domingo, 25 de setembro de 2011

O ESTADO BRASILEIRO: debate e agenda (UnB, 7/10/2011)


SEMINÁRIO INTERNACIONAL
UnB/IREL E CUNY/BILDNER CENTER

O ESTADO BRASILEIRO: debate e agenda

com o lançamento do livro The Brazilian State: debate and agenda
Editado por Mauricio Font e Laura Randall com a assistência de Janaína Saad, contendo capítulos de professores da UnB e de outras universidades brasileiras e norte-americanas

Local: FA – sala A1-04 (1º andar)
Data: 07 de outubro de 2011
Horário: 08h30 – 12h30

PROGRAMA
08h30 às 09h00: Inscrições

09h00: Abertura Eiiti Sato – Diretor do IREL e Maurício Font – Diretor do Bildner Center – CUNY e Ricardo Caldas – Diretor do CEAM/UnB

09h15 às 10h15 – Painel 1 – Coordenador Eiiti Sato
Maurício Font – O Estado Brasileiro: debate e agenda – CUNY/BILDNER CENTER
João Paulo M. Peixoto – O Estado Brasileiro desde Vargas - UnB
Renato Boschi – Estado e Trajetória no Desenvolvimento Capitalista Brasileiro - IESP/UERJ/IUPERJ

Debatedor: Antonio Brussi – IPOL

10h15 às 11h15 – Painel 2 – Coordenadora Leone Campos de Sousa
Eiiti Sato – Além das Crises: respostas e perspectivas – IREL
Lia Zanotta – Feminismo, o Estado, e Igualdade de Gênero - UnB
David Fleischer – Reforma Política: uma história sem fim - UnB

Debatedor: Benício Schmidt - UnB

11h00 às 11h45 Painel 3 – Paulo Calmon-UnB
Elaine da Silveira Leite -  "Financeirização, Estado e Crise: uma nova “mania” no Brasil?”  - UFSCar
José Roberto Ferreira Savoia -  Reforma da Previdência no Brasil: Construindo um Pacto Social – USP
Fernando Sotelino – O Sistema Financeiro - Columbia University

Debatedor: Ricardo Gomes – UnB

Comentários finais: Paulo Kramer – IPOL/Senado Federal


12h00 às 12h30: Lançamento do livro “The Brazilian State: debate and agenda”.

Avaliacao do ensino superior> o MEC mete os pes pelas maos (como de habito, alias...)


