Um link para a lista de "leaks" sobre o Brasil publicados pela Folha de S.Paulo até dezembro de 2010
Leia os últimos telegramas sobre o Brasil obtidos pela Folha
FOLHA DE SÃO PAULO, 08/12/2010
Atualizado em 07/01/2011
Desde julho de 2007, o WikiLeaks publica documentos delicados por meio do que descreve como "vazamento com princípios".
O seu mais recente "lançamento" são 250 mil documentos secretos diplomáticos dos EUA.
A Folha é uma das sete publicações no mundo que têm acesso a esse material antes de ele ser divulgado no site. O jornal teve acesso aos 2.903 documentos que mencionam o Brasil e foram produzidos aqui ou no Departamento de Estado norte-americano, em Washington.
LEIA A VERSÃO TRADUZIDA DOS TELEGRAMAS
28.mar.2008 - Secreto - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Roubo de avião mostra vuneabilidade de espaço aéreo no Brasil, dizem EUA
14.set.2009 - Confidencial - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Documento recomenda EUA manterem opinião positiva sobre Lei do Abate
1.nov.2006 - Secreto - Política externa do governo Lula
Telegrama comenta política externa no 2º mandato de Lula
1.jul.2009 - Secreto - Política externa do governo Lula
Documento relata encontro de embaixador dos EUA e Lula em 2009
11.dez.2009 - Confidencial - Apagão no Brasil
Para americanos, apagão pode ter sido sabotagem
24.dez.2009- Confidencial - Atentado no Rio em 2016
EUA afirmam que Rio teme ser alvo de terrorismo em 2016
11.jan.2009 - Confidencial - Estratégia Nacional de Defesa
EUA fazem duras críticas à Estratégia Nacional de Defesa
22.jan.2009 - Confidencial - Tumor de Evo Morales
Ministro brasileiro diz a EUA que presidente da Bolívia tem tumor no nariz
13.nov.2009 - Confidencial - Acordos de defesa com EUA
Vice-embaixadora dos EUA e Nelson Jobim discutem acordos em defesa
31.mar.2008 - Confidencial - Jobim aliado dos EUA
EUA viam Nelson Jobim como um aliado em contraposição ao Itamaraty
13.mar.2009 - Confidencial - Jobim aliado dos EUA
Para embaixador dos EUA, Jobim é "primeiro ministro da Defesa forte do Brasil"
20.fev.2009 - Confidencial - Jobim aliado dos EUA
Ministro Nelson Jobim discutiu agenda para visita a Washington
25.jan.2009 - Confidencial - Jobim aliado dos EUA
Ministro Nelson Jobim queria acordo de cooperação em defesa com EUA
8.jan.2008 - Confidencial - Terrorismo no Brasil
EUA destacam aproximação do Brasil com muçulmanos
20.nov.2009 - Confidencial - Terrorismo no Brasil
EUA estudaram comunidade muçulmana no Brasil
31.dez.2009 - Não classificado - Terrorismo no Brasil
EUA dizem que esforço antiterror se concentra em São Paulo
18.mar.2009 - Confidencial - Terrorismo no Brasil
Brasil voltou atrás em lei antiterrorismo, segundo EUA
8.abr.2008 - Secreto - Terrorismo no Brasil
EUA dizem que Brasil é parceiro no combate ao terrorismo
6.mai.2005 - Confidencial - Terrorismo no Brasil
EUA discutem presença da Al Qaeda na tríplice fronteira
*
LEIA A VERSÃO EM INGLÊS DOS TELEGRAMAS OBTIDOS PELA FOLHA
2.set.2005 - Confidencial - Tráfico nuclear
Brasil pediu rastreamento de redes financeiras por trás de tráfico nuclear
26.ago.2004 - Confidencial - Acordo nuclear
EUA discutem pontos de acordo nuclear com diplomatas brasileiros
13.fev.2009 - Confidencial - Proliferação nuclear
Brasil responde a perguntas sobre Tratado de Não Proliferação Nuclear
20.ago.2009 - Confidencial - Diplomacia
Brasil ofereceu ajuda aos EUA para lidar com Irã e Coreia do Norte
8.jun.2009 - Confidencial - Proliferação nuclear
Itamaraty quis termo de exceção para Brasil e Argentina em acordo
14.ago.2009 - Não classificado - Programa nuclear
Países Não Alinhados rejeitaram banco de combustível nuclear da AIEA
20.ago.2009 - Confidencial - Programa nuclear
EUA viam papel crucial do Brasil em influenciar países em desenvolvimento
8.dez.2008 - Não classificado - Agência nuclear
Diplomata avalia acordo Brasil-Argentina com agência nuclear da ONU
17.fev.2009 - Confidencial - Programa nuclear
Brasil discute garantias internacionais sobre programa nuclear
16.nov.2009 - Confidencial - Proliferação Nuclear
Representante do presidente para Não Proliferação Nuclear visita Brasil
14.set.2009 - Não classificado - Trocas de combustível nuclear
Brasil quis mais informações sobre trocas de combustível nuclear
05.dez.2008 - Não classificado - Agência nuclear
Diplomata avalia acordo Brasil-Argentina com agência nuclear da ONU
11.mai.2009 - Confidencial - Visitas da AIEA
Brasil cogita aceitar visitas da AIEA, mas não protocolo adicional
1.nov.2004 - Confidencial - Varig
EUA cogitaram mandar equipe ao Brasil para discutir situação da Varig; leia em inglês
1.dez.2004 - Não classificado - Varig
Documento detalha situação precária da Varig e Vasp; leia em inglês
20.dez.2004 - Confidencial - Varig
Reunião teve como assunto dívida da Varig à Boeing; leia em inglês
10.jun.2005 - Não classificado - Varig
Para EUA, situação da Varig estava prestes a se tornar 'muito confusa'; leia em inglês
15.junho.2005 - Não classificado - Varig
Membros do conselho da Varig detalham a embaixador situação; leia em inglês
11.jul.2005 - Não classificado - Varig
Diretor da Boieng avaliou situação da Varig após mudanças; leia em inglês
20.out.2005 - Não classificado - Varig
EUA avaliaram que ajuda do governo à Varig pode ter demorado; leia em inglês
31.mar.2005 - Não classificado - Varig
Criação da Anac é descrita em telegrama; leia em inglês
10.abr.2006 - Não classificado - Varig
EUA queriam estreitar relações com Anac em encontro nos EUA; leia em inglês
11.abr.2006 - Não classificado - Varig
EUA descrevem situação de caos com cancelamentos de voos da Varig; leia em inglês
13.jun.2006 - Não classificado - Varig
EUA avaliaram que TAM e Gol ganharam com incertezas sobre a Varig; leia em inglês
29.jun.2006 - Não classificado - Varig
Documento aponta que juiz rejeitou oferta de trabalhadores da Varig; leia em inglês
2.abr.2007 - Não classificado - Varig
Embaixada apoiou envio de funcionário da agência de aviação dos EUA; leia em inglês
12.ago.2005 - Confidencial - Ministério das Relações Exteriores
Palocci queria mudar política do Ministério das Relações Exteriores, dizem EUA
26.set.2003 - Não classificado - Acordo comercial
Embaixador americano diz que acordo comercial não pode sair sem o Brasil
24.mar.2003 - Não classificado - EUA-Mercosul
Para diplomata brasileiro, discussões EUA-Mercosul são 'menos que francas'
27.out.2003 - Confidencial - Alca
EUA discutem se oposição brasileira nas negociações da Alca pode ser quebrada
04.mar.2003 - Não classificado - Alca
Telegrama diz que Lula pressionará metas sociais ao negociar Alca
20.mai.2003 - Confidencial - Alca
Ceticismo à Alca vem das Relações Exteriores, diz documento
08.abr.2004 - Confidencial - Alca
Reunião da Alca na Argentina leva Itamaraty a usar mídia para acusações, dizem EUA
05.mar.2004 - Confidencial - Alca
EUA especulam sobre aceitação da Alca pelo Brasil
28.abr.2003 - Não classificado - Alca
Governo não quer atrasar Alca, diz assessor de Amorim segundo documento
18.jul.2003 - Confidencial - Alca
Telegrama de 2003 analisa visão do Brasil sobre Alca
18.jul.2003 - Confidencial - Alca
Funcionário brasileiro sugere que país pode aceitar Alca, diz telegrama
12.ago.2005 - Confidencial - Negociações bilaterais
Documento mostra negociações bilaterais entre Brasil e EUA
03.abr.2006 - Não classificado - Câmara Americana de Comércio
Evento na Câmara Americana de Comércio é tema de telegrama
26.set.2003 - Não classificado - Alca
Telegrama relata negociações com Brasil sobre Alca
26.out.2009 - Confidencial - Chancelaria brasileira
Chancelaria brasileira tem 'ciúmes' de outros países líderes na região
27.jul.2006 - Confidencial - Abrigo a ex-padre ligado às Farc
Abrigo a ex-padre que se juntou às Farc gera desconfiança
27.ago.2009 - Confidencial - Bases militares na Colômbia
EUA tentam dissipar desconfiança sobre bases militares na Colômbia
20.ago.2009 - Confidencial - Acordo Colômbia-EUA
Brasil recua nos ataques ao acordo Colômbia-EUA, diz telegrama
26.out.2009 - Confidencial - Acordo Colômbia-EUA
Visita de Uribe deixou Lula 'tranquilo' sobre acordo Colômbia-EUA
30.out.2009 - Confidencial - Conflito Brasil-Colômbia sobre fronteiras
Brasil queria garantias formais de que Colômbia respeitaria fronteiras
25.nov.2009 - Secreto - Conflito Colômbia-Venezuela
EUA investigaram envolvimento do Brasil no conflito Colômbia-Venezuela
28.ago.2009 - Confidencial - Atuação dos EUA nas fronteiras colombianas
Brasil se preocupa que EUA não atuem fora das fronteiras colombianas
09.abr.2009 - Confidencial - Obama
Obama quer relação mais transparente com Brasil, diz telegrama
09.nov.2009 - Confidencial - Caso Sean
EUA pediram para Itamaraty ajudar na devolução de Sean Goldman ao pai
16.mar.2009 - Não classificado - Caso Sean
Telegrama diz que Obama conversou com Lula sobre caso Sean
06.nov.2009 - Confidencial - Irã
EUA se preocuparam com possível acordo de vistos entre Brasil e Irã
29.nov.2005 - Confidencial - Irã
Telegrama de 2005 mostra Brasil preocupado com falas do presidente do Irã
19.fev.2010 - Confidencial - Irã
Diplomatas do Itamaraty sugeriram formas de lidar com questão nuclear do Irã
06.out.2009 - Confidencial - Irã
Brasil recebe relatório da AIEA e repensa posição sobre Irã
16.nov.2009 - Confidencial - Ahmadinejad
EUA queriam que Brasil influenciasse Ahmadinejad durante visita
13.nov.2008 - Não classificado - Irã
Brasileiros podem mostrar para Irã que negociação é melhor saída
29.jan.2010 - Confidencial - Irã
Reunião com Itamaraty visava buscar apoio a sanções contra o Irã
25.nov.2009 - Confidencial - Ahmadinejad
Embaixada dos EUA analisa visita de Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil
07.out.2009 - Confidencial - Israel
Itamaraty confirma visita do presidente de Israel
23.set.2009 - Confidencial - Irã
Documento revela que Brasil pediu mais dados ao Irã para acordo
18.set.2009 - Confidencial - Irã
Brasil hesitou sobre cumprimento de acordo pelo Irã
20.nov.2006 - Não classificado - Ambiente
Brasil demonstra 'imaturidade política' e paranoia em tópicos como Amazônia
11.dez.2006 - Não classificado - Relações bilaterais
Segundo telegrama, Brasil demonstra 'ambivalência' a respeito dos EUA
07.abr.2006 - Não classificado - Diplomacia
Documento comenta aproximação entre Brasil e China
18.mai.2006 - Não classificado - Brasil
De mensalão a etanol, telegrama contextualiza Brasil para secretário
Confidencial - Diplomacia brasileira
Despacho detecta ambições internacionais de Lula
03.out.2006 - Não classificado - Artigo 98
EUA diz que Brasil viu acordo militar como "pé na porta"
31.mai.2005 - Confidencial - Artigo 98
Brasil rejeita imunidade legal para militares dos EUA
28.abr.2005 - Confidencial - Diplomacia brasileira
