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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Embaixador Nestor Forster: programa de trabalho nos EUA

'Quer proteger a Amazônia? Compre mais do Brasil’, diz escolhido por Bolsonaro para a embaixada nos EUA

O diplomata Nestor Forster terá seu nome ainda submetido pelo plenário do Senado

O Globo, 18/02/2020


SÃO PAULO - Aprovado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado na última quinta-feira para assumir a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos, o diplomata Nestor Forster, 56 anos, disse em entrevista ao GLOBO que entre suas prioridades estará atuar para dirimir o que chama de fake news a respeito da Amazônia. No ano passado, diante das queimadas e índices de desmatamento da floresta, vários congressistas americanos apresentaram projetos para dificultar o comércio entre os dois países como uma forma de retaliação a questões ambientais
"Penalizar a exportação de empresas brasileiras usando a Amazônia como desculpa é algo que prejudica a Amazônia, porque as grandes empresas que exportam são as que têm mais recursos para observar a lei ambiental. É contraproducente", afirmou Forster. Antes de assumir a embaixada em Washington, um dos principais postos da diplomacia, ele ainda precisa ter seu nome submetido ao plenário do Senado, o que deve ocorrer nos próximos dias.
Qual o seu plano de trabalho, se for aprovado pelo plenário?
Se eu vier a ser aprovado pelo plenário do Senado, tenho um desafio enorme para dar forma concreta a esta imensa energia que existe na relação entre o presidente [Jair] Bolsonaro e o presidente [Donald] Trump. Queremos promover uma aproximação do Brasil em áreas como comércio e investimentos, atrair mais investimentos americanos para o Brasil, gerar mais emprego e renda aqui para os brasileiros. Queremos ter maior acesso ao mercado americano, isso é algo que queremos perseguir como objetivo de médio prazo. E a coisa que  podemos fazer mais rapidamente é na facilitação de negócios, de reduzir os elementos do custo Brasil.
Que outras áreas podem ser incentivadas?
Nós temos imensa agenda na área de cooperação científica e tecnológica, no tema espacial, utilização da Base de Alcântara (Maranhão) para o lançamento de satélites, e, além disso, temos a possibilidade de aprofundar a cooperação na  área de defesa e segurança.
O senhor também tem planos de deixar um legado cultural em Washington?
Sim, a gente começou uma série de eventos culturais, promovendo um concerto de Villa-Lobos, a peça “Pulando como um saci” fez grande sucesso, conseguimos encher o auditório da embaixada. E temos talvez o maior tesouro brasileiro nos Estados Unidos, a biblioteca que o diplomata e historiador Oliveira Lima (1867-1928) doou a uma universidade de Washington. Eram originalmente 30 mil obras, hoje são 60 mil, e pelo menos 5 mil delas são obras raras. É a maior biblioteca brasileira fora do Brasil. A ideia seria trabalhar com a Universidade Católica, onde isso está localizado, para fazermos um grande centro de estudos ibero-americano, como era o desejo do Oliveira Lima, deixando uma marca perene da cultura brasileira na capital americana.

