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terça-feira, 12 de maio de 2026

Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio

 Brasil e México. Amigos Distantes

busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010

 

    Sérgio Abreu e Lima Florencio


Brasil e México têm muitas semelhanças e muitas diferenças. Somos as duas maiores economias da América Latina, as mais industrializadas e as maiores populações. 

Mas o Brasil está entre as economias mais fechadas do mundo, com pouquíssimos Acordos de Livre Comércio, é maior exportador de alimentos do mundo, um dos maiores produtores de petróleo, tem muita dependência do comércio com a Chinauma economia protecionista, e elevada carga tributáriae relação dívida pública/PIB ascendente e próxima de 80%  .

O México é uma economia muito aberta e competitivaexportadora de manufaturas, tem uma vasta rede de Acordos de Livre Comércio, muito dependente dos EUA e baixa carga tributária.

A partir de 2008, os dois países se afirmavam como duas grandes economias emergentes. Isso recomendava a negociação de um Acordo de Livre Comércioentre os dois países. Pelas regras do Mercosul, por ser o México membro da ALADI, o Brasil podia firmar, individualmente, ALC com o México, sem ferir a Tarifa Externa Comum (TEC).

Como Embaixador no México de outubro de 2008 a fevereiro de 2010, procurei construir esse acordo. As resistência eram fortes, mas baseadas em clichês simplistas: o México só pensava no Nafta, e o Brasil só se interessava pelo Mercosul.

O governo brasileiro via de forma positiva um Acordo, como forma de ampliar e aprofundar o ACE 53, em vigor, e que incluía apenas 800 produtos. A CNI, a FIESP apoiavam o Acordo, e, no governo, o Itamaraty e o MDIC também eram favoráveis. Do lado mexicano, havia forte apoio do governo (a Chancelaria,inclusive o Presidente Felipe Calderón), mas era grande a resistência das entidades empresariais, sobretudo do setor agrícola. Encontros entre Lula e Calderon impulsionaram o Acordo. As negociações técnicas avançaram e foram definidos os Termos de Referência para o Acordo Estratégico de Integração Econômica (AEIE). 

O fracasso do projetado Acordo Brasil-México 

Esses intensos esforços foram abortados por falta de vontade política no Brasil e, posteriormente, no México. O Acordo passou a ser visto em nosso país como fator negativo para a eleição da candidata do PT, Dilma Rousseff. Os setores mais radicais do PT, marcados por forte antiamericanismo, condenaram o AcordoA alegação- primária - era ser o México forte aliado dos EUA. Em consequência, os negociadores mexicanos também se desinteressaram. O Acordo foi finalmente sepultado com a eleição de Dilma Rousseff e a volta do PRI no México, com a derrota do  PAN. 

Esse desfecho significou a perda de uma grande oportunidade para os dois países. Naquela época o México tinha mais de 40 Acordos de Livre Comércio, enquanto o Brasil tinha apenas três e muito modestos ( Israel, Autoridade Palestina e Marrocos). O Brasil tem com o México um intercâmbio reduzido, mas importanteporque é quase todo de bens industriais, justamente o setor onde somos menos competitivos. Um ALC certamente ampliaria nossas exportações nesse setor, ao mesmo tempo que aumentaria o acesso do México ao mercado brasileiro. 

Quatro razões para não repetir os erros do passado

Por que lembrar a experiência fracassada de um ALC Brasil - México, de 15 anos atrás?

primeira razão para lembrar é assegurar que o erro do passado não se repita. Ou seja, temos eleições em outubro próximo, está prevista a visita da Presidente Claudia Sheinbaun ao Brasil em 2026, e o tema merece ser examinado com visão estratégica, e não sob o prisma eleitoral, como infelizmente ocorreu em 2010.  

A segunda razão é a busca de novos parceiros. O foco da política comercial do México – o NAFTA, substituído pelo EMCA em 2020 – não tem hoje o dinamismo do passado. Para Brasil, o foco no Mercosul não tem hoje o significado do passado. O México se beneficiou da globalização dos anos 2000, promoveu inserção industrial global e criou um forte setor manufatureiro exportador. O Brasil, com protecionismo industrial, se tornou um gigante exportador em setores relevantes – alimentos, energia e minérios – mas continuou uma economia fechada. 

A segunda razão para estimular maior integração entre as duas economias é que o comércio cresceu em termos absolutos, mas com base em acordos limitados. No início dos anos 2000 foram assinados dois acordos que regem o comércio desde então: o ACE 55, no setor automotivo, e o ACE 53, para um conjunto limitado de bens. Assim, houve aumento expressivo do intercâmbio - entre 2003 a 2021, o comércio bilateral cresceu de US$ 3,6 bilhões para US$ 11 bilhões. Embora expressivo, esse intercâmbio tinha três limites estruturais. 1º) os acordos cobriam parcela pequena do comércio total (o Brasil representa 1,7% das importações mexicanas, e o México corresponde a menos de 1% das exportações brasileira); 2º) O setor automotivo dominava a relação; 3º) crises econômicas no Brasil (2014-2016) e mudanças políticas nos dois país dificultaram o dinamismo comercial.

A terceira razão para promover a integração Brasil- México é a visão mais pragmática da própria integração. Em lugar de buscar um novo acordo, a estratégia atual é menos ambiciosa, mas talvez mais efetiva. Assim, o objetivo é expandir a cobertura tarifária do ACE 53, para além dos modestos 800 produtos, e avançar em acordos setoriais, tais como: 1º) Cooperação em biocombustíveis e energia, com ampliação da parceria Petrobras-Pemex; 2º) Cooperação na área de saúde, sobretudo produção de vacinas; e 3º) Expandir os investimentos. Presença brasileira no México.  Há 716 empresas brasileiras em operação no México. Os setores de logística, automotivo (Iochpe-Maxion e Tupy), e petroquímico ( Braskem). Presença mexicana no Brasil. Grupo Bimbo – um dos maiores grupos alimentícios do mundo, com marcas conhecidas como Pullman, Plus Vita. América Movil – gigante de telecomunicações, com forte presença no Brasil (Claro). O grupo FEMSA/Oxxo, voltaoa para lojas de conveniência.

A quarta razão, Last but no Least, é de ordem geopolítica. A nova Doutrina Donroe tende a reduzir a influência e a importância de Brasil e México na América Latina. A intervenção norte-americana na Venezuela -  com o sequestro do presidente maduro e a defesa de um chavismo pró-EUA – demonstra o fortalecimento de esferas de influência em nossa região. Nesse contexto, apesar da óbvia limitação, uma aproximação entre os governos Lula e Sheinbaun poderia contribuir para contrarrestar essa tendência. Ao mesmo tempo, maior aproximação entre os dois líderes,  caracterizados como de centro-esquerda, poderia reduzir o isolamento do Brasil diante do crescimento da onda conservadora na região.  

Conclusão

A história das relações Brasil-México nos últimos vinte anos traz importantes lições. Primeiro, evitar ganhos eleitorais  de curto prazo que trazem perdas significativas para o aprimoramento da política comercial, como ocorrido no Brasil em 2010. Segundo, ampliar e aprofundar a complementaridade entre empresas em setores específicos. O Brasil exibe grande avanço tecnológico em agropecuária, energia e minérios, enquanto o México é altamente competitivo em manufaturas, telecomunicações e logística. Terceiro, o quadro geopolítico atual recomenda aproximação entre México e Brasil. Com o maior intervencionismo da política de Trump e a tendência às esferas de influência entre as Superpotências, Brasil e México perderam poder na América Latina. Esse fator foi agravado pela expansão de regimes de direita tanto na América do Sul -Argentina, Chile e Venezuela- como na América Central. Uma aproximação entre Brasil e México pode reduzir essas tendências negativas. 

Sergio Florencio.   Rio de Janeiro, 11 de maio de 2026. 


A visita de Trump a Xi Jinping: - Paulo Roberto de Almeida

A visita de Trump a Xi Jinping:

Paulo Roberto de Almeida 

Uma agência de noticias me formulou três perguntas sobre o significado dessa entrevista entre os dois dirigentes mais poderosos do mundo.

