Quase 100 por cento dos economistas e a maior parte dos manuais de economia falam das "falhas de mercado" como se fosse uma verdade absoluta, ou seja, que os mercados são imperfeitos e que eles muito frequentemente falham, sendo portanto preciso a "mão salvadora" do Estado para recolocar os mercados no seu lugarzinho "correto".
Nada mais errada do que essa concepção, e eu mesmo já escrevi exatamente a mesma frase em alguns dos meus textos elaborados no auge da crise financeira americana de 2008 que se transformou na crise econômica internacional de 2009. Mercados podem até tardar um pouco -- já que dependem da ação de indivíduos ou de grupos de agentes econômicos que continuam a imprimir certa numa força numa determinada direção -- mas inevitavelmente farão o que eles sempre fazem: corrigir os desequilíbrios acumulados numa ponta pelo restabelecimento das relações "corretas" entre os diferentes elementos em jogo.
O que é falho, certamente, e a qualidade e o volume das informações disponíveis aos agentes intervindo nos mercados, mas esse é um problema técnico que não envolve nenhuma falha do mercado em si, pois a informação disponível sempre está lá, apenas que não é percebida pelos agentes, ou por serem distraídos, ou por serem apressados, ou por não se darem ao trabalho de coletar essa informação, ou porque simplesmente eles não querem ver.
O trabalho abaixo de um economista americano confirma a minha percepção de não economista (mas de estudioso da economia), de uma forma elegante e sistemática.
Markets Never Fail
Fred E. Foldvary
Dept. of Economics, Santa Clara University
ffoldvary@scu.edu
Available here
Session 6.4: The State Versus the Market, I
APEE Conference, Las Vegas, April 4, 2006
"Private Solutions to Market Failures: Is Government Always the Answer?"
Abstract:
Mainstream allegations of market failure are based on misunderstandings of markets, governance, and ethics. This paper dissects the categories of alleged market failure: externalities, public goods, market structures, asymmetries, irrational behavior, injustice, and lack of sustainability. The analysis reveals that none of these phenomena contain any inherent market failures.
....
Almost all economists believe in the doctrine of market failure. Every widely-used textbook of economics presents the doctrine that markets fail. The mainstream view in economics is that an economy with "perfect competition" would be efficient, but the real world has no perfect competition, and market outcomes are inequitable, so market failure is ubiquitous. Markets always fail, and the only issue to be discussed is the degree of failure. That degree, it is said, is especially severe in the case of public goods, externalities, informational asymmetries, and economic justice.
Ler a íntegra do texto aqui, ou no site original do autor, aqui.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida
Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Ficha catalográfica de um livro saindo agora do "forno": Intelectuais na diplomacia brasileira : a cultura a serviço da nação /...
-
Stephen Kotkin is a legendary historian, currently at Hoover, previously at Princeton. Best known for his Stalin biographies, his other wor...
-
Brasil: cronologia sumária do multilateralismo econômico, 1856-2006 Paulo Roberto de Almeida In: Ricardo Seitenfus e Deisy Ventura, Direito ...
-
*TRUMP E O SEQUESTRO DE UM CHEFE DE ESTADO : MÚLTIPLAS AGRESSÕES À ORDEM JURÍDICA INTERNACIONAL* Por Celso de Mello , ministro aposentado d...
-
A prioridade errada nas reportagens sobre a Venezuela A mídia, brasileira e internacional, não está usando os dois neurônios que c...
-
Licença pouco poética para espezinhar quem merece (com desculpas às almas sensíveis) Jornalistas diversos e até psiquiatras (que não deveria...
-
Crítica do coronel-general Leonid Grigoryevich Ivashov à guerra de agressão de Putin contra a Ucrânia Um corajoso dissidente do tirano de M...
-
Trump apresenta lista de exigências para o novo governo da Venezuela Fim de apoio para adversários dos EUA, expulsão de cubanos e pleno ace...
3 comentários:
Falar em "falha" só tem sentido em referência a um modelo teórico de funcionamento "correto". Se assumirmos como marco teórico que é da natureza dos mercados tenderem ao oligopólio, então os mercados estão funcionando perfeitamente. E se assumirmos que o Estado, como "motor" do crescimento, faz o que qualquer motor faz (desperdiçar a maior parte da energia em calor), então o Estado também está funcionando perfeitamente...
Olá Prof.
Coincidentemente estou lendo, de maneira mais aprofundada, sobre a medida que o governo tomou à epoca da crise do café (compra e queima do estoque fazendo assim uma manutenção relativa da procura agregada) Como, baseado, na escola austriaca, (certamente fonte de inspiracao do texto), isso poderia ter sido corrigido¿
Obrigado!
Anônimo,
Você não precisa ser anônimo para fazer uma pergunta dessas.
Sugiro que você pesquise mais sobre a Escola Austríaca, notadamente lendo os textos e visitando o blog do Professor Ubiratan Iorio.
A Escola Austriaca simplesmente deixaria que o mercado ajustasse o setor com desvio de investimentos para outras areas.
Quem perderia seriam os exportadores de café, não a sociedade, que foi obrigada a pagar para eles. É o que o Celso Furtado chamou de socialização das perdas. Não creio que a sociedade deva pagar para manter a renda de um setor privilegiado.
As simple as that.
Paulo Roberto de Almeida
Postar um comentário