Em 2005, diplomacia dos EUA e do Brasil discutem acordo contra Irã
24.mar.2005 - Confidencial - Artigo 98
EUA discutem regras para exercícios militares no Brasil
29.abr.2005 - Confidencial - Artigo 98
EUA alegaram más experiências para conseguir acordo de imunidade
22.dez.2004 - Confidencial - Programa F-X
Documento comenta programa para modernização de caças
14.jul.2007 - Confidencial - Artigo 98
Telegrama revela pressão para acordo contra extradição de americanos
27.mai.2004 - Confidencial - Artigo 98
EUA e Brasil discutem cooperação militar na região
29.mai.2004 - Confidencial - Artigo 98
Brasil procurou outros parceiros militares após pressão dos EUA
16.mai.2007 - Confidencial - Apagão aéreo
PMDB usou CPI do Apagão Aéreo para barganhar cargos
30.nov.2006 - Não classificado - Apagão aéreo
Passageiros precisam de 'um alto grau de paciência', diz embaixador
24.nov.2006 - Confidencial - Voo 1907
Sobre pilotos acusados, brasileiro alerta para pressão externa
05.nov.2006 - Não classificado - Voo 1907
Documento responsabiliza caos aéreo por acidente da Gol
1º.dez.2006 - Confidencial - Voo 1907
Segundo telegrama, embaixada está 'frustrada' com demora para liberar pilotos
05.abr.2007 - Confidencial - Apagão aéreo
ACM Neto culpa governo Lula por ignorar indícios da crise aérea
02.out.2006 - Não classificado - Voo 1907
Telegrama traz conselhos a peritos dos EUA que investigarão acidente da Gol
17.nov.2006 - Confidencial - Voo 1907
Embaixador intercederá em caso de pilotos acusados
04.jun.2007 - Não classificado - Voo 1907
Documento destaca acusação contra controladores em colisão aérea
27.mai.2004 - Confidencial - Lula, Morales e Chávez
Para embaixadora, Lula ajudou a manter Chávez e Morales 'moderados'
18.mai.2006 - Não classificado - Lula e Chávez
Documento relata simpatia de Lula por Chávez
10.mar.2006 - Não classificado - Mensalão e Alca
Telegrama explica mensalão e dificuldades para emplacar Alca
26.mar.2004 - Confidencial - Dirceu
Telegrama relata encontro de diplomata com Dirceu e preocupação com vizinhos
06.out.2004 - Confidencial - Dirceu
Documento narra encontro de embaixador dos EUA com Dirceu
13.out.2005 - Confidencial - Dirceu
Conversa após mensalão retrata Dirceu otimista sobre Lula, mostra telegrama
19.ago.2005 - Confidencial - Dirceu
Telegrama relata desdobramentos do escândalo do mensalão sobre Dirceu
20.abr.2005 - Confidencial - Dirceu
Intenções de Dirceu sobre Alca dividem delegação americana, dizem documentos
13.abr.2005 - Confidencial - Dirceu
Documento indica que Dirceu recomendaria a Chávez baixar o tom 'provocativo'
16.maio.2008- Não classificado - MST Consulado São Paulo
Documento diz que Bolsa Família obrigava MST a repensar tática; leia em inglês
12.abr.2004 - Confidencial - MST - Embaixada Brasília
Telegrama diz que 'abril vermelho' em 2004 poderia ficar mais violento; leia em inglês
11.out.2005 - Não classificado - MST Embaixada Brasília
MST invade propriedade americana, informa documento; leia em inglês
24.mar.2006 - Não classificado - MST Consulado São Paulo
Pesquisa mostra baixa popularidade do MST, diz embaixada; leia em inglês
28.mai.2008 - Não classificado - MST Consulado de Recife
MST tem dificuldade de criticar Lula por sua popularidade, dizem EUA; leia em inglês
1.abr.2009 - Não classificado - MST Consulado de São Paulo
Telegrama afirma que diversos fatores mostram marginalização do MST; leia em inglês
29.mai.2009 - Não classificado - MST Consulado de São Paulo
Documento relata prática do MST que atinge sua credibilidade; leia em inglês
28.set.2009 - Confidencial - Honduras
Em encontro na OEA, Amorim fala sobre Zelaya para americanos
25.set.2009 - Não classificado - Honduras
Governo brasileiro acredita que Chávez está por trás de Zelaya, diz telegrama
02.out.2009 - Secreto - Honduras
Embaixador peruano fala sobre Sendero Luminoso e Zelaya
15.dez.2005 - Confidencial - Lula e PMDB
Delfim Neto relata em 2005 relações entre Lula e PMDB
27.out.2009 - Confidencial - Honduras
Telegrama mostra opinião de petistas e acadêmicos sobre Zelaya
12.jul.2009 - Não classificado - Honduras
Documento reproduz artigo sobre risco de Zelaya para Lula
04.set.2009 - Não classificado - Base na Colômbia
Base na Colômbia foi tema de reunião com brasileiros e americanos
23.set.2009 - Não classificado - Honduras
Pego de surpresa no caso Zelaya, Brasil busca ajuda dos EUA
02.out.2009 - Não classificado - Honduras
Brasil não tem estratégia para Honduras, dizem EUA
26.out.2009 - Não classificado - Honduras
Documento relata confusão da delegação de parlamentares em Honduras
20.nov.2009 - Não classificado - Indicação de Patriota
EUA elogiam indicação de Patriota para Secretaria do Itamaraty em 2009
10.dez.2009 - Não classificado - Visita
Relatório descreve visita de Valenzuela ao Brasil no ano passado
29.dez.2009 - Não classificado - Encontro
Valenzuela tem encontro com funcionários do governo brasileiro
08.jan.2010 - Não classificado - Política externa
PT e PSDB mostram diferenças sobre política externa
11.jan.2010 - Não classificado - Encontro
Amorim faz visita com novo embaixador americano
19.fev.2010 - Não classificado - Encontro
Telegrama relata encontro de Garcia e Carvalho com embaixador
26.dez.2007 - Não classificado - Pirataria
Governo e universidades distribuem produtos piratas, diz documento
18.ago.2006 - Não classificado - Pirataria
Esforço brasileiro para conter pirataria é de interesse dos EUA
17.ago.2009 - Não classificado - Patente
Derrubada de patente americana é discutida em telegrama
27.fev.2004 - Confidencial - Pirataria
Para ex-embaixador, Lula não tem boa estratégia antipirataria
10.jun.2005 - Confidencial - Patente
Brasil aconselhou EUA antes de quebrar patente dos remédios anti-Aids
08.nov.2004 - Confidencial - Direitos autorais
Embaixador detalha preocupação com direitos autorais no Brasil
20.nov.2009 - Não classificado - Patentes
Perto da eleição, Brasil pode evitar questão das patentes, diz documento
16.jun.2006 - Não classificado - Pirataria
Até Lula viu cópia pirata de 'Dois Filhos de Francisco', diz telegrama
03.fev.2003 - Confidencial - Pirataria
Documento revela desconfiança no combate brasileiro à pirataria
05.set.2006 - Não classificado - Parcerias comerciais
Cônsul relata investidas de embaixador em parcerias comerciais
28.nov.2006 - Não classificado - Pirataria
Telegrama relata reforço do combate à pirataria em São Paulo
02.mar.2009 - Não classificado - Pirataria
Brasil deve ser mantido em 'lista de pirataria', recomenda diplomacia
26.set.2006 - Confidencial - Genéricos
Documento aborda avanços do governo para importar genéricos
02.fev.2004 - Confidencial - CPI da Pirataria
Telegrama relata atuação de deputados na CPI da Pirataria
21.ago.2009 - Não classificado - Economia
Propriedade intelectual pode atrapalhar economia, registra documento
16.nov.2006 - Não classificado - Parceria econômica
Impopularidade dos EUA é barreira para parceria econômica
22.fev.2005 - Confidencial - Caso Dorothy Stang
Pará pode estar encobrindo envolvidos do caso Dorothy, diz documento
14.fev.2005 - Confidencial - Caso Dorothy Stang
Missionária americana morre e EUA acreditam que prisões serão feitas
03.mar.2005 - Não classificado - Caso Dorothy Stang
FBI esteve no Brasil para apurar morte de Dorothy, aponta documento
13.mar.2006 - Não classificado - Código florestal
Telegrama comenta aprovação de código florestal em 2006
18.fev.2005 - Confidencial - Caso Dorothy Stang
Embaixador comenta prisão de acusados de matar Dorothy
1º.mar.2005 - Confidencial - Caso Dorothy Stang
Funcionário do governo mostra que caso Dorothy não será federalizado
14.ago.2006 - Não classificado - Impacto ambiental
Embaixador analisa impacto ambiental da pavimentação da BR-163
12.mai.2008 - Não classificado - Caso Dorothy Stang
Absolvição de acusado do caso Dorothy preocupou embaixada
02.mai.2005 - Não classificado - Caso Dorothy Stang
Documento traz relato sobre conflitos agrários no Pará pós-Dorothy
04.mar.2005 - Não classificado - Legislação ambiental
Telegrama de 2005 trata de mudanças na legislação ambiental
07.mar.2005 - Não classificado - Caso Dorothy Stang
Em 2005, governo pediu federalização do caso Dorothy, diz embaixada
28.mar.2005 - Não classificado - Caso Dorothy Stang
Quarto suspeito da morte de Dorothy Stang se entrega, informa telegrama
15.fev.2007 - Secreto - Encontro de Armando Félix
Telegrama relata encontro de Armando Félix com embaixador dos EUA
21.fev.2009 - Confidencial - Acordo de defesa EUA e Brasil
Telegrama relata encontro de Amorim com embaixador sobre acordo de defesa
14.mar.2006 - Não classificado - Governo Lula
Cônsul relata encontro com cardeal Hummes sobre governo Lula
24.out.2007 - Não classificado - Política e Bolsa Família
Texto mostra opinião de d. Odilo sobre política e Bolsa Família
29.mai.2007 - Não classificado - Religião
Em 2007, documento descreve receptividade do papa no Brasil
27.mar.2007 - Não classificado - Religião
Telegrama analisa indicação de d. Odilo para acerbispo de SP
02.dez.2009 - Confidencial - Pré-sal
Empresa ouviu Serra sobre novas regras do pré-sal
27.ago.2009 - Confidencial - Pré-sal
Telegrama mostra que petroleiras eram contra novas regras
21.jan.2009 - Não classificado - Pré-sal
Documento relata participação de americanas na descoberta do pré-sal
30.jun.2008 - Não classificado - Pré-sal
Telegrama mostra interesse das empresas americanos no pré-sal
15.abr.2008 - Não classificado - Pré-sal
Decisões políticas sobre pré-sal terão impacto para americanos, diz embaixada
28.jan.2008 - Não classificado - Petróleo brasileiro
Estrangeiros irão continuar a investir no petróleo brasileiro, dizem EUA
16.mar.2004 - Secreto - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Telegrama relata encontro de Jorge Félix com general americano
8.fev.2004 - Confidencial - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Representantes americanos tratam da Lei do Abate com Defesa
20.set.2006 - Confidencial - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Missão recomenda renovação de cooperação EUA e Brasil
6.dez.2008 - Secreto - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Documento dos EUA trata de cooperação com Brasil sobre lei do abate
6.dez.2008 - Secreto - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Embaixada fala da segurança do espaço aéreo brasileiro
21.jul.2004 - Confidencial - Lei do Abate e segurança do espaço aéreo
Mensagem relata encontro com militares brasileiros e americanos
13.fev.2010 - Confidencial - Dilma Rousseff e eleições 2010
Telegrama fala do crescimento de Dilma nas pesquisas; leia em inglês
20.jul.2009 - Não classificado - Dilma Rousseff e eleições 2010
Texto de Embaixada dos EUA analisa de 2009 analisa disputa entre Dilma e Serra
