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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Uma luz aos bons ouvidos: os últimos presságios de George Kennan (1905-2005) - Daniel Afonso da Silva (em revisão para publicação no Jornal da USP)

(Em revisão para publicação no Jornal da USP)  

Uma luz aos bons ouvidos:

os últimos presságios de George Kennan (1905-2005)

 

Daniel Afonso da Silva

 

No sabemos lo que nos passa y eso es precisamente lo que nos passa.

José Ortega y Gasset (1883-1955)

 

L’homme est immortel ; son salut est dans l’au-delà. L’État n’a pas d’immortalité ; son salut, c’est maintenant ou jamais.

Cardeal Richelieu (1585-1642)

 

Forms of government are forged mainly in the fire of practice, not in the vacuum of theory. They respond to national character and to national realities.

George F. Kennan (1905-2005)

 

Fazia calor naquele verão francês de 2005. Os dias eram bonitos, límpidos, agradáveis e bons. Convidativos para passeios en plein air, encontros por pelouses e conversas por varandas. O que motivou três veteranos da Guerra Fria – Alexander Nikolaevich Yakovlev (1923-2005), Zbigniew Brzezinski (1928-2017) e Vladimir Fédorovski (1950- ) – a reunir-se, para reminiscências, num bistrô de Paris.[1]

Esses senhores eram amigos de muitos anos. Apreciavam-se mutualmente. Respeitavam-se e gostavam estar juntos. Prezavam a capital francesa. Tinham por ela verdadeira predileção. Especialmente em dias amistosos como aqueles, coerentes àquela estação.

O encontro começou ameno. Risadas, ironias e pilhérias davam o tom. O esporte preferido deles era falar bem e mal de si e de ausentes. Relatar anedotas novas e antigas. Renovar chistes. Atualizar intimidades suas e alheias. Lamentar o martírio de alguém. Deplorar a agonia de outro alguém. Lastimar a doença grave de um terceiro. Condoer-se com o funeral de um amigo.

Escrutinavam, assim, a sorte de fulanos e sicranos. Inclusive a sua.

Eram amigos constantes. Ativos numa convivência que ultrapassava quarenta anos. Com, sim, altos e baixos. Mas sem mágoas. A idade lhes fizera tudo superar e tornara-lhes convivas de alto astral. Bons vivants e gourmands juntos. Devotos de mesa e copo. E dedicados uns aos outros.

A conversa começou, assim, agradável. Cheia de ânimo e bom humor. Sem pretensões. Avançando sobre temas leves e frugais.

Até que o assunto – não era pra menos – virou hard core e eles passaram a esmiuçar conjunturas.

Era esperado que fosse assim. Aqueles senhores traziam na memória e na retina o testemunho de momentos densamente complexos de vidas nacionais e internacionais. Haviam combatido muitos combates, completado a carreira e mantido a bravura. Era simples notar. Eles traziam no semblante as cicatrizes de suas venturas. Eram homens de convicção. Agentes políticos experimentados. Foram atores empedernidos dos últimos momentos da Guerra Fria, dos últimos suspiros da tensão Leste-Oeste e reunificação da Alemanha. Eram, ainda naqueles dias, estrategistas internacionais reputados. Haviam exercido seus ofícios com devoção. Foram excelentes no que fizeram. Serviram chefes e nações como Hades servira a Zeus. Influíram em muitas coisas. Guardavam, em si e para si, informações de níveis variados de sigilo. Singrando campo aberto ou arando o mar. Tudo custoso. Mas, conquanto o tempo, mantiveram a disposição. Não ficaram fleumáticos nem retraídos. Reuniam uma mistura de alegria, lucidez e realismo. Sabiam que muitos de seus esforços malograram. Não eram indiferentes. Mas também não praticavam autocomiseração. Eram muito cultos e muito profissionais demais para tanto. Sempre movidos pela ação. Dificílimo, então, entre eles, reunidos, restringirem-se a assuntos simplesmente amenos e frugais.

Yakovlev fora tão somente um dos mentores da Glasnost e da Perestroika que abriram caminhos para o fim da União Soviética. Brzezinski servira de conselheiro de segurança nacional da presidência de Jimmy Carter (1924-2024) além de firmar-se, antes e depois, como intérprete e ator de numerosas epopeias políticas nacionais e internacionais. Fédorovski fora exegeta de Iúri Andropov (1914-1984), porta-voz de Mikhail Gorbatchov (1931-2022), emissário soviético nas capitais europeias e protagonista direto do fim da União Soviética. [2]

Atinham, portanto, passados plenos. Eram homem de visão e poder. Vivendo, a maior parte do tempo, en coulisses e derrière la scène. Mas influenciando duradouramente as viragens geopolíticas em todas as partes. Muita vez, atuando, às claras ou às escondidas, em Paris. Cidade que, natural, marcou-os tanto. E, agora, naquele bistrô, fazia-os, sonhar.

2005 – quando voltaram a se encontrar em Paris – ia distante dos melhores dias de suas atuações. A vida rude envelheceu seu semblante, mas não foi capaz de entorpecer seus sentidos. Guardavam, assim, muitas convicções. Nutria predileções e ideias-fixas. A principal delas situava-os aos pés do muro. Soterrados naqueles eventos. Cientes de sua relevância e implicações. E convencidos da impossibilidade de olvidar. Eles viviam, assim, mentalmente, lá: 1989-1991. Sem arredar pé. Atormentados por passados que custavam passar.

Entendiam 1989-1991 como uma explosão e o dia seguinte – como fizera Hannah Arendt para 1914-1918. Consideravam, porquanto, um momentum espetacular demais para minorar-se. O que os conduzia a convergir no entendimento de que tudo aquilo – como depois endossaria o presidente Vladmir Putin – representou, de fato, o maior sinistro geopolítico do século XX. Um sinistro com conotações e desdobramentos que fervilhavam em suas cabeças como cedro em brasa. Pois, para eles, 1989-1991, fechava, mas não superava, um século inteiro de conflitos globais ideológicos, políticos, geopolíticos, militares, culturais, econômicos e científicos persistentes.[3] Um breve século que ruiu aos seus olhos. Bem ali. Aos pés do muro. Como um adeus, Lênin. Que ampliou a variedade do mundo e impôs aos maiorais de outrora a ter que reconhecer que “les autres ne pensent pas comme nous” [os outros não pensam como nós]. O que gerou tensões permanentes e revelou fissuras gigantescas. Como carmas e miasmas e chagas expostas. Que nada cura, nada remedia e nada consegue superar.[4]

O que veio depois, na quadra seguinte, 1989-2005, trouxe, por certo, novidades, mas não renovadoras deste estado de coisas. O muro seguia lá. Tudo remetia a ele. Fiel a ele. Fixado nele. Reduzido a ele. Restrito a ele. Privando a essência de vidas nacionais e internacionais de fluir. Impondo a entendidos nostalgia e desacorçoo. Déjà vu. Eterno retorno. Que eles três, ali, naquele bistrô, naquele ano de 2005 em Paris, procuravam contemporizar com alusões do tipo “The past is another country, but it has left its mark on those who once lived there.” [O passado é outro país, mas deixou sua marca naqueles que um dia viveram nele],[5] The past is therefore a permanent dimension of the human consciousness [O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana],[6]We swim in the past as fish do in water, and cannot escape from it” [Nadamos no passado como os peixes na água e não podemos escapar dele],[7]The past is another country. They do things differently there” [O passado é outro país. Lá as coisas são feitas de maneira diferente.][8] Malgrado as aparências. Malgrado as diferenças. Malgrado o surgimento de novos atores, novas ideias e novos desafios.

