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domingo, 11 de outubro de 2026

A “volta do cipó de aroeira”, lembram-se da canção de Geral Vandré? - Estadão e PRA (+ comentário de Madame IA)

‘É a volta do cipó de aroeira...”: relembrando certas recorrências

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Nota sobre uma lembrança do ostracismo passado.

  

A famosa canção do compositor e músico Geraldo Vandré, num dos festivais de MPB logo ao início da ditadura militar, me veio à lembrança quando li esta notinha:

“Do Estadão deste domingo, 11/10/2026:

Itamaraty vive ‘temor Flávio’ e embaixadores falam em antecipar aposentadoria

A perspectiva de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente instaurou um clima de tensão entre diplomatas de uma ala do Itamaraty. Com a memória ainda recente da condução da política externa descrita como “desastrosa” durante o governo Jair Bolsonaro, integrantes do alto escalão da pasta afirmaram à Coluna que cogitam antecipar a aposentadoria para não ter que representar o Brasil em um eventual governo bolsonarista.

A apreensão aumentou depois que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro subiu o tom contra servidores da carreira que declararam apoio a Lula na corrida eleitoral e ameaçou fazer uma “faxina” no Ministério de Relações Exteriores. Embaixadores no topo da carreira alinhados às políticas de esquerda acreditam ser o “fim da linha” para eles.

ALVOS. O desânimo atinge sobretudo os servidores que tratam de temas que já foram rebaixados no governo de Jair Bolsonaro, como órgãos multilaterais, direitos humanos, América Latina – no contexto tratado pelos petistas de alinhamento às correntes bolivarianas –, temas de gênero e meio ambiente.

RECUO. Ao menos três secretários que do MRE que poderiam ter destaque em eventual Lula 4, agora consideram que acabou para eles. Um disse à Coluna prefere se radicar num consulado, com atividades em geral consideradas de menor prestígio a receber ordens de Flávio Bolsonaro.

CRIVO. Integrantes da campanha de Flávio admitem que a escolha para o Itamaraty será uma das tarefas mais difíceis caso ele vença, em razão dos motivos já expostos. Por isso, dizem nos bastidores que a decisão passará por consultas aos senadores Rogério Marinho e a Tereza Cristina.”

 

Retomo:

Pois bem: eu, PRA, já vivi essa situação, logo ao início da longa era lulopetista na diplomacia brasileira, em 2003, e que se estendeu praticamente até os nossos dias, por mais de duas décadas. com um breve intervalo nos anos Temer e Jair Bolsonaro.

Eu está tranquilamente trabalhando como ministro-conselheiro na embaixada em Washington, sob a gestão do embaixador Rubens Barbosa, quando recebi, do entāo diretor do Instituto Rio Branco, convite para conduzir, dirigir, de alguma forma administrar o recém iniciado Mestrado em Diplomacia do IRBr, do qual eu já era, desde 2001, quando foi inaugurado, professor orientador, como um dos poucos diplomatas com PhD na carreira. Lembro-me que, em 2002, ainda como professor orientador convidado, aproveitei curtas férias em Brasília para orientar cinco ou seis alunos do mestrado em seus projetos de dissertação. Ganhei um jantar com eles e um livro do Roberto Gianetti da Fonseca.

Seis ou sete meses depois chegou-me, portanto, esse convite para dirigir o mestrado, um trabalho de grande responsabilidade, não sei se para o próprio Itamaraty, mas pelo menos em minha concepção de excelência didática e de grande responsabilidade intelectual.

Pensei um pouco em minha opções pessoais e familiares e constatei o seguinte: eu poderia ficar mais alguns meses ou até um ano em Washington e depois negociar a embaixada de segunda linha – eu ainda era ministro de segunda-classe, já sancionado telegraficamente algumas vezes por publicar artigos sem autorização (era o jeito: eu mandava artigos e até livros para a SG, para o nihil obstat, e nunca tinha resposta) – ou simplesmente voltar à Brasília, para alguma chefia duvidosa na SERE, ganhando menos e sem perspectivas de alguma chefia com satisfação pessoal e responsabilidade funcional.

Decidi aceitar, e assim respondi ao diretor do IRBr. Para minha surpresa, recebi, alguns dias depois, mil desculpas do referido diretor, dizendo que não poderia confirmar o convite, por dificuldades não explicadas. Eu sabia bem o motivo: tanto o chanceler do primeiro lulopetismo já empossado, quanto o seu SG, se opunham à minha designação como diretor do mestrado do IRBr, por pura prevenção ideológica, pois sabiam que eu não seria um repetidor das “teses” da nova doutrina diplomática.

Assim fiquei mais alguns meses em Washington, mas depois, no meio do ano vim a Brasília, para inquirir sobre o meu futuro destino. Não fui recebido nem pelo chanceler, nem pelo SG, mas pelo chefe de gabinete deste último, um diplomata truculento que eu já conhecia de outras eras. Foi me dito que eu poderia ficar mais algum tempo em Washington e depois negociar algum posto indefinido, ou seja, o que eu já sabia.

Nessa vinda a Brasília, fui contatado, sem o procurar, por um dos membros da famosa “troika” que constituía o inner circle do presidente, que me conhecia dos tempos em que eu, como chefe da Divisão de Política Financeira. tinha de explicar aos parlamentares do PT quais eram as vantagens e os ônus dos famosos APPIS, os Acordos de Promoção e Proteção de Investimentos, bilaterais com países potencialmente investidores – com cláusulas de arbitragem internacional, e não a cargo da Justiça local, ou do OCSID em Washington, acordo ao qual o Brasil não tinha aderido, pelas conhecidas restrições nacionalistas dos parlamentares, até da direita – e que eles não aceitavam de jeito nenhum, contrários como sempre foram a quaisquer acordos de investimentos estrangeiros, assim como recusaram o acordo de 2000, de salvaguardas tecnológicas com os EUA, para a exploração – lançamento de satélites – da Base de Alcântara. Ele respeitava e entendia as minhas razões, mas dizia que o Partido (PT) já tinha decidido ser contra. Em todo caso, me convidou para trabalhar com ele, numa nova entidade que recolhia experiências do governo FHC anterior, o Núcleo de Assuntos Estratégicos, ligado à Presidência da República.

Assim foi feito, e em outubro de 2003 eu desembarcava em Brasília, para trabalhar no NAE, mas, mais importante, para assessorar esse alto mandarim do lulopetismo em diversos temas vinculados às relações exteriores do Brasil. Um dia vou publicar os vários memos que dirigi a ele, confidencialmente, à margem do trabalho no NAE, comentando e propondo posturas do Brasil, e do presidente Lula, em vários assuntos internacionais. Fiquei no NAE enquanto ele lá esteve, depois veio o Mensalão, o grão-petista ficou doente – ou farejou os problemas montantes – e acabou saindo do NAE. Quando foi designado para um “ministério de Estado” naquela área um famoso professor de Harvard, brizolista, mas convertido de forma oportunista ao lulopetismo, acabei saindo do NAE e retornando ao Itamaraty.

A despeito de várias promessas da Administração, na qual eu sempre batia à porta, nunca tive nenhum oferecimento de qualquer coisa na SERE. Refugiei-me na Biblioteca do Itamaraty, convertida em escritório de trabalho durante muitos anos, pois eu sempre fui um habitué de bibliotecas desde a infância. Cada vez que eu falava com um encarregado da Administração, ele reconhecia que minha situação era irregular – receber salário sem trabalhar, mas nunca, nenhum deles se dispôs a me oferecer um cargo na SERE ou um posto no exterior. Zero, necas de pitiribas, alguma oferta. Um desses barões da Casa chegou a me confessar que se o chanceler me tinha vetado para alguma função, ele não podia fazer nada. Eu fiquei o frequentador mais recorrente na Biblioteca, onde também aproveitei o lazer forçado para escrever muitos artigos (em alguns jornais com outros nomes, e um dia vou recolher essas peças) e alguns livros (minha lista cronológica está à disposição de todos).