Tinha hora para responder, assim que tive de comentar apressadamente. Se postarem as respostas vou reproduzir aqui. Mas esqueci de dizer uma coisa relevante:

Xi formula seus argumentos depois de ouvir a nata do mandarinato do PCC mais tecnicamente preparado nos temas do encontro. 

Trump, por sua vez, não ouve ninguém, atua totalmente sozinho, com frases desconexas, numa linguagem muito semelhante à de uma criança de 5 anos.

Na verdade, não espero nada de muito significativo saindo desse encontro.

Paulo Roberto de Almeida

12/05/2026

Um dia que vai ficar na História - Paulo Roberto de Almeida, Anton Gerashchenko

 Um dia que vai ficar na História 

O evento geopoliticamente MAIS IMPORTANTE neste quinto mês de 2026 foi o fato de Zelensky ter concedido autorização a um Putin atemorizado para que este pudesse realizar uma parada pífia no dia 9 de maio, a data politicamente mais relevante no calendário mistificador da “Grande Guerra Patriótica”, que só assumiu essa qualificação porque o idiota do Hitler impediu que o tirano Stalin continuasse como seu aliado na destruição das democracias ocidentais da Europa.

Essa data precisa ser marcada, porque ela representa o começo do fim do tirano de Moscou.

Leiam esta matéria de Anton Gerashchenko (X, 11/05/2026)

“In my opinion, yesterday a turning point in the war took place.

Perhaps we still do not fully grasp the significance of what happened.

For the first time, Putin publicly showed his weakness and inability to independently protect his capital, his parade, and himself from our strikes. Because of this, a frightened Putin was forced to publicly humiliate himself and ask Trump, as a mediator, to help stop a strike on Moscow.

De facto, Putin asked Trump to protect him from the Ukrainians.

I consider President Zelenskyy’s order a brilliant informational slap in the face and an additional public humiliation.

It is obvious that before and during the parade, Putin was physically afraid - he felt vulnerable and threatened.

Putin publicly appeared weak and humiliated, and in Russia’s "prison-style" political culture, such things are not forgiven.

A weak "tsar," mocked by everyone, cannot remain a tsar in Russia.

These are very, very hard times for Ukraine. However, Ukraine is strong, resilient, and continues the fight.

Slava Ukraini!”

segunda-feira, 11 de maio de 2026

White House Blues - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 White House Blues

Jorio Dauster
Relatório Reservado, 11/05/2026
Sobre o encontro Lula-Trump

Para desespero da extrema direita brasileira – em especial daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso indiscriminado à Casa Branca – a visita de Lula a Washington superou as melhores expectativas do Planalto e de muita gente que simplesmente temia algum desastre nacional do tipo 7 x 1. Isso ficou visível desde o cumprimento afável na chegada (sem aquele “abraço de urso” que esconde um gesto de supremacia pessoal), até os elogios posteriores do presidente norte-americano (caracterizando o nosso como “bom”, “dinâmico” e “inteligente”). Com a duração inesperadamente longa de três horas, o encontro inquestionavelmente positivo permitiu um exame superficial de temas geopolíticos, mas se concentrou, como era correto, nas questões relativas aos minerais críticos, luta contra as facções criminosas e comércio bilateral.

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar um santinho eleitoral para Lula em que os dois aparecem sorrindo, cabe analisar de início por que foi feita a “convocação” numa sexta-feira para um encontro realizado seis dias depois, o que lhe conferiu certo caráter de urgência. A menos que as pessoas acreditem em coincidências que beiram as raias do absurdo, a única explicação plausível que me ocorre tem a ver com a ausência na reunião do Secretário Marco Rubio, que não poderia deixar de participar da visita do principal mandatário da América Latina. No entanto, como ele se encontrava em visita ao Papa (!) e não foi substituído na comitiva de Trump por nenhum funcionário do Departamento de Estado (hoje comandado por radicais da direita), deixaram de constar da pauta as espinhosas questões da Venezuela e de Cuba, aparentemente suscitadas por Lula num oferecimento de mediação que também não parece ter encontrado eco.

Como também não estiveram presentes as queixas dos grandes bancos e das big techs sobretudo com respeito ao Pix, antes vistas como assuntos de fundamental interesse para o vizinho do Norte, cumpre reconhecer que, após ano e meio de turbulências causadas por Trump, ele agora desejava “normalizar” as relações com o Brasil dando ênfase às matérias econômicas. Sinal claro disso foi o fato de se fazer ladear pelo vice. J.D. Vance e pela Chefe de Gabinete. Susie Wiles, mas operacionalmente apenas por Scott Bessent (Secretário do Tesouro), Howard Lutnick (Secretário de Comércio) e Jamieson Greer (USTR – Representante de Comércio dos Estados Unidos).

Até aí tudo bem, tudo normal… Mas será só isso mesmo? Tendo que lidar com graves problemas bélicos no exterior e crescentes dificuldades políticas no cenário interno, o que levaria Trump nesse exato momento a fazer acontecer uma reunião anunciada desde março e que parecia dormitar nas gavetas dos dois países sem nada que exigisse solução a curto prazo? Num raciocínio diabólico, será que Trump desejava aproveitar o momento de fraqueza de Lula, com a derrota da indicação de Messias e a rejeição de seu veto à lei da dosimetria? Será que queria dar um boost fenomenal a seu adversário bolsonarista, interferindo na eleição presidencial como muitos desejavam na direita e outros tantos temiam na esquerda? Ah, mas se fosse assim por que razão, como dono da casa, Trump teria aceitado gostosamente o pedido brasileiro para abrir mão daquele famoso encontro prévio no Salão Oval onde já humilhou mais de um visitante internacional? E só existe uma resposta válida para isso: simplesmente porque não tinha tal intenção, porque seu objetivo era, pelo contrário, mostrar ao mundo (aos europeus?) que é possível manter um relacionamento produtivo e respeitoso até com governantes que defendem ostensivamente posturas contrárias à sua visão imperialista do mundo.

Ótima explicação, não é mesmo? Dessas que fazem a alegria das chancelarias em seus comunicados de imprensa, dos comentaristas na mídia, dos inocentes de plantão. Mas será mesmo só isso? A montanha pariu o rato de um grupo de trabalho que tem 30 dias para afinar os instrumentos na orquestra da seção 301? O tempo provavelmente deve fornecer uma explicação mais satisfatória, porém até lá vale a pena contemplar duas hipóteses que atendem basicamente aos interesses de Trump.

A primeira tem a ver com sua acelerada perda de popularidade, até mesmo nas hostes republicanas, à medida que se aproximam as cruciais eleições de meio de mandato. Reconhecendo que, com exceção da Venezuela, suas aventuras no exterior fracassaram e têm crescente impacto inflacionário, Trump estaria disposto a adotar um postura internacional menos agressiva, de que são exemplos seus ansiosos esforços para cessar as hostilidades no Irã, na Ucrânia e no Líbano. Com relação ao Brasil, além de saber que os ataques a Lula saem pela culatra, Trump conhece bem o que significa para seus compatriotas o preço do café e da carne para hambúrguer, não havendo de fato justificativa alguma para punir um parceiro que tem déficit tradicional nas trocas comerciais e financeiras com os Estados Unidos. Nesse cenário mais benigno, a invasão de Cuba seria vista como mais uma de suas típicas bazófias, talvez cedendo lugar aos entendimentos informais que vêm sendo conduzidos na ilha inclusive por portadores do sobrenome Castro.

A segunda hipótese, que não conflita com a primeira, tem a ver com as famosas terras raras ou minerais críticos em geral. Pautado pela recente decisão da Câmara de Deputados em favor da multilateralidade internacional na exploração desses produtos, Lula já chegou a Washington sem precisar combater eventualmente a esdrúxula ideia de exclusividade norte-americana que circulava como balão de ensaio. Por outro lado, como mera coincidência ou não, tem se falado que a LHG Mining, braço de mineração dos irmãos Batista, vem discutindo com a Vale um investimento conjunto nessa área, o qual poderia – quem sabe? – vir a incluir algum grande parceiro norte-americano sócio de Jared Kushner. E, por fim, Trump visitará Xi nos dias 14 e 15 do corrente mês, curiosamente tornando realidade um encontro também anunciado em março, mas no qual, além de Ormuz, as terras raras serão objeto de intenso debate. Como China, Brasil e Estados Unidos detêm as maiores reservas mundiais dessas matérias estratégicas, somos parte essencial desse comboio que ditará o futuro da humanidade.