Indo e voltando, assim, ato contínuo, aos pés do muro, eles notavam, sim, novas conformações e convergiam em impressões gerais sobre a quadra 1989-2005 que lhes tocava viver. Nela, para eles, a convicção norte-americana de hiperpotência exclusiva, isolada e altaneira durou pouco. Não mais que dez anos. De 1989-1991 a 2001.[9] O choque mental dos ataques de 11 de setembro de 2001 – o 9/11 – modificou a integralidade daquele pretensioso estado geral das coisas e moveu de volta a percepção geral do mundo ao seu estado de ruínas.[10] A guerra ao terror do presidente George W. Bush, logo em seguida e em confirmação, deformou as linhas de apoio que conduziram ao muro, ao fim da Guerra Fria e da União Soviética.[11] Tornando tudo menos claro e mais incerto. Conseguintemente, num par de semanas após o 9/11, parceiros estratégicos, por assim dizer, eternos dos Estados Unidos, foram agredidos, minorados e tornados inimigos naquela sinistra tentação de “nós” ou “eles”.[12] Num par de meses, o fim da História deu lugar ao choque de civilizações.[13] E num par de anos, entre 2001 e 2005, o futuro virou um país completamente estranho.[14] Evidenciando que, de fato, 1989-1991 não terminara bem e trazia nuvens escuras ao fluir do mundo.[15]

No torvelinho de tudo isso, a fixação instantânea dos Estados Unidos pelo Oriente Médio, em busca de Saddam Hussein (1937-2006), Osama Bin Laden (1957-2011) e et caterva, mobilizou fundamentos existenciais e existencialistas e moveu água fluente sobre os moinhos da tese do choque de civilizações que virou a ideia-força do argumento norte-americano para renovar a sua presença no mundo. Indicando que o que ia confuso e nada bom, tendia a piorar.[16] Não sendo difícil contemplar. Pois, em consoante, os arranjos de Yalta e Potsdam – avariados pelo “Choque Nixon” de 1971 e desmoralizados pela operação Iraqi Freedom à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas em 2003 – ficaram densamente anacrônicos, exangues e impotentes.[17] Como consequência, a incontinência de gladiadores hobbesianos em teatros internacionais renunciou à modéstia e reabilitou à sua ânsia de protagonista em teatros internacionais.[18] Não como o retorno de impérios, nações nem da geopolítica – pois impérios, nações e geopolítica, a rigor, jamais desapareceram das epopeias nacionais e internacionais, apenas, por momentos, tornaram-se menos visíveis, mais discretos e menos audíveis –, mas como a tensão entre antigos e novos aspirantes a mestres inexoráveis do mundo.[19]

Assim, para eles, o muro, o 9/11 e aquele início de novo século, trouxeram, sim, novas ideias e tendências. Mas todas encharcadas de passados, agora, renovados em novos desafios. A começar pela ubiquidade da China.

Ingressada em repentino na Organização Mundial do Comércio, OMC, naquele alvoroço do após 9/11, a China veio decidida a baralhar as cartas do jogo e forçar a modificação de todas as regras. A sua discrição de milênios perdia placidamente a valência. O seu recato de sempre, rendia-se esmaecido. Ela, agora, no novo século, queria – muito mais que recobrar aquele século de humilhação e o opróbio de ter-se, voluntariamente, retirado da conquista e da partilha do Novo Mundo no século XV – contar além-fronteiras, conquistar o seu lugar ao sol e fazer-se great again.[20]

A herança do momentum Nixon-Kissinger de 1971-1972 dera início a esse processo e o senso de oportunidade de Deng Xiaoping (1904-1997), a partir e 1978, desacorrentou o país de seu Prometeu.[21] O nono e o décimo planos quinquenais, de 1996 a 2000 e de 2001 a 2005, aceleravam atalantamente a sua modernização, urbanização e industrialização dessa China, cada vez mais, positivamente, irreconhecível.[22] Ambiciosa e portentosa. Disposta a encerrar, de uma vez por todas, o parêntese ocidental de dominação dos negócios do mundo.[23]

Com a mesma ambição, vieram juntos os “países-monstros”.[24] Aqueles anteriormente classificados como países de segundo ou terceiro mundo. Subdesenvolvidos ou em processo de industrialização. Pobres em essência e meridionais majoritariamente em posição. Transformados em emergentes nos estertores da Guerra Fria.[25] Vastamente beneficiados pela “mondialisation heureuse” [globalização triunfante] logo em seguida.[26] Considerados “países de apetite” pelo saudoso Tzvetan Todorov (1939-1917). E entrados no novo século com muito ímpeto para vencer, afirmar-se e convencer.[27]

Adicionado a tudo isso, ainda naquele frisson do 9/11, o influente grupo financeiro Goldman Sachs inseriu-os – não todos, mas os principais – numa cartografia de países potencialmente prósperos.[28] Dignos, doravante, de todas as atenções. Com tudo para brilhar e renovar in perpetuum a nova face do mundo. Não ao acaso, mas em presença.[29]

Eram gigantes e promissores. E, por fortuna, ainda receberam como emblema o acrônimo BRIC – tijolo, literalmente, em inglês – que ampliava a intuição de que eles poderiam verdadeiramente quebrar as amaras do passado e remodelar as estruturas projetadas pela Carta do Atlântico de 1941, pela convenção de São Francisco de 1945 e pelas tratativas de Bretton Woods de 1944-1946.[30]

Nessa mesma vazão e com a mesma intenção revisionista, a histórica e aguerrida Organização da Unidade Africana, fundada em 1963, foi transformada União Africana 2002. Fazendo-se, adiante, uma entidade mais arejada, mais atualizada e mais assertiva frente aos desafios prementes.[31]

Concomitante a tudo isso – China, “países-monstros” e União Africana – vinham, também, os movimentos favoráveis, contrários e alternativos à globalização. “Pro”, “ante” e “alter”. Todos nostálgicos do espírito de Bandung. Aficionados aos países não-alinhados. Depositários das instruções da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento, UNCTAD. Afiliados ao G77. Desejosos, portanto, de une place au soleil [um lugar ao sol]. Convencidos, em tudo, do imperativo de uma outra globalização possível e desejável. Menos perversa e mais condescendente aos pobres deste mundo.[32]

Eis as estruturas, conjunturas e acontecimentos que alimentavam a conversação daqueles ilustres comensais naquele bistrô em Paris.

Malgrado com os pés no muro, eles eram sensíveis para perceber a imensidão desses novos desafios. Impressionavam-se com a sua latência em tão curto lapso, de 1989 a 2005. Investigavam suas razões. Todas remetidas aos escombros do muro. Notavam as suas consequências: aceleração, multiplicação e empilhamento de episódios. Que, em conjunto, tornavam o mundo ineditamente movediço. Exigindo análises progressivamente mais robustas e precisas. Com tours du monde atentos e abrangentes. Com sensibilidade aguçada para apreender as peculiaridades das complicações de continentes, regiões e países. Como eles faziam ali. Escrutinando memórias e emoções. Sem deixar de lado o caso, para eles, mais complexo que dizia respeito à Rússia.[33]

A Rússia era, ao fundo, o motivador daquele encontro. Ela e seus problemas que, ao fim das contas, impunham a todos a presença fixa aos pés do muro. Restando, assim, decisivo apreciá-la com perícia.

Nesse intuito, antes de qualquer coisa, em simultâneo, por estarem na França e em Paris, eles lembraram-se, mutuamente, naturalmente, em comunhão e rapidamente, daquela importante expedição do general Charles de Gaulle (1890-1970) àquela Moscou de Nikita Khrschchov (1894-1971), Leonid Brezhnev (1906-1982), Nikolai Podgorny (1903-1983) e Alexei Kosygin (1904-1980) naquele distante ano de 1966.[34]

Tinham em mente a convicção de que ninguém com certa idade e instrução passara indiferente àquele momento, em tudo relevante para a França, para Europa e para Rússia. Sobretudo pela pugnacidade daquela manifestação do general francês que aduzia que “Je parle ici au nom de la France de toujours à la Russie de toujours” (...) “dans  l’Europe, de l’Atlantique à l’Oural”. [Falo aqui em nome da França de sempre à Rússia de sempre...numa Europa, do Atlântico aos Urais.].[35]

Yakovlev e Fédorovski tinham pra si que o general tinha razão e era pertinente em sua percepção peculiar da Rússia na Europa e no mundo. Brzezinski, em contraponto, erguia-se dissonante. Ele conhecia o argumento. Respeitava e tinha apreço pelo velho general. Mas discordava frontalmente de sua concepção.

Esse antigo conselheiro do presidente norte-americano era, notoriamente, multidimensionalmente, complexo. Polonês de origem, norte-americano por adoção, anticomunista em essência e russocético por convicção. Não confiava na Rússia nem nos russos. Jamais esquecera-se das cenas marcantes do calvário de Katyn.[36] Tinha algo perto de ódio de Stalin e dos soviéticos. Considerava socialistas, comunistas e esquerdistas causas perdidas. Gente mentalmente sem valor. Fazia, então, de tudo para menosprezá-los, maculá-los e intimidá-los. Era um liberal convicto. Não tinha pudor nem contrição em crispar amizades e relações para fazer sobressair essas suas posições. Era um homem de outro tempo e temperamento. Que preferia ter razão a ser feliz. Adorava provocar e divergir. Ainda mais entre amigos. Ocasião e ambiente ideais para praticar a plenitude de seu franc-parler.[37] Frente a Yakovlev e Fédorovski, ele encontrou esse momento ótimo e, nesse espírito, iniciou a sua explanação sobre a Rússia.

