-me a propósito de meu post sobre o
Minitratado das Improbabilidades,
transcrevendo esta frase genial do filósofo inglês:
The time you enjoy wasting is not wasted time
Bertrand Russell
Ele não diz onde pescou essa frase, mas aposto que foi no famoso livro (de 1931 ou 1932, creio) de Russell, In Praise of Idleness, ou Elogio da Preguiça...
Pois é, acho que vou russellinizar durante algum tempo...
Paulo Roberto de Almeida
Minitratado das Improbabilidades,
transcrevendo esta frase genial do filósofo inglês:
The time you enjoy wasting is not wasted time
Bertrand Russell
Ele não diz onde pescou essa frase, mas aposto que foi no famoso livro (de 1931 ou 1932, creio) de Russell, In Praise of Idleness, ou Elogio da Preguiça...
Pois é, acho que vou russellinizar durante algum tempo...
Paulo Roberto de Almeida
Pausa para... o grande Charles Mingus: Boogie Stop Shuffle
Charles Mingus was the undisputed greatest Jazz Bassist of all time. He was a bop player but also played with many artist before and after bop including Duke Ellington and John Coltrane. He is the man responsible for the bass being used for more than just time keeping purposes. He was also a great composer. He died in 1979, but left a legacy behind to make it seem he will never die.
Enjoy:
Jazz Classics: Charles Mingus - Boogie Stop Shuffle
http://www.youtube.com/watch?v=ePMvgRGm73U
Enjoy:
Jazz Classics: Charles Mingus - Boogie Stop Shuffle
http://www.youtube.com/watch?v=ePMvgRGm73U
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sexta-feira, 18 de março de 2011
Minitratado das Improbabilidades: administrando o impossível
Minitratado das Improbabilidades
Paulo Roberto de Almeida
Uma improbabilidade é algo que, como o conceito indica, não corre nenhum risco de acontecer; constitui, assim, um não-evento, uma impossibilidade prática. Poucas pessoas, salvo as muito sonhadoras, ficam atrás, ou se colocam em busca, de coisas impossíveis, ou seja, de improbabilidades. Aqueles que o fazem, de verdade, ou sinceramente, costumam ser chamados de utopistas, ou talvez até, dependendo da natureza de seus sonhos, de românticos incuráveis.
Não creio pertencer a uma ou outra dessas categorias tribais, embora, por vezes, eu mesmo também me surpreenda inventando coisas impossíveis de se materializarem neste nosso mundinho ordinário. Fingindo ser realista – o que só sou 50% do tempo, assumindo no que restar dele uma infinidade de outras posturas, aliás até acima do limite teórico de 100% – não vou tratar aqui das coisas impossíveis ou totalmente improváveis, a despeito de ter enquadrado este minitratado no bloco das improbabilidades.
Pretendo, antes, tratar das “improbabilidades prováveis”, ou pelo menos daquelas plausíveis, ou seja, daquelas que mesmo sendo aparentemente impossíveis de acontecer, por vezes aparecem no nosso caminho e tropeçamos com elas, geralmente de modo inesperado. Assim, a despeito da aparente contradição, creio enquadrar-me perfeitamente no “caos normal” do mundo em que vivemos, feito de necessidades, de um lado, e de acasos, do outro.
Adotando esse tipo de abordagem num minitratado aparentemente sério – mas esta série apresenta também algumas surpresas – tenho consciência de que já estou adentrando, de fato, no campo das probabilidades, uma área coberta por refinadas teorias matemáticas e por especulações probabilísticas das mais sérias, justamente. Não pretendo, porém, abordar essas improbabilidades prováveis pelo lado da ciência, da razão; esta será uma abordagem puramente impressionista, como costumam ser vários dos meus minitratados (e eu já fiz mais de três, como sabem os meus poucos leitores).
Não vou, portanto, oferecer cálculos pascalianos, ou equações à maneira de Laplace, sobre as “minhas” (im)probabilidades, mas simplesmente inscrever-me, temporariamente, numa daquelas duas tribos antes desdenhadas. Não que eu seja um utopista, adepto de soluções utópicas para os problemas sociais ou individuais, e que daí me tenha convertido num romântico incurável. Consideremos este minitratado como uma espécie de licença poética, por assim dizer.
