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sábado, 14 de março de 2026

O ESTREITO DE ORMUZ - Luiz Roberto Bendia (Canal Geo Discussões de Marcelo Rossi)

O ESTREITO DE ORMUZ
Luiz Roberto Bendia

Do canal Geo Discussões de Marcelo Rossi
12/03/2026

Todos pensam que o Irã pode fechar o Estreito de Ormuz. Isso está errado. O Irã não o fechou. Foi Londres. Não o governo.
As seguradoras.
A artéria petrolífera mais importante do mundo quase parou de fluir.
Deixe-me explicar.
Todos os dias, cerca de 107 navios cargueiros normalmente passam por ali.
Linhas vitais de energia para a economia global.
Na semana passada?
Apenas 19 navios cruzaram.
Um colapso de 81% no tráfego. Sem mísseis.
Apenas uma decisão: as seguradoras retiraram a cobertura.
Eis como o transporte marítimo global realmente funciona.
Cerca de 90% dos navios do mundo são segurados por 12 clubes de seguros marítimos. Esses clubes dependem dos mercados de resseguros — a maioria sediada em Londres.
Quando o risco de guerra aumenta, as resseguradoras podem retirar a cobertura.
E quando isso acontece:sem seguro!!!
→ os navios não podem navegar
→ o comércio para.
Um petroleiro de US$ 150 milhões não navegará sem seguro. Portanto, o Estreito de Ormuz não foi bloqueado pela marinha.
Foi bloqueado por uma planilha.
Agora, a verdadeira questão:
Quem está sendo realmente estrangulado?
Três atores.
1. Irã
Quase todas as exportações de petróleo iranianas passam por Ormuz. Se o transporte marítimo entrar em colapso o Irã não poderá exportar. Sua receita de guerra desaparece. Ironicamente, a arma petrolífera prejudica primeiro o próprio Irã.
2. China
A China é o país mais exposto do mundo a uma interrupção em Ormuz.
* Cerca de 40% das importações chinesas de petróleo bruto passam pelo estreito
* Cerca de 90% das exportações de petróleo iranianas são destinadas à China
* Os carregamentos de GNL do Catar para a China precisam atravessar Ormuz.
Portanto, se essa rota congelar, a segurança energética da China começa a ser abalada. É por isso que Pequim rapidamente pediu a desescalada.
3. Todo o Golfo
* Arábia Saudita
* Emirados Árabes Unidos
* Catar
* Kuwait
* Iraque
Suas exportações de petróleo dependem disso.
O Estreito de Ormuz transporta cerca de 20 milhões de barris por dia. Não há rota alternativa.
E é aqui que o sistema financeiro britânico entra discretamente na história.
Durante séculos, Londres dominou o mercado de seguros marítimos. Dos mercados de Lloyd's ao resseguro global. Isso significa que quando Londres decide que o risco é muito alto, o transporte marítimo global congela. Nenhum bloqueio é necessário.
Isso ajuda a Rússia?
A curto prazo, sim. Se as exportações do Golfo diminuírem:
* Os preços do petróleo sobem
* O petróleo bruto russo se valoriza
* A Ásia pode comprar mais petróleo russo
Preços mais altos significam mais dinheiro para Moscou.
E a Índia?
A Índia importa cerca de 85% do seu petróleo. Grande parte vem do Oriente Médio. Se a instabilidade no Estreito de Ormuz persistir:
* Os custos de frete aumentam
* Os preços do petróleo disparam
* A pressão inflacionária aumenta.
A vantagem da Índia é a diversificação.
Ela compra de:
* Produtores do Golfo
* Rússia
* Outros fornecedores.
Mas se o Estreito de Ormuz permanecer instável, todos pagarão mais.
Qual a maior lição aqui?
A maioria das pessoas pensa que a geopolítica é controlada por:
* Presidentes.
* Generais.
* Mísseis.
Mas às vezes os verdadeiros guardiões são os atuários que executam modelos de risco em Londres. Eles não disparam armas. Eles precificam a probabilidade. E quando os números não fecham o comércio global simplesmente para.
Se você quer entender a geopolítica moderna, lembre-se disto: o mundo não é mais controlado apenas por governos.
Ele é controlado por sistemas.
* Sistemas de seguros.
* Sistemas de energia.
* Sistemas financeiros.
Mísseis criam manchetes. Modelos de risco decidem o que realmente se move.
*****


