BananaLeaks
Mac Margolis
O Estado de S. Paulo, 11/02/2013
No princípio, havia os Pentagon Papers, os documentos sigilosos que escancaram os segredos de Washington na malograda Guerra do Vietnã. O catatau escandalizou o público americano e acelerou o desfecho da Pax Americana do pântano do conflito asiático. Mais recentemente, conhecemos o WikiLeaks, razão social do exército de cibermilitantes dedicado a minar os computadores de governos ricos para descortinar os infames e o arbítrio dos poderosos.
Em comum, tiveram a convicção de que, entre a segurança nacional e o interesse público, prevalece o cidadão. Alguns cidadãos mais que outros, é verdade, já que o Wikileaks, em seu afã de embaraçar o império, acabou colocando em risco a vida de alguns inocentes. Mas a ideia se consolidou: os governantes nada podem ocultar dos governados.
Agora entra em cena o BananaLeaks, a melhor novidade do gênero na Améri- ca Latina .A publicação, que é 100% digital, nasce do mesmo princípio dos seus antecessores - o compromisso de jogar luz aos porões oficiais. Seu lema, estampado no alto da sua página de boas vindas: "Se não queres que ninguém saiba, não o faça".
Seu nome parece piada de mau gosto. Enfim, o Equador, alvo predileto de suas reportagens, é a capital mundial da bananeira e foi a globalização dessa fruta curvilínea que batizou aquele clássico da história latino-americana - a república de bananas.
Mas alguém o está levando a sério. O BananaLeaks tem pouco mais de um mês de existência e já sofreu golpes de mestre. Fundado em janeiro, ele saiu do ar dia 28, alvo de sabotagem de hackers sofisticados e bem financiados. Os rebeldes restauraram o portal com outro endereço na web, mas ele tombou de novo, vítima de outra cibersaraivada tão agressiva quanto anônima. Sua conta no Twitter também foi inutilizada.
Em jogo de gato e rato, os jornalistas do portal, que mantêm suas identidades em sigilo (enfim, nesse jogo de verdades, o véu é para todos!), exportaram seu site para um servidor no Hemisfério Norte e recalibraram o endereço na web. Hoje é bananaleaks.co e já contabiliza uma tempestade de acessos. Mas o que provocou tamanho alvoroço? Uma breve navegada na página não deixa dúvidas. O site, declaram os autores, "concentrará seus esforços em indagar e informar sobre a corrupção estatal, a liberdade de expressão e direitos humanos nos países da região, onde as liberdades e direitos fundamentais estão sofrendo restrições de maneira acelerada e brutal".
A equipe não é exclusivamente equatoriana, mas o governo de Rafael Cor- rea, hoje em campanha acelerada para reeleição, é a pauta predileta da folha eletrônica. Uma reportagem conta que os irmãos Fernando e Vinicio Alvarado, ambos ministros do governo Correa, tiraram diploma de doutorado com a mesma dissertação. Pior, nenhum dos dois seria o autor, pois a tese foi escrita por Fernando Savater, acadêmico espanhol conhecido como estudioso de ética (!). Outros dois doutores da família Alvarado também teriam se servido da mesma tese.
Essa denúncia foi fichinha. Ao final de janeiro, uma manchete no portal acusou o presidente equatoriano de manter duas contas não declaradas na Suíça. Em questão de horas, o site entrou em pane, seguida pela sua conta do Twitter. Mas as indiscrições bananeiras continuam. "Conheça os depósitos secretos nas Bahamas do primo e conselheiro financeiro do presidente do Equador", clama outra manchete. Em outra cutucada, o site postou na íntegra um documentário do colombiano Santiago Villa Chiappe, que acusa Correa de ajudar e aceitar ajuda da guerrilha marxista, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
A ofensiva contra o BananaLeaks não tem autor assumido, mas sua pegada é bem conhecida. É mais uma agressão aos meios independentes de informação ness epaís andino, inspirado pelo socialismo do século 21 do presidente Hugo Chávez. O mestre bolivariano está ausente há dois meses, acometido pelo câncer num hospital cubano, mas seu estilo de governo - que mistura o rolo compressor com a mordaça - vai muito bem, obrigado.
Rafael Correa, um presidente popular, deve conseguir sua reeleição no próximo domingo. Tem cacife e caixa suficientes para conquistar votos nas regiões rurais e na periferia, e falta união e força política entre a ala da oposição. Mas a política é sempre uma incógnita e, quem sabe por isso, o melhor é garantir a vantagem, estancando as verdades inconvenientes, de onde quer que vazem.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Equador: mais excessos de democracia, bananais - Mac Magolis
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Um comentário:
Por que não lançar a versão brasileira:"PacováLeaks"(!)
Vale!
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