Em algum momento me ofereceram uma missão transitória, por ocasião da Exposição Universal em Shanghai, em 2010, onde passamos, eu e Carmen Lícia, oito belos meses de trabalho, ela de estudos sobre a China, e ambos de várias viagens pela China e arredores. À volta, a despeito de promessas, nada ainda, durante todo o ano de 2011, que também passei na Biblioteca. Resolvi aproveitar uma oportunidade oferecida pela Sorbonne, e em 2012, durante seis meses, fiquei em Paris, num mestrado do Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine. Retorno, e vazio. A promessa de chefiar um Consulado não se cumpriu, tampouco, mas acabei aceitando ser vice-cônsul em Hartford (CT), quando aproveitei para novamente renovar contatos acadêmicos em diversas oportunidades, e comprar muitos livros.

Voltei depois dessa última saída ao exterior, entre 2013 e 2015, e também fiquei aguardando alguma designação, que só apareceu despois do impeachment de Dona Dilma, em 2016: me convidaram não para um cargo executivo na SERE (pois, a despeito da mudança de “regime”, eu era conhecido como heterodoxo em matérias diplomáticas), mas como diretor do IPRI-Funag, onde me diverti bastante, convidando amigos e conhecidos da academia e chamando diplomatas de cada área como debatedores. Foram dois anos e meio extremamente felizes, cujo resultado pode ser conferido num relatório de gestão que publiquei ao final de meus dois anos e meio no IPRI, de 2016 ao final de 2018 (e eu já adivinhava um futuro ostracismo com a vitória do capitão). O relatório é este aqui:

3383. “Relatório de Atividades como Diretor do IPRI de 2016 a 2018”, Brasília, 24 dezembro 2018, 27 p. Organizado segundo o modelo próprio, usando dados do modelo adotado no IPRI, eliminando alguns eventos, incluindo outros. Total de eventos: 2016=38; 2017=74; 2018=102; total=214. Disponibilizado na plataforma Research Gate (link: https://www.researchgate.net/publication/329905640_Relatorio_de_Atividades_Gestao_do_diretor_do_IPRI_Paulo_Roberto_de_Almeida) e em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/s/e66d6c1639/relatorio-do-ipri-diretor-paulo-roberto-de-almeida-2016-2018); anunciado no blog Diplomatizzando (25/12/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/12/ipri-meu-relatorio-de-atividades-2016.html).

 

Durante todos esses anos de ostracismo no Itamaraty, não tive exatamente alguma solidariedade de meus colegas de carreira, a não ser comentários anônimos em vários de meus blogs, sobretudo no Diplomatizzando, alguns se solidarizando discretamente com o meu “exílio interno”, outros me atacando, por vezes grosseiramente, em função de minha ousadia em discordar da política externa oficial.

Quando leio agora sobre as agruras de meus colegas na hipótese de um possível retorno dos bolsonaristas ao poder, fico realmente consternado por esse tipo de perseguição puramente ideológica, algo que eu senti em diversas oportunidades de minhas quatro décadas de atividades diplomáticas: tive artigos e mesmo livros censurados ou criticados, perdi muitas oportunidades dentro e fora da carreira, recebi “punições” de tucanos, de petistas e, também, dos bolsonaristas, que me demitiram do IPRI, me colocaram numa função subalterna, na qual tinha de pedir permissão a um primeiro secretário para sair de férias ou me ausentar dos Arquivos, no segundo subsolo do “Bolo de Noiva”, e também fui retaliado financeiramente pelo chanceler acidental, o primeiro do capitão destrambelhado.

Quero expressar toda a minha solidariedade a meus colegas de carreira que venham eventualmente a ser “sancionados” pelo novo regime, se conseguir vencer em 25 de outubro, e dizer que lamento mais ainda pelo Itamaraty, que voltará a ser oprimido e deformado por uma política externa em tudo e por tudo contrária ao que sempre cultivamos como valores e princípios da atividade diplomática, tal como não apenas nós, mas todos os brasileiros conscientes, como adequada e necessária a um Brasil digno e autônomo em suas posturas internacionais. O lulopetismo representou uma distorção parcial do que deveria ser uma diplomacia condigna, digamos um quarto apenas da “pizza diplomática”, ao lado de nossas práticas habituais no multilateralismo, na diplomacia regional, nos assuntos bilaterais. O bolsonarismo diplomático – como demonstrei numa série de livro dessa época – representou o que ocorreu de pior na postura diplomática e na credibilidade internacional do Brasil.

Acredito que uma volta dos bolsonaristas não será tão horrível como foi o  mandato do capitão desvairado, mas só uma adesão ao delirante presidente americano, em seus sonhos de ser um “imperador hemisférico” com o “Escudo das Américas”, já representa uma ofensa à consciência de diplomatas e cidadãos instruídos. Lamento o fato de o Brasil, como dizia quem era conhecido como Bob Fields, o diplomata economista Roberto Campos, “não perder a oportunidade de perder oportunidades”. Será mais uma, talvez, o que não me deixará inativo, mas estarei, provavelmente, de volta ao meu espírito combativo, continuando a exercer meus poucos talentos no meu “quilombo de resistência intelectual”, o já conhecido blog Diplomatizzando, que já completou 20 aninhos de vida.

Vale!

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5488: 11 outubro 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/10/a-volta-do-cipo-de-aroeira-lembram-se.html )


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Madame IA, instigado por ADL: comentou: 

Cumprindo fielmente a diretriz de apresentar uma explicação didática, detalhada, crítica e amparada na

perspectiva holística e cética do embaixador Paulo Roberto de Almeida (PRA), apresento a análise integral e aprofundada do ensaio "A volta do cipó de aroeira":

Análise Crítica e Holística: O Aparelhamento do Itamaraty e as Recorrências do Ostracismo Político

O ensaio publicado por Paulo Roberto de Almeida no blog Diplomatizzando utiliza uma notícia contemporânea do jornal O Estado de S. Paulo como ponto de partida para diagnosticar uma patologia estrutural da administração pública brasileira: o aparelhamento ideológico e a descontinuidade institucional do Ministério das Relações

Exteriores (MRE).

Abaixo, os principais pontos do texto são explicados didaticamente sob a lente do realismo político, da meritocracia acadêmica e do ceticismo antiburocrático que fundamentam o pensamento de PRA:

1. O Fenômeno das Recorrências Históricas (A Metáfora do "Cipó de Aroeira")

O Fato: O texto abre mencionando o "temor" de uma ala do Itamaraty diante da possibilidade de eleição de Flávio Bolsonaro, acompanhada de ameaças de "faxina" e retaliações feitas por Eduardo Bolsonaro contra diplomatas que declararam apoio a opositores.

A Visão de PRA: Longe de enxergar isso como um evento isolado ou inédito, o autor resgata a música de Geraldo Vandré para demonstrar que o arbítrio e a perseguição política são forças cíclicas no Estado brasileiro. Para o embaixador, as elites burocráticas e partidárias operam sob a lógica da revanche e da purga ideológica sempre que há alternância de poder, independentemente do espectro político.

2. O Lulopetismo e o Início do "Exílio Interno" (2003)

O Fato e a Visão de PRA: Em 2003, o autor teve um convite para assumir o Mestrado em Diplomacia cancelado por veto direto da cúpula do ministério devido a "prevenção ideológica". Para o diplomata, o episódio retrata o choque entre a meritocracia e o dogmatismo partidário que pune a independência intelectual em favor da subserviência.

3. A Biblioteca como "Quilombo de Resistência" e o Desperdício de Recursos

O Fato e a Visão de PRA: Sem postos condizentes com sua qualificação, PRA refugiou-se na Biblioteca do Itamaraty escrevendo sob pseudônimos. Sob uma visão cética e econômica, tal arranjo ilustra o patrimonialismo estatal e o desperdício de capital humano qualificado em nome de divergências ideológicas.