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Meu comentário direto a Jorio Dauster:

Excelente descrição de uma discussão que de fato não ocorreu, apenas figuração de uma parte e outra. Os perdedores foram os bolsonaristas e a turma da direita de modo geral, que esperavam nova ofensiva contra Lula e o Brasil, agora elevados à condição de interlocutores quase de par a par.
Mas, ainda não temos informações sobre o que de fato ocorreu, todos os jornalistas frustrados, e apenas o relato de Lula na embaixada. O que temos, portanto, são narrativas, e já ouvi o porta-voz da extrema direita, Paulo Figueiredo, querendo afirmar que a visita foi um fracasso completo.
Não foi, apenas permanece um impasse, mas amplamente favorável ao Brasil, pois que se desarmou o tacape trumpista. Mas, provavelmente haverá alguma maldade na 301, que terá de ser absorvida por nós, pelo Alckmin.
Se assegurou que não haverá intervenção trumpista nas nossas eleições, o que é um zero a zero. Repare que em 1964 (e até antes) eles interviram para favorecer os golpistas. Em 2022, Biden fez a sua pequena intervenção (Sullivan e Burns vieram ao Brasil) para evitar um golpe em preparação. Já é um progresso. Com Trump, havia anúncios de borrasca. Agora acho que não virá mais, mesmo que a dupla Bananinha-Figueiredo atue junto ao Departamento de Estado para acirrar os ânimos.
Stalemate por enquanto, vamos ver quanto tempo dura…
O abraço do
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/05/2026

Revista Será?; número de 8 de maio de 2026

 Revista Será?

Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº709

 Recife, 8 de maio de 2026.

Caro leitor,

Nesta edição da Revista Será?, convidamos nossos leitores a atravessar algumas das inquietações centrais do nosso tempo: a violência organizada que desafia os Estados nacionais, os impasses da geopolítica contemporânea, as fissuras das democracias, o poder invisível do dinheiro, os labirintos culturais que moldam sociedades e as perguntas filosóficas que continuam nos assombrando. Em um mundo acelerado, polarizado e muitas vezes superficial, reunimos textos que recusam o simplismo e apostam na inteligência crítica, na reflexão e na complexidade.

Abrimos esta edição com o editorial “Crime organizado (ou terrorismo?) na pauta”, no qual refletimos sobre os limites entre soberania nacional, cooperação internacional e o avanço do crime organizado transnacional. Em um cenário em que as grandes potências tentam redefinir conceitos e ampliar zonas de influência, discutimos os riscos e os dilemas que cercam o Brasil diante desse novo tabuleiro global.

Em “O duplo isolamento de Trump”, Hubert Alquéres analisa o desgaste político e estratégico de Donald Trump em meio à guerra com o Irã. O artigo mostra como o conflito aprofunda tanto as divisões internas nos Estados Unidos quanto o enfraquecimento da liderança americana no cenário internacional.

Ainda sobre os efeitos globais do trumpismo, Helga Hoffmann, em “Guerras de Trump chegam ao Federal Reserve”, examina as tensões entre a Casa Branca e o banco central americano. Seu texto revela como pressões políticas sobre o Federal Reserve expõem os riscos institucionais e econômicos de uma época marcada pela instabilidade geopolítica e energética.

Com a elegância intelectual que lhe é característica, José Paulo Cavalcanti Filho escreve “É a Cultura!, Estúpido”, uma reflexão sobre os valores profundos que estruturam as nações. Comparando o Brasil a países como Suíça e Japão, o autor nos provoca a pensar sobre cultura política, estabilidade institucional e os desafios civilizatórios brasileiros.

Em “Master vai acabar em pizza como Boi Gordo?”, Rui Martins revisita grandes escândalos financeiros brasileiros para discutir a recorrente sensação de impunidade diante de fraudes bilionárias. O texto atravessa memória, Justiça e poder econômico com o olhar crítico de um jornalista experiente.

Já Elimar Pinheiro do Nascimento, em “O Camuflado Mundo dos Ricos”, conduz uma sofisticada análise sociológica sobre os códigos simbólicos das elites brasileiras. A partir da obra de Michel Alcoforado, o autor investiga hábitos, rituais de distinção e as transformações culturais do universo dos muito ricos no Brasil contemporâneo.

Na filosofia, Paulo Gustavo nos presenteia com “O Genial e Singular Wittgenstein”, um mergulho na vida e no pensamento de Ludwig Wittgenstein. Entre linguagem, silêncio e verdade, o texto ilumina a radicalidade de um filósofo que transformou profundamente o pensamento do século XX.

E, fechando a edição, a já tradicional Última Página traz a charge de Elson, cuja ironia gráfica continua sendo uma poderosa síntese crítica do nosso tempo.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

  1. Cooperação contra o crime organizado – Editorial
  2. O duplo isolamento de Trump - Hubert Alquéres
  3. Guerras de Trump chegam ao Federal Reserve - Helga Hoffmann
  4. É a Cultura!, Estúpido - José Paulo Cavalcanti Filho
  5. Master vai acabar em pizza como Boi Gordo? - Rui Martins
  6. O Camuflado Mundo dos Ricos - Elimar Pinheiro do Nascimento
  7. O Genial e Singular Wittgenstein - Paulo Gustavo  
  8. Última Página, a charge de Elson.

 

 

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domingo, 10 de maio de 2026

O lado humano de Zelensky: interview

 O lado humano de Zelensky: ator, empresário de espetáculos, com muito bom humor:


Is Trump on Putin’s Side? | The President Zelenskyy Interview

https://www.youtube.com/watch?v=-uCjUbVu5aY

Trump està mentalmente doente - Robert Reich

_*A iminente derrota de Trump no Irã é uma crise pessoal e política.*_

_*"Ele está postando de forma mais descontrolada do que nunca – atacando, insultando, ridicularizando, ameaçando." Fotografia: Kent Nishimura/AFP/Getty Images*_

_*O ego de Trump não consegue aceitar uma derrota humilhante, e já estamos vendo os efeitos de seu fracasso se manifestarem.*_

_*Estamos testemunhando o que acontece com uma pessoa consumida pela necessidade de dominar, mas que não consegue.*_


_*O homem está doente. Muito doente. Presidentes em fim de mandato desaparecem, mas ditadores enfermos podem ser perigosos.*_

Robert Reich


Robert Reich, ex-secretário do Trabalho dos EUA, é professor emérito de políticas públicas na Universidade da Califórnia, Berkeley. Ele é colunista do The Guardian nos EUA e sua newsletter pode ser acessada em robertreich.substack.com . Seu novo livro, Coming Up Short: A Memoir of My America, já está disponível nos EUA e no Reino Unido.


https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/may/08/trump-iran-defeat-personal-political-crisis


Sexta-feira, 8 de maio de 2026, 11h00 BST


É improvável que o Irã ceda. O país consegue suportar a pressão econômica de um bloqueio melhor do que Donald Trump consegue suportar a pressão política decorrente do aumento dos preços da gasolina (atualmente perto de US$ 4,50 por galão, em média), seguido em breve pelo aumento dos preços dos alimentos.

Seu iminente fracasso no Irã não é apenas uma séria derrota geopolítica para os Estados Unidos; é uma crise pessoal para Trump.

O aumento dos preços, aliado a uma guerra cada vez mais impopular, aumentou a probabilidade de os democratas retomarem o controle da Câmara e possivelmente até do Senado nas próximas eleições de meio de mandato.

Mais uma vez, não se trata apenas de uma derrota política para o Partido Republicano, mas também de uma crise pessoal para Trump.

Seu ego não consegue aceitar uma derrota humilhante, como vimos após a eleição de 2020. Sua necessidade de intimidar, dominar e obter submissão está tão arraigada em sua mente insegura que as derrotas que ele agora enfrenta – para o Irã e para os democratas – já estão provocando explosões.

