segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A nova estratégia militar americana para a AL: imperialismo puro - Danuzio News

 Uma geopolítica muito elementar essa que figura abaixo, parece retirada de alguma cartilha primária dos velhos tempos do colonialismo brutal. Mas tem quem acredita, e tem quem pratique. PRA

Nova doutrina militar dos EUA coloca América Latina como alvo estratégico — Brasil deveria recuar

Autor:Joana Buás
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Danuzio News 7/09/2025

https://danuzionews.com/post/nova-doutrina-militar-dos-eua-coloca-america-latina-como-alvo-estrategico-brasil-deveria-recuar


Uma informação exclusiva da POLITICO, divulgada nesta sexta-feira (05), revela que o Pentágono está reformulando completamente sua Estratégia Nacional de Defesa. Pela primeira vez em décadas, os Estados Unidos vão priorizar a proteção do território americano e do Hemisfério Ocidental acima de confrontos com potências como China e Rússia.

Isso representa uma guinada histórica. Desde o primeiro governo Trump, em 2018, a dissuasão da China no Pacífico estava na vanguarda dos esforços do Pentágono. Agora, Washington decidiu concentrar recursos avançados "mais perto de casa", ou seja, aqui na América Latina. A mensagem é clara: este continente é prioridade número um dos Estados Unidos. Os Estados Unidos darão atenção para a sua Zona de Influência.

Para quem acompanha geopolítica, essa mudança significa que a América Latina se tornou oficialmente o quintal estratégico americano. E isso não é só teoria - já está acontecendo na prática.

Esse movimento está gerando muitas reações entre analistas e políticos. E aqui surge uma contradição fundamental que expõe a hipocrisia de muitos analistas e políticos brasileiros. Durante os últimos anos, ouvimos justificativas elaboradas para ações militares de potências autoritárias:

Quando a Rússia invade a Ucrânia, a narrativa é: "A OTAN estava se expandindo, Moscou tinha que defender sua zona de influência". Quando a China ameaça Taiwan, argumentam: "Taiwan sempre foi território chinês, Pequim tem direitos históricos".

Mas agora que os Estados Unidos estão militarizando o Caribe e estabelecendo controle estratégico na América Latina, onde estão essas mesmas vozes? Por que o conceito de "zona de influência" serve para justificar invasões na Europa Oriental, mas vira "imperialismo" quando aplicado no Hemisfério Ocidental?

O Brasil cavou a própria cova

O governo Lula transformou o Brasil em um dos maiores provocadores dos Estados Unidos na região. A lista de confrontos diretos é impressionante:

  • Recebeu navios de guerra do Irã, país considerado terrorista pelos americanos
  • Permitiu a entrada de aviões russos sancionados internacionalmente
  • Defendeu publicamente a posição russa na invasão da Ucrânia
  • Liderou a proposta anti-dólar: junto com Rússia e Irã, promoveu a criação de moedas alternativas para escapar do sistema financeiro americano - algo que Washington interpreta como declaração de guerra econômica
  • Intensificou aproximação militar com a China: enviou oficiais superiores como adidos militares para Pequim e o conselheiro Celso Amorim anunciou ampliação da cooperação militar chinesa, justamente quando os EUA estão em guerra comercial com os chineses

Era previsível que haveria consequências. Quando um país médio desafia abertamente a superpotência regional, convidando seus principais rivais estratégicos e tentando minar sua moeda, a resposta vem na forma de projeção de poder militar. O resultado? O Brasil perdeu completamente a capacidade de influenciar os rumos regionais e se tornou coadjuvante na própria vizinhança.

A resposta militar americana

A nova estratégia americana já se materializa em operações concretas:

  • 10 caças furtivos F-35 foram enviados para Porto Rico
  • Uma grande força-tarefa naval destacada para o Caribe, incluindo destróieres classe Arleigh Burke e o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima
  • Mais de 4.500 militares estão operando na região
  • Aviões de reconhecimento TC-135W realizam guerra eletrônica e coleta de inteligência
  • Um ataque militar americano matou 11 membros da gangue venezuelana Tren de Aragua em águas internacionais
  • Ordem de abate em caso de aeronave de ataque se aproxime de navios de guerra

Esta não é uma operação antidrogas comum. É uma demonstração de força direcionada a todos os atores regionais - especialmente aqueles que flertam com potências rivais.

A lei da Realpolitik*

Nas relações internacionais, vigora uma regra simples: superpotências fazem o que podem, potências médias fazem o que devem. Não existe tribunal internacional capaz de controlar grandes potências quando seus interesses vitais estão em jogo.

