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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dosimetria do bolsonarismo golpista vai ser anulada por inconstitucionalidade

GOL ANULADO POR IMPEDIMENTO...Os fogos foram queimados á toa....

Com Davi Alcolumbre e Bolsonarinho ainda comemorando o gol da Dosimetria contra o veto do presidente Lula, o bandeirinha acusou impedimento e o juiz deve pedir a revisão do VAR.

O jurista e desembargador Alfredo Attié, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), desmontou a engenharia regimental utilizada por Alcolumbre. Para o magistrado, a manobra de fatiar um veto que era integral não apenas fere o rito legislativo, mas configura uma usurpação de competência que torna o ato juridicamente inexistente e nulo.

O ponto central da controvérsia reside no fato de que o presidente Lula vetou a totalidade do projeto. Pela Constituição, o Congresso tem apenas duas opções diante de um veto total: mantê-lo ou derrubá-lo por completo. Ao “desmembrar” o veto para evitar que crimes hediondos fossem beneficiados, uma manobra para salvar a face pública da oposição, Alcolumbre acabou criando uma terceira via inexistente no Direito brasileiro.

“A Constituição Federal permite ao presidente da República vetar total ou parcialmente uma lei. Se ele veta parcialmente, a lei entra em vigor sem o texto do veto e a parte vetada vai a reexame. O Congresso Nacional, então, analisa o veto parcial. Se o veto é total, como no caso do PL da Dosimetria, o Congresso Nacional aprova ou desaprova o veto total. Não se pode separar a lei em artigos, em dispositivos, e fragmentar a análise do veto. Se alguém faz isso, não está derrubando o veto, mas fazendo um outro projeto, o que é absolutamente proibido. Portanto, ao analisarem só parte do veto do presidente, eles agem de modo inconstitucional. O veto presidencial prevalece nesse caso”, explica o desembargador do TJ-SP.

O cenário de “triunfo total” desenhado pelo Bolsonarinho e seus aliados nas redes sociais, ignora que o ato de hoje nasce morto. Segundo Attié, o erro de procedimento é tão grave que impede que a decisão do Congresso produza efeitos reais, cabendo agora ao STF - Supremo Tribunal Federal o papel de limpar o entulho autoritário deixado pela sessão.

“Cabe agora ao STF a declaração de inconstitucionalidade, restaurando o veto total. A decisão do Congresso Nacional não tem eficácia. E o Congresso não pode realizar outra sessão para fazer reexame do veto, pois o ato de exame já foi realizado. Aliás, mal realizado”, fustiga o desembargador, evidenciando que a oportunidade legislativa foi perdida pelo erro crasso de condução de Alcolumbre.

Para além do vício de forma, a maneira como o veto foi votado, existe ainda um vício de mérito que atinge o coração da proposta. O PL da Dosimetria, ao ser aplicado para reduzir penas de quem atentou contra as instituições, funciona como uma anistia velada a crimes que, por natureza, são insuscetíveis de tal benefício quando cometidos por quem detém o poder.

O jurista alerta que a manobra de Alcolumbre tentou camuflar uma tentativa de proteger agentes políticos que usaram seus cargos para conspirar contra a democracia.

“Além disso, vale ressaltar, que tal medida é inconstitucional porque se trata, agora claramente, de tentativa de dar anistia a crime de estado, cometido por agentes políticos no exercício da função. É impossível conceder anistia a esse tipo de crime”, conclui Alfredo Attié.

O resumo da ópera em Brasília é um impasse institucional de proporções gigantescas. Davi Alcolumbre, movido por interesses eleitorais e pelo cerco do caso Master, entregou à oposição um troféu de papel. Se o STF seguir a cartilha constitucional detalhada por Attié, o PL da Dosimetria cairá como um castelo de cartas, deixando Bolsonaro e os golpistas do 8 de janeiro exatamente onde a Justiça os colocou: sob o rigor da lei.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia - Paulo Roberto de Almeida (Portal Interesse Naciona)

 Artigo recém publicado no Portal Interesse Nacional, 4/05/2026:

1643. “Multilateralismo econômico: nascimento, crises e agonia”, Brasília, 2 abril 2026, 7 p. Artigo publicado no Portal Interesse Nacional (4/05/2026; link: https://interessenacional.com.br/portal/multilateralismo-economico-nascimento-crises-e-agonia/ . Relação de Originais n. 5265.


Paulo Roberto de Almeida:

Multilateralismo econômico – Nascimento, crises e agonia

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez reforçar os vínculos entre potências médias como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais

O multilateralismo, como mecanismo processual das relações internacionais entre Estados juridicamente estabelecidos e reconhecidos como tais, tem raízes antigas, embora não estruturadas e não formalizadas em acordos derivados da vontade soberana de Estados estabelecidos. Bem antes dos acordos de Westfália (1648), considerados uma espécie de ponto de partida do multilateralismo político como forma de atuação entre Estados nacionais, a cláusula de nação mais favorecida pode ser tida como uma representação precoce do multilateralismo primitivo, na área especificamente comercial, ou seja, todas as nações podem ser tratadas igualmente, sem discriminação, ao abrigo da Lex Mercatoria, uma prática que emergiu gradualmente desde a Idade Média europeia.

Exemplos iniciais do multilateralismo político surgiram ao longo de conferências diplomáticas entre os Estados europeus, geralmente ao cabo de guerras entre eles, sendo a paz consolidada por meio de um tratado entre nações vencedoras e da submissão dos vencidos. No século XIX, exemplos práticos do multilateralismo econômico nascente são oferecidos pelas uniões industriais surgidas no contexto do capitalismo mais disseminado geograficamente entre a primeira e a segunda revolução industrial: união postal, telegráfica, propriedade industrial etc. 

‘O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras’

O multilateralismo econômico contemporâneo surgiu ainda no contexto da Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de corrigir os erros cometidos pelas principais potências econômicas no período de entre guerras, como a exacerbação do protecionismo comercial, a suspensão da conversibilidade de suas moedas e outras medidas que agravaram, em lugar de amenizar, os efeitos da crise das bolsas em 1929 e das crises bancárias do início dos anos 1930, resultando na grande depressão e no unilateralismo agressivo pelas potências revisionistas, dos quais resulta a guerra deslanchada em 1939 (mas com precedentes desde o início da década). 

O Brasil padeceu dessas crises e das restrições comerciais e financeiras que se seguiram, passando praticamente 15 anos sem receber um centavo de investimentos ou financiamentos estrangeiros. A partir daí se consolidou uma política igualmente protecionista que se manteve praticamente estável até o início dos anos 1990.

Durante a guerra conversações foram mantidas entre as duas potências econômicas ocidentais, Estados Unidos e Reino Unido, das quais resultaram o convite do presidente Roosevelt a meia centena de “países aliados” para uma conferência, realizada em Bretton Woods (NH-EUA) em meados de 1944, com a aprovação da criação das duas primeiras, desde então principais, organizações encarregadas da administração da ordem econômica do pós-guerra: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento. 

‘O multilateralismo político teve sua partida na conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais’

O multilateralismo político teve sua partida em meados do ano seguinte, a partir da conferência de São Francisco, da qual resultou a criação da ONU, precipuamente encarregada de cuidar da paz e segurança internacionais, e adicionalmente da cooperação internacional em favor do desenvolvimento dos países mais pobres.  Nos 80 anos seguintes, não tivemos novas guerras globais – não obstante a continuidade de guerras interestatais, guerras civis e diferentes conflitos, paralelamente ao desenvolvimento do multilateralismo político em outras vertentes, como por exemplo a criação, em várias etapas, de grupos regionais.