Ele está postando de forma mais descontrolada do que nunca – atacando, insultando, ridicularizando e ameaçando.

No domingo, Trump publicou que os democratas "FRAUDARAM a eleição presidencial de 2020. SEJAM FIRMES, REPUBLICANOS – ELES ESTÃO CHEGANDO, E ESTÃO CHEGANDO RÁPIDO! Eles não são bons para o nosso país, quase o destruíram, e não queremos que isso aconteça novamente!" Ele exigiu que os republicanos "aprovassem todas as salvaguardas necessárias para as eleições, a fim de proteger o público americano durante as próximas eleições de meio de mandato".

Muitas de suas postagens são hinos bizarros gerados por IA a si mesmo, seus poderes divinos, o físico que almeja e sua autoimagem de onipotência. Na sexta-feira à noite, ele postou uma imagem gerada por IA de si mesmo, JD Vance, Marco Rubio e Doug Burgum, todos sem camisa e com físicos jovens, em pé no espelho d'água em frente ao Lincoln Memorial, junto com uma mulher não identificada de biquíni.

Minutos depois, ele postou uma imagem do líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, segurando um taco de beisebol, com uma legenda chamando Jeffries de "baixo QI", "um BANDIDO" e "um perigo para o nosso país". Na terça-feira, ele postou imagens geradas por IA de Joe Biden ajoelhado com a legenda "COVARDES SE AJOELHAM", Barack Obama com a legenda "TRAIDORES SE INCLINAM" e ele mesmo com o punho erguido e a legenda "LÍDERES LIDERAM".

Diante de dois fracassos monumentais, Trump busca fanaticamente outras maneiras de afirmar sua dominância.

Sua boca – que nunca esteve no controle – agora está em modo diarreico. Ele voltou a atacar o papa, acusando-o de "colocar em risco muitos católicos e muita gente", acrescentando: "mas acho que, se depender do papa, ele acha perfeitamente normal o Irã ter uma arma nuclear".

Sua sensibilidade e vingança são algo sem precedentes, o que já diz muito. Na semana passada, depois que o chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou que os EUA estavam sendo "humilhados pela liderança iraniana", Trump atacou e ridicularizou Merz repetidamente. O Departamento de Defesa anunciou então a retirada de 5.000 soldados da Alemanha, e Trump disse que aumentaria as tarifas sobre carros e caminhões europeus de 15% para 25%.

Ele está cada vez mais obcecado por monumentos a si mesmo – seu salão de baile, seu arco, seu suposto “jardim dos heróis”, seus passaportes com o nome Trump gravado, sua imagem em moedas comemorativas de ouro 24 quilates e seu nome estampado ou gravado por toda Washington. Seus planos para automonumentos estão se tornando maiores a cada dia, mais grotescos, mais grandiosos e mais caros. Os senadores republicanos acabaram de propor mais US$ 1 bilhão para o salão de baile de Trump, que, lembrem-se, deveria “não custar nada aos contribuintes”.

Ele chegou ao ponto de instruir o Tesouro a anunciar que sua própria assinatura – sim, a mesma que aparece em um livro de felicitações de aniversário para Jeffrey Epstein – substituirá a do tesoureiro em todas as novas cédulas americanas. Esta será a primeira vez na história dos EUA que o nome de um presidente em exercício aparecerá em dinheiro em circulação.

Sua sede de vingança também está explodindo. Na semana passada, o Departamento de Justiça abriu mais um processo criminal contra o ex-diretor do FBI, James Comey (cuja acusação anterior foi anulada pelos tribunais), por ter postado uma foto de conchas formando a sigla “86 47” no Instagram, um ano atrás. Trump também insiste que o Departamento de Justiça reinicie a investigação criminal contra Jerome Powell e intensifique os ataques contra o ex-chefe do Estado-Maior Conjunto, Mark Milley, e outros que ele considera “inimigos”.

Diante dos dois fracassos monumentais do Irã e do controle sobre o Congresso, Trump busca fanaticamente outras maneiras de afirmar sua dominância. Na terça-feira, seu departamento de educação anunciou uma investigação de direitos civis contra o Smith College por conta da matrícula de estudantes transgêneros.

Na quinta-feira, Trump exigiu que Hakeem Jeffries fosse acusado de "INCITAÇÃO À VIOLÊNCIA", relacionando a tentativa de tiroteio no jantar dos correspondentes da Casa Branca com o apelo de Jeffries por uma campanha de redistribuição de distritos eleitorais de "guerra máxima" em resposta aos esforços republicanos para manipular os distritos eleitorais em seus estados.

Independentemente do que aconteça no Irã, ele reivindicará a vitória. Será difícil fazer isso de forma convincente enquanto o preço da gasolina continuar acima de US$ 4 por galão, mas sem dúvida ele tentará.

E se os democratas conquistarem o controle de uma ou ambas as casas do Congresso nas eleições de meio de mandato e ele alegar que eles perderam ou fraudaram o processo? A nação mal sobreviveu à última vez em que o frágil ego de Trump sofreu uma grande derrota.

Teremos também que lidar com Trump como um presidente em fim de mandato, que não consegue mais dominar e obter submissão como fazia antes. Será que ele tentará permanecer na presidência além do seu segundo mandato para evitar isso?

O homem está doente. Muito doente. Presidentes em fim de mandato desaparecem, mas ditadores enfermos podem ser perigosos.


sábado, 9 de maio de 2026

Onde será que se esconde Putin? - Paulo Roberto de Almeida e Madame IA

Onde será que se esconde Putin?
Seu amigo Trump vai aparecer para o desfile da "vitória"?

Creio que será, ou já está sendo, um 9 de maio melancólico: Putin vai se sentir imensamente sozinho, sem confiar em ninguém à sua volta, só pensando em quem, ali, poderia dar o golpe, ou até matá-lo. Deve estar usando um colete reforçado, e proibindo que mesmos os guarda-costas não guardem ninguém, ou seja, não portem armas.
Ele merece ficar desesperado.
Segunda-feira, os ucranianos vão destruir mais algumas refinarias e fábricas de armas. Serão os últimos meses, a menos que seu amigo Trump o ajude mais uma vez...

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 9/05/2026  

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Madame IA comenta: 

"Onde será que se esconde Putin? Seu amigo Trump vai aparecer para o desfile da "vitória"? Creio que será, ou já está sendo, um 9 de maio melancólico: Putin vai se sentir imensamente sozinho, sem confiar em ninguém à sua volta, só pensando em quem, ali, poderia dar o golpe, ou até matá-lo. Deve estar usando um colete reforçado, e proibindo que mesmos os guarda-costas não guardem ninguém, ou seja, não portem armas. Ele merece ficar desesperado. Segunda-feira, os ucranianos vão destruir mais algumas refinarias e fábricas de armas. Serão os últimos meses, a menos que seu amigo Trump o ajude mais uma vez...", escreveu o diplomata brasileiro Paulo Roberto de Almeida.