16.mai.2008 - Confidencial - Dilma Rousseff e eleições 2010
Em 2008, documento afirmava que Dilma aumenta chances
22.jun.2005 - Não classificado - Dilma Rousseff e eleições 2010
Telegrama traz biografia de Dilma ao ser indicada para Casa Civil
21.out.2010 - Confidencial - Dilma Rousseff e eleições 2010
Relatório detalha movimentação política um ano antes da eleição
19.jun.2009 - Confidencial - Dilma Rousseff e eleições 2010
Telegrama fala do estado de saúde de Dilma após câncer
10.nov.2009 - Não classificado - Dilma Rousseff e eleições 2010
Embaixada relata em 2009 imagem de Dilma no PT
24.jul.2008 - Confidencial - Dilma Rousseff e eleições 2010
Documento cita possível repercussão de escândalo no Senado
23.abr.2005 - Não classificado - Dilma Rousseff e eleições 2010
Telegrama dos EUA em 2009 trata dos perfis dos candidatos
11.ago.2006 - Confidencial - Política externa do governo Lula
Em 2006, novo embaixador dos EUA chama de positivo encontro com Lula
22.nov.2002 - Confidencial - Política externa do governo Lula
Documento detalha conversa de Lula com americanos em 2002
9.set.2004 - Confidencial - Política externa do governo Lula
Telegrama relata credenciamento de embaixador dos EUA em 2004
9.fev.2010 - Confidencial - Política externa do governo Lula
Embaixador trata de encontro com Lula este ano
30.fev.2008 - Confidencial - Violência no Rio
Documento de 2008 trata da violência no Rio e economia no país
27.nov.2009 - Confidencial - Violência no Rio
Documento de 2009 detalha visita de Beltrame ao Dona Marta
8.dez.2005 - Confidencial - Violência no Rio
Embaixada dos EUA relata queima de ônibus no Rio em 2004
9.dez.2005 - Confidencial - Violência no Rio
Telegrama da Embaixada dos EUA fala do combate ao crime no Rio
24.ago.2009 - Confidencial - Violência no Rio
UPPs do Rio são tema de documento da Embaixada Americana em 2009
12.nov.2009 - Confidencial - Violência no Rio
Embaixada dos EUA elogia implantação das UPPs no Rio
22.set.2008 - Confidencial - Violência no Rio
Documento da Embaixada dos EUA relata visita do prefeito do Rio
30.set.2008 - Confidencial - Violência no Rio
Doutrina da combate a insurgência é usada no Rio, diz Embaixada dos EUA
Não classificado - Aquecimento global
Serviço Florestal dos EUA tenta aumentar colaboração com Brasil
Não classificado - Aquecimento global
Telegrama comenta posição do Brasil para reunião em Copenhague
Confidencial - Aquecimento global
Para EUA, Brasil quer ter papel ativo contra aquecimento global
Não classificado - Aquecimento global
EUA ajudam programa brasileiro de proteção a parques
Não classificado - Aquecimento global
EUA comentam lei sobre problemas fundiários na Amazônia
Não classificado - Aquecimento global
EUA dizem querer programa de conservação das florestas tropicais
Não classificado - Aquecimento global
Brasil incorpora política de mudança climática à legislação doméstica
Não classificado - Aquecimento global
Alemanha quer aumentar ajuda no combate ao desmatamento no Brasil
Não classificado - Aquecimento global
Telegrama fala sobre desmatamento no Brasil
Não classificado - Aquecimento global
Colaboração entre EUA e Brasil avança no combate a incêndios florestais
Não classificado - Aquecimento global
Telegrama comenta posição do Brasil para reunião em Copenhague
Não classificado - Aquecimento global
Brasil e França anunciam posição comum sobre mudanças climáticas
Não classificado - Aquecimento global
Documento diz que Brasil toma medidas pragmáticas sobre o desmatamento ilegal
Não classificado - Aquecimento global
Minc está ansioso para encontro com representante dos EUA, diz telegrama
Não classificado - Aquecimento global
EUA elogiam fundos de financiamento para proteção da Amazônia
Não classficado - Aquecimento global
Especialistas de EUA e Peru discutiram proteção aos Andes
Não classificado - Aquecimento global
EUA e Brasil discutem áreas bilaterais protegidas
Não classificado - Aquecimento global
EUA relatam otimismo brasileiro com reunião em Copenhague
Não classificado - Aquecimento global
EUA relatam redução recorde no desmatamento no Brasil
Não classificado - Aquecimento global
Telegrama relata orgulho do Brasil com resultado da COP-15
Confidencial - Aquecimento global
Telegrama relata ações ambientais do Brasil após a COP-15
Não classificado - Aquecimento global
Acordo bilateral para proteção da floresta está perto de desfecho
Não classificado - Aquecimento global
Brasil informa suas ações nacionais de mitigação das mudanças climáticas
Não classificado - Aquecimento global
Resposta preliminar brasileira à COP-15
Não classificado - Aquecimento global
Novo código florestal provoca debates acalorados entre fazendeiros e ambientalistas
Não classificado - Aquecimento global
Estado do Amazonas planeja abordagem ambiciosa contra desmatamento
Terrorismo no Brasil
Leia cinco telegramas tratam da ação de árabes no Brasil
Leia a íntegra de mais documentos obtidos pela Folha
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta eua. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta eua. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
segunda-feira, 8 de junho de 2020
A China ganhou? - Livro de Kishore Mahbubani - Marcelo Ninio (O Globo)
A Guerra Fria Econômica assume o contorno de uma nova longa "protracted war" (conceito de Mao, de 1938) entre um império declinante, os EUA, e um ascendente, a China. Eu creio que a China precisa de um George Kennan, ou seja, uma estratégia de contenção, contra o império tresloucado, para evitar um confronto nuclear; ela o fará, tenho certeza. Paulo Roberto de Almeida, leitor da biografia do Kennan por John Lewis Gaddis, que recomendo. Covid-19 mostrou que confronto entre China e EUA se tornou inevitável, diz ex-alto diplomata de Cingapura Marcelo Ninio, especial para O Globo 08/06/2020 - 04:30 / Atualizado em 08/06/2020 - 10:25 Figuras de papelão dos presidentes americano, Donald Trump, e chinês, Xi Jinping, em uma loja de lembranças para turistas em Moscou Foto: DIMITAR DILKOFF / AFP - 3/6/2020 https://oglobo.globo.com/mundo/covid-19-mostra-que-confronto-entre-china-eua-se-tornou-inevitavel-diz-ex-alto-diplomata-de-cingapura-24466654?versao=amp O título do mais recente livro de Kishore Mahbubani, ainda sem tradução no Brasil, soa como uma provocação ao Ocidente, especialmente aos EUA — e cumpre o prometido. Se o mundo caminha para uma nova guerra fria, como muitos acreditam, os EUA chegam ao confronto em clara desvantagem em relação à China, diz Mahbubani, sobretudo pela incapacidade americana de elaborar uma estratégia para o que ele chama de “a maior disputa geopolítica jamais vista” ou nem sequer imaginar um mundo em que não sejam o número um. É um contraste gritante com a estratégia de contenção articulada em 1946 pelo diplomata americano George Kennan para enfrentar a União Soviética, repete Mahbubani ao longo de seu livro. Membro ilustre do Instituto de Pesquisas Asiáticas da Universidade Nacional de Cingapura, país ao qual serviu como diplomata por 33 anos, Mahbubani é autor de vários livros sobre a mudança no eixo de poder global em direção à Ásia. Por que os EUA não delinearam uma estratégia para lidar com a China? Depois da espetacular vitória na Guerra Fria contra a União Soviética, os EUA se tornaram complacentes. No famoso artigo “O fim da História” (1992), [o cientista político americano] Francis Fukuyama afirma que todas as sociedades se tornariam democracias liberais como os EUA e a Europa. E que por isso os EUA e a Europa podiam relaxar e não fazer nada e o resto do mundo teria que se adaptar. Esse artigo causou um grande dano cerebral ao Ocidente, porque foi publicado exatamente no momento em que a China e a Índia despertavam de um sono de 200 anos. Nos últimos 40 anos a China viveu o maior crescimento econômico da história e os EUA ficaram no piloto automático, assumindo que, não importe o que aconteça, se manteriam como número um para sempre. Esse foi o maior erro estratégico dos EUA. Em recente artigo, Fukuyama afirma que o regime chinês é um desafio aos valores democráticos dos EUA. Isso reflete a atmosfera nos EUA, onde há uma reação muito emocional ao retorno da China. Muitos americanos acreditaram que a abertura econômica da China levaria à abertura do sistema político chinês. Hoje está cada vez mais claro que a China não está se movendo nem um pouco para se tornar uma sociedade democrática liberal e quer manter seu próprio sistema político, por isso há uma desilusão por parte de americanos como Fukuyama. Futuros historiadores ficarão intrigados em como um país como os EUA, com uma história política de menos de 250 anos, pôde acreditar que a China, com 4 mil anos de história e população quarto vezes maior, se tornaria mais parecida com os EUA — e não o oposto. Essa crença de que a China será como os EUA reflete uma certa ingenuidade política na mente de pessoas como Fukuyama, que não estudaram a história mais longa da humanidade e se concentram apenas na aberração que é o breve período de 200 anos de domínio ocidental. E isso é artificial, porque do ano 1 até 1820 as duas maiores economias foram China e Índia. A Covid-19 tornou o confronto inevitável? Eu esperava que a Covid-19 reduziria a competição geopolítica. Uma das regras mais antigas da geopolítica é que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Covid-19 neste momento é o maior inimigo dos EUA, mais americanos já morreram do vírus que nas duas guerras mundiais. Logicamente, uma vez que a Covid-19 também é inimiga da China, os EUA deveriam pôr de lado suas outras diferenças e trabalhar com a China contra o vírus. Mas os EUA não fizeram isso, de fato usaram a Covid-19 para constranger, atacar e isolar a China, é isso é uma prova de que a tese de que o confronto é inevitável se tornou uma realidade. O senhor afirma que na comparação com a Guerra Fria, hoje a China é os EUA e EUA são o a União Soviética. Por que? Um dos conselhos mais sábios de George Kennan foi que o sucesso dos EUA na competição com os soviéticos dependia, no fim das contas, da vitalidade espiritual da sociedade. Em segundo lugar, ele disse que os EUA deveriam cultivar amigos e aliados. Em terceiro, aconselhou a não insultar a União Soviética, porque em algum momento poderia ser necessário trabalhar com os soviéticos em certas áreas. E o quarto conselho foi que os EUA tivessem humildade. O interessante é que o governo Trump está ignorando todos esses conselhos para lidar com a China. Em contraste, a China está seguindo de alguma forma os conselhos de Kennan, está se concentrando em sua vitalidade espiritual. A diferença mais importante entre os EUA e a China é que os EUA são a única sociedade desenvolvida em que a renda média da metade de baixo da