Não se pode eludir, contudo, a ocorrência da virtual paralisação dos processos decisórios no âmbito da ONU e do seu órgão máximo, o Conselho de Segurança, em decorrência da primeira Guerra Fria, quando as duas superpotências existentes, os Estados Unidos e a União Soviética tratavam seus conflitos subjacentes por meio de vetos no CSNU ou de “proxy wars” em regiões de conflitos localizados. 

Desajustes políticos foram bem mais importantes do que conflitos econômicos, que estavam sob a administração (provisória) do Gatt, o Acordo Geral sobre tarifas aduaneiras e comércio (negociado em Genebra, em 1947) que deveria ter sido enquadrado por uma terceira organização, criada efetivamente em Havana, em 1948, mas que jamais entrou em vigor (por não ter sido aprovado pelas principais potências comerciais. 

Meio século depois de Havana, a rodada Uruguai de negociações comerciais multilaterais (sem possuir tal mandato na origem, em 1986), acabou aprovando, em 1993, a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC), atualmente debilitada pela visível fragmentação e virtual inoperância do multilateralismo já no âmbito da segunda Guerra Fria, desta vez envolvendo, além dos mesmos Estados Unidos, a Rússia (sucessora, amputada, da União Soviética), e a China, que reemergiu economicamente e politicamente no terço final do século XX, depois de mais de dois séculos de letargia e desestruturação. 

‘Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas’

Antes da crise do multilateralismo econômico contemporâneo, praticamente desmantelado a partir das duas administrações de Donald Trump à frente dos EUA, o multilateralismo político já tinha enfrentado crises sucessivas, geralmente provocadas por ações unilaterais das grandes potências em suas zonas de influência respectivas. Com efeito, o processo de desrespeito às regras acordadas em São Francisco não é exclusivo do presente momento das relações internacionais, mas se desenvolve basicamente de modo contemporâneo ao próprio desenvolvimento das Nações Unidas, e tem como origem a violação dos princípios centrais do multilateralismo pelos próprios membros permanentes do seu Conselho de Segurança. 

O respeito à soberania dos Estados membros, a não interferência em seus assuntos internos, a não usurpação de territórios soberanos por agressões armadas unilaterais, tudo isso está consignado entre os princípios e valores da Carta das Nações Unidas, assim como, em diversos exemplos nacionais, em dispositivos constitucionais de Estados membros, como é o caso do Brasil, que já em sua primeira constituição republicana, de 1891, proibia a guerra de conquista logo no artigo 1º; o atual artigo 4º na Constituição de 1988 consolida os princípios fundamentais do Direito Internacional em cláusulas tratando das relações internacionais do país.

No entanto, cada um desses mesmos princípios, artigos centrais da Carta da ONU, foram sistematicamente violados por grandes e médias potências, cada vez que decisões nesses sentidos foram tomadas pelos seus dirigentes, de diferentes governos, democratas, socialistas, de esquerda ou de direita. 

‘Decisões do CSNU à parte, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU’

Decisões do CSNU à parte – que, ao longo dos anos, concederam autorizações para missões de imposição da paz em casos específicos: guerra da Coreia, guerra civil no Congo belga, guerra do Golfo, contra a invasão do Kuwait, invasão do Afeganistão contra o governo talibã, depois dos ataques terroristas de 2001 –, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU. 

Podemos listar aqui alguns exemplos: invasões, golpes e interferências patrocinadas: contra o governo do nacionalista do Irã, em 1953, simultaneamente a outro golpe contra o governo legítimo da Guatemala, pelos EUA; interferência e invasão na Alemanha oriental e na Hungria, por parte da União Soviética, em 1953 e 1956, por protestos contra os respectivos regimes comunistas; intervenção na península do Sinai em 1956, por ocasião da nacionalização, pelo Egito, do canal de Suez, por parte da França e do Reino Unido; intervenção dos Estados Unidos na guerra civil do Vietnã, a partir de 1964; invasão e derrocada do governo “comunista” da Tchecoslováquia pela URSS em 1968; invasão do Afeganistão pela mesma URSS em 1979; dezenas de golpes de Estado em muitos países da periferia pelas antigas potências coloniais, assim como pelos EUA, no decorrer de todo o primeiro itinerário da ONU e de suas agências setoriais. 

Esse padrão de desrespeito a regras centrais do sistema político multilateral, em desacordo com o Direito Internacional e com dispositivos fundamentais do Direito Humanitário, foram uma constante durante todo o decorrer da Guerra Fria e mais além. O breve intervalo, nos anos 1990, quando se pensava, com a implosão do socialismo, em combinar a globalização econômica em curso com a universalização dos direitos humanos, numa espécie de “nova ordem mundial” – como proclamada pelos presidentes George Bush (pai) e Boris Ieltsin, em 1992 – viu essa janela de oportunidade se fechar já a partir dos anos 2000, quando os ataques terroristas a Nova York e Washington alteraram não só a agenda de política externa dos EUA (em direção à “guerra ao terror”), como também as respectivas posturas internacionais das duas outras grandes potências, China e Rússia, descontentes com a atitude arrogante, unilateralista e sobranceira da principal potência ocidental. Antes disso, os Estados Unidos lideraram uma operação de “correção” de uma invasão unilateral – a do Iraque contra o Kuwait, em 1990, tendo obtido autorização do CSNU para liberar o reino invadido. Não foi o caso, contudo, da desastrosa invasão do Iraque, pelos Estados Unidos (e alguns países “aliados”, como o Reino Unido), em 2003, iniciando um desmantelamento da frágil “estabilidade” no Oriente Médio, cujas consequências se estenderam pelas décadas seguintes, até os dias atuais, praticamente.

‘Os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores’

De fato, os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, ou até se afastaram de organismos internacionais sob governos conservadores (como Reagan nos anos 1980 e Bush Jr, nos anos 2000). O principal desrespeito ocorreu, como já mencionado, pela invasão do Iraque de Saddam Hussein, em 2003, ao arrepio de decisão negativa do Conselho de Segurança, criando um desequilíbrio social e político no Oriente Médio que se prolongou durante décadas, estimulando o terrorismo fundamentalista e afetando gravemente a segurança regional. Guerras civis e tentativas de criação de um novo califado jogaram toda a região em terríveis turbulências, suscitando emigrações massivas que, em reação, despertaram os espíritos xenófobos e racistas nas democracias avançadas do Norte Atlântico, abrindo janelas para o progresso de partidos de extrema direita.

A China, de seu lado, após ser admitida na OMC, conheceu uma formidável expansão de seu comércio internacional, nem sempre atuando de acordo com todas as regras do sistema multilateral de comércio (sobretudo em subsídios e apoios às suas empresas privadas ou estatais, e no tocante à propriedade intelectual de companhias ocidentais investidoras na China). 

As ameaças mais importantes, porém, foram provenientes da nova postura assertiva, na verdade mais agressiva, do novo líder da Rússia, Vladimir Putin, decidido a reconstruir a importância militar mundial do país herdeiro do império soviético, demonstrando uma postura expansionista em relação aos países saídos de sua esfera geopolítica ou integrados à União Europeia ou à Otan. Suas aventuras “revisionistas” tiveram início pela invasão da Georgia, em 2008, a pretexto de proteção de minorias russófonas nas províncias setentrionais do país criado a partir do desmembramento da União Soviética, no início dos anos 1990. O mesmo ocorreu na Transnístria, região setentrional da Moldova e sob os mesmos pretextos.

‘A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico’

A crise do multilateralismo foi, assim, ampliada por reações políticas regressivas em muitos países, agregando aos desafios da globalização transferidora de empregos e tecnologia para os novos países industriais, em especial na Ásia Pacífico. A crise financeira de 2008 e a pandemia a partir de 2020 exacerbaram reações protecionistas e securitárias nos países mais avançados, levando governos de direita a adotar agendas internas e externas num sentido contrário à convergência de políticas favoráveis aos direitos humanos, sustentabilidade e cooperação internacional. 