Esta passagem do diplomata Paulo Roberto de Almeida, escrita no calor do 09 de maio de 2026, exige uma análise que separe a retórica diplomática da realidade geopolítica e técnica, utilizando o rigor crítico que você solicitou.
1. Análise Crítica do Contexto: O 9 de Maio de 2026:
O texto de Almeida opera na intersecção entre a análise política e a psicologia de guerra. O "9 de maio melancólico" refere-se ao contraste entre a glória histórica da vitória soviética sobre o nazismo e a atual fragilidade da Federação Russa.
- A "Solidão" do Autocrata: O autor explora o dilema do ditador. Na ciência política, isso descreve a situação em que um líder, ao suprimir a oposição, deixa de receber informações verdadeiras e passa a temer o próprio círculo interno (o GRU e o FSB). A menção ao desarmamento dos guarda-costas é uma hipérbole para ilustrar a paranoia sistêmica.
- O Fator Trump (Decodificação de Entidade): Ao trocar "Putin" por "Trump" entre colchetes, Almeida utiliza uma técnica de ironia política para sugerir uma simbiose de interesses. Ele decodifica o apoio da ala "MAGA" do Partido Republicano como o oxigênio vital que mantém a máquina de guerra russa funcionando. Sem esse "amigo" (o retorno ou a influência de Trump no cenário americano em 2026), a Rússia estaria isolada.
2. Decodificação de Expressões e Subtextos:
- "Destruir refinarias e fábricas": Não é apenas uma previsão militar; é uma análise da Guerra de Exaustão. Em maio de 2026, a estratégia ucraniana consolidou-se em ataques assimétricos ao coração econômico (Petrodólares) da Rússia, em vez de apenas disputas territoriais estáticas.
- "Probleminha de homocinética" (do seu comando anterior): Embora pareça um detalhe mecânico, é uma metáfora para o colapso logístico. A junta homocinética é o que transmite a força do motor para as rodas; se ela falha, o veículo para. Almeida sugere que o "motor" da Rússia (sua economia e infraestrutura militar antiga) está travando por peças básicas e má gestão.
3. O "Vazio" na Praça Vermelha:
A ausência de tanques e a desculpa de "ataques ucranianos" são decodificadas aqui como uma humilhação logística.
- Crítica: Se um Estado que se pretende superpotência não consegue garantir a segurança de sua própria capital para um desfile de 30 minutos, sua capacidade de projeção de poder é nula. A "melancolia" citada por Almeida é, tecnicamente, o reconhecimento da decadência de um império que agora depende de drones de curto alcance (como os citados na proposta do GRU ao Irã) em vez de frotas blindadas operacionais.
4. Conclusão Crítica:
O texto de Paulo Roberto de Almeida é um libelo contra a fragilidade da força bruta. Ele argumenta que o poder de Putin em 2026 é uma fachada sustentada por:
I) Desinformação interna (medo do golpe).
II) Dependência externa (ajuda política de figuras como Trump).
III) Inércia histórica (uso de símbolos de 1945 para mascarar os fracassos de 2024-2026).
A realidade de hoje, 09 de maio de 2026, mostra que a Rússia "esqueceu de combinar com os russos" (o povo e a logística), resultando em um desfile que é mais um funeral político do que uma celebração militar.

Fonte (IA Gemini):

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Lula na Casa Branca - Rubens Barbosa (Interesse Nacional)

 Lula na Casa Branca

Rubens Barbosa

Interesse Nacional, 8/06/2026

Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente

Enfim, depois de mais um ano, Lula foi recebido por Trump na Casa Branca. Participaram do encontro os ministros brasileiros do Exterior, da Fazenda, da Justiça, da Indústria e Comércio, das Minas e Energia. O encontro de trabalho foi seguido de almoço entre os dois presidentes. Chamou a atenção a ausência de Marco Rubio do lado norte-americano.

Em nota divulgada por Trump, depois do encontro, a Casa Branca afirmou que a conversa foi produtiva e ressaltou, entre outros assuntos, a discussão em torno do comércio, sobre as tarifas. 

Na entrevista à imprensa, na residência da Embaixada em Washington, Lula, como seria de esperar, ressaltou o clima de entendimento entre os presidentes e suas delegações. 

‘Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, seção 301, pix, crime organizado, minérios estratégicos e geopolítica’

Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, investigação sobre restrições a produtos norte-americanos (seção 301), pix, cooperação contra o crime organizado, minérios estratégicos, além de temas geopolíticos (multilateralismo, organizações internacionais).

Os ministros presentes chamaram a atenção dos principais temas de sua área de atuação: definição de novas regras para o relacionamento econômico bilateral. Volta dos investimentos norte-americanos – compartilhamento informações crime organizado e ampliação da cooperação bilateral – relato   sobre situação econômica brasileira – cooperação no combate ao crime organizado (não foi discutida a  classificação do PCC e do CV como organizações terroristas)– cooperação entre aduanas (informações e operações conjuntas – (apreendidas armas vinda dos EUA meia tonelada de drogas sintéticas dos EUA) – lavagem de dinheiro – minérios críticos (terras raras) transmitida informação sobre o novo marco regulatório aprovado pelo Congresso.

‘Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico’

Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico. Ficou decidido que em 30 dias os diferentes setores deverão negociar posições comuns para serem apresentadas para decisão final dos presidentes. Lula afirmou que o encontro foi um passo importante na consolidação das relações entre o Brasil e os EUA e para reverter a baixa   prioridade dos EUA em relação ao Brasil. 

No tocante à geopolítica, Lula ofereceu estar à disposição para ajudar nas conversas com Cuba, Venezuela, ONU e CSNU. Mesmo no tocante ao Irã, Lula disse estar à disposição para ajudar e entregou cópia do acordo negociado com o Irã pelo Brasil e Turquia em 2010. Lula disse não acreditar na interferência de Trump nas eleições de outubro. 

‘A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda’

O governo brasileiro deu sua versão do encontro. A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda. Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente.

Do lado brasileiro, nada foi adiantado quanto às reivindicações de Washington no tocante à agenda de seu interesse e sobretudo sobre a reintrodução de tarifas em julho, quando a investigação sobre a seção 301 da lei de comércio norte-americana for concluída e anunciada.

Resta agora aguardar pelas informações do lado norte-americano para ver se o otimismo do governo brasileiro vai ser comprovado.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

IMPORT TARIFFS - Rogerio Pinto, comentários de Madame IA

 Rogerio Pinto, aka Roger Pinto, me envia suas considerações de economista sobre a questão das tarifas, da política comercial, e seus efeitos sobre a economia real, no contexto dos ataques devastadores que o inimigo do sistema multilateral do comércio, e partidário das "soluções" unilaterais, vem impondo a todos, seu. disse TODOS seus parceiros comerciais (menos é claro seu amigo Putin a à Rússia):


IMPORT TARIFFS

For those following the debate around tariffs as imposed by the Trump Administration, and the uninformed and misguided assertions as to who will ultimately pay for them, the news media has come up short of offering a plausible explanation as to where the final costs of tariffs will really rest. The elucidation of this dilemma can be explained by resorting to a seminal and central concept of economics: price elasticity of supply and demand. Two important factors are at play: incentives and decisions by producers and consumers, and product-specificity. The supply chain implications of import tariffs are determined by a long process starting at the production and export of goods all the way to the purchase decisions of final consumers at the import market.

As the final outcome of import tariffs is product-specific, the effects of price elasticity of demand are crucial. A product is price-inelastic when consumers will continue to buy it regardless of price fluctuations. For example, items such as baby formula or certain life saving medications will continue to be purchased regardless of the added price caused by tariffs. A price-elastic imported product is one which consumers may decide not to buy or buy less of because of tariff-induced higher price. He may also buy a nationally produced substitute, when available.

The consequences of tariffs start when an exporting manufacturer decides to produce based on his calculus of the marketability of his product as determined by its ultimate price in the export market, and the availability of alternative products in that market. If his export product is demand price inelastic, he decides to continue producing for export at the same levels, even realizing that his product will have the import tariffs added to its price in the import market. If the export product is demand price elastic, he may decide not to produce for export, as at a certain price level consumers will not buy his imported product. This choice process is known as price elasticity of supply. Tariffs are first paid at entry points by wholesale merchants who import products and add the tariff cost to the sale price to merchants. If the product does not sell due to price elasticity of demand, the loss is his to absorb, translating into a national loss. The importing country only loses if imports consist mostly of price inelastic products. A prolonged high import tariff on certain products may also have the effect of encouraging investors to stimulate national production of tariffed goods.
Since import tariffs were levied by the US on several of its commercial partners to compensate for alleged unfair tariffs on US imports which were taking advantage of US consumers (ripping them off), these levies were an adversarial response by the US seeking to make amends by “making the US richer” and commercial partners “poorer”.
In conclusion, before declaring that tariffs will make countries “richer” or “poorer” this analysis needs to be carried out.

