Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº724
Recife, 14 de agosto de 2026
Caro leitor:
Há momentos em que ler deixa de ser apenas um exercício de informação e se transforma num gesto de vigilância. Esta edição da Revista Será? atravessa algumas das questões decisivas do nosso tempo: a soberania nacional, a liberdade de imprensa, os limites dos poderes da República, a responsabilidade fiscal, as ameaças à democracia e a necessidade de recuperar a negociação política. Entre a urgência do presente e a permanência dos grandes livros, oferecemos aos leitores uma edição para inquietar certezas e alargar o horizonte.
Em “Uma pedra no caminho de Trump”, nosso Editorial examina a ofensiva de Donald Trump e de Marco Rubio para reafirmar a hegemonia norte-americana sobre a América Latina. O Brasil aparece como a grande pedra nesse projeto de subordinação continental. Às vésperas das eleições de 2026, o texto recorda que o voto decidirá não apenas quem governará o país, mas também se continuaremos livres para definir nosso próprio destino. Soberania nacional e democracia, afinal, são inseparáveis.
José Paulo Cavalcanti Filho, em “Sigilo da Fonte”, enfrenta uma questão essencial ao Estado de Direito. A partir de uma decisão que permitiu a apreensão de equipamentos de um jornalista e a identificação de seu informante, o autor distingue com precisão a proteção constitucional da fonte e a responsabilidade do profissional pelo conteúdo publicado. Sua crítica alcança o corporativismo judicial, a legalidade das provas e os limites do poder exercido pelo Supremo Tribunal Federal.
Também sobre o Judiciário, Helga Hoffmann escreve “Sob o manto da retórica...”. A autora percorre décadas de denúncias sobre privilégios, penduricalhos, remunerações acima do teto e mecanismos corporativos de autoproteção. Ao questionar códigos de ética sem sanções e artifícios linguísticos usados para encobrir benefícios, Helga defende transparência, prestação de contas e o direito dos cidadãos de compreender, em linguagem clara, aquilo que os intérpretes oficiais da Constituição fazem em nome da sociedade.
Em “A palavra maldita”, Hubert Alquéres examina a resistência do governo Lula à expressão “ajuste fiscal”. O problema, demonstra o autor, não desaparece quando seu nome é banido do discurso político. A expansão da dívida pública, os juros elevados, a compressão dos investimentos e as ameaças às políticas sociais exigem decisões responsáveis. Hubert sustenta que um ajuste planejado e concentrado nas despesas será menos doloroso do que aquele imposto, mais adiante, pela deterioração das contas públicas.
Rui Martins conduz o leitor para um cenário ainda mais inquietante em “Existe o risco de invasão norte-americana?”. Ao considerar possibilidades de intervenção militar, política ou digital dos Estados Unidos no Brasil, o autor recupera a Doutrina Monroe, as pressões de Trump, a atuação de brasileiros no exterior e o uso eleitoral das redes sociais. O texto não oferece tranquilidade: convida-nos a pensar os riscos geopolíticos, a fragilidade defensiva do país e as ameaças que podem acompanhar a disputa presidencial.
Em contraste com a política da imposição, José Arlindo Soares recupera a política da negociação em “Pacto de Moncloa e a Transição Democrática no Brasil”. O autor compara o amplo acordo espanhol de 1977 com a redemocratização gradual brasileira, construída sem pacto formal, mas influenciada pelos valores da conciliação, do pluralismo e dos consensos mínimos. De Tancredo Neves à Constituição de 1988, o artigo demonstra por que a memória histórica permanece indispensável diante da polarização e da erosão da confiança pública.
Paulo Gustavo nos conduz, então, a outro território fundamental da vida brasileira: o de nossa formação cultural. Em “Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre”, celebra os nove decênios de Sobrados e mucambos. O artigo revisita a arquitetura literária e sociológica da obra, seu olhar proustiano sobre o passado e a paisagem social que se estende entre sobrados e mucambos, entre a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento urbano. É um convite à redescoberta de um clássico incontornável.
Em “A Será? Há 14 anos”, recuperamos o Editorial “Democracia e mídia”. Publicado em 2012, o texto defendia a liberdade de imprensa, a pluralidade dos veículos e a circulação descentralizada das informações. Sua atualidade é evidente. Em meio à desinformação, à polarização e ao poder crescente das redes sociais, a democracia continua dependendo da diversidade de vozes, da responsabilidade, da ética jornalística e da recusa a qualquer monopólio da verdade.
Na “Última Página”, a charge de Elson
Boa leitura.
Os Editores
Índice
- Uma pedra no caminho de Trump – Editorial
- Sigilo da Fonte - José Paulo Cavalcanti Filho.
- Sob o manto da retórica... - Helga Hoffmann
- A palavra maldita - Hubert Alquéres
- Existe o risco de invasão norte-americana? - Rui Martins
- Pacto de Moncloa e a Transição Democrática no Brasil - José Arlindo Soares
- Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre - Paulo Gustavo
- A Será? Há 14 anos.
- Última Página, a charge de Elson
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