Os dois governos de Donald Trump nos EUA, em 2017-2020 e novamente a partir de 2025, representaram desafios relevantes aos princípios e valores da Carta da ONU, ao passo que o expansionismo russo de Putin mergulhou a Europa no pior conflito militar desde a Segunda Guerra Mundial, com a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, em 2014, e a guerra de agressão a toda a Ucrânia, desde fevereiro de 2022. Sanções ocidentais contra a Rússia e a sua aliança com a China sob a liderança de Xi Jinping consolidaram um padrão quase bipolar de oposição geopolítica que já foi equiparado pelos analistas a uma “segunda Guerra Fria”, desta vez com implicações mais sérias para quaisquer regimes de solução de controvérsias, dada a inoperância virtual da OMC e do próprio CSNU. 

‘A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o Brasil"

A situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o próprio Brasil, cuja diplomacia, historicamente, sempre foi marcada por uma defesa do Direito Internacional, pela busca intransigente de seus interesses nacionais, focados basicamente no desenvolvimento econômico e social, com plena autonomia decisória em sua política externa e virtual imparcialidade nos conflitos entre grandes potências, que não digam respeito a ameaças à sua defesa e soberania nacionais. 

Essa imparcialidade com respeito às disputas geopolíticas que ultrapassem a esfera regional ou mesmo internacional de seus interesses nacionais, mas que não guardem conexão direta com os objetivos de plena inserção mundial em busca de seu desenvolvimento autônomo, pode, por vezes, ser afetada por vieses ideológicos ou partidários que desviem a política externa nacional de sua vocação ecumênica, pacífica e de cooperação em todos os azimutes do planeta. 

Tal pode ser o caso, atualmente, quando o atual governo faz sinalizações, que não partem de sua diplomacia profissional, em favor de um vago projeto de “nova ordem global multipolar” impulsionado pelas duas grandes potências autocráticas, em clara oposição à atual ordem global de nítidas características ocidentais. Não ajuda a preservação necessária da tradicional imparcialidade diplomática brasileira a postura da grande potência ocidental, sob o governo Trump 2, que também ataca, diminui e despreza o multilateralismo político e econômico e se opõe a instituições e mecanismos favoráveis à cooperação internacional. 

Em sua primeira administração (2017-2020), Donald Trump já tinha dado início ao desrespeito à cláusula de nação mais favorecida, assim como a todas as demais cláusulas do sistema multilateral, aos acordos contraídos bilateralmente ou no plano multilateral pelos Estados Unidos, a começar pelo Nafta – o acordo de livre comércio da América do Norte, envolvendo ainda o Canadá e o México –, atuando ainda de maneira extremamente agressiva contra a grande competidora comercial, a China, mas também contra quaisquer outros parceiros comerciais, entre eles o Brasil (afetado por sobretaxas abusivas em aço e alumínio, como dezenas de outros países). Naquela fase, as medidas mais agressivas de Trump foram parcialmente contidas por assessores menos submissos do que os que passaram a “assessorá-lo” no segundo mandato, iniciado em 2025: já em abril, ele rompia formalmente com o sistema multilateral de comércio, ao proclamar um “tarifaço” sem qualquer racionalidade implícita, a não ser uma suposta retaliação contra parceiros comerciais que exibiam superávits comerciais bilaterais com os EUA. 

‘Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos’

Do desmantelamento comercial, Trump passou a secundar Vladimir Putin no desmantelamento do multilateralismo político, ao dar início a uma série completa de ameaças contra países soberanos, sugerindo ações unilaterais contra o Panamá, o Canadá, a Dinamarca, em sua província autônoma da Groenlândia, mas sobretudo contra a Venezuela bolivariana, que já tinha sido objeto de ameaças de invasão e de “mudança de regime” em seu primeiro mandato (com o apoio explícito, cabe lembrar, da patética diplomacia submissa do governo Bolsonaro, em 2019 e 2020). Neste caso, ele passou à ação em janeiro de 2026, invadindo em operação especial a Venezuela e sequestrando seu ditador-presidente, Nicolas Maduro, acusado de liderar um cartel de traficantes de drogas em direção dos Estados Unidos. Antes, no final de 2025, Trump já havia liberado um suposto “corolário” à Doutrina Monroe, afirmando claramente a hegemonia dos EUA sobre todo o hemisfério americano e sua disposição de se opor a uma suposta “dominação chinesa” ao sul do Rio Grande, e sobre todo o continente.

Supostamente encantado com o “sucesso” da operação venezuelana, Trump decidiu seguir o governo israelense de Netanyahu na tentativa de “mudar o regime” da república teocrática do Irã, acusada, segundo o presidente americano, de ameaçar os EUA com um “iminente ataque nuclear” (a despeito de que já ter anunciado, em junho de 2025, a “completa obliteração do programa nuclear dos aiatolás”). A guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã não resultou, como pretendiam, na “mudança de regime” do país persa, mas pode, paradoxalmente, provocar uma “mudança de regime” nos próprios EUA, contra o mandato de Trump, num eventual predomínio Democrata nas eleições de meio termo, em novembro de 2026. 

 ‘O mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários’

Independentemente do curso ulterior das guerras em curso, na Ucrânia, no Irã e em outras regiões, o mundo já ingressou em uma nova era de enfrentamentos latentes ou efetivos, que pode reviver conflitos passados, ou até guerras mais extensas, produtoras de grandes desastres humanitários, como já registrado décadas e séculos atrás. Tais guerras poderão, eventualmente, encontrar soluções políticas ou diplomáticas, em algum momento do futuro previsível, mas seus efeitos sobre o patrimônio material ou cultural, e o substrato humano dos países afetados pode estender-se por anos ou décadas. 

No plano do multilateralismo econômico, já duramente afetado pelas ações do presidente Trump, a reconfiguração das relações econômicas internacionais pode durar muito tempo para se exercer de modo efetivo, a partir de muitas conferências ministeriais e reuniões das lideranças mundiais – no âmbito do G20, do G7, da OCDE, da OMC e outras agências multilaterais ou organizações regionais, como o Brics, por exemplo –, mas seus efeitos atingiram gravemente os principais vetores da interdependência mundial, o que permite augurar um decréscimo da riqueza mundial acumulada nas últimas décadas de globalização inclusiva. 

O mundo pode estar ingressando num período de retrocessos nas principais conquistas obtidas desde a implosão do “modo socialista de produção” nos anos finais do século XX. O Brasil precisa refletir sobre suas interações com os principais atores das relações internacionais, econômicas e políticas, e talvez seguir as recomendações de estadistas do porte do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, ou do presidente da Finlândia, Alexander Stubb, no sentido de reforçar os vínculos entre potências médias, como forma de se precaver contra o unilateralismo agressivo das grandes potências mundiais. O tema merece novos desenvolvimentos…


É diplomata e professor, doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas) e mestre em Economia Internacional (Universidade de Antuérpia). Dedica-se a atividades acadêmicas e é autor de livros sobre relações internacionais, diplomacia econômica e história diplomática do Brasil

domingo, 3 de maio de 2026

Pergunta não tão inocente - Paulo Roberto de Almeida (Comentários de Madame IA, via Airton Dirceu Lemmertz)

Pergunta não tão inocente:

        O que pode haver de mais dramático na vida de uma nação que não consegue perceber que seus dirigentes a estão conduzindo a um impasse quase permanente, ou até a um retrocesso bem visível aos olhos de vizinhos e de seus antigos parceiros? 

