Não, não vou falar da "promoção" de Vinicius de Moraes a "embaixador", embora ele seja citado nesta bela poesia que transcrevo abaixo.
Alertado por meu colega blogueiro e diplomata -- acho que na ordem inversa -- Francisco Seixas da Costa, que sempre traz coisas muito boas no seu "Duas ou Três Coisas...", descobri, em um seu post sobre Diplomacia e Poesia, essa junção de duas coisas que sempre caminharam juntas: a diplomacia e a poesia, tanto porque os diplomatas são algo como os poetas da Realpolitik, ou os realistas da Idealpolitik, quanto porque eles não se cansam de encontrar palavras bonitas para feias realidades...
Enfim, sou de opinião que, independentemente de suas qualidades enquanto grande poeta, grande letrista, incomparável bebum, Vinicius nunca poderia ter sido promovido a embaixador, razão pela qual coloquei essas expressões entre aspas, no começo deste post. Tratou-se de uma promoção política, administrativa e técnicamente irregular, que poderia ser desmantelada por qualquer órgão de controle da legalidade dos atos (mas que, no Brasil atual, se preocupa com a legalidade dos atos do governo?), feita mais para dar uma gorda pensão -- e provavelmente uma grande "indenização" retroativa -- a suas duas filhas, do que para reparar uma grande injustiça.
Mas deixemos essa questão de lado para apreciar esta crítica dos costumes poético-diplomáticos em forma de poesia, justamente, embora vagamente depreciativa, talvez comme il faut...
Paulo Roberto de Almeida
Divertimento
Blog Tim Tim no Tibete
Thursday, August 19, 2010
Um diplomata só já é risível;
poeta e diplomata, isso é demais!
Fica bem nas fronteiras do incrível:
Vinícius e Cabral não quero mais!
Foi você que pediu Octavio Paz?
Não sei o que ele fez nem o que faz.
Poetas são patetas com plumas
e diplomatas são coisas nenhumas.
Claudel que vá rezar avé marias
e o Perse consertar as avarias
que fez à Resistência no exílio.
Não pensem que esquecemos o Abílio
Guerra Junqueiro, toda uma ameaça:
o Rei a cair morto numa praça!
Poetas diplomatas, vão pastar!
Poetas presidentes?! Nem pensar...
E não julguem que sou qualquer reaça!
Eu sou da nobre estirpe de um talassa...
Posted by Alcipe at 9:06 AM
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sábado, 21 de agosto de 2010
Poetas e diplomatas... (tudo a ver?)
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Um comentário:
"(...)Talvez, por efeito dessa conversa (com o General Delgado,perseguido pela ditadura salazarista, então asilado na Embaixada brasileira em Portugal, desde 12 janeiro de 1959), voltou-me agora mesmo, já deitado, a idéia apaixonante de uma espécie de paralelismo entre a experiência de um político na prisão e a experiência de um diplomata no estrangeiro.(...)É uma idéia que tem me ocorrido diversas vezes sob ângulos vários; e creio que me ocorreu pela primeira vez, quando preparava a biografia de Rio Branco, portanto, ante o espetáculo de um homem vivendo por mais de trinta anos no estrangeiro e deparando-se um dia com a destinação de ter que retornar ao seu País para desempenhar um papel histórico em plenitude de personalidade, sabedoria e grandesa. Mas com outros diplomatas, ao contrário, quantos dêles que só fazem murchar em estolidez ou se debilitarem em viciações-e isto por efeito da incapacidade de ânimo para a existência no estrangeiro! Com efeito, em grande parte, e quanto às conseqüências, a vida no estrangeiro constitui para os homens uma prova psicológica semelhante àquela que se tem com a experiência das prisões ou com o ostracismo político. Aos fortes, enrija e eleva; aos fracos, rebaixa e degrada. A vida no estrangeiro, aos fortes enrijece em ânimo, enriquece em perspectiva, engrandece em personalidade, tornando-os mais interessados e compreensivos no ver de perto ou por dentro os problemas do seu País, mais conscientes e lúcidos em integrar-se na sua comunidade nacional. E, assim, nem porque-ufanistas, nem pessimistas de espirito descarnado na impotência do esnobismo e do bovarismo. Aos fracos, a vida no estrangeiro corrompe a natureza humana, degrada a sensibilidade nativa, amesquinha a visão pessoal como num círculo de peru, transformando-os em meláncólicos 'déracinés', forrados em estufas de egoísmo pessoal e frivolidade social. E, dêste modo, destroçados em sua vida interior por efeito daquele desespêro dos frustrados que se disfarça em ceticismo e diletantismo."
Alvaro Lins (in:"Missão em Portugal";p.190-191; EDITORA CIVILIZAÇÂO BRASILEIRA S.A.;Rio de Janeiro; 1960).
Vale!
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