quarta-feira, 25 de março de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade - Paulo Roberto de Almeida (Revista CNT Transporte Atual)

Uma entrevista a um jornalista da revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356), sobre o acordo Mercosul-UE, publicada apenas parcialmente. Publico no blog Diplomatizzando a íntegra das minhas respostas ao jornalista Gustavo Falleiros, meu ex-aluno do Mestrado em Direito no Uniceub.
5214. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt ;
Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/acordo-mercosul-uniao-europeia-questoes.html )

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT.
Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt). Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: ). Relação de Publicados n. 1628.


1. Antes de tudo, o senhor poderia nos informar sobre a real estatura do que foi assinado em 17 de janeiro. É algo que impressiona, pelo tamanho ou pelas possibilidades, ou é mais modesto? Ainda demorará muito a produzir efeitos, dada a complexidade do processo de internalização dos termos por cada Estado Parte?


        PRA: O acordo é complexo, ambicioso, e coroa um relacionamento de praticamente 30 anos entre os dois blocos, como eu já estudei num longo artigo terminado ainda antes da assinatura definitiva do acordo: “Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação”, Brasília, 4829: 18 janeiro 2025, 21 p. Revisão e atualização do trabalho 4322 (15 fevereiro 2023), para submissão, em 18/01/2025, à revista Monções, Revista de Relações Internacionais da UFGD; não publicado por exigências de revisão. Disponibilizado via Academia.edu (12/2025): https://www.academia.edu/145502682/4829_Mercosul_e_Uniao_Europeia_a_longa_marcha_da_cooperacao_a_associacao_Mercosur_and_European_Union_the_long_march_from_cooperation_to_association_Mercosur_y_Uni%C3%B3n_Europea_la_larga_marcha_de_la_cooperaci%C3%B3n_a_la_asociaci%C3%B3n_2025_ ); blog Diplomatizzando (21/12/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/mercosul-e-uniao-europeia-longa-marcha.html).
        Trata-se de um tema que eu venho seguindo praticamente desde o início, como aliás revelado no artigo acima citado. Outros trabalhos meus podem ser conferidos nesta lista também divulgada em meus canais de informação: “Lista atualizada de trabalhos sobre o Mercosul e a integração regional”, Brasília, 5034: 18 agosto 2025, 33 p. Atualização da lista 4655, de 06/05/2024, incorporando os trabalhos ulteriores. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/143507026/5033_Lista_atualizada_de_trabalhos_sobre_o_Mercosul_e_a_integracao_regional_2025_); informado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/lista-atualizada-de-trabalhos-sobre-o.html).
        Se ele demorou tanto tempo para ser definitivamente assinado, a despeito de ser relevante no plano das relações comerciais do Brasil e do Mercosul, bem como para a inserção econômica internacional do bloco e a de seus países membros, a “razão” está justamente no fato de que a diplomacia lulopetista, por preconceito anacrônico e irracional contra o “imperialismo americano”, sabotou (até implodir) o processo negociador da Área de Livre Comércio das Américas, proposto pelo governo Bill Clinton em dezembro de 1994, na cúpula das Américas em Miami, recusada pelos petistas por implicações puramente ideológicas, o que ocorreu na cúpula de Mar del Plata, em novembro de 2005, por pressão conjunta de Lula, de Chávez e de Kirchner.         Retirada a “concorrência” americana, pelo mercado do Mercosul, os europeus contiveram seu entusiasmo e o assunto se arrastou durante 20 anos, até que a guerrilha comercial entre os EUA e a China, desde o primeiro mandato de Trump, induziu novamente a UE e o Mercosul a retomarem as negociações finais. Uma primeira versão do acordo tinha sido finalizada em Bruxelas, em junho de 2019, mas ficou carente de apoio europeu desde as primeiras horas, basicamente em função das políticas antiambientais de Bolsonaro e seu total desprezo pelo multilateralismo, assim como por outros componentes essenciais da associação entre Mercosul e União Europeia, nos terrenos sociais e de direitos humanos.
        O acordo é importante, mas o fato de intervir mais de duas décadas após os primeiros acenos recíprocos por essa interação entre os dois blocos deixa de lado alguns importantes desenvolvimentos (não só comerciais) ocorridos no sistema econômico internacional desde o início do século, notadamente a acessão da China ao Gatt-1994 e pela sua inserção no sistema multilateral de comércio, ademais de novos fenômenos no espectro mais amplo da economia mundial, como a enorme ascensão da Ásia Pacífico ao primeiro plano dos grandes intercâmbios mundiais. Isso é particularmente verdade para o Brasil, que tem na China o seu principal parceiro comercial desde 2009, com a qual existe um turnover comercial superior ao que existe com os dois outros principais parceiros, isto é, Estados Unidos e União Europeia justamente.
        Ele é relevante, e quando foi assinado definitivamente, em dezembro de 2025 na capital paraguaia, foi anunciado como o maior acordo comercial do mundo, pelas suas dimensões de população, de PIB e de comércio conjuntamente, apenas para ser suplantado, um mês depois, pelo acordo concluído entre a UE e a Índia, também em virtude do novo protecionismo americano. O protecionismo é, aliás, uma pedra no sapato desses dois mega-acordos, como em geral em diversos outros acordos do mesmo tipo entre diferentes países ou blocos. Depois da década otimista com a globalização, na implosão do socialismo e na integração dos ex-países socialistas à OCDE, à própria UE e a outros esquemas existentes nos planos econômico e político (Otan, por exemplo), os países reverteram o processo, primeiro conduzindo uma “desglobalização” moderada, depois retrocedendo ao near-shoring, ou mesmo à produção puramente doméstica, sobretudo depois da pandemia e dos problemas revelados com a segurança no abastecimento interno de materiais críticos.
        O acordo Mercosul-UE, por mais relevante que ele possa ser para a economia de ambos os blocos, não deixa de “pagar um imposto” às forças protecionistas internas de cada um deles, geralmente no terreno da produção primária (agricultura e pecuária) do lado europeu, e no da indústria e serviços no caso dos países do Mercosul (sobretudo da parte dos dois grandes, Brasil e Argentina). Assim, restrições continuam a existir, assim como cláusulas especiais de proteção, em caso de “desequilíbrio nas trocas”, o que é naturalmente esperado quando se colocam na linha de frente assimetrias produtivas e diferenças de competitividade em virtude das dotações naturais e adquiridas de cada um dos lados.
        Em decorrência desses “cuidados protecionistas” o acordo tardará certo tempo – pelos prazos de phasing-out e outras disposições retardatárias e quantitativamente limitadoras – para produzir efeitos plenos nos terrenos da abertura econômica e da liberalização comercial, que podem continuar limitadas em diversas áreas. Quando os prazos vierem finalmente a termo se poderá verificar que as condições de mercado se terão alterado em algumas áreas de maneira significativa, em virtude, por exemplo, de pressões competitivas vindas da Ásia Pacífico.

2. Quando cobri este assunto em 2019 (tratado de associação), falava-se muito em impulso ao agro brasileiro. Desta vez, ouço que itens brasileiros de valor agregado podem ter melhor desempenho. É isso mesmo? Nesse caso, nossa combalida indústria poderá florescer em alguns segmentos?