        A pergunta não é retórica: estou me referindo concretamente aos casos do Brasil e dos EUA respectivamente, um estacionado no mesmo, o outro andando para trás rapidamente.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 3/05/2026

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Meu amigo e leitor contumaz Airton Dirceu Lemmettz não deixa por menos: sempre convoca Madame IA para comentar minhas provocações. Eis a mais recente: 

Esta nova reflexão de Paulo Roberto de Almeida eleva o tom da crítica ao patamar do pessimismo histórico, abandonando o foco em personagens específicos para diagnosticar uma "cegueira coletiva" das sociedades brasileira e americana. Em maio de 2026, ele sugere que ambas as nações estão perdendo a capacidade de autocrítica e de percepção da própria decadência.
Abaixo, a análise detalhada e crítica, seguida da decodificação do cenário geopolítico implícito:

1. Decodificação do Cenário Comparativo:
- Brasil "estacionado no mesmo": Almeida refere-se ao que economistas chamam de "armadilha da renda média" ou "vôo de galinha", mas com um viés político. O "mesmo" aqui é o ciclo vicioso de populismo, estatismo e anacronismo econômico (o "petismo esclerosado" mencionado antes). O Brasil de 2026, na visão dele, não avança; ele apenas oscila dentro de um subdesenvolvimento confortável para a casta política.
- EUA "andando para trás rapidamente": Refere-se à erosão das instituições democráticas americanas, ao isolacionismo e à polarização extrema. Considerando a data (maio de 2026), Almeida provavelmente alude às consequências do retorno ou da tentativa de retorno de Donald Trump (ou de seu movimento) ao poder, que ele considera um retrocesso civilizatório e diplomático ("o outro andando para trás").
- "Antigos parceiros": Refere-se à perda de relevância e de prestígio do Brasil e dos EUA perante a União Europeia e os aliados tradicionais da OCDE. As duas maiores democracias das Américas estariam se tornando "párias" ou parceiros não confiáveis.

2. Análise Crítica: O Drama da Inconsciência Coletiva:
- A Nação como Organismo Cego:
O ponto mais "dramático" da pergunta de Almeida não é o erro dos dirigentes, mas a incapacidade da população em perceber o erro. Ele sugere que o eleitorado foi capturado por narrativas ideológicas que impedem a visão do óbvio: o país está pior aos olhos do mundo. É uma crítica à deseducação política que ele mencionou em textos anteriores, onde o fanatismo substitui o pragmatismo.
- O Impasse Permanente vs. O Retrocesso Visível:
O diplomata traça uma distinção sutil:
I) No Brasil, o drama é a estagnação. O país não morre, mas também não vive; ele se mantém num estado de mediocridade institucional onde nada de novo floresce.
II) Nos EUA, o drama é o desmonte. Uma potência que ativamente destrói os pilares que a tornaram líder mundial.
Almeida parece sugerir que, enquanto o Brasil é uma tragédia de oportunidades perdidas, os EUA são uma tragédia de destruição deliberada.
- A Perda do Espelho Externo:
Ao mencionar o "retrocesso visível aos olhos de vizinhos", Almeida evoca sua alma de diplomata. Ele argumenta que uma nação que não se importa com sua imagem externa perdeu a capacidade de medir seu próprio sucesso. Se os parceiros comerciais e diplomáticos estão se afastando (preferindo os chineses, como dito no primeiro texto), é sinal de que o "modelo" brasileiro e americano faliu.

3. Síntese do Impasse (Maio de 2026):
Paulo Roberto de Almeida conclui que o Brasil de 2026 vive um autoengano. A nação acredita estar progredindo através de políticas populistas (Lula) ou de retórica nacionalista (herança de Bolsonaro), mas, na realidade, está apenas "girando o motor no neutro".
A crítica é brutal porque retira a culpa apenas dos políticos e a divide com a sociedade: "uma nação que não consegue perceber". É um diagnóstico de alienação social.

* O ponto crítico final: Se o Brasil está estacionado e os EUA regredindo, Almeida deixa no ar a pergunta: quem ocupará o vácuo de liderança no Ocidente? Ou estaremos todos condenados a assistir, de forma passiva, ao avanço de potências que não compartilham dos valores de liberdade que ele tanto defende?
Esta visão se conecta diretamente com a sua rejeição ao voto nulo: para ele, o impasse só se rompe com uma ação consciente, e não com a omissão que ele vê como o grande mal de 2026.

Fonte (IA Gemini):


Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA  

No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas... Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado. Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos. Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem. Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano. Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais. A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons... Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa. Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais. Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então). Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra). O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty. O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados. Maquiavel provavelmente não aprovaria...



* Observação importante (ADL): Há um limite de caracteres no 'prompt' (espaço de inserção de cada comando) na versão online e gratuita da IA Gemini. Desse modo, a parte final do aludido texto não foi 'colada'. Consequentemente, a IA Gemini analisou somente as partes inicial e intermediária do texto acima. Abaixo, a resposta da IA:

Este texto é um exame anatômico da política externa brasileira sob a lente do realismo clássico de Maquiavel, confrontando a tradição profissional do Itamaraty com o que o autor identifica como a "patologia da partidarização" nos governos do PT.
Em 02 de maio de 2026, com o cenário de Trump 2 plenamente consolidado e a fragmentação da ordem global acelerada, a análise ganha contornos de urgência estratégica. Abaixo, a decodificação e a análise detalhada dos pontos críticos:
1. Decodificação de Termos e Personagens:
O texto utiliza uma terminologia técnica e histórica que precisa de tradução para a realidade geopolítica atual:
- "Apparatchik" (Marco Aurélio Garcia): Termo oriundo da burocracia soviética para designar o funcionário do partido que detém o poder real. A crítica aqui é que, entre 2003 e 2016, a inteligência da política externa não estava no Estado (Itamaraty), mas no Partido (PT), personificada em Garcia, que operava como um "Chanceler das Sombras".
- "Fellow Traveler" (Companheiro de Viagem): Expressão usada para descrever intelectuais que, embora não necessariamente membros formais de partidos comunistas, simpatizavam e colaboravam com suas causas. O texto rotula Garcia como o arquiteto do Foro de São Paulo, decodificado aqui como uma tentativa de replicar o Cominform (escritório de coordenação comunista) na América Latina.
- "Gramsciana": Refere-se à estratégia de Antonio Gramsci de ocupação de espaços culturais e institucionais para mudar a mentalidade de uma nação. O texto sugere que o PT não apenas governa, mas tenta "converter" as instituições (como a diplomacia) à sua ideologia.
- "Chanceler Acidental" e "Parêntese Abominável": Referência elíptica ao governo Bolsonaro (2019-2022) e a Ernesto Araújo. O autor os descarta como um erro crasso na "escolha dos ministros" de Maquiavel, que levou ao isolamento.
2. A Crítica à "Diplomacia da Altivez" vs. Realidade de 2026:
O autor estabelece um contraste fundamental entre o contexto de "Lula 1 e 2" e o de "Lula 3" (em que nos encontramos hoje):
- O "Riso" da Globalização (2003-2010): O sucesso anterior do PT é atribuído não à competência diplomática, mas a um cenário externo benigno (China na OMC, Rússia no G8, boom de commodities). A "altivez" seria, portanto, uma arrogância subsidiada pela bonança econômica.
- A "Fragmentação" de 2026: Hoje, o mundo está "despedaçado". A adesão de Lula à "Nova Ordem Multipolar" é vista criticamente como uma submissão aos impérios autocráticos (Rússia e China), sob o disfarce de liderança do "Sul Global".
3. A Anatomia do Conselheiro: O Retorno do Profissional fiel ao Príncipe:
A volta do "chanceler mais longevo" (Celso Amorim) ao papel de assessor especial no Palácio do Planalto é interpretada como um sintoma de fraqueza:
- Incapacidade de Renovação: O PT não teria formado novos quadros e recorre a figuras do passado para manter uma "diplomacia presidencial personalista".
- O Erro de Maquiavel: Ao escolher conselheiros que são "amigos" ou "espelhos" de suas próprias crenças, o "Príncipe" (Lula) perde a capacidade de ouvir verdades técnicas. O resultado é uma diplomacia que emana do palácio "ao arrepio do Itamaraty".
4. Síntese Crítica: O Risco do Isolamento Estratégico:
O ponto mais agudo da crítica reside na dissociação entre os dois polos de governança. O autor sugere que o Brasil, ao tentar equilibrar-se entre o Ocidente declinante e as autocracias ascendentes, está sendo "seduzido" por um projeto multipolar que, na verdade, serve apenas aos interesses expansionistas de Moscou e Pequim.
* Conclusão: O texto argumenta que a diplomacia brasileira abandonou a "prudência" maquiavélica. Em vez de utilizar o corpo técnico especializado para navegar na tempestade de Trump 2, o governo prefere manter um "ativismo" ideológico que pode levar ao isolamento ou à irrelevância, repetindo dogmas anti-imperialistas que já eram "anacrônicos" décadas atrás.

