Lendo o jornal The Guardian, nesta véspera de eleições britânicas, deparo-me com um artigo sobre o papel da política externa na campanha, ou melhor, no cenário político governamental inglês.
O autor, Dennis MacShane, argumenta, em "We ignore foreign policy at our peril" (May 4, 2010), que muitas coisas estão erradas na diplomacia britânica, o que como sempre ocorre, pode provocar um artigo prefeitamente contrário, defendendo a atual politica e recomendando maior ativismo internacional.
Destaco, porém, apenas um trecho desse artigo, para demonstrar um ponto que me ocupa, atualmente. Ele se refere à cooperação internacional para o desenvolvimento, um dos temas "nobres" da diplomacia do New Labour (e provavelmente também dos Conservadores), já que todo parece estar de acordo em que se deve "aumentar os esforços e a transferência de recursos para os países em desenvolvimento".
Eis o trecho:
It is 50 years since Harold Macmillan's Wind of Change speech and France, too, is celebrating the half-century of granting nominal independence to all its African colonies. Now China is recolonising Africa as Beijing scrambles to buy raw and precious materials and put African leaders on its payroll.
The Department for International Development (DfID) was set up with great fanfare 13 years ago and now has the lion's share of UK spend on international policy. But poverty, corruption and malnutrition has gone up not down in the countries where DfID operates. Meanwhile the BBC World Service faces a 25% cut in its budget as funds are diverted to pay for Adam Smith's overseas operation from the swollen DfID budget. Will Britain continue to replace statecraft by aidcraft?
Como estou lendo atualmente o livro de William Easterly, The White Man's Burden, sobre o fracasso da ajuda oficial ao desenvolvimento, permito-me reforçar esta frase, que concorda com os argumentos de Easterly sobre a inocuidade, e talvez o malefício da AOD: "...poverty, corruption and malnutrition has gone up not down in the countries where DfID operates."
William Easterly certamente concordaria: dos US$ 2,3 trilhões transferidos para os países em desenvolvimento, nos 20 anos de 1985 a 2005, provavelmente uma boa parte acabou em contas privadas, talvez em bancos suíços, ou simplesmente foi gasta inutilmente. Os países que receberam essa ajuda não estão melhor do que os que se viram por conta própria.
Voltaremos ao assunto...
Paulo Roberto de Almeida
(Shanghai, 5 de maio de 2010)
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Madame IA comenta meu pronunciamento no Senado em homenagem sao centenário de nasimento de Roberto Campos
Um resumo do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=XobuvjMuy7k (título, entre aspas: "Roberto Campos: Paulo Roberto de Almeida na se...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
Opinião: Relações Brasil–EUA: decifra-me ou devoro-te A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolít...
-
O triângulo improvável; o provocador, o organizador e Madame IA, a sabidona No comando do espetáculo, ADL organiza o show, Madame IA fornece...
-
Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos Paulo Roberto de Almeida Revista Será?, ano xiv...
-
Afinal, no blog Diplomatizzando, quem comanda e induz a Madame IA: o PRA ou o ADL? Justifique/Explique. Airton Dirceu Lemmertz No blog ...
-
20.maio.2020 às 20h00 Conheça 10 bandeiras que o Brasil não teve COMPARTILHAMENTO ESPECIAL COMPARTILHAMENTO ESPECIAL Assi...
-
O livro está pronto; só falta imprimir: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL: DOS DESCOBRIMENTOS AO FINAL D...
-
Em 19 de fevereiro de 1810, pouco mais de duzentos anos, portanto, os plenipotenciarios portugueses (D. Rodrigo de Souza Coutinho, conde de ...
-
Novo livro quase saindo do forno: Paulo Roberto de Almeida Economia política das constituições brasileiras: seu impacto nas relações econômi...
Nenhum comentário:
Postar um comentário