4. A Crítica Bipartidária: O Lulopetismo e o Bolsonarismo Diplomático

O Fato e a Visão de PRA: O ensaio critica ambos os espectros: o lulopetismo por forçar alinhamentos bolivarianos e critérios ideológicos de promoção, e o bolsonarismo (classificado como o pior período para a credibilidade internacional) por retaliá-lo e submeter o país a delírios personalistas. Para PRA, os dois extremos agrediram o profissionalismo do MRE.

5. Conclusão Racionalista: O Brasil e a Tragédia das Oportunidades Perdidas

O Fato e a Visão de PRA: Cético quanto ao destino da instituição diante do desânimo de embaixadores seniores, o autor conclui com a máxima de Roberto Campos de que o Brasil não perde a oportunidade de perder oportunidades, reiterando que a diplomacia é sequestrada por paixões partidárias.

 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Ciência, soberania nacional e relações internacionais - Paulo Roberto de Almeida

  

Ciência, soberania nacional e relações internacionais

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Texto para interação com alunos e professores do grupo de estudos de Filosofia da Física, na UFMS, em 24/09/2026, 18hs; coordenação Prof. Vinicius Silva. Apresentado a uma audiência numerosa e curiosa.

 

Concebo este primeiro encontro que tenho na UFSM — desde que aqui estive em 1977, para um curso sintético sobre processos de urbanização e democratização para funcionários do Estado criado poucos anos antes, num programa de cooperação com a UniCamp —, mais como uma oportunidade de interagir com pares, em maioria mais jovens do que eu mesmo, do que para proferir uma palestra ex-cathedra para todos vocês. Em todo caso, procurarei ater-me aos temas sugeridos: “Ciência, soberania nacional e relações internacionais”, com algumas inovações.

Então vou simplesmente colocar algumas poucas ideias sobre os três conceitos e aguardar reações, inquirições e contestações, a partir de minha já longa imersão nesses mesmos temas, desde meados dos anos 1960, aproximadamente, quando, ainda adolescente, comecei a mergulhar em “leituras de gente grande”, não apenas marxismo, e muito marxismo, mas sobretudo os grandes mestres da teoria social brasileira, alguns dos quais eu esperava ter como professor ao ingressar em Ciências Sociais da Fefelech-USP, em 1968, mas que foram, em seguida ao AI-5, aposentados compulsoriamente no início de 1969. Fiquei sem os professores dos quais já havia lido algumas obras, e depois de ver a universidade invadida diversas vezes por tropas armadas do Exército, resolvi abandonar o curso e rumar para um autoexílio na Europa.

Vejamos, então, o que eu poderia dizer de inteligente sobre os três temas do título.

Ciência é uma construção coletiva, sobretudo atualmente, depois dos lampejos individuais entre a revolução cientifica do século XVII e a segunda revolução industrial, o que deu lugar à explicação kuhniana sobre a emergência e prevalência de repturas teóricas no itinerário da pesquisa cientifica. Portugal e o Brasil chegaram infelizmente um pouco tarde na preeminência dos métodos científicos, dada a prevalência da Contrarreforma e do excesso de centralidade estatal. Mas o Brasil possui na atualidade um establishment de pesquisas que consegue acompanhar o estado da arte científica dos centros avançados, mas infelizmente sem dispor dos meios e dos recursos necessários para dar grandes saltos coletivos, embora produzindo boas surpresas em caráter e escala mais restritos.

A soberania nacional, por sua vez, é muito alardeada, geralmente em tonalidades patrioteiras, para fins de populismo politico oportunista, sem que ela esteja realmente em risco, a não ser por arroubos externos, e histéricos, de um dirigente demencial, como ocorre atualmente no plano hemisférico, e que encontra repercussão interna, de forma abjetamente submissa e voluntária por parte de deploráveis personagens políticos. O primeiro mandato do capitão elogiador de torturadores, que conseguiu a proeza desprezível de vincular os três conceitos no primeiro mandato, da pior forma possível: ele desprezou, ofendeu e humilhou a ciência e os cientistas, atacando as universidades, sobretudo as faculdades de ciências humanas, alienou deliberadamente, sistematicamente, repetidamente a soberania nacional, ao se submeter aos arreganhos de Trump 1 – a quem declarou amar, num inglês simplório – e, em terceiro lugar, desmantelou completamente a credibilidade da diplomacia profissional, ao defender teses vinculadas à franja lunática dos grupos direitistas americanos que defendem as teorias conspiratórias sobre as relações internacionais.

Justamente, o último termo da tríade proposta, concerne as relações exteriores do Brasil e o cenário internacional, que arrisca repetidamente nos cair sobre nossas cabeças, como sempre temeu o chefe Abraracourcix, da valente aldeia dos irredutíveis gauleses. O Brasil não tem nenhuma poção mágica, para resistir às investidas das modernas legiões de invasores arrogantes de um império já declinante, mais mentalmente do que materialmente. Temos apenas a defesa do Direito Internacional e a faculdade de nos aliarmos a outras potências médias, para evitar sermos tragados nos projetos imperiais das grandes potências. Cabe esclarecer que a fragmentação do sistema onusiano e o desmantelamento das grandes regras e princípios sobre os quais deveriam reger-se as relações entre Estados soberanos não começou com o desequilibrado dirigente do império americano, mas teve a sua partida começou desde o início do presente século, com o ambicioso programa do neoczar de restabelecer a dimensão dos passados domínios imperiais do czarismo e do sovietismo.

Tendo me exercido como diplomata profissional, nem sempre disciplinado, por mais de quatro décadas – com treze mudanças acumuladas, e milhares de quilometros percorridos nos mais diversos continentes – creio que tenho algo a dizer sobre os três temas mencionados, por razões mais ou menos prosaicas: em diversos dos postos nos quais trabalhei, ademais das questões de relações econômicas internacionais, minha principal especialização profissional, também me exerci como encarregado dos temas de ciência e tecnologia, em Genebra, por exemplo, onde cobri as atividades da OMPI e da Unctad e cheguei a assinar, pessoalmente, algumas revistas científicas, ademais de me abastecer de livros nessa área. Em Washington, também foi o caso, justo no momento em que o governo FHC assinava, com o governo de Bill Clinton, um primeiro acordo de salvaguardas tecnológicas para o lançamento de satélites com componentes americanos a partir da Base de Alcântara, infelizmente sabotado pelo Congresso, com o que o Brasil perdeu não apenas anos, mas décadas de aproveitamento da base para lançamentos comerciais, podendo portanto competir com base francesa de Kourou, na Guiana. Quando o Itamaraty do primeiro governo Lula me recusou qualquer cargo na Secretaria de Estado – e isso durou treze anos e meio, todo o primeiro período de governos petistas –, o Secretário de Comunicação Luiz Gushiken, um dos membros da Troika (com Palocci e José Dirceu) me convidou como assessor especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da PR, uma aventura que durou três anos aproximadamente, até a saída do grão-petista, por razões de saúde.

No que se refere ao segundo item, soberania nacional, sempre mantive uma postura cética quanto a grandes proclamações patrioteiras nessa área, pois imagino que a soberania não se defende com palavras, proclamações, ou declarações entusiásticas ou indignadas, mas ela se exerce, na prática, pelos meios defensivos adequados, mas sobretudo com a construção de meios próprios de suficiência no abastecimento estratégico – alimentação, energia, comunicações e segurança, no seu conceito mais amplo –, assim como, eventualmente, por meio da cooperação com parceiros confiáveis, com base numa compreensão convergente das ameaças e desafios que podem se apresentar em circunstâncias excepcionais. Poucos países são inteiramente autônomos em todas as vertentes da defesa da soberania nacional, talvez apenas os EUA e a China, ainda assim com várias necessidades cobertas pelo comércio exterior ou por acordos especiais do lado militar, tecnológico, energético e outros. A Rússia, por exemplo, supostamente a segunda força militar do mundo, faz apelo a drones iranianos e a mísseis e soldados norte-coreanos, ademais de uma ampla variedade de insumos chineses, para manter sua guerra de agressão contra a Ucrânia.