        PRA: Existem diferenciais de competitividade nos diversos setores da economia de cada parte, tanto na agricultura, quanto na indústria e nos serviços, e isso não se dá apenas pelos efeitos macro dos termos do acordo, mas em virtude das capacidades micro de cada ramo econômico e, por vezes, de cada unidade produtiva nos diversos países. A indústria brasileira, talvez mais do que a da Argentina, poderá também se beneficiar em setores específicos, mas muito vai depender da modernização e incorporação de novas tecnologias e capitais vindas da Europa, ou até de outros países, como a China, por exemplo, que já passou de simples comerciante principal com o Brasil, para uma das principais potências investidoras em muitos ramos de nossa economia.

3. No longo prazo, fala-se em “integrar cadeias de valor”. Não é um objetivo demasiado ambicioso?


        PRA: Aparentemente sim, tendo em vista que o Brasil é um país ferozmente protecionista praticamente desde os tempos coloniais, mas sobretudo desde o segundo reinado e intensamente durante todo o período republicano, quando os principais vetores da industrialização tardia foram o fechamento do mercado e o protecionismo explícito e implícito. O Brasil foi o campeão absoluto em tarifas altas durante toda a história da nação independente, preservando ainda tais características, a despeito de algumas reformas comerciais nos últimos 40 anos, em especial devido ao Mercosul, precisamente. O Brasil, o Mercosul e outros países da América do Sul estão singularmente ausentes dos “mapas” de cadeias de valor existentes em outras partes do mundo, e as poucas existentes se devem justamente aos investimentos estrangeiros diretos em setores notoriamente associados a esses investimentos, como a indústria automotiva, a eletrônica e poucas outras.
        Uma das principais virtudes desse acordo seria justamente estimular e concretizar a inserção de empresas do Mercosul em cadeias internacionais de valor, e não apenas as europeias, pois elas tendem geralmente a ser multinacionais em sua essência. O fator principal seria que a condução das etapas seguintes da entrada em vigor do acordo inter-blocos seria fazer com que ele transbordasse dos simples intercâmbios comerciais, para associações empresariais visando os mercados globais, não apenas os recíprocos.

4. O que podemos esperar em termos de cooperação técnica e transferência de tecnologia? E ainda, de controle fitossanitário e boas práticas ambientais?


        PRA: Cooperação técnica, controle fitossanitário e práticas ambientais dependem, talvez, dos governos e dos administradores do acordo, mas transferência de tecnologia é um catch-word para acesso a tecnologias de ponta, o que depende basicamente de iniciativas no plano micro, isto é, puramente privadas, portanto empresariais. Esse aspecto depende essencialmente das próprias empresas abertas às interações recíprocas.

5. O factsheet divulgado retrata o acordo como um contraponto ao “crescente protecionismo e unilateralismo comercial”. Esse acordo tem o dom de despertar esse tipo de esperança? O senhor poderia falar um pouco sobre o contexto anterior, que envolvia a Alca?

        PRA: O acordo representa, de fato, uma resposta, ao desmantelamento do sistema multilateral de comércio protagonizado pelo atual presidente americano, unilateralista ao extremo. O protecionismo parece ser uma “virtude” partilhada por setores menos competitivos em várias regiões do mundo e existe em variadas circunstâncias em quase todos os países do mundo, menos impulsionado por governos específicos e mais por lobbies setoriais – da indústria, agricultura, serviços – que existem em consonância com a união do poder econômico com interesses políticos, o que viabiliza certos poderes regulatórios, geralmente existentes no parlamento, que nas democracias se rendem ao protecionismo por pressão desses interesses corporativos. O unilateralismo comercial pode existir nas grandes economias, as únicas em condições de impor suas regras a um número amplo de países, seja no âmbito do sistema multilateral de comércio (Gatt-OMC), seja diretamente nas relações comerciais à margem desses acordos amplos.
        A Alca encarnava ambos os aspectos das políticas comerciais dos grandes atores da economia mundial: foi uma oferta do governo americano sob Bill Clinton, em 1994 (mas partia da Iniciativa das Américas de George W. Bush, em 1990), que visava o livre comércio nas Américas, pela via das negociações de boa fé e a conclusão de um acordo abrangente. Não pôde ser concluído pela sabotagem de três líderes antiamericanos, nacionalistas e protecionistas: Lula, Chávez e Kirchner. Não teria sido um acordo perfeitamente igualitário, em direitos e obrigações (dado o grande poder intrínseco dos EUA), mas teria sido, se concluído, um bom exercício de globalização administrada no hemisfério, e teria também oferecido a oportunidade, à União Europeia, de competir, do seu lado, oferecendo condições tão “vantajosas” quanto as da Alca, para não perder um mercado tão relevante para suas empresas quanto o da América Latina. Infelizmente, não foi o caso, e por causa de três antiamericanos anacrônicos, o hemisfério perdeu uma dupla oportunidade de figurar entre as regiões de maior inserção econômica mundial, competindo com a Ásia Pacífico. Ou seja, a ignorância, o preconceito ideológico e o antiamericanismo primário impediram um primeiro exercício, certamente difícil na prática, não necessariamente equânime em vantagens e obrigações, mas interessante, de globalização econômica quando isso ainda podia ser feito. Perdeu-se, e essa chance não vai voltar mais.

6. Da parte do Mercosul, que tipo de dever de casa precisa ser feito para o bloco ser funcional (Brasil x Argentina)?


        PRA: Existem dezenas de coisas que os países membros deveriam fazer para viabilizar o bloco do Mercosul, se isso ainda pode ser feito, o que é duvidoso no momento atual e nos próximos anos. Os países deveriam simplesmente tratar de colocar em vigor as obrigações do Tratado de Assunção que estão no Artigo 1º: zona de livre comércio efetiva, sem maiores restrições, uma união aduaneira efetiva e funcional, sem as exceções nacionais que fazem da TEC uma colcha de retalhos, e sobretudo os requerimentos da convergência macroeconômica e nas políticas setoriais, o que parece impossível nas circunstâncias atuais. Brasil e Argentina são os maiores “pecadores” nessas muitas inadimplências, e não parecem existir condições para que os dois grandes se entendam numa agenda de reconstrução do Mercosul.
        A opção seguinte seria a preparação de uma conferência diplomática, com vistas a fazer o Mercosul retroceder a uma simples zona de livre comércio, o que já é difícil, na prática, e não se sabe se o acordo inter-regional com EU sobreviveria a essa mudança. Em suma, o cenário de futuro imediato e mediato (ou de médio prazo) para o Mercosul permanece indefinido, sobretudo em virtude do acordo de livre comércio entre a Argentina de Milei e os EUA de Trump (que não se sabe se será efetivamente implementado). Esse acordo “bilateral”, puramente político, mas com efeitos econômicos e comerciais, contrariando a postura pelo menos formalmente mercosuliana do Brasil, promete ter algum impacto dentro e fora do bloco do Mercosul.

7. O senhor enxerga alguma implicação do acordo para a cadeia logística global, por exemplo, alterando o fluxo de contêineres (chineses hoje têm preferência de rotas) ou reduzindo certas dependências (componentes eletrônicos, chips, certos minérios etc.)?

        PRA: A China já é a grande parceira da América do Sul e dos seus principais países, e o acordo pode afetar alguns ramos industriais, que é onde essa interface intervém, mas não mudará a atratividade da China para as exportações agropastoris do Brasil e da Argentina, sem contar investimentos do gigante asiático na exploração dos grandes recursos naturais dos dois países. O acordo UE-Mercosul será uma pequena concorrência aos fortes laços existentes com a China, mas tudo se jogará nos demais aspectos de integração industrial, de extração mineral, de acordos de financiamento. Difícil prever todas as consequências, em virtude do caráter errático das políticas comerciais dos grandes atores, como impulsionado pelo unilateralismo comercial dos EUA sob Trump: não sabemos se haverá uma reversão depois que ele se for.