população caiu nos últimos 30 anos. Enquanto isso, nos últimos 40 anos, o povo chinês teve a maior alta no nível de vida em 4.000 anos. Nesse sentido, ao não prestar atenção em sua vitalidade espiritual e, em vez disso gastar dinheiro em defesa, os EUA estão se comportando como a União Soviética e a China, ao gastar menos em defesa e se concentrar em sua vitalidade doméstica, está agindo mais como os EUA. Como o sr. responde aos que vêem no autoritarismo do regime chinês um obstáculo para o desenvolvimento do país, por inibir a criatividade e a inovação? Grande parte da incompreensão ocorre porque o Ocidente parte de suposições ideológicas ao lidar com a China. A maior democracia do mundo em população é a Índia. E foi um professor indiano bastante astuto que me disse: a diferença entre a Índia e a China é que a Índia é uma sociedade aberta com uma mente fechada, enquanto a China é uma sociedade fechada com uma mente aberta. Isso explica o dinamismo da sociedade chinesa. Quando eu fui à China pela primeira vez, em 1980, os chineses não tinham liberdade para escolher o que vestir, onde morar e o que estudar. Não havia turistas chineses no mundo. Hoje os chineses podem escolher tudo isso e 134 milhões chineses por ano viajam para o exterior livremente, e voltam para casa. Se a China fosse uma sociedade fechada e opressiva, os chineses não voltariam. Os chineses hoje não gozam de liberdades políticas do tipo que os americanos têm, mas contam com uma explosão de liberdades individuais. Se a China fosse um gulag comunista, não haveria empreendedores no país e a economia não seria tão vibrante e dinâmica. Mas a China está cheia de empreendedores, startups e empresas de tecnologia. No setor de pagamentos móveis, por exemplo, a China é número um no mundo. Isso mostra que a percepção de que a China é um Estado opressor não reflete a realidade. Quem sairá ganhando na guerra de narrativas entre China e EUA sobre a origem e o controle da pandemia? Não há dúvida que o governo chinês, e especialmente as autoridades de Wuhan, cometeram sérios erros no começo e um deles foi silenciar o médico Li Wenliang, que alertou sobre o surto do novo vírus. Erros foram cometidos no início, mas depois disso, quando se deram conta de que algo grave estava ocorrendo, os chineses foram capazes de ações muito fortes e decisivas. E apesar de o governo americano continuar culpando os chineses pelas mortes de americanos de Covid-19, Richard Horton, editor do Lancet, uma publicação científica britânica altamente respeitável, afirmou que eles publicaram cinco artigos na última semana de janeiro que descreviam o vírus como mortal e sem tratamento, que havia transmissão humana e alertavam para o risco de uma pandemia. O alerta foi feito no fim de janeiro e a maioria dos países do Ocidente desperdiçaram o mês de fevereiro e o início de março antes de agir. Claramente foi o fracasso dos EUA que levou a essa explosão de casos de Covid-19 no país. E agora, para esconder seus próprios erros, o governo Trump está culpando a China. As estatísticas mostram a espantosa diferença de competência entre os dois países. Costuma-se dizer que crises têm o potencial de acelerar processos históricos. Como essa crise afetará a ascensão da China? A batalha da Covid-19 ainda não terminou. Ainda estamos em meio a uma névoa e qualquer soldado lhe dirá que no meio da batalha, cercado pela névoa da guerra, não se sabe qual será o desfecho. No momento não há dúvida de que o governo chinês administrou a crise melhor que o governo Trump, os números mostram isso. Mas os EUA ainda têm as melhores universidades, os melhores institutos científicos, o maior número prêmios Nobel, então se amanhã uma instituição inventar uma cura para a Covid-19 e salvar o mundo, o mundo inteiro dirá "graças a Deus temos os EUA”. Nesse sentido, os EUA ainda podem sair vencedores da batalha da Covid-19 se descobrirem a cura. O sr. afirma que uma das diferenças entre a Guerra Fria e o momento atual é que a China, ao contrário da União Soviética, não está tentando exportar sua ideologia. Mas há em muitos países há a preocupação de que a China está usando seu poder econômico para influenciar processos domésticos. O conceito de uma potência benevolente é um paradoxo. Todas as grandes potência defende seus interesses e à medida em que a China se torna mais poderosa ela irá usar seu poder para defender seus interesses. A China certamente se tornará um desafio para o mundo à medida em que se tornar mais forte. Graham Allison, professor de Harvard que escreveu o livro “Destinado para a guerra”, diz que muitos americanos se perguntam “por que os chineses não se comportam como nós?”. E Allison diz: cuidado com o que você deseja. Quando os EUA emergiram como grande potência no fim do século 19, começo do 20, [o presidente] Teddy Roosevelt declarou guerra à Espanha, conquistou territórios como as Filipinas, os EUA eram muito mais imperialistas que a China hoje. No último ano do governo Obama, os EUA lançaram 26 mil bombas em sete países. Em contraste, a China é o único país que não lutou uma guerra nos últimos 40 anos e não deu um tiro além de suas fronteiras nos últimos 20. A atitude dos chineses é: você não exporta seu sistema para mim e eu não exporto o meu para você. É o oposto da União Soviética. O sr. prevê que o confronto pode forçar países a tomar um lado. Qual será a consequência para um país como o Brasil, que no momento tem uma aliança ideológica com os EUA, e ao mesmo tempo depende da China economicamente? Tanto os EUA como a China agirão como grandes potências, e quando a competição ocorrer eles irão seduzir, intimidar, persuadir pressionar outros países a apoiá-los em sua disputa geopolítica. Mas eu acho que o mundo mudou desde a Guerra Fria e a maioria dos países preferem, primeiro, que não haja essa competição geopolítica agora, porque há coisas mais importantes a fazer, como lidar com o aquecimento global. E segundo, não querem escolher um lado. Ao contrário da primeira Guerra Fria, quando muitos países ficaram satisfeitos em se aliar aos EUA contra a União Soviética, hoje quase nenhum país está dizendo aos EUA "conte comigo, estou com vocês em sua disputa com a China". E mesmo os países da Europa, que obviamente estão mais à vontade ideologicamente com os EUA, ainda mantêm seus laços com a China. A Alemanha, por exemplo, vende mais carros para a China do que para os EUA, por isso quer manter boas relações com ambos. É isso que a maioria dos países dirá a EUA e China. Eu fui diplomata por 33 anos, de 1971 a 2004. E quando eu me tornei embaixador na ONU, em 1984, eu tinha relações muito próximas com meus colegas brasileiros. Na maior parte do tempo o embaixador brasileiro estava muito preocupado com a forma como os americanos estavam interferindo nos assuntos da América Latina. Neste momento, por um acidente da história, vocês têm um presidente no Brasil que é simpático ao presidente Trump. Mas quando houver uma mudança de governo no Brasil as preocupações tradicionais da geopolítica emergirão. O mais sensato e lógico para o Brasil é manter boas relações tanto com os EUA como com a China. No início do ano analistas especulou-se que a crise abalaria o poder do líder chinês, Xi Jinping. Com o controle da epidemia na China essa percepção mudou. Como Xi sairá dessa crise? Vivemos num mundo que ainda é dominado pelo Ocidente. E certamente a mídia internacional é dominada pelo Ocidente, especialmente a anglo-saxã. Você pode contar com a imprensa anglo-saxã para contar histórias negativas sobre a China. No meu livro eu levanto uma questão bastante sensível: na psique ocidental há enterrado por muitos séculos o medo da “ameaça amarela”. A mente ocidental nunca está confortável em um mundo onde uma potência não-ocidental se torna número um. Muitos dos relatos negativos sobre a China não são resultado de análise racional, mas do medo da “ameaça amarela”. Acho que nós que vivemos fora do Ocidente não devemos nos submeter aos preconceitos e emoções ocidentais, temos que analisar a China de forma objetiva. Segundo o Edelman Trust Barometer, com base em Nova York, a China é o país onde há o nível mais alto de confiança no governo. E certamente toda a evidência que vi, embora talvez haja alguns liberais em universidades que não estão confortáveis com ele, a vasta maioria das pessoas na China está muito satisfeita com o governo de Xi Jinping. Porque eles sabem que ao longo da história, quando a China teve um poder central fraco as pessoas sofreram, como ocorreu no "século da humilhação”, de 1842 a 1949. Mas quando tem um poder central forte como sob Xi, as pessoas se beneficiam. De acordo com todas as evidências, Xi Jinping ficou mais popular depois da Covid-19. Qual seria o impacto nas relações com a China de uma vitória do democrata Joe Biden sobre Trump na eleição presidencial de novembro? Certamente se Joe Biden vencer a eleição em novembro o tom e a química da relação entre a China e os EUA mudarão. Biden é uma pessoa decente, não irá insultar a China como o governo Trump tem feito. Mas essa disputa geopolítica está sendo alimentada por diferenças estruturais entre China e EUA, e eu cito três exemplos. Primeiro, a questão é quem terá a maior economia do mundo; segundo, a China é a primeira potência não-ocidental a desafiar o poder americano; e terceiro, os americanos também se sentem desconfortáveis com um país governado por um partido comunista. Portanto há diferenças estruturais entre os dois países. O único momento em que o presidente Trump tem apoio bipartidário é quando ele bate na China, mesmo que algumas de suas posições sejam extremamente irracionais e nada inteligentes. Afinal, a China venceu? Acho que eu não deveria dar a resposta, porque aí as pessoas não comprarão o livro. Todos pensam que a resposta é sim, a China venceu. Mas a resposta no meu livro é não, ou mais corretamente, ainda não. Enquanto os EUA continuam tentando enfrentar o desafio chinês sem uma estratégia abrangente, os líderes chineses sempre pensam no longo termo e estrategicamente. Com sua falta de estratégia, os EUA estão dando à China uma vantagem competitiva. De certa forma o meu livro é um presente aos meus amigos americanos, uma forma de despertá-los para a nova realidade com que estão lidando, um desafio geopolítico muito mais formidável que a União Soviética. Se os EUA foram capazes de delinear uma estratégia consistente, plausível e inteligente para lidar com a União Soviética, também podem fazer o mesmo com a China. Mas eles precisam ouvir os conselhos de Kennan: focar na vitalidade espiritual interna, cultivar amigos e aliados, parar de insultar a China e ser humildes. Você pode imaginar o governo Trump fazendo isso?