Quais seriam, então, as improbabilidades prováveis ou plausíveis, suscetíveis de serem enquadradas nos cânones pouco rígidos destes meus minitratados? Elas são, justamente, aquelas “coisas” que, por mais impossíveis que apareçam, nos esforçamos por atingir ou realizar; são aquelas que merecem todo o nosso empenho, recolhem todo o engenho e arte de nossas humildes capacidades humanas; são também aquelas que respondem a um ideal mais elevado da vida, que contemplam, justamente, todo esse oceano de improbabilidades com pelo menos um ou duas gotículas de probabilidades desejáveis. Nesse caso, minha “teoria” das improbabilidades prováveis jamais trabalha com a teoria dos grandes números; apenas com os pequenos números das escolhas pessoais e dos sonhos individuais.
Todos aqueles que, como eu, pautam sua postura frente ao mundo pelas leis da razão, todos os que somos agnósticos, céticos, ou simplesmente materialistas – o que absolutamente implica ser fatalista ou determinista – aceitamos o princípio irrecorrível da flecha do tempo, nos conformamos ao caráter “irrepetível” da história. Mesmo quando se costuma retomar a famosa frase sobre a “repetência” da História – geralmente com H maiúsculo, e acompanhada daquele lugar comum muito abusado sobre a tragédia e a farsa – pode-se afirmar, com certeza, que as águas de um rio não voltam jamais a passar pelo mesmo lugar.
Todos temos consciência de que nunca conseguiremos reproduzir fielmente, como da primeira vez, aquele estado de felicidade quase absoluta que decorreu da descoberta do primeiro amor, aquela certeza de amar e ser amado, um êxtase derivado do sentimento puro da reciprocidade no afeto, mas que depois foi vencido pelas trapaças da sorte e se perdeu nas brumas do tempo para nunca mais voltar. Acreditar que o nirvana possa voltar, sabemos, é uma das situações mais improváveis que podem ocorrer.
E, no entanto, queremos acreditar que o retorno dessa condição é algo totalmente plausível, quase provável, que se pretende certo e verdadeiro como uma rocha. O que custa acreditar nesse tipo de sonho induzido, mesmo correndo o risco de ser enquadrado na profissão pouco respeitada de utopista profissional ou de cair naquele estado catatônico dos românticos incuráveis? O que fazer quando até os materialistas de carteirinha proclamam que “sonhar é preciso”? O que estamos fazendo, justamente, é tentar tornar certas improbabilidades prováveis.
Isso é próprio da espécie humana, cheia de inventores malucos, de poetas sonhadores, de cientistas devotados às causas mais bizarras da humanidade, de literatos geniais produzindo obras primas ab initio, e até simples escrevinhadores, como um que conheço, que perdem o seu tempo e o dos leitores sujando papel com coisas improváveis e sonhos impossíveis. Somos incuráveis, de fato, nessa busca contínua da felicidade perfeita, do amor insuperável (e eterno), da realização plena de nossas possibilidades e até de nossos desejos.
Com todo respeito pela perfeição matemática dos cálculos probabilísticos, sempre devemos introduzir um pouco de teoria quântica naquelas coisas que costumam ser consideradas improváveis ou impossíveis. Assim, portanto, como explica a teoria dos quanta, uma coisa pode estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, ou então se trata daquela coisa de se ter dois corpos ocupando o mesmo lugar no espaço (vocês procurem na Wikipédia). Da mesma forma, sem ser quântico, eu também acho que as improbabilidades, por mais “duras” que possam ser, podem se tornar prováveis, ou possíveis, num passe de mágica (sobretudo a partir de um teclado próximo...).
Não me perguntem como, sob quais condições ou a propósito do quê, exatamente. Cada um escreva no seu caderninho de deveres e desejos as suas preferências, pagando, se desejar, algum copyright para esta minha teoria das “improbabilidades prováveis”. Na verdade, não vou patenteá-la, sequer registrar copyright; vai ficar como “trade secret”, como no caso da Coca-Cola (embora com um pouco menos de sucesso, até aqui). O que eu sei é que já tenho meu caderninho de desejos (este no qual redigi estas notas numa viagem aérea) e nele vou registrando minhas improbabilidades prováveis, esperando que algum dia, como na conhecida canção, all my dreams come true...