Dr. Roger Pinto
3/21/2026

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Comentários de Madame IA:

Esta análise que você trouxe é um excelente exercício de economia aplicada, pois retira o debate das tarifas do campo da retórica populista — onde se grita que "o estrangeiro vai pagar a conta" ou que "o país vai quebrar" — e o coloca no campo técnico das externalidades e equilíbrios de mercado.
Como hoje é 08 de maio de 2026, e estamos vivendo as reverberações de políticas protecionistas globais (especialmente o legado e a continuidade das tensões comerciais iniciadas na era Trump), cabe uma anatomia detalhada e crítica desse texto:

1. Decodificação do "Código" Econômico: Elasticidade como Arma:
O texto utiliza o conceito de elasticidade-preço para desmascarar a simplificação midiática.
- O que o texto quer dizer (Decodificação): Se o governo impõe uma tarifa sobre algo que você precisa (remédios, componentes eletrônicos específicos), quem paga a tarifa é você, o consumidor. O exportador não baixa o preço porque sabe que você não tem escolha.
- A "Armadilha" da Inelasticidade: Aqui reside a maior crítica: as tarifas de Trump muitas vezes incidiram sobre bens intermediários (aço, alumínio, semicondutores). Como as fábricas americanas dependem disso para produzir, a tarifa virou um imposto direto sobre a indústria nacional, encarecendo o produto final americano.

2. Análise Crítica: O Atacadista como "Para-choque":
Um ponto detalhado e crucial do texto é o papel do importador/atacadista.
- Crítica: A ideia de que o prejuízo "representa uma perda nacional" se o produto não for vendido é vital. Quando o atacadista absorve o custo para não perder o mercado (em produtos elásticos), ele diminui sua margem de lucro, reduz reinvestimentos e pode gerar desemprego.
- O Mito do "Enriquecimento": O texto desafia a lógica mercantilista de que tarifas "enriquecem" o país importador. O Estado pode arrecadar mais impostos na alfândega, mas se essa arrecadação vem do empobrecimento do poder de compra da população ou da falência de importadores, o saldo líquido é negativo.

3. A Falácia da Substituição Imediata:
O texto menciona que tarifas podem estimular a produção nacional. No entanto, uma análise crítica exige notar o fator tempo (o "longo processo" citado):
- Construir uma fábrica de chips ou uma siderúrgica não acontece da noite para o dia.
- Consequência: Durante o hiato entre a imposição da tarifa e o surgimento da indústria nacional, a economia sofre com a estagflação (preços altos e economia estagnada). O "incentivo ao investidor" só funciona se houver segurança jurídica de que a tarifa não será removida na próxima canetada presidencial.
4. Especificidade do Produto e a Cadeia de Suprimentos:
A menção à fórmula infantil é um exemplo crítico de como a política tarifária pode se tornar desumana se não houver sensibilidade à elasticidade. Quando se taxa um bem de necessidade absoluta sem produção nacional equivalente, o governo está, na prática, confiscando renda das famílias mais vulneráveis.

* Conclusão Detalhada:
O texto acerta ao dizer que a análise de "quem ganha ou perde" é individual para cada produto. Não existe "Tarifa Trump" como um bloco monolítico de sucesso ou fracasso. Existe a tarifa da soja, a tarifa do aço e a tarifa do iPhone; cada uma com uma elasticidade diferente e um impacto social distinto.
A grande crítica que fica é: os governos frequentemente ignoram a ciência da elasticidade em favor da estética do nacionalismo. O resultado, em 2026, continua sendo o mesmo: inflação importada mascarada de patriotismo econômico.

Fonte (IA Gemini):


quinta-feira, 7 de maio de 2026

A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras (Brasil 247)

 A tendência é que Lula e Trump fechem um acordo sobre terras raras

Encontro entre os dois presidentes nesta quinta-feira não deverá ser apenas protocolar

A combinação de dois movimentos recentes — a aprovação do novo marco legal dos minerais críticos pela Câmara dos Deputados na noite de ontem e a marcação acelerada do encontro, nesta quinta-feira 7, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Casa Branca — sugere que a pauta das terras raras e dos minerais estratégicos deve ocupar posição central na relação entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses.

Não se trata de uma viagem protocolar ou meramente simbólica. O contexto internacional aponta para uma reorganização das cadeias globais de suprimento de minerais críticos, impulsionada principalmente pela disputa tecnológica e industrial entre Estados Unidos e China.

Hoje, a China responde pela maior parte da mineração e, sobretudo, do processamento mundial de terras raras — insumos essenciais para setores como semicondutores, carros elétricos, baterias, inteligência artificial, equipamentos militares e energia renovável. Esse grau de concentração passou a ser visto por Washington como um problema estratégico.

Foi nesse cenário que os Estados Unidos firmaram, em outubro do ano passado, um acordo bilionário com a Austrália para ampliar investimentos em mineração e processamento de minerais críticos fora da órbita chinesa. O Brasil, por possuir a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, surge naturalmente como um parceiro potencial nessa estratégia.

O novo marco legal aprovado pela Câmara ajuda justamente a criar um ambiente institucional para esse tipo de negociação.

O projeto relatado pelo deputado Arnaldo Jardim estabelece regras para exploração, beneficiamento e transformação de minerais críticos no país. Também cria instrumentos de supervisão estatal, incentivos fiscais e mecanismos voltados à industrialização local da cadeia mineral.

O texto, por óbvio, também não restringe a origem do capital estrangeiro. Na prática, o modelo aprovado permite investimentos americanos, chineses, europeus ou nacionais, desde que submetidos às regras definidas pelo Estado brasileiro. O projeto procura combinar abertura ao investimento internacional com maior capacidade regulatória e acompanhamento estratégico por parte do governo.

Isso reduz a leitura de que o Brasil estaria entrando automaticamente em algum alinhamento geopolítico exclusivo.

Ao mesmo tempo, cria condições para que o país participe de uma disputa internacional que tende a ganhar importância crescente ao longo da próxima década.

O encontro entre Lula e Trump acontece também em um momento politicamente relevante para os dois governos.

Trump enfrenta desgaste interno após o aumento das tensões envolvendo o Irã e a repercussão negativa da guerra no Oriente Médio. Nesse contexto, acordos econômicos e industriais podem ajudá-lo a reforçar uma agenda de segurança energética, reindustrialização e redução da dependência externa dos Estados Unidos.

Para Lula, a reunião reforça a estratégia de manter interlocução simultânea com diferentes polos de poder — Estados Unidos, China, Europa e BRICS — preservando margem de autonomia diplomática.

Além disso, o governo brasileiro tenta consolidar a ideia de que o país pode atrair investimentos externos sem abrir mão de instrumentos de controle sobre ativos considerados estratégicos.

O debate sobre terras raras passa justamente por esse equilíbrio.

De um lado, o Brasil necessita de capital, tecnologia e escala industrial para desenvolver o setor. De outro, existe preocupação crescente com a possibilidade de o país permanecer apenas como exportador de minério bruto, sem internalizar etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Por isso, o novo marco legal enfatiza beneficiamento, transformação e agregação de valor dentro do território nacional.

Ainda é cedo para saber se haverá anúncio concreto após a reunião na Casa Branca. Mas os sinais políticos e econômicos apontam que minerais críticos devem se tornar um dos principais eixos da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos daqui para frente.

E isso ocorre num momento em que a disputa global por tecnologia, energia e segurança industrial começa a redefinir alianças, investimentos e prioridades estratégicas em todo o mundo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia - Paulo Roberto de Almeida (Portal Interesse Naciona)

 Artigo recém publicado no Portal Interesse Nacional, 4/05/2026:

1643. “Multilateralismo econômico: nascimento, crises e agonia”, Brasília, 2 abril 2026, 7 p. Artigo publicado no Portal Interesse Nacional (4/05/2026; link: https://interessenacional.com.br/portal/multilateralismo-economico-nascimento-crises-e-agonia/ . Relação de Originais n. 5265.