Mas como seria este centro?
Não quero soar megalômano, mas a obra está lá, se trata de trabalhar com a universidade para conseguir doações, financiamento. A universidade poderia doar o terreno, há grandes empresas brasileiras que poderiam ter interesse nisso, não só do estado de Pernambuco, de onde veio Oliveira Lima, que poderiam fazer o seu aporte e deixar a sua marca.
O senhor tem falado muito também com os produtores de vinhos do Brasil...
Conversei com todas as principais vinícolas brasileiras, as do Sul mas também as do Vale de São Francisco, o prefeito de Petrolina (PE) esteve na embaixada, e precisamos ampliar a presença do vinho brasileiro, não apenas como “enfeite diplomático”, mas com uma presença comercial. A nossa ideia é fazer um grande evento de degustação de vinho brasileiro em Washington no segundo semestre e levar os produtores para entrar em contato com os distribuidores locais. É um setor com valor agregado, que gera emprego e renda. Vamos tornar uma rotina servir produtos brasileiros, começando pelo vinho, em nossos eventos da embaixada. Depois podemos avançar para outros, é o que se chama soft power. Eu brinco sempre, ninguém vai na Embaixada da Suécia e sai de lá sem comer um salmão. A Embaixada da Itália em Washington tem uma cantina que é uma beleza. É uma forma de difundir a cultura brasileira a partir destes produtos.
Parte da agenda que o senhor prevê para este ano pode ser afetada pelas eleições americanas?
De forma alguma. Isso introduz um elemento de certa complexidade, mas a relação entre os países não deve parar e não podemos perder este “momentum” que foi gerado pela excelente relação entre os dois presidentes.
Mas, no lado democrata, os principais candidatos têm falado muito sobre o Brasil, quase sempre de maneira crítica por causa da questão amazônica. Uma eventual troca de poder não pode prejudicar esta relação entre Brasil e EUA?
É muito cedo para especular sobre isso, os elementos que vão definir o futuro da campanha eleitoral americana não estão dados ainda. O papel da diplomacia é procurar esclarecer a realidade, os fatos, os dados. Não estamos em Washington para fazer propaganda para o Brasil e nem para distorcer nada. Ao contrário, queremos corrigir os exageros, as desinformações que às vezes circulam e que podem prejudicar a imagem do país. Às vezes temos até interesse protecionista disfarçado de preocupação ambiental, e nossa obrigação é, imediatamente, mostrar os fatos. 84% da Amazônia estão  de pé, e muito bem, graças ao Brasil. O mundo deveria agradecer ao Brasil por ser a potência ambiental que é.
Mas no último ano vários congressistas apresentaram projetos para dificultar o comércio entre os dois países por questões ambientais. Isso pode prosperar?
Não acredito. Quando surgiu este tipo de iniciativa no Congresso, nós procuramos deputados e senadores dos dois partidos, mostrando os fatos, qual o problema da queimada, qual a sua extensão. Mostramos que o último ano está na média dos últimos dez anos, houve anos com muito mais queimadas, como 2005, 2007 e 2010, que a preocupação com o meio ambiente é enorme no governo de Jair Bolsonaro. Tanto que a Operação Verde Brasil foi a maior mobilização do país contra queimadas, com 43 mil soldados, 2.500 bombeiros, equipamentos sem precedentes envolvidos nisso.
Mas no exterior a visão é de que o Brasil está passando por uma crise ambiental.
A política ambiental do presidente Bolsonaro leva em conta que temos 25 milhões de brasileiros que vivem na Amazônia, região com o mais baixo IDH do país. E não podemos cercar a Amazônia e transformá-la em um imenso parque para que europeus e americanos ricos passem suas férias. Temos que pensar nestes 25 milhões de brasileiros que estão lá, dar a eles oportunidade de emprego, melhor renda, serviços públicos de melhor qualidade. E isso vem como? Com projetos sustentáveis na área da bioeconomia. Há uma enormidade de coisas que podem ser feitas. Temos empresas brasileiras pioneiras na área de cosméticos, fármacos, a área de piscicultura tem um potencial enorme. Os peixes amazônicos podem ter uma criação sustentada e trazer mais renda para a região, além de toda a área do ecoturismo, que tem melhorado muito. É disso que se trata. Penalizar a exportação de empresas brasileiras usando a Amazônia como desculpa é algo que prejudica a Amazônia, porque as grandes empresas que exportam são as que têm mais recursos para observar a lei ambiental. É contraproducente. Quer proteger a Amazônia? Compre mais do Brasil, não menos, isso vai gerar renda e recursos até para a preservação.
Dada a proximidade entre Bolsonaro e Trump, a reeleição do republicano em novembro seria melhor para o país?
Nós trabalharemos com o resultado que vier das urnas do povo americano.
Tem crescido muito o aumento de deportações de brasileiros detidos na fronteira dos EUA, que tentam entrar ilegalmente no país. Como o senhor pretende lidar com este tema?
Há preocupação sobre isso, aumentou muito o número de brasileiros apreendidos na fronteira, de 1.600 em 2018 para cerca de 18 mil no ano passado, 95% são famílias. Então temos duas dimensões: primeiro de assistência consular e humanitária, e temos dez consulados nos EUA que procuram prestar toda a assistência a estes brasileiros. Eu digo e repito: para os consulados brasileiros, não há brasileiro ilegal, vai ser atendido como qualquer outro, sem nenhuma pergunta sobre situação migratória nos EUA, isso é um problema das autoridades americanas. Porém, temos alguns limites para ver se há alguma discriminação, se as instalações são adequadas, se dramas humanos específicos têm sido tratados. A outra dimensão é a razão para este aumento expressivo de brasileiros. Segundo investigação da Polícia Federal, o aumento está relacionado à migração dos coiotes, organizações de crimes organizados. Não vamos romantizar este pessoal, eles traficam pessoas e drogas, e costumavam levar centro-americanos para para os EUA, mas como o México fechou sua fronteira sul, eles se voltaram ao Brasil. Temos violação de interesse de menores, aluguel de crianças para pseudofamílias, coisas que nos preocupam muito. A comunidade brasileira nos Estados Unidos tem uma imagem muito boa: ordeira, trabalhadora, alegre e festiva.