Será provável, pelo menos possível? Não tenho certeza, nem condições de defender a hipótese, mas vou, desde já, formular duas possibilidades retiradas de um caderno virtual e que há muito aguardam o devido registro formal: pretendo – isso antes de reencarnar como diretor da Library of Congress – terminar de ler todos os livros de minhas duas bibliotecas, o que é teoricamente improvável, mas não impossível; pretendo também – mas este desejo já não é tão improvável quanto o anterior – continuar escrevendo minitratados sobre perfeitas inutilidades históricas e sociais. Não tem importância: sempre perdemos tempo na vida com alguma coisa...
Fiquem, pois, com esta inutilidade, e esperem pela próxima...
Em vôo, São Paulo-Chicago, 16-17/03/2011.
Paulo Roberto de Almeida
Uma improbabilidade é algo que, como o conceito indica, não corre nenhum risco de acontecer; constitui, assim, um não-evento, uma impossibilidade prática. Poucas pessoas, salvo as muito sonhadoras, ficam atrás, ou se colocam em busca, de coisas impossíveis, ou seja, de improbabilidades. Aqueles que o fazem, de verdade, ou sinceramente, costumam ser chamados de utopistas, ou talvez até, dependendo da natureza de seus sonhos, de românticos incuráveis.
Não creio pertencer a uma ou outra dessas categorias tribais, embora, por vezes, eu mesmo também me surpreenda inventando coisas impossíveis de se materializarem neste nosso mundinho ordinário. Fingindo ser realista – o que só sou 50% do tempo, assumindo no que restar dele uma infinidade de outras posturas, aliás até acima do limite teórico de 100% – não vou tratar aqui das coisas impossíveis ou totalmente improváveis, a despeito de ter enquadrado este minitratado no bloco das improbabilidades.
Pretendo, antes, tratar das “improbabilidades prováveis”, ou pelo menos daquelas plausíveis, ou seja, daquelas que mesmo sendo aparentemente impossíveis de acontecer, por vezes aparecem no nosso caminho e tropeçamos com elas, geralmente de modo inesperado. Assim, a despeito da aparente contradição, creio enquadrar-me perfeitamente no “caos normal” do mundo em que vivemos, feito de necessidades, de um lado, e de acasos, do outro.
Adotando esse tipo de abordagem num minitratado aparentemente sério – mas esta série apresenta também algumas surpresas – tenho consciência de que já estou adentrando, de fato, no campo das probabilidades, uma área coberta por refinadas teorias matemáticas e por especulações probabilísticas das mais sérias, justamente. Não pretendo, porém, abordar essas improbabilidades prováveis pelo lado da ciência, da razão; esta será uma abordagem puramente impressionista, como costumam ser vários dos meus minitratados (e eu já fiz mais de três, como sabem os meus poucos leitores).
Não vou, portanto, oferecer cálculos pascalianos, ou equações à maneira de Laplace, sobre as “minhas” (im)probabilidades, mas simplesmente inscrever-me, temporariamente, numa daquelas duas tribos antes desdenhadas. Não que eu seja um utopista, adepto de soluções utópicas para os problemas sociais ou individuais, e que daí me tenha convertido num romântico incurável. Consideremos este minitratado como uma espécie de licença poética, por assim dizer.
Quais seriam, então, as improbabilidades prováveis ou plausíveis, suscetíveis de serem enquadradas nos cânones pouco rígidos destes meus minitratados? Elas são, justamente, aquelas “coisas” que, por mais impossíveis que apareçam, nos esforçamos por atingir ou realizar; são aquelas que merecem todo o nosso empenho, recolhem todo o engenho e arte de nossas humildes capacidades humanas; são também aquelas que respondem a um ideal mais elevado da vida, que contemplam, justamente, todo esse oceano de improbabilidades com pelo menos um ou duas gotículas de probabilidades desejáveis. Nesse caso, minha “teoria” das improbabilidades prováveis jamais trabalha com a teoria dos grandes números; apenas com os pequenos números das escolhas pessoais e dos sonhos individuais.
Todos aqueles que, como eu, pautam sua postura frente ao mundo pelas leis da razão, todos os que somos agnósticos, céticos, ou simplesmente materialistas – o que absolutamente implica ser fatalista ou determinista – aceitamos o princípio irrecorrível da flecha do tempo, nos conformamos ao caráter “irrepetível” da história. Mesmo quando se costuma retomar a famosa frase sobre a “repetência” da História – geralmente com H maiúsculo, e acompanhada daquele lugar comum muito abusado sobre a tragédia e a farsa – pode-se afirmar, com certeza, que as águas de um rio não voltam jamais a passar pelo mesmo lugar.