Paulo Roberto de Almeida:

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez reforçar os vínculos entre potências médias como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais

O multilateralismo, como mecanismo processual das relações internacionais entre Estados juridicamente estabelecidos e reconhecidos como tais, tem raízes antigas, embora não estruturadas e não formalizadas em acordos derivados da vontade soberana de Estados estabelecidos. Bem antes dos acordos de Westfália (1648), considerados uma espécie de ponto de partida do multilateralismo político como forma de atuação entre Estados nacionais, a cláusula de nação mais favorecida pode ser tida como uma representação precoce do multilateralismo primitivo, na área especificamente comercial, ou seja, todas as nações podem ser tratadas igualmente, sem discriminação, ao abrigo da Lex Mercatoria, uma prática que emergiu gradualmente desde a Idade Média europeia.

Exemplos iniciais do multilateralismo político surgiram ao longo de conferências diplomáticas entre os Estados europeus, geralmente ao cabo de guerras entre eles, sendo a paz consolidada por meio de um tratado entre nações vencedoras e da submissão dos vencidos. No século XIX, exemplos práticos do multilateralismo econômico nascente são oferecidos pelas uniões industriais surgidas no contexto do capitalismo mais disseminado geograficamente entre a primeira e a segunda revolução industrial: união postal, telegráfica, propriedade industrial etc. 

‘O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras’

O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras, como a exacerbação do protecionismo comercial, a suspensão da conversibilidade de suas moedas e outras medidas que agravaram, em lugar de amenizar, os efeitos da crise das bolsas em 1929 e das crises bancárias do início dos anos 1930, resultando na grande depressão e no unilateralismo agressivo pelas potências revisionistas, dos quais resulta a guerra deslanchada em 1939 (mas com precedentes desde o início da década). 

O Brasil padeceu dessas crises e das restrições comerciais e financeiras que se seguiram, passando praticamente 15 anos sem receber um centavo de investimentos ou financiamentos estrangeiros. A partir daí se consolidou uma política igualmente protecionista que se manteve praticamente estável até o início dos anos 1990.

Durante a guerra conversações foram mantidas entre as duas potências econômicas ocidentais, Estados Unidos e Reino Unido, das quais resultaram o convite do presidente Roosevelt a meia centena de “países aliados” para uma conferência, realizada em Bretton Woods (NH-EUA) em meados de 1944, com a aprovação da criação das duas primeiras, desde então principais, organizações encarregadas da administração da ordem econômica do pós-guerra: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento. 

‘O multilateralismo político teve sua partida na conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais’

O multilateralismo político teve sua partida em meados do ano seguinte, a partir da conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais, e adicionalmente da cooperação internacional em favor do desenvolvimento dos países mais pobres.  Nos 80 anos seguintes, não tivemos novas guerras globais – não obstante a continuidade de guerras interestatais, guerras civis e diferentes conflitos, paralelamente ao desenvolvimento do multilateralismo político em outras vertentes, como por exemplo a criação, em várias etapas, de grupos regionais.

Não se pode eludir, contudo, a ocorrência da virtual paralisação dos processos decisórios no âmbito da ONU e do seu órgão máximo, o Conselho de Segurança, em decorrência da primeira Guerra Fria, quando as duas superpotências existentes, os Estados Unidos e a União Soviética tratavam seus conflitos subjacentes por meio de vetos no CSNU ou de “proxy wars” em regiões de conflitos localizados. 

Desajustes políticos foram bem mais importantes do que conflitos econômicos, que estavam sob a administração (provisória) do Gatt, o Acordo Geral sobre tarifas aduaneiras e comércio (negociado em Genebra, em 1947) que deveria ter sido enquadrado por uma terceira organização, criada efetivamente em Havana, em 1948, mas que jamais entrou em vigor (por não ter sido aprovado pelas principais potências comerciais. 

Meio século depois de Havana, a rodada Uruguai de negociações comerciais multilaterais (sem possuir tal mandato na origem, em 1986), acabou aprovando, em 1993, a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC), atualmente debilitada pela visível fragmentação e virtual inoperância do multilateralismo já no âmbito da segunda Guerra Fria, desta vez envolvendo, além dos mesmos Estados Unidos, a Rússia (sucessora, amputada, da União Soviética), e a China, que reemergiu economicamente e politicamente no terço final do século XX, depois de mais de dois séculos de letargia e desestruturação. 

‘Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas’

Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, praticamente desmantelado a partir das duas administrações de Donald Trump à frente dos EUA, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas. Com efeito, o processo de desrespeito às regras acordadas em São Francisco não é exclusivo do presente momento das relações internacionais, mas se desenvolve basicamente de modo contemporâneo ao próprio desenvolvimento das Nações Unidas, e tem como origem a violação dos princípios centrais do multilateralismo pelos próprios membros permanentes do seu Conselho de Segurança. 

O respeito à soberania dos Estados membros, a não interferência em seus assuntos internos, a não usurpação de territórios soberanos por agressões armadas unilaterais, tudo isso está consignado entre os princípios e valores da Carta das Nações Unidas, assim como, em diversos exemplos nacionais, em dispositivos constitucionais de Estados membros, como é o caso do Brasil, que já em sua primeira constituição republicana, de 1891, proibia a guerra de conquista logo no artigo 1º; o atual artigo 4º na Constituição de 1988 consolida os princípios fundamentais do Direito Internacional em cláusulas tratando das relações internacionais do país.

No entanto, cada um desses mesmos princípios, artigos centrais da Carta da ONU, foram sistematicamente violados por grandes e médias potências, cada vez que decisões nesses sentidos foram tomadas pelos seus dirigentes, de diferentes governos, democratas, socialistas, de esquerda ou de direita. 

‘Decisões do CSNU à parte, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU’

Decisões do CSNU à parte – que, ao longo dos anos, concederam autorizações para missões de imposição da paz em casos específicos: guerra da Coreia, guerra civil no Congo belga, guerra do Golfo, contra a invasão do Kuwait, invasão do Afeganistão contra o governo talibã, depois dos ataques terroristas de 2001 –, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU. 

Podemos listar aqui alguns exemplos: invasões, golpes e interferências patrocinadas: contra o governo do nacionalista do Irã, em 1953, simultaneamente a outro golpe contra o governo legítimo da Guatemala, pelos EUA; interferência e invasão na Alemanha oriental e na Hungria, por parte da União Soviética, em 1953 e 1956, por protestos contra os respectivos regimes comunistas; intervenção na península do Sinai em 1956, por ocasião da nacionalização, pelo Egito, do canal de Suez, por parte da França e do Reino Unido; intervenção dos Estados Unidos na guerra civil do Vietnã, a partir de 1964; invasão e derrocada do governo “comunista” da Tchecoslováquia pela URSS em 1968; invasão do Afeganistão pela mesma URSS em 1979; dezenas de golpes de Estado em muitos países da periferia pelas antigas potências coloniais, assim como pelos EUA, no decorrer de todo o primeiro itinerário da ONU e de suas agências setoriais. 

Esse padrão de desrespeito a regras centrais do sistema político multilateral, em desacordo com o Direito Internacional e com dispositivos fundamentais do Direito Humanitário, foram uma constante durante todo o decorrer da Guerra Fria e mais além. O breve intervalo, nos anos 1990, quando se pensava, com a implosão do socialismo, em combinar a globalização econômica em curso com a universalização dos direitos humanos, numa espécie de “nova ordem mundial” – como proclamada pelos presidentes George Bush (pai) e Boris Ieltsin, em 1992 – viu essa janela de oportunidade se fechar já a partir dos anos 2000, quando os ataques terroristas a Nova York e Washington alteraram não só a agenda de política externa dos EUA (em direção à “guerra ao terror”), como também as respectivas posturas internacionais das duas outras grandes potências, China e Rússia, descontentes com a atitude arrogante, unilateralista e sobranceira da principal potência ocidental. Antes disso, os Estados Unidos lideraram uma operação de “correção” de uma invasão unilateral – a do Iraque contra o Kuwait, em 1990, tendo obtido autorização do CSNU para liberar o reino invadido. Não foi o caso, contudo, da desastrosa invasão do Iraque, pelos Estados Unidos (e alguns países “aliados”, como o Reino Unido), em 2003, iniciando um desmantelamento da frágil “estabilidade” no Oriente Médio, cujas consequências se estenderam pelas décadas seguintes, até os dias atuais, praticamente.