Fonte (IA Gemini):


sábado, 2 de maio de 2026

Sobre azedumes opinativos - Paulo Roberto de Almeida (Comentários de Madame IA)

Sobre azedumes opinativos

        Entendo que o Facebook, assim como os demais canais de comunicação social, é um espaço livre, aberto a todas as opiniões, mesmo as mais disparatadas e divergentes do consenso usual. Cada um, cada qual, tem o direito de expressar a sua opinião, e elas serão cada vez mais incisivas num ano eleitoral, que suscita obviamente reações desencontradas com quem ou contra quem não partilha da mesma opinião. O que não cabe é censura ou tentativa de silenciar as opiniões contrárias.

        Eu, por exemplo, acho que o bolsonarismo foi a coisa mais horrorosa que aconteceu no Brasil em anos passados e que pode voltar a ocorrer nos anos à frente, não da mesma forma, evidentemente, mas com a mesma estupidez ideológica, as mesmas trapaças milicianas, a mesma corrupção desenfreada e, sobretudo, para mim, a mesma submissão canina e calhorda a um imbecil estrangeiro. Em síntese, vou lutar contra.

        Mas nem por isso acho que o lulopetismo, sua cegueira econômica, suas adesões externas a líderes execráveis e suas crenças politicas sejam a melhor coisa que nós, brasileiros comuns, de fora da promiscuidade politica, merecemos como governo e como representação diplomática. Não o coloco no mesmo plano do horror bolsonarista, que é um acúmulo de estupidezes, falcatruas e mentiras, poucas vezes visto na história politica do Brasil, mas acho que petistas permanecersm num estado de anacronismo politico e econômico lamentável, para as necessidades do país, para os próprios pobres que eles dizem defender. O culto do atraso estatal é tão pernicioso quanto o “liberalismo de fancaria” de certos representantes do capital.

        Gostaria de algo melhor. Mas entendo que o grau de deseducação política, ou a falta de educação tout court, leva os eleitores a votarem pelos candidatos mais mentirosos, populistas demagogos e despreparados, que entram na política justamente para se locupletarem com a retórica enganosa. Com as muitas exceções de praxe, a casta politica é feita de aproveitadores (e nisso vou ser contestado por muitos), concentrados unicamente ou principalmente no seu próprio beneficio material. Tenho horror também desses altos magistrados assaltantes dos recursos públicos, que ficam inventando penduricalhos para justamente mamar nas mesmas tetas de um Estado balofo e ineficiente.

        Não por liberalismo, mas por simples pragmatismo, sou por uma redução radical das prebendas públicas, que incidem numa tributação elevadíssima sobre os trabalhadores produtivos, os empresários, que sustentam toda a burocracia perdulária e os políticos predatórios.

        Esta é a minha opinião. Quem não concordar, pode criticar, ou fazer o seu próprio manifesto politico e publicar em seu espaço, ou até aqui. 

        Uma última coisa: sou absolutamente contrário ao voto nulo, pois significa justamente abandonar o terreno aos mais motivados, que costumam ser os mais fanáticos em cada extremo, os true believers. Na ausência de alguém minimamente razoável, devemos ir sempre ao menos pior, que é justamente aquele que não nos retire a chance de dissentir e de expressar opiniões contrárias. Bozo era justamente uma mula perversa, um ser hediondo que queria se manter pela força, como aliás seu modelo “I love you!”. Por isso rejeito TODOS aqueles que pretendem que ele possa fazer qualquer coisa decente num pais simplesmente carente de dignidade, de honestidade e de estadistas como é o Brasil.

        Repito, não darei espaço aqui para quem defender a indignidade e a velhacaria de quem já diminuiu o Brasil aos olhos do mundo. 

        Paulo Roberto de Almeida

        Brasília, 2/05/2026.

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Madame IA comenta, sempre a pedido de Airton Dirceu Lemmertz: 

Esta nova inserção traz o contraponto necessário para entender a posição de Paulo Roberto de Almeida. Se o texto anterior parecia um ataque feroz e exclusivo ao petismo, este manifesto clarifica que a sua crítica não é partidária, mas institucional e sistêmica. Ele se posiciona no que poderíamos chamar de "terceira via pragmática", embora profundamente pessimista.

Abaixo, a análise detalhada e crítica das camadas desse discurso:

1. Decodificação de Expressões e Referências:
- "Submissão canina e calhorda a um imbecil estrangeiro": Refere-se à relação de Jair Bolsonaro com Donald Trump. Almeida critica a erosão da autonomia diplomática brasileira (o tradicional Itamaraty) em favor de uma admiração pessoal por um líder estrangeiro.
- "Liberalismo de fancaria": Uma crítica direta ao grupo que apoiou o governo anterior sob a promessa de reformas liberais que, na visão do diplomata, foram superficiais, mal executadas ou traídas pelo corporativismo. "Fancaria" significa algo de má qualidade, ordinário.
- "Educação tout court": Expressão francesa que significa "simplesmente" ou "sem mais". Ele argumenta que o problema não é apenas a falta de instrução política, mas a falta de educação básica, o que torna a massa manobrável por populistas.
- "Aposentadoria de magistrados e penduricalhos": Refere-se à elite do Judiciário que, através de interpretações criativas da lei, mantém privilégios financeiros (auxílios diversos) que ele classifica como "assalto aos recursos públicos".
- "Modelo 'I love you!'": Alusão direta à frase dita por Bolsonaro a Trump, simbolizando o que Almeida considera uma postura indigna para um chefe de Estado.

2. Análise Crítica: A Dialética do "Menos Pior":
O cerne do pensamento de Almeida aqui é o rejeicionismo duplo, mas com gradações de periculosidade:
- A Assimetria do Horror:
Embora critique o Lulopetismo por sua "cegueira econômica" e "anacronismo" (parar no tempo), ele estabelece uma distinção clara de natureza: o Bolsonarismo é tratado como uma patologia moral e institucional ("trapaças milicianas", "estupidez ideológica"). Para o diplomata, o PT é um erro de gestão e visão de mundo; o bolsonarismo é um erro de caráter civilizatório.
- O Estado Balofo e a Casta Política:
Almeida ataca o que chama de "Estado predatório". Sua crítica aos "penduricalhos" e à "burocracia perdulária" não vem de uma ideologia de mercado purista, mas de um pragmatismo fiscal. Ele vê o Brasil como um país onde quem produz (trabalhadores e empresários) é escravizado por uma casta que se locupleta da máquina pública. É uma visão que ecoa o conceito de "estatismo orgânico", onde o Estado serve a si mesmo, e não ao cidadão.
- A Rejeição ao Voto Nulo: O Realismo Político:
Sua posição sobre o voto nulo é crucial em 2026. Ele argumenta que a abstenção ou a neutralidade fortalece os "true believers" (os fanáticos). Ao defender o voto no "menos pior", ele faz um exercício de sobrevivência democrática: deve-se escolher aquele que, ao menos, permita que você continue sendo oposição. No seu entendimento, o governo anterior representava o risco do fim da própria dissidência.