Primeiro condenando a integralidade da atuação russa anterior e posterior ao momento soviético. Em seguida, afirmando que norte-americanos, europeus e ocidentais, após o muro, jamais endossariam a reabilitação da Rússia no concerto de nações. Adiante, aduzindo que esses mesmos agentes – Estados Unidos, Europa e Ocidente – fariam de tudo para neutralizar a dominância russa sobretudo sobre a Eurásia. Daí, seguia o raciocínio, as razões da manutenção e a expansão insistentes da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, à Leste da Europa. Para fazer a Rússia regredir às suas fronteiras. Voltar-se para dentro e para si. Restringir-se a pretensões somente domésticas. Sem projeções além-fronteiras. Para o bem do Mundo Livre, para o bem do Ocidente, para o bem da Europa e para o bem do império norte-americano.

Yakovlev e Fédorovski acompanhavam essa peroração sem esboçar emoção. Entreolhavam-se vez ou outra tão somente para marcar posição. Simulavam algum espanto apenas como mostra de empatia. Estavam, ao fundo, emudecidos na alma. Petrificados e soterrados em seu ser. Jamais assustados. Apenas contemplando Brzezinski a auto-admirar-se. Deixando-o praticar a sua loquacidade – que era real. Permitindo-lhe sentir-se maioral, altaneiro e dono da razão. Ofertando-lhe, em suma, o que ele mais queria: palco.

Mas num instante, após muito ouvir, Yakovlev modificou o semblante. Cerrou o olhar. Franziu o cenho. Virou moldura e plasmou-se à paisagem. Tornou-se, em súbito, ausente. Introspectivo e absorto. Sequestrado em pensamentos. Típicos de gente de seu temperamento e estatura. Gente calma e alheia a sobressaltos. Vinda de mundos que não existem mais. Que faziam dele alguém impenetravelmente paciente. Com gestos mansos e superlativos de exímio hermeneuta de olhares, momentos e intenções.[38]

Yakovlev era assim: um espécime irretorquível. Político e diplomata em instinto e instrução. Conhecido no Kremlin por diable boiteux. O maior cumprimento disponível para russos como ele. Cujas qualidades – positivas e negativas – remetiam a Charles Maurice Talleyrand-Périgord (1754-1838), “le prince immobile” [príncipe imóvel], de longe o diplomata estrangeiro mais prestigiado na Rússia.[39]

Yakovlev não era, desse modo, qualquer um. Era o melhor entre os melhores. Impermeável a intimidação e manipulação. Alguém muito sólido. Entrado, sim, em anos, mas ainda muito lúcido. Com a cabeça puída das epopeias nacionais e internacionais da Rússia, da Europa e do mundo. Friamente consciente dos sucessos e infortúnios de seu país. Conhecedor profundo daquele tipo de história que não cabe em livros. Aquela história que, entre os russos, remete às longas tradições de venturas insondáveis de cossacos e mujiques imortalizados por Tolstói, Dostoiévski e Garshin aos feitos memoráveis de Ivan, o Terrível, Catarina, a Grande, Lênin e Stalin até chegar ao presidente Vladmir Putin.[40]

Quando Brzezinski silenciou, ele saiu desse transe e começou a retornar a si. Todos notaram a sua ausência e o seu retorno. Miravam-no, agora, com ansiedade e apreensão. Esperavam a sua reação. Ele era o ancião à mesa. Certamente o mais vivido e sábio. Brzezinski e Fédorovski queriam saber de sua posição diante de tanta provocação.

Nessa pressão, em segundos, ele moveu seus olhos quase marejados ao encontro dos olhos agitados de seus convivas. Fitou Brzezinski com a firmeza de quem investiga Caravaggio. Virou-se a Fédorovski com um misto de compaixão e contrição. Contemplou o vazio. Fez-se taciturno e caiu triste. Como tristes eram os presságios que povoavam a sua imaginação. Voltou à presença. Maneou a cabeça. Resistiu a grimaces. Nada em seu rosto movia. Respirou fundo. Suspirou. E lacônico, em resposta a Brzezinski, disparou sem remorso: “não tem jeito, é a guerra”.[41]

Fim do encontro e fim da partida. Findou-se o ânimo para conversar.

Solicitaram e quitaram a fatura. Deram boas recompensas aos garçons. Cumprimentaram, ao longe, o maître. Recuperaram seus costumes. Caminharam tranquilos e cabisbaixos até a saída. E despediram-se para nunca mais.

Brzezinski voltou para Washington. Yakovlev, para Moscou. E Fédorovski ficou por Paris mesmo, onde residia desde o fim da União Soviética.

Yakovlev morreu meses depois. Brzezinski viveu mais, até 2017. Fédorovski continua vivo e testemunha de que, tudo aquilo que previam, infortunadamente, aconteceu: o Ocidente seguiu inclemente com a Rússia e a Rússia reagiu: fez-se a guerra.

*

Na reunião de Munique de 2007, o presidente Vladmir Putin indicou não suportar mais aquele estado de coisas e apresentou as novas diretrizes para a ação exterior da Rússia.[42] No ano seguinte, em 2008, em consonância, a Rússia interveio na Geórgia. Em 2014, impiedosamente, ela anexou a Criméia e frações do Donbass. Adiante, ela foi em apoio à Síria do presidente Bashar al-Assad, submerso nas recorrências da Primavera Árabe.[43] De 2016 a 2021, ela interagiu, incitou e agravou a totalidade das tensões prementes com a Ucrânia, a Europa, os Estados Unidos e o Ocidente. Como consequência, o Ocidente impetrou-lhe sanções em catadupas.[44] Acuando-a como jamais se fizera depois do muro. Levando o Kremlin, em consequência, a deliberar uma intervenção em larga escala sobre a Ucrânia.[45] Tragando a Eurásia e o mundo inteiro para o desconhecido do “é a guerra”.

Uma guerra peculiar: continuação nítida da Guerra Fria, da tensão Leste-Oeste e dos despojos não superados aos pés do muro. Uma guerra singular: com a participação ativa dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Uma guerra apocalíptica: convencendo eslavos a lutar até o último homem para preservar a sua existência. Uma guerra tecnológica: com a mobilização de todas as inovações da Quarta Revolução Industrial, com destaque para drones e inteligências artificiais.

Uma guerra nitidamente do fim do mundo. Com duração espetacular: maior que da Segunda Guerra Mundial. Com mortandade expressiva: centenas de milhares em campo de batalha e dezenas de milhares de fome ou frio na Europa e na África. Com deslocamentos emigratórios impressionantes. Com choques econômicos, inflacionários, monetários e fiscais mundiais e agônicos. Com impactos políticos desconcertantes: impondo descrédito imensurável à gente de Washington, Paris, Bruxelas e Londres. Com golpes institucionais constrangedores: levando OTAN, ONU, União Europeia, BRICS e BRICS+ a simplesmente não saber o que fazer. Com impasses geopolíticos sem precedentes: pela primeira vez depois do muro a gente de Washington cogita acertar os ponteiros de seus relógios no mesmo pulsar dos ponteiros de Moscou em detrimento do resto do mundo.[46]

Uma guerra, em tudo, portanto, diabólica. Onde os fantasmas da Guerra Fria, prensados ao muro, jogam dados com o destino e brincam em jogral com a esperança dos povos. Subvertendo ao extremo aquelas máximas do general Charles de Gaulle que aludiam que “On ne doit pas jouer avec la souffrance des autres” [Não se deve brincar com o sofrimento dos outros] e que “On gouverne les hommes avec la tête. On ne joue pas aux échecs avec un bon cœur [Governam-se os homens com a cabeça. Não se joga xadrez com um bom coração].[47]

Contemplando tudo isso do leito de morte, às voltas do seu fim que dar-se-ia no 30 de agosto de 2022, o presidente Mikhail Gorbatchov (1931-2022) meditou muito sobre esses adágios do general francês. Admirador da França e do general, ele seguia, como todos, horrorizado com a sorte da Ucrânia, da Eurásia e da Rússia. Ele estava lúcido, mas parecia preferir não estar. Era-lhe impensável e insuportável o que ocorria. O fantasma de Stalin – vivo nas ações do presidente Vladmir Putin[48] – parecia visitá-lo em cada repouso e em cada solidão.

Nessa situação, o último mandatário soviético, responsável direto pela abertura do muro e pela deserção aparente do totalitarismo vermelho, simplesmente, não sabia o que fazer, pensar nem dizer. Quando, em lapsos, recordou-se de outro magnânimo francês: François Mitterrand (1916-1996). Mitterrand e ele estiveram firmes aos pés do mundo. Foram conjuntamente responsáveis pela magnitude daquele fim. Já frágil e perto de partir, em fins de 1995, o presidente socialista francês mandou-lhe dizer, através de Vladimir Fédorovski, que não esmorecesse. E complementou: “Aquilo que vocês pensaram e fizeram – a Glasnost e a Maison Commune – não pertencem ao passado, mas ao futuro. Assim como a ideia de uma Europa do Atlântico aos Urais”.[49]

François Mitterrand morreu em janeiro de 1996 com uma certa ideia do lugar da Rússia na Europa e no mundo. A presente tragédia russo-ucraniana-euroasiática evidenciava que sua ideia não prevaleceu. Resultando em golpe duro naqueles últimos suspeitos do presidente Mikhail Gorbatchov.