8. Algo importante ficou descoberto?

        PRA: Sim, as implicações do acordo de “livre comércio” da Argentina de Milei com os EUA de Trump: ainda não sabemos suas implicações efetivas e reais, sobretudo em termos de rompimento com a cláusula de nação mais favorecida e o total abandono das regras de política comercial estabelecidas no âmbito do sistema multilateral de comércio e seus efeitos sobre acordos existentes: o do próprio Mercosul (TA) e o que deve entrar em vigor entre este e a UE.
Muitos outros aspectos permanecem no limbo, pois o cenário atual do comércio mundial pode mudar pelo efeito de medidas políticas adotadas pelos EUA e outros grandes parceiros.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5214: 12 fevereiro 2026, 7 p.
1628. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Enviado via WhatsApp. Publicado na revista da CNT (vol. xxxii, n. 356, março 2026, p. 57). Relação de Originais n. 5214.









Mensagens presidenciais do regime militar (Geisel e Figueiredo, 1975-1985) - Paulo Roberto de Almeida (Interesse Nacional)

Mensagens presidenciais do regime militar (Geisel e Figueiredo, 1975-1985) – A diplomacia profissional no seu momento de apogeu

Paulo Roberto de Almeida

Interesse Nacional, 25/03/2026

https://interessenacional.com.br/portal/mensagens-presidenciais-do-regime-militar-geisel-e-figueiredo-1975-1985-a-diplomacia-profissional-no-seu-momento-de-apogeu/

De forma geral, as ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo, conduzidas operacionalmente pelos chanceleres Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, com o concurso conceitual e prático de brilhantes diplomatas, expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática que deita raízes nos ensinamentos e doutrinas de grandes representantes e pensadores das relações internacionais do Brasil

Geisel transmite a faixa presidencial ao seu sucessor, general João Baptista Figueiredo (Foto: CPDOC JB)

Assim como ocorreu no governo Médici, a gestão de Ernesto Geisel (1974-1979) foi dominada por dois temas essenciais: a repressão ao chamado “terrorismo”, ou seja, os movimentos armados que combatiam o regime militar, já bastante enfraquecidos desde o governo anterior, e a decisão, fortemente impregnada de intervencionismo estatal, de levar adiante, contra ventos e marés (da economia internacional, sobretudo), os ambiciosos planos de crescimento econômico, de conformidade com sua visão “bismarckiana” do processo de desenvolvimento, von Oben, ou pelo alto.

Na primeira “tarefa”, Geisel foi impiedoso, mandando eliminar até os “pacíficos” membros do Partidão, o histórico PCB, que teve vários de seus dirigentes vivendo na clandestinidade eliminados pela máquina de repressão do regime. Na segunda missão, ele legou um grau de estatização na economia nacional que perdurou por décadas, e até serviu de paradigma para outros governos intervencionistas. 

‘Geisel decidia, ele mesmo, quais iniciativas tomar em política externa, inclusive contrariamente, por vezes, às sugestões do Itamaraty’

À diferença, porém, de Médici que enviou cinco mensagens parcas, ao extremo, em exposições mais detalhadas sobre as atividades governamentais, em especial na política externa, aquelas preparadas sob a gestão do penúltimo ditador do regime foram copiosas na descrição das políticas e medidas ativistas, com destaque, precisamente, para a política externa, conduzida por uma diplomacia excepcionalmente ativa, sob a direção do chanceler Azeredo da Silveira. Geisel decidia, ele mesmo, quais iniciativas tomar em política externa, inclusive contrariamente, por vezes, às sugestões do Itamaraty, como no caso do famoso “voto sionista” na ONU, que equiparou o sionismo ao racismo (postura revogada mais tarde).

 Concretamente, as mensagens continham relatórios relativamente abrangentes das políticas governamentais, em curso ou planejadas, mesmo se concentradas igualmente no binômico “desenvolvimento com segurança”, mas a política externa ascendeu com atenção redobrada, já em 1975, como revelado nestes poucos exemplos, inclusive pelo tom pessoal adotado na mensagem, compatível com sua postura de estadista: 

A POLÍTICA EXTERNA [em maiúsculas no original] praticada pelo Governo merece particular registro.

Desde os primeiros dias declarei que ela deveria ser construtiva, pragmática, responsável e ecumênica. 

A essas diretrizes de conduta, ajuntei que as prioridades para a ação diplomática se orientariam com vistas à expansão econômica e ao progresso social do país, salientando as responsabilidades especiais do nosso relacionamento com as nações vizinhas de aquém e de além-mar. (…)

Sobre a base de compromissos inequívocos de respeito mútuo e não-ingerência, estabelecemos relações diplomáticas com a República Popular da China, país com o qual já iniciamos promissor intercâmbio no plano comercial. (…)

Por outro lado, adotamos posições explícitas quanto à situação no Oriente Médio, declarando-nos contrários à ocupação territorial pela força e prestando nosso apoio aos reclamos do povo palestino, no sentido da autodeterminação e de sua soberania. Assim fazendo, fundamo-nos no melhor da tradição diplomática brasileira e nos precedentes de nossa posição original sobre o assunto.

Sem sombra de dúvida, nossa diplomacia vem prestando concurso apreciável à consecução dos objetivos de desenvolvimento, além de projetar o Brasil, no exterior, de maneira marcadamente positiva, como interlocutor válido das nações mais influentes na condução dos problemas cruciais do momento. (p. 183-84)

Em 1978, novamente, a política externa volta a ocupar lugar de destaque na mensagem encaminhada ao Congresso, com nada menos de sete densas páginas (num total de 16), com questões externas sendo ainda tratadas nas seções econômica e financeira. 

Menciona-se, por exemplo, o acordo nuclear com a Alemanha, objeto de intensas pressões por parte dos Estados Unidos, assim como a visita de Rosalynn Carter, esposa do presidente americano, mas sem mencionar as divergências a respeito dos direitos humanos ou a denúncia do acordo bilateral de assistência militar, ambas ocorridas em 1977. 

Da mesma forma, a última mensagem de Geisel, de 1979, mas correspondendo ao ano anterior, também foca em diferentes questões na área externa, voltando à baila o conceito de “diplomacia pragmática, responsável e ecumênica”, mas com o cuidado de “evitarmos alinhamentos automáticos” (p. 233). Tampouco se evitou de falar da questão da “atualização e dinâmico reajustamento” nas relações com os EUA, “dentro de um espírito de amizade e franqueza”: 

É natural que o crescimento da presença internacional do Brasil seja acompanhado por dificuldades em nosso relacionamento, até com países que nos são próximos. Por isso mesmo, o Governo procurou dispensar, às complexas relações que mantemos com os Estados Unidos da América, um tratamento que ensejasse a identificação mais fluente das áreas de coincidência e que permitisse o diálogo aberto, mas sereno, sobre questões onde houvesse divergência. (p. 235) 

A conclusão da seção dedicada à política externa, bastante extensa e praticamente completa na sua cobertura geográfica bilateral, regional e no multilateralismo expressa uma postura de certa forma permanente na cultura diplomática nacional, tendente a pronunciar-se, “com insistência, em favor do estabelecimento de uma ordem econômica internacional mais justa e equitativa” (p. 237). O tema continua na agenda “aspiracional” do Brasil.

