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domingo, 11 de outubro de 2026

A “volta do cipó de aroeira”, lembram-se da canção de Geral Vandré? - Estadão e PRA

‘É a volta do cipó de aroeira...”: relembrando certas recorrências

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Nota sobre uma lembrança do ostracismo passado.

  

A famosa canção do compositor e músico Geraldo Vandré, num dos festivais de MPB logo ao início da ditadura militar, me veio à lembrança quando li esta notinha:

“Do Estadão deste domingo, 11/10/2026:

Itamaraty vive ‘temor Flávio’ e embaixadores falam em antecipar aposentadoria

A perspectiva de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente instaurou um clima de tensão entre diplomatas de uma ala do Itamaraty. Com a memória ainda recente da condução da política externa descrita como “desastrosa” durante o governo Jair Bolsonaro, integrantes do alto escalão da pasta afirmaram à Coluna que cogitam antecipar a aposentadoria para não ter que representar o Brasil em um eventual governo bolsonarista.

A apreensão aumentou depois que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro subiu o tom contra servidores da carreira que declararam apoio a Lula na corrida eleitoral e ameaçou fazer uma “faxina” no Ministério de Relações Exteriores. Embaixadores no topo da carreira alinhados às políticas de esquerda acreditam ser o “fim da linha” para eles.

ALVOS. O desânimo atinge sobretudo os servidores que tratam de temas que já foram rebaixados no governo de Jair Bolsonaro, como órgãos multilaterais, direitos humanos, América Latina – no contexto tratado pelos petistas de alinhamento às correntes bolivarianas –, temas de gênero e meio ambiente.

RECUO. Ao menos três secretários que do MRE que poderiam ter destaque em eventual Lula 4, agora consideram que acabou para eles. Um disse à Coluna prefere se radicar num consulado, com atividades em geral consideradas de menor prestígio a receber ordens de Flávio Bolsonaro.

CRIVO. Integrantes da campanha de Flávio admitem que a escolha para o Itamaraty será uma das tarefas mais difíceis caso ele vença, em razão dos motivos já expostos. Por isso, dizem nos bastidores que a decisão passará por consultas aos senadores Rogério Marinho e a Tereza Cristina.”

 

Retomo:

Pois bem: eu, PRA, já vivi essa situação, logo ao início da longa era lulopetista na diplomacia brasileira, em 2003, e que se estendeu praticamente até os nossos dias, por mais de duas décadas. com um breve intervalo nos anos Temer e Jair Bolsonaro.

Eu está tranquilamente trabalhando como ministro-conselheiro na embaixada em Washington, sob a gestão do embaixador Rubens Barbosa, quando recebi, do entāo diretor do Instituto Rio Branco, convite para conduzir, dirigir, de alguma forma administrar o recém iniciado Mestrado em Diplomacia do IRBr, do qual eu já era, desde 2001, quando foi inaugurado, professor orientador, como um dos poucos diplomatas com PhD na carreira. Lembro-me que, em 2002, ainda como professor orientador convidado, aproveitei curtas férias em Brasília para orientar cinco ou seis alunos do mestrado em seus projetos de dissertação. Ganhei um jantar com eles e um livro do Roberto Gianetti da Fonseca.

Seis ou sete meses depois chegou-me, portanto, esse convite para dirigir o mestrado, um trabalho de grande responsabilidade, não sei se para o próprio Itamaraty, mas pelo menos em minha concepção de excelência didática e de grande responsabilidade intelectual.

Pensei um pouco em minha opções pessoais e familiares e constatei o seguinte: eu poderia ficar mais alguns meses ou até um ano em Washington e depois negociar a embaixada de segunda linha – eu ainda era ministro de segunda-classe, já sancionado telegraficamente algumas vezes por publicar artigos sem autorização (era o jeito: eu mandava artigos e até livros para a SG, para o nihil obstat, e nunca tinha resposta) – ou simplesmente voltar à Brasília, para alguma chefia duvidosa na SERE, ganhando menos e sem perspectivas de alguma chefia com satisfação pessoal e responsabilidade funcional.

Decidi aceitar, e assim respondi ao diretor do IRBr. Para minha surpresa, recebi, alguns dias depois, mil desculpas do referido diretor, dizendo que não poderia confirmar o convite, por dificuldades não explicadas. Eu sabia bem o motivo: tanto o chanceler do primeiro lulopetismo já empossado, quanto o seu SG, se opunham à minha designação como diretor do mestrado do IRBr, por pura prevenção ideológica, pois sabiam que eu não seria um repetidor das “teses” da nova doutrina diplomática.