Havia muito que Gorbatchov sucumbia em desamor. Raisa Gorbachev (1932-1999), seu alter ego, não vivia mais. Alexander Yakovlev, seu mestre das sombras, também desertara para o além. Zbigniew Brzezinski, com quem tinha boa relação, foi-se sem mesmo despedir-se. Restando-lhe, naquela guerra entre irmãos, o desespero e a desilusão. Mas, resistindo a isso, elaborou uma última advertência e mandou espalhá-la pelo mundo. Arguiu que “sim: é a guerra. Mas é também o momento mais temerário da história da humanidade.[50]

Vladimir Fédorovski, junto dele naqueles momentos finais, recolheu a confissão e recebeu a incumbência de fazê-la chegar a Henry Kissinger (1923-2023) com urgência. O grande diplomata norte-americano do século XX deveria juntar-se a todos eles aos pés do muro para meditar sobre o significado daquela tempestade de tragédias sem fim.

No caso euroasiático, depois do muro, o lance principal ocorreu, sim, naquele anúncio do presidente Vladmir Putin em Munique em 2007. Mas o seu acelerador contumaz veio no ano seguinte, em 2008, com a eclosão da crise financeira mundial.

*

Quando da crise financeira estourou, um reputado economista norte-americano insistiu em reiterar que “this time is different” [desta vez é diferente] e parece que ele tinha razão.[51]  O mundo inteiro caiu em queda livre.[52] Todas as conformações estabelecidas após o muro desapareceram para nunca mais recomporem-se. Aqueles aspirantes a revisores do sistema internacional no frisson do 9/11 tornaram-se inquestionáveis “global powers seeking influence on global governance” [Potências globais em busca de influência sobre a governança global]; e a China, a Ásia, a Eurásia, a União Africana, BRICS e depois os MINTs – México, Indonésia, Nigéria e Turquia – reuniram-se em força para ostracizar de vez os Estados Unidos, a Europa e o Ocidente.[53]

Não foi acidente. Foi pensado.

Todos eles, naquele após 2008, pareciam agir em revanche àqueles que os deixaram de fora da História diante do muro e seguiram iludindo-os com quimeras de prosperidade depois.[54] A sua outra globalização estava, em parte, consolidada. Eles não eram mais “países de apetite”. Com o tempo, eles se afirmaram competidores implacáveis daquele mundo que Yalta, Potsdam e Bretton Woods legou.[55]

Vivia-se a quadra 2008-2011. Os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas preservavam muita força, mas estavam mais divididos que nunca. A Europa, a União Europeia e a zona do euro continuavam o espaço comercial e econômico mais dinâmico do mundo, malgrado os avanços da China pela Ásia, Oriente Médio, África e Américas. A crise do euro, a partir de 2009, destronou por completo as suas ambições sobre a construção europeia e conduziu o grupo ao estágio de unhappy union. Nos espaços africanos e médio-orientais, a agitação, após a crise financeira, ficou imensa. Não apenas pelas Primaveras Árabes. Mas, essencialmente, pelo fracasso integral da política europeia e norte-americana de harmonização da região.[56]

Aquele famoso e bonito discurso do presidente Barack Obama no Cairo, em 2009, havia virado pilhéria.[57] Da mesma maneira que aquele desastrado discurso do presidente Nicolas Sarkozy no Senegal, na prestigiosa Universidade Cheikh Anta Diop, dois anos antes, que dizia, literal e compassadamente, que “Le drame de l’Afrique, c’est que l’homme africain n’est pas assez entré dans l’histoire [O drama da África é que o homem africano não entrou suficientemente na História] foi recebido como insulto.[58]

Para ouvintes com a cabeça puída de Hegel (1770-1831), aquelas palavras do presidente francês guardariam verniz de verossimilhança. Mas à gente sofrida, de mãos e rosto puídos pela lida bruta, aquela alocução caía como imenso desrespeito e alucinação.

Da mesma forma e com o mesmo espírito, do outro lado do Atlântico, aqueles militantes do Occupy Wall Street, reunidos em solidariedades “pro”, “ante” e “alter” mundialistas, consideravam desrespeitosas, insultantes e alucinadas as manobras da administração norte-americana e da União Europeia para salvar instituições too big to fail.[59]

Tudo isso evidenciava fatos: 1989-1991 não terminou bem, o 9/11 deixou tudo muito pior, a crise financeira de 2008 eliminou todas as certezas e o segundo decênio do novo século perpetuou essa ambiência soturna e aziaga.

*

A reação maciça a esse estado de coisas veio de onde aguardava-se, mas da maneira menos desejada: veio dos Estados Unidos, com Donald J. Trump e et caterva, seus fanatismos, seus ufanismos, seu nacionalismo à cotê de la plaque, sua truculência e seu “peculiar frame of mind” [peculiar estado de espírito].[60]

À vrai dire, no entanto, as presidências de Barack Obama concluíram-se lastimáveis. O entusiasmo das eleições 2008 desapareceu quase subitamente. O impulso do Yes, we can virou rápido frustração. O sonho de um país pós-imperial e pós-racial resultou em cataclismos inimagináveis. As Obama’s wars foram tão ou mais constantes que as guerras conduzidas pelos seus antecessores. As promessas de dias bons e mundos melhores sucumbiram à concretude da vida incerta de norte-americanos e ocidentais derrotados pela globalização e fragilizados pela impotência da política.[61]

O multilateralismo à Woodrow Wilson (1856-1924), Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) e mesmo Bill Clinton, sob a presidência de Barack Obama, não passou de ilusão. O prestígio dos Estados Unidos no mundo erodiu. A intervenção internacional, chancelada pela Casa Branca, para promover um indisfarçado regime change na Líbia resultou num dos maiores sinistros humanitários desde as invasões no Iraque em 1991 e 2003. A petulância do presidente Barack Obama em fixar-se uma red line para a utilização de armas químicas e biológicas na Síria redundou na maior desmoralização de um presidente norte-americano desde tempos imemoriais. Estraçalhando, em consequência, o que restava de credibilidade da classe política e das instituições norte-americanas. Acoimando a normalidade do bipartidarismo entre republicanos e democratas no sistema partidário dos Estados Unidos e abrindo, por tudo, um vazio a ser preenchido pela incógnita. Uma incógnita que não tardou a materializar-se no corpo, na alma e nas intenções do especialista em empreendimentos imobiliários e na “arte da negociação”, Donald J. Trump.

*

Crise financeira, crise econômica, crise política, crise institucional, entropia de credibilidade, impotência presidencial de Barack Obama e sucesso eleitoral de Donald J. Trump. Não houve acaso em nada disso.

Sob a presidência de Barack Obama, o eleitor norte-americano sucumbiu à vertigem dos argentinos de 2001 que bradavam “¡Que se vayan todos! ¡Que no quede ni uno solo! [Que vão todos embora! Que não fique nem um só!], à fúria dos indignados espanhóis de 2011 que advertiam No nos representan” [não nos representam] e ao desespero dos brasileiros das noites de junho de 2013 que arguiam “não são pelos centavos”.[62] De maneira que o êxito de Donald J. Trump à Casa Branca não foi integralmente uma surpresa.

A ideia-força de sua campanha foi o “Make America Great Again” [Faça a América grande novamente], MAGA. Uma plataforma conhecida e recorrente nos Estados Unidos. Utilizada, notoriamente, por Franklin Delano Roosevelt em 1932, Richard Nixon em 1968 e Ronald Reagan em 1980, após o malaise da presidência de Jimmy Carter.[63] Que, agora, em 2015-2016, vinha renovada e reforçada por todos as inovações da Quarta Revolução Industrial, especialmente nos campos da comunicação.

Uma vez entronizado, o presidente Donald J. Trump entendeu que a maior ameaça à integridade, à soberania e ao poderio norte-americano não estava aos pés do muro, mas bem longe dali: na China.

Os sucessos chineses vinham notoriamente esplendorosos. Após ingressar na OMC em 2001, o país asiático foi multiplicando exponencialmente o seu produto. Ampliando consistentemente a sua presença no mercado e no comércio internacionais. Alterando decisivamente os fluxos de capitais para a Ásia. Deslocando o grosso das transações mundiais para os mares do Sul e do Sudoeste de seu entorno. Avançando para todos os continentes com força e determinação. Adquirindo e administrando a dívida soberana de países europeus e norte-americanos. Fornecendo empréstimos e investimentos a países esquecidos da África e das Américas. Tragando com apetite de lontra commodities de todas as partes – e também do Brasil. Até confirmar a constância de sua performance na imensa celebração dos seiscentos anos da primeira expedição do almirante Zheng He (1371-1433) em 2005.