‘As mensagens de João Figueiredo revelam um grau de sofisticação da burocracia governamental raramente visto nas mensagens anteriores’

As cinco mensagens do último presidente do regime militar, João Figueiredo (1979-1985), foram todas publicadas pela Imprensa Nacional, estando disponíveis na Rede Virtual de Bibliotecas, e se apresentam sob a forma de cinco grossos volumes, cuidadosamente editados pela Biblioteca da Presidência da República. Todas elas revelam um grau de sofisticação da burocracia governamental raramente visto nas mensagens anteriores, de qualquer período republicano registrado historicamente, não apenas examinando cada uma das políticas governamentais (macro e setoriais), assim como grandes seções para as Forças Armadas, presença obrigatória nesses anos, como em todos os outros, mas discutindo também, o teor e as implicações de cada uma das medidas propostas. 

A política externa e a diplomacia brasileira são examinadas à exaustão, obviamente objeto de relatórios autocongratulatórios dos diplomatas profissionais, administrados de forma competente por Ramiro Saraiva Guerreiro, apenas um “empregado do Itamaraty”, como ele modestamente se intitulou em suas “lembranças” (livro de 1992).

 Figueiredo não possuía, obviamente também, as qualidades de estadista exibidas por Geisel, e por isso a política externa marchou quase por conta própria, concebida, administrada e conduzida pelo corpo burocrático da instituição. Não ocorreram propriamente iniciativas deliberadas dessa administração profissional, mas um seguimento profissional das crises herdadas do governo anterior – Itaipu, por exemplo, resolvida em seis meses por um acordo tripartite – ou surgidas incidentalmente na agenda internacional: Malvinas, crise da dívida externa, forte participação nos órgãos multilaterais, econômicos e políticos etc. 

A leitura completa das cinco mensagens vale por uma pequena história oficial das políticas econômicas, institucionais e diplomáticas do Brasil, sendo o relato destas últimas feito no “diplomatês” correto e comedido dos burocratas do Itamaraty. 

Essa seção possui, invariavelmente, a mesma estrutura em quase todos os anos: começar pela América Latina, passa aos Estados Unidos e Canadá, segue pelas duas Europas da época (a ocidental e a oriental, isto é, dominada pela União Soviética), passa à Ásia e Oceania, para chegar a uma seção bastante longa dedicada às organizações do multilateralismo político e econômico, tocando também, antes de chegar na cooperação científica e tecnológica, em temas de promoção comercial, pois que o Brasil fazia grandes avanços, então, na exportação de manufaturados, conquistando novos mercados. 

A leitura pode ser aborrecida, mas é altamente instrutiva do ativismo do Itamaraty, quando este ainda dominava quase que por completo a formulação e a execução da política externa, algo que se diluiu na democratização.

‘As ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática’

De forma geral, as ambiciosas diretrizes de política externa dos governos Geisel e Figueiredo, conduzidas operacionalmente pelos chanceleres Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, com o concurso conceitual e prático de brilhantes diplomatas, expressam a consistência e a continuidade de padrões de excelência aperfeiçoados ao longo de décadas nessa área estratégica para o desenvolvimento nacional, numa linha apartidária e pragmática que deita raízes nos ensinamentos e doutrinas de grandes representantes e pensadores das relações internacionais do Brasil, desde os dois Rio Branco, o visconde e o barão, o jurista Rui Barbosa e estadistas como Oswaldo Aranha e San Tiago Dantas, para ficar nos nomes mais conhecidos numa história a todos os títulos meritória. 

Ao encerrar-se o longo período da ditadura militar, ao final do governo do general Figueiredo, o candidato da oposição nas eleições indiretas de 1985, Tancredo Neves, podia acertadamente proclamar, na transição para o retorno à democracia, que a política externa era o grande ponto de consenso suprapartidário no contexto nacional. Continuou a ser assim durante boa parte do período de redemocratização, até que rupturas partidárias e ideológicas viessem abalar os padrões de excelência da diplomacia nacional.

É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

O Brasil mais uma vez numa de suas encruzilhadas politicas relevantes - Paulo Roberto de Almeida

O Brasil mais uma vez numa de suas encruzilhadas politicas relevantes

Paulo Roberto de Almeida
        
        Antonio Paim, um estudioso dos mais competentes, num dos seus livros mais importantes, Momentos Decisivos da História do Brasil (sobre o qual já escrevi duas vezes), analisou caminhos alternativos que se apresentaram aos dirigentes nacionais, tendo estes seguido itinerários que se mostraram equivocados do ponto de vista do desenvolvimento econômico e social.
        Tivemos vários em nossa história, sendo que o mais recente, em 2018, revelou-se desastroso, sob todos os pontos de vista. A escolha de um dirigente incompetente, ignorante, despreparado e de perfil malignamente autoritário criou um divisor maniqueísta na política nacional ainda mais nefasto do que a infeliz polarização do “nós e eles” criada pelos lulopetistas muitos anos atrás.
        O desafio bolsonarista à democracia brasileira se apresenta novamente como um perigo à normalidade da vida política e social no país, pois que vem no bojo de uma das maiores falcatruas financeiras que já agitaram os meios políticos, que são justamente os que apoiam o grupo que pretende voltar ao poder, e cuja intenção seria a de evitar a completa elucidação dos crimes perpetrados.
        Além e acima da corrupção, se situa a gestão absolutamente caótica e moralmente indecente da condução dos assuntos públicos entre 2019 e 2022, e que culminou numa tentativa de golpe de Estado que pretendia fazer o Brasil retornar aos tempos sombrios da ditadura militar.
        Este é mais um daqueles momentos mais decisivos da História do Brasil, de que falava Antonio Paim num dos seus livros mais brilhantes, mas pouco divulgados. Vou retomar o assunto, mas desde já permito-me reafirmar: não estamos apenas numa simples escolha de dirigentes políticos, e sim frente a opções fundamentais para o futuro mediato e de longo prazo do país no plano da normalidade democrática e do desenvolvimento econômico e social do Brasil. 
        Apresentarei novamente textos já divulgados anteriormente e discutirei as questões relevantes que se nos apresentam em mais uma encruzilhada de nossa História.

Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 25/03/2026


Textos PRA:

1064. “Momentos decisivos da história brasileira”, Washington, 18 jun. 2003, 2 p. Relação cronológica de eventos ou processos que podem ser considerados como “turning points” na história do Brasil, desde Tordesilhas (1494) até a eleição de Lula (2002) como presidente do País. Base de um possível futuro trabalho ensaístico.

3858. “Mini-reflexão sobre alguns dos momentos decisivos na vida da nação”, Brasília, 21 fevereiro 2021, 2 p. Sobre as medidas erradas adotadas por dirigentes ao longo da história, que provocam efeitos persistentes na sociedade. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/02/mini-reflexao-sobre-alguns-dos-momentos.html).

3902. “Antonio Paim: do marxismo ao liberalismo”, Brasília, 30 abril 2021, 8 p. Aproveitamento do capítulo preparado em formato de rascunho, ainda, em 2020, para tratar da contribuição do filósofo liberal no livro dedicado aos projetos de reforma no Brasil. Publicado em formato de e-book sob o título de “Antonio Paim: uma homenagem ao grande historiador do liberalismo brasileiro” (São Paulo: Livres, 2021; 10 p.; ISBN: 978-65-00-26410-4; disponível nos links: https://cdn.eusoulivres.org/wp-content/uploads/2021/05/01012322/Ebook-Antonio-Paim.pdf e https://www.eusoulivres.org/publicacoes/antonio-paim-uma-homenagem-ao-grande-historiador-do-liberalismo-brasileiro/; pdf: https://cdn.eusoulivres.org/wp-content/uploads/2021/05/01012322/Ebook-Antonio-Paim.pdf); divulgado por via da plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/48811785/3902_Antonio_Paim_do_marxismo_ao_liberalismo_Ebook_Livres_2021_); anunciado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/04/antonio-paim-do-marxismo-ao-liberalismo.html). Publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (Brasília, n. 11, 2021, pp. 201-211; ISSN: 2525-6653). Relação de Publicados n. 1398 e 1424.