Assim fiquei mais alguns meses em Washington, mas depois, no meio do ano vim a Brasília, para inquirir sobre o meu futuro destino. Não fui recebido nem pelo chanceler, nem pelo SG, mas pelo chefe de gabinete deste último, um diplomata truculento que eu já conhecia de outras eras. Foi me dito que eu poderia ficar mais algum tempo em Washington e depois negociar algum posto indefinido, ou seja, o que eu já sabia.

Nessa vinda a Brasília, fui contatado, sem o procurar, por um dos membros da famosa “troika” que constituía o inner circle do presidente, que me conhecia dos tempos em que eu, como chefe da Divisão de Política Financeira. tinha de explicar aos parlamentares do PT quais eram as vantagens e os ônus dos famosos APPIS, os Acordos de Promoção e Proteção de Investimentos, bilaterais com países potencialmente investidores – com cláusulas de arbitragem internacional, e não a cargo da Justiça local, ou do OCSID em Washington, acordo ao qual o Brasil não tinha aderido, pelas conhecidas restrições nacionalistas dos parlamentares, até da direita – e que eles não aceitavam de jeito nenhum, contrários como sempre foram a quaisquer acordos de investimentos estrangeiros, assim como recusaram o acordo de 2000, de salvaguardas tecnológicas com os EUA, para a exploração – lançamento de satélites – da Base de Alcântara. Ele respeitava e entendia as minhas razões, mas dizia que o Partido (PT) já tinha decidido ser contra. Em todo caso, me convidou para trabalhar com ele, numa nova entidade que recolhia experiências do governo FHC anterior, o Núcleo de Assuntos Estratégicos, ligado à Presidência da República.

Assim foi feito, e em outubro de 2003 eu desembarcava em Brasília, para trabalhar no NAE, mas, mais importante, para assessorar esse alto mandarim do lulopetismo em diversos temas vinculados às relações exteriores do Brasil. Um dia vou publicar os vários memos que dirigi a ele, confidencialmente, à margem do trabalho no NAE, comentando e propondo posturas do Brasil, e do presidente Lula, em vários assuntos internacionais. Fiquei no NAE enquanto ele lá esteve, depois veio o Mensalão, o grão-petista ficou doente – ou farejou os problemas montantes – e acabou saindo do NAE. Quando foi designado para um “ministério de Estado” naquela área um famoso professor de Harvard, brizolista, mas convertido de forma oportunista ao lulopetismo, acabei saindo do NAE e retornando ao Itamaraty.

A despeito de várias promessas da Administração, na qual eu sempre batia à porta, nunca tive nenhum oferecimento de qualquer coisa na SERE. Refugiei-me na Biblioteca do Itamaraty, convertida em escritório de trabalho durante muitos anos, pois eu sempre fui um habitué de bibliotecas desde a infância. Cada vez que eu falava com um encarregado da Administração, ele reconhecia que minha situação era irregular – receber salário sem trabalhar, mas nunca, nenhum deles se dispôs a me oferecer um cargo na SERE ou um posto no exterior. Zero, necas de pitiribas, alguma oferta. Um desses barões da Casa chegou a me confessar que se o chanceler me tinha vetado para alguma função, ele não podia fazer nada. Eu fiquei o frequentador mais recorrente na Biblioteca, onde também aproveitei o lazer forçado para escrever muitos artigos (em alguns jornais com outros nomes, e um dia vou recolher essas peças) e alguns livros (minha lista cronológica está à disposição de todos).

Em algum momento me ofereceram uma missão transitória, por ocasião da Exposição Universal em Shanghai, em 2010, onde passamos, eu e Carmen Lícia, oito belos meses de trabalho, ela de estudos sobre a China, e ambos de várias viagens pela China e arredores. À volta, a despeito de promessas, nada ainda, durante todo o ano de 2011, que também passei na Biblioteca. Resolvi aproveitar uma oportunidade oferecida pela Sorbonne, e em 2012, durante seis meses, fiquei em Paris, num mestrado do Institut de Hautes Études de l’Amérique Latine. Retorno, e vazio. A promessa de chefiar um Consulado não se cumpriu, tampouco, mas acabei aceitando ser vice-cônsul em Hartford (CT), quando aproveitei para novamente renovar contatos acadêmicos em diversas oportunidades, e comprar muitos livros.