O que pode surgir da nova visita do presidente Bolsonaro aos EUA, para a Flórida, em março?
Essa visita é mais um bom momento de nosso relacionamento bilateral, e o presidente vai realizar uma agenda em um seminário de investimentos em Miami. O Brasil é o maior investidor externo na Flórida, são cerca de US$ 20 bilhões. Há um grande interesse das autoridades do próprio estado nesta visita. Vai ter este componente de investimento. O presidente também deverá ter contato com a comunidade brasileira na Flórida, que é muito expressiva. Vai assinalar mais um ponto da excelência do relacionamento entre o Brasil e os EUA, do muito que temos a fazer juntos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Nestor Forster: novo embaixador em Washington

Aprovado em sabatina, indicado para embaixada nos EUA minimiza imigração irregular de brasileiros

Diplomata Nestor Forster também disse no Senado que não há alinhamento automático com americanos

Aprovado por unanimidade —12 votos a 0— na Comissão de Relações Exteriores do Senado nesta quinta-feira (13) para ocupar o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos, o diplomata Nestor Forster minimizou as queimadas ocorridas em 2019 na Amazônia e o aumento do número de brasileiros sem documentos ingressando em território norte-americano.
Para ser oficializado como embaixador, o nome do diplomata ainda precisa ser aprovado no plenário do Senado, o que deve acontecer na próxima semana.
Forster disse que é preciso "dar a dimensão devida" ao problema de imigração para os Estados Unidos envolvendo brasileiros sem documentação. Para ele, a questão é "pontual".
Entre 2018 e 2019, esse número cresceu dez vezes, chegando a 18 mil pessoas (sendo que 95% são famílias). Há 1,3 milhão de brasileiros vivendo nos EUA, de acordo com o diplomata.
"O que aconteceu? O Brasil está em crise econômica? Alguém está mandando eles embora? Não é isso. É que houve um redirecionamento de organizações criminosas de imigração ilegal que atuavam na América Central e estão atuando hoje no Brasil", afirmou.
Em janeiro, o governo norte-americano anunciou que brasileiros que tentassem atravessar a fronteira sudoeste dos EUA para pedir asilo no país seriam enviados de volta ao México para aguardar a tramitação de seus processos de imigração.
Em outra frente de ação da Casa Branca, mais 130 brasileiros foram deportados num voo fretado na semana passada —o terceiro com o mesmo propósito desde outubro.
Ele também negou que, entre os países comandados pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro (sem partido), haja um alinhamento automático, "uma expressão que é usada com um certo cunho depreciativo, mas que, na prática, não poder ser sequer realizada".
"Se houvesse alinhamento automático, nós não precisaríamos nem ter embaixada, talvez nem precisássemos ter o Itamaraty. Isso não existe com país nenhum", afirmou Forster.
O diplomata tratou de Amazônia em mais de uma oportunidade ao longo de sua sabatina. Disse, por exemplo, que foi ao Parlamento americano conversar com os congressistas, principalmente na Câmara, de maioria democrata.
"É preciso ter um diálogo aberto e franco com eles, explicar o que está acontecendo no Brasil e o que não está acontecendo, desfazer exageros e enfrentar os temas com realismo e determinação", afirmou Forster.
Depois, respondendo a perguntas de senadores, disse que as queimadas do ano passado não foram as maiores dos registros históricos e o papel da diplomacia "não é esconder nada, distorcer nada, fazer fake news", mas é, "com serenidade, esclarecer e trazer os fatos à realidade".
"Não é a floresta que está pegando fogo, são as bordas, áreas já desmatadas do cerrado, que fazem parte da Amazônia Legal, mas não do bioma amazônico. Quando a gente esclarece, explica as coisas, desfaz estas más impressões ou desinformações que tem nesta área", afirmou.
Forster fez algumas referências ao presidente da República. Chamou a visita que Bolsonaro fez aos Estados Unidos, em março do ano passado, por exemplo, de histórica.
"Uma virada de página, assinalando um novo momento em que Brasil e Estados Unidos podem usar o que chamei de leito profundo de valores e princípios compartilhados que podem aflorar de forma mais firme e efetiva para a realização dos interesses dos dois países", afirmou Forster.
O diplomata listou consequências da visita, como a mudança de postura dos EUA em relação ao pleito do Brasil para ingresso na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a designação de aliado especial extra-Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), o que abre portas para uma maior cooperação no âmbito de defesa, além da assinatura do acordo de salvaguardas tecnológicas, permitindo o uso da base de Alcântara (MA) para o lançamento de satélites.
Em outubro do ano passado, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, enviou um documento ao secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, no qual dizia que Washington defendia as candidaturas imediatas apenas de Argentina e Romênia.
Em janeiro, os Estados Unidos fizeram um gesto ao governo Bolsonaro defendendo "que o Brasil se torne o próximo país a iniciar o processo de adesão à OCDE", segundo embaixada dos EUA em Brasília.
Forster destacou também consequências do calendário eleitoral norte-americano, o que, segundo ele, impõe constrangimentos do lado dos EUA para um engajamento mais firme em acordos comerciais.
O diplomata colocou aos senadores como maior desafio uma questão que se discute há décadas: um acordo que permita evitar a bitributação para empresas e para pessoas físicas.
"Isso teria grande alcance na facilitação de comércio entre os dois países, no aumento da eficiência do comércio e tudo isso. É algo complexo, está na mesa há muito tempo", afirmou.
O governo de Donald Trump, no entanto, publicou na segunda-feira (10) uma norma que retira o Brasil da lista de nações consideradas em desenvolvimentoe que dava ao país determinados privilégios comerciais.
O principal objetivo do governo Trump, segundo a nota, é reduzir o número dos países em desenvolvimento que poderiam receber tratamento especial sem serem afetados por barreiras contra seus produtos.
Entre as consequências práticas de deixar o status na OMC (Organização Mundial do Comércio) –mas não na mudança da lista dos EUA– poderia estar o fim da isenção unilateral de tarifas em exportações, pelo SGP (Sistema Geral de Preferências), do direito a acordos parciais de comércio com outros países em desenvolvimento e de parte dos empréstimos do Banco Mundial.