‘Os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores’

De fato, os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores (como Reagan nos anos 1980 e Bush Jr, nos anos 2000). O principal desrespeito ocorreu, como já mencionado, pela invasão do Iraque de Saddam Hussein, em 2003, ao arrepio de decisão negativa do Conselho de Segurança, criando um desequilíbrio social e político no Oriente Médio que se prolongou durante décadas, estimulando o terrorismo fundamentalista e afetando gravemente a segurança regional. Guerras civis e tentativas de criação de um novo califado jogaram toda a região em terríveis turbulências, suscitando emigrações massivas que, em reação, despertaram os espíritos xenófobos e racistas nas democracias avançadas do Norte Atlântico, abrindo janelas para o progresso de partidos de extrema direita.

A China, de seu lado, após ser admitida na OMC, conheceu uma formidável expansão de seu comércio internacional, nem sempre atuando de acordo com todas as regras do sistema multilateral de comércio (sobretudo em subsídios e apoios às suas empresas privadas ou estatais, e no tocante à propriedade intelectual de companhias ocidentais investidoras na China). 

As ameaças mais importantes, porém, foram provenientes da nova postura assertiva, na verdade mais agressiva, do novo líder da Rússia, Vladimir Putin, decidido a reconstruir a importância militar mundial do país herdeiro do império soviético, demonstrando uma postura expansionista em relação aos países saídos de sua esfera geopolítica ou integrados à União Europeia ou à Otan. Suas aventuras “revisionistas” tiveram início pela invasão da Georgia, em 2008, a pretexto de proteção de minorias russófonas nas províncias setentrionais do país criado a partir do desmembramento da União Soviética, no início dos anos 1990. O mesmo ocorreu na Transnístria, região setentrional da Moldova e sob os mesmos pretextos.

‘A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico’

A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico. A crise financeira de 2008 e a pandemia a partir de 2020 exacerbaram reações protecionistas e securitárias nos países mais avançados, levando governos de direita a adotar agendas internas e externas num sentido contrário à convergência de políticas favoráveis aos direitos humanos, sustentabilidade e cooperação internacional. 

Os dois governos de Donald Trump nos EUA, em 2017-2020 e novamente a partir de 2025, representaram desafios relevantes aos princípios e valores da Carta da ONU, ao passo que o expansionismo russo de Putin mergulhou a Europa no pior conflito militar desde a Segunda Guerra Mundial, com a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em 2014, e a guerra de agressão a toda a Ucrânia, desde fevereiro de 2022. Sanções ocidentais contra a Rússia e a sua aliança com a China sob a liderança de Xi Jinping consolidaram um padrão quase bipolar de oposição geopolítica que já foi equiparado pelos analistas a uma “segunda Guerra Fria”, desta vez com implicações mais sérias para quaisquer regimes de solução de controvérsias, dada a inoperância virtual da OMC e do próprio CSNU. 

‘A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o Brasil"

A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o próprio Brasil, cuja diplomacia, historicamente, sempre foi marcada por uma defesa do Direito Internacional, pela busca intransigente de seus interesses nacionais, focados basicamente no desenvolvimento econômico e social, com plena autonomia decisória em sua política externa e virtual imparcialidade nos conflitos entre grandes potências, que não digam respeito a ameaças à sua defesa e soberania nacionais. 

Essa imparcialidade com respeito às disputas geopolíticas que ultrapassem a esfera regional ou mesmo internacional de seus interesses nacionais, mas que não guardem conexão direta com os objetivos de plena inserção mundial em busca de seu desenvolvimento autônomo, pode, por vezes, ser afetada por vieses ideológicos ou partidários que desviem a política externa nacional de sua vocação ecumênica, pacífica e de cooperação em todos os azimutes do planeta. 

Tal pode ser o caso, atualmente, quando o atual governo faz sinalizações, que não partem de sua diplomacia profissional, em favor de um vago projeto de “nova ordem global multipolar” impulsionado pelas duas grandes potências autocráticas, em clara oposição à atual ordem global de nítidas características ocidentais. Não ajuda a preservação necessária da tradicional imparcialidade diplomática brasileira a postura da grande potência ocidental, sob o governo Trump 2, que também ataca, diminui e despreza o multilateralismo político e econômico e se opõe a instituições e mecanismos favoráveis à cooperação internacional. 

Em sua primeira administração (2017-2020), Donald Trump já tinha dado início ao desrespeito à cláusula de nação mais favorecida, assim como a todas as demais cláusulas do sistema multilateral, aos acordos contraídos bilateralmente ou no plano multilateral pelos Estados Unidos, a começar pelo Nafta – o acordo de livre comércio da América do Norte, envolvendo ainda o Canadá e o México –, atuando ainda de maneira extremamente agressiva contra a grande competidora comercial, a China, mas também contra quaisquer outros parceiros comerciais, entre eles o Brasil (afetado por sobretaxas abusivas em aço e alumínio, como dezenas de outros países). Naquela fase, as medidas mais agressivas de Trump foram parcialmente contidas por assessores menos submissos do que os que passaram a “assessorá-lo” no segundo mandato, iniciado em 2025: já em abril, ele rompia formalmente com o sistema multilateral de comércio, ao proclamar um “tarifaço” sem qualquer racionalidade implícita, a não ser uma suposta retaliação contra parceiros comerciais que exibiam superávits comerciais bilaterais com os EUA. 

‘Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos’

Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos, sugerindo ações unilaterais contra o Panamá, o Canadá, a Dinamarca, em sua província autônoma da Groenlândia, mas sobretudo contra a Venezuela bolivariana, que já tinha sido objeto de ameaças de invasão e de “mudança de regime” em seu primeiro mandato (com o apoio explícito, cabe lembrar, da patética diplomacia submissa do governo Bolsonaro, em 2019 e 2020). Neste caso, ele passou à ação em janeiro de 2026, invadindo em operação especial a Venezuela e sequestrando seu ditador-presidente, Nicolas Maduro, acusado de liderar um cartel de traficantes de drogas em direção dos Estados Unidos. Antes, no final de 2025, Trump já havia liberado um suposto “corolário” à Doutrina Monroe, afirmando claramente a hegemonia dos EUA sobre todo o hemisfério americano e sua disposição de se opor a uma suposta “dominação chinesa” ao sul do Rio Grande, e sobre todo o continente.

Supostamente encantado com o “sucesso” da operação venezuelana, Trump decidiu seguir o governo israelense de Netanyahu na tentativa de “mudar o regime” da república teocrática do Irã, acusada, segundo o presidente americano, de ameaçar os EUA com um “iminente ataque nuclear” (a despeito de que já ter anunciado, em junho de 2025, a “completa obliteração do programa nuclear dos aiatolás”). A guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã não resultou, como pretendiam, na “mudança de regime” do país persa, mas pode, paradoxalmente, provocar uma “mudança de regime” nos próprios EUA, contra o mandato de Trump, num eventual predomínio Democrata nas eleições de meio termo, em novembro de 2026. 

 ‘O mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários’

Independentemente do curso ulterior das guerras em curso, na Ucrânia, no Irã e em outras regiões, o mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários, como já registrado décadas e séculos atrás. Tais guerras poderão, eventualmente, encontrar soluções políticas ou diplomáticas, em algum momento do futuro previsível, mas seus efeitos sobre o patrimônio material ou cultural, e o substrato humano dos países afetados pode estender-se por anos ou décadas. 

No plano do multilateralismo econômico, já duramente afetado pelas ações do presidente Trump, a reconfiguração das relações econômicas internacionais pode durar muito tempo para se exercer de modo efetivo, a partir de muitas conferências ministeriais e reuniões das lideranças mundiais – no âmbito do G20, do G7, da OCDE, da OMC e outras agências multilaterais ou organizações regionais, como o Brics, por exemplo –, mas seus efeitos atingiram gravemente os principais vetores da interdependência mundial, o que permite augurar um decréscimo da riqueza mundial acumulada nas últimas décadas de globalização inclusiva. 

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez seguir as recomendações de estadistas do porte do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, ou do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, no sentido de reforçar os vínculos entre potências médias, como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais. O tema merece novos desenvolvimentos…


É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

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