Avaliação do ensino superior, triste realidade

Editorial O Estado de S.Paulo, 21 de setembro de 2011
Conforme noticiado pelo Estado (13/9), os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mostraram que as escolas públicas de ensino médio, mais uma vez, ficaram no fim da fila. Diante dos maus resultados, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou: "Às vezes, condições socioeconômicas explicam mais o resultado da escola que o trabalho do professor". A afirmação encontra respaldo nos pesquisadores em educação, que destacam a importância que tem um ambiente familiar mais escolarizado no desenvolvimento educacional dos jovens.
Com isso, ocorre no Brasil um grave paradoxo educacional, em que os alunos das famílias mais ricas, que estudaram em escolas particulares, entram nas instituições públicas, enquanto os oriundos das camadas mais pobres, que estudaram em escolas públicas, vão para as instituições particulares, já que não conseguem vencer a disputa do vestibular. Além disso, os primeiros estudam de graça, enquanto os segundos têm de pagar a sua mensalidade. O sistema não poderia ser mais cruel.
Dessa forma, é totalmente esperado que esse impacto socioeconômico ocorra também na educação superior, ou seja, é natural que as universidades públicas, por receberem alunos com melhor formação, tenham desempenho melhor que as instituições privadas, que recebem os menos afortunados, ainda que existam algumas poucas faculdades e universidades particulares de elite.
E a diferença não está apenas na bagagem intelectual do aluno. De acordo com os dados do Inep/Ministério da Educação (MEC), 72% dos alunos da rede privada de educação superior estudam à noite, enquanto 62% da rede pública estudam de dia. Não há como esperar o mesmo desempenho acadêmico de pessoas que passam o dia todo trabalhando duro e precisam estender sua jornada até tarde para estudar, comparando com os que não trabalham e apenas estudam.
Mas, ainda assim, quando se trata de avaliar a educação superior, o MEC não se vale da mesma explicação. As instituições mal avaliadas são punidas pelo governo com redução de vagas, fechamento de cursos e limitações na sua expansão. Ou seja, no ensino médio, as instituições (públicas) mal avaliadas são apoiadas para superar suas dificuldades, mas na educação superior as instituições (particulares) mal avaliadas são punidas e não recebem nenhum apoio.
Exemplo dessa incoerência está na recente divulgação pelo MEC das novas normas do BNDES, definindo que só podem ter acesso ao financiamento as instituições bem avaliadas. Não podem contar com o banco, assim, justamente as que mais precisam de apoio para fortalecer seus laboratórios e bibliotecas, mesmo considerando que não é dinheiro dado, é emprestado. O curioso é que para os demais segmentos da economia o BNDES não vincula o financiamento à posição que as empresas ocupam em rankings, basicamente considera a capacidade de a empresa honrar o pagamento da dívida.
Outro ponto a ser destacado é que o ranking divulgado pelo MEC não poderia sobrepor-se às visitas in loco das comissões de avaliadores, processo que ocorre com regularidade em todo o Brasil. Quando o MEC criou esse ranking (baseado em índices conhecidos como CPC e IGC), era para ser somente uma ferramenta de triagem, pois, como existem mais de 25 mil cursos superiores no Brasil, não dá para visitar todos. Seriam, então, visitados somente os mal avaliados.
Todavia, de um tempo para cá, o que era para ser preliminar se tornou definitivo e o MEC não aguarda mais os resultados das visitas in loco, impondo antecipadamente diversos tipos de limitações e punições, com base apenas no resultado do ranking. O MEC alega que se trata de uma "ação cautelar", mas o punido não tem direito a defesa nem recurso na esfera administrativa. Não há sequer uma advertência prévia, com tempo para a instituição sanar suas limitações. Resta-lhe somente a longa estrada judicial.
Além disso, os critérios de avaliação do ranking do CPC/IGC são mais rigorosos do que o exigido pelas diversas leis aprovadas no Congresso Nacional. Por exemplo, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, Lei n.º 9.394/96) define que as universidades devem ter um terço do corpo docente com título de mestre ou doutor. Mas há inúmeros casos de cursos que cumprem tal proporção, mas ficam com nota insuficiente nesse requisito no ranking. Ou seja, várias instituições que estão 100% dentro da conformidade legal passaram a ser punidas pelo MEC, que passou a legislar por meio de resoluções, portarias e notas técnicas, o mesmo expediente adotado pelo governo federal via medidas provisórias, tão criticadas pelos defensores da separação dos papéis do Executivo e do Parlamento.
Não existe nada errado em serem punidas instituições que não têm seriedade nos seus compromissos educacionais. Ninguém pode ser contra isso. Mas a regra precisa ter respaldo nas leis do Parlamento e tem de valer de forma igual para qualquer tipo de instituição, seja ela pública ou privada. Nenhuma instituição pública de educação superior mal avaliada teve redução de vagas ou qualquer outra limitação. Segundo o MEC, elas têm "rito próprio". Todas as restrições, sanções e punições mencionadas se aplicam exclusivamente ao setor privado.
Para o setor privado criar uma universidade são necessários mais de 15 anos de investimentos e o cumprimento de uma série de normas. Para o setor público basta uma canetada da Presidência.
Queixas como essa facilmente são interpretadas como tentativas das instituições particulares de se furtarem a seus compromissos com a qualidade, o que não é verdade. O desejo é mostrar que por trás do discurso fácil da busca pela qualidade e de chavões como "educação não é mercadoria" muitas vezes se ocultam posições anacrônicas, que nunca se conformaram em ver a iniciativa privada ter a presença de destaque que tem hoje na educação superior brasileira.

Frases da semana (1): Desarmamento nuclear - presidente Dilma Rousseff na ONU


Digressões contrarianistas sobre o desarmamento nuclear


Paulo Roberto de Almeida

Destaco duas frases, apenas, do discurso da presidente, na reunião de alto nível da ONU sobre Segurança Nuclear, em 22/09/2011:

"O desarmamento nuclear é fundamental para a segurança, pilar do Tratado  de Não Proliferação cuja observância as potências devem ao mundo".