Uma peça de conhecimento histórico sobre o Islã: - Gustavo Binenbojm

Uma peça dd conhecimdnto histórico sobre o Islã:

 Gustavo Binenbojm (UERJ) escreveu:

O Islã Foi a Civilização Mais Avançada da Terra… Até o Dia em Que Matou o Próprio Cérebro em 1095

Imagine o Cairo do século XII. O Nilo ainda carregava as memórias dos faraós, mas o ar que se respirava era puro intelecto. Nas madrasas e nas bibliotecas de Fustat, o árabe não era apenas a língua do Alcorão, era a língua da humanidade civilizada. Era o que o inglês é hoje: o idioma em que se debatia se o mundo era eterno ou criado, se a alma era imortal ou se dissipava, se Deus obedecia às leis da lógica ou as transcendia. E foi nesse árabe cristalino que um judeu sefardita chamado Moisés Maimônides, fugindo das perseguições almóadas, escreveu o Guia dos Perplexos, não em hebraico, não em latim, mas em árabe impecável.

Por quê?

Porque o árabe era a língua de Ibn Sina (Avicena), de Al-Farabi, de Ibn Rushd (Averróis). Era a língua dos gigantes. Maimônides não escrevia para os muçulmanos. Escrevia com eles, contra algumas de suas ideias, mas no mesmo palco intelectual. O Islã, naquela época, era a civilização do conhecimento. O Ocidente cristão ainda gaguejava em mosteiros frios. O Islã iluminava o mundo.

Depois, tudo desandou.

E o responsável por virar a chave não foi um bárbaro invasor. Foi um dos maiores pensadores que o Islã já produziu: Abu Hamid Al-Ghazali.Em 1095, aos 37 anos, o homem mais respeitado de Bagdá, professor da Nizamiyya, a Harvard do Islã medieval, sofreu uma crise espiritual que o destruiu por dentro. Abandonou tudo. Trancou-se em solidão. E escreveu “A Incoerência dos Filósofos”. Com uma inteligência afiada como lâmina de Damasco, Al-Ghazali desmantelou a ponte entre fé e razão que Avicena havia construído com tanto cuidado. Deus, para ele, não era um relojoeiro aristotélico que seguia regras. Deus era o único agente real do universo. O fogo não queimava o algodão por causa de uma lei natural, queimava porque, a cada milésimo de segundo, Alá decidia queimar. A causalidade era ilusão. A filosofia, heresia velada. A razão, uma serva perigosa. Al-Ghazali não era um fanático ignorante. Era um pensador atormentado que escolheu a certeza divina em vez da dúvida científica.

E foi exatamente aí que a porta do ijtihad, o esforço racional independente, começou a se fechar para sempre. A partir de Al Ghazali, a decadência foi constante, As sociedades islâmicas nunca mais se recuperaram, e por isso sem dúvida alguma ele é um dos personagens mais influentes da história. O Irã de hoje, O wahabismo saudita, Al Qaeda, ISIS, Hamas, Hezbollah e tantos outros movimentos, todos filhos de Al Ghazali. O Islã, que havia sido o motor do progresso humano, trocou o laboratório pela mesquita, a pergunta pela resposta pronta, o perplexo pelo dogmático. A Era de Ouro não morreu de morte natural. Foi assassinada por dentro, por sua própria filosofia.