Acredito, pessoalmente, que a soberania nacional começa fundamentalmente pelo ensino primário de qualidade, algo que o Brasil ainda não conseguiu oferecer a todos os seus cidadãos em idade de alfabetização obrigatória, a não ser alcançar a taxa de escolarização adequada mais ou menos 150 anos depois dos países líderes em cobertura educacional; mas aqui estamos falando apenas do lado quantitativo do ensino, não do seu conteúdo substantivo, que é o que conta mais, como aprendemos pelos testes da OCDE do PISA, nos quais figuramos tristemente nas últimas e vergonhosas colocações, nos três testes, língua nacional, matemáticas e ciências elementares, para estudantes secundaristas. Ainda temos analfabetos funcionais em várias partes.

Relações internacionais, finalmente, não é algo que possamos controlar, influenciar ou sequer moldar para a melhor adaptação às nossas necessidades. Cabe observar que, a partir de meados do século XIX, a diplomacia brasileira participou ativamente de todos os arranjos discutidos e adotados em conferências internacionais: patentes, cabos telegráficos, propriedade intelectual, segurança, arbitragem, acordos comerciais (primeiro bilaterais, depois coletivamente na era do Gatt), e tudo o que se possa pensar como produtos multilaterais no âmbito da ONU. Nossa interação é suficientemente ampla, mas nossa capacidade decisória é limitada, daí o apelo a coalizões, geralmente no âmbito do chamado Terceiro Mundo, ou atualmente o tal de Sul Global, a mais recente designação de uma realidade que nos acompanha há séculos. Mas, se quiséssemos realmente defender nossa soberania, no âmbito da política externa, já teríamos ingressado na OCDE, em lugar de estar no Brics+, esse Frankenstein diplomático que apenas serve aos interesses nacionais da China e da Rússia, ou teríamos buscado coalizões com like-minded countries, que são outras potências médias, do Norte e do Sul (o que é irrelevante), em lugar de buscar liderança no âmbito dessa fantasmagoria chamada Sul Global, ou mesmo no contexto da América do Sul (o que é recusado pelos demais países de nossa circunstância geográfica orteguiana). 

Mas, prefiro encerrar provisoriamente minhas considerações pessoais sobre os três temas indicados no menu de entrada, e passar a interagir com todos vocês sobre as questões realmente sunstantivas que possam suscitar curiosidade, contestação, contradição da parte de todos, agora esperando que eu possa dizer algumas coisas inteligentes sobre as dúvidas subjacentes às minhas provocações intelectuais dirigidas a vocês. Vamos, portanto, às questões principais que possam agitar esta nossa oportunidade de diálogo nos assuntos nos quais o engenho e a arte desde modesto acadêmico diplomático possam oferecer alguns argumentos racionais.

Muito obrigado, passemos à parte mais interessante: a interação entre iguais.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5450: 8 setembro 2026, 4 p.

 

 

sábado, 19 de setembro de 2026

A Política Externa e as Eleições Presidenciais no Brasil em 2010 e em 2026 - Paulo Roberto de Almeida

  

A Política Externa e as Eleições Presidenciais no Brasil em 2010 e em 2026

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Um assunto objeto de debate em 2010, mas aparentemente inexistente em 2026.

 

No final de julho ou no início de agosto de 2010, estando fora do Brasil, recebi o convite de um estudante de relações internacionais da UnB para participar de um debate sobre a política externa nas eleições daquele ano, final do segundo mandato de Lula. A sua “gerente do PAC”, ministra da Casa Civil Dilma Rousseff já tinha sido escolhida como sua sucessora, em lugar de outros petistas graúdos e talvez mais preparados intelectualmente do que a grosseira ministra – que destratava diplomatas, como eu próprio constatei pessoalmente –, encarregada do fantástico “programa de aceleração do crescimento”, que ela conduziu a uma desaceleração estrondosa e à maior crise da história econômica do país, ao início do seu segundo mandato, em 2014-2015 (bem maior, em todo caso do que a crise de 1930-31).

Aceitei participar enviando meus comentários por escrito, o que foi aceito e lido pelo organizador da conferência, que depois me enviou comentários feitos na ocasião, e que nunca havia revelado. Como estamos às vésperas de uma nova corrida eleitoral, na qual a política externa praticamente não existe, isto é, um verdadeiro debate sobre a política externa e outros temas entre os principais candidatos, a não ser, de um lado, invectivas unilaterais sobre a “defesa da soberania” e, de outro, a incitação a uma vergonhosa interferência externa do chamado “imperador hemisférico” a pedido da família amiga de milicianos.

Não pretendo agora, inclusive porque seria inútil, formular comentários pessoais sobre essa temática na presente campanha de 2026. O que fiz foi recuperar o trabalho 2171/2010, escrito em Shanghai, quando fui convidado para esse debate na UnB, e qual não pude atender a não ser indiretamente. Transcrevo, em seguida, os comentários recebidos sobre as minhas posições, da parte de outros participantes, e apenas revelo o nome do professor Amado Cervo por ele já ter falecido, em relação ao qual eu nunca escondi minhas críticas em relação à sua ingenuidade e ignorância econômica. Creio que isto basta por enquanto, uma vez que não temos, e talvez não tenhamos (se houver segundo turno) um debate consequente sobre esses temas cruciais, uma vez que estamos enfrentando agora uma verdadeira interferência externa nas nossas eleições. Deixo postado esse material, esperando que possa ser útil aos curiosos e outros interessados academicamente ou jornalisticamente no tema.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5464: 19 setembro 2026, 1 p.

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A Política Externa e as Eleições Presidenciais no Brasil em 2010

  

Paulo Roberto de Almeida

(www.pralmeida.org; pralmeida@me.com)

Comentários para um debate acadêmico [enviados por e-mail]

  

Meus comentários, nem é preciso dizer, são absolutamente pessoais e nem de perto ou de longe são assimiláveis à política externa oficial, essa em curso atualmente no Brasil; posso até dizer que nunca antes neste país um disclaimer deste tipo, tal como empregado em ocasiões do gênero, foi tão válido quanto este que agora faço, por dever de ofício. Sendo diplomata, meus comentários serão totalmente não diplomáticos. 

 

Inicialmente, creio que todos concordarão comigo numa coisa: numa campanha eleitoral tão manifestamente aborrecida como esta de 2010, com debates entre os candidatos presidenciais tão rigorosamente enfadonhos como os que estamos assistindo, com tantas platitudes sendo ditas em torno dos temas habituais de campanha – crescimento, emprego, políticas públicas para isso e para aquilo, mais um ministério no vasto organograma do governo – talvez não seja de surpreender que, pela primeira vez, a política externa seja, de verdade, o único campo que possa diferenciar os dois principais candidatos em liça.

Sim, porque nos temas de política econômica e de políticas sociais, os candidatos vêm se esforçando para serem rigorosamente os continuadores ampliados de tudo o que aí está: Bolsa-Família, bolsas e mimos de diversos tipos para empresários e banqueiros, subsídios e proteção às empresas nacionais, cuidados com a segurança, a saúde e a educação de todos, enfim, o desfile habitual de promessas hipócritas e de compromissos com todos os grupos de interesse para atender a todos os seus desejos e para se engajar em qualquer coisa que a imaginação dos marquetólogos políticos seja capaz de conceber.