O intuito subliminar dessas celebrações ao grande almirante chinês não era outro que afirmar que China is back e que o parêntese ocidental de dominação dos negócios do mundo estava, sim, terminando.[64]

Consoante a isso, no âmbito da gestão da crise financeira de 2008, ela juntou-se verdadeiramente aos BRICs e aos demais emerging countries, deu o tom das negociações multilaterais assentadas no G20 e acelerou a politização do acrônimo gestado pela Goldman Sachs em 2001.

Adiante, na discretíssima transição da presidência de Hu Jintao à de Xi Jinping, em fins de 2013, o país asiático apresentou o seu ambicioso projeto para o século XXI: o Silk Road Economic Belt” para integrar a economia chinesa à Ásia, ao Oriente Médio e à Europa assim como a construção de uma “21st Century Maritime Silk Road” para conectar o comércio chinês ao sudoeste asiático, ao Oriente Médio, à África e, novamente, à Europa, ligando, ao todo, do Vietnã à Indonésia ao Sri Lanka chegando ao Quênia à Itália, Alemanha, Holanda, descendo para a Grécia, Turquia, Irã, Paquistão, toda a Rússia até retornar para a China. E, em inícios de 2014, ela plasmou tudo isso na expressão “One Belt, One Road” ou, simplesmente, BRI – “Belt and Road Initiative”.[65]

Nesse entremeio todo, a presidência de George W. Bush, soterrada no Oriente Médio, não teve força para fazer frente a nada disso. A presidência de Barack Obama, imiscuída em inanição, singrou por alternativas laterais sem efeitos nem consequências. Restando ao presidente Donald J. Trump abordar o desafio em face. Não por virtude. Por necessidade. O que o condicionou a, desde os primeiros momentos de seu primeiro mandato, organizar uma verdadeira blitzkrieg ante o BRI, ante a China e ante o presidente Xi Jinping.

O primeiro nível dessa guerra implacável foi a construção de uma comunicação uniforme de negação e desmerecimento aos sucessos, antigos e recentes, da China. Consoante a isso, o secretário de estado Mike Pompeo multiplicou acusações ao BRI, indicando tratar-se de plataforma desleal. O vice-presidente Mike Pence, quando do encontro da Asia-Pacific Economic Cooperation”, APEC, incentivou os países a “do not accept foreign debt that could compromise your sovreignty. The United States deals openly, fairly. We do no offer a constrictiong belt or a one-way road”. [Não aceitem dívidas externas que possam comprometer sua soberania. Os Estados Unidos negociam de forma aberta e justa. Nós não oferecemos um cinto de aperto nem uma estrada de mão única.]. O conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, replicou denúncias de que o BRI tinha um “ultimate goal of advancing Chinese global dominance”. [Objetivo final de avançar a dominação global chinesa]. E o almirante Philip Davidson, comandante naval norte-americano no Indo-Pacífico, naturalizou a imagem de que o BRI era “a staling horse to advance Chinese security concerns”. [Um cavalo de Troia para avançar as preocupações de segurança chinesas].[66]

O segundo nível da reação foi no plano das instituições. Em outubro de 2018, o presidente Donald J. Trump assinou, assim, a lei de “Better Utilization of Investments Leading to Development”, BUILD, para criar a “Development Finance Corporation”, DFC, em substituição à antiga “U.S. Overseas Private Investment Corporation”, OPIC. Tão logo criada, a DFC recebeu um aporte de 16 bilhões de dólares adicionados à integralidade do orçamento anual da U. S. Agency for International Development, USAID, para inibir o mercado de crédito chinês e promover aportes de crédito mais flexíveis, baratos e convidativos a países e setores incorporados à zona de influência da China alcançados pelo BRI.

Além disso, a administração norte-americana ainda mobilizou o “Export-Import Bank of the United States, U.S. EXIM, para reavaliar a balança comercial dos Estados Unidos versus China.

Adiante, o Congresso norte-americano estabeleceu o “Program on China and Transformational Exports” para inviabilizar setores de tecnologias digitais relacionados à Huawei, 5G, energia renovável e fintechs.

O terceiro nível dessa blitzkrieg foi no plano político, teve início em novembro de 2019 e levou os Estados Unidos a mobilizar a Austrália e o Japão na criação do “Blue Dot Network”, BDN, para promover infraestruturas na Ásia-Pacífico. Em seguida, reuniram dezenove países latino-americanos – entre eles, Chile, Guiana, Jamaica, Panamá e Suriname – para animar o “Growth in the Americas”. Tudo para inibir a presença chinesa na Ásia, na Oceania e nas Américas.

Ainda em 2019, os norte-americanos ainda começaram a limitar a venda de semicondutores avançados e chip para a Huawei chinesa e iniciaram uma ruidosa campanha de descrédito à empresa chinesa. O que levou o secretário Mike Pompeo a anunciar, em 2020, a criação da “Clean Network” como alternativa à 5G chinesa sob a promessa de maior segurança e privacidade de dados.

O conjunto dessa estratégia também resultou no estabelecimento do programa “Power Africa”, com aporte de mais de 22 bilhões de dólares, para descontinuar a influência chinesa no continente africano.[67]

Em seguida, veio a crise sanitária. O mundo fechou-se por completo. As tensões geopolíticas precisaram arrefecer-se. Prioridades urgentes impuseram-se sob o lema do “quoi qu’il en coûte” [custe o que custar]. Consequentemente, desafios latentes simularam estar suspensos.[68]

Nesse entretempo, o presidente Joe Biden ascendeu à Casa Branca, minorou a pressão sobre a China e retornou a tônica da ação exterior norte-americana sobre a Eurásia e sobre o Oriente Médio. Como resultado – se não direto, sutilmente concreto –, logo após a crise sanitária ocorreu a precipitação da invasão russa na Ucrânia em fevereiro de 2022 e o horroroso assalto do Hamas antes Israel no 7 de outubro de 2023.

*

Mikhail Gorbatchov viveu para ver tudo isso. Só não viveu para contemplar o retorno das guerras eternas no Oriente Médio.

Do leito de morte, como visto, ele emitiu o seu espanto na forma de “sim: é a guerra. Mas é também o momento mais temerário da história da humanidade” – e fez chegar a Henry Kissinger. Mas, pensando bem, o destinatário final daquela mensagem não era só Henry Kissinger, mas, também e sobretudo, o presidente Joe Biden.

Segue incógnita se o presidente Joe Biden recebeu a mensagem. Fato foi que Donald J. Trump, derrotado em 2020, soterrado em litígios judiciais e preparando o seu regresso à Casa Branca, sinalizou, após a invasão da Ucrânia, que, eleito novamente presidente, daria prioridade ao mal-estar entre Washington e a Eurásia e solucionaria todos as querelas russo-ucranianas urgentemente, em 24 horas. “Even now I could solve that in 24 hours” [Mesmo agora, eu poderia resolver isso em 24 horas], aludiu repetidas vezes.[69]

Entretanto, de retorno ao poder em janeiro de 2025, ele tomou pé da situação e notou ser complexa demais para ser superada em tão poucas horas. Realizou contatos diretos com o presidente Volodymyr Zelensky e com o presidente Vladmir Putin. Recebeu o primeiro na Casa Branca e o segundo no Alasca. Tentou dirimir contratempos. Mas a situação manteve-se sempre mais complexa que o previsto. Especialmente porque a ação exterior norte-americana estava dispersa e submersa em muitos fronts e, com isso, sem foco. O que levou o presidente Donald J. Trump a, antes de tudo, organizar a estratégia geração da ação exterior norte-americana. O que ocorreu a partir da promulgação, em novembro de 2025, da National Security Strategy of the United States of America.[70]

Para alguns, esse documento era a reabilitação da Doutrina Monroe. Para outros, uma atualização na forma de Doutrina Donroe. Mas, analisado com cuidado, essa novo estratégia de segurança norte-americana era a síntese de um conjunto de ordenamentos uniformes e hierarquizados com propósito único de conter a China.

Poucas semanas depois de seu aparecimento aconteceu a intervenção norte-americana na Venezuela em janeiro de 2026. Um mês e pouco depois, em fins de fevereiro, houve o assalto ao no Irã. Ambas operações aparentemente dispersas. Mas, vistas pelo prisma National Security Strategy of the United States of America, tiveram o propósito de minorar a presença chinesa na América Latina e no Oriente Médio. Enquanto isso, a situação euroasiática seguiu congelada. Como numa Cold Peace. Que não avança nem retrocede. O que, novamente pelo prisma da National Security Strategy, parece fazer parte do jogo de Washington.