Demora no processo

No comando interino da embaixada do Brasil nos EUA desde junho, o diplomata queria ser sabatinado no fim do ano passado para iniciar 2020 já oficializado no cargo. 
Com a demora para o agendamento da sessão, disse a pessoas próximas que não havia como interferir no calendário de Brasília e que teria que esperar pela convocação dos parlamentares.
A paciência, dizem aliados, foi justamente a chave de Forster durante o caminho tortuoso que desembocou na sua indicação.
Jair Bolsonaro decidiu indicá-lo embaixador na capital americana somente depois que o filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, desistiu do posto diante do desgaste de sua imagem em meio à crise do PSL e da relação turbulenta entre governo e Congresso. O Planalto avaliava que o Senado não daria os votos necessários para a aprovação do nome do filho do presidente.
Forster recebeu então o aval do governo Donald Trump para ocupar o posto em 19 de novembro. O chamado agrément é uma consulta que o Itamaraty faz de maneira sigilosa aos países que vão receber o futuro embaixador e, somente depois dele, sua indicação é encaminhada formalmente ao Senado brasileiro.
​​Bolsonaro, porém, já havia atropelado o rito natural desse processo quando anunciou, antes de qualquer pedido de aval ao governo dos EUA, que indicaria seu filho para a embaixada em Washington. Depois da desistência de Eduardo, afirmou —também sem a prévia chancela americana— que seria Forster o substituto.
Amigo do polemista Olavo de Carvalho, o diplomata tinha o apoio do ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) para assumir a embaixada antes mesmo de Bolsonaro falar sobre a possibilidade de Eduardo abraçar o posto.
Forster havia ganhado força —e a simpatia do presidente— durante a viagem de Bolsonaro à capital americana, em março.
Ele foi um dos responsáveis por elaborar a lista de convidados da "Santa Ceia da direita", jantar com a presença de pensadores e jornalistas conservadores na primeira noite de Bolsonaro em Washington e, desde então, teve participação em reuniões importantes do governo brasileiro nos EUA.
Como revelou a Folha, em junho, Forster chegou a interromper suas férias para se encontrar pessoalmente com Bolsonaro em Seattle, durante uma parada técnica da comitiva brasileira após o encontro do G20, no Japão.
Naquele momento, a conversa foi vista por integrantes do Itamaraty como o movimento que faltava para sua indicação formal a embaixador nos EUA, mas, pouco tempo depois, Eduardo entrou em cena.
Forster não comentava publicamente sobre a possível nomeação do filho do presidente para um dos postos mais cobiçados da diplomacia brasileira. A aliados, dizia que continuaria trabalhando até que a indicação de Eduardo fosse aprovada pelo Senado. Mas a possibilidade parecia cada vez mais difícil, até ser enterrada de vez.
Conservador, católico e alinhado ao governo americano, Forster tem na sua sala no terceiro andar da embaixada um boné de apoio a Trump e uma mensagem em que se lê "make unborn babies great again" —que adapta o slogan do presidente americano a campanhas antiaborto no país.
Especializado em América do Norte há quase 30 anos, o diplomata já comandou os consulados de Nova York e de Hartford, em Connecticut. Desde 2017, era responsável por temas migratórios e de administração na embaixada em Washington antes de assumir a função de encarregado de negócios.
Depois da sabatina desta quinta, Forster pretende fazer reuniões com autoridades em Brasília e no Rio de Janeiro, e passar uns dias no seu estado natal, o Rio Grande do Sul, antes de voltar aos EUA na próxima semana.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Mesmo desistindo de ser embaixador, Bolsokid humilha chanceler -

