sábado, 14 de março de 2026

Uma peça de conhecimento histórico sobre o Islã: - Gustavo Binenbojm

Uma peça dd conhecimdnto histórico sobre o Islã:

 Gustavo Binenbojm (UERJ) escreveu:

O Islã Foi a Civilização Mais Avançada da Terra… Até o Dia em Que Matou o Próprio Cérebro em 1095

Imagine o Cairo do século XII. O Nilo ainda carregava as memórias dos faraós, mas o ar que se respirava era puro intelecto. Nas madrasas e nas bibliotecas de Fustat, o árabe não era apenas a língua do Alcorão, era a língua da humanidade civilizada. Era o que o inglês é hoje: o idioma em que se debatia se o mundo era eterno ou criado, se a alma era imortal ou se dissipava, se Deus obedecia às leis da lógica ou as transcendia. E foi nesse árabe cristalino que um judeu sefardita chamado Moisés Maimônides, fugindo das perseguições almóadas, escreveu o Guia dos Perplexos, não em hebraico, não em latim, mas em árabe impecável.

Por quê?

Porque o árabe era a língua de Ibn Sina (Avicena), de Al-Farabi, de Ibn Rushd (Averróis). Era a língua dos gigantes. Maimônides não escrevia para os muçulmanos. Escrevia com eles, contra algumas de suas ideias, mas no mesmo palco intelectual. O Islã, naquela época, era a civilização do conhecimento. O Ocidente cristão ainda gaguejava em mosteiros frios. O Islã iluminava o mundo.

Depois, tudo desandou.

E o responsável por virar a chave não foi um bárbaro invasor. Foi um dos maiores pensadores que o Islã já produziu: Abu Hamid Al-Ghazali.Em 1095, aos 37 anos, o homem mais respeitado de Bagdá, professor da Nizamiyya, a Harvard do Islã medieval, sofreu uma crise espiritual que o destruiu por dentro. Abandonou tudo. Trancou-se em solidão. E escreveu “A Incoerência dos Filósofos”. Com uma inteligência afiada como lâmina de Damasco, Al-Ghazali desmantelou a ponte entre fé e razão que Avicena havia construído com tanto cuidado. Deus, para ele, não era um relojoeiro aristotélico que seguia regras. Deus era o único agente real do universo. O fogo não queimava o algodão por causa de uma lei natural, queimava porque, a cada milésimo de segundo, Alá decidia queimar. A causalidade era ilusão. A filosofia, heresia velada. A razão, uma serva perigosa. Al-Ghazali não era um fanático ignorante. Era um pensador atormentado que escolheu a certeza divina em vez da dúvida científica.

E foi exatamente aí que a porta do ijtihad, o esforço racional independente, começou a se fechar para sempre. A partir de Al Ghazali, a decadência foi constante, As sociedades islâmicas nunca mais se recuperaram, e por isso sem dúvida alguma ele é um dos personagens mais influentes da história. O Irã de hoje, O wahabismo saudita, Al Qaeda, ISIS, Hamas, Hezbollah e tantos outros movimentos, todos filhos de Al Ghazali. O Islã, que havia sido o motor do progresso humano, trocou o laboratório pela mesquita, a pergunta pela resposta pronta, o perplexo pelo dogmático. A Era de Ouro não morreu de morte natural. Foi assassinada por dentro, por sua própria filosofia.

Quinhentos anos depois, o Império Otomano, último suspiro do califado desabou como um castelo de areia. Em 1924, o mundo muçulmano acordou nu. Pobre. Colonizado. Tecnologicamente analfabeto. A pergunta que ecoou de Istambul a Cairo, de Bagdá a Karachi, foi como um soco no estômago coletivo: “Se temos a fé verdadeira, por que estamos perdendo para os infiéis?” Era o trauma da inferioridade civilizacional em sua forma mais pura e devastadora. E foi nesse abismo existencial que nasceu o monstro que hoje chamamos de islamismo radical, não mais uma religião, mas um culto político totalitário. Hassan al-Banna fundou a Irmandade Muçulmana em 1928 com uma tese simples e venenosa: o Islã perdeu sua força porque se deixou contaminar pela cultura ocidental. A solução? Purificação. Retorno às origens, mas não às origens de Avicena e Maimônides. Às origens de Al-Ghazali radicalizado. Sayyid Qutb, o grande teórico da Irmandade, deu o passo definitivo e mortal. Para ele, o inimigo não era mais só o colonialismo britânico ou francês. O inimigo era o individualismo liberal.
O Ocidente havia “privatizado Deus”, colocado o ego humano no centro do universo e transformado a sociedade em um supermercado de vontades egoístas.

Israel, para Qutb, não era apenas um Estado judeu incômodo. Era o posto avançado infeccioso desse vírus que impedia o retorno ao califado coletivo, ao ummah indivisível onde o indivíduo desaparece diante da vontade divina. Nascia ali o Islã como ideologia de Estado. “O Islã é a solução” virou o novo slogan, o mesmo que substituiu o pan-arabismo de Nasser depois da humilhação catastrófica de 1967. Em seis dias, o nacionalismo secular árabe morreu no deserto do Sinai. No vácuo ideológico, o pan-islamismo tomou conta. E com ele veio a armadilha fatal que garante o fracasso perpétuo: a política da culpa.

O clássico livro “Good to Great” de Jim Collins, resume com precisão cirúrgica o mecanismo que transforma uma sociedade em doente terminal: as empresas de elite olham no espelho quando fracassam, assumem responsabilidade, corrigem o rumo, crescem. Olham pela janela apenas para celebrar vitórias. O islamismo radical, porém, inverteu o espelho. Transformou-o em janela. Cada fracasso econômico, cada fila de desempregados, cada repressão brutal, cada cérebro que foge é imediatamente atribuído ao “inimigo externo”: sionistas, ocidentais, infiéis, “entidade sionista”. Nunca ao próprio espelho. Eles ainda não entenderam que fizeram a escolha errada, a escolha histórica de ter matado Avicena em nome de Al-Ghazali.