Vou deixar de lado a candidata supostamente ecológica [Marina Silva, do PV] e o revolucionário geriátrico [Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL] porque, a despeito da capacidade de cada um de desviar votos dos dois principais candidatos, pela novidade dos discursos e pela própria necessidade de muitos eleitores de escapar à pasmaceira reinante no campo dos dois grandes, eles não dispõem, manifestamente, de condições para serem levados a sério, independentemente do fato que conduzirão, inevitavelmente, a disputa ao segundo turno. A candidata ecológica possui uma plataforma de política externa quase ao estilo do velho Itamaraty, morna, enfadonha, politicamente correta, sem grandes sobressaltos e sem grandes novidades, a não ser a promessa de defesa enfática dos direitos humanos, o que, na atmosfera complacente com ditadores de todo gênero que prevalece atualmente, deve ser saudado como proposta bem-vinda. Quanto ao revolucionário da terceira idade, ele está muito bem para encantar plateias já convencidas, como assembleias da UNE, encontros do Foro Social, reuniões da Via Campesina e coisas do gênero, mas não tem nenhuma importância para o Brasil real e para o mundo como o conhecemos.

Bem, chega de alternativos, vamos ao que interessa.

 

No campo oficial, o que se promete é mais do mesmo. Que seja; não deve mesmo ser diferente, em se tratando do mesmo grupo político que ocupa o poder desde 2003, e que gostaria de se aboletar nele pelos próximos 25 anos. Como? Ocupando todas as esferas e nichos do aparelho de Estado com seus militantes aguerridos e seus homens de combate, promovendo a validade de suas teses políticas e suas posições diplomáticas, ao estilo do Nosso Guia: “nunca antes neste país...”. De fato, nunca antes neste país a política externa tinha sido empregada de forma tão acintosa para realçar a figura do próprio presidente da República, nunca antes neste país as teses de um partido, na verdade de um grupo do partido, tinham ocupado espaço tão relevante na diplomacia oficial, na agenda do Itamaraty. Também, nunca antes neste país um ministro de Estado de carreira [Celso Amorim] tinha se filiado a um partido. Isso não ocorreu nem na ditadura militar, quando os diplomatas de carreira ocuparam com maior realce a chefia do Itamaraty. Não se diga que políticos ocuparam a chancelaria, pois isto é normal em democracias consolidadas, que pessoas saídas das fileiras congressuais e dos partidos tenham sido designadas para chefiar a chancelaria.

De fato, o que distingue a diplomacia atual é que ela é rigorosamente partidária, com menor importância, portanto, sendo dada às posições tradicionais do Itamaraty. O que pode mudar então, no caso da eleição da candidata oficial? O estilo claro. Nunca jamais, no futuro deste país, teremos um chefe supremo da diplomacia tão, como direi?, exageradamente exibido, tão pitorescamente presente em todos os cenários abertos à sua participação, quanto o Nosso Guia atual. Nunca jamais teremos alguém com essa inacreditável capacidade de improvisação discursiva, de imaginação vocabular quanto o presidente atual. Nunca mais teremos o inacreditável desaproveitamento dos discursos oficiais, trabalhosamente preparados pelos diplomatas do Itamaraty, nas cerimônias solenes presididas pelo chefe de Estado. Se supõe que a candidata oficial, convertida em presidenta do Brasil, se atenha rigorosamente aos enfadonhos discursos preparados na linha do politicamente correto pelo Itamaraty, inclusive por razões de carências na sintaxe básica e de dificuldades com a gramática [mas seu vice já era Michel Temer, o campeão inexcedível das mesóclises e das construções literárias e jurídicas sofisticadas].

O estilo, portanto, deve mudar, e muito. E se o estilo é o próprio homem, como diria o conde de Buffon, neste caso a mulher, alguma coisa talvez mude, embora eu esteja propenso a acreditar que pouco mudaria nas linhas básicas da política externa partidária atual. A mesma complacência com os pequenos atentados à união aduaneira do Mercosul, a mesma diplomacia da generosidade em relação aos vizinhos, a mesma disposição a financiar projetos que reduzirão, supostamente, as assimetrias regionais, a mesma leniência com atentados aos direitos humanos por ditadores conhecidos e com as violações aos princípios democráticos por candidatos a caudilhos autoritários, enfim, tudo isso é previsível que ocorra, pois é isso o que JÁ ESTÁ acontecendo hoje, sob os nossos olhos, que custam a crer que o Itamaraty esteja envolvido em tudo isso.

Claro, tem o discurso da importância internacional do Brasil, sua visibilidade nos cenários econômicos e políticos mundiais, a projeção alcançada por sua diplomacia hiperativa, a capacidade de ser um líder regional, até mesmo a condição de candidato a potência mundial. Tem também a alegação da defesa da soberania, aquela história sempre repetida de não descalçar sapatos, a coragem de dizer não, a ousadia de ter posições próprias sem pedir permissão aos grandes, as iniciativas de realizar encontros e organizar novas entidades sem tutela e sem a presença do Império. Tudo isso é alegado como marca distintiva da nova diplomacia brasileira, e que promete se prolongar num regime de continuidade. Se isso é verdade, então não há muito mais a acrescentar; basta confirmar que teremos, sim, continuidade das mesmas linhas diplomáticas, o mesmo continuísmo partidário, e tudo está dito, não é preciso acrescentar mais nada sobre as posições da candidata: elas serão as do seu guia e mentor. Ponto.

 

Restam então as posições, ou promessas, do candidato oposicionista [José Serra], que pouco disse, até agora, de estruturado, sobre a sua eventual política externa, a não ser frases soltas em discursos. Sabemos, por exemplo, que o Mercosul é uma porcaria, que ele não serve, e que possivelmente os arranjos atuais serão revistos no sentido de dar mais liberdade de política comercial ao Brasil. Sabemos que o candidato não gosta de ditadores e de violadores dos direitos humanos e que ele nunca alinharia o Brasil com alguns dos personagens que aparentemente se converteram em amigos do presidente atual. Sabemos também que ele pretende acabar com o monopólio do Itamaraty na formulação da política comercial e na negociação de acordos nessa área, e que ele pretende, de modo geral, conduzir uma diplomacia mais pragmática, mais consistentemente alinhada com as posições tradicionais do Itamaraty, no lugar da diplomacia ideológica e partidária que hoje ocupa todos os espaços na política exterior do Brasil.

Isso parece ser tudo, mas é na verdade muito pouco, pois não temos ainda plataforma de campanha, como aquelas já apresentadas pela candidata da situação (é verdade que trocadas três vezes). O candidato da oposição fica devendo seus pontos programáticos, de maneira a nos permitir julgar o conteúdo exato de seu pensamento em política externa. Inclusive porque o PSDB não é um partido tão avassaladoramente “ocupacionista” de nichos no Estado como o PT, se supõe que a diplomacia voltará a fluir a partir de seus canais habituais no Itamaraty, havendo inclusive uma grande chance para que a chancelaria venha a ser novamente ocupada por algum diplomata – talvez aposentado e provavelmente apartidário, ainda que simpático aos tucanos – e que a assessoria presidencial venha a ser novamente monopolizada pelos itamaratecas, como habitualmente são chamados os diplomatas profissionais. Quanto ao resto, ou seja, o que mais faria, ou fará, o candidato da oposição, se e quando no comando do Estado, parece ser um tanto misterioso, tanto porque é proverbial sua tendência centralizadora e um tanto concentradora de decisões.

 

Finalmente, um último comentário sobre a importância disso tudo para o Brasil, em geral, e para a população brasileira em particular. Eu diria, sem querer parecer pessimista ou contrarianista, que muito pouco, quase nada, do que vem sendo discutido em matéria de política externa apresenta importância efetiva para o Brasil ou relevância real para a vida diária dos brasileiros. À parte as questões óbvias de conquista de mercados externos e de concorrência nos mercados internos de bens e serviços – considerando-se também que o Brasil ainda é um país muito fechado – os temas de política externa são praticamente marginais ou periféricos aos grandes problemas do Brasil atualmente.