Mas existe uma dinâmica ainda mais brutal: superpotências com armas nucleares e força militar superior não fazem pedidos - fazem ofertas que não podem ser recusadas. Quando uma potência hegemônica "convida" países de sua região a se comportarem, a diferença entre convite e ameaça é puramente semântica.

O que essas potências exigem é sempre o mesmo:

  • Reconhecimento de sua hegemonia na zona que consideram sua
  • Alinhamento ou pelo menos neutralidade dos países vizinhos
  • Acesso econômico e controle de recursos estratégicos
  • Não-interferência de potências rivais em sua esfera
  • Bases militares ou acordos de segurança quando julgam necessário

Se não forem obedecidas, seguem um roteiro previsível:

  • Primeiro escalão (pressão): Sanções econômicas, isolamento diplomático, bloqueio de tecnologias críticas, pressão sobre aliados do país "desobediente".
  • Segundo escalão (coerção):Demonstrações de força militar, apoio a grupos de oposição internos, desestabilização econômica, ciberataques.
  • Terceiro escalão (força):Intervenções militares "limitadas", mudanças de regime, ocupação territorial, guerra total em casos extremos.

A militarização americana do Caribe expõe essa incoerência de forma brutal. Se você realmente acredita que grandes potências têm legitimidade para usar força militar em defesa de seus interesses estratégicos, então deve aceitar quando os Estados Unidos fazem isso na América Latina.

Se considera isso "imperialismo americano", então deveria usar o mesmo critério para avaliar invasões russas ou ameaças chinesas. Não existe justificativa moral para dois pesos e duas medidas.

A questão não é se essas ações são certas ou erradas em termos absolutos. É sobre consistência: ou o conceito de zona de influência justifica uso da força para todas as superpotências, ou não justifica para nenhuma.

As consequências da incoerência

Essa contradição intelectual tem custos reais para o Brasil:

Perda de influência regional: Outros países latino-americanos percebem que o Brasil não consegue nem defender seus próprios interesses, quanto mais liderar a região.

Isolamento estratégico: Ficamos sem aliados confiáveis. Os americanos perderam a confiança, enquanto russos e chineses nos veem apenas como peça no tabuleiro geopolítico.

Pressões econômicas: Já enfrentamos sanções.

Marginalização diplomática: O Brasil deixou de ser um ator relevante nas decisões que afetam a própria região e passa a ter autoridades com restrições de vistos e sancionadas.

A disputa real: EUA vs China

Apesar de toda a retórica sobre "multipolaridade", a disputa na América Latina se resume a dois players principais: Estados Unidos (superpotência estabelecida) versus China (superpotência emergente). A Rússia está perdendo sua capacidade de projeção geopolítica até mesmo no seu entorno imediato.

A nova estratégia americana reconhece essa realidade. Ao focar no Hemisfério Ocidental, Washington manda uma mensagem direta para Pequim: "Este continente é nosso. Mantenham distância". Países como o Brasil precisam entender que não há terceira via confortável nessa disputa. Tentativas de equilibrar entre grandes potências rivais geralmente terminam com pressão de ambos os lados.

O mundo sempre funcionou pela lógica do poder. Impérios romano, mongol, britânico, americano - todos expandiram influência usando força quando necessário. A diferença hoje é que temos duas superpotências disputando espaço global, com atores menores tentando navegar entre elas.

"Multipolaridade" não significa igualdade entre nações. Significa que agora existe uma superpotência estabelecida enfrentando uma emergente, criando instabilidade global enquanto definem suas respectivas esferas de influência.

A conta chegou

O governo brasileiro apostou que poderia desafiar os Estados Unidos sem consequências, enquanto se aproximava da China. Essa estratégia ignorou uma realidade fundamental: na América Latina, quem manda são os americanos. Agora Washington está demonstrando isso na prática. Os Estados Unidos mostrarão sua força militar para deixar claro quem controla a região e enviar um recado direto aos competidores externos. 