É exatamente por isso que, com toda razão, dizemos que o antissemitismo crescente não é apenas um ódio antigo reciclado, é o sintoma mais claro de uma sociedade doente e problemática. Quando uma civilização perde a capacidade de olhar para dentro e assumir a própria responsabilidade na geração dos seus problemas, ela começa a culpar terceiros de forma compulsiva. E aí está condenada: nunca resolverá nada. Porque o problema não está fora. Está no espelho que ela se recusa a encarar. O antissemitismo de Estado, nesse sentido, não é causa, é consequência e profecia de declínio. Enquanto o ódio ao judeu servir de álibi perfeito, a nação nunca consertará o que realmente a mata por dentro.

Países que abraçaram esse culto político, Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Gaza sob Hamas, Líbano sob Hezbollah viraram museus vivos do fracasso. Economias em ruínas. Cérebros em fuga. Sociedades que produzem ódio em vez de inovação. O regime iraniano é o exemplo mais puro dessa tragédia em estado terminal. Uma revolução que, para sobreviver, precisa de um inimigo eterno. Como Micah Goodman descreve: uma revolução vitoriosa vira “chata”, burocracia, corrupção, lixo nas ruas, economia em colapso. Israel é a “bateria” que mantém essa revolução carregada. Sem Israel, o aiatolá teria de olhar no espelho e explicar por que o Irã é pobre, isolado e sangrando em protestos de mulheres sem véu. Com Israel, basta apontar para a “entidade sionista” e o ódio mantém a máquina girando. É a gestão perfeita do ressentimento. É a política da culpa elevada à categoria de religião de Estado.

Estamos vivendo, neste exato momento, o “1967 do pan-islamismo”. Assim como o sonho de Nasser morreu em seis dias, o sonho de que o radicalismo religioso islâmico levaria à vitória militar está morrendo agora, diante dos escombros do Hezbollah, do Hamas e do QG de Khamenei. Quando esses proxies forem desmantelados, a ideia de que “o Islã é a solução” militar também morrerá. E o mundo muçulmano terá de confrontar novamente a pergunta que Al-Ghazali ajudou a enterrar em 1095.

Mas há uma contradição ainda mais profunda, quase poética. Os inimigos de Israel sempre subestimaram sua força porque acreditaram na narrativa de que o Ocidente e Israel eram “moles”. Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, chamava Israel de “teia de aranha”: fisicamente forte (bombas, tecnologia), mas socialmente fraco, mimado pelo conforto liberal. Ele acreditava que bastaria um pouco de sangue para que os israelenses fugissem para Miami.
Estavam invocando, sem saber, a teoria de Ibn Khaldun, o grande historiador árabe do século XIV: a Asabiyyah, a coesão tribal primordial, sempre vence impérios ricos e decadentes. O que Nasrallah não entendeu é que Israel realizou o impossível sociológico: tornou-se uma sociedade híbrida. Liberal o suficiente para criar o Iron Dome e o Waze, tribal o suficiente para que, em horas, 300 mil civis largassem suas vidas e corressem para o front, individualista o suficiente para questionar tudo, coeso o suficiente para morrer uns pelos outros. Israel é ao mesmo tempo moderno e antigo, democrático e clã. Uma belíssima anomalia histórica.

A raiz dessa anomalia está na humildade epistemológica judaica. Enquanto o Islã radical herdou o dogma absoluto de Al-Ghazali (e o dualismo persa zoroastriano do Irã: Luz pura contra Trevas puras, Bem contra Mal metafísico que deve ser erradicado), o judaísmo preservou a tradição talmúdica onde até as opiniões perdedoras são registradas com respeito. Hierarquicamente a pergunta sempre está acima da resposta. Incerteza acima da certeza. Ciência como subproduto da dúvida sagrada. Se você acha que já possui a Verdade Divina absoluta, você para de pesquisar. Se você é humilde diante da complexidade da realidade, você constrói o Iron Dome.

O Irã, ao contrário, vive preso ao dualismo persa ancestral: o mundo só ficará “puro” quando o Mal (Israel, América) for exterminado. Mas todo movimento que busca pureza absoluta termina em tirania e sangue, porque a realidade humana é, por definição, impura, contraditória, complexa. O judaísmo, ao contrário, aceita o mal como ausência de bem, algo a ser gerenciado, não erradicado em holocausto utópico. É por isso que o contraste é tão brutal. No mesmo momento em que mísseis iranianos cruzavam o céu de Israel durante o Sucot de 2024, os israelenses estavam sentados em sua sucah, aquela cabana frágil que simboliza vulnerabilidade. A sucah balançava com o vento. Mas dentro dela havia uma força que nem Al-Ghazali, nem Qutb, nem Nasrallah conseguiram compreender: a força de quem parou de se sentir vítima e voltou a ser ator da História. A união não era mais de trauma (como em 7 de outubro de 2023). Era a “união do sucesso”. A união de quem recuperou a iniciativa.

O Islã radical, ao abraçar o culto político da culpa e da pureza, condenou-se ao declínio perpétuo. Israel, ao preservar a humildade da pergunta e a coesão do clã, tornou-se a anomalia que desmente todas as leis da sociologia histórica de Ibn Khaldun.

E é aqui, neste exato instante da História, que o coração do Oriente Médio parece bater mais forte. Porque o que está em jogo não são apenas fronteiras ou foguetes. É o futuro da alma humana nesta região. De um lado, uma visão de mundo que escolheu o espelho quebrado, o ódio como combustível e a pureza como prisão. Do outro, uma pequena nação que, contra todas as probabilidades, escolheu manter o espelho inteiro: olhar para dentro, assumir erros, questionar, inovar, amar a vida com todas as suas imperfeições.

Que o mundo muçulmano encontre, um dia, a coragem de recolocar aquele espelho no lugar. Que ele volte a ouvir a voz de Avicena e Maimônides, em vez de Qutb e Al-Ghazali. Que ele entenda que a verdadeira grandeza não nasce do ódio ao outro, mas da honestidade consigo mesmo. Porque só então o paraíso perdido poderá, talvez, ser reencontrado. Não como sonho utópico de califado, mas como realidade viva: uma civilização que escolhe o futuro em vez do ressentimento, a pergunta em vez do dogma, a vida em vez da morte. A resposta, como sempre, está no espelho que o Islã radical quebrou em 1095, e que, até hoje, não teve coragem de recolocar no lugar. Que ele o recolha. Antes que seja tarde demais. Antes que o coração do Oriente Médio pare de bater de vez.