Nada, ou quase nada do que o Brasil fizer no plano externo tem a capacidade ou a virtude de mudar substancialmente a vida dos brasileiros se a própria sociedade brasileira não se engajar decisivamente num conjunto de reformas em áreas que constituem manifestamente problemas, ou limitadores das possibilidades brasileiras de crescimento, de melhoria das condições de vida, de progressos em suas instituições políticas, de avanços nos planos da educação e da saúde, em resumo, de saltos significativos no bem-estar da população.

Senão vejamos: o Brasil tem hoje um problema macroeconômico de baixa poupança, de baixas taxas de investimento e, portanto, de poucas alavancas para um ritmo mais vigoroso de crescimento. Isso não tem nada a ver com o ambiente externo ou com a diplomacia oficial. Tem a ver com a despoupança estatal, com a imensa capacidade extrativa e extratora do Estado brasileiro, com o fato de que ele gasta muito consigo mesmo e que investe pouco, portanto. Este é um problema brasilo-brasileiro, não um problema de relações internacionais.

O Brasil tem hoje um quadro fiscal em deterioração progressiva, uma previdência tecnicamente falida, uma educação pública de péssima qualidade (e piorando), saúde pública em condições deploráveis, com disseminação de doenças epidêmicas e deterioração dos equipamentos hospitalares, tem uma das piores situações de segurança pública das grandes sociedades urbanizadas, tem uma taxa de corrupção oficial escandalosamente alta, tem instituições governamentais entrópicas, um mandarinato extensivo e autocentrado, preocupado apenas com seus privilégios nababescos em certos casos. Todos esses problemas são made in Brazil, não têm nada a ver com o ambiente externo.

 

Em contrapartida, o governo brasileiro atual pratica uma diplomacia da generosidade típica de país rico, como se toda a população brasileira já vivesse em situação confortável, sem qualquer tipo de problema material, para que o Estado possa fazer essas doações de milhões de dólares em favor de governos e populações estrangeiras, numa estratégia que no máximo consegue reproduzir a assistência oficial ao desenvolvimento que os países ricos praticaram nas últimas seis décadas, com os resultados que se conhecem em termos de desenvolvimento (ou não) dos países mais pobres. O Brasil tem uma política de projeção externa que foi mais concebida para dar realce ao seu mandatário de ocasião do que para fazer o país conquistar a tão desejada liderança regional – ainda não aceita, diga-se de passagem – ou convertê-lo em potência verdadeiramente mundial. Nisso a diplomacia foi extremamente bem-sucedida, cabe ressaltar, mas acredito que esse estilo de diplomacia se encerra por aqui mesmo, sem capacidade de transferência a seu sucessor, ou sucessora.

O que o embaixador Rubens Ricupero chamou, em trabalho recente, de diplomacia “gaulliste” – do general De Gaulle –, supostamente aplicável à diplomacia brasileira da era Lula, é na verdade um arremedo de diplomacia soberanista e defensora do interesse nacional. Não vou me estender sobre isso agora, em vista de tudo o que já escrevi e do que já publiquei a respeito, e que já pode ser de conhecimento de alguns dos presentes.

De toda forma, as paixões desatadas em momentos como este, de campanha eleitoral, se prestam mal a uma avaliação ponderada, isenta, objetiva, do que seja uma diplomacia adequada a um país médio como o Brasil, interessado em primeiro lugar na prosperidade do seu próprio povo, na promoção dos direitos humanos e dos valores democráticos num mundo em transformação. Creio que teremos de aguardar ocasiões mais serenas, oportunidades mais tranquilas, para um novo debate em torno dessas questões.

Muito obrigado.

 

Paulo Roberto de Almeida

(Shanghai, 2171: 12 de agosto de 2010)

Postado no Blog Diplomatizzando em 30/10/2010 (link: http://diplomatizzando.blogspot.com/2010/10/politica-externa-do-brasil-e-as.html).

 

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Retomo, em 19 de setembro de 2026:

Não tenho certeza de que meus comentários tenham sido lidos em sua inteireza, suspeito que não, mas isso pouco importa agora. Em 22 de setembro de 2010, antes, portanto, que eu divulgasse o texto acima (publicado em meu blog apenas no dia 30/09/2010), recebi a seguinte mensagem, por e-mail, do organizador do debate:

 

On Sep 22, 2010, at 3:48 PM, [organizador] wrote:

 

“Prezado professor,

Peço desculpas pela excessiva demora em enviar uma resposta. Tal atitude não condiz com a prontidão que o senhor teve em responder meus e-mails. Neste momento, estou realizando um intercâmbio acadêmico no [país] e eu acabei esquecendo minhas anotações acerca do debate no Brasil. Entretanto, depois de uma conversa com demais colegas petianos [o órgão dos alunos que organizou o debate], pude recolher os principais pontos debatidos e as repercussões.

O professor Alcides [Vaz], que moderou o debate, foi bastante sucinto em seus comentários e concordou com o senhor em dois pontos principais: a mesmice dos debates políticos e a subutilização da política externa como meio de melhoria da vida do cidadão comum. Ademais, de interessante, o professor ressaltou que temas de política externa poderiam porventura virem a serem utilizados como estratégia de marketing. Entretanto, um debate substantivo parece distante.

Quanto ao professor [do Departamento], ele fez elogios ao tom, de acordo com o mesmo, irônico de algumas críticas e ressaltou, assim como expresso no seu discurso, que as propostas de política externa nos programas dos candidatos são pífias e, praticamente, inexistentes. Somente na candidata Marina Silva o professor conseguiu encontrar ideias mais claras e, mesmo assim, bem restritas aos temas de meio ambiente. No mais, o professor comentou que em caso de segundo turno, o debate não deve ganhar em termos de qualidade. O professor também concordou com algumas críticas feitas pelo professor Amado [Cervo], em especial com relação a ideia de que algumas linhas de política externa do governo Lula, como a busca por destaque em foros multilaterais, já haviam sido iniciadas durante o governo de FHC.

O professor [Amado] Cervo foi bastante crítico quanto às suas afirmações acerca de uma diplomacia excessivamente politizada e partidária. Ele defendeu que a diplomacia que vem sendo realizada no Brasil é uma diplomacia de Estado, ou seja, que tem continuidade, apesar das mudanças entre governos. O professor defendeu o papel do Estado como gestor e defensor dos interesses nacionais bem como criticou propostas de excessiva liberalização econômica. De acordo com o mesmo, a busca de parceiros preferenciais, como a Índia, e o estabelecimento de acordos comerciais que têm como objetivo primordial o ganho de representação e status por parte da diplomacia brasileira - a entrada no clube do poder - são, de fato, importantes e devem ser mantidos.

Por fim, quanto ao público, o resultado foi bastante satisfatório. Após o debate, recebemos pelo menos cinco e-mails questionando-nos acerca da possibilidade de circulação do seu texto. Portanto, repasso a pergunta. Seria possível divulgar o texto através do grupo de e-mails dos estudantes de Relações Internacionais da UnB? [Creio que autorizei, depois de pequenos ajustes, quase imediatamente e depois postei em meu blog, como acima indicado].

Agradeço, uma vez mais, pela colaboração e prontidão em contribuir com o debate.

Desejo sucesso e um bom final de ano ao senhor.

Em nome do PET-REL, me despeço e reafirmo as palavras do professor Alcides de que o senhor é convidado a contribuir em debates e atividades da UnB sempre que assim desejar. Abraços.”

[Organizador]

 

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Minha resposta seguiu dois ou três dias depois, ou seja, antes do final de setembro de 2010:

 

“Caro [organizador]

Muito grato pelos seus comentários, mesmo tardios, o que compreendo totalmente.