As Opções do Brasil e da América Latina

A militarização americana do Caribe força uma escolha inevitável para os países da região. Existem basicamente três caminhos possíveis:

  • Alinhamento estratégico com os EUA: Reconhecer a realidade geopolítica e reconstruir parcerias tradicionais com Washington. Isso significa afastar-se de regimes autoritários, cooperar em questões de segurança regional e aceitar a liderança americana no hemisfério. Em troca, os países ganhariam acesso preferencial ao mercado americano, tecnologia militar e proteção contra ameaças externas.
  • Resistência confrontativa: Manter o atual curso de aproximação com China e Rússia, desafiando abertamente a hegemonia americana. Essa opção implica aceitar escaladas militares, pressões econômicas crescentes e possível isolamento internacional. Países que escolhem esse caminho precisam estar preparados para as consequências.
  • Neutralidade pragmática: Tentar equilibrar relações sem provocar diretamente nenhuma superpotência. Isso exige diplomacia extremamente habilidosa e disposição para fazer concessões a todos os lados quando necessário. O Brasil e a Índia eram tradicionalmente adeptos dessa posição, mas estão mudando essa postura.

As consequências de não escolher

Para o Brasil especificamente, continuar na atual política de provocação aos Estados Unidos sem ter poder para sustentar o confronto levaria a cenários cada vez mais perigosos:

  • Escalada da pressão militar: Washington pode aumentar a presença militar no Caribe e estabelecer bases permanentes em países vizinhos, isolando completamente o Brasil da influência regional.
  • Isolamento econômico: Sanções mais severas, exclusão de sistemas financeiros internacionais e perda de acesso a tecnologias críticas.
  • Fragmentação regional: Outros países latino-americanos podem escolher se alinhar diretamente com os EUA, deixando o Brasil sozinho em sua resistência.
  • Intervenção indireta: Os americanos podem apoiar atores internos brasileiros alinhados com seus interesses, criando instabilidade política doméstica.

A realidade inescapável

A geopolítica não perdoa wishful thinking*, e os números expõem a brutal desproporção de forças na região.

Brasil vs EUA: David sem funda contra Golias

Embora o Brasil seja o 12º país em força militar mundial e o mais poderoso da América Latina, isso é irrelevante contra os Estados Unidos. Os números são devastadores:

  • Orçamento militar: EUA gastam US$ 900 bilhões anualmente; Brasil investe US$ 27,8 bilhões
  • Capacidade real: O Exército americano é 30 vezes mais rico que o brasileiro
  • Arsenal nuclear: EUA possuem 5.800 ogivas nucleares; Brasil: zero
  • Estrutura militar: 78% dos gastos militares brasileiros vão para folha de pagamento, não equipamentos

Mesmo com toda a América Latina unida, seria como uma gangue de bairro enfrentando um exército profissional. A região toda teve gastos militares negativos em 2024, exceto Colômbia e Chile.

China e Rússia: falsos protetores

A pergunta que muitos fazem - "China e Rússia não podem socorrer o Brasil?" - tem uma resposta direta: NÃO.

Por que Pequim e Moscou não vão ajudar militarmente:

  • Distância geográfica: Nem China nem Rússia têm frota capaz de sustentar operações militares prolongadas a 15.000 km de distância contra os EUA em seu próprio quintal
  • Interesse puramente estratégico: Nos usam como peças no tabuleiro geopolítico, não como aliados vitais pelos quais vale arriscar guerra nuclear
  • Custo-benefício: Por que Pequim ou Moscou arriscariam confronto direto com os EUA para defender o Brasil?

A realidade é que somos úteis para irritar os americanos, mas não somos importantes o suficiente para que alguém nos defenda militarmente.

Se Lula dobrar a aposta: as consequências para a população

Se o governo brasileiro escalar ainda mais as provocações aos EUA, a população enfrentaria:

Colapso econômico: Exclusão do sistema financeiro SWIFT, embargo comercial total, fuga massiva de capitais, desemprego em massa, hiperinflação.

Isolamento internacional:Exclusão de organismos internacionais, rompimento diplomático com aliados tradicionais, impossibilidade de viajar para países aliados dos EUA.

Desabastecimento: Falta de combustível (refinarias dependem de tecnologia americana), escassez de medicamentos importados, colapso no setor de tecnologia.

Instabilidade interna: Protestos massivos contra o governo, pressão militar interna para mudança de rumo, possível apoio americano a grupos de oposição.

O Brasil provocou a superpotência regional sem ter recursos para sustentar o confronto. Não temos armas nucleares para dissuasão, economia autossuficiente, aliados dispostos a enfrentar os EUA por nós, nem geografia que nos proteja da pressão americana.

A matemática é brutal: se continuarmos provocando os EUA, enfrentaremos o mesmo destino de Cuba, Venezuela ou Irã - um país pária internacional, economicamente destruído. A diferença é que somos muito maiores, então nosso sofrimento seria proporcionalmente maior.