Da importância dos livros - Timothy Snyder

A World Apart

Books, Freedom, and Captivity

Maksym Butkevych, the Ukrainian human rights activist, was held in Russian captivity for more than two years. I had the pleasure of listening to his thoughts about freedom a couple of times recently, last month in Ukraine and this month in Canada. I was struck by an experience he had with books and a thought he had about choice.

He explained that prison had changed his thinking about violence. It was not, he decided, about making a person do this thing or that thing. It was about the abolition of the capacity for choice. Torture was about the undoing of personhood itself, about turning a person into an object. He was a realist about this, in a tradition of east European prison writers.

The Polish writer Gustaw Herling-Grudziński spent two years in the Soviet Gulag. in his memoir, A World Apart, wrote that “when the body has reached the limit of its endurance, one cannot, as was once believed, rely on strength of character and conscious recognition of spiritual values; that there is nothing, in fact, which man cannot be forced to do by hunger and pain.”

This was the point Maksym made in terms of the loss of agency. Predictable suffering makes a predictable human. Herling-Grudziński defined the goal of interrogation as the thorough dismantling of a personality into its component parts. The prisoner becomes predictable, even to himself.

Listening to him, I was struck by the importance of books to Maksym while he was in captivity. He made appeals to prison authorities for access to certain books. In the Gulag, Herling-Grudziński was able to read a few novels, thanks to the kindness of a fellow prisoner. These novels enabled him to believe that he could understand the thoughts of others, that he was not entirely alone. The person who gave him books is one of the few who appears in his memoir by name. Is it by chance that I remember her name? Natalia.

Today Russian missiles target publishing houses, libraries, and archives. Today, in the parts of Ukraine occupied by Russia, the Russians collect books that are in the Ukrainian language to be burned. This is work, and work can be done by prisoners. So Ukrainian prisoners-of-war, such as Maksym, found themselves forced to destroy the Ukrainian-language books that Russian occupiers had taken from libraries, schools, and universities.

The burnings of millions of Ukrainian books an action designed to destroy a culture, and could certainly be seen as evidence of a larger project of genocide. Maksym, however, defined the loss in terms of individual agency. People should be able to read the books that they want to read, in the language in which they want to read them. From a shelf of books in a library a human being does the choosing. In selecting a book with eye and hand, we make a choice for ourselves; but we also enter into the choices of the author.

fire in fire pit during nighttime

Listening to Maksym, I could remember books that I read, make connections, assemble thoughts. 

We are not, most of us who will read this, ourselves in captivity. But we are, if we are Americans, citizens of a country in which librarians spend their time reviewing books and removing them from shelves. This is not so dramatic, of course, as Ukrainian prisoners being forced to burn Ukrainian books during a criminal war of aggression. But the difference is of degree and not of kind. Those librarians are not doing what they want to do. And books, once purged, cannot be seen, cannot be chosen.

Sometimes basic truths only come clear in extreme conditions. Maksym’s point that we choose books has relevance that goes beyond captivity, and even beyond the censorship of libraries. The internet is also a world apart in which things are chosen for us. That which is most predictable about is known, collected, magnified, exploited. We are set before options, but these are generated by algorithmic non-entities who must treat us objects because they are objects themselves.

This problem, in one way or another, was anticipated by writers of the twentieth century. Two years after Herling-Grudzinski’s memoir appeared in English, Ray Bradbury (to take one example among many) published Fahrenheit 451, in which firemen seek and burn books while the rest of society is expected to remain in front of screens. The free people in the novel are those who preserve books by memorizing them. Books figure here as “mediators of freedom,” to quote the French philosopher Simone Weil.

In Ukraine, a couple of mutual friends asked whether Maksym and I talked about my book On Freedom while I was writing it. We couldn’t have; he was at the front and in captivity. When Maksym volunteered to serve in the Ukrainian armed forces, I was beginning a class on freedom inside an American maximum security prison. When he was taken prisoner by the Russians, I was at the end of a semester in which I had learned from others who were reading in captivity. In one seminar, my student Dwayne quoted a wartime note from Simone Weil: freedom means substituting “devotion for obedience.” We might be devoted to a book, and author, a friend. But that is a choice.

Weil also called freedom “a loan that must be constantly renewed” -- a deep thought that turns my eyes to the overdue library books on my desk. A book whisks us into an unpredictable world, a world no longer apart, but renewed. We choose and then we find ourselves altered, expanded, capable of further choices. At some point, I chose to read Herling-Grudziński and Bradbury and Weil, and then they can return to me, thanks to others, in this case thank to Maksym. I find it extraordinary that he is able to speak about captivity, and appreciate the generosity that allows his own thinking about freedom to inform ours. I hope that he writes his own book.

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sexta-feira, 13 de março de 2026

Madame IA submete meu artigo sobre a "Submissão ao Império" ao seu crivo analítico - Airton Dirceu Lemmertz

Madame IA submete meu artigo sobre a "Submissão ao Império" ao seu crivo analítico - Airton Dirceu Lemmertz

A ficha original de meu artigo publicado é esta aqui:

5240. “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, Brasília, 11 março 2026, 4 p. Digressões sobre as relações Brasil-Estados Unidos e preocupação quanto a uma nova fase de submissão diplomática ao império trumpista. Colaboração com a revista digital Será? (ano xxiv, n. 701, 13/03/2026; link: https://revistasera.info/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada-a-declarada/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada.html). Relação de Publicados n. 1627.

Aqui entra meu amigo Airton que submete meu texto à implacável validação de Madame IA, que está sendo mais boazinha comigo: 



O texto apresentado, de autoria do diplomata e historiador Paulo Roberto de Almeida, oferece uma análise sofisticada da trajetória pendular da política externa brasileira em relação aos EUA. Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica dos pontos centrais, segmentada por eixos temáticos:

1. A Genealogia da Subserviência: O Mito de Juracy Magalhães:
O autor realiza um importante trabalho de arqueologia semântica ao restituir o copyright da frase "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil".
Crítica: A transferência da lógica corporativa (General Motors) para a lógica de Estado revela o cerne da ideologia do início do regime de 64: a crença na convergência absoluta de interesses entre o capitalismo central e a periferia. O autor acerta ao pontuar que a frase foi um "erro tático" de comunicação, mas erra quem a vê apenas como gafe; ela era a tradução sincera de um projeto de alinhamento ideológico que ignorava as assimetrias de poder.