Confirmando minha vocação a ser um contrarianista -- posição que assumo voluntariamente, de conformidade com meu espírito desconfiado, feito de ceticismo sadio em relação a quaisquer argumentos que se me apresentem como verdades incontestáveis -- formulo aqui algumas dúvidas em relação a estas frases.
Por que o desarmamento nuclear seria fundamental para a segurança internacional?
Ele é, de fato, o "pilar do Tratado de Não Proliferação"?

Respondo de imediato a esta segunda questão por um sonoro NÃO.
Não, o desarmamento nuclear não é o, ou sequer um pilar, do TNP, ainda que possa nele aparecer de forma preeminente. Nem de longe, contudo, ele é o que diz que pretende ser, e basta conhecer um pouco da história, das realidades geopolíticas, para chegar à conclusão simplória de que a frase fatídica, sobre o desarmamento dos nuclearmente armados, figura ali apenas como figuração, justamente, para contentar os ingênuos, ou incautos, e impedir que eles protestassem em demasia contra um "tratado iníquo e discriminatório", como proclamava a diplomacia brasileira nos "bons velhos tempos" (isto é, quando posávamos de "machos", de contrarianistas, se ouso dizer, contra a hipocrisia dos poderosos, quando a gente acreditava que eles queriam "congelar o poder mundial", no que aliás continuamos acreditando ainda hoje, nessa interminável repetição de slogans).

O pilar do TNP é a não-proliferação, ou seja, barreiras contra o armamentismo nuclear dos ainda não nucleares, ponto. Isso é tudo.

Os três grandes -- na ausência de dois outros nucleares à época, China e França -- arranjaram entre si um instrumento para bloquear o acesso às armas nucleares aos eventualmente desejosos de fazê-lo, prometeram cooperação nuclear para fins pacíficos -- o que é feito a conta-gotas, e sob estritas condições -- e ofereceram como cenoura o tal de desarmamento nuclear deles próprios.
Alguém acredita nisso?
Pode ser que sim, talvez o Itamaraty, que vive cobrando essa parte do Tratado desde que a ele aderiu em meados dos anos 1990.
Alguém acredita que seria possível colocar o gênio dentro da garrafa outra vez? Que as potências nucleares vão de fato desarmar?
Isso é possível? Respondo novamente por um sonoro não.
Ninguém consegue “desinventar” uma tecnologia. Ninguém se priva de uma segurança que foi conquistada a duras penas, e que se busca justamente manter exclusiva, única, assimétrica.
O TNP é apenas um tratado do desarmamento nuclear dos outros, ponto.

Venho agora à pergunta mais importante: 

Seria verdade que o desarmamento nuclear é fundamental para a segurança internacional?

Não creio que a presidente tenha formulado ela mesma esse argumento. Ela simplesmente o comprou do Itamaraty, que colocou tal frase no discurso porque isso faz parte da ideologia diplomática, ou das ilusões diplomáticas -- não apenas brasileiras, diga-se de passagem -- nos últimos 50 anos, ou mesmo mais.
Alguém já parou para pensar -- e nesse processo desmantelou algumas ilusões diplomáticas -- de que pode ser exatamente o contrário: que as armas nucleares aumentaram a segurança mundial, e evitaram muitas mortes que de outra forma seriam inevitáveis?
Pensem um pouco -- enfim, apenas os que desejarem realmente pensar -- e perguntem comigo:
Se não existissem armas nucleares, o que existiria?
Provavelmente as mesmas armas que tínhamos ao final da Segunda Guerra Mundial, um pouco (ou bastante) mais aperfeiçoadas: tanques, canhões, bombardeiros, granadas, minas, mísseis, lança-chamas, fuzis, baionetas, estilingues, etc., etc., etc.
Ou seja, nada que pudesse deter um dirigente maluco de deslanchar uma guerra contra um outro país, na medida em que se tratavam de "armas normais", de tecnologias dominadas e, com exceção de um ou outro componente mais aperfeiçoado (fortalezas voadoras, por exemplo, ou mísseis de longo alcance), tudo poderia ser mobilizado por qualquer país que tivesse uma base industrial medianamente desenvolvida.
Afinal de contas, Hitler deslanchou sua guerra em duas frentes com base nesses mesmos meios, ainda que desejasse, rapidamente, dispor de mísseis mais poderosos e que seus cientistas apostassem, furiosamente, no domínio da tecnologia nuclear, já teoricamente disponível em sua época.
Sorte nossa que ele não conseguiu, pois imaginem vocês se Hitler tivesse submetido a Grã-Bretanha, neutralizado os EUA, destruído a Rússia de Stálin, e se estabelecido como o grande ditador de todos os tempos, um Gengis Khan moderno, com a colaboração acintosa de tiranetes como Mussolini e os fascistas-militaristas japoneses, no trabalho de escravizar povos inteiros e colocá-los a serviço da Alemanha nazista?
Que tal a perspectiva?
Alguém iria conseguir um tratado de desarmamento contra Hitler, depois?