A América Latina está sendo reorganizada militarmente pelos Estados Unidos. Países que se adaptarem a essa realidade manterão alguma margem de manobra. Aqueles que insistirem em desafiar o poder americano sem capacidade real de resistência descobrirão que superpotências fazem exatamente o que querem em suas zonas de influência.

A escolha é simples, mesmo que desconfortável: aceitar a realidade geopolítica e ajustar a política externa de acordo, ou continuar no atual curso e enfrentar as consequências de um confronto desigual que o Brasil não pode vencer.

 

*Reapolitik: Estratégia política que privilegia a prática e os resultados concretos em detrimento de princípios ideológicos ou morais.
*Wishful thinking: Tendência de acreditar ou agir como se os desejos pessoais fossem mais prováveis que a realidade objetiva.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do site Danuzio News."

domingo, 7 de setembro de 2025

Homenaje al embajador Rubens Ricupero: nota do presidente Gabriel Mussio de Miguel - Texto de Paulo Roberto de Almeida

El Ateneo de Ciencias Sociales de la República Argentina rindió homenaje al embajador Rubens Ricupero, referente de la diplomacia y la reflexión latinoamericana. En esa ocasión, el profesor y diplomático Paulo Roberto de Almeida le dedicó un sentido tributo y presentó su libro Vidas Paralelas, gesto que agradecemos especialmente.Gabriel Mussio de Miguel

Gabriel Mussio de Miguel
Presidente del Ateneo de Ciencias Sociales de la República Argentina;


Permito-me colocar novamente meu texto em homenagem ao embaixador Ricupero:

5037. “Rubens Ricupero: gran estadista de la diplomacia brasileña”, Brasilia, 21 agosto 2025, 3 p. Contribución en su homenaje como miembro de honor del Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina, el 23 de agosto de 2025

Rubens Ricupero: gran estadista de la diplomacia brasileña

Paulo Roberto de Almeida, diplomático, profesor.
Contribución libre en su homenaje como miembro de honor del Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina, el 23 de agosto de 2025.