4568. “Momentos decisivos da história do Brasil na vertente diplomática”, Brasília, 25 janeiro 2024, 2 p. Nota sobre os caminhos errados tomados pelo Brasil desde o início do século. Postado no blog Diplomatizzando (links: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/momentos-decisivos-da-historia-do.html e https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/o-mundo-virado-para-tras-da-urss-para-o.html?m=1).

Os inimigos atuais da Humanidade - Paulo Roberto de Almeida

Os inimigos atuais da Humanidade

Duas guerras catastróficas para os que as iniciaram e para o mundo inteiro: Ucrânia e Irã, além de outras.

Em 2022, Vladimir Putin iniciou uma guerra de agressão contra a Ucrânia, pensando conquistá-la em poucos dias. A tentativa criminosa, em completa violação da Carta da ONU, revelou-se um fracasso total: depois de provocar um custo humano e material insuportável para qualquer mandatário não ditatorial, ameaça agora a estabilidade econômica da própria Rússia.

Em 2026, em meio a negociações diplomáticas com o Irã, Donald Trump, incitado por Netanyahu, iniciou uma guerra de mudança de regime contra a República Islâmica do Irã, que já provocou uma crise econômica mundial, não só no setor energético.

Os dois responsáveis pelas guerras desastrosas devem ser considerados criminosos de guerra e sancionados pelos seus povos respectivos e também pela comunidade internacional.

Outras guerras persistem ou se iniciaram desde 2022, sempre com imensos sacrifícios humanos e desastres econômicos e patrimoniais incomensuráveis: no Sudão, a de Netanyahu contra a Faixa de Gaza e o Libano, entre o Paquistão e o Afeganistão, as violações de soberania de Trump contra a Venezuela, Cuba, além de uma insana guerra econômica que o mesmo Trump iniciou contra TODOS os parceiros comerciais dos EUA (MENOS contra seu amigo Putin).

Putin, Trump e Netanyahu, bem acima de outros ditadores e dirigentes irresponsáveis, devem ser declarados “inimigos da Humanidade”, e como tais responsabilizados criminalmente.

Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 25/03/2026

"Livro do Nordeste II" celebra os 200 anos do Diario de Pernambuco, inspirado em obra organizada por Gilberto Freyre - André Heráclio do Rêgo e Múcio Aguiar

"Livro do Nordeste II" celebra os 200 anos do Diario, inspirado em obra organizada por Gilberto Freyre

Organizado por André Heráclio do Rêgo e Múcio Aguiar, o "Livro do Nordeste II" será lançado na quinta-feira (26), na Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP).

Diario de Pernambuco, 24/03/2026

Obra busca atualizar o histórico "Livro do Nordeste", organizado por Gilberto Freyre em 1925, em homenagem aos 100 anos do Diario de Pernambuco. 

Quando o Diario de Pernambuco completou cem anos em 1925, o sociólogo Gilberto Freyre organizou o “Livro do Nordeste” para comemorar a data, à convite deste jornal, com o intuito de discutir histórica, antropológica e sociologicamente a cultura, geografia e economia da região. Com textos feitos especialmente para o material, como a “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, a publicação passou a ser apontada por jornalistas e escritores, como Mauro Mota, como um marco que funcionaria como um “manifesto a priori” do Movimento Regionalista.

Agora esse título inspira o lançamento do “Livro do Nordeste II”, organizado pelo diplomata e historiador André Heráclio do Rêgo e pelo jornalista e arqueólogo Múcio Aguiar, que acontece na próxima quinta-feira (26), às 19h, na Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP). Desta vez, o volume busca reconstituir a trajetória do Diario de Pernambuco nos seus 200 anos, completos no último dia 7 de novembro, passando pelos 100 anos tratados no primeiro Livro do Nordeste, mas focando especialmente no período que vai de 1925 a 2025. Para isso, foram convidados intelectuais renomados não só de Pernambuco, mas também do Brasil e de Portugal.

O Livro do Nordeste II gira em torno de três “entidades”, que o perpassam em quase todos os seus textos, e a quem ele é dedicado. Em primeiro lugar, o Diario de Pernambuco; em segundo, Gilberto Freyre; e, em terceiro, o Nordeste, conceito cuja primeira consagração talvez tenha sido a provocada pelo livro que leva seu nome. O trabalho se inicia com o artigo “O centenário de um diário americano”, de Manuel de Oliveira Lima, o único que não foi originalmente escrito para a presente ocasião, porque foi publicado no jornal argentino La Prensa, em 28 de fevereiro de 1926.

Trata-se da resenha do próprio “Livro do Nordeste”, publicado na forma de artigo laudatório de Oliveira Lima ao centenário do Diario, em que ele destaca os artigos do mestre português Fidelino de Figueiredo, seu grande amigo, sobre a língua portuguesa e sobre a cooperação entre Brasil e Portugal, e o de Gilberto Freyre, seu “quase” discípulo, sobre a vida social no Nordeste. O restante dos textos são todos inéditos e assinados por nomes como Margarida Cantarelli, Gilberto Freyre Neto, Marcos Galindo, Múcio Aguiar, Mario Helio Gomes, Marcus Prado, André Heráclio,Lincoln de Abreu Penna, João Palmeiro, Carlos André Silva de Moura, Gustavo Maia Gomes, Bernardo Peixoto, Paulo Roberto de Almeida, além dos próprios organizadores da obra.

SERVIÇO:
Lançamento do “Livro do Nordeste II”
Quando: Próxima quinta-feira (26/03), às 19h
Onde: Associação da Imprensa de Pernambuco (Av. Conde da Boa Vista 1424 – Boa Vista, Recife)

terça-feira, 24 de março de 2026

Livros individuais de, e editados por, Paulo Roberto de Almeida

 Livros individuais de, e editados por, Paulo Roberto de Almeida

24 março 2026

História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: dos descobrimentos ao final do Império (Curitiba: Appris, 2026; apresentação)

Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2025, ISBN: 978-65-86972-43-6, 364 p.; Amazon)

Intelectuais na diplomacia brasileira: a cultura a serviço da nação (Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves; ISBN: 978-85-265-0497-4; São Paulo: Editora Unifesp; ISBN: 978-65-5632-199-8; 2025, 425 p.; Amazon)

Marxismo e socialismo: trajetória de duas parábolas na era contemporânea (2ª ed.; Brasília: Diplomatizzando, 2023, 307 p.; ISBN: 978-65-00-05969-4; ASIN: B0CR31C5YG; 1ª. edição:

Marxismo e socialismo no Brasil e no mundo: trajetória de duas parábolas na era contemporânea (Brasília: Edição do autor, 2019, 283 p.; 844 KB; ISBN: 978-65-00-05969-4; Edição Kindle, ASIN: B082YRTKCH)

O Brasil no contexto regional e mundial: artigos sobre nossa dimensão internacional; Brasília: Diplomatizzando, 2023, 216 p.; 1323 KB; ISBN: 978-65-00-89870-5; ASIN: B0CR1Z682R)

