|
QUAL BOLHAS DE SABÃO
Percival Puggina
Zero Hora, 30 de junho de 2013
Volta e meia, anos a fio, eu criticava, aqui, a péssima gestão federal dos negócios públicos. O governo ia mal nas coisas importantes. E o que ia bem lhe caía no colo de presente. Presente chinês. O gigante oriental acordara e arrancava o Brasil de seu berço esplêndido. Quanto ao resto - Segurança, Responsabilidade Fiscal, Probidade, Educação, Saúde, Infraestrutura, Tecnologia, Relações Exteriores, as coisas iam mal. Muito cacarejo publicitário e pouco ovo.
Nós, os poucos que expúnhamos com objetividade a situação nacional, exercíamos tarefa resignadamente inglória. O marketing do governo trovejava informações que nos contradiziam. Afrontávamos a opinião majoritária. Sabíamos que distribuir dinheiro não resolve os problemas nacionais porque o Brasil não é um programa de auditório! Mas o Planalto festejava ao menos um plano mirabolante e bilionário por semana. Até a mídia mundial comprava por bom o discurso oficial! As oposições, ora, as oposições! Primeiro, Lula lhes bateu a carteira ao fazer seu o programa de governo do FHC. Depois, quando Lula passou a sacrificar a austeridade fiscal em favor das reeleições petistas, instalou-se a chamada Brasilha da Fantasia, ou a Fachada de Prosperidade (nas palavras do Financial Times). Mas a oposição política formal, já então, arquejava seu desânimo em meia dúzia de vozes, se tanto, no Congresso Nacional. Enfim, nossa trincheira era tão despovoada que se um gritasse o outro não ouviria. E o petismo ainda nos chamava de golpistas.
Pois eis que o povo sai às ruas. Os satisfeitos do Bolsa Família e do Bolsa Louis Vuitton ficam em casa. Entende-se. Entende-se, também, os motivos pelos quais os grupos radicais que acionaram a alavanca de partida foram para a marginalidade quando o povo, com suas camisas brancas, tomou conta do pedaço. Assistimos uma surpreendente apropriação pela cidadania de algo que iniciou em mãos erradas. Com raras exceções, a multidão nas ruas repete o que vínhamos dizendo. Claro, há os paus mandados que se infiltram e tentam desviar o foco para cima dos governos não petistas; há os que conscientemente usam a violência para fins políticos e há os que se aproveitam das vidraças quebradas para sua atividade criminosa. A multidão nas ruas embasbacou dois grupos: os detentores de poder e os comentaristas, ingênuos ou militantes da causa, que há anos recebiam os resultados das pesquisas de satisfação como prova suficiente de que tudo ia bem. Pesquisas de satisfação, senhores, tem a ver com mercado. A realidade nacional precisa ser aferida em outras fontes, e tem a ver com o futuro do país em horizontes de curto, médio e longo prazo.
Rudyard Kipling perguntou certa vez num poema - "O que podem conhecer sobre a Inglaterra os que só conhecem a Inglaterra?". Pois o brasileiro médio sempre se pareceu um pouco com esses ingleses de Kipling. Nos últimos anos, porém, com o dólar barato, milhões de brasileiros saíram a conhecer o mundo. E conheceram melhor o Brasil... Essa massa, da qual Lula se considera santo benfeitor, pôde fazer comparações e concluir que, aqui, exceto os luxuosos palácios do poder, tudo que é público está em frangalhos. Que aqui, impostos coletados em percentuais de Primeiro Mundo se desperdiçam no supérfluo. E que o restante se entrega ao Submundo, sob zelo da mais irretratável impunidade. Ilusões publicitárias são como bolhas de sabão.
|
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sábado, 29 de junho de 2013
A visao realista da crise social, politica, moral atual - Percival Puggina (Zero Hora)
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Madame IA se debruça sobre minhas diabruras no blog Diplomatizzando (que eu considero um divertissement) - Airton Dirceu Lemmert como agencidador, Paulo Roberto de Almeida como escrevinhador
Apenas transcrevo, sem qualquer comentário, mas acho que Madame IA está me tratando bem... PRA No primeiro semestre de 2026, o blog Diplom...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
History If the Ottoman Empire had not collapsed Sultans of spring The Economist, THE WORLD IF 2017 Jul 6th 2017, 12:07 https://worldif.ec...
-
Nada de coadjuvantes: historiador revê papel da mulher na História do Brasil Biógrafo da Marquesa de Santos e da Imperatriz Leopoldina,...
-
Um professor catedrático convidado numa universidade portuguesa consultou-me sobre a dívida externa do Brasil na interação com Portugal na é...
-
Golpe contra a democracia Hermes Rodrigues Nery https://www.youtube.com/watch? v=LDspWPatQSs Exmo. Senador Anibal Diniz, que pre...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
Aprenda a ser um ditador Veja, 14/01/2012 Para os cientistas políticos americanos Bruce Bueno de Mesquita e Alastair Smith, a política...
-
Transcrevo aqui uma mensagem por e-mail de Mauricio David, sobre um artigo de Rana Mitter, um especialista na China moderna, que li desde 20...
-
Mal comparando… Quem manda na Mafia americana? Nos anos da Lei Seca (1919-1934), resultado do puritanismo idiota dos evangélicos americanos,...
Nenhum comentário:
Postar um comentário