2. Lula e a Subversão Retórica:
Um dos pontos mais perspicazes do relato é a descrição da manobra dialética de Lula em 2002.
Análise Detalhada: Lula não apenas "recuperou" a frase, ele a ressignificou como ferramenta de pragmatismo. Ao justificar a aproximação com a China (um tabu ideológico para a direita e para Washington na época) através de uma lógica "americanista", Lula esvaziou a crítica política e a substituiu por uma lógica de mercado.
Visão Crítica: O autor nota que Lula fugiu da pergunta sobre o Foro de São Paulo e o PCCh. Isso demonstra a habilidade do petista em operar na ambiguidade diplomática: manter a forma simpática aos olhos dos EUA enquanto construía as bases da diversificação de parceiros que definiria sua política externa (Sul-Sul).

3. A Institucionalidade do Itamaraty vs. Voluntarismo Político:
O texto estabelece um contraste claro entre a "corporação do Itamaraty" e os impulsos dos mandatários.
Análise: O autor defende a tese de que o Itamaraty possui um "DNA" de autonomia que sobreviveu até ao início do regime militar, retomando a Política Externa Independente (PEI) mesmo sob generais (Costa e Silva).
Crítica: Essa visão pode ser interpretada como uma defesa corporativista. Embora o Itamaraty tenha, de fato, um histórico de resiliência técnica, a análise sugere que a diplomacia é uma ilha de racionalidade. O autor utiliza termos como "pouco instruído" para Costa e Silva e "patético" para Ernesto Araújo para enfatizar que o desvio da norma não é apenas político, mas intelectual.

4. A Tese da Intervenção Democrática de Biden:
Este é o ponto mais controverso e original do texto. Almeida propõe que os EUA intervieram em 2022, mas desta vez em favor da democracia.
Análise Detalhada: A vinda de William Burns (CIA) e Jake Sullivan teria sido o "fiel da balança" para desencorajar o golpismo militar.
Crítica: Aqui reside uma ironia histórica profunda. O autor, um crítico contumaz da submissão ao "Império", reconhece que, em 2022, a chancela de Washington foi o que salvaguardou o processo eleitoral brasileiro contra o governo interno. Isso levanta uma questão crítica: se a democracia brasileira precisou da validação da CIA para ser respeitada por seus próprios generais, a soberania nacional permanece, de certa forma, tutelada, mudando apenas o "sinal" da intervenção (de pró-golpe em 64 para contra-golpe em 22).

5. Trumpismo e Bolsonarismo: A "Submissão Bizarra":
O autor finaliza com uma condenação severa ao período 2019-2022, diferenciando o "alinhamento tradicional" da "submissão pessoal".
Análise: Enquanto Juracy Magalhães via um alinhamento de Estados, o Bolsonarismo via um alinhamento de seitas ideológicas (anti-globalismo, olavismo). O autor argumenta que isso transformou o Brasil em um "pária", destruindo décadas de construção de soft power.
Crítica: A crítica de Almeida é técnica e ética. Ele aponta que o erro de Araújo e Bolsonaro não foi apenas alinhar-se aos EUA, mas alinhar-se a uma fração específica (e radical) da política americana, sacrificando os interesses permanentes do Estado brasileiro em favor de uma mística ideológica sem ganhos concretos (como a não entrada na OCDE ou a manutenção de tarifas).

* Conclusão:
O texto é um testemunho de quem viveu a máquina diplomática e deplora a sua degradação. A análise de Almeida sugere que o maior perigo para o Brasil não é o relacionamento com os EUA em si, mas a incapacidade das elites políticas brasileiras de distinguir entre cooperação estratégica e vassalagem ideológica.

Fonte (IA Gemini):

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será? - Paulo Roberto de Almeida

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será?

Paulo Roberto de Almeida
Compilação efetuada em 13/03/2026
(dos mais recentes aos mais antigos)
Postada no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/lista-dos-artigos-oferecidos-em.html). Também disponíveis no site da revista Será? (link: https://revistasera.info/author/paulo-roberto-de-almeida/).

1627. “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, revista digital Será? (ano xxiv, n. 701, 13/03/2026; link: https://revistasera.info/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada-a-declarada/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada.html). Relação de Originais n. 5240.

5233. “De uma mudança de regime a uma outra...”, Brasília, 6 março 2026, 4 p. Texto sobre a guerra de Trump contra o Irã dos aiatolás. Deveria ter sido publicado na revista Será? (n. 700, 7/03/2026), mas foi oferecido fora do tempo hábil para sua editoração e ficou de fora da série. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/de-uma-mudanca-de-regime-uma-outra.html).

1626. “Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional”, Revista Será? (xiv, n. 699, 27/02/2026, link: https://revistasera.info/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso-memoravel-sobre-o-direito-internacional/); republicado no blog Diplomatizzando (27/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso.html). Relação de Originais n. 5227.

1625. “As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?”, Brasília, 18 fevereiro 2026, 4 p. Contribuição à revista Será? (ano xiv, n. 698, 20/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma-ordem-global-funcional/); reproduzido no blog Diplomatizzando (20/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma.html). Relação de Originais n. 5221.

1622. “A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas”, revista Será? (ano xiv, n. 696, 13/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas-coisas-ainda-nao-resolvidas/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Originais n. 5213.

1621. “O lado mais constante da nação brasileira: o Estado extrator”, revista Será? (ano xiv, n. 695, 06/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao-brasileira-o-estado-extrator/); reproduzido no blog Diplomatizzando (06/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao.html). Relação de Publicados n. 5208.

1619. “Estaríamos outra vez em face de um novo 'fim da História'?", revista Será? (ano xiv, n. 694, 30/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/); reproduzido no blog Diplomatizzando (30/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo.html). Relação de Originais n. 5172.

1618. “Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial”, revista Será? (ano xv, n. 693, 23/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-a-opcao-pelo-caos-um-ano-de-destruicao-da-ordem-mundial/); reproduzido no blog Diplomatizzando (23/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-opcao-pelo.html). Relação de Originais n. 5195.