Construtores da Nação: projetos para o Brasil, de Cairu a Merquior (São Paulo: LVM Editora, 2022, 304 p.; ISBN: 978-65-5052-036-6; Amazon)

A grande ilusão do Brics e o universo paralelo da diplomacia brasileira (Brasília: Diplomatizzando, 2022, 277 p.; 1377 KB; ISBN: 978-65-00-46587-7; ASIN: B0B3WC59F4)

Apogeu e demolição da política externa: itinerários da diplomacia brasileira (Curitiba: Appris, 2021, 291 p.; ISBN: 978-65-250-1634-4; Amazon.com.br)

O Itamaraty sequestrado: a destruição da diplomacia pelo bolsolavismo, (Brasília: Diplomatizzando, 2021, 130 p. ISBN: 978-65-00-22215-9; ASIN: B094V28NGD)

Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira (Brasília: Diplomatizzando, 2020, 169 p.; ISBN: 978-65-00-19254-4; Academia.edu)

Um contrarianista na academia: ensaios céticos em torno da cultura universitária (Brasília: Diplomatizzando, 2020; 471 p.; 1172 KB; ISBN: 978-65-00-06751-4; ASIN: B08668WQGL; Academia.edu)

A ordem econômica mundial e a América Latina: ensaios sobre dois séculos de história econômica (Brasília: Diplomatizzando, 2020; 394 p.; 2286 KB; ISBN: 978-65-00-05967-0; Kindle, ASIN: B08CCFDVM2)

O Mercosul e o regionalismo latino-americano: ensaios selecionados, 1989-2020 (Brasília: Diplomatizzando, 2020; 497 p.; 2537 KB; ISBN: 978-65-00-05970-0; Kindle, ASIN: B08BNHJRQ4)

O Itamaraty num labirinto de sombras: ensaios de política externa e de diplomacia brasileira (Brasília: Diplomatizzando, 2020; 205 p.; 1309 KB; ISBN: 978-65-00-05968-7; Kindle, ASIN: B08B17X5C1).

Vivendo com livros: uma loucura gentil. (Brasília: Edição de Autor, 2019, 344 p.; 557KB; ISBN: 978-65-00-06750-7; Kindle, ASIN: B0838DLFL2).

Um contrarianista no limbo: artigos em Via Política, 2006-2009 (Brasília: Edição de Autor, 2019, 331 p; 2439 KB; Kindle, ASIN: B083611SC6; Academia.edu).

Minhas colaborações a uma biblioteca eletrônica: contribuições a periódicos do sistema SciELO (Brasília: Edição de Autor, 2019, 525 p.; 920 KB; Kindle, ASIN: B08356YQ6S).

Paralelos com o Meridiano 47: Ensaios Longitudinais e de Ampla Latitude (Brasília, Edição do Autor, 2019, 543 p.; 1908 KB; Kindle, ASIN: B082Z756JH).

O panorama visto em Mundorama: ensaios irreverentes e não autorizados (Brasília: 2ª. edição do Autor, 2019, 655 p.; 5725 KB; Academia.edu; Kindle, ASIN: B082ZNHCCJ).

Pontes para o mundo no Brasil: minhas interações com a RBPI (Brasília, Edição do Autor, 2019, 685 p.; 1693 KB; Kindle, ASIN: B08336ZRVS).

Marxismo e socialismo no Brasil e no mundo: trajetória de duas parábolas na era contemporânea (Brasília: Edição do autor, 2019, 200 p.; ISBN: 978-65-00-05969-4; Kindle, ASIN: B082YRTKCH); 2ª edição: Brasília: Diplomatizzando, 2023, 214 p.; ASIN: B0CR31C5YG)

Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty (Brasília: Edição do autor, 2019, 184 p., ISBN: 978-65-901103-0-5; Boa Vista: Editora da UFRR, Clube de Autores, 2019, 165 p., Coleção “Comunicação e Políticas Públicas vol. 42; ISBN livro impresso: 978-85-8288-201-6; ISBN livro eletrônico: 978-85-8288-202-3; Academia.edu; Amazon.com.br)

Contra a corrente: Ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais do Brasil (2014-2018) (Curitiba: Appris, 2019, 247 p.; ISBN: 978-85-473-2798-9; Amazon.com.br)

A Constituição contra o Brasil: ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988 (São Paulo: LVM, 2018, 448 p.; ISBN: 978-8593751394; Amazon).

Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro, Sérgio Eduardo Moreira Lima; Paulo Roberto de Almeida; Rogério de Souza Farias (orgs.); Brasília: Funag, 2017; 2 vols.; vol. 1, 568 p.; ISBN: 978-85-7631-696-1; vol. 2, 356 p.; ISBN: 978-85-7631-697-8).

O homem que pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos (Curitiba: Appris, 2017, 373 p.; ISBN: 978-8547304850; Diplomatizzando; Amazon.com.br)

Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (3ª edição; Brasília: Funag, 2017; 2 vols.; 964 p.; ISBN: 978-85-7631-675-6; 1º volume; 2º volume).

Carlos Delgado de Carvalho: História Diplomática do Brasil (Brasília: Senado Federal, 2016, 504 p.; ISBN: 978-85-7018-696-6; Academia.edu).

Nunca Antes na Diplomacia…: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Editora Appris, e-book, 2016, 450 p.; 1366 KB; Kindle, ASIN: B0758G8BXL; Amazon.com.br).

The Drama of Brazilian Politics: From 1814 to 2015 (with Ted Goertzel; 2015, 278 p.; Edição Kindle, ASIN: B00NZBPX8A; ISBN: 978-1-4951-2981-0; Amazon).

Révolutions bourgeoises et modernisation capitaliste : Démocratie et autoritarisme au Brésil (Sarrebruck: Éditions Universitaires Européennes, 2015, 496 p.; ISBN: 978-3-8416-7391-6 ; Inroduction : Academia.edu; livre complet : Amazon.com).

Die brasilianische Diplomatie aus historischer Sicht: Essays über die Auslandsbeziehungen und Außenpolitik Brasiliens (Saarbrücken: Akademiker Verlag, 2015, 204 p.; Übersetzung aus dem Portugiesischen ins Deutsche: Ulrich Dressel; ISBN: 978-3-639-86648-3; Amazon.com; Amazon.com.br).

O Panorama visto em Mundorama: Ensaios Irreverentes e Não Autorizados (Hartford: 2a. edição do autor, 2015, 294 p.; DOI: 10.13140/RG.2.1.4406.7682; nova edição, ampliada dos artigos até o final de 2015, em 4/12/2015, em 374 p.; Research Gate; edição original: Academia.edu)

Paralelos com o Meridiano 47: Ensaios Longitudinais e de Ampla Latitude (Hartford: Edição do Autor, 2015; 543 p.; 1908 KB; DOI: 10.13140/RG.2.1.1916.4006; Academia.edu; ASIN: B082Z756JH; Research Gate).

Volta ao Mundo em 25 Ensaios: Relações Internacionais e Economia Mundial (Brasília: 1ª edição: 2014; 2ª. edição: 2018; Kindle edition; 809 KB; ASIN: B00P9XAJA4).

Rompendo Fronteiras: a Academia pensa a Diplomacia (Kindle, 2014, 414 p.; 1324 KB; ASIN: B00P8JHT8Y).

Codex Diplomaticus Brasiliensis: livros de diplomatas brasileiros (Kindle, 2014, 326 p.; ASIN: B00P6261X2; Academia.edu; ).

