Um artigo primoroso de um dos maiores conhecedores da teoria e da ação prática da evolução no Brasil...
Cobras, aranhas e outros bichos
Fernando Dias de Avila Pires
Jornal da Ciência Hoje, 17.06.2010
"Espécies diferem não apenas no seu aspecto e características físicas, mas em sua fisiologia, comportamento, ecologia e patrimônio genético. No caso dos animais venenosos e peçonhentos, diferem na natureza de seu veneno"
Fernando Dias de Avila Pires é pesquisador do Departamento de Medicina Tropical do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz. Artigo enviado pelo autor ao "JC e-mail":
Um leitor leigo que desconheça as entranhas dos museus deve estar confuso ante o noticiário sobre o desastre que atingiu as coleções do Instituto Butantã. Desastre este que não se circunscreveu ao Brasil, mas a toda comunidade científica mundial e às pessoas que, em qualquer parte do mundo, arriscam-se a ser picadas por cobras, aranhas escorpiões e outros animais perigosos.
A polêmica gerada pelas opiniões discrepantes de cientistas e administradores não contribui para a correta avaliação do desastre.
Quem visita um museu percorre as galerias de exposições que resumem, em uma mostra reduzida e organizada segundo critérios específicos para cada tipo de museu, temas de interesse geral. Um museu de zoologia pode optar por demonstrar a evolução da vida - como se vê, por exemplo, na Grande Galeria do Museu de História Natural de Paris - e por apresentar exposições temáticas comemorativas e temporárias, como as que este ano foram inauguradas em comemoração a Darwin.
Quem pensa que um museu se resume às exposições pode também acreditar que as atividades de um banco se restringem à dos caixas e gerentes com os quais os correntistas têm contato.
Mas por que guardar 85.000 cobras e outros milhares de aranhas e escorpiões?
O homem sempre foi colecionador: de pedras, objetos curiosos, incluindo escalpos, cabeças ou orelhas de inimigos mortos em combate. Durante séculos, as coleções zoológicas eram guardadas e expostas em gabinetes de curiosidades mantidos por nobres ou por ricos comerciantes. Um casal de cada espécie era o bastante, e as duplicatas podiam ser permutadas, como se faz com selos ou moedas.
No século 18, zoólogos começaram a observar que os indivíduos de cada espécie apresentavam pequenas ou grandes diferenças. A variação entre sexos e idades são notórias, mesmo para leigos que observam aves em seus jardins e os catálogos das coleções dos museus de zoologia traziam os nomes das espécies nele representadas, uma breve descrição de seu aspecto e a relação de indivíduos que apresentavam variações importantes em certos caracteres, como tamanho, cor e estruturas do corpo.
Em 1758 um zoólogo sueco propôs um sistema de classificação e um sistema de nomenclatura, que foram adotados internacionalmente, de maneira a conferir estabilidade e certeza de que zoólogos de qualquer lugar pudessem referir-se a cada espécie por um mesmo nome, em latim, o que não acontece com a nomenclatura popular, que varia de um lugar para outro e em diferentes línguas.
A teoria da evolução proporcionou uma nova visão da variabilidade dos seres vivos e mostrou que, para conhecer uma espécie, temos que conhecer toda a gama de variantes existentes em populações naturais. Daí a mudança na concepção dos museus, que passaram a recolher e guardar amostras de populações naturais, que representem as variações existentes.
Mesmo assim, o nome da espécie precisa ser ligado a um indivíduo - o tipo ou holótipo, escolhido para personificar ou representar a espécie, escolhido pelo zoólogo que primeiro a reconhece como nova para a ciência e ainda não descrita oficialmente e de acordo com regras internacionais. Esses tipos devem ser preservados em locais protegidos da luz, umidade, poeira - e fogo.
Se uma nave tiver que ser despachada para Marte com um único exemplar da espécie humana que represente a nossa espécie, quem seria escolhido? Sophia Loren, Obama, Bin Laden?
É fácil entender, assim, que 85.000 cobras ainda não representam todas as espécies existentes nem toda a variabilidade encontrada dentro de cada espécie. Algumas são conhecidas apenas por meia dúzia de exemplares, ou menos. Várias se extinguiram nos locais onde foram coletadas e de onde provem o tipo.
Espécies diferem não apenas no seu aspecto e características físicas, mas em sua fisiologia, comportamento, ecologia e patrimônio genético. No caso dos animais venenosos e peçonhentos, diferem na natureza de seu veneno.
Foi a coleta realizada por expedições científicas e por fazendeiros, caçadores e particulares que permitiu a Vital Brazil iniciar um trabalho pioneiro dirigido ao estudo, ao inventário e ao conhecimento da fauna, e que levou à preparação de soros específicos que salvaram a vida - e continuam salvando - de gente em todo o mundo, vitimas de picadas venenosas.
Sabe-se que cobras de uma mesma espécie, oriundas de regiões diferentes do país, apresentam variações na composição de seu veneno. Somente a pesquisa básica sobre a distribuição geográfica, a sistemática - que estuda a estrutura e evolução das espécies, a fisiologia, a variabilidade genética dos indivíduos das populações que constituem uma espécie - podem elucidar a variação da ação dos venenos.
Não é promovendo a dicotomia entre áreas igualmente importantes do conhecimento e estimulando a adoção de posições extremadas que oponham ciência básica e sua aplicação que se contribui para o progresso do conhecimento científico e sua aplicação à saúde, economia e bem estar de nossa população.
Em todas as épocas houve um campo do conhecimento que exerceu maior atrativo e recebeu maior apoio, como ciência da moda. Seguindo-se aos séculos em que o conhecimento dos clássicos da filosofia e literatura predominou, seguiu-se a era da física, que prometia unificar as leis naturais, da química, que promoveu o desenvolvimento da indústria de corantes e dos medicamentos, a genética e a biologia celular e molecular.
Pasteur vislumbrou a conquista da saúde e o fim das doenças infecciosas através da identificação dos microorganismos e o preparo de soros e vacinas. Seu sucesso, por sinal deveu-se principalmente ao avanço no conhecimento da sistemática e classificação das espécies de bactérias e outros microorganismos. Sem suas coleções, a era dos soros, vacinas e da imunologia não teria surgido e prosperado.
Infelizmente a humanidade não aprende com os exemplos da história. A atual polêmica entre cobras x vacinas lembrou-me de um episódio acontecido em um instituto de pesquisas antes da era da penicilina, onde a administração determinou o encerramento das atividades de um dos laboratórios à noite, tendo em vista as despesas consideradas excessivas com a energia necessária para manter as estufas ligadas. O laboratório pesquisava um fungo desconhecido na época, do gênero Penicillium do qual se extrairia, anos mais tarde, a penicilina.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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