1617. “O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos”, revista Será? (ano xiv, n. 692, 16/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-e-a-morte-do-multilateralismo-tal-como-o-conheciamos/); reproduzido no blog Diplomatizzando (16/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/a-morte-do-multilateralismo-como-o.html). Relação de Originais n. 5183.

1616. “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, revista Será? (ano xiv, n. 691, 09/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica-da-desordem-de-trump/); reproduzido no blog Diplomatizzando (9/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica.html). Relação de Originais n. 5175.

1615. “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/); reproduzido no blog Diplomatizzando (2//01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e.html ). Relação de Originais n. 5155.

1612. “O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo”, revista Será? (ano xiv, n. 689, 26/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026-no-pais-e-no-mundo/);
republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026.html). Relação de Originais n. 5153.

1611. “O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?”, revista Será? (ano xiv, n. 688, 19/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-marcha-para-a-direita-retornamos-cem-anos-no-passado/); republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-mundo-marcha-para-direita-retornamos.html). Relação de Originais n. 5138.

1608. “A estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental”, revista Será? (ano xiv, n. 687, Recife, 12 de dezembro de 2025); link: https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do.html). Relação de Originais n. 5133.

1607. “O mundo em três tempos: 1925, 1945, 2025”, revista Será? (ano xiv, n. 686, Recife, 5 de dezembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-e-2025/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-2025.html). Relação de Originais n. 5128.

1603. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são e como podem ser, 2”, revista Será? (ano xiv, n. 685, Recife, 28 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil_28.html). Relação de Originais n. 5110.

1602. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são, como podem ser, 1/2”, revista Será? (ano xiv, n. 684, Recife, 21 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-1-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil.html). Relação de Originais n. 5109.

1601. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html). Relação de Originais n. 5104.

1600. “Trump, ou a diplomacia pelo método confuso”, revista Será? (ano xiv, n. 682, 31/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/trump-ou-a-diplomacia-pelo-metodo-confuso/); divulgado no blog Diplomatizzando (31/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/trump-ou-diplomacia-pelo-metodo-confuso.html). Relação de Originais n 5098.

1599. “Opções da diplomacia brasileira num mundo em desordem”, revista Será? (ano xiv, n. 681, 24/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num-mundo-em-desordem/); divulgado no blog Diplomatizzando (24/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num.html). Relação de Originais n. 5097.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5244, 13/03/2026

Adam Smith y el taoísmo de mercado - James A. Dorn (El Cato Intitute)

 Adam Smith y el taoísmo de mercado

James A. Dorn dice que las raíces del liberalismo son más profundas y se remontan a antiguos pensadores chinos como Lao Tzu y otros, quienes reconocieron que el orden podía surgir espontáneamente si los gobernantes seguían el principio de wu wei (no intervención).

Adam Smith (1723-1790), a menudo conocido como el "padre fundador de la economía", fue, de hecho, un filósofo moral que concedía un gran valor a la libertad y la rectitud moral. Su famoso tratado sobre La riqueza de las naciones (1776) fue precedido por La teoría de los sentimientos morales (1759). Smith no solo estaba interesado en la asignación eficiente de los recursos. Se adhería al principio de no intervención y era un firme defensor del libre comercio (laissez-faire). Al igual que otros liberales clásicos, se interesaba por las instituciones necesarias para crear un orden social armonioso, y consideraba que la clave era un "sistema simple de libertad natural", respaldado por un estado de derecho justo que protegiera a las personas y la propiedad. Sus ideas deben celebrarse junto con el 250 aniversario de la Declaración de Independencia.

La doctrina de la mano invisible de Adam Smith

Aunque Smith solo utilizó el término "mano invisible" una vez en su obra La riqueza de las naciones (WN), es, con diferencia, el término más citado de ese libro. Sostenía que los individuos son egoístas y que, al perseguir sus intereses —dentro de un sistema que apoya el liberalismo—, la sociedad se beneficiaría sin necesidad de una dirección central. A continuación se incluyen las citas pertinentes.

  • "No es de la benevolencia del carnicero, del cervecero o del panadero de quien esperamos nuestra cena, sino de su interés propio" (WN, ed. Modern Library, 1937: 14).
  • "El comercio y la manufactura introdujeron gradualmente el orden y el buen gobierno y, con ellos, la libertad y la seguridad de los individuos" (WN, p. 385).
  • "Confiamos con total seguridad en que la libertad de comercio, sin ninguna intervención del gobierno, siempre nos proporcionará el vino [y otros bienes] que necesitamos" (WN, p. 404).
  • Al perseguir su propio interés, un individuo a menudo es "guiado por una mano invisible" para promover "el de la sociedad de manera más eficaz que cuando realmente tiene la intención de promoverlo" (WN, p. 423).
  • "Por lo tanto, al eliminarse por completo todos los sistemas, ya sean de preferencia o de restricción, el sistema obvio y simple de la libertad natural se establece por sí solo. Todo hombre, siempre que no viole las leyes de la justicia, queda perfectamente libre para perseguir su propio interés a su manera y para poner tanto su industria como su capital en competencia con los de cualquier otro hombre u orden de hombres". Así, "el soberano queda completamente liberado de un deber [...] para cuyo cumplimiento adecuado ninguna sabiduría o conocimiento humano podría ser suficiente" (WN, p. 651).
  • Bajo el "sistema de libertad natural", el Estado/soberano solo tiene poderes limitados: en primer lugar, salvaguardar "a la sociedad de la violencia y la invasión de otras sociedades independientes"; en segundo lugar, proteger "a cada miembro de la sociedad de la injusticia o la opresión de cualquier otro miembro de la misma, o el deber de establecer una administración exacta de la justicia"; y en tercer lugar, mantener "ciertas obras públicas y ciertas instituciones públicas" (ibíd.).
  • "En el gran tablero de ajedrez de la sociedad humana, cada pieza tiene un principio de movimiento propio, totalmente diferente del que la legislatura podría decidir imponerle. Si esos dos principios coinciden y actúan en la misma dirección, el juego de la sociedad humana transcurrirá con facilidad y armonía, y es muy probable que sea feliz y exitoso. Si son opuestos o diferentes, el juego transcurrirá de forma miserable y la sociedad se verá sumida en todo momento en el mayor grado de desorden" (Teoría de los sentimientos morales, Liberty Classics, 1969: 381).