Livros do autor:
About A veteran diplomat, student of philosophy, and celebrated author, Kishore Mahbubani is currently a Distinguished Fellow at the National University of Singapore’s Asia Research Institute. Mahbubani is also a former President of the UN Security Council (Jan 2001, May 2002) and the Founding Dean of the Lee Kuan Yew School of Public Policy (2004-2017). Mahbubani writes and speaks prolifically on the rise of Asia, geopolitics and global governance. His eight books and articles in the New York Times, Washington Post, Financial Times and Foreign Affairs have earned him global recognition as “the muse of the Asian century.” He was inducted into the American Academy of Arts and Sciences in October 2019. More information can be found on www.mahbubani.net.A veteran diplomat, student of philosophy, and celebrated author, Kishore Mahbubani is currently a Distinguished Fellow at the National University of Singapore’s Asia Research Institute. Mahbubani is also a former President of the UN Securit… Read more
domingo, 21 de agosto de 2011
Perspectivas das relacoes Brasil-EUA nos proximos 10 anos - Rubens A. Barbosa
As perspectivas das relações Brasil-EUA nos próximos dez anos
Rubens Antônio Barbosa
revista Interesse Nacional (ano 4. n. 14, julho-setembro 2011)
Historicamente, as relações entre o Brasil e os EUA nos últimos 165 anos não foram tão tranquilas como geralmente se supõe. Elas podem ser caracterizadas como um processo marcado por desconfianças e suspeitas recíprocas, na maior parte do tempo. Não cabe fazer aqui um retrospecto da evolução do relacionamento entre os dois países. O presente ensaio examinará as perspectivas dessas relações nos próximos cinco a dez anos, levando em conta as transformações ocorridas nos últimos anos no cenário mundial. Os fundamentos da política externa da maioria dos países estão se modificando pelos efeitos da globalização, pela importância dos países emergentes, entre os quais o Brasil, e pela transferência do eixo político e econômico-comercial do Atlântico para o Pacífico, em especial pela crescente influência da China. A crise econômica global, iniciada nos EUA em 2008, acelerou esse processo de transformação e trouxe uma relativa perda de poder dos EUA. O mundo se tornou multipolar, com diversos centros de poder que contrabalançam a predominância dos EUA e da Europa. Os EUA preservam incontrastável seu poderio militar e estratégico, mas devem compartilhar as decisões nas áreas política, econômica e financeira com países emergentes como a China, a Rússia, a Índia, o Brasil e outros. As incertezas no panorama global aumentaram, não só pela instabilidade no Oriente Médio, pela persistência do conflito entre Palestina e Israel e pelo terrorismo, assim como, mais recentemente, pelos movimentos populares que estão ocorrendo no norte da África e no Oriente Médio. A instabilidade política dessas regiões repercute na volatilidade dos preços do petróleo, cujo aumento pode afetar a recuperação da economia dos países desenvolvidos. A mudança de clima pode vir a afetar a produção de alimentos, agravando ainda mais a disponibilidade e o preço das commodities agrícolas. Os desafios que as relações entre os dois países deverão enfrentar sempre existiram e poderão aumentar, em decorrência das mudanças já mencionadas no cenário internacional e da crescente projeção externa do Brasil. As oportunidades também poderão crescer via transformações econômicas, políticas e sociais pelas quais passam o Brasil e os EUA. Três desafios se colocam para o desenvolvimento das relações Brasil–EUA na próxima década: como conectar os interesses reais dos dois paises; modificação das percepções sobre o Brasil nos EUA e o que o Brasil vai querer das relações com os EUA.
O primeiro desafio será o de conectar os interesses dos dois lados
A análise das relações entre o Brasil e os EUA indica que, com exceção de curtos períodos e por razões específicas, os interesses reais que podem promover uma efetiva aproximação bilateral não estão claramente identificados. Embora os dois países defendam valores convergentes, como democracia e direitos humanos, na prática, em diversas situações, nem sempre eles são respeitados por se chocarem com os interesses de Washington e de Brasília. Nos próximos anos, os entendimentos entre as burocracias governamentais deverão se concentrar em como aproximar os interesses concretos que possam atrair a atenção dos agentes econômicos. No curto prazo, a tarefa de identificar esses interesses é ainda mais árdua pelo fato de o novo governo de Washington estar concentrado fortemente na estabilização e recuperação da economia, nas questões da guerra no Iraque e no Afeganistão, no conflito no Oriente Médio, no terrorismo e na crise dos movimentos populares no norte da África e no Oriente Médio. Como resultado dessa situação, a América Latina não está na tela dos radares dos formuladores de política em Washington, uma vez que não representa qualquer ameaça à segurança nacional dos EUA e porque não oferece grandes oportunidades de negócios para as empresas norte-americanas. Com o fortalecimento das economias na América do Sul, no entanto, a situação dá sinais de se modificar e a região começa a despertar a atenção das empresas e de investidores norte-americanos. Com mais de 55% do PIB da América do Sul, o papel que o Brasil deverá desempenhar será fundamental para o aprofundamento do processo de integração, para o desenvolvimento econômico dos países da região, para a melhora das condições sociais e para o aperfeiçoamento das instituições. O crescimento sustentado trará maiores oportunidades para os parceiros externos. Nos últimos dois anos, os EUA conseguiram crescentes superávits comerciais com o Brasil. Nos próximos cinco anos, mantidas as recentes taxas de crescimento, o Brasil ultrapassará a Itália, a França e a Inglaterra e se projetará como a quinta economia mundial em termos de PIB, o que fará com que os interesses brasileiros se diversifiquem e sejam vistos como de maior relevância pelos parceiros externos. A crescente presença da China no continente sul-americano, por outro lado, poderá representar um fator de convergência de interesses entre o Brasil e os EUA. Numa perspectiva de médio e longo prazo, os dois países terão interesses comuns para assegurar o suprimento interno de recursos minerais estratégicos, alimentos e petróleo, cada vez mais atraentes para a economia chinesa. As transformações ocorridas na América do Sul, nos últimos dez anos, em consequência da emergência dos movimentos sociais, e o aumento da insegurança jurídica pelo não cumprimento dos contratos e dos acordos em vigência, reforçaram a percepção do Brasil como importante fator moderador e de equilíbrio político e social para a estabilidade dos paises sul-americanos. Do lado do governo brasileiro, a administração Dilma Rousseff, nos seus primeiros meses, já deu alguns sinais de correção de rumos na política externa. Não deverá haver modificação no discurso sobre sua visão do mundo, nem sobre a prioridade aos países em desenvolvimento (Sul–Sul). A prioridade atribuída ao relacionamento com a América do Sul continuará sendo apresentada como uma política de Estado. Certas qualificações, contudo, diferente dos oito anos anteriores, podem ser notadas na questão dos direitos humanos, nas relações com o Irã e no tratamento dispensado aos EUA. Tudo indica que a política externa será mais pragmática, abandonando-se gradualmente os preconceitos ideológicos que guiaram a política do governo anterior. Caso isso venha de fato a ocorrer, a identificação de reais perspectivas de cooperação em áreas de interesse do Brasil e dos EUA vai se apresentar como uma prioridade.
O segundo desafio diz respeito à gradual mudança da percepção que os EUA têm até aqui sobre o Brasil
O Brasil permanece, em larga medida, desconhecido dos norte-americanos em geral e dos centros de decisão de Washington. Com exceção dos que se ocupam diretamente dos assuntos regionais, há elevado grau de desinformação sobre a realidade, os objetivos e a importância do Brasil para os interesses dos EUA. A correção dessa deficiência é o primeiro requisito para a elevação do relacionamento bilateral a um patamar compatível com a relevância política e econômica de ambos os países. A questão que surge, do lado dos EUA, é como administrar as relações com o Brasil em ascensão e com crescente projeção externa fora das Américas. As premissas que balizaram o relacionamento bilateral estão sendo rapidamente superadas e devem se transformar significativamente. O Brasil é visto em Washington como uma força moderadora e de estabilidade numa região que atravessa um período de mudança com a emergência da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), crítica dos EUA. Apesar disso, os EUA terão de conviver com agendas diferentes e mesmo conflitivas, como ocorre hoje na América Latina, onde as políticas dos dois países não coincidem em relação a Cuba, Venezuela, Colômbia, Honduras e no tocante às novas instituições políticas, como a União de Nações Sul-americanas (Unasul), o Conselho de Defesa Sul-americano e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), que excluíram os EUA. Com uma política econômica de sólidos fundamentos até aqui, podendo projetar um razoável e sustentável crescimento econômico para os próximos anos, o Brasil saiu mais forte da crise. Com o respaldo de uma economia estabilizada e uma ação externa mais ativa, o país vem se afirmando internacionalmente e aumentando sua presença internacional. Reconhecido como uma potência regional e um país com peso econômico global e com importante papel em alguns dos principais temas da agenda internacional, como mudança de clima, meio ambiente, energia (renovável e petróleo), direitos humanos e reforma dos organismos internacionais, a percepção sobre o Brasil deverá modificar-se gradualmente. Os pontos focais da relação dos EUA com o Brasil continuarão a ser comércio e investimentos, segundo os interesses tradicionais dos dois países, com crescentes convergências de interesses na região (estabilidade econômica e social, democracia e segurança regional). Por todas essas razões, será de interesse de Washington atribuir um tratamento diferenciado ao Brasil no contexto latino-americano. Essa diferenciação poderá levar, no médio prazo, a uma nova atitude, mais realista e menos estereotipada. É possível antecipar que o descolamento do Brasil do resto da América Latina deverá acarretar a inclusão de nosso país em novas parcerias empresariais globais com os EUA e com outros países dentro e fora da região.
O terceiro desafio é definir o que o Brasil quer de suas relações com os EUA
O novo papel que o Brasil começa a desempenhar no cenário internacional fará com que venha a se encontrar com os EUA mais seguidamente fora do ambiente regional com posições que, mais do que separá-los, deverão aproximar os dois países. Não acredito em rótulos batidos, como relações especiais ou alianças estratégicas, para definir o que vai ocorrer no futuro. A crescente afirmação do Brasil no mundo vai gradualmente tornar mais claro como melhor atender e defender o interesse nacional, a exemplo do que ocorre com os EUA. Isso fará com que sejam abandonadas grandes ideias e projetos políticos (como a Alca e o último deles: Pathways for Growth in the Americas) para que os esforços dos dois governos sejam concentrados em interesses reais comuns. Do ponto de vista da política externa brasileira, o grande desafio do momento é o de identificar e definir o nosso interesse no contexto da globalização e da crise internacional. O Brasil terá de assumir suas responsabilidades ao mesmo tempo como potência econômica emergente e como potência regional. Isso não quer dizer que o Brasil deva adotar uma atitude de acomodação passiva ou reativa às transformações em curso, mas, sim, a de antecipar-se a elas, tendo sempre presente o interesse nacional. Nesse contexto, o Brasil terá necessariamente de redefinir suas relações tanto com os EUA quanto com a China, nosso principal parceiro comercial e potência com crescentes investimentos e interesse no país. É sintomático que a China tenha sido o primeiro país visitado pela presidente Dilma Rousseff fora da América do Sul. A definição pelo Brasil de uma política de médio e longo prazo com os EUA deverá ocorrer pelos crescentes interesses econômicos e comerciais e também porque a projeção externa e a diversificação de interesses mútuos em outras regiões como a África, o Oriente Médio e a Ásia farão aumentar as possibilidades de diferenças e de colaboração. O eventual fornecimento de petróleo do pré-sal aos EUA, nos próximos cinco a dez anos, poderá ter profundo impacto estratégico, político e comercial nas relações entre os dois países. A identificação de interesses concretos, pelo governo e pelo setor privado, tornará o Brasil mais relevante para a política externa dos EUA. Defesa do interesse nacional e respeito mútuo deverão balizar nossa parceria em novas bases de modo que o potencial a ser explorado possa ser adequadamente identificado. Washington não deve ver no Brasil, contudo, um aliado pronto a alinhar-se automaticamente nos tópicos de seu interesse. Nem o Brasil deverá perseverar no equívoco dos últimos anos de colocar-se como uma opção aos EUA, buscando a lealdade dos vizinhos em detrimento do apoio que esses países oferecem aos EUA. Os instrumentos para dar corpo a essa parceria em novas bases já estão criados pelos dois países e foram agora ampliados. Desde 2003, houve a decisão de institucionalizar uma cooperação mais desenvolvida e sofisticada. Durante a visita do presidente Lula a Washington foi criado um conjunto de mecanismos (encontros presidenciais com seus ministros, grupos de trabalho em grande número de áreas, cooperação hemisférica e em temas globais de interesse mútuo) que poderão ser ativados e ampliados, de acordo com o que foi anunciado durante a visita do presidente Obama ao Brasil, com a criação de grupo na área da defesa e dos diálogos estratégicos na área econômica e política. No âmbito do setor privado, foi criado o Fórum de Presidentes de empresas para a discussão de uma agenda positiva a ser recomendada aos dois governos. E a negociação de acordos de bitributação e de investimentos está com alta prioridade nessa agenda.