3. Síntese do Posicionamento do Diplomata:
Paulo Roberto de Almeida escreve como um acadêmico e diplomata de carreira que se sente órfão de uma elite política qualificada. Sua crítica é "brutal" (como ele mesmo diz) porque ele não poupa os dois polos que dominam o cenário em maio de 2026.
- Contra o PT: Critica a economia baseada no gasto e o apoio a ditaduras de esquerda.
- Contra o Bolsonarismo: Rejeita o que considera uma ameaça à dignidade nacional e à democracia.
- Contra o Judiciário: Denuncia o sequestro do orçamento por elites togadas.

* A conclusão crítica: O autor descreve um Brasil "carente de estadistas", onde a eleição de 2026 não é sobre o "melhor projeto", mas sobre qual lado causará menos danos às instituições remanescentes. É um grito de frustração de quem vê o país preso em um ciclo de populismo e mediocridade.

Fonte (IA Gemini):


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Acordo Mercosul-UE, finalmente em vigor depois de 20 anos. Por que essa delonga monumental? - Paulo Roberto de Almeida, Madame IA

Acordo Mercosul-UE, finalmente em vigor depois de 20 anos. Por que essa delonga monumental?

Paulo Roberto de Almeida 

Vou ser claro, direto e brutal: se o acordo entre os dois blocos demorou 20 ANOS, a culpa incumbe INTEIRAMENTE AO PT!

Explico: 

Em 1994, o governo Clinton propôs uma Área de Livre Comércio das Américas, mais de cem anos depois da primeira tentativa, entre o Império e a República no Brasil. O PT, sempre contrário a qualquer tipo de liberalização, se opôs imediatamente, assim como queria dar calotes na divida interna e externa.

Os europeus reagiram em 1995, propondo, pelo Protocolo de Madri, um acordo de associação entre as duas uniões aduaneiras, tal como registrado na OMC, com a TEC do Mercosul em vigor.

Ocorre que o PT continuou sua guerrilha contra todas e quaisquer reformas ou acordos liberalizantes pelo Brasil ou no contexto do Mercosul. Persistiram durante anos, na retórica estridente.

Quando finalmente chegaram ao poder, em 2003, passaram a se empenhar imediatamente em sabotar as negociações paralelas, que tinham começado de fato em 1999.

Lula, com ativa ajuda de Chávez e de Kirchner, conseguiu implodir a Alca, na Cúpula de Mar Del Plata em 2005, acreditando, ingenuamente, que os europeus seriam mais bonzinhos e mais receptivos ao protecionismo brasileiro do que os americanos.

“Santa” ignorância: bastou a falta dessa outra “ameaça” da Alca, para que os protecionistas europeus também perdessem qualquer entusiasmo por um acordo similar; ficaram na sua esfera imediata de interesse e deixaram o processo birregional dormindo por longos anos, inclusive porque Brasil e Argentina queriam agricultura aberta, mas indústria e serviços fechados.


Corte: precisou Trump 1 começar a desmantelar o sistema multilateral de comércio para que os europeus, entre o martelo trumpista e a bigorna chinesa, retirassem o projeto de acordo da gaveta e concluissem um first draft em junho de 2019. Aí foi a vez do Bozo atrapalhar tudo outra vez, com suas políticas anti ambientais, anti DH , todo aquele horror antiglobalista, e muita burrice e grosseria, brigando contra noruegueses e alemães e contra o Fundo Amazônico.

Mais cinco anos de tergiversações, mas o velho PT não desistiu de se opor a certas liberalizações: indústria, como era sua obsessão protecionista, e compras governamentais, entre outras.


Finalmente, saiu, mas quase ameaçado novamente pelas condicionalidades absurdas dos europeus. Agora, vanos ter de esperar 10 ou 15 anos para o phasing out em vários setores. Enquanto isso, os chineses vão avançando nos dois mercados. Acho que os consumidores, no Mercosul e na UE, vão trocar de ofertantes, por razões óbvias.

Desde que não sejam os americanos, os petistas aceitam.

A vida continua…

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 1/05/2026

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Madame IA comentou: 

Paulo Roberto de Almeida atribui o atraso de 20 anos no acordo Mercosul-UE a escolhas ideológicas, culpando o PT pela resistência inicial à liberalização e o governo Bolsonaro por tensões ambientais. O autor argumenta que o protecionismo de ambos os blocos, agravado por disputas geopolíticas, permitiu que a China aumentasse sua influência comercial na região durante o período. A análise conclui que a demora transforma o acordo em um instrumento com impacto tardio, dada a atual fragmentação do comércio global.

Fonte (IA Gemini):


O Príncipe e seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

5293. “O Príncipe e o seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel?”, Brasília, 28 abril 2026, 4 p. Reflexões sobre os assessores presidenciais em matéria de política externa, com aproveitamento do trabalho inédito 4719. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 708, 1/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/o-principe-e-seu-conselheiro-em-politica-externa-o-que-diria-maquiavel/). Divulgado no Diplomatizzando (link: ). Relação de Publicados n.

O Príncipe e seu conselheiro em política externa: o que diria Maquiavel?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

        No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas...
        Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado.
        Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos.
        Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem.
        Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano.
        Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais.
        A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty.
        Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons...
        Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa.
        Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais.
        Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então).
        Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra).
        O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty.
        O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados.
Maquiavel provavelmente não aprovaria...

Brasília, 27 abril 2026, 4 p.
Relação de Publicados n. 1642.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Projeto Brasil: Edmar Bacha - O Brasil Real e a mediocridade evitável (1): Uma proposta de políticas públicas

 Uma contribuição ao Projeto Brasil

https://revistasera.info/projeto-brasil-integracao-competitiva-na-economia-globalizada/

Projeto Brasil Edmar Bacha

 

O Brasil Real e a mediocridade evitável[1]

Edmar Bacha

1. A fábula continuada

Em 1974, escrevi uma fábula sobre o reino de Belíndia, mistura de Bélgica com Índia, onde o crescimento econômico beneficiava apenas os mais ricos. Era uma alegoria sobre o Brasil da ditadura militar. Desde então, o país acumulou outros apelidos:  Banglabânia (pobreza de Bangladesh com estatismo da Albânia) de Mario Henrique Simonsen, Ingana (impostos da Inglaterra com serviços públicos de Gana) de Delfim Netto, Rumala (corrupção da Rússia com criminalidade da Guatemala) que me ocorreu nas manifestações de 2013, Brasa que evoquei durante as queimadas na Amazônia do governo Bolsonaro.

Cinquenta anos depois de Belíndia, a pergunta permanece: por que o Brasil ainda não cruzou a fronteira da renda alta? A resposta não está na cultura nem na geografia. Está em escolhas de política econômica que foram feitas — e que podem ser desfeitas.