Estas citas ilustran la idea de Smith, compartida por otros liberales clásicos, de que la armonía social y económica se logra mejor mediante la adhesión a la libertad bajo un estado de derecho justo que proteja los derechos fundamentales a la vida, la libertad y la propiedad. Sin embargo, las raíces del liberalismo —y la idea de la armonía que surge de la libertad bajo la ley— son más profundas y se remontan a antiguos pensadores chinos como Lao Tzu, quien reconoció que el orden podía surgir espontáneamente si los gobernantes seguían el principio de wu wei (no intervención). En la siguiente sección se exploran algunos de los pensadores que defendían lo que yo he denominado "taoísmo de mercado" (Dorn 1998: cap. 7).

El Tao del mercado

Los mercados están en todas partes. Las personas se esfuerzan por mejorar su situación mediante intercambios mutuamente beneficiosos. Cuanta más libertad haya —sujeta a un auténtico estado de derecho—, mayores serán las posibilidades de crear armonía social y económica. Adam Smith lo entendió, al igual que varios pensadores chinos mucho antes de que apareciera La riqueza de las naciones.

Lao Tzu

Lao Tzu, que según la tradición vivió en el siglo VI a. C., reconoció que la mejor manera de lograr la armonía económica y social es limitando el poder del Estado y ampliando la libertad de elección individual, siempre que se respete un estado de derecho justo. He aquí algunas citas relevantes del Tao Te Ching ("El clásico del camino y su virtud", también conocido como Laozi).

  • "Cuantas más restricciones y limitaciones haya, más empobrecidos estarán los hombres... Cuantas más normas y preceptos se impongan, más bandidos y delincuentes se producirán. De ahí que tengamos las palabras de los sabios: A través de mi no acción, los hombres se transforman espontáneamente. A través de mi quietud, los hombres se vuelven espontáneamente tranquilos. A través de mi no interferencia, los hombres aumentan espontáneamente su riqueza" (cap. 57, traducido por Chang Chung-yuan, Harper & Row, 1975).
  • "Cuando los impuestos son demasiado altos, la gente pasa hambre. Cuando el gobierno es demasiado intrusivo, la gente pierde su espíritu. Actúa en beneficio del pueblo. Confía en ellos; déjalos en paz" (Cap. 75, traducido por Stephen Mitchell, HarperPerennial, 1991).
  • "Cuando el gobierno no es discriminatorio y es aburrido, el pueblo está contento y es generoso". Pero "cuando el gobierno es inquisitivo y discriminatorio, el pueblo está decepcionado y es conflictivo" (Cap. 58, traducido por Wing-Tsit Chan 1963: 167).

Los líderes y el pueblo de China pueden recurrir a Lao Tzu en busca de orientación. Su oposición a la intervención del gobierno y su poderosa idea del orden espontáneo son tan relevantes hoy como lo eran en la antigua China. Como señala Wing-Tsit Chan, un destacado filósofo chino, el Tao Te Ching "se opone firmemente al gobierno opresivo". El "gobernante sabio" debe guiar mediante la "no interferencia" (wu wei). Por lo tanto, "el taoísmo no es una filosofía de retirada. El hombre debe seguir a la naturaleza, pero al hacerlo no se elimina; al contrario, se cumple su naturaleza" (Chan, 1963: 137).

Han Fei Tzu

Han Fei Tzu, un destacado erudito legalista del siglo III a. C., aceptó la noción taoísta del orden espontáneo, pero hizo hincapié en que, dada la naturaleza del hombre, las normas son necesarias para garantizar que la libertad conduzca a resultados socialmente beneficiosos, limitando el poder del Estado y garantizando la igualdad ante la ley.

Las ideas de Han Fei sobre la naturaleza humana y el papel de las normas en la promoción de la armonía social son muy similares a las de Adam Smith. En el capítulo 32 de lo que se conoce como Han Fei Tzu, encontramos el siguiente pasaje:

Cuando un hombre vende sus servicios como jornalero, el amo le da buena comida a expensas de su propia familia y le paga con dinero y ropa. Esto no es porque quiera al jornalero, sino porque dice: "De esta manera, su arado penetrará más profundamente en la tierra y su siembra será más activa". El jornalero, por su parte, ejerce su fuerza y trabaja afanosamente en el laboreo y el deshierbe. Ejerce toda su habilidad en el cultivo de los campos. No lo hace porque quiera a su amo, sino porque dice: "De esta manera tendré buena sopa, y el dinero y la ropa me llegarán fácilmente". Así, gasta sus fuerzas como si entre ellos existiera un vínculo de amor, como el que existe entre padre e hijo. Sin embargo, sus corazones se centran en la utilidad, y ambos albergan la idea de servirse a sí mismos. Por lo tanto, en la conducta de los asuntos humanos, si uno tiene la intención de hacer el bien, será fácil mantener la armonía, incluso con un nativo de Yüeh [un estado bárbaro]. Pero si uno tiene la intención de hacer daño, incluso el padre y el hijo se separarán y sentirán enemistad el uno hacia el otro [Fung 1952: 327].

Este extracto muestra claramente que Han Fei aceptaba ideas taoístas similares al concepto moderno de orden espontáneo y reconocía la importancia del intercambio voluntario. También reconocía que los hombres podían hacer el mal y, por lo tanto, la paz y la prosperidad requerían un gobierno sujeto a leyes igualitarias de justicia. En el capítulo 50, dice: "Si se hace que el pueblo no pueda hacer el mal, todo el estado puede mantenerse en paz" (Fung 1952: 330). Así, aunque Han Fei acogía con agrado la virtud confuciana, no la consideraba suficiente para prevenir el mal.

El poder (shih) del gobernante no debía ser ilimitado, sino que debía utilizarse de manera justa a través de la ley (fa) y los métodos (shu), un sistema de castigos y recompensas que constituyen los "principios necesarios" de un "grandioso gobierno bueno". La idea clave, señala Fung (ibíd.), es que "si el gobernante puede utilizar estos principios, será capaz de gobernar a través de la no acción (wu wei)".