La diplomacia brasileña tiene, en sus rangos, muchos intelectuales, literatos, analistas políticos, historiadores, artistas, hasta simples diplomáticos, burócratas de las relaciones exteriores de Brasil, quizá los más numerosos. Un libro, O Itamaraty na Cultura Brasileira, editado cuando Celso Lafer ocupaba por la segunda vez nuestra cancillería, en 2001, presentó los más relevantes y conocidos, desde el siglo XIX hasta José Guilherme Merquior, uno de los más importantes intelectuales no solo de Brasil, pero del mundo, fallecido en 1991, muy joven. Rubens Ricupero y Celso Lafer fueran dos de los más queridos amigos de Merquior.
Los tres están entre los contemplados en el libro que vengo de organizar y editar, que es la continuidad de Itamaraty na Cultura Brasileira, intitulado Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, en el cual Merquior es de nuevo un personaje, por medio de un ensayo escrito por otro diplomático intelectual, Gelson Fonseca Jr, hoy director del Centro de Historia y Documentación Diplomática. Celso Lafer, un gran amigo de Felix Peña y de Argentina, firma de nuevo el prefacio de esa obra, dedicada a Alberto da Costa e Silva, quien organizó el primer libro. Ricupero hizo un homenaje afectivo a un otro gran intelectual de la diplomacia brasileña, Wladimir Murtinho, el hombre que ha, finalmente, presidido a la transferencia de Itamaraty de Rio de Janeiro a Brasilia, en 1970, diez años después de la inauguración de la capital por Juscelino Kubitschek. Murtinho lo hizo con gran maestría, con una combinación de arte moderna, clásica y colonial de Brasil en la decoración del nuevo palacio, que mantiene su nombre original, del inicio de la República.
El embajador Rubens Ricupero tiene una distinción especial con respecto a todos los otros diplomáticos, sea intelectuales o todos los otros, una vez que jamás ha sido, no lo es, sencillamente, tan solo un intelectual, sino un gran pensador, un historiador instintivo y uno de los mejores analistas políticos de las relaciones internacionales de Brasil, siendo, también, principalmente, un gran estadista, en su manera de concebir y proponer políticas públicas en diversos campos de la política externa, multilateral, regional y bilateral, no solo para la diplomacia brasileña, pero igualmente para su economía y su sociedad. He sido premiado, desde mi ingreso en la diplomacia, con sus enseñanzas, pero sobre todo con sus ejemplos de hombre público, de negociador habilidoso, de persona accesible, de profesor muy atento a los alumnos de la Academia Diplomática de Brasil – donde han estudiado muchos colegas argentinos –, a los académicos en general.
Ricupero siempre ha mantenido una atención especial a Argentina, su segundo posto en la carrera diplomática, luego después de Viena, a mediados de los anos 1960, donde empezó su largo recorrido por los diversos países por los cuarenta años siguientes. Escribió en sus Memórias páginas significativas:
“De todos los puestos que tuve, [Buenos Aires] fue aquel donde más mantuve relaciones con personas ‘normales’, sin ningún contacto con asuntos diplomáticos.” [Memórias, 2024, p. 254] Continua: “No por eso he dejado de adentrarme en la situación política del país, leyendo sobre su historia, conversando con los grandes analistas políticos y económicos, tornándome amigo de algunos de ellos, como el historiador de la economía Aldo Ferrer, Oscar Camilión, entonces redactor-jefe de El Clarín, más tarde embajador en Brasil, ministro de las Relaciones Exteriores, ministro de Defensa.” [p. 255]
La permanencia de Ricupero en Argentina ocupó toda la dictadura Ongania, del 1966 a 1969, cuando también Brasil adentraba su segundo y tercer general en la presidencia de la República. Recuerdo que, algunos años más tarde, cuando estaba trabajando en la embajada de Brasil en Washington, aproveché algunos momentos libres para encuestar en los National Archives and Records Administración. El secretario-general de Itamaraty en ese mismo año, 1966, al recibir el Encargado de Negocios de la embajada americana aún en Rio de Janeiro, fue muy claro con respecto a la situación de los regímenes en América del Sul, y le dijo: “Ahora que se ha resuelto la cuestión en Argentina, tenemos que nos ocupar de la situación en Santiago, donde hay un Kerenski chileno”, hablando del presidente reformista de la Democracia Cristiana Eduardo Frei (padre). O sea, Brasil intentaba extender las dictaduras de la región, objetivo quizá aceptable para los militares argentinos.
Fueron los años más difíciles de las conturbadas relaciones bilaterales Brasil-Argentina, sin perspectivas de real integración, después de la firma del primer tratado de Montevideo, creando la Alalc (nunca completada), y al principio de las disputas acerca de la construcción de Itaipu binacional, Brasil-Paraguay, más de diez años de controversias por la explotación de los recursos hídricos de la Cuenca del Plata, hasta el tratado tripartite de 1979. De Buenos Aires, Ricupero partió para Quito, pero retornaría visitar a Argentina inúmeras veces durante muchos años, como diplomático brasileño o como director de la Unctad.
He trabajado con Ricupero durante su misión como embajador en las organizaciones internacionales de Ginebra, entre 1987 y 1990, cuando yo pasé a Montevideo y Ricupero fue nombrado como embajador en Washington, un año después. Por casi tres años, nuestra colaboración em Ginebra no fue únicamente diplomática, pero se extendió a temas académicos y culturales. Los picos más significativos de su carrera estuvieran entre el Ministerio de Amazonia Legal y Medio Ambiente, en 1993-94, y la asunción, totalmente involuntaria, como ministro de Hacienda, en medio a una de las diversas crisis de hiperinflación, típicas de la historia económica de nuestros dos países. Él supo transmitir confianza en la población, elemento esencial de suceso del Plan Real.
Por muchos años quise elaborar un Festschrift en su homenaje, siempre retardado por ocupaciones más urgentes de trabajo. A mi retiro, finalmente, he decidido hacer no solo una, pero dos homenajes a los dos personajes brasileños más amigos de la Argentina, el propio Ricupero y Celso Lafer, con mi libro Vidas Paralelas (2025), una relectura de sus obras relevantes en política exterior y diplomacia de Brasil, recién publicado. Independiente de los gobiernos, liberales o proteccionistas, de izquierda o derecha, amigos o indiferentes, en las dos margines del Plata, como ya ocurrió entre Bolsonaro y Fernández, y ahora entre Lula y Milei, los dos pueblos están destinados a cumplir el vaticinio del presidente Roca, más de cien años antes: “todo nos une, nada nos separa”.
Sorpresas ocurren, como en todas las relaciones humanas. Los estadistas existen, justamente, para sobrepasar todo tipo de inconveniencias políticas. Ricupero y Lafer son, precisamente, los dos mayores estadistas favorables a una buena relación permanente entre Brasil y Argentina. Aún tienen algún trabajo por la frente.
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 5037, 21 agosto 2025, 3 p.

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