Se eu disser, por exemplo, que as duas bombas atômicas americanas sobre o Japão, em agosto de 1945, salvaram vidas, em lugar de aumentar o número de mortos, serei provavelmente "massacrado", literal ou virtualmente, pelas consciências puras do desarmamentismo nuclear. Não me importa: isto é um fato. As bombas nucleares, por mais horríveis que possam ter sido, salvaram milhares de vidas A MAIS do que as que pereceram no "holocausto" de Hiroshima e Nagasaki. Salvaram centenas de milhares de soldados e civis japoneses, nas frentes de combate e nos bombardeios aéreos devastadores sobre Tóquio e outras cidades japoneses, e salvaram dezenas de milhares de soldados americanos, que teriam de lutar na ponta da baioneta contra soldados fanatizados, que tinham jurado dar a vida pelo Imperador. Elas salvaram vidas, ponto!

Mas, retornemos à questão principal. Em que sentido o desarmamento nuclear tornaria o mundo mais inseguro, não mais seguro?
Ora, isso é evidente pelo próprio fato de que o mundo não deixou de ter guerras depois que as armas nucleares foram inventadas: morreram milhões de pessoas desde 1945, vítimas de minas, de artilharia, de bombardeios aéreos, de napalm, de fuzis, de machetes, de fome, ou de quaisquer outros vetores associados às guerras (civis, étnicas, tribais, religiosas, entre Estados, atentados terroristas, etc.).
O que o mundo deixou de ter, depois de 1945, foram guerras globais, ao estilo napoleônico, mobilizando exércitos nacionais e populações inteiras contra outros exércitos nacionais e outras populações. Ou se ocorreram, foram limitadas, como na Coreia, no Vietnã, no Oriente Médio, sem a confrontação direta das grandes potências, como tivemos na Europa e no mundo desde o Renascimento até 1945, justamente.
Não pretendo elaborar muito a respeito, mas minhas conclusões são tão evidentes, que não creio ser necessário desenvolver meu raciocínio: as armas nucleares trouxeram mais segurança ao mundo, e pouparam vidas, ponto.
Algum matemático historiador, ou algum econometrista geopolítico poderia até fazer os cálculos e, com base em estimativas feitas a partir dos grandes conflitos globais desde a era napoleônica até 1945, avaliar quantos teriam sido os mortos -- inocentes ou não, que pereceriam, potencialmente, em mais uma ou duas guerras ao estilo da Segunda Guerra Mundial, sem o recursos às armas nucleares, portanto. Não creio, sinceramente, que teríamos ficado a menos de 50 ou 60 milhões de mortos (por baixo, claro).
Enfim, nem todo mundo precisa de armas nucleares para exterminar pessoas. Mao Tsé-tung, por exemplo, não utilizou arma nenhuma, apenas uma “economia política esquizofrênica”, para eliminar 25 ou 30 milhões de chineses no “grande salto para a frente”, entre 1959 e 1962. Enfim, ele também foi o responsável por mais algumas dezenas, talvez centenas de milhares, durante a “grande revolução cultural proletária”, entre 1965 e 1975, mas pode-se sempre argumentar que muitos mais morreram nos “gulags” normais de Stalin e do próprio Mao, ao longo de seus experimentos totalitários.
Mas imaginemos dirigentes menos responsáveis na posse de armas nucleares em face de confrontos entre grandes Estados? O próprio Mao Tsé-tung, por acaso, dizia não temer as armas nucleares americanas hipoteticamente utilizáveis na guerra da Coreia, demonstrando todo o seu espírito belicoso mais de dez anos antes que a China conquistasse o seu próprio domínio sobre armas nucleares (após o que ela se mostrou mais responsável, mesmo sem ter assinado o TNP, até o início dos anos 1990). Os dirigentes cubanos, igualmente irresponsáveis, estavam dispostos a ir até o fim, no confronto nuclear entre EUA e URSS no caso dos mísseis nucleares soviéticos instalados em Cuba em 1962: Fidel Castro e Ché Guevara estavam dispostos a “testar” armas nucleares contra New York e Washington, mesmo se isso representasse a aniquilação de metade, ou mais, da população cubana (Guevara acreditava que isso representaria o “fim do capitalismo e do imperialismo americano”).

