quinta-feira, 25 de maio de 2023

Diálogos da Brazil Conference, de Harvard a BH: respostas a questões - Paulo Roberto de Almeida

A conferência vai ser amanhã, dia 26, e o moderador, provavelmente o colega acadêmico e especialista em política externa brasileira Guilherme Casarões, formulará as perguntas que julgar pertinentes, sobretudo depois do G7 de Hiroshima. Mas como ele me havia enviado previamente uma série de questões que serão abordadas, preparei algumas notas para fixar algumas ideias, como sempre faço. Mas, também, como sempre faço, nunca leio o que escrevi, por isso resolvi já colocar de antemão meus comentários a algumas dessas questões, para informação dos distintos leitores deste meu modesto blog.


Diálogos da Brazil Conference, de Harvard a BH: respostas a questões

  

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(www.pralmeida.org; diplomatizzando.blogspot.com)

Respostas tentativas a questões colocadas pelo moderador, para o evento de 26/05/2023.

  

1) Pergunta introdutória: estamos em 2023, com um velho e novo governo e velhos e novos desafios políticos, econômicos e sociais. Que Brasil é esse e que mundo é esse em que o Brasil terá que navegar daqui para a frente?

 

PRA: O mundo mudou, para melhor – no plano dos progressos materiais, embora não para todos –, mas também para pior: com um acirramento da insegurança internacional, em virtude de um Estado nuclear transgressor da Carta da ONU e das normas mais elementares do Direito Internacional. O Brasil também mudou, para melhor – ao se livrar do pior governo conhecido desde que aqui chegou o primeiro governador-geral, D. Tomé de Souza, ou seja, desde 1549 –, mas também para uma situação incerta, ao se ter um novo governo que está olhando o Brasil com os olhos no retrovisor. 

A globalização se fragmentou, e alguns Estados revisionistas, por acaso não democráticos, começam a proclamar a necessidade de uma nova “ordem mundial”, algo que só ocorre ao cabo de grandes catástrofes. O pior é que os dirigentes brasileiros, e certamente o PT, parecem concordar com essa ideia insana.

 

2) Como já dissemos, os desafios do Brasil (em casa e no mundo) são enormes. Quais, na sua opinião, deveriam ser as prioridades deste novo governo - imediatas e no médio prazo do mandato - para garantir que o Brasil resgate seu caminho para o desenvolvimento?

 

PRA: Desenvolvimento se faz com investimentos. Investimentos se fazem a partir de um sólido ambiente de negócios, com um quadro transparente e claro das políticas governamentais, com certa definição de prioridades. O governo atual se elegeu muito mais como recusa do desgoverno bolsonarista do que por virtudes próprias, inclusive porque não apresentou, até agora, um plano claro de governo, além de alguns slogans atraentes. O principal desafio é a estabilidade econômica – ou seja, equilíbrio das contas públicas –, num ambiente de baixa inflação – o que ainda não é o caso – e de previsibilidade quanto aos rumos futuros, ou seja, prioridades bem estabelecidas. O segundo desafio, mais externo do que aparentemente interno, é o de contemplar as preocupações dos países democráticos avançados com a destruição da Amazônia e dos povos indígenas, e o Brasil ainda não provou que pode responder adequadamente a essas preocupações. O terceiro desafio é o de elevar os níveis medíocres da produtividade, principal fator da perda de competitividades externa da economia brasileira; esse desafio depende não exatamente de reformas educacionais, mas de uma verdadeira revolução nos padrões educacionais do Brasil, nas escolas públicas em especial. Uma quarta prioridade do Brasil deveria ser a integração na América do Sul, algo que dificilmente passará por uma coordenação continental, dado o nível de fragmentação da região: caberia ao Brasil fazer os primeiros gestos, de natureza puramente unilateral, ou seja, abrir voluntariamente seus mercados aos países vizinhos.

 

3) O governo Lula definiu algumas prioridades para sua agenda externa. Temas como meio ambiente, direitos humanos e comércio estão na pauta. Lula também busca resgatar a centralidade brasileira na América do Sul e na África, ao mesmo tempo em que se equilibra na disputa das grandes potências. Esse caminho faz sentido? Querer que o Brasil volte ao tabuleiro mundial é suficiente para garantir o desenvolvimento, ao menos no cenário externo?

 

            PRA: Todas essas são prioridades compreensíveis, mas elas deveriam ser, antes de mais nada, objeto de estudos técnicos da diplomacia profissional, não de falas improvisadas do presidente, que revela apenas a sua ignorância sobre temas básicos do sistema mundial, como sua megalomania de pretender opinar sobre quaisquer assuntos da agenda global, sem ter conhecimento e domínio suficientes sobre cada assunto. A diplomacia presidencial, que ele encarna como nenhum outro presidente das últimas décadas, pode ser um desastre, se partindo de um político despreparado e sobretudo voluntarioso e que se acha dotado de capacidades que ele não tem. Vou resumir numa fórmula: se o Brasil pretende ter sucesso nessas prioridades externas, como anunciou o presidente, ele precisa começar por fazer o dever de casa, ou seja, resolver os problemas internos em todas essas áreas: meio ambiente, direitos humanos, abertura econômica e liberalização comercial, além de predisposição de superar o tradicional protecionismo de suas elites econômicas para abrir-se aos vizinhos.

 

4) A China, nosso maior parceiro comercial, pode representar tanto uma bênção quanto uma maldição para o Brasil. Há, de um lado, toda a pujança do nosso setor primário, responsável por superávits sucessivos junto ao maior mercado mundial. De outro lado, alguns apontam os riscos (já em curso) de reprimarização da economia brasileira e de competição desleal em setores industriais, do varejo e da alta tecnologia. O que a China representa para o desenvolvimento brasileiro?

 

            PRA: Vamos ser claros: a China não é um problema, nem para o Brasil, nem para o mundo. Ela tem – descartando essa conversa de “nova ordem mundial” – um papel positivo na economia mundial, e não pretende exportar o seu “comunismo” para ninguém; aliás, o slogan de “socialismo com características chinesas” é uma conversa para incautos; o que a China tem é um capitalismo com características chinesas, ou seja, uma economia de mercado muito integrada ao mundo, mais pelo lado do comércio até aqui, mas as demais vertentes financeiras, de investimento, moedas e tecnologia também seguem na sequência. A China é um desafio e um estímulo ao desenvolvimento brasileiro, tanto pelo lado dos desafios e da competição, quanto pelo lado do aprendizado do que deve ser feito para superar os problemas do presente: crescer pela integração aos mercados mundiais, oferecer um ambiente de negócios receptivo e aberto, cuidar da infraestrutura e, sobretudo, cuidar do capital humano, ou seja, ter mão-de-obra de alta qualidade em todos os setores.

            O que não se pode é aderir a essa ideia insana de nova ordem global: a ordem de Bretton Woods, a despeito de reformas que podem ser feitas, ainda é a base inquestionável do funcionamento de uma sólida economia de mercado, multilateral e aberta às inovações.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4390: 8 maio 2023, 3 p.


  

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