Voltei depois dessa última saída ao exterior, entre 2013 e 2015, e também fiquei aguardando alguma designação, que só apareceu despois do impeachment de Dona Dilma, em 2016: me convidaram não para um cargo executivo na SERE (pois, a despeito da mudança de “regime”, eu era conhecido como heterodoxo em matérias diplomáticas), mas como diretor do IPRI-Funag, onde me diverti bastante, convidando amigos e conhecidos da academia e chamando diplomatas de cada área como debatedores. Foram dois anos e meio extremamente felizes, cujo resultado pode ser conferido num relatório de gestão que publiquei ao final de meus dois anos e meio no IPRI, de 2016 ao final de 2018 (e eu já adivinhava um futuro ostracismo com a vitória do capitão). O relatório é este aqui:

3383. “Relatório de Atividades como Diretor do IPRI de 2016 a 2018”, Brasília, 24 dezembro 2018, 27 p. Organizado segundo o modelo próprio, usando dados do modelo adotado no IPRI, eliminando alguns eventos, incluindo outros. Total de eventos: 2016=38; 2017=74; 2018=102; total=214. Disponibilizado na plataforma Research Gate (link: https://www.researchgate.net/publication/329905640_Relatorio_de_Atividades_Gestao_do_diretor_do_IPRI_Paulo_Roberto_de_Almeida) e em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/s/e66d6c1639/relatorio-do-ipri-diretor-paulo-roberto-de-almeida-2016-2018); anunciado no blog Diplomatizzando (25/12/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/12/ipri-meu-relatorio-de-atividades-2016.html).

 

Durante todos esses anos de ostracismo no Itamaraty, não tive exatamente alguma solidariedade de meus colegas de carreira, a não ser comentários anônimos em vários de meus blogs, sobretudo no Diplomatizzando, alguns se solidarizando discretamente com o meu “exílio interno”, outros me atacando, por vezes grosseiramente, em função de minha ousadia em discordar da política externa oficial.

Quando leio agora sobre as agruras de meus colegas na hipótese de um possível retorno dos bolsonaristas ao poder, fico realmente consternado por esse tipo de perseguição puramente ideológica, algo que eu senti em diversas oportunidades de minhas quatro décadas de atividades diplomáticas: tive artigos e mesmo livros censurados ou criticados, perdi muitas oportunidades dentro e fora da carreira, recebi “punições” de tucanos, de petistas e, também, dos bolsonaristas, que me demitiram do IPRI, me colocaram numa função subalterna, na qual tinha de pedir permissão a um primeiro secretário para sair de férias ou me ausentar dos Arquivos, no segundo subsolo do “Bolo de Noiva”, e também fui retaliado financeiramente pelo chanceler acidental, o primeiro do capitão destrambelhado.

Quero expressar toda a minha solidariedade a meus colegas de carreira que venham eventualmente a ser “sancionados” pelo novo regime, se conseguir vencer em 25 de outubro, e dizer que lamento mais ainda pelo Itamaraty, que voltará a ser oprimido e deformado por uma política externa em tudo e por tudo contrária ao que sempre cultivamos como valores e princípios da atividade diplomática, tal como não apenas nós, mas todos os brasileiros conscientes, como adequada e necessária a um Brasil digno e autônomo em suas posturas internacionais. O lulopetismo representou uma distorção parcial do que deveria ser uma diplomacia condigna, digamos um quarto apenas da “pizza diplomática”, ao lado de nossas práticas habituais no multilateralismo, na diplomacia regional, nos assuntos bilaterais. O bolsonarismo diplomático – como demonstrei numa série de livro dessa época – representou o que ocorreu de pior na postura diplomática e na credibilidade internacional do Brasil.

Acredito que uma volta dos bolsonaristas não será tão horrível como foi o mandato do capitão desvairado, mas só uma adesão ao delirante presidente americano, em seus sonhos de ser um “imperador hemisférico” com o “Escudo das Américas”, já representa uma ofensa à consciência de diplomatas e cidadãos instruídos. Lamento o fato de o Brasil, como dizia quem era conhecido como Bob Fields, o diplomata economista Roberto Campos, “não perder a oportunidade de perder oportunidades”. Será mais uma, talvez, o que não me deixará inativo, mas estarei, provavelmente, de volta ao meu espírito combativo, continuando a exercer meus poucos talentos no meu “quilombo de resistência intelectual”, o já conhecido blog Diplomatizzando, que já completou 20 aninhos de vida.

Vale!

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5488: 11 outubro 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: )


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