Note-se sobre isso que que às voltas do encontro do G7 de 2026, sediado em Évian, na França, do 15 ao 17 de junho, o núcleo das preocupações foi, sim, o conjunto de urgências advindas do Oriente Médio, do Irã e do Estreito de Ormuz. Mas a parte substantiva da discussão envolveu o martírio euroasiático. Lideranças da Europa, da União Europeia e da zona do euro avocaram-se fiadoras da Ucrânia. Em contraponto, o presidente norte-americano, em dissonância, transitou por cenários dispersos. Distantes das aspirações europeias e centrados nos interesses nacionais dos Estados Unidos que voltaram, definitivamente, a rodear a China. Não pelo receio da “armadilha de Tucidides”[71] tampouco de um post-American World.[72] Mas por razões existenciais. As hesitações norte-americanas sobre a situação euroasiática possuem razão e método.

A centena de Executive Orders firmadas imediatamente após sua segunda posse de 20 de janeiro de 2025, o remanejamento planetário de tarifas, a simulação de regime change na Venezuela, a obsessão pela Groenlândia, a mutação da qualidade da aliança transatlântica com a Europa, o aggiornamento constante vis-à-vis do Oriente Médio, os allers-retours incessantes de simpatias e repulsas vis-à-vis de Israel, a tentativa imponente de neutralização do Irã, a inconstância frequente no trato com a Ucrânia, a Rússia e o presidente Vladmir Putin, na psiquê, da nova administração norte-americana, possui como target a China. E só ela.

Tudo porque, nos corredores da Casa Branca, do Pentágono e de West Point cogita-se que, ceteris paribus, uma confrontação armada direta com a China figura no horizonte. Na eventualidade de uma monstruosidade dessa magnitude, os norte-americanos, malgrado a sua superioridade bélica, militar e tecnológica, teriam dificuldades em guerrear em dois fronts, o euroasiático e o asiático, capitaneados pela Rússia e pela China. Justamente por isso a cautela do presidente Donald J. Trump no tratamento da tragédia russo-ucraniana.

Em fato, a erupção e o prolongamento desse infortúnio euroasiático a partir de 2022 desalinharam a Rússia da Europa, dos Estados Unidos e do Ocidente e lançaram-na em confidências profundas no Oriente Médio, na Ásia e na China. Nesse sentido, a rationalia do presidente Donald J. Trump perscruta superar a problemática euroasiática com ganho de causa para a Rússia para normalizar-se as relações russo-norte-americanas e neutralizar ou fragilizar a participação da Rússia numa eventual investida sino-norte-americana ulterior.

Regendo a situação assim, o presidente Donald J. Trump parece, curiosamente, retirar a ação exterior norte-americana do tropismo do muro e levá-la para outros tempos e momentos. Tempos e momentos decisivos. Que envolveram a neutralização do Reich de Hitler e a contenção do totalitarismo de Stalin. 1940 portanto. Quando a conjunto de estratégias dominantes foi pensado e aplicado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt de 1941, pelos generais George Marshall (1880-1959), Dwight D. Eisenhower (1890-1969) e Douglas MacArthur (1880-1964) de 1942 a 1945 e pelo diplomata George Kennan (1904-2005) de 1946 até o fim da vida.[73]

Voltando no tempo, desde a queda de Paris em 1940 e o rompimento do pacto germano-soviético em meados 1941 que o presidente Roosevelt começou a confiar ao primeiro-ministro Winston Churchill da impossibilidade de vencer-se Hitler sem o apoio de Stalin. Churchill sempre resistiu a essa tese. Mas, ao fim das contas, essa postura imperou e os acontecimentos futuros deram razão ao presidente norte-americano.

Os desembarques dos aliados na África, no Mediterrâneo e na Normandia, seriam, no conjunto, inócuos sem a fúria sanguinária do Exército Vermelho contendo e acoimando Wehrmacht no front Leste. A libertação de Paris e Roma em 1944, mais à frente, seria mais incerta sem o Reich sangrando hemorrágico no inferno germano-soviético. A rendição integral do Japão e da Ásia seria muito mais humanamente custosa sem a aliança indigesta com a China de Chiang Kai Shek (1887-1975). A contenção da União Soviética, estacionada em Berlim desde 1945, seria praticamente impossível sem os alertas do The Charge in the Soviet Union to the Secretary of State – doravante, Longo Telegrama – de George Kennan, da formulação do Plano Marshall também idealizada por George Kennan e da criação da OTAN projetada e negociada também por George Kennan e George Marshall incorporados a Dean Acheson (1893-1971), Lester Pearson (1897-1972) e Paul-Henri Spaak (1899-1972).[74]

O presidente Donald J. Trump parece inspirar-se nessa sequência daqueles momentos de guerra e após-guerra para antecipar a reação norte-americana diante de um possível confronto com a China. Fazendo assim, ele parece recuperar a essência da inquietação do presidente Mikhail Gorbatchov e os fundamentos da percepção de George Kennan sobre o lugar da Rússia na Eurásia e no mundo.

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Mikhail Gorbatchov nem George Kennan participaram pessoa daquele convescote do verão de 2005 em Paris, mas estiveram em espírito. Ambos também tinham os pés fincados no muro e viam o mundo de modo peculiar. Como Raymond Aron e Henry Kissinger, acentuavam a fruição do trágico na vida e do trágico na História. Entendiam que, por pouco, o totalitarismo nazifascista não venceu o Mundo Livre na Segunda Guerra Mundial e, por pouco, o totalitarismo soviético não virou hegemônico no mundo inteiro após 1945. Esse quase jamais desertou do espírito de Gorbatchov nem Kennan. Até o fim de suas vidas eles dois seguiram ciosos da imperiosidade do mal. Por tudo isso, Kennan, mais que qualquer outro, levava às últimas consequências as premissas do general Charles de Gaulle sobre “uma Rússia de sempre” – superior e diferente daquela Rússia do momento soviético – e um sobre uma “Europa, do Atlântico aos Urais” – com a integração e normalização totais da Eurásia ao espaço europeu. Considerava ser a única forma de equilíbrio duradouro na região e no mundo.[75] A ideia de “Casa Comum” ia no mesmo sentido. Propondo o reconhecimento tácito da integração física, humana e espiritual de todo o eixo do Atlântico aos Urais. Conduzindo Tolstói, Tchaikovsky e Dostoievski a integrar o banquete com Dante, Shakespeare, Camões, Goethe, Flaubert e Fernando Pessoa.[76]

Essas opções estiveram presentes aos pés do muro. Henry Kissinger e George Kennan, entre outros, advogaram fortemente por elas. Aduziam que o Ocidente, a Europa e os Estados Unidos precisariam de prudência redobrada no tratamento da Rússia que nascia após o totalitarismo soviético. Não era uma Rússia qualquer. Era a Rússia de sempre. Um urso adormecido que, desperto, tenderia a tornar-se indomável e, como sempre, disposto a lutar até o último homem para salvaguardar a sua dignidade. Como se deu ante Napoleão e ante Hitler.

O presidente Mikhail Gorbatchov, o presidente François Mitterrand e o chanceler Helmut Kohl seguiam em linha com essas premissas de Kissinger e Kennan. Entretanto, o presidente Ronald Reagan dos Estados Unidos e a primeiro-ministro Margareth Thatcher do Reino Unido eram visceralmente contrários a essa solidariedade ocidental e europeia à Rússia. Aquele “Mr. Gorbatchov, tear down this wall” [Sr. Gorbatchov, derrube este muro] do presidente Ronald Reagan em 1987 em Berlim deu o tom de todo o arrivismo europeu e norte-americano contrário à Rússia após o muro. George Kennan percebeu rápido a manobra e advertiu que, naquele momento, a não integração da Eurásia ao Ocidente representava o maior equívoco do Ocidente desde a crucificação de Jesus Cristo.[77]

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Donald J. Trump talvez não disponha da sapiência nem da agudeza de George Kennan. Mas ele parece convencido de que, sim: “é a guerra”; sim: vive-se o “o momento mais temerário da história da humanidade” e sim: foi um imenso equívoco a não integração da Eurásia à Europa.

George Kennan tinha, então, razão em seu desespero. Mas ia além. Como bom leitor dos escritos do cardeal Richelieu, ele advertia que “L’homme est immortel ; son salut est dans l’au-delà. L’État n’a pas d’immortalité ; son salut, c’est maintenant ou jamais.” [O homem é imortal; sua salvação está no além. O Estado não tem imortalidade; sua salvação é agora ou nunca.].[78] Essa advertência participou de seus últimos presságios sobre o meio internacional. Poucos ouviram e deram valor. Por conseguinte, agora, todos precisam decidir como operar esse “agora ou nunca”.