Bolsonaro's Son Ditches Plan To Be US Ambassador

The son of Brazilian President Jair Bolsonaro said he had dropped hopes of becoming the country's ambassador to the United States.
Eduardo Bolsonaro told fellow lawmakers in the Chamber of Deputies on Tuesday that he had made the decision partly due to lack of support, adding that his father had not influenced his choice.
"It was a decision I had been thinking about for a long time," he told local media in Brasilia.
Eduardo Bolsonaro, son of Brazilian President Jair Bolsonaro, says he is not in the running to become ambassador to the USEduardo Bolsonaro, son of Brazilian President Jair Bolsonaro, says he is not in the running to become ambassador to the US Photo: AFP / NELSON ALMEIDA
"You listen to the advice of many people. There is also the issue of my electorate. I confess that the majority was not supportive."
Faced with political and legal resistance to his nomination, Eduardo Bolsonaro -- who recently turned 35, Brazil's minimum legal age for ambassadorships -- had been pushing his case for the job.
A compulsive social media user like his father, the congressman regularly posts photos of himself posing with world leaders, including US President Donald Trump and Saudi Arabia's crown prince Mohammed Bin Salman.
At Eduardo Bolsonaro has even usurped Brazil's top diplomat Ernesto Araujo, earning himself the nickname 'shadow foreign minister'At Eduardo Bolsonaro has even usurped Brazil's top diplomat Ernesto Araujo, earning himself the nickname 'shadow foreign minister' Photo: AFP / NELSON ALMEIDA
Re-elected to the lower house in 2018 with a record number of votes, he had touted his experience of flipping hamburgers in the US during a work exchange program in 2005 and 2006, and his role as head of the foreign relations committee to bolster his ambassadorial credentials.
Former Trump advisor Steve Bannon, founder of a far-right movement that Eduardo Bolsonaro joined in February as leader of the Brazilian chapter, previously praised the possible nomination.
And at times he has even usurped Brazil's top diplomat Ernesto Araujo, earning himself the nickname "shadow foreign minister" and causing confusion over who is the country's most senior envoy.
But Eduardo Bolsonaro's lack of formal diplomatic training and experience was a red flag for many.
Eduardo Bolsonaro (L) presents a more polished image than his father the president, who often appears ill at ease in publicEduardo Bolsonaro (L) presents a more polished image than his father the president, who often appears ill at ease in public Photo: AFP / Sergio LIMA
"Eduardo does not meet any of the requirements to be a diplomat," Fernanda Magnotta, who heads the international relations program at FAAP university, told AFP recently.
Brazil's ambassador to the US has always "been held by absolutely experienced figures and senior negotiators," she said.
"He has only a law degree and is not even fluent in English."
If confirmed, the appointment would bring Brazil closer "to being a banana republic," newspaper columnist at O Globo Bernardo Mello Franco had warned.

More polished

Bolsonaro said this week his third son could help "pacify" bitter divisions in his Social Liberal Party (PSL).
A surfer with a well-trimmed beard, Eduardo Bolsonaro presents a more polished image than the president, who often appears ill at ease in public.
Like his elder brothers Flavio and Carlos -- who are also in politics -- Eduardo is fiercely loyal to his father and shares his climate-change skeptic, anti-socialist and pro-gun views.
And he rarely misses an opportunity to publicise them, even on his wedding day.
A video posted on his Instagram account celebrating his marriage in May shows a close-up of Eduardo's tie-pin -- which was in the shape of a handgun.
Bolsonaro, a close ally of Trump, first said in July his son was on track to becoming the ambassador in Washington.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Ufa! desencarnou da embaixada em Washington...

Eduardo Bolsonaro desiste de embaixada nos EUA

Deputado federal e atual líder do PSL diz que fica no País para defender a pauta conservadora e o governo do pai (OESP)

BRASÍLIA - O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) desistiu da embaixada brasileira em Washington. O anúncio foi feito em pronunciamento no plenário da Câmara durante a aprovação do acordo entre o Brasil e os Estados Unidos para o uso comercial da base de Alcântara. O filho do presidente e atual líder do PSL afirmou que “fica” no País para defender a pauta conservadora e o governo do pai. 