En otras palabras, el orden fluye de la libertad bajo la ley. Los gobernantes que utilizan su poder sabiamente para prevenir el daño, al tiempo que permiten a las personas la libertad de perseguir sus propios intereses, crearán armonía social y económica. En el capítulo 29 del Han Fei Tzu, aprendemos que los gobernantes antiguos, que se adherían a los principios necesarios del buen gobierno,

se basaban para el buen gobierno... en leyes y métodos; dejaban que lo correcto y lo incorrecto se trataran con recompensas y castigos; y remitían lo ligero y lo pesado al equilibrio de la balanza. No se oponían al orden natural y no infligían daño a los sentimientos y la naturaleza humanos... No presionaban lo que estaba más allá de la ley, ni dejaban pasar lo que estaba dentro de ella. Se mantuvieron fieles al orden adecuado y respondieron a lo espontáneo... Las responsabilidades de la gloria o la desgracia dependían del individuo, y no de los demás [Fung 1952: 331].

En el capítulo 11 del Han Fei Tzu se encuentra otra prueba de que Han Fei no quería utilizar la ley para reprimir a las personas, sino para hacerlas responsables y libres de perseguir sus propios intereses, lo que, en su opinión, produciría espontáneamente una sociedad armoniosa: "Los eruditos versados en la ley deben tener una resolución firme y una rectitud inquebrantable... [Deben] ser capaces de rectificar la conducta malvada de los hombres poderosos" (Fung 1952: 335).

En el capítulo 42, Han Fei afirma:

Creo que al establecer leyes y métodos, y al fijar normas y medidas, puedo beneficiar al pueblo y facilitarle el camino. Por lo tanto, no temo la calamidad de incurrir en la ira de un superior desordenado o poco ilustrado, sino que primero debo pensar en cómo hacer que la riqueza y los beneficios sean adecuados para el pueblo... No puedo soportar la acusación de actuar con avaricia y mezquindad, y no me atrevo a perjudicar el curso de la moralidad y el conocimiento [Fung 1952: 336].

Han Fei, en el capítulo 50, advirtió contra un Estado redistributivo, que, en su opinión, atenuaría los incentivos para ahorrar y ser productivo. Según él, quitarle la propiedad a una persona trabajadora y redistribuirla a una persona derrochadora a través del Estado disminuiría la riqueza de la nación. Como señala Fung (1952: 328), "En economía, Han Fei Tzu sostiene que, dado que todos los hombres actúan en su propio interés, es mejor dejarlos solos en libre competencia. Por lo tanto, se opone a la doctrina confuciana de la división equitativa de la tierra".

La fusión del taoísmo y el legalismo (véase Schwartz 1985: 343-44), para mostrar la importancia de las normas y las instituciones para el surgimiento de un orden social y económico espontáneo, proporciona importantes lecciones para los actuales líderes de China (Dorn 2016).

Sima Qian

Durante la dinastía Han, el gran historiador Sima Qian (c. 145-86 a. C.), en su famosa obra Registros del historiador (Shiji), reconoció la importancia de los mercados y la división del trabajo para aumentar la riqueza individual y social, así como el efecto ruinoso de la intromisión del gobierno y la planificación centralizada. En "Las biografías de los mercados monetarios", argumentó:

Debe haber agricultores para producir alimentos, hombres para extraer la riqueza de las montañas y los pantanos, artesanos para producir estas cosas y comerciantes para distribuirlas. No hay necesidad de esperar las órdenes del gobierno: cada hombre desempeñará su papel, haciendo todo lo posible por conseguir lo que desea... Cuando todos trabajen de buena gana en su oficio, al igual que el agua fluye incesantemente cuesta abajo día y noche, las cosas aparecerán sin buscarlas y la gente las producirá sin que se les pida. Porque claramente esto concuerda con el Camino [Tao] y está en consonancia con la naturaleza [Shiji, cap. 129].

Este pasaje proporciona una prueba más de que, mucho antes de la Ilustración escocesa, China ya había desarrollado la idea del orden espontáneo y comprendido la mano invisible de Adam Smith. Como sugiere el economista Gregory C. Chow (Zhou Zhizhuang), "Sima tenía un profundo conocimiento del funcionamiento de la economía de mercado". De hecho, "podría ser difícil encontrar un pasaje en La riqueza de las naciones de Adam Smith que ofrezca una descripción más clara y sencilla de la economía de mercado" (Chow 2007: 13).

Adam Smith en China

La primera traducción china de La riqueza de las naciones apareció en 1902. Se trataba de una traducción parcial realizada por Yan Fu, que presentaba a los lectores la economía política de Smith (véase Zhu 1993). Hoy en día, se puede visitar la Universidad Suroccidental de Finanzas y Economía de Chengdu (SWUFE)y ver una estatua de tamaño natural de Smith adornando el campus, que representa el alcance global de la SWUFE y su apertura a nuevas ideas que ayudan a configurar el desarrollo económico.

Sin embargo, la adhesión de Smith al principio de libertad bajo un estado de derecho justo aún no ha sido comprendida por el Partido Comunista Chino, que está representado en todas las universidades nacionales de China.

Aunque el movimiento reformista, que comenzó en 1978, ha logrado cierto grado de liberalización económica, el PCCh sigue comprometido con el "socialismo con características chinas" (también conocido como "socialismo de mercado"), en contraposición a lo que Milton Friedman (1989: 569) ha denominado "mercados privados libres" o lo que podríamos llamar "taoísmo de mercado".


Adam Smith, SWUFE, Chengdu.

El camino hacia el desarrollo armonioso

En noviembre de 2008, el Instituto Cato copatrocinó una conferencia con la Universidad Renmin de Pekín para conmemorar el 30º aniversario de la reforma económica de China. Tom Palmer, vicepresidente ejecutivo de programas internacionales, desempeñó un papel fundamental en la organización del programa, acertadamente titulado "El camino hacia el desarrollo armonioso". Fue un momento emocionante, porque la liberalización estaba transformando China y ofreciendo un futuro más brillante a todos aquellos que deseaban una mayor libertad económica y social. Los asistentes al evento recibieron un pequeño globo de cristal con imágenes de Adam Smith y Lao Tzu, que simbolizaban la integración del pensamiento liberal de Occidente y Oriente.