Qualquer que seja a perspectiva que se assuma sobre as armas nucleares, portanto, pode-se dizer que elas refrearam, sim, os instintos guerreiros de muitos dirigentes políticos. Pode até ser que alguns militares malucos acreditem que “armas nucleares táticas” sejam armas de terreno, e possam, assim, ser integradas a doutrinas e estratégias militares. Não creio, porém, que estadistas responsáveis acreditem nesse tipo de “doutrina” e estejam dispostos a “testá-la”.
Pode-se concluir, então, que as armas nucleares aumentaram, não diminuíram, a segurança no mundo, e parece impossível reverter esse cenário de equilíbrio instável (que aliás, confirma o prognóstico aroniano de 1947: “paz impossível, guerra improvável”).
E quanto ao TNP? Não há muito a dizer: continuará a ser aquilo que a diplomacia brasileira diz sobre ele desde 1968: “um tratado iníquo e discriminatório”, ponto. Não há muito que se possa fazer a respeito, no futuro previsível.

Resta, finalmente, esta outra afirmação, com estes mesmos conceitos:
É importante ter num horizonte previsível a eliminação completa e irreversível das armas nucleares.”
Será? Importante? Talvez. Necessário? Duvidoso. Completa e irreversível? Provavelmente não, nem completa, nem irreversível.
Frustrante? Talvez. Realista? Provavelmente.
Acho que as coisas ficam mais claras assim.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 25/09/2011

O Fim do Mundo? Dolar cai nas reservas internacionais...

Seria o fim do mundo, as we know it?
Talvez. 
Ou pelo menos o fim da supremacia do dólar nas transações financeiras internacionais.
Todo mundo -- pelo menos os ingênuos -- reclama da supremacia inaceitável de uma "moeda nacional", da hegemonia intolerável do dólar nos assuntos financeiros internacionais, do "privilégio exorbitante" que tinha essa moeda para obrigar a todos a aceitá-la, mesmo estando submetida ao arbítrio financeiro e monetário, às "manipulações cambiais" da hiperpotência, que isso tinha de acabar, etc e tal.
Pois bem, acho que já chegamos nessa fase, e o mundo diversifica seus ativos e reservas para menos dólares e mais euros, ienes, libras, yuans, etc...
Será isso bom?
Talvez.
Eu tenho a impressão de que ainda vamos sentir saudades dos tempos em que o dólar reinava absoluto.
Anotem, recordem, escrevam-me, dentro de alguns poucos anos...
Paulo Roberto de Almeida 



Participação do dólar nas reservas dos países em desenvolvimento caiu de 43% para 23% nos últimos 10 anos

