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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Mercosul: estado atual, reformas necessárias - Paulo Roberto de Almeida; livro O Brasil Pode Dar Certo: propostas de reformas institucionais (Ranking dos Políticos)

 Mercosul: estado atual, reformas necessárias

Paulo Roberto de Almeida
Publicado no livro O Brasil Pode Dar Certo: propostas de reformas institucionais (Brasília: Ranking dos Políticos, 2026; link: https://wp.ranking.org.br/wp-content/uploads/2026/05/O-Brasil-Pode-dar-Certo.pdf ). Parte VI: Relações Internacionais e Defesa: Reformas necessárias no Mercosul (p. 211-215).

O Mercosul representou, depois das tímidas iniciativas bilaterais de integração com a Argentina, a maior iniciativa de caráter estratégico da diplomacia brasileira, que a ele devotou os melhores esforços para que se avançasse na agenda substantiva do Tratado de Assunção (1991). Infelizmente, a timidez reformista dos governos subsequentes, crises externas ou internas e o zelo protecionista das mesmas associações setoriais nos dois maiores membros do bloco, obstou a que se avançasse na consecução das principais “tarefas” do artigo 1º do acordo, como segue:
- A livre circulação de bens serviços e fatores produtivos entre os países ... a eliminação dos direitos alfandegários, das restrições não tarifárias à circulação de mercado ou de qualquer outra medida de efeito equivalente; [parcialmente realizado]
- O estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de Estados e a coordenação de posições em foros econômico-comerciais regionais e internacionais; [a TEC não cobre todas as importações dos países, pois existem exceções nacionais]
- A coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados Partes - de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais, de serviços, alfandegária, de transportes e comunicações e outras que se acordem -, a fim de assegurar condições adequadas de concorrência entre os Estados Partes; [essa coordenação, que está no coração de um mercado comum, jamais foi tentada com seriedade; a falha incumbe inteiramente aos governos dos dois maiores países] e
- O compromisso dos Estados Partes de harmonizar suas legislações, nas áreas pertinentes, para lograr o fortalecimento do processo de integração. [alguns esforços parciais foram feitos em grupos de trabalho, mas eles foram muito limitados.]