Polindo a Prata da Casa: mini-resenhas de livros de diplomatas (Kindle edition, 2014, 151 p., 484 KB; ASIN: B00OL05KYG).

Prata da Casa: os livros dos diplomatas (Hartford: edição para a Funag, 2013, 667 p; não publicada; disponível em Research Gate; 2ª. edição de Autor; 16/07/2014, 663 p.; Academia.edu; Research Gate).

Nunca Antes na Diplomacia...: A política externa brasileira em tempos não convencionais (Curitiba: Editora Appris, 2014, 289 p.; ISBN: 978-85-8192-429-8; Academia.com.br).

O Príncipe, revisitado: Maquiavel para os contemporâneos (Hartford: Edição de Autor, 2013, 187 p.; 658 KB; Edição Kindle, ASIN: B00F2AC146).

Integração Regional: uma introdução (São Paulo: Saraiva, 2013, 192 p.; ISBN: 978-85-02-19963-7; Amazon.com.br).

Relações internacionais e política externa do Brasil: a diplomacia brasileira no contexto da globalização (Rio de Janeiro: LTC, 2012, 328 p.; ISBN: 978-85-216-2001-3; esgotado; não disponível na Amazon; Estante Virtual).

Globalizando: ensaios sobre a globalização e a antiglobalização/ Paulo Roberto de Almeida. – Rio de Janeiro: Lumen Juris Editora, 2010, xx+272 p.; ISBN: 978-85-375-0875-6; Estante Virtual).

Guia dos Arquivos Americanos sobre o Brasil: coleções documentais sobre o Brasil nos Estados Unidos (com Rubens Antônio Barbosa e Francisco Rogido Fins; Brasília: Funag, 2010, 244 p.; ISBN: 978-85-7631-274-1; Academia.edu).

O Moderno Príncipe (Maquiavel revisitado) (Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010, 195 p.; ISBN: 978-85-7018-343-9; esgotado; ver ASIN: B00F2AC146).

O Moderno Príncipe: Maquiavel revisitado (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, edição eletrônica, 2009, 191 p.; ISBN: 978-85-99960-99-8; esgotado; ASIN: B00F2AC146).

O Estudo das Relações internacionais do Brasil: um diálogo entre a diplomacia e a academia (Brasília: LGE Editora, 2006, 385 p.; ISBN: 85-7238-271-2; Amazon.com.br; Academia.edu).

Envisioning Brazil: A Guide to Brazilian Studies in the United States, 1945-2003 (with Marshall C. Eakin; Madison: Wisconsin University Press, 2005, 536 p.; ISBN: 0-299-20770-6; Amazon).

Relações Brasil-Estados Unidos: assimetrias e convergências (com Rubens Antonio Barbosa; São Paulo: Saraiva, 2005, 328 p.; ISBN: 978-85-02-05385-4).

Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (2ª edição; São Paulo: Editora Senac, 2005, 680 pp., ISBN: 85-7359-210-9; 3ª. edição, 2017, dois vols.: ISBN: 978-85-7631-675-6; 1º volume; 2º volume).

Relações internacionais e política externa do Brasil: história e sociologia da diplomacia brasileira (2ª ed.: revista, ampliada e atualizada; Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004, 440 p.; coleção Relações internacionais e integração n. 1; ISBN: 85-7025-738-4; esgotado; Amazon.com.br).

A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003, 200 p.; ISBN: 85-7594-005-8; esgotado; Estante Virtual).

Une histoire du Brésil: pour comprendre le Brésil contemporain (avec Katia de Queiroz Mattoso; Paris: Editions L’Harmattan, 2002, 142 p.; ISBN: 978-2747514538; Amazon.com.br).

Os primeiros anos do século XXI: o Brasil e as relações internacionais contemporâneas (São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002, 286 p.; ISBN: 85-219-0435-5’esgotado; Estante Virtual; Academia.edu).

Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (São Paulo: Editora Senac, 2001, 680 pp., ISBN: 85-7359-210-9; 3ª. edição, 2017, dois vols.: ISBN: 978-85-7631-675-6; 1º volume; 2º volume).

Le Mercosud: un marché commun pour l’Amérique du Sud, Paris: L’Harmattan, 2000, 160 p.; ISBN: 2-7384-9350-5).

O Brasil dos Brasilianistas: um guia dos estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos, 1945-2000 (ed. Com Marshall C. Eakin; Rubens Antônio Barbosa; São Paulo: Paz e Terra, 2002; ISBN: 85-219-0441-X; Academia.edu).

O estudo das relações internacionais do Brasil (São Paulo: Editora da Universidade São Marcos, 1999, 300 p.; ISBN: 85-86022-23-3; Estante Virtual; Academia.edu).

O Brasil e o multilateralismo econômico (Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, na coleção “Direito e Comércio Internacional”, 1999, 328 p.; ISBN: 85-7348-093-9; Estante Virtual).

Velhos e novos manifestos: o socialismo na era da globalização (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 1999, 96 p.; ISBN: 85-7441-022-5; esgotado; Academia.edu).

Mercosul, Nafta e Alca: a dimensão social (São Paulo: LTr, 1999, com Yves Chaloult).

Mercosul: Fundamentos e Perspectivas (São Paulo: Editora LTr, 1998, 160 p.; ISBN: 85-7322-548-3; esgotado; Academia.edu).

Carlos Delgado de Carvalho: História Diplomática do Brasil (edição fac-similar: Brasília: Senado Federal, 1998; Coleção Memória brasileira n. 13; 420 p.; Academia.edu).

Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998, 360 p.; ISBN: 85-7025-455-5; esgotado; Amazon.com).

José Manoel Cardoso de Oliveira: Actos Diplomaticos do Brasil: tratados do periodo colonial e varios documentos desde 1492 (edição fac-similar, publicada na coleção “Memória Brasileira” do Senado Federal; Brasília: Senado Federal, 1997; 2 volumes; Volume I: 1493 a 1870; Volume II: 1871 a 1912; Academia.edu).

O Mercosul no contexto regional e internacional (São Paulo: Edições Aduaneiras, 1993, 204 p.; ISBN: 85-7129-098-9; Estante Virtual; Academia.edu).

Mercosul: Textos Básicos (Brasília: IPRI-Fundação Alexandre de Gusmão, 1992, Coleção Integração Regional nº 1; esgotado).

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 24/03/2026
Links e acesso aos livros, disponíveis na plataforma Academia.edu: https://www.academia.edu/165295970/Livros_individuais_de_e_editados_por_Paulo_Roberto_de_Almeida_2026_


Uma nova política de Defesa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

Uma nova política de Defesa

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, terça-feira, 24 de março de 2026

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

O sinal de alerta foi dado ao se constatar que o País hoje é indefeso. No encontro com Lula, os militares ofereceram um quadro realista e preocupante. Foi dado como exemplo o fato de o Brasil não dispor de uma capacidade de defesa antiaérea que sirva como dissuasão para qualquer ameaça externa. Evidentemente, o Brasil e qualquer outro país da região estão longe de dispor da capacidade de dissuasão para impedir a ação militar de uma superpotência como os EUA. A defasagem dos equipamentos bélicos disponíveis não poderá ser corrigida nem a curto nem a médio prazo, inclusive porque o Brasil depende, na sua quase totalidade, de equipamentos dos EUA e da Europa.

Um plano de investimentos na área de Defesa para o longo prazo foi apresentado pelo ministro José Múcio. O plano prevê investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos, sendo R$ 456 bilhões para projetos do Exército e R$ 250 bilhões para a Marinha e o restante para a Força Aérea. O valor é bem superior ao programa de defesa nacional de cerca de R$ 15 bilhões aprovados para 2026 e aos R$ 30 bilhões nos próximos seis anos para projetos estratégicos de defesa nacional.