Estudo é divulgado pelo WOC – World Organization of Creditors

Falando em junho de 2011 no Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo, o Presidente Dmitri Medvedev sublinhou que “o uso mais ativo do rublo, do iuan e de outras moedas emergentes nos mercados globais tornará, evidentemente, o sistema monetário internacional mais flexível e confortável para o trabalho dos investidores”.
Mas, para que a comunidade global use mais ativamente as moedas dos países em desenvolvimento, é necessário um número de pré-condições. Em particular, os participantes do mercado global devem estar seguros quanto à estabilidade da situação econômica de um determinado país, quanto à estabilidade do valor de sua moeda nacional e se o país está em dia com seus débitos internacionais. E, por sua vez, a sua moeda depende do nível das reservas internacionais do país. A WOC – World Organization of Creditors estudou os acúmulos de reservas dos países em desenvolvimento para definir se o rublo, o iuan e outras moedas de países com economias em desenvolvimento podem ocupar um lugar competitivo ao lado do dólar, do euro e do franco suíço. Os resultados da pesquisa mostram que, em volume de reservas e nos índices relativos, os maiores países em desenvolvimento estão agora numa situação mais vantajosa em comparação com os países desenvolvidos. Isso pode acarretar o crescimento gradual de importância das moedas nacionais da China, da Rússia e de outros países em desenvolvimento na realização de acordos internacionais e como moedas de reserva.
Apesar da renúncia do sistema monetário estabelecido em Bretton Woods e da diminuição do papel do dólar americano como “dinheiro mundial” (que ele compartilhava com o ouro), o dólar ainda permanece a principal moeda de reserva e pagamento no mundo.
Segundo o sistema monetário vigente no mundo de hoje, que foi chamado de jamaicano, nenhuma moeda nacional tem o status de moeda de reserva. Os Direitos de Saque Especiais (DSE) foram fixados como o principal meio internacional de reserva e pagamento. Trata-se de uma moeda artificial, criada pelo Fundo Monetário Internacional em 1969 e consistindo de uma cesta de moedas dos principais países do mundo.
Ainda assim, o dólar americano ainda supera consideravelmente todas as outras moedas nos volumes de seu uso no sistema global como meio de reserva e pagamentos.
Isso é justo? Quais são as atuais tendências das reservas monetárias no mundo?
Moedas de reserva
As reservas internacionais em valor-ouro de cada país são ativos externos que estão sob o controle dos organismos que regulam a política monetária e de crédito do país. Podem ser usadas para apoiar o valor da moeda nacional, para financiar o déficit da balança de pagamentos e outros objetivos de natureza semelhante.
Durante o período de 1995 até 2010 os volumes das reservas mundiais cresceram 6,7 vezes, para 9,257 bilhões de dólares. Para comparação: o Produto Interno Bruto mundial segundo os preços correntes do mesmo período, pelos dados do FMI, cresceu 2,1 vezes. Durante os últimos 15 anos os países desenvolvidos aumentaram seus capitais 3,3 vezes, e o países em desenvolvimento, 13,5 vezes.
Em 1995 as reservas monetárias dos países em desenvolvimento equivaliam a menos da metade (49%) do índice correspondente dos países desenvolvidos. Em 2005, as reservas agregadas dos países em desenvolvimento pela primeira vez ultrapassaram as reservas dos desenvolvidos, e em 2010 elas já eram duas vezes maiores.
Participação monetária
A participação monetária, não definida pelo conteúdo das moedas, cresceu suficientemente – de 26% para 45%. E esse índice é um tanto baixo para os países desenvolvidos: em 2010 ele representou apenas 13%. Já nos países em desenvolvimento a participação em reservas monetárias com estrutura oculta é ao contrário muito elevada – cerca de 61% de suas reservas agregadas (em 1995 – 42%).
É difícil afirmar, mas é possível supor que os países em desenvolvimento escondem a informação devido ao fato de que suas reservas contêm os tradicionais dólar americano, euro, iene japonês, DSE ou franco suíço, mais outras moedas, menos tradicionais.
A participação do dólar americano em reservas monetárias internacionais em 1995 representava 44%, em 2000 ela alcançava o índice recorde de 56% nas reservas monetárias globais. Mas desde então a participação do dólar vem caindo consideravelmente, e em 2010 ela representava apenas 34%. E sua participação nas reservas dos países desenvolvidos era em média os mesmos 56%, mas nas reservas dos países em desenvolvimento chegava a apenas 23%.
A participação do euro nas reservas monetárias agregadas dos países em questão caiu nos últimos 15 anos de 20% para 15%. Em 1995 as reservas nessa moeda foram, por questão de conveniência, consideradas no nível da soma das reservas, indicadas em marcos alemães, francos franceses e florins holandeses. O FMI possui dados sobre o euro a partir de 1999. O número dos países da zona do euro cresceu suficientemente, e, naturalmente, suas reservas em euro agora não são incluídas nas estatísticas do FMI. Mais provavelmente, esse é o fato que explicaria a diminuição na participação do euro nas reservas dos países desenvolvidos. Além do mais, sua participação nas reservas dos países em desenvolvimento permanece bastante estável – entre 9 e 13%.