Os países membros, em especial Brasil e Argentina, parecem ter esquecido as palavras introdutórias do tratado de 1991, que os instava a levar “em conta a evolução dos acontecimentos internacionais, em especial a consolidação de grandes espaços econômicos, e a importância de lograr uma adequada inserção internacional para seus países”. A única solução às omissões apontadas consistiria na adoção de um processo preparatório a uma nova conferência diplomática entre os cinco atuais membros (os quatro originais mais a Bolívia), que poderia delongar-se durante várias semanas, com o objetivo de negociar um novo tratado constitutivo de um verdadeiro mercado comum, se tal for o objetivo, ou para preparar o retrocesso do bloco a um simples acordo de livre comércio, como é a vocação natural da maioria quase absoluta dos acordos de liberalização comercial registrados na OMC. O que não se pode fazer é preservar a ilusão de se apresentar sob a égide de um “tratado para a criação de um mercado comum” entre os países membros, sem que se faça qualquer esforço para atingir tal objetivo ambicioso na presente conjuntura.
Um processo de reforma do Mercosul, tanto no plano institucional, quanto na área operacional, possui forte conexão com a abertura econômica internacional e a liberalização comercial de seus membros, em especial dos dois maiores países, que apresentam, como é sabido, fortes componentes protecionistas enraizados em suas elites econômicas, tanto do setor agrário, quanto dos vários domínios industriais e de serviços. Paraguai e Uruguai são os dois membros mais liberais do bloco, em especial o Paraguai, que por isso mesmo vem recebendo um volume significativa de investimentos estrangeiros, notadamente a partir do próprio Brasil, que assim efetua o que países industrialmente avançados já conheceram nas últimas décadas de globalização ampliada.
Dessa forma, antes de qualquer conferência diplomática com o objetivo de efetuar reformas institucionais, caberia aos membros do Mercosul constituir um grupo de trabalho dos governos nacionais, mas aberto aos representantes dos setores produtivos, para estudar, propor e viabilizar uma reforma da Tarifa Externa Comum, visando sua redução gradual, mas substantiva, de maneira a alinhá-la com padrões mais conformes às realidades do comércio internacional, mas também mais adequadas a ganhos crescentes de competitividade vis-à-vis parceiros externos e concorrentes internacionais. O acordo Mercosul-União Europeia, pela sua complexidade e abrangência, oferece uma boa base de partida para esse trabalho de redução do protecionismo comercial ainda prevalecente nos mecanismos de defesa comercial do bloco do Cone Sul.
As dificuldades temporárias vinculadas a esse objetivo de abertura encontram-se na atual postura do governo argentino, que buscou uma relação de alinhamento com o governo Trump, sem levar em conta o caráter errático da política comercial americana, submetida a impulsos díspares e cambiantes do chefe de Estado. A despeito das dificuldades conhecidas, o governo brasileiro, desde o atual e obviamente o próximo, deve buscar um entendimento de alto nível com vistas a fortalecer o Mercosul, cujos propósitos se coadunam inteiramente com uma agenda de inserção econômica internacional a mais ampla. Essa iniciativa não deveria limitar-se à reforma da TEC, como acima exposta, mas também tocar nos demais imperativos do artigo 1º do Tratado de Assunção (como acima transcrito), quais sejam, a coordenação de políticas macro e setoriais, assim como a uniformização das legislações tributárias nacionais, ou pelo menos a minimização de seus aspectos incompatíveis com a abertura recíproca dos mercados dos países membros. São tarefas de grande complexidade, mas cabe relembrar que, durante o período de transição do Mercosul (1991-1994), mais de uma dúzia de grupos de trabalho confrontaram as respectivas legislações nacionais, com o objetivo de reduzir as distorções que impedem a integração plena de suas economias e estruturas regulatórias (no plano técnico, metrológico, de defesa e sanidade etc.).
O lado provavelmente mais complicado do processo de convergência residem nas estruturas fiscais e tributárias, dadas sua complexidade e construção efetuadas justamente no sentido da introversão nacional, no esquecimento ou no desprezo das burocracias nacionais com respeito aos compromissos assumidos sob o tratado de Assunção e protocolos setoriais. Neste caso, um processo de consulta e de intensa colaboração com as burocracias da União Europeia e da OCDE ofereceria um campo neutro de discussões técnicas e de oferecimento de exemplos e de experiências já enfrentadas pelos países membros da OCDE e no processo de unificação do mercado único europeu, que seriam especialmente úteis na iniciativa de reforma e de reforço do Mercosul como via de “globalização restrita”, a caminho de novos empreendimentos no plano multilateral (aguardando a normalização nessa frente). Tanto o Brasil quanto a Argentina são, aliás, candidatos à adesão à OCDE, independentemente de não postularem, na presente etapa, um salto comunitário de estilo europeu, o que não se configura como ainda possível no horizonte histórico dos próximos anos. Mas, um novo governo a ser eleito em outubro de 2026 poderia discutir seriamente tais prioridades externas e tê-las em sua agenda de trabalho a partir de 2027.
Como poderia dizer um “Ortega y Gasset mercosuliano”, a circunstância inevitável das relações externas dos países do Mercosul é justamente a via da integração cada vez mais estreita entre as nações do Cone Sul, e não apenas no terreno econômico.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5 maio 2026, 3 p.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Relações Internacionais: Temas Clássicos, Rodrigo Gallo (org.); Prefácio: Paulo Roberto de Almeida; livremente disponível em pdf

Relações Internacionais: Temas Clássicos

Rodrigo Gallo (organizador)

Boa Vista: Editora Iole, 2021

ISBN: 978-65-993757-3-6

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.4657531%20




Sinopse:

Este livro foi organizado para atender à formação dos internacionalistas: articular, em uma mesma obra, capítulos que possam suprir as necessidades de conhecimentos específicos, porém, já aplicados às particularidades dos cursos de Relações Internacionais (RIs).

A proposta deste livro não é renovar o debate teórico, mas oferecer subsídios para que os estudantes consigam enfrentar alguns dos principais temas essenciais para as RIs. Ao invés de apresentarmos ideias novas, optamos por debater os pilares elementares, para que, a partir daí, cada um possa se especializar na área de sua preferência.

É essencial ressaltar que os capítulos deste livro não dispensam a leitura dos textos clássicos e consagrados da área: nosso projeto apresenta aos leitores um manual de Relações Internacionais, que não os exime da necessidade de buscar a literatura original como forma de aprofundar seus conhecimentos.

 

Formato eletrônico, livremente disponível

http://editora.ioles.com.br/index.php/iole/catalog/view/14/24/39-1


Volume 1: organização Rodrigo Gallo 

 

1. Teoria do Estado e sistema internacional (Rodrigo Gallo)

2. Política Externa e Análise de Política Externa (Ivan Fernandes, professor da UFABC)

3. Organizações Internacionais (Mariana Maia Ruivo, professora visitante da USP Leste e Uninove)

4. Economia Internacional (Mayra Coan, professora da Fundação Santo André, e Pedro Godeguez, professor do IBMEC)

5. Sistemas Financeiros e Monetários Internacionais (Rodrigo Maschion, professor da Universidade Anhembi Morumbi)

6. Direitos Humanos (Marco Aurélio Moura, professor da FMU)

 

Prefácio


Relações Internacionais: temas clássicos e contemporâneos (vol. 1)

 

Prefácio de Paulo Roberto de Almeida

 

Qualquer analista, seja ele um diplomata ou um pesquisador acadêmico, das relações internacionais contemporâneas, ou seja, esta que se desenvolve sob nossos olhos, não deixa de enfrentar certo desconforto se por acaso fosse chamado a distinguir, segundo a terminologia do subtítulo deste livro, quais seriam os temas clássicos da disciplina e quais os distintivamente contemporâneos. 