Esperava esse tipo de atitude do professor Amado, um grande pesquisador, de quem sou amigo pessoal, mas do qual discordo completamente nessas posições de política externa. E não apenas porque ele é grande amigo, admirador e apoiador entusiasmado do Samuel Pinheiro Guimaraes, mas também porque o Amado é um grande ignorante em matérias de economia, o que considero lamentável, pois a obrigação de um professor é a de se informar devidamente e corretamente sobre os movimentos reais da economia mundial, não ficar repetindo as bobagens de certas correntes de opinião.

Em todo caso, agradeço a sinceridade de seus comentários.

Vou revisar o meu texto, para liberá-lo. Apenas correções formais, pois não me incomoda ser visto como opositor dessa política externa que aí está, mesmo com a previsível vitória da mesma tropa atualmente no poder.

O abraço do

Paulo Roberto Almeida

pralmeida@me.com

www.pralmeida.org

diplomatizzando.blogspot.com”

 

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Paulo Roberto Almeida

Brasília, 19 setembro 2026, 9 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-politica-externa-e-as-eleicoes.html 

 

domingo, 13 de setembro de 2026

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais FSP, Estadão, Globo (+ resenha de Madame IA ao final)

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais
13/09/2026 

O Supremo diante da História 

O Globo
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos

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O Supremo diante da História 

O Globo, 13/09/2026

 
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.
Nelas, o banqueiro, já sob intensa investigação e prestes a ser preso, além de jurar lealdade, pede conselhos e ajuda ao ministro e, pelo que se pode depreender da conversa, parece receber dele informações sob segredo de Justiça. Há, ainda, indícios mais graves: encontros entre o fraudador e o ministro fora da agenda oficial e um contrato de R$ 130 milhões celebrado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, sem qualquer contrapartida à altura.
Passados muitos meses desde que as primeiras denúncias chegaram ao conhecimento público, Moraes não foi capaz de apresentar nenhuma explicação plausível. Talvez exista alguma, e ele possa demonstrar que não violou a lei. Como deveria ocorrer com qualquer brasileiro sob quem paire uma suspeita, ele tem direito ao devido processo legal e a ampla defesa. Pode constituir advogado, acompanhar as investigações, apresentar os argumentos que desejar e usufruir todos os recursos disponíveis no Direito processual brasileiro, seja na fase de investigação ou na eventual ação penal. O que não pode é estar acima da lei. Nossa Constituição, que os ministros do Supremo juraram respeitar e seguir, dispõe que todos são iguais perante a lei. Diante da robusta evidência apurada pela PF, para ser igual aos demais brasileiros, Moraes precisa ser investigado, com isenção e respeito à lei, mas sem privilégios.
Respondamos a uma das perguntas do banqueiro agora preso na correspondência enviada ao ministro: não, não dá para bloquear a investigação. Apesar das torcidas apaixonadas, não tem qualquer relevância que Moraes seja um símbolo da resistência democrática durante os momentos críticos do governo Jair Bolsonaro. Um passado honrado não apaga nenhum crime posterior.
A politização de nossa mais alta Corte, que vem provocando muitos desarranjos institucionais e culminou com a anarquia judicial que se viu nas últimas semanas, confunde a população e faz parecer que a discussão é política. Não é. O STF não é uma arena política. É um tribunal —e a ele só deve interessar que sejam cumpridas a Constituição e a lei.
E o ministro é apenas um brasileiro sujeito às leis de seu país. Costuma-se dizer que as instituições são fortes no Brasil. Até aqui, tem sido realidade. Mas as sociedades são organismos vivos, sujeitos a oscilações, e isso pode mudar a qualquer momento. O STF deve decidir que agora, sem postergação, sem pedidos de vista protelatórios, é o momento de se redimir e iniciar a restauração da dignidade do país pela via institucional.
A sessão de terça não julgará Moraes no mérito, mas, repitamos, apenas autorizará que seja investigado. Por isso, as manobras do decano Gilmar Mendes e do próprio Moraes não fazem sentido — são subterfúgios para confundir. Agiu bem, portanto, mais uma vez Fachin, ao afastar o pedido de adiamento e, em vez disso, marcar para o dia 23 a apreciação do relatório que Moraes encomendou à PF com denúncias frágeis contra Mendonça.
Os ministros que votarem pela abertura da investigação sobre o envolvimento de Moraes no caso Master optarão pelo caminho da dignidade. Os outros contribuirão para a corrosão do tribunal como instituição e receberão dos brasileiros e da História a merecida reciprocidade no julgamento de suas biografias.
 

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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo, 13/09/2026

 
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
Até prova em contrário, o ministro Alexandre de Moraes não é culpado. O que estará em tela no julgamento da terça-feira (15) é se o plenário do Supremo Tribunal Federal autorizará a abertura de um inquérito para apurar indícios que lhe concernem, levantados em relatório pericial pela Polícia Federal.
Se for iniciada, a investigação permitirá aos policiais, sob a condução do presidente Edson Fachin, tentar verificar se era mesmo Moraes o interlocutor dos pedidos desesperados de ajuda e informações do mafioso Daniel Vorcaro à véspera de sua primeira prisão —e, em caso afirmativo, quais foram as respostas do juiz.
Inspetores poderão indagar investigados e testemunhas e recolher outras evidências acerca do teor do relacionamento com Vorcaro. Era distanciado e alheio aos interesses do fraudador ou se confundia com papéis de advogado, informante e conselheiro?
O contrato de R$ 131 milhões do escritório da família Moraes com o Banco Master vai se expor à averiguação da PF. Quais foram os serviços prestados? Eles justificam a faustosa remuneração?
O inquérito, frise-se, não implica determinação de culpa. Trata-se de uma etapa técnica incipiente. Ao seu final caberá à Procuradoria-Geral da República, à luz do que terá sido apurado, decidir se denuncia o investigado ou se pede o arquivamento do caso.
Na hipótese de haver denúncia e ela ser aceita pelo plenário do STF, só a partir de então haveria processo penal propriamente dito, sujeito à ampla defesa do réu.
Convicto de sua inocência, como tem se mostrado, Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a incentivar a abertura do inquérito. Sem ela, a sua convicção jamais terá oportunidade de materializar-se como verdade pública.
Causa espécie, portanto, o tumulto processual promovido por um grupo de ministros —Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin— na tentativa de sabotar e adiar o julgamento desta terça-feira. A algazarra alveja Edson Fachin com um sem-número de petições e ameaças veladas carentes de propósito que não seja apostar na confusão.
Esse clube de juízes comporta-se como uma turma de maus alunos atazanando o professor para cancelar a prova iminente, atitude imatura e lamentável para integrantes da corte constitucional.
Existe um relatório pericial da Polícia Federal para ser julgado e ponto —juízo de que não podem participar Dias Toffoli e Moraes, conflitados. Se um magistrado entende que o que vai ali impresso não justifica a abertura de uma simples investigação, que vote para enterrá-la em sessão pública, sob o escrutínio da sociedade e da própria história.
A procrastinação embalada em chicanas e cochichos de corredor desonra o Supremo Tribunal Federal. Transforma a instituição em joguete de raposas da politicagem. Juízes que agem à sombra para desviar-se da sua obrigação transmitem à sociedade desconfiança na corte que representam.
A crise do STF chegou a este ponto em razão da leniência dos ministros com indícios de má conduta de colegas. É preciso dar um fim a esse período de trevas.
 