Foram os últimos presságios de George Kennan. Que também encetava que “forms of government are forged mainly in the fire of practice, not in the vacuum of theory. They respond to national character and to national realities” [As formas de governo são forjadas principalmente no fogo da prática, e não no vazio da teoria. Elas respondem ao caráter nacional e às realidades nacionais.][79] Restando, agora, aos bons ouvidos, ouvir.

                                                                                         



[1] O conjunto desse encontro, com suas motivações e revelações, vai narrado em FÉDOROVSKI, Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin: Le vrai magicien de Moscou. Paris: Balland, 2026. Mas vide também FÉDOROVSKI, Vladmir. Les hommes de l’ombre, de Raspoutine à nous jours. YouTube – canal Paix et Guerre, 20 jun. 2026. 1 vídeo (1h21min). Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=l7odHrVpQcc . Acesso em : 20 jun. 2026.

[2] Os principais feitos de Alexander Yakovlev registrados em livros podem ser encontrados em YAKOVLEV, Alexander. USSR the Decisive Years. New York: First Glance Books, 1991. YAKOVLEV, Alexander. The Fate of Marxism in Russia. New Haven: Yale University Press, 1993.YAKOVLEV, Alexander. Century of Violence in Soviet Russia. New Haven: Yale University Press, 2002. YAKOVLEV, Alexander. Digging Out: How Russia Liberated Itself from the Soviet Union. New York: Encounter Books, 2004. Zbigniew Brzezinski produziu obra imensa e diversa. Distribuída em muitos livros, artigos, relatórios e depoimentos a casas parlamentares. Entre os seus principais livros, merecem destaque BRZEZINSKI, Zbigniew. The Permanent Purge: Politics in Soviet Totalitarianism. Cambridge: Harvard University Press, 1956. BRZEZINSKI, Zbigniew. Power and Principle: Memoirs of the National Security Adviser, 1977-1981. New York: Farrar, Strauss, Giroux, 1983. BRZEZINSKI, Zbigniew. Grand Failure: The Birth and Death of Communism in the Twentieth Century. New York: Charles Scribner's Sons, 1989. BRZEZINSKI, Zbigniew. Out of Control: Global Turmoil on the Eve of the 21st Century. New York: Collier, 1993. BRZEZINSKI, Zbigniew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives. New York: Basic Books, 1997. Vladimir Fédorovski, serviu sucessivas presidências soviéticas como diplomata, emigrou para a França no fim da União Soviética, tornou-se escritor, jornalista e romancista, publicou dezenas de obras, várias delas best sellers mundiais. Suas obras de referência para este relato são aquelas de cunho histórico-memorialístico, entre as quais se destacam FÉDOROVSKI, Vladimir. Le fantôme de Staline. Paris: Rocher, 2007. FÉDOROVSKI, Vladimir. Poutine, l’itinéraire secret. Paris: Rocher, 2014. FÉDOROVSKI, Vladimir. Poutine et l’Ukraine : les faces cachées. Paris: Balland, 2022. FÉDOROVSKI, Vladimir. Staline & Poutine, dialogues d’outre-tombe. Paris: Balland, 2024. FÉDOROVSKI, Vladimir. Le Roman vrai de Gorbatchev. Paris: Flammarion, 2021. FÉDOROVSKI, Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin: Le vrai magicien de Moscou. Paris: Balland, 2026.

[3] FONTANA I LÀZARO, Josep. Para el bien del imperio. Barcelona: Passado & Presente, 2011. HOBSBAWM, Eric J. The Age of Extremes: A History of the World, 1914-1991. London: verso, 1995. JUDT, Tony. Post-War: a history of Europe since 1945. London: Penguin, 2006. SOUTOU, George-Henri. La guerre froide – 1943-1900. Paris: Pluriel, 2010.

[4] GOURDANT-MONTAGNE, Maurice. Les autres ne pensent pas comme nous. Paris: Bouquins, 2023.

[5] HOBSBAWM, Eric. Interesting times: a twentieth-century life. London: Knopf, 2007.

[6] HOBSBAWM, Eric. On history. London: New Press, 2007.

[7] HOBSBAWM, Eric. On history. London: New Press, 2007.

[8] HARTLEY, L. P. The Go-Between. New York: New York Review of Books, 2002.

[9] VÉDRINE, Hubert. Face à hyperpuissance. Paris: Fayard, 2003.

[10] GADDIS, John Lewis. The cold war: a new history. Nova Iorque: Penguin, 2005. FONTAINE, André. La guerre froide, 1917-1991. Paris: la martinière, 2004.

[11] The 9/11 Commission Report. National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States (Public law 107-306, November 27, 2002).

[12] HEISBOURG, François (Org.). Annuaire stratégique et militaire, 2006-2007. Paris: Odile Jacob, 2007.

[13] FUKUYAMA, Francis. The End of History and the Last Man. New York: Free press, 1992. HUNTINGTON, Samuel P. The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. New York: Simon & Schuster, 1996.

[14] FONTANA I LÀZARO, Josep. El futuro es un país extraño: una reflexión sobre la crisis social de comienzos del siglo XXI. Barcelona: Passado & Presente, 2013.

[15] HOBSBAWM, Eric. O novo século – entrevista a Antonio Polito. Trad. Claudio Marcondes. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

[16] FONTANA I LÀZARO, Josep. Para el bien del imperio. Barcelona: Passado & Presente, 2011.

[17] HERRING, George C. From Colony to Superpower: U.S. Foreign Relations since 1776. New York: Oxford University Press, 2008. LUTTWAK, Edward N. Strategy – The logic of war and peace. Boston: Harvard University Press, 2002. SOUTOU, Georges-Henri. La guerre froide, 1943-1990. Paris: Pluriel, 2011.

[18] BADIE, Bertrand. L’impuissance de la puissance – Essai sur les nouvelles relations internationales. Paris : Fayard, 2004. BADIE, Bertrand. La diplomatie de connivence: les dérives oligarchiques du système international. Paris: Editions la couverte, 2011.

[19] MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.

[20] JACQUES, Martim. When China Rules the World: The End of the Western World and the Birth of a New Global Order. London: Penguin, 2012.

[21] KISSINGER, Henry. On China. New York: Penguin, 2011.

[22] GAUCHON, Pascal (coord.). Le mondemanuel de géopolitique et de géoéconomie. Paris: Puf, 2008. pp. 799-846.

[23] MAHBUBANI, Kishore. The Asian 21st Century – China and Globalization. London: Springer, 2022.

[24] Salvo melhor juízo, a expressão “países monstros” foi originalmente apresentada por George Kennan em KENNAN, George. Around the Cragged Hill: A Personal and Political Philosophy. New York: W. W. Norton, 1994

[25] GAUCHON, Pascal (coord.). Le mondemanuel de géopolitique et de géoéconomie. Paris: Puf, 2008. pp. 799-846.

[26] MINC, Alan. La mondialisation heureuse. Paris: Plon, 1997.

[27] TODOROV, Tzvtan. La peur des barbares: au-deà du choc des civilisations. Paris: Robert Laffont, 2008.

[28] O’NEILL, Jim. Building Better Global Economic BRICs. Goldman Sachs Co., 23/nov./2001.

[29] PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. A ascensão do Sul [Relatório]. New York: PNUD, 2014.

[30] FOUCHER, Michel. La bataille des cartes: analyses critiques des visions du monde. Paris: Bourin éditeur, 2011.

[31] Vide União Africana. Disponível em : https://au.int/en/overview . Consultado em : 10 de junho de 2026.

[32] GAUCHON, Pascal (coord.). Le mondemanuel de géopolitique et de géoéconomie. Paris: Puf, 2008. pp. 847-876.

[33] FÉDOROVSKI, Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin: Le vrai magicien de Moscou. Paris: Balland, 2026.

[34] VAÏSSE, Maurice. De Gaulle et la Russie. Paris: CNRS, 2012.

[35] DE GAULLE, Charles. Lettres, notes et carnets, janvier 1964-juin 1966. Paris : Plon, 1987.

[36] O Massacre de Massacre de Katyn foi a execução em massa de cerca de 22 mil cidadãos poloneses pela polícia secreta soviética, a NKVD, na primavera de 1940, por ordem da liderança da União Soviética. Entre as vítimas estavam principalmente oficiais do Exército polonês, além de policiais, intelectuais, professores, médicos, engenheiros, advogados e funcionários públicos. Vide DAVIS, Norman. O levante de 44 – A batalha por Varsóvia. Trad. Maria Beatriz Medina. Rio de Janeiro: Record, 2006.