Todos temos consciência de que nunca conseguiremos reproduzir fielmente, como da primeira vez, aquele estado de felicidade quase absoluta que decorreu da descoberta do primeiro amor, aquela certeza de amar e ser amado, um êxtase derivado do sentimento puro da reciprocidade no afeto, mas que depois foi vencido pelas trapaças da sorte e se perdeu nas brumas do tempo para nunca mais voltar. Acreditar que o nirvana possa voltar, sabemos, é uma das situações mais improváveis que podem ocorrer.
E, no entanto, queremos acreditar que o retorno dessa condição é algo totalmente plausível, quase provável, que se pretende certo e verdadeiro como uma rocha. O que custa acreditar nesse tipo de sonho induzido, mesmo correndo o risco de ser enquadrado na profissão pouco respeitada de utopista profissional ou de cair naquele estado catatônico dos românticos incuráveis? O que fazer quando até os materialistas de carteirinha proclamam que “sonhar é preciso”? O que estamos fazendo, justamente, é tentar tornar certas improbabilidades prováveis.
Isso é próprio da espécie humana, cheia de inventores malucos, de poetas sonhadores, de cientistas devotados às causas mais bizarras da humanidade, de literatos geniais produzindo obras primas ab initio, e até simples escrevinhadores, como um que conheço, que perdem o seu tempo e o dos leitores sujando papel com coisas improváveis e sonhos impossíveis. Somos incuráveis, de fato, nessa busca contínua da felicidade perfeita, do amor insuperável (e eterno), da realização plena de nossas possibilidades e até de nossos desejos.
Com todo respeito pela perfeição matemática dos cálculos probabilísticos, sempre devemos introduzir um pouco de teoria quântica naquelas coisas que costumam ser consideradas improváveis ou impossíveis. Assim, portanto, como explica a teoria dos quanta, uma coisa pode estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, ou então se trata daquela coisa de se ter dois corpos ocupando o mesmo lugar no espaço (vocês procurem na Wikipédia). Da mesma forma, sem ser quântico, eu também acho que as improbabilidades, por mais “duras” que possam ser, podem se tornar prováveis, ou possíveis, num passe de mágica (sobretudo a partir de um teclado próximo...).
Não me perguntem como, sob quais condições ou a propósito do quê, exatamente. Cada um escreva no seu caderninho de deveres e desejos as suas preferências, pagando, se desejar, algum copyright para esta minha teoria das “improbabilidades prováveis”. Na verdade, não vou patenteá-la, sequer registrar copyright; vai ficar como “trade secret”, como no caso da Coca-Cola (embora com um pouco menos de sucesso, até aqui). O que eu sei é que já tenho meu caderninho de desejos (este no qual redigi estas notas numa viagem aérea) e nele vou registrando minhas improbabilidades prováveis, esperando que algum dia, como na conhecida canção, all my dreams come true...
Será provável, pelo menos possível? Não tenho certeza, nem condições de defender a hipótese, mas vou, desde já, formular duas possibilidades retiradas de um caderno virtual e que há muito aguardam o devido registro formal: pretendo – isso antes de reencarnar como diretor da Library of Congress – terminar de ler todos os livros de minhas duas bibliotecas, o que é teoricamente improvável, mas não impossível; pretendo também – mas este desejo já não é tão improvável quanto o anterior – continuar escrevendo minitratados sobre perfeitas inutilidades históricas e sociais. Não tem importância: sempre perdemos tempo na vida com alguma coisa...
Fiquem, pois, com esta inutilidade, e esperem pela próxima...
Em vôo, São Paulo-Chicago, 16-17/03/2011.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Pausa para...puro deleite: Oscar Peterson e Count Basie
Dois gigantes do jazz, do piano, da música, simplesmente:
Jumpin' At The Woodside
http://www.youtube.com/watch?v=XIs1vcoPQbw&feature=player_embedded#at=110
Deleitem-se... se ouso dizer...
Jumpin' At The Woodside
http://www.youtube.com/watch?v=XIs1vcoPQbw&feature=player_embedded#at=110
Deleitem-se... se ouso dizer...
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