“Esse aqui que vos fala, filho de militar do Exército brasileiro e deputado federal, que foi zombado por ter, aos 20 anos de idade, um trabalho digno e honesto em restaurante fast-food nos Estados Unidos, diz que fica no Brasil para defender os princípios conservadores, para fazer o tsunami que foi a eleição de 2018, uma onda permanente. Assim, me comprometo a caminhar por São Paulo, pelo Brasil e pelo povo”, afirmou o deputado no discurso. 
A decisão de Eduardo Bolsonaro já era esperada por auxiliares de Bolsonaro que afirmavam que, apesar da peregrinação, Eduardo não conseguiu convencer um número suficiente de senadores a apoiarem seu nome – o que poderia levar a uma derrota emblemática para o governo.  
Eduardo Bolsonaro
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no plenário da Câmara dos Deputados Foto: Dida Sampaio/Estadão
Além disso, o movimento do presidente Jair Bolsonaro para colocar o seu filho na liderança do PSL ajudou a inviabilizar a possibilidade do deputado de assumir a embaixada brasileira. “A liderança ainda está instável, mas, a princípio, só (fico) até o final do ano”, afirmou o deputado. 
De acordo com deputado, a rejeição do eleitorado a saída dele para a embaixada, pesou. “É uma decisão que vem pensando há muito tempo. A gente escuta conselhos e, confesso, que ainda tem o meu eleitorado. Confesso, não era a maioria que estava apoiando”, afirmou. 
Eduardo Bolsonaro afirmou ainda que sua decisão iria “decepcionar quem torcia por sua ida aos Estados Unidos” como uma forma de ficar distante da vida política brasileira. Ele criticou os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. 
“Lula certamente não indicou seus filhos porque eles estavam ocupados em outras funções como o de ser o Ronaldinho dos negócios”, afirmou o líder do PSL. 
Em seu discurso, o deputado agradeceu ao pai pela indicação; ao presidente americano Donald Trump; ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e outros senadores, que o receberam nos últimos três meses de sua peregrinação no Parlamento. Um dos nomes ausentes no discurso foi o do irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).  
“Quero agradecer ao presidente Jair Bolsonaro pela indicação e por não se curvar ao politicamente correto. Aos senadores Davi Alcolumbre, Nelsinho Trad, Lucas Barreto, Marcio Bittar, Chico Rodrigues e Vanderlan Cardoso. Também ao presidente americano Donald Trump e ao governo dos Estados Unidos por terem aceito o meu agrément”, afirmou o deputado que ainda citou o nome do chanceler brasileiro Ernesto Araújo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Filho inepto do presidente ainda carece dos votos para embaixada em Washington

Resistência à indicação de Eduardo persiste

Levantamento do ‘Estado’ aponta que 15 senadores declaram voto a favor de indicação de deputado para embaixada dos Estados Unidos, mesmo número de agosto

Fernanda Boldrin e Isaac de Oliveira, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo
06 de outubro de 2019 | 21h23
Eduardo Bolsonaro
O deputado Eduardo Bolsoanro (PSL-SP), no Plenario da Câmara Foto: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
Quase três meses depois de ter sido anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro, a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para assumir a embaixada brasileira nos Estados Unidos, ainda não oficializada pelo Executivo, está longe de ter os votos necessários para ser aprovada no Senado. Uma atualização de levantamento do Estado mostra que, mesmo depois de fazer “campanha” na Casa, o filho “03” do presidente tem apenas 15 dos 41 votos necessários – mesmo número registrado em agosto. 
Um terço (27) dos 81 senadores consultados pelo Estado disse que vai votar contra a indicação. Além destes, oito afirmaram estar indecisos e 31 optaram por não responder. Foi o caso do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). A assessoria do senador – que tem trabalhado pela aprovação do deputado – afirmou que ele aguardará o resultado da sabatina para tomar sua decisão. 
Na primeira edição do placar, no início do agosto, Alcolumbre informou que não iria votar, ainda que o regimento permita. Naquele momento, o levantamento do Estado apontava que havia 15 votos declarados a favor da indicação e 29 contra. Outros 36 senadores não revelaram como votariam – 29 não quiseram responder e 7 se declararam indecisos.
Os números dos dois levantamentos são semelhantes – além da posição de Alcolumbre, a única mudança foi a migração de dois senadores declaradamente contrários para o grupo dos que não revelam o voto. 
Caso seja oficializada a indicação, Eduardo terá de ser sabatinado na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. Os membros da comissão então decidem, em votação secreta, se aprovam ou não a indicação. Uma vez aprovado, o nome do indicado é encaminhado para apreciação do plenário da Casa, também em votação secreta. São necessários ao menos 41 votos favoráveis. 
O presidente Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao Estado publicada neste domingo, que a indicação de Eduardo ainda não tem data para ser oficializada. “Deixa passar a votação da reforma da Previdência. Não tem pressa não”, disse. Em agosto, após a divulgação do levantamento do EstadoBolsonaro afirmou que aguardaria o “momento certo” para oficializar a indicação.    
Na entrevista desse domingo, ele minimizou o fato de, hoje, não ter os votos suficientes. “Ele se prepara melhor para enfrentar a sabatina, caso ele mantenha a ideia de ir para lá. Pra mim seria interessante.”
Desde que foi anunciada, em 11 de julho – dois dias depois de Eduardo completar 35 anos, a idade mínima para um brasileiro assumir uma representação diplomática no exterior –, a indicação do filho do presidente para o cargo mais importante da diplomacia brasileira foi alvo de críticas de adversários, que a classificaram de nepotismo e questionaram a qualificação técnica do deputado.
“A questão que deve ser posta é se ele está à altura de um posto que já foi ocupado por Joaquim Nabuco”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “Eu acho que não está. Se ele não fosse filho do presidente, quem cogitaria nomeá-lo?”, questionou. 

Hambúrguer.