Bill Niskanen (presidente de Cato) y yo nos unimos a Tom para preparar un vídeo para la conferencia. Expresamos nuestras esperanzas de que continuara la liberalización y felicitamos a China por abrirse al mundo exterior y permitir que las personas salieran de la pobreza entrando en los mercados emergentes. Sin embargo, advertimos que para crear armonía económica y social es necesario comprometerse con el principio de no intervención, es decir, la libertad bajo un estado de derecho que proteja a las personas y la propiedad.

Mucho ha cambiado desde 2008, especialmente con el ascenso del líder supremo Xi Jinping, que ha tomado medidas drásticas contra cualquier desviación del dogma del PCCh. El "pensamiento de Xi Jinping" forma ahora parte de la Constitución del PCCh, y Xi es ahora, en la práctica, presidente vitalicio y secretario general. El clima intelectual ha pasado de apoyar "Los mercados por encima de Mao" a "El Estado contraataca", títulos de libros publicados en 2014 y 2019, escritos por Nicholas Lardy, un respetado estudioso de China.

Xi Jinping ha defendido superficialmente el libre mercado de ideas, diciendo a sus compañeros en el XIX Congreso Nacional del Partido Comunista Chino: "Debemos seguir el principio de dejar que florezcan cien flores y que compitan cien escuelas de pensamiento" (Xi 2017). La retórica es buena, pero la realidad es que China sigue siendo un sistema cerrado para la libertad de pensamiento. En China no existen los derechos naturales, solo los derechos sancionados por el PCCh, y estos están estrictamente limitados por la adhesión al dogma socialista. No se tolerará nada que amenace el monopolio del poder del PCCh.

El desarrollo pacífico es un objetivo declarado del PCCh. Pero ese objetivo se alcanza mejor siguiendo el taoísmo de mercado y los principios liberales clásicos, especialmente el principio de no intervención (wu wei), o libertad bajo un estado de derecho justo, tal y como lo entendían Adam Smith, Lao Tzu y Han Fei Tzu.

Por último, al celebrar el 250 aniversario de La riqueza de las naciones y la Declaración de Independencia, Estados Unidos debería practicar lo que predica y adherirse a sus principios fundacionales limitando el poder del Gobierno, protegiendo las libertades básicas y fomentando el libre comercio tanto a nivel nacional como internacional.

Este artículo fue publicado originalmente en Cato At Liberty (Estados Unidos) el 2 de marzo de 2026.

250 años de un texto radical: Adam Smith y La Riqueza de las Naciones - Ian Vásquez (El Cato Institute)

250 años de un texto radical

Ian Vásquez conmemora los 250 años de la publicación de La riqueza de las naciones, la célebre obra de Adam Smith que continúa siendo relevante.

Hace 250 años, en una semana como esta, se publicó un libro cuyas ideas radicales transformaron el mundo y siguen siendo relevantes.

Ese libro fue La riqueza de las naciones, por Adam Smith, máximo referente de la Ilustración escocesa. Salió el mismo año en que revolucionarios americanos declararon la independencia estadounidense y fue leído por el peruano Juan Pablo Vizcardo y Guzmán y el venezolano Francisco de Miranda, precursores de la independencia hispanoamericana, tanto como por importantes líderes independentistas que les siguieron.

En la medida en que las ideas de Smith sobre la economía y el Estado fueron adoptadas en subsiguientes generaciones, el mundo experimentó una explosión de riqueza nunca vista y que hasta la fecha ha sacado al 90% de la humanidad de la pobreza.

Smith escribió: “No es de la benevolencia del carnicero, del cervecero o del panadero de donde esperamos nuestra comida, sino de su interés propio. No nos dirigimos a su humanidad, sino a su amor propio, y jamás les hablamos de nuestras necesidades, sino de sus ventajas”.

La idea contraintuitiva de Smith es que, al perseguir el interés propio, se consigue mejorar el bienestar público. No hacía falta que el rey dirigiera las actividades de cada quien para obtener ese fin. Era como si existiera una “mano invisible” que coordinaba la sociedad para producir la prosperidad.

Para Smith, el interés propio no era lo mismo que el egoísmo. No hay nada malo en mejorar la condición de uno mismo o de su familia siempre y cuando no se recurra a la fuerza para hacerlo. Para vender pan o carne, hay que persuadir a los clientes. Smith creía en el intercambio voluntario y rechazaba la coerción.

En el fondo, lo que proponía Smith era un sistema ético en que se respetaran los derechos iguales de los demás. Él era enemigo de los privilegios otorgados por las autoridades, ya sea en forma de subsidios, monopolios oficiales u otras protecciones. Advertía contra ese problema: “Las personas de un mismo oficio rara vez se reúnen, ni siquiera para divertirse o recrearse, sin que la conversación termine en una conspiración contra el público o en alguna maquinación para elevar los precios”.

Según Smith, la ley debe aplicar de manera igual a todos. Por eso promovía con tanta firmeza la economía de mercado con su característica fundamental, la competencia.

Smith aplicó sus ideas también en el ámbito internacional. Dijo que “la máxima de todo prudente padre de familia es no intentar jamás hacer en casa lo que le costará más hacer que comprar” y agregó que “lo que es prudencia en la conducta de cualquier familia privada apenas puede ser locura en la de un gran reino”. Si otro país vende algo de mejor calidad a menor precio, no tiene sentido prohibir la venta o penalizarla; eso empobrece. El comercio libre enriquece.

El libro de Smith criticaba el sistema mercantilista que imperaba en Gran Bretaña y que sostenía que los países se vuelven ricos debido al proteccionismo y a vender más de lo que compran. “Nada, sin embargo, puede ser más absurdo que toda esta doctrina de la balanza comercial”, declaró Smith. Un déficit comercial en sí no tiene nada de malo. Yo tengo tal déficit con el supermercado, pero de ninguna manera me perjudica. Los déficits tampoco tienen por qué perjudicar a las naciones, que en realidad son el conjunto de firmas e individuos en el mercado.

Smith también era radical porque “el sencillo y obvio sistema de libertad natural” en el que creía le llevó a oponerse a la esclavitud y al imperialismo europeo. No fue utópico sino un observador agudo de la humanidad, lo cual explica por qué mantiene su validez la clave de la prosperidad que él identificó: “la paz, impuestos moderados y una tolerable administración de justicia”.

Este artículo fue publicado originalmente en El Comercio (Perú) el 10 de marzo de 2026.
Ian Vásquez

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