As oportunidades aparecerão
Uma vez reconhecidos os desafios existentes e, de alguma forma, examinadas e encaminhadas respostas para superá-los, as oportunidades não só aparecerão como poderão ser melhor aproveitadas. Na área da política externa, os encontros do Brasil com os EUA em outros continentes, fora da América do Sul, vão permitir, na maioria dos casos, maior cooperação em países em que o Brasil disponha de vantagens comparativas, como na África, onde é possível prever um aumento da cooperação triangular em setores como educação, saúde e governança. Nos organismos internacionais, embora nem sempre os interesses sejam convergentes, é possível prever maior cooperação nas questões de paz e segurança, de meio ambiente e mudança de clima, de energia, no G-20 e nas questões de assistência e cooperação técnica. Caso o cenário de cooperação bilateral se concretize, e o Brasil assuma as responsabilidades derivadas de sua projeção externa, certamente deverão diminuir as reservas contra a admissão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, quando a comunidade internacional, liderada pelos EUA, decidir reformar o órgão mais importante das Nações Unidas. Se isso vier a ocorrer, estará afastada uma das questões políticas mais difíceis no relacionamento bilateral. É interessante notar que as principais prioridades do governo americano, anunciadas no State of the Union Address, em janeiro de 2011, no tocante a inovação, educação e infraestrutura, são as mesmas do Brasil, o que propicia que projetos concretos sejam desenvolvidos entre empresas dos dois países. A decisão de Washington no sentido de revolucionar a matriz energética interna para, em 2035, concentrar 85% do consumo doméstico em energia renovável e diversificar as fontes de suprimento de combustível fóssil abrirá amplas possibilidades para o Brasil se tornar um fornecedor no longo prazo de etanol e de petróleo para a economia norte-americana. O mesmo pode ocorrer com as enormes reservas de gás natural encontradas off shore nas camadas de pré-sal. Atraídas pelo crescente mercado brasileiro, empresas norte-americanas poderão associar-se a companhias brasileiras em áreas de ponta, onde a inovação e a transferência de tecnologia poderão tornar os produtos brasileiros mais competitivos (tecnologia da informação, telecomunicações, biotecnologia, nanotecnologia). Na área de energia (biomassa, gás e petróleo (pré-sal), usinas hidrelétricas), haverá imensas oportunidades de investimento para as empresas norte-americanas no Brasil e de brasileiras nos EUA. A realização no Brasil da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos abre oportunidades na área de infraestrutura, segurança e transportes. No comércio exterior, o potencial de ampliação das exportações dos EUA deverá aumentar, como evidenciado nos últimos dois anos, quando a balança bilateral mostrou crescentes saldos positivos para os EUA. Corrigidas as distorções domésticas que geram a perda da competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, os manufaturados e os bens de capital poderão voltar a ter, nos EUA, um mercado significativo. As diferenças relacionadas com as restrições protecionistas em ambos os países, como vem ocorrendo no mercado dos EUA em relação ao algodão, suco de laranja, etanol, aço e camarão, deverão continuar e mesmo aumentar, mas serão sempre canalizadas para a Organização Mundial do Comércio (OMC), fórum apropriado para tratar das controvérsias e da defesa comercial. Com as decisões contrárias da OMC, no caso dos três primeiros contenciosos, e com as transformações no cenário internacional, no médio e longo prazo, é possível prever a liberalização no comércio desses produtos para atender aos interesses dos consumidores domésticos nos EUA e a eliminação de irritantes nas relações bilaterais.
Áreas de convergência
O utros setores poderão representar importantes áreas de convergência e de cooperação no médio e longo prazo: meio ambiente, minerais estratégicos (terras raras, urânio) e pesquisa e exploração de minérios no fundo do mar, espaço, não proliferação, usinas nucleares e defesa. No tocante ao meio ambiente e à mudança de clima, o Brasil vai sediar em maio/junho de 2012 a Rio+20, evento de grande significação para o avanço de propostas que limitem as emissões de gás carbono de efeito estufa que agravam os impactos da mudança de clima. Depois de vinte anos da primeira reunião do Rio, as metas de redução de emissões ainda não foram cumpridas. Há poucos meses, chegou-se a uma declaração que reconhece a necessidade de ampliar as áreas de proteção e a soberania de cada país sobre as espécies da biodiversidade em seu território, bem como a necessidade de compartilhar resultados em caso de exploração – mas ainda faltam regras práticas para esse compartilhamento. O desmatamento no mundo caiu para cerca de sete milhões de hectares anuais, mas ainda continua alto. Brasil e eua poderão, sem preconceitos, estabelecer uma ampla colaboração para obter avanços concretos nessas áreas durante a cúpula Rio +20, em 2012. Nas outras áreas mencionadas (minérios estratégicos, espaço, não proliferação), nos últimos dez anos, o Brasil passou a ter uma política não defensiva, abrindo amplas possibilidades para a colaboração com os eua em organismos internacionais, e para a ampliação de negócios entre as empresas dos dois países. Seguindo o exemplo do que estão fazendo outros países, como a Índia e a China, o Brasil estará aberto a apoiar projetos nessas áreas com duas condicionalidades: transferência de tecnologia e parceria entre empresas dos dois países para produção local. Essa política deverá ser aplicada para eventuais investimentos e parcerias na exploração de terras raras e urânio, prospecção no fundo do mar e defesa. No tocante a oportunidades de negócios nas áreas de espaço, política nuclear, construção de usinas nucleares e não proliferação, a cooperação poderia ser ampliada seguindo o modelo desenvolvido pelos eua com a Índia. A reconstrução da base de Alcântara, para viabilizar lançamentos, a preços competitivos, de satélites comerciais, de interesse de empresas norte-americanas, poderia estimular a cooperação com indústrias dos eua, depois de superadas as dificuldades para a assinatura de um acordo de salvaguarda tecnológica entre os dois países. A visita do presidente Obama ao Brasil em março passado, embora em contexto de incertezas e instabilidades globais, pode ser considerada como um marco nas relações Brasil–eua pelas perspectivas que prometeu abrir no médio e longo prazo. Os governos de Brasília e de Washington, depois de um período de tensões que durou a maior parte do governo Lula, gerado por motivações ideológicas antiamericanas e por desencontros na política externa e comercial, decidiram inaugurar uma nova etapa nas parcerias bilaterais, deixando aparentemente para trás as dificuldades dos últimos anos.
Parceria global
O comunicado conjunto, firmado pelos dois mandatários e divulgado ao final da visita, apresenta um roteiro para uma nova parceria global e bilateral. E não, como foi reconhecido de maneira pragmática, a reafirmação de uma aliança estratégica, que inexiste e pressupõe uma lenta construção entre iguais. Cabe ressaltar que durante a visita do mandatário norte-americano os presidentes tomaram a decisão de elevar a nível presidencial o diálogo em algumas áreas prioritárias, como parceria global, econômico-financeira e energética. Dez acordos foram assinados com a intenção de explorar novas possibilidades de cooperação nas áreas de comércio, educação, inovação, infraestrutura, transporte aéreo, espacial, grandes eventos esportivos, biocombustível para aviação, cooperação em terceiros países, sobretudo da África. Desses acordos, quatro merecem ser ressaltados: o Acordo-Quadro Bilateral para a Cooperação dos usos pacíficos do Espaço Exterior e o anúncio do início de negociações para um acordo para proteger tecnologia de operação de lançamento; o Trade and Economic Cooperation Agreement – Acordo de Cooperação Econômica e Comercial (Teca), cujo objetivo principal é facilitar o acesso de produtos dos EUA e do Brasil aos mercados dos dois países, cria mecanismos para examinar dificuldades nas questões comerciais e de investimento, avaliar barreiras fitossanitárias, simplificar processos alfandegários e para a harmonização de normas técnicas; o acordo de cooperação em terceiros países nas áreas de educação, segurança alimentar, agricultura, nutrição, saúde e fortalecimento institucional; o acordo para produção de biocombustível para a aviação. O desafio de conectar os reais interesses dos dois países, aludido anteriormente, começou a ser respondido. O governo norte-americano está interessado em tornar-se um cliente importante do petróleo produzido no pré-sal, e o governo brasileiro poderá levar adiante o seu programa espacial, reconstruindo a Base de Alcântara, com a colaboração de empresas dos EUA. Grandes projetos de infraestrutura deverão atrair investimentos e empresas norte-americanas e poderão ajudar o Brasil a cumprir os prazos rígidos para as obras da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O Pentágono, o maior comprador de querosene de aviação do mundo, busca segurança energética com a produção de biocombustível de aviação, o que poderá abrir grandes oportunidades para o setor privado dos dois países. Nos encontros Dilma–Obama foram lançadas as bases em que as relações deverão evoluir nos próximos anos, abrindo a possibilidade de avanços concretos que venham a beneficiar os governos e o setor privado dos dois países, aproveitando as grandes transformações que ocorrem no mundo. No melhor interesse dos dois países, foram mencionadas parcerias em áreas que, se de fato vierem a ocorrer, poderão propiciar uma mudança na qualidade do relacionamento bilateral, com ganhos concretos para ambos os lados. Segundo estudos do National Intelligence Council, de Washington, em 2025, o Brasil será uma potência econômica global, na qualidade de uma das cinco maiores economias em termos de PIB. O Brasil é visto como um Estado-modelo, por sua democracia vibrante, economia diversificada e instituições econômicas sólidas. O sucesso ou o fracasso do Brasil em conciliar medidas a favor do crescimento econômico, com uma ambiciosa agenda social que reduza a pobreza e a desigualdade de renda, terá um profundo impacto no desempenho econômico e na governança da América do Sul nos próximos quinze anos. Nesse cenário, a posição do Brasil na região tenderá a tornar-se cada vez mais ativa e importante. A emergência do Brasil como potência econômica global até 2025 colocará novos desafios para sua política externa e para a política comercial externa do Brasil e dos EUA, contribuindo para a construção de uma profícua parceria. Cabe aos formuladores das decisões nos dois países identificar interesses concretos adicionais para expandir e diversificar ainda mais as relações bilaterais em um mundo que promete ser cada vez mais complexo e diferente daquele em que vivemos hoje.
RUBENS BARBOSA foi embaixador em Washington (1999-2004).