Policial federal licenciado, Eduardo está em seu segundo mandato na Câmara. Quando questionado, ainda em julho, sobre seus atributos para o cargo, ele destacou sua atuação na presidência da Comissão de Relações Exteriores da Casa e o fato de ter feito intercâmbio. “Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição, tem muito trabalho sendo feito, sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos”, disse ele na ocasião. 
No fim de julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou considerar Eduardo “um jovem brilhante” e disse que está “muito feliz pela indicação”, o que foi visto por aliados como trunfo. Em agosto, a consultoria legislativa do Senado elaborou parecer afirmando que a indicação configuraria nepotismo. A Advocacia do Senado, no entanto, emitiu um parecer técnico contrário. 
Em busca de votos, Eduardo está em “campanha”. Ele tem atravessado o Congresso para fazer um corpo a corpo em conversas privadas com os senadores e já viajou duas vezes aos Estados Unidos – em uma delas, para uma “reunião simbólica” com Trump. 
O tema, entretanto, ainda é controverso. O senador Chico Rodrigues (DEM-RR), da base aliada, critica a ausência de uma articulação na Casa para aprovar a indicação. Segundo ele, Eduardo “vai com uma vontade indomável de fazer um grande trabalho para se projetar, inclusive, politicamente”. “É um posto de visibilidade muito forte.”
Já o senador Humberto Costa (PT-PE) critica o que chama de militância política em cargo institucional. “A alegação de que ele é amigo de Trump mostra uma visão completamente equivocada, até porque boa parte do que diz respeito à política externa norte americana passa pelo Congresso, que tem maioria democrata”, afirma. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O Senado e a diplomacia - Paulo Roberto de Almeida

Depois de tomar conhecimento da pesquisa de opinião que indica que a designação do filho do presidente como embaixador em Washington recebeu 70% de DESAPROVAÇÃO da população brasileira, resolvi postar novamente meu artigo sobre esse erro monumental do presidente.

3497. “O Senado e a diplomacia”, Brasília, 3 agosto 2019, 3 p. Artigo para a imprensa sobre a indicação para embaixador em Washington. Publicado em versão resumida, no jornal O Estado de S. Paulo (14/08/2019, p. A2; link: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,o-senado-e-a-diplomacia,70002966504). Publicado em versão completa no site do Livres (link: https://www.eusoulivres.org/artigos/nepotismo-ameaca-credibilidade-da-diplomacia-brasileira/); republicado no blog Diplomatizzando (15/08/2019; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/08/o-senado-e-diplomacia-paulo-roberto-de_15.html). Relação de Publicados n. 1319.

O Senado e a diplomacia 

Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, lotado na Divisão do Arquivo; professor no Uniceub, Brasília; organizador, com o embaixador Rubens Barbosa, do livro: Relações Brasil-Estados Unidos: assimetrias e convergências (São Paulo: Saraiva, 2012);
Publicado, em versão resumida, no jornal O Estado de S. Paulo (14/08/2019, p. A2; link: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,o-senado-e-a-diplomacia,70002966504). Publicado em versão completa no site do Livres (link: https://www.eusoulivres.org/artigos/nepotismo-ameaca-credibilidade-da-diplomacia-brasileira/). Relação de Publicados n. 1319.