Os temas clássicos adivinhamos empiricamente quais sejam: os das relações entre estados soberanos, nas linhas da estrutura westfaliana que já é velha de quase 400 anos; o da guerra e da paz entre as nações, segundo a obra, por si só clássica, de Raymond Aron; as questões do colonialismo, surgidas com os Descobrimentos, e as do imperialismo, em sua moldura europeia do século XIX; a sucessão de preeminências hegemônicas no cenário internacional, partindo da partilha do mundo entre as duas coroas ibéricas, seguida pelo avanço das demais potências europeias nas latitudes periféricas; sem descurar a emergência de uma economia mundial, já bem entrada a segunda revolução industrial, no terço final do século XIX. 

As relações entre estados soberanos são basicamente bilaterais, eventualmente pontilhadas por encontros mais amplos, do tipo do multilateralismo precoce, mas ainda oligárquico, experimentado no Congresso de Viena (1815). As guerras “clássicas” eram, primeiro, as mercenárias, depois as levadas a efeito por exércitos nacionais, segundo o modelo clausewitziano ainda vigente na era dos conflitos napoleônicos, para finalmente encontrarem um limite aos enfrentamentos globais com a mecanização e a nuclearização dessas disputas bélicas entre grandes potências; as que sobraram são conflitos interestatais, e mais frequentemente civis, nas nações periféricas. Colonialismo e imperialismo deixaram a fase da dominação direta e dos tratados desiguais para assumir novas formas, mais do lado dos investimentos e do livre comércio. A famosa disputa hegemônica, por fim, não deve mais passar por algum conflito global – dada a devastação que poderia produzir, ameaçando a própria sobrevivência da Humanidade – e sim pela sucessão de “Estados comerciais”, como já analisado por Rosencrance e Gilpin em obras igualmente clássicas. 

A Guerra Fria geopolítica sepultou, possivelmente, a era das relações internacionais clássicas, que vinha da Grande Guerra (1914-18) e que se prolongou no segundo pós-guerra; agora, entramos na era das relações internacionais contemporâneas, que talvez seja marcada por uma espécie de Guerra Fria econômica, que deve estender-se pelo resto do século XXI, segundo linhas de tensão, de fricção e de cooperação ainda não de todo definidas neste início da terceira década do século. E do que serão feitas as relações internacionais contemporâneas? Possivelmente, por todos os temas que comparecem neste primeiro dos dois volumes de uma obra muito bem vinda no cenário ainda relativamente rarefeito da literatura especializada dos cursos acadêmicos da área, e por mais alguns temas complementares ou emergentes.

As relações entre estados soberanos continuarão no horizonte das possibilidades históricas pelos próximos 150 anos pelo menos, em que pese os temores paranoicos dos “antiglobalistas”, os alquimistas tresloucados do presente momento, depois que os “antiglobalizadores” já se cansaram de protestar contra as iniquidades do sistema internacional capitalista e se retiraram discretamente do cenário, depois de insistirem durante mais de uma década sobre o impossível “outro mundo possível” que eles pediam ruidosamente, com todas os gadgets das multinacionais. Se as relações bilaterais são cada vez mais complementadas, e até substituídas, pela diplomacia multilateral das organizações internacionais – a bête noire dos malucos do antiglobalismo –, as manobras nacionais não deixam de existir, daí a necessidade da análise voltada especificamente para a política externa, como comparece igualmente neste volume. 

O núcleo central dessas RI contemporâneas não é tanto a competição guerreira entre Estados de primeira grandeza e sim a concorrência econômica entre as potências tecnológicas, que podem ser, inclusive, anões militares, daí a importância do estudo da economia internacional, dos sistemas monetários e financeiros, como também aqui figura. Estamos no limiar do declínio do dólar enquanto moeda mundial? Se isso ocorrer, será ainda muito gradual, à medida da transposição da moeda digital chinesa em criptomoeda conversível e com pretensões universalistas, crescentemente operada por sistemas funcionando segundo princípios da inteligência artificial, que a China já domina amplamente. Outras questões se apresentam na interface dos temas globais, direitos humanos, meio ambiente, crime transnacional, sustentabilidade planetária e exploração extraplanetária, energias renováveis e o velho tema do desenvolvimento. 

Estas são as questões, várias das quais encontram-se dissecadas e analisadas nos estudos e ensaios aqui incluídos, cujos autores são professores especialistas nos temas a que se dedicam, com um perfeito conhecimento das demandas de seus alunos em salas de aula. Sejam bem vindos a elas, e comecem desde já a pensar nos novíssimos temas, aqueles que nos ocuparão, academicamente e praticamente, pelo resto do século.


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