Rubens Antônio Barbosa
revista Interesse Nacional (ano 4. n. 14, julho-setembro 2011)
Historicamente, as relações entre o Brasil e os EUA nos últimos 165 anos não foram tão tranquilas como geralmente se supõe. Elas podem ser caracterizadas como um processo marcado por desconfianças e suspeitas recíprocas, na maior parte do tempo. Não cabe fazer aqui um retrospecto da evolução do relacionamento entre os dois países. O presente ensaio examinará as perspectivas dessas relações nos próximos cinco a dez anos, levando em conta as transformações ocorridas nos últimos anos no cenário mundial. Os fundamentos da política externa da maioria dos países estão se modificando pelos efeitos da globalização, pela importância dos países emergentes, entre os quais o Brasil, e pela transferência do eixo político e econômico-comercial do Atlântico para o Pacífico, em especial pela crescente influência da China. A crise econômica global, iniciada nos EUA em 2008, acelerou esse processo de transformação e trouxe uma relativa perda de poder dos EUA. O mundo se tornou multipolar, com diversos centros de poder que contrabalançam a predominância dos EUA e da Europa. Os EUA preservam incontrastável seu poderio militar e estratégico, mas devem compartilhar as decisões nas áreas política, econômica e financeira com países emergentes como a China, a Rússia, a Índia, o Brasil e outros. As incertezas no panorama global aumentaram, não só pela instabilidade no Oriente Médio, pela persistência do conflito entre Palestina e Israel e pelo terrorismo, assim como, mais recentemente, pelos movimentos populares que estão ocorrendo no norte da África e no Oriente Médio. A instabilidade política dessas regiões repercute na volatilidade dos preços do petróleo, cujo aumento pode afetar a recuperação da economia dos países desenvolvidos. A mudança de clima pode vir a afetar a produção de alimentos, agravando ainda mais a disponibilidade e o preço das commodities agrícolas. Os desafios que as relações entre os dois países deverão enfrentar sempre existiram e poderão aumentar, em decorrência das mudanças já mencionadas no cenário internacional e da crescente projeção externa do Brasil. As oportunidades também poderão crescer via transformações econômicas, políticas e sociais pelas quais passam o Brasil e os EUA. Três desafios se colocam para o desenvolvimento das relações Brasil–EUA na próxima década: como conectar os interesses reais dos dois paises; modificação das percepções sobre o Brasil nos EUA e o que o Brasil vai querer das relações com os EUA.
O primeiro desafio será o de conectar os interesses dos dois lados
A análise das relações entre o Brasil e os EUA indica que, com exceção de curtos períodos e por razões específicas, os interesses reais que podem promover uma efetiva aproximação bilateral não estão claramente identificados. Embora os dois países defendam valores convergentes, como democracia e direitos humanos, na prática, em diversas situações, nem sempre eles são respeitados por se chocarem com os interesses de Washington e de Brasília. Nos próximos anos, os entendimentos entre as burocracias governamentais deverão se concentrar em como aproximar os interesses concretos que possam atrair a atenção dos agentes econômicos. No curto prazo, a tarefa de identificar esses interesses é ainda mais árdua pelo fato de o novo governo de Washington estar concentrado fortemente na estabilização e recuperação da economia, nas questões da guerra no Iraque e no Afeganistão, no conflito no Oriente Médio, no terrorismo e na crise dos movimentos populares no norte da África e no Oriente Médio. Como resultado dessa situação, a América Latina não está na tela dos radares dos formuladores de política em Washington, uma vez que não representa qualquer ameaça à segurança nacional dos EUA e porque não oferece grandes oportunidades de negócios para as empresas norte-americanas. Com o fortalecimento das economias na América do Sul, no entanto, a situação dá sinais de se modificar e a região começa a despertar a atenção das empresas e de investidores norte-americanos. Com mais de 55% do PIB da América do Sul, o papel que o Brasil deverá desempenhar será fundamental para o aprofundamento do processo de integração, para o desenvolvimento econômico dos países da região, para a melhora das condições sociais e para o aperfeiçoamento das instituições. O crescimento sustentado trará maiores oportunidades para os parceiros externos. Nos últimos dois anos, os EUA conseguiram crescentes superávits comerciais com o Brasil. Nos próximos cinco anos, mantidas as recentes taxas de crescimento, o Brasil ultrapassará a Itália, a França e a Inglaterra e se projetará como a quinta economia mundial em termos de PIB, o que fará com que os interesses brasileiros se diversifiquem e sejam vistos como de maior relevância pelos parceiros externos. A crescente presença da China no continente sul-americano, por outro lado, poderá representar um fator de convergência de interesses entre o Brasil e os EUA. Numa perspectiva de médio e longo prazo, os dois países terão interesses comuns para assegurar o suprimento interno de recursos minerais estratégicos, alimentos e petróleo, cada vez mais atraentes para a economia chinesa. As transformações ocorridas na América do Sul, nos últimos dez anos, em consequência da emergência dos movimentos sociais, e o aumento da insegurança jurídica pelo não cumprimento dos contratos e dos acordos em vigência, reforçaram a percepção do Brasil como importante fator moderador e de equilíbrio político e social para a estabilidade dos paises sul-americanos. Do lado do governo brasileiro, a administração Dilma Rousseff, nos seus primeiros meses, já deu alguns sinais de correção de rumos na política externa. Não deverá haver modificação no discurso sobre sua visão do mundo, nem sobre a prioridade aos países em desenvolvimento (Sul–Sul). A prioridade atribuída ao relacionamento com a América do Sul continuará sendo apresentada como uma política de Estado. Certas qualificações, contudo, diferente dos oito anos anteriores, podem ser notadas na questão dos direitos humanos, nas relações com o Irã e no tratamento dispensado aos EUA. Tudo indica que a política externa será mais pragmática, abandonando-se gradualmente os preconceitos ideológicos que guiaram a política do governo anterior. Caso isso venha de fato a ocorrer, a identificação de reais perspectivas de cooperação em áreas de interesse do Brasil e dos EUA vai se apresentar como uma prioridade.
O segundo desafio diz respeito à gradual mudança da percepção que os EUA têm até aqui sobre o Brasil
O Brasil permanece, em larga medida, desconhecido dos norte-americanos em geral e dos centros de decisão de Washington. Com exceção dos que se ocupam diretamente dos assuntos regionais, há elevado grau de desinformação sobre a realidade, os objetivos e a importância do Brasil para os interesses dos EUA. A correção dessa deficiência é o primeiro requisito para a elevação do relacionamento bilateral a um patamar compatível com a relevância política e econômica de ambos os países. A questão que surge, do lado dos EUA, é como administrar as relações com o Brasil em ascensão e com crescente projeção externa fora das Américas. As premissas que balizaram o relacionamento bilateral estão sendo rapidamente superadas e devem se transformar significativamente. O Brasil é visto em Washington como uma força moderadora e de estabilidade numa região que atravessa um período de mudança com a emergência da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), crítica dos EUA. Apesar disso, os EUA terão de conviver com agendas diferentes e mesmo conflitivas, como ocorre hoje na América Latina, onde as políticas dos dois países não coincidem em relação a Cuba, Venezuela, Colômbia, Honduras e no tocante às novas instituições políticas, como a União de Nações Sul-americanas (Unasul), o Conselho de Defesa Sul-americano e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), que excluíram os EUA. Com uma política econômica de sólidos fundamentos até aqui, podendo projetar um razoável e sustentável crescimento econômico para os próximos anos, o Brasil saiu mais forte da crise. Com o respaldo de uma economia estabilizada e uma ação externa mais ativa, o país vem se afirmando internacionalmente e aumentando sua presença internacional. Reconhecido como uma potência regional e um país com peso econômico global e com importante papel em alguns dos principais temas da agenda internacional, como mudança de clima, meio ambiente, energia (renovável e petróleo), direitos humanos e reforma dos organismos internacionais, a percepção sobre o Brasil deverá modificar-se gradualmente. Os pontos focais da relação dos EUA com o Brasil continuarão a ser comércio e investimentos, segundo os interesses tradicionais dos dois países, com crescentes convergências de interesses na região (estabilidade econômica e social, democracia e segurança regional). Por todas essas razões, será de interesse de Washington atribuir um tratamento diferenciado ao Brasil no contexto latino-americano. Essa diferenciação poderá levar, no médio prazo, a uma nova atitude, mais realista e menos estereotipada. É possível antecipar que o descolamento do Brasil do resto da América Latina deverá acarretar a inclusão de nosso país em novas parcerias empresariais globais com os EUA e com outros países dentro e fora da região.
O terceiro desafio é definir o que o Brasil quer de suas relações com os EUA
O novo papel que o Brasil começa a desempenhar no cenário internacional fará com que venha a se encontrar com os EUA mais seguidamente fora do ambiente regional com posições que, mais do que separá-los, deverão aproximar os dois países. Não acredito em rótulos batidos, como relações especiais ou alianças estratégicas, para definir o que vai ocorrer no futuro. A crescente afirmação do Brasil no mundo vai gradualmente tornar mais claro como melhor atender e defender o interesse nacional, a exemplo do que ocorre com os EUA. Isso fará com que sejam abandonadas grandes ideias e projetos políticos (como a Alca e o último deles: Pathways for Growth in the Americas) para que os esforços dos dois governos sejam concentrados em interesses reais comuns. Do ponto de vista da política externa brasileira, o grande desafio do momento é o de identificar e definir o nosso interesse no contexto da globalização e da crise internacional. O Brasil terá de assumir suas responsabilidades ao mesmo tempo como potência econômica emergente e como potência regional. Isso não quer dizer que o Brasil deva adotar uma atitude de acomodação passiva ou reativa às transformações em curso, mas, sim, a de antecipar-se a elas, tendo sempre presente o interesse nacional. Nesse contexto, o Brasil terá necessariamente de redefinir suas relações tanto com os EUA quanto com a China, nosso principal parceiro comercial e potência com crescentes investimentos e interesse no país. É sintomático que a China tenha sido o primeiro país visitado pela presidente Dilma Rousseff fora da América do Sul. A definição pelo Brasil de uma política de médio e longo prazo com os EUA deverá ocorrer pelos crescentes interesses econômicos e comerciais e também porque a projeção externa e a diversificação de interesses mútuos em outras regiões como a África, o Oriente Médio e a Ásia farão aumentar as possibilidades de diferenças e de colaboração. O eventual fornecimento de petróleo do pré-sal aos EUA, nos próximos cinco a dez anos, poderá ter profundo impacto estratégico, político e comercial nas relações entre os dois países. A identificação de interesses concretos, pelo governo e pelo setor privado, tornará o Brasil mais relevante para a política externa dos EUA. Defesa do interesse nacional e respeito mútuo deverão balizar nossa parceria em novas bases de modo que o potencial a ser explorado possa ser adequadamente identificado. Washington não deve ver no Brasil, contudo, um aliado pronto a alinhar-se automaticamente nos tópicos de seu interesse. Nem o Brasil deverá perseverar no equívoco dos últimos anos de colocar-se como uma opção aos EUA, buscando a lealdade dos vizinhos em detrimento do apoio que esses países oferecem aos EUA. Os instrumentos para dar corpo a essa parceria em novas bases já estão criados pelos dois países e foram agora ampliados. Desde 2003, houve a decisão de institucionalizar uma cooperação mais desenvolvida e sofisticada. Durante a visita do presidente Lula a Washington foi criado um conjunto de mecanismos (encontros presidenciais com seus ministros, grupos de trabalho em grande número de áreas, cooperação hemisférica e em temas globais de interesse mútuo) que poderão ser ativados e ampliados, de acordo com o que foi anunciado durante a visita do presidente Obama ao Brasil, com a criação de grupo na área da defesa e dos diálogos estratégicos na área econômica e política. No âmbito do setor privado, foi criado o Fórum de Presidentes de empresas para a discussão de uma agenda positiva a ser recomendada aos dois governos. E a negociação de acordos de bitributação e de investimentos está com alta prioridade nessa agenda.