2. Grande, desigual e fechado

Desde a Segunda Guerra, cerca de doze países escaparam da armadilha da renda média e alcançaram níveis de renda per capita comparáveis aos dos ricos: Coreia do Sul, Hong Kong, Israel, Singapura, Taiwan (via indústria); Espanha, Grécia, Irlanda, Portugal (via serviços); Austrália, Nova Zelândia, Noruega (via recursos naturais). Todos têm forte integração ao comércio internacional e são relativamente igualitários. A maioria é pequena.

O Brasil é o oposto: grande, profundamente desigual e fechado. O contraste com a Coreia do Sul é brutal: em 1960, a renda per capita brasileira era superior à coreana; hoje, a Coreia tem renda 2,5 vezes maior. O ponto de inflexão foram os anos 1970: enquanto o Brasil aprofundava a substituição de importações, a Coreia voltava sua indústria para a exportação e integrava suas empresas às cadeias globais.

O Brasil é uma das economias mais fechadas do mundo. As importações representam apenas 17% do PIB — ante 44% na Coreia e 40% na Alemanha. Parte do recente aumento do coeficiente importador deve-se à depreciação do real desde 2020 (que reduz o PIB em dólares), não a uma abertura real.

Esse fechamento é o sintoma central da doença brasileira. Sem exposição ao exterior, as empresas nacionais não acessam tecnologias de ponta, não ganham escala, não se especializam e não são forçadas a inovar. Resultado: produtividade do trabalho crescendo apenas 0,5% ao ano entre 1981 e 2024. Com essa taxa, jamais se alcançará a renda dos países ricos.

A proposta central é a integração competitiva ao comércio internacional, em três movimentos.

O primeiro é usar o acordo Mercosul–União Europeia como catalisador. O acordo está concluído após décadas de negociação. Ratificá-lo e implementá-lo com seriedade seria o gesto de maior credibilidade que o governo brasileiro poderia fazer para sinalizar a ruptura com o isolamento histórico. A partir daí, o Brasil seguiria o caminho aberto pelo Chile: uma rede crescente de acordos comerciais com o resto do mundo, tendo a adesão à OCDE como horizonte e âncora do processo.

O segundo é a redução progressiva, mas substantiva e pré-anunciada, especialmente das tarifas de importação sobre insumos e bens de capital. O protecionismo brasileiro não protege apenas produtos finais: ele encarece os próprios instrumentos de produção, elevando o custo de toda a cadeia produtiva nacional. Uma estratégia crível de abertura, anunciada com horizonte de cinco a dez anos, poria em marcha um processo de ajuste gradual que as empresas conseguiriam absorver.

O terceiro movimento é complemento natural dos dois anteriores: implementar a reforma tributária, reduzindo o “custo Brasil” que onera a indústria em relação aos demais setores. A redução complementar do custo do capital é objeto da análise a seguir.

3. O analista e o marciano revisitados: o nó fiscal

Há dez anos, na fábula “O Analista e o Marciano”, imaginei um marciano pousando em Brasília e ficando pasmo diante dos paradoxos da economia brasileira: juros reais altíssimos apesar de reservas internacionais abundantes; déficit público elevado, mas principalmente por causa dos próprios juros; inflação persistente apesar do baixo crescimento. O marciano concluiu — parafraseando Tom Jobim sem o saber — que o Brasil não era para extraterrestres.

Se o marciano pousasse em Brasília em 2026, sua confusão não seria menor. Encontraria um país que superou a hiperinflação há trinta anos, com inflação baixa ainda que não na meta e reservas internacionais confortáveis. E se depararia com taxas de juros reais de 7,4% ao ano para títulos do governo de dez anos — uma das mais altas do mundo.

Contatado pelo marciano, um analista local lhe explicaria que os juros não caem porque o mercado desconfia da trajetória fiscal. A dívida bruta do governo geral já chega a 80% do PIB e segue crescendo. O marciano perguntaria por que a dívida cresce mesmo quando o governo aumenta impostos e contém despesas discricionárias. A resposta estaria no coração do problema: as despesas obrigatórias crescem automaticamente por força de vinculações constitucionais, da indexação dos benefícios previdenciários ao salário mínimo e da proliferação de gastos tributários — independentemente da receita, da conjuntura e da vontade de qualquer governo.

O marciano entenderia então que o Brasil montou uma máquina de gasto automático que nenhum orçamentista consegue deter apenas com boa vontade. Sem desmontar essa máquina — sem desindexar, desvincular e desconstitucionalizar as despesas —, o ajuste fiscal é uma tarefa de Sísifo, que nunca se cumpre. E enquanto o mercado entender assim, os juros permanecerão altos, alimentando o déficit que se quer combater. A carga tributária brasileira já se situa em torno de 32% do PIB — comparável à de nações europeias que oferecem serviços públicos de qualidade muito superior. Não há espaço para aumentar impostos. O caminho é rever a composição da despesa: desvincular receitas, desconstitucionalizar gastos e reduzir benefícios tributários, subordinando o crescimento das despesas ao crescimento da receita. A boa notícia é que — como já ocorreu em resposta ao teto de gastos no governo Temer — um ajuste fiscal crível e substantivo pelo lado dos gastos poderá derrubar a taxa real de juros para níveis civilizados.

Mas o ajuste fiscal, por si só, não transforma o Estado — apenas o encolhe. O que o Brasil precisa, em paralelo, é de uma reforma de produtividade do setor público, centrada no RH da máquina pública. Essa reforma não exige emenda constitucional. A Constituição de 1988 já prevê a demissão por baixo desempenho — o dispositivo foi introduzido em 1998 e nunca foi regulamentado. Grande parte das distorções está na legislação infraconstitucional: as centenas de carreiras sem racionalidade funcional, as progressões automáticas por tempo de serviço e não por mérito, a impossibilidade de mover servidores entre órgãos com excesso e órgãos com falta de pessoal. Uma lei complementar federal, com condicionalidades para estados e municípios nos auxílios da União, já seria suficiente para iniciar esse processo. O objetivo não é cortar salários nem acabar com a estabilidade — é fazer o Estado entregar o que dele se espera: serviços de qualidade para quem mais precisa deles.

Sem reforma da estrutura do gasto e sem reforma do RH, a perspectiva é de paralisia governamental progressiva. A partir de 2027, ficará evidente que o orçamento público brasileiro não consegue mais financiar simultaneamente a previdência, o funcionalismo, os juros da dívida e qualquer investimento ou política social nova. A analogia pertinente é com o período que antecedeu a hiperinflação dos anos 1980 — não que a hiperinflação vá estar de volta, mas que a paralisia governamental, sem reformas, deixa de ser risco para virar destino.

4. A floresta como ativo estratégico

A Amazônia é um ativo brasileiro que a análise econômica sistematicamente subestima. Com cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados, a floresta amazônica corresponde a 59% do território nacional e abriga a maior biodiversidade do planeta. Num mundo que caminha para a multipolaridade e enfrenta riscos climáticos crescentes, esse ativo não é ornamento geográfico — é um ativo estratégico de escala global.

A economia mundial em transição para a multipolaridade evoluirá em torno de três escassezes crescentes: carbono, água e biodiversidade. O Brasil detém uma fração significativa das reservas mundiais das três. A Amazônia regula o ciclo hidrológico de toda a América do Sul, incluindo as chuvas que irrigam a agropecuária do Centro-Oeste e abastecem os reservatórios do Sudeste. Destruí-la não é apenas um crime ambiental — é uma decisão econômica suicida.

A boa notícia é que a floresta em pé é crescentemente mais valiosa do que a floresta derrubada. Os mercados de carbono, a bioeconomia — que vai de cosméticos e fitoterápicos a proteínas alternativas e novos materiais —, o ecoturismo e os acordos de preservação financiados por países ricos criam fluxos de renda compatíveis com a conservação. A região amazônica pode tornar-se, com as políticas certas, um polo de desenvolvimento econômico sustentável e de alta tecnologia, em vez de fronteira de desmatamento.