O conflito no Oriente Médio começou a ser estudado pelo Exército para identificar riscos e impactos críticos para a Defesa a partir da ação e estratégia aplicadas no conflito. Como era de se esperar, os resultados apontaram para as deficiências e vulnerabilidades brasileiras nessa área. A nacionalização dos componentes e a diversificação dos fornecedores para os programas estratégicos e para a produção de munição, blindados e o desenvolvimento de um sistema de comunicações nacional foram algumas das conclusões alcançadas. Como uma das primeiras medidas para fortalecer a Defesa, o Exército tornou a artilharia antiaérea um projeto estratégico a ser desenvolvido de imediato.

Não será fácil nem rápido, o trabalho para ajustamentos internos de hábitos e práticas para a definição de uma nova política de Defesa.

As deficiências da Defesa não se limitam apenas ao orçamento reduzido e a insuficiente compra de equipamento bélico no exterior. A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas (FFAA) tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Ao Ministério da Defesa cabe a liderança de uma ampla discussão interna corporis – seguida de negociação com outros ministérios relevantes e o Congresso Nacional – sobre a reestruturação do sistema de Defesa para implementar mudanças estruturais, como a implantação de uma carreira civil, a redução gradual dos encargos com o pessoal ativo e inativo e a modernização do modus operandi das três Forças, inclusive com a criação da Base Logística de Defesa – difícil de ser aceita pelas FFAA – para coordenar as aquisições militares, a diversificação das fontes de suprimento dos equipamentos (Índia e Turquia) e o estímulo à indústria nacional, com o gradual aumento das compras de empresas nacionais. Um primeiro passo nessa direção pode ser a unificação e, no futuro, extinção dos escritórios de compras das três Forças no exterior e o fortalecimento da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod).

A Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Conselho de Governo (Creden), órgão de assessoramento ao presidente da República nas áreas de relações exteriores e defesa nacional, poderá melhorar a coordenação dentro do governo e ter maior interação com a sociedade civil, conforme previsto no decreto de institucionalização. A Creden poderá discutir e acompanhar políticas públicas na sua área de competência, em articulação com os demais órgãos responsáveis; promover a articulação e acompanhar a implementação de programas e ações interministeriais, incluindo temas como Defesa e relações exteriores.

O acompanhamento dos temas de Defesa no contexto dos interesses mais amplos do País e levando em conta os desafios globais e nacionais indicaria que o primeiro assunto a ser discutido pela Creden deveria ser a vulnerabilidade da segurança interna e externa do Brasil e como reforçar a Base Industrial de Defesa.

Em ano eleitoral, é difícil que temas que não tenham um efeito imediato ou que não sejam prioritários para os eleitores sejam focados pelo Congresso e pelo governo. Nesse sentido, os primeiros passos para a implementação das atribuições da Creden, pelo próximo governo, deveriam ser dados ainda este ano para que o futuro governo possa elaborar uma política de curto, médio e longo prazo para a Defesa nacional.

A discussão desses temas tão relevantes para o interesse nacional não deveria estar fora dos debates eleitorais em que os candidatos se comprometam com um projeto de Estado para as questões relacionadas com a segurança externa e interna do País.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Aula Inaugural no IRI-USP: Prof. Ricardo Seitenfus, 2026; trabalhos disponíveis na base de dados do IRI-USP

https://www.youtube.com/watch?v=EzUU2ex_Mvg&t=2596s

Trabalhos diretamente no site: https://www.iri.usp.br/br/biblioteca/prof-seitenfus 

Esse conjunto de artigos foi disponibilizado pelo Prof. RICARDO SEITENFUS, constituindo-se em leituras relacionadas à AULA INAUGURAL do IRI-USP de 2026, sob sua responsabilidade e assinalada para a quinta-feira, dia 19/3, às 19h, no Auditório do IRI-USP, de forma presencial e com transmissão simultânea pelo canal oficial do IRI no YouTube, onde a gravação ficará disponível.

Um dos pioneiros entre os internacionalistas brasileiros, o Prof. RICARDO SEITENFUS realizou seus estudos de doutorado na década de 1970 no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais, em Genebra. Com intensa vida acadêmica, foi professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e é autor de dezenas de livros e artigos sobre direito internacional e relações internacionais, sendo conferencista convidado em universidades brasileiras e estrangeiras. Exerceu funções públicas de grande relevância, entre elas a vice-presidência do Comitê Jurídico Interamericano, da Organização dos Estados Americanos (OEA), e a posição de representante especial da OEA no Haiti e na Nicarágua. Criou e foi o primeiro secretário da Secretaria de Assuntos Internacionais do Rio Grande do Sul.

À luz dessa relevante trajetória acadêmica e institucional, o Prof. RICARDO SEITENFUS escolheu para abordar na AULA INAUGURAL do IRI-USP o seguinte tema: “Princípios, ações e desafios do internacionalista frente à política: reflexões sobre uma experiência vivida”.

Artigos indicados pelo Prof. Ricardo Seitenfus, ver no link acima.


Hommage to - Homenagem a - Adam Smith; José da Silva Lisboa, o pai da economia brasileira - Paulo Roberto de Almeida

Hommage to - Homenagem a - Adam Smith

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Apresentação de dois trabalhos meus sobre José da Silva Lisboa, o “Adam Smith brasileiro”.

        Como o mundo inteiro está comemorando os 250 anos da publicação do livro fundador da Economia Política, “A Riqueza das Nações”, resolvi retirar de meus registros dois trabalhos que trataram do “Adam Smith brasileiro”, José da Silva Lisboa, o futuro Visconde de Cairu, patrono dos economistas brasileiros. Vou apresentar nesta pequena brochura os dois trabalhos mais representativos que preparei a esse respeito, respectivamente:

        3133. “A Brazilian Adam Smith: Cairu as the Founding Father of Political Economy in Brazil at the beginning of the 19th century” (Brasília, 30 junho 2017, 17 p.). Publicado na revista Mises: Interdisciplinary Journal of Philosophy, Law and Economics (São Paulo, SP, Brazil; vol. 6, n. 1, edição 10 (janeiro-abril 2018); ISSN: 2318-0811, pp. 117-129. Relação de Publicados n. 1278. (na página 2)
e
        4216. “O maior pensador econômico brasileiro, embora ainda controverso” (Brasília, 12 agosto 2022, 20 p.) Introdução a uma nova edição dos Princípios de Economia Política (1804), de José da Silva Lisboa, pela Editora LVM. Publicado in: Lisboa, José da Silva, Princípios de economia política para servir de introdução à tentativa econômica do autor dos Princípios de Direito Mercantil. São Paulo: LVM Editora, 2022; ISBN: 978-65-5052-041-0; p. 13-39). Relação de Publicados n. 1471. (na página 18)

        Os trabalhos vão aqui reproduzidos em sua integralidade, pois podem possuir algum interesse para os que estão homenageando neste momento o grande filósofo escocês, com o registro que eu também busquei homenagear o “pai da economia política”, argumentando que nós também tivemos um pensador original, que não imitou Adam Smith, mas, sim, elaborou uma obra original a partir das principais lições do seu colega escocês.

Disponíveis conjuntamente na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165281705/5253_Hommage_to_Homenagem_a_Adam_Smith ; divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/hommage-to-homenagem-adam-smith-jose-da.html

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