A participação do iene japonês nas reservas internacionais diminuiu de 5% em 1995 para 2% em 2010.
E as participações da libra britânica e do franco suíço permanecem estavelmente baixas.
Direitos Especiais de Saque (DES) e outras reservas
Os DES são um ativo de reserva internacional, criado pelo FMI em 1969 a fim de sustentar a estabilidade do sistema Bretton Woods então existente para converter as moedas segundo uma taxa fixa. Hoje o DES é uma cesta de quatro moedas – o dólar americano, o euro, o iene japonês e o franco suíço. O peso de cada uma dessas moedas na cesta é revisto a cada cinco anos a fim de que os DES reflitam melhor o estado da exportação mundial de bens e serviços e as reservas monetárias internacionais.
Segundo os resultados de todos os investimentos de DES, o volume emitido dessa “moeda” no mundo chega a 204 bilhões de DES, que equivalem a 324,3 bilhões de dólares. Ele representa apenas 3,5% do volume total de reservas monetárias no mundo. As posições dos países do FMI em volumes de reservas também são relativamente baixas.
Líderes de acumulação
Os três principais países em volumes de reservas hoje são a China, o Japão e a Rússia. A República Popular da China é um líder de acumulação de reservas em valor-ouro, das quais excedeu em março de 2011 o volume de 3 trilhões de dólares americanos. Os dados para o início de 2011 indicavam que o Japão estava atrás da China no índice quase três vezes, e a Rússia, seis vezes. O grupo de países da zona do euro também possui um total impressionante de reservas – 790 bilhões de dólares no início do ano. Os Estados Unidos ocupavam apenas o 15.º lugar, com a soma de reservas em valor-ouro de 133 bilhões de dólares, e o microestado europeu de Malta, com reservas de meio bilhão de dólares, é o último na lista dos 72 países do FMI.
Segundo o índice de suficiência de reservas em proporção ao volume mensal médio de importações, a China está de novo em primeiro lugar: suas reservas são teoricamente suficientes para dois anos de importações. A Rússia e o Japão estão em segundo e terceiro lugares (18 e 17 meses de “reservas para importações”, respectivamente). A Alemanha e a Grã-Bretanha, por exemplo, têm pequenas reservas: elas seriam suficientes para pagar apenas dois meses de importações (o mínimo suficiente é o volume dos ativos de reserva que garantam o custo da importação de bens e serviços durante três meses). E nos Estados Unidos esse índice só chega a um mês.
Conclusões principais
1) Entre os países em desenvolvimento, a participação nas reservas, cujo conteúdo não é revelado, está em constante crescimento. No final de 2010 esse índice era de 61%. É provável que os países em desenvolvimento ocultem a informação devido ao fato de que suas reservas não contêm os tradicionais dólares americanos, euros, ienes japoneses, DSE ou francos suíços, mas outras moedas, menos tradicionais.
2) A participação do dólar americano como moeda de reserva decresce constantemente (só podemos analisar os dados a partir do portfólio das reservas reveladas pelo FMI). Uma queda especialmente acentuada é observada nas reservas dos países em desenvolvimento, e é nesses países que o crescimento mais significativo das reservas ocorre. A participação do euro nas reservas dos países permanece bastante estável.
3) Os Direitos de Saque Especiais no mundo não receberam grande atenção. O volume dos DSE emitidos só chega a 3,5% das reservas totais.
4) As moedas de países como China, Rússia e Índia não estão representadas nos dados do FMI.
Desconhece-se, mas é possível, que parte das reservas monetárias, cujo conteúdo não é definido, sejam parte dessas moedas também. De qualquer modo, esses países ocupam o primeiro, o terceiro e o quarto lugares nos volumes de suas próprias reservas. Suas posições entre os países com maiores reservas são muito acentuadas e testemunham a sua capacidade de apoiar o valor de sua própria moeda em casos de choques econômico-financeiros, déficit da balança de pagamentos, etc., em contraste com os países mais desenvolvidos, cujas reservas são muito pequenas.
Dados sobre as reserves confirmam que os maiores países em desenvolvimento se encontram agora numa posição mais vantajosa em relação aos países desenvolvidos. Em nossa opinião, o que vai ocorrer é que as moedas nacionais da China, da Rússia e de outros países em desenvolvimento virão a ocupar gradualmente espaços mais importantes ao lado do dólar e do euro.
Para ver os quadros e tabelas desta pesquisa, acesse
e entre no link:
"Share of dollar in reserves of developed countries reduced from 43 to 23 percent for the last 10 years"
Para os dados de informação analítica do WOC, pode ser consultado o Serviço de Imprensa da Organização:
press.secretary@woc-org.com
Tel.: +7 (495) 225-25-39

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Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...