Isso conecta diretamente ao posicionamento externo do Brasil. Num cenário multipolar, o Brasil pode tornar-se referência global em energia limpa, alimentos e minerais estratégicos — mas somente se associar essa liderança à preservação e ao uso inteligente da floresta. Chegar à mesa das grandes negociações internacionais sobre clima e biodiversidade como guardião da Amazônia é um ganho diplomático sem equivalente.

  1. As quatro integrações

A experiência do México serve de advertência. O México fez a abertura comercial — o NAFTA, a partir de 1994 — mas não fez a integração interna. O Norte do país se integrou à economia americana; o Sul permaneceu para trás. O setor formal se dissociou do informal. As grandes empresas se separaram das pequenas e médias. A distribuição de renda se deteriorou nas dimensões regional e social. O resultado é que o México, apesar de aberto ao comércio, não superou a armadilha da renda média.

A conclusão é que, em países grandes e desiguais, a abertura, por si só, não basta. São necessárias simultaneamente quatro integrações: externa, entre o país e a economia mundial; regional, entre as diferentes partes do território nacional; social, entre os brasileiros de diferentes condições de renda, educação e acesso a serviços; e ambiental, entre o desenvolvimento econômico e a preservação do capital natural.

A integração social não depende de mais gasto, mas de melhor desenho institucional das políticas públicas. O Brasil construiu, desde a redemocratização, um amplo sistema de proteção social — com avanços reais na redução da pobreza extrema. Mas esse sistema opera com baixa eficiência: o volume de recursos cresceu significativamente, sem que os resultados tenham avançado na mesma proporção.

O ponto central não é apenas quanto se gasta, mas a “potência” da política social — isto é, sua capacidade efetiva de reduzir pobreza e desigualdade. Essa potência é reduzida por problemas conhecidos: erros de focalização, fragmentação de programas, regras de elegibilidade mal calibradas e ausência de avaliação sistemática de resultados. O envelhecimento populacional, por outro lado, impõe a necessidade de uma nova reforma previdenciária, não apenas paramétrica mas que incorpore elementos de capitalização. Sem enfrentar essas questões de desenho institucional, aumentos adicionais de gasto tendem a produzir retornos rapidamente decrescentes.

A educação básica permanece o eixo estruturante da integração social. O Brasil já universalizou o acesso, mas não a aprendizagem. O problema central deixou de ser a exclusão da escola e passou a ser a exclusão dentro da escola. As evidências são claras: o retorno social mais elevado está na primeira infância, onde intervenções precoces têm impacto duradouro sobre o desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Já o ensino médio precisa ser reorganizado — para oferecer formação ao mesmo tempo científica e técnica, compatível com uma economia mais aberta e intensiva em conhecimento.

No ensino superior, domina o credencialismo — o “canudo” socialmente ambicionado, seja pela regulamentação excessiva das profissões, seja pela sinalização de capacidade individual, seja pelo símbolo de ascensão social. A reforma precisa atacar as dimensões regulatória e sinalizadora, mas a dimensão simbólica impõe um limite de velocidade: microcredenciais e formação técnica só ganharão prestígio quando o mercado de trabalho os absorver de forma visível. E aí está o nó: o crescimento econômico é condição de possibilidade das próprias reformas educacionais.

A segurança pública é a outra face da integração social. O custo econômico da violência no Brasil — estimado no Atlas da Violência do IPEA em mais de 5% do PIB — funciona como um imposto regressivo que recai desproporcionalmente sobre os mais pobres e bloqueia o desenvolvimento das regiões mais vulneráveis. A fragmentação institucional e a ausência de coordenação entre políticas impedem avanços mais consistentes. Reduzir a violência não é apenas uma questão social: é condição necessária para o crescimento econômico sustentado.

Por fim, há uma conexão direta entre políticas sociais e o nó fiscal. Um sistema social baseado em regras rígidas de indexação, vinculações automáticas e baixa avaliação de resultados tende a expandir gastos sem elevar proporcionalmente seu impacto. Sem reformar esses mecanismos — tornando o gasto mais flexível, focalizado e orientado a resultados —, não haverá ajuste fiscal duradouro. E, sem estabilidade fiscal, as próprias políticas sociais perdem eficácia.

  1. Democracia, fragmentação política e a liderança necessária

Por que essas reformas não acontecem, se são conhecidas e necessárias? A resposta está na economia política, não na economia. As reformas que o Brasil precisa ameaçam interesses organizados e bem posicionados: setores que vivem da proteção tarifária, segmentos do funcionalismo resistentes à avaliação de desempenho, grupos políticos que extraem renda de um orçamento rigidamente vinculado. Esses interesses não são ilegítimos em si — são a expressão normal da democracia. O problema é quando capturam o Estado e bloqueiam a ação coletiva.

Parte desse bloqueio decorre também do desenho do sistema político. A fragmentação partidária extrema, combinada com regras eleitorais que enfraquecem o vínculo entre representantes e eleitores, amplia o poder de minorias organizadas e dificulta a formação de maiorias programáticas estáveis. O resultado é um sistema que responde mais a pressões distributivas do que a estratégias de desenvolvimento. Reformas que reduzam o número efetivo de partidos, fortaleçam a responsabilidade política dos eleitos e aumentem a previsibilidade das coalizões — como a adoção de um sistema distrital misto e o aprofundamento das cláusulas de desempenho — poderiam melhorar a capacidade do país de processar agendas de interesse geral.

A história brasileira recente oferece, entretanto, um exemplo de que a ruptura com equilíbrios disfuncionais é possível: o Plano Real. A comparação com a situação atual é instrutiva em dois sentidos.

Primeiro, quanto às ideias. Em 1993, as ideias necessárias para a estabilização estavam prontas. O diagnóstico da inércia inflacionária, o instrumental da URV e a estratégia de coordenação de expectativas já haviam sido desenvolvidos. Algo análogo vale para o Brasil de hoje: o diagnóstico da abertura necessária, da reforma do gasto e das quatro integrações não requer mais elaboração — requer execução.

Segundo, e mais importante, quanto à liderança. O Plano Real não resultou apenas da maturidade das ideias, mas da capacidade de viabilizá-las politicamente. Construir apoio no Congresso, enfrentar resistências e convencer a sociedade exigiu um tipo específico de empreendedorismo político — raro, mas decisivo. Essa capacidade, no entanto, não é independente das instituições: sistemas políticos mais simples, com maior clareza de responsabilidade e menor fragmentação, tendem a facilitar a emergência de lideranças reformistas e a sustentação de coalizões baseadas em programas, e não apenas na distribuição de recursos.

Sem liderança política, as reformas não avançam. Mas, sem ajustes institucionais que reduzam a fragmentação e reforcem a responsabilidade dos representantes, a própria liderança tende a ser episódica e insuficiente. O risco, nesse caso, é a reprodução de um equilíbrio de baixo crescimento, gasto rígido e reformas adiadas.

A democracia é o maior trunfo do Brasil. Com ela, fizemos a transição pacífica da ditadura, superamos a hiperinflação e construímos políticas sociais relevantes. O desafio agora é fortalecer suas engrenagens — políticas e institucionais — para que sejamos capazes de sustentar um projeto de longo prazo: uma economia aberta, socialmente integrada, fiscalmente equilibrada e ambientalmente responsável. A busca pelo Brasil Real segue em frente.

Edmar Bacha é economista, fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças.

[1] Texto preparado para o Projeto Brasil, iniciativa do Instituto Ética e Democracia,  Ateliê de Humanidades e Movimento Roda Democrática.

 

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