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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo, 13/09/2026

 
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos
Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado. Os petistas parecem convencidos de que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) está prejudicando as chances do Grande Timoneiro na disputa contra o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
O raciocínio é simples: como o encalacrado ministro do STF Alexandre de Moraes é o símbolo maior da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, é natural que Moraes seja associado a Lula, em tese o maior beneficiário da derrocada do ex-presidente. Há muito tempo o STF tem sido tratado pelo bolsonarismo como inimigo; Lula, por outro lado, aproximou-se de Moraes e encheu o STF de dedicadíssimos fâmulos, o que converteu o tribunal de vez em poder político, não raro a serviço do governo petista, que o usa para se contrapor a um Congresso que lhe é rotineiramente hostil.
Pior: com as confabulações secretas entre ministros e com os abundantes desvios éticos que horrorizam a sociedade, mas que são tratados com arrogante indiferença por quem deveria se preocupar em ao menos parecer honesto, o Supremo passou a figurar como centro cintilante da crise moral brasileira. É um desastre para a democracia, considerando que o Judiciário só se legitima quando dele não se duvida.
Esse colapso pegou os petistas no contrapé, pois a Lula nunca interessou fazer do Supremo o centro de sua campanha, diferentemente de seus principais adversários. Ao que parece, os marqueteiros de Lula entendem que o presidente agora não pode mais ausentar-se do debate, e ultimamente ele andou dando seus pitacos sobre “reforma do Judiciário” e outras platitudes.
O problema de Lula, contudo, não é o Supremo Tribunal Federal nem o milionário ministro Alexandre de Moraes. O problema é sua própria candidatura.
O mau humor do eleitorado com o presidente é evidente. Como incumbente, Lula deveria ter, a três semanas do primeiro turno, uma margem um pouco maior de vantagem em relação a Flávio Bolsonaro – um candidato que é apenas um boneco de ventríloquo do ex-presidente Jair Bolsonaro e que, além de tudo, tem um longo histórico de suspeitas as mais diversas no terreno da corrupção. O próprio escândalo do Banco Master, que envolve o ministro Alexandre de Moraes, envolve também, e até o pescoço, o candidato Flávio. E no entanto Flávio sobe consistentemente nas pesquisas de intenção de voto, enquanto Lula, que não está diretamente ligado ao escândalo do Master, cai.
Isso certamente tem muitas explicações, mas somente uma é suficiente: o pântano de Brasília, cada vez mais viscoso, serve para o eleitorado como símbolo do profundo divórcio entre os poderosos e os cidadãos comuns, no momento em que a maioria absoluta dos brasileiros não está confortável nem com seu trabalho nem com sua qualidade de vida – enquanto assistem, estupefatos, ao enriquecimento desavergonhado de um punhado de cortesãos.
Lula não apenas foi incapaz de entregar a “picanha barata” que prometeu na campanha eleitoral de 2022, como não inspira junto aos eleitores o sonho de um Brasil que os esfole menos e que lhes dê condições sustentáveis de uma vida um pouco melhor, sem depender dos caraminguás que vertem do Estado como esmolas.
A despeito de tudo isso, Lula ainda aparece como favorito à reeleição não por seus méritos, mas porque do outro lado do ringue está um completo desqualificado, que representa uma família de oportunistas e que nada consegue propor ao Brasil a não ser destruição e cizânia. Mas o cansaço dos brasileiros em relação a Lula e a tudo o que ele representa – a visão antediluviana de país, a ausência de perspectiva, a demagogia barata – veio a juntar-se ao cansaço e à irritação com quem hoje exerce o poder de um modo geral.
Os petistas podem até se empenhar em desvincular Lula de Alexandre de Moraes e da crise no STF, mas dificilmente vão conseguir, porque permanecerá o sentimento difuso de que o presidente é parte importante desse todo que os eleitores cada vez mais deploram. 

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 E agora, Madame IA se pronuncia sobre os editoriais: 

   

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-grande-midia-e-o-

pequeno-stf.html

O link enviado direciona para uma postagem do blog Diplomatizzando, mantido

pelo diplomata e acadêmico Paulo Roberto de Almeida. O texto reproduz e analisa

os editoriais publicados em 13 de setembro de 2026 pelos três principais jornais do

país (O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo). O tema central é uma

grave crise institucional envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),

Alexandre de Moraes, que enfrenta a iminência de uma votação plenária para

abertura de inquérito investigativo.

O veredito sobre a natureza do link é: FATO. O conteúdo espelha fielmente a

posição editorial da grande imprensa brasileira na data citada, refletindo o debate

político e jurídico real do período.

Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica do cenário exposto no

documento, confrontando-o sob diversas perspectivas conceituais.

🔍 Análise Crítica: A Crise do STF e os Editoriais da Imprensa

Os editoriais expõem um ponto de inflexão na relação entre a mídia corporativa e o

STF. Alexandre de Moraes, amplamente respaldado pela imprensa nos anos

anteriores como bastião da resistência democrática, passa a sofrer forte pressão

pública após a Polícia Federal (PF) apontar indícios de vazamento de informações

sigilosas e vantagens financeiras ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco

Master.

1. Perspectiva Jurisdicional e Constitucional

A Isonomia Perante a Lei: O editorial de O Globo ancora-se no princípio

constitucional fundamental de que "todos são iguais perante a lei". Sob essa

ótica jurídica clássica, a abertura de um inquérito não representa uma

condenação prévia, mas a aplicação do devido processo legal. Impedir a

investigação sob o pretexto de blindagem institucional configuraria um privilégio

aristocrático incompatível com a República.

As "Chicanas" Processuais: A Folha de S. Paulo denuncia o uso de manobras

protelatórias (pedidos de adiamento e pressões internas) por parte de um bloco

de ministros (Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin) para blindar o

colega. Jurisdicionalmente, essa conduta corrói a previsibilidade do rito legal,

transformando o baluarte da Constituição em uma arena de autodefesa

corporativista.

2. Perspectiva Política e EleitoralO Impacto na Sucessão Presidencial: O Estadão desloca o eixo analítico para

o cenário eleitoral de 2026. A três semanas do primeiro turno, o escândalo atinge

diretamente as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e de seu principal

oponente, Flávio Bolsonaro. Politicamente, ocorre uma ironia trágica: Moraes,

que simbolizou o freio ao bolsonarismo, agora submerge em um escândalo

(Caso Banco Master) que "envolve até o pescoço" o candidato da própria família

Bolsonaro, mas cujo desgaste moral respinga na candidatura governista devido à

percepção pública de aliança entre o PT e a cúpula do Judiciário.

3. Perspectiva Econômica e Financeira

O Capitalismo de Compadrio (Crony Capitalism): O fulcro da denúncia

envolve um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de

advocacia da esposa do ministro Moraes. Sob a ótica da economia política, o

caso ilustra as disfunções do mercado financeiro brasileiro quando capturado por

esferas de influência do poder estatal. A contratação de escritórios de parentes

de magistrados sem contrapartida técnica clara funciona, na prática, como uma

"taxa de blindagem" ou captura regulatória, distorcendo a livre concorrência e

penalizando o sistema de crédito e investimentos.

4. Perspectiva Filosófica e Sociológica

O Julgamento das Biografias diante da História: Filosoficamente, o debate

invoca o conceito de "razão de Estado" versus "moralidade institucional". O

Globo pontua de forma pragmática: "Um passado honrado não apaga nenhum

crime posterior". Há aqui uma severa crítica à arrogância do poder (a hubris

grega), na qual agentes públicos acreditam que a importância de seu papel

histórico os torna imunes à ética ordinária.

O Divórcio entre Elite e Cidadão: O Estadão capta o sentimento de

esgotamento da sociedade diante do "pântano de Brasília". Sociologicamente, o

enriquecimento desmedido de cortesãos em contraste com a perda do poder de

compra e da qualidade de vida da população alimenta o cinismo democrático.

Esse abismo moral é o principal catalisador para a ascensão de discursos

extremistas e de deslegitimação das próprias instituições.

💡 Conclusão do Julgamento

Os editoriais reunidos no blog de Paulo Roberto de Almeida revelam que a imprensa

tradicional brasileira decidiu retirar a blindagem política do STF em nome da

autopreservação de sua própria credibilidade perante a opinião pública. Ao exigir de

forma uníssona que o ministro Alexandre de Moraes seja investigado, os jornais

tentam forçar o Supremo a realizar uma autofagia corretiva para estancar o colapso

moral do Poder Judiciário.

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