As oportunidades aparecerão
Uma vez reconhecidos os desafios existentes e, de alguma forma, examinadas e encaminhadas respostas para superá-los, as oportunidades não só aparecerão como poderão ser melhor aproveitadas. Na área da política externa, os encontros do Brasil com os EUA em outros continentes, fora da América do Sul, vão permitir, na maioria dos casos, maior cooperação em países em que o Brasil disponha de vantagens comparativas, como na África, onde é possível prever um aumento da cooperação triangular em setores como educação, saúde e governança. Nos organismos internacionais, embora nem sempre os interesses sejam convergentes, é possível prever maior cooperação nas questões de paz e segurança, de meio ambiente e mudança de clima, de energia, no G-20 e nas questões de assistência e cooperação técnica. Caso o cenário de cooperação bilateral se concretize, e o Brasil assuma as responsabilidades derivadas de sua projeção externa, certamente deverão diminuir as reservas contra a admissão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, quando a comunidade internacional, liderada pelos EUA, decidir reformar o órgão mais importante das Nações Unidas. Se isso vier a ocorrer, estará afastada uma das questões políticas mais difíceis no relacionamento bilateral. É interessante notar que as principais prioridades do governo americano, anunciadas no State of the Union Address, em janeiro de 2011, no tocante a inovação, educação e infraestrutura, são as mesmas do Brasil, o que propicia que projetos concretos sejam desenvolvidos entre empresas dos dois países. A decisão de Washington no sentido de revolucionar a matriz energética interna para, em 2035, concentrar 85% do consumo doméstico em energia renovável e diversificar as fontes de suprimento de combustível fóssil abrirá amplas possibilidades para o Brasil se tornar um fornecedor no longo prazo de etanol e de petróleo para a economia norte-americana. O mesmo pode ocorrer com as enormes reservas de gás natural encontradas off shore nas camadas de pré-sal. Atraídas pelo crescente mercado brasileiro, empresas norte-americanas poderão associar-se a companhias brasileiras em áreas de ponta, onde a inovação e a transferência de tecnologia poderão tornar os produtos brasileiros mais competitivos (tecnologia da informação, telecomunicações, biotecnologia, nanotecnologia). Na área de energia (biomassa, gás e petróleo (pré-sal), usinas hidrelétricas), haverá imensas oportunidades de investimento para as empresas norte-americanas no Brasil e de brasileiras nos EUA. A realização no Brasil da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos abre oportunidades na área de infraestrutura, segurança e transportes. No comércio exterior, o potencial de ampliação das exportações dos EUA deverá aumentar, como evidenciado nos últimos dois anos, quando a balança bilateral mostrou crescentes saldos positivos para os EUA. Corrigidas as distorções domésticas que geram a perda da competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, os manufaturados e os bens de capital poderão voltar a ter, nos EUA, um mercado significativo. As diferenças relacionadas com as restrições protecionistas em ambos os países, como vem ocorrendo no mercado dos EUA em relação ao algodão, suco de laranja, etanol, aço e camarão, deverão continuar e mesmo aumentar, mas serão sempre canalizadas para a Organização Mundial do Comércio (OMC), fórum apropriado para tratar das controvérsias e da defesa comercial. Com as decisões contrárias da OMC, no caso dos três primeiros contenciosos, e com as transformações no cenário internacional, no médio e longo prazo, é possível prever a liberalização no comércio desses produtos para atender aos interesses dos consumidores domésticos nos EUA e a eliminação de irritantes nas relações bilaterais.
Áreas de convergência
O utros setores poderão representar importantes áreas de convergência e de cooperação no médio e longo prazo: meio ambiente, minerais estratégicos (terras raras, urânio) e pesquisa e exploração de minérios no fundo do mar, espaço, não proliferação, usinas nucleares e defesa. No tocante ao meio ambiente e à mudança de clima, o Brasil vai sediar em maio/junho de 2012 a Rio+20, evento de grande significação para o avanço de propostas que limitem as emissões de gás carbono de efeito estufa que agravam os impactos da mudança de clima. Depois de vinte anos da primeira reunião do Rio, as metas de redução de emissões ainda não foram cumpridas. Há poucos meses, chegou-se a uma declaração que reconhece a necessidade de ampliar as áreas de proteção e a soberania de cada país sobre as espécies da biodiversidade em seu território, bem como a necessidade de compartilhar resultados em caso de exploração – mas ainda faltam regras práticas para esse compartilhamento. O desmatamento no mundo caiu para cerca de sete milhões de hectares anuais, mas ainda continua alto. Brasil e eua poderão, sem preconceitos, estabelecer uma ampla colaboração para obter avanços concretos nessas áreas durante a cúpula Rio +20, em 2012. Nas outras áreas mencionadas (minérios estratégicos, espaço, não proliferação), nos últimos dez anos, o Brasil passou a ter uma política não defensiva, abrindo amplas possibilidades para a colaboração com os eua em organismos internacionais, e para a ampliação de negócios entre as empresas dos dois países. Seguindo o exemplo do que estão fazendo outros países, como a Índia e a China, o Brasil estará aberto a apoiar projetos nessas áreas com duas condicionalidades: transferência de tecnologia e parceria entre empresas dos dois países para produção local. Essa política deverá ser aplicada para eventuais investimentos e parcerias na exploração de terras raras e urânio, prospecção no fundo do mar e defesa. No tocante a oportunidades de negócios nas áreas de espaço, política nuclear, construção de usinas nucleares e não proliferação, a cooperação poderia ser ampliada seguindo o modelo desenvolvido pelos eua com a Índia. A reconstrução da base de Alcântara, para viabilizar lançamentos, a preços competitivos, de satélites comerciais, de interesse de empresas norte-americanas, poderia estimular a cooperação com indústrias dos eua, depois de superadas as dificuldades para a assinatura de um acordo de salvaguarda tecnológica entre os dois países. A visita do presidente Obama ao Brasil em março passado, embora em contexto de incertezas e instabilidades globais, pode ser considerada como um marco nas relações Brasil–eua pelas perspectivas que prometeu abrir no médio e longo prazo. Os governos de Brasília e de Washington, depois de um período de tensões que durou a maior parte do governo Lula, gerado por motivações ideológicas antiamericanas e por desencontros na política externa e comercial, decidiram inaugurar uma nova etapa nas parcerias bilaterais, deixando aparentemente para trás as dificuldades dos últimos anos.
Parceria global
O comunicado conjunto, firmado pelos dois mandatários e divulgado ao final da visita, apresenta um roteiro para uma nova parceria global e bilateral. E não, como foi reconhecido de maneira pragmática, a reafirmação de uma aliança estratégica, que inexiste e pressupõe uma lenta construção entre iguais. Cabe ressaltar que durante a visita do mandatário norte-americano os presidentes tomaram a decisão de elevar a nível presidencial o diálogo em algumas áreas prioritárias, como parceria global, econômico-financeira e energética. Dez acordos foram assinados com a intenção de explorar novas possibilidades de cooperação nas áreas de comércio, educação, inovação, infraestrutura, transporte aéreo, espacial, grandes eventos esportivos, biocombustível para aviação, cooperação em terceiros países, sobretudo da África. Desses acordos, quatro merecem ser ressaltados: o Acordo-Quadro Bilateral para a Cooperação dos usos pacíficos do Espaço Exterior e o anúncio do início de negociações para um acordo para proteger tecnologia de operação de lançamento; o Trade and Economic Cooperation Agreement – Acordo de Cooperação Econômica e Comercial (Teca), cujo objetivo principal é facilitar o acesso de produtos dos EUA e do Brasil aos mercados dos dois países, cria mecanismos para examinar dificuldades nas questões comerciais e de investimento, avaliar barreiras fitossanitárias, simplificar processos alfandegários e para a harmonização de normas técnicas; o acordo de cooperação em terceiros países nas áreas de educação, segurança alimentar, agricultura, nutrição, saúde e fortalecimento institucional; o acordo para produção de biocombustível para a aviação. O desafio de conectar os reais interesses dos dois países, aludido anteriormente, começou a ser respondido. O governo norte-americano está interessado em tornar-se um cliente importante do petróleo produzido no pré-sal, e o governo brasileiro poderá levar adiante o seu programa espacial, reconstruindo a Base de Alcântara, com a colaboração de empresas dos EUA. Grandes projetos de infraestrutura deverão atrair investimentos e empresas norte-americanas e poderão ajudar o Brasil a cumprir os prazos rígidos para as obras da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O Pentágono, o maior comprador de querosene de aviação do mundo, busca segurança energética com a produção de biocombustível de aviação, o que poderá abrir grandes oportunidades para o setor privado dos dois países. Nos encontros Dilma–Obama foram lançadas as bases em que as relações deverão evoluir nos próximos anos, abrindo a possibilidade de avanços concretos que venham a beneficiar os governos e o setor privado dos dois países, aproveitando as grandes transformações que ocorrem no mundo. No melhor interesse dos dois países, foram mencionadas parcerias em áreas que, se de fato vierem a ocorrer, poderão propiciar uma mudança na qualidade do relacionamento bilateral, com ganhos concretos para ambos os lados. Segundo estudos do National Intelligence Council, de Washington, em 2025, o Brasil será uma potência econômica global, na qualidade de uma das cinco maiores economias em termos de PIB. O Brasil é visto como um Estado-modelo, por sua democracia vibrante, economia diversificada e instituições econômicas sólidas. O sucesso ou o fracasso do Brasil em conciliar medidas a favor do crescimento econômico, com uma ambiciosa agenda social que reduza a pobreza e a desigualdade de renda, terá um profundo impacto no desempenho econômico e na governança da América do Sul nos próximos quinze anos. Nesse cenário, a posição do Brasil na região tenderá a tornar-se cada vez mais ativa e importante. A emergência do Brasil como potência econômica global até 2025 colocará novos desafios para sua política externa e para a política comercial externa do Brasil e dos EUA, contribuindo para a construção de uma profícua parceria. Cabe aos formuladores das decisões nos dois países identificar interesses concretos adicionais para expandir e diversificar ainda mais as relações bilaterais em um mundo que promete ser cada vez mais complexo e diferente daquele em que vivemos hoje.
RUBENS BARBOSA foi embaixador em Washington (1999-2004).
Assinar:
Comentários (Atom)
Postagem em destaque
Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida
Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
As principais ideologias políticas do brasileiro, segundo Christian Christian Edward Cyril Lynch , em matério do Meio (Pedro Doria): "O...
-
Roman Sheremeta explain how Putin lies about the Russian people in Donbas. It is a lie that “russian-speaking” Ukrainians want to be a part ...
-
Pesquisadores contestam veracidade de relíquias judaicas ocultas em casarão dos Buenos na Cidade de Goiás. É fake news Redação Jornal Opção...
-
O mundo "sem regras" de Celso Amorim Um manifesto da hipocrisia diplomática THIAGO PADOVAN Revista ID, JAN 23 ∙ POST COMO CONV...
-
A EXTREMA-DIREITA ESTÁ GOVERNANDO QUANTOS REGIMES DITATORIAIS NO MUNDO DE HOJE? Augusto de Franco, 10/08/2024 Vamos pegar cerca de 40 regime...
-
Um exchange entre amigos sobre questões de atualidade Na semana passada, expressei, num exchange entre amigos, opiniões muito fortes contra ...
-
Paulo Roberto de Almeida according to Gemini Artificial Inteligence (Google) Gemini AI (new development from Google) seems to be highly ef...
-
Qual é o apoio real da população americano às políticas de Trump? Uma questão relevante. Nota preliminar PRA: Recebo o texto abaixo em seg...