Historicamente, durante décadas, chanceleres brasileiros foram selecionados dentre os parlamentares, na verdade por mais de um século, no Império e na maior parte da República. Eram recrutados mais na Assembleia Geral – a Câmara do Império – do que no Senado. Mas os senadores vitalícios prestavam relevantes serviços quando no Conselho de Estado, cuja área diplomática teve papel decisivo, ainda que meramente consultivo, no encaminhamento de processos decisórios que marcaram época nos anais de nossa diplomacia, com ênfase nos assuntos regionais – sobretudo no Prata – e nas relações com as grandes potências. Vale consultar os pareceres do Conselho, vários assinados por senadores, todos eles publicados.
Quando não eram parlamentares eram grandes tribunos, juristas, ou jornalistas e professores. O Visconde do Rio Branco combinava todas essas qualidades: chefe de governo, várias vezes ministro, instituiu o cargo de consultor jurídico na antiga Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, iniciativa retomada por seu filho no Ministério das Relações Exteriores da República. O Parlamento preservava inteira autonomia e controlava de perto os atos do ministro, como na recusa do acordo que o primeiro chanceler republicano, Quintino Bocaiúva, fez com a Argentina, pelo qual ela abocanharia boa parte do atual território de Santa Catarina. Ruy Barbosa, antigo membro do Conselho de Estado, primeiro ministro da Fazenda da República, senador, não foi chanceler, mas desempenhou funções diplomáticas, a mais famosa delas como delegado na segunda Conferência da Paz da Haia, em 1907.
O sucessor do Barão do Rio Branco, Lauro Muller, era parlamentar, assim como Nilo Peçanha e também Epitácio Pessoa, senador, designado chefe da delegação às negociações de paz de 1919, aliás, eleito presidente mesmo estando em Paris. Oswaldo Aranha (embaixador em Washington antes), Afonso Arinos de Mello Franco, San Tiago Dantas, foram brilhantes parlamentares que serviram como chanceleres, assim como, mais recentemente, os senadores Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aloysio Nunes.
Chefes de missões diplomáticas, embora mais raramente, podiam ser designados dentre notáveis nomes da política ou da magistratura. No Império e na República velha, os diplomatas no exterior formavam uma carreira distinta da dos funcionários da Secretaria de Estado, e ambas da dos cônsules, que eram considerados simples negociantes de “secos e molhados”. As carreiras foram unificadas nos anos 1930; desde então, missões permanentes no exterior foram tradicionalmente ocupadas por funcionários de carreira. Ainda assim, tivemos um “barão” da imprensa – Assis Chateaubriand, em Londres –, e um banqueiro, Walter Moreira Salles, duas vezes embaixador em Washington. Mas sempre sob o rigoroso escrutínio da Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Esta chegou a recusar uma ou outra designação – sequer chamou para sabatina um preferido do general Ernesto Geisel – e, mais recentemente, recusou aprovação a um outro nome, justamente por considerar que havia abuso de parentesco (era irmão do ministro da vez, diplomata).
A tendência de se designar diplomatas de carreira como chanceleres – limitada nos regimes anteriores – se ampliou durante o período militar, com uma sobrevida temporária durante os governos do PT. No período de transição voltaram os senadores, e outros haveria para o exercício do cargo, mas o governo Bolsonaro preferiu um diplomata de carreira, aliás, um que jamais foi embaixador – ou seja, chefe de missão permanente – ou que tenha exercido relevantes serviços na diplomacia. Agora, cogita nomear alguém totalmente sem experiência nas lides internacionais como representante diplomático junto à mais importante embaixada do Brasil no exterior. A Comissão de Relações Exteriores jamais se defrontou com um caso desse tipo, tanto mais inédito por se tratar de nepotismo explícito, ou de claro “filhotismo”.
Não existem precedentes na carreira, ou fora dela, embora filhos de presidentes ou de ministros tenham exercido chefias de postos. Um – Rodrigues Alves Filho –, foi admitido depois da morte do pai; outro – Afonso Arinos, filho –, sem conexão com as funções eletivas do pai e a despeito delas: como é a norma desde 1946, ele e todos os outros têm de passar no concurso do Instituto Rio Branco. Alguns, educados no exterior, nunca lograram êxito nos exames, notoriamente difíceis, talvez por deficiências no Português. Seria de se presumir que o atual indicado seja um exímio conhecedor das relações internacionais, tenha domínio perfeito do inglês e de várias outras matérias, além de uma boa familiaridade com a agenda diplomática brasileira e mundial, que é o que se exige nos concursos de admissão. Ele já tentou alguma vez?
Não considerando o aspecto moral da indicação – segundo a senadora Simone Tebet um “erro estratégico” do presidente –, resta a questão, a ser cuidadosamente examinada pelos senadores, da capacidade do indicado para tal função. Cabe registrar seu notório apreço pelo atual presidente americano – visível em visitas com o boné da reeleição –, o que já seria um impedimento substantivo a um seguimento isento, independente, das políticas daquele país. Não se trata apenas da hipótese de um opositor ser eleito em novembro de 2020, mas do diálogo que se deve manter com amplos setores da sociedade americana, cuja maioria urbana e mais educada esmagou, com milhões de votos, o vencedor no colégio eleitoral.
Que tipo de informação objetiva – que é o mínimo que se espera de um embaixador – poderá oferecer à chancelaria brasileira, contendo uma análise equilibrada das políticas de um governo com o qual está empaticamente identificado? Como seria ele visto na Câmara, atualmente dominada por uma maioria de oposição ao presidente? Como vai ser com os diplomatas profissionais, dotados de maior experiência em assuntos internacionais do que ele mesmo? E o que farão os ministros, conselheiros, secretários mais antigos, ao se defrontar com um chefe de posto notoriamente despreparado para tratar dos mais diversos assuntos da agenda bilateral, hemisférica e internacional, financeira, política e cultural, como é o caso dessa embaixada que vale quase por uma chancelaria inteira?
A CREDN-SF tem um imenso desafio pela frente, uma vez que o que está em causa é a própria credibilidade da diplomacia brasileira junto ao país com o qual já tínhamos relações ainda antes da independência, e laços formais desde 1824. O primeiro embaixador do Brasil, designado por Rio Branco em 1905, se chamava Joaquim Nabuco, elevado a essa categoria sem precedentes na diplomacia brasileira justamente para servir em Washington.

Brasília, 3/08/2019; publicado, em versão resumida, no jornal O Estado de S. Paulo (14/08/2019, p. A2; link: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,o-senado-e-a-diplomacia,70002966504). Publicado em versão completa no site do Livres (link: https://www.eusoulivres.org/artigos/nepotismo-ameaca-credibilidade-da-diplomacia-brasileira/). Relação de Publicados n. 1319.