[37] VAÏSSE, Justin. Zbigniew Brzezinski: America’s Grand Strategist. Cambridge: Harvard University Press, 2008.

[38] FÉDOROVSKI, Vladmir. Les hommes de l’ombre, de Raspoutine à nous jours. YouTube – canal Paix et Guerre, 20 jun. 2026. 1 vídeo (1h21min). Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=l7odHrVpQcc . Acesso em : 20 jun. 2026.

[39] Sobre Charles Maurice Talleyrand-Périgord (1754-1838) vide WARESQUIEL, Emmanuel de. Talleyrand, le prince immobile. Paris: Fayard, 2003.

[40] FÉDOROVSKI, Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin: Le vrai magicien de Moscou. Paris: Balland, 2026. Mas vide também FÉDOROVSKI, Vladmir. Les hommes de l’ombre, de Raspoutine à nous jours. YouTube – canal Paix et Guerre, 20 jun. 2026. 1 vídeo (1h21min). Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=l7odHrVpQcc . Acesso em : 20 jun. 2026.

[41] O conjunto dessas confissões vai contido em FÉDOROVSKI, Vladmir. Le diable boiteux au Kremlin – Le vrai magicien de Moscou. Paris: Balland, 2026.

[42] PUTIN, Vladmir. Speech and the Following Discussion at the Munich Conference on Security Policy. Munich, 2007. Disponível em : http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/24034 . Acesso em : 05 de julho de 2026.

[43] MEARSHEIMER, John J. Why the Ukraine Crisis Is the West’s Fault The Liberal Delusions That Provoked Putin. Foreing Affairs, pp. 1-13, sept.-oct. 2014.

[44] BORDACHEV, Timofei. The World Majority and Its Interests. Moscou, Valdaiclub, 2024.

[45] Vide SEGRILLO, Angelo. A guerra da Ucrânia: repercussões historiográficas no contexto da questão nacional. Revista Brasileira de História, n. 43, vol.94, Sep.-Dec., 2023.

[46] FOUCHER, Michel. Ukraine : une guerre coloniale en Europe. Paris: L’Aube, 2022.

[47] DE GAULLE, Charles. Lettres, notes et carnets, janvier 1964-juin 1966. Paris : Plon, 1987. PEYREFITTE, Alain. C’était de Gaulle. Paris : Fayard, 1994.

[48] FÉDOROVSKI, Vladimir. Le fantôme de Staline. Paris: Rocher, 2007.

[49] VÉDRINE, Hubert. Dans les mondes de François Mitterrand – 1981-1995. Paris: Fayard, 1996. pp. 369-590.

[50] FÉDOROVSKI, Vladmir. Les hommes de l’ombre, de Raspoutine à nous jours. YouTube – canal Paix et Guerre, 20 jun. 2026. 1 vídeo (1h21min). Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=l7odHrVpQcc . Acesso em : 20 jun. 2026.

[51] ROGOFF, Kenneth S. & REINHART, Carmen M. This time is different. Eigth centuries of financial folly. Princeton: Princeton University Press, 2009.

[52] STIGLITZ, Joseph E. O mundo em queda livre – Os Estados Unidos, o Mercado e o naufrágio da economia mundial. Trad. José Viegas Filho. São Paulo: Cia das Letras, 2010.

[53] TRINKUNAS, Harold. Brazil’s rise: seeking influence on global governance. Washington: Brookings Institution, 2014.

[54] FRANK, Robert (dir.). Pour l’histoire des relations internationales. Paris: PUF, 2012. p. XII.

[55] TERTRAIS, Bruno. Le piège du Sud Global. Grand Continent, 3 octobre 2023.

[57]I've come here to Cairo to seek a new beginning between the United States and Muslims around the world, one based on mutual interest and mutual respect, and one based upon the truth that America and Islam are not exclusive and need not be in competition. Instead, they overlap, and share common principles - principles of justice and progress; tolerance and the dignity of all human beings”. [Vim ao Cairo para buscar um novo começo nas relações entre os Estados Unidos e os muçulmanos de todo o mundo, alicerçado no interesse recíproco e no respeito mútuo, bem como na convicção de que os Estados Unidos e o Islã não são incompatíveis nem precisam estar em oposição. Pelo contrário, possuem pontos de convergência e compartilham princípios fundamentais: a justiça, o progresso, a tolerância e a dignidade de todos os seres humanos]. Vide. OBAMA, Barack. A new beginning. Cairo, June 4, 2009. Disponível em: https://obamawhitehouse.archives.gov/issues/foreign-policy/presidents-speech-cairo-a-new-beginning . Acesso em : 06 de julho de 2026.

[58] SARKOZY, Nicolas. Discours de Monsieur Nicolas SARKOZY Président de la République française Université de Dakar - Sénégal Jeud 26 Julllet 2007. Disponível em : https://www.dailymotion.com/video/xc7llj . Acesso em : 05 de julho de 2026.

[59] SORKIN, Andew Ross. Too Big to Fail: The Inside Story of How Wall Street and Washington Fought to Save the Financial System and Themselves. New York: Penguin, 2010.

[60] WOODWARD, Bob. Fear: Trump in the White House. New York: Simon & Schuster, 2018.

[61] WOODWARD, Bob. Obamas wars. New York: Simon & Schuster, 2010.

[62] REMNICK, David. A ponte: vida e ascensão de Barack Obama. Trad. Celso Nogueira e Isa Mara Londo. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. OBAMA, Barack. A Promised Land. New York: Crown, 2020.

[63] FRIEDMAN, Jeffrey & FRIEDMAN, Shterna. Rethinking the rhetorical presidency. New York: Routledge, 2012.

[64] HEISBOURG, Fraçois. L’épaisseur du monde. Paris: Stock, 2007. MAHBUBANI, Kishore. The Asian 21st Century – China and Globalization. London: Springer, 2022.

[65] LEW, Jacob J. & ROUGHEAD, Gary. China’s Belt and RoadIndependent task force n. 79. New York: Council on Foreign Relations, 2025. pp. 8-11.

[66] LEW, Jacob J. & ROUGHEAD, Gary. China’s Belt and RoadIndependent task force n. 79. New York: Council on Foreign Relations, 2025. p. 84.

[67] LEW, Jacob J. & ROUGHEAD, Gary. China’s Belt and RoadIndependent task force n. 79. New York: Council on Foreign Relations, 2025.pp. 82-87.

[68] VÉDRINE, Hubert. Et après. Paris: Fayard, 2020.

[69] Donald J. Trump iniciou a utilização dessa expressão em seus comícios de pré-campanha em 2023. Em New Hampshire, ele fizera a manifestação mais direta. Aludindo que “Even now I could solve that in 24 hours” [Mesmo agora, eu poderia resolver isso em 24 horas]. Vide Comício de New Hampshire. Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=9V-KLYQ8Nmw . Acesso em: 05 de julho de 2026.

 

[70] WHITE HOUSE. National Security Strategy of the United States of America. Washington, novembro de 2025.

[71] ALLISON, Graham. Destined for War: Can America and China Escape Thucydides's Trap?. New York: Houghton Mifflin, 2017.

[72] ZAKARIA, Fareed. The Post-American World. New York and London: W. W. Norton & Company, 2008.

[73] KENNAN, George. Memórias – 1925-1950. Trad. Vera Giambastiani. Rio de Janeiro: Topbooks, 2014.

[74] BEEVOR, Antony. The second world war. London: Weidenfeld & Nicolson, Phoenix, 2012. BUTLER, J. R. M. History of the Second World War. Grande Strategy. London, Her Majesty’s Stationery Office, 1957-1972. 6 vols. FRANK, Robert & AGLAN, Alya. 1937-1947 – La guerre-monde I. Paris : Gallimard, 2015. LIDDELL HART, B. H. History of the Second World War. London: Cassell, 1970.

[75] KENNAN, George. Memórias – 1925-1950. Trad. Vera Giambastiani. Rio de Janeiro: Topbooks, 2014.

[76] KISSINGER, Henry. World order – reflections on the character of nations and the course of History. New York: Alan Lane, 2014.

[77] Apud FÉDOROVSKI, Vladmir. Les hommes de l’ombre, de Raspoutine à nous jours. YouTube – canal Paix et Guerre, 20 jun. 2026. 1 vídeo (1h21min). Disponível em : https://www.youtube.com/watch?v=l7odHrVpQcc . Acesso em : 20 jun. 2026.

[78] Apud KISSINGER, Henry. World order – reflections on the character of nations and the course of History. New York: Alan Lane, 2014. p. 22.

[79] KENNAN, George F. American Diplomacy: Sixtieth-anniversary expanded edition. Chicago: University of Chicago Press, 2012. p. 142.

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