Quinhentos anos depois, o Império Otomano, último suspiro do califado desabou como um castelo de areia. Em 1924, o mundo muçulmano acordou nu. Pobre. Colonizado. Tecnologicamente analfabeto. A pergunta que ecoou de Istambul a Cairo, de Bagdá a Karachi, foi como um soco no estômago coletivo: “Se temos a fé verdadeira, por que estamos perdendo para os infiéis?” Era o trauma da inferioridade civilizacional em sua forma mais pura e devastadora. E foi nesse abismo existencial que nasceu o monstro que hoje chamamos de islamismo radical, não mais uma religião, mas um culto político totalitário. Hassan al-Banna fundou a Irmandade Muçulmana em 1928 com uma tese simples e venenosa: o Islã perdeu sua força porque se deixou contaminar pela cultura ocidental. A solução? Purificação. Retorno às origens, mas não às origens de Avicena e Maimônides. Às origens de Al-Ghazali radicalizado. Sayyid Qutb, o grande teórico da Irmandade, deu o passo definitivo e mortal. Para ele, o inimigo não era mais só o colonialismo britânico ou francês. O inimigo era o individualismo liberal.
O Ocidente havia “privatizado Deus”, colocado o ego humano no centro do universo e transformado a sociedade em um supermercado de vontades egoístas.

Israel, para Qutb, não era apenas um Estado judeu incômodo. Era o posto avançado infeccioso desse vírus que impedia o retorno ao califado coletivo, ao ummah indivisível onde o indivíduo desaparece diante da vontade divina. Nascia ali o Islã como ideologia de Estado. “O Islã é a solução” virou o novo slogan, o mesmo que substituiu o pan-arabismo de Nasser depois da humilhação catastrófica de 1967. Em seis dias, o nacionalismo secular árabe morreu no deserto do Sinai. No vácuo ideológico, o pan-islamismo tomou conta. E com ele veio a armadilha fatal que garante o fracasso perpétuo: a política da culpa.

O clássico livro “Good to Great” de Jim Collins, resume com precisão cirúrgica o mecanismo que transforma uma sociedade em doente terminal: as empresas de elite olham no espelho quando fracassam, assumem responsabilidade, corrigem o rumo, crescem. Olham pela janela apenas para celebrar vitórias. O islamismo radical, porém, inverteu o espelho. Transformou-o em janela. Cada fracasso econômico, cada fila de desempregados, cada repressão brutal, cada cérebro que foge é imediatamente atribuído ao “inimigo externo”: sionistas, ocidentais, infiéis, “entidade sionista”. Nunca ao próprio espelho. Eles ainda não entenderam que fizeram a escolha errada, a escolha histórica de ter matado Avicena em nome de Al-Ghazali.

É exatamente por isso que, com toda razão, dizemos que o antissemitismo crescente não é apenas um ódio antigo reciclado, é o sintoma mais claro de uma sociedade doente e problemática. Quando uma civilização perde a capacidade de olhar para dentro e assumir a própria responsabilidade na geração dos seus problemas, ela começa a culpar terceiros de forma compulsiva. E aí está condenada: nunca resolverá nada. Porque o problema não está fora. Está no espelho que ela se recusa a encarar. O antissemitismo de Estado, nesse sentido, não é causa, é consequência e profecia de declínio. Enquanto o ódio ao judeu servir de álibi perfeito, a nação nunca consertará o que realmente a mata por dentro.

Países que abraçaram esse culto político, Irã, Afeganistão, Sudão, Somália, Gaza sob Hamas, Líbano sob Hezbollah viraram museus vivos do fracasso. Economias em ruínas. Cérebros em fuga. Sociedades que produzem ódio em vez de inovação. O regime iraniano é o exemplo mais puro dessa tragédia em estado terminal. Uma revolução que, para sobreviver, precisa de um inimigo eterno. Como Micah Goodman descreve: uma revolução vitoriosa vira “chata”, burocracia, corrupção, lixo nas ruas, economia em colapso. Israel é a “bateria” que mantém essa revolução carregada. Sem Israel, o aiatolá teria de olhar no espelho e explicar por que o Irã é pobre, isolado e sangrando em protestos de mulheres sem véu. Com Israel, basta apontar para a “entidade sionista” e o ódio mantém a máquina girando. É a gestão perfeita do ressentimento. É a política da culpa elevada à categoria de religião de Estado.

Estamos vivendo, neste exato momento, o “1967 do pan-islamismo”. Assim como o sonho de Nasser morreu em seis dias, o sonho de que o radicalismo religioso islâmico levaria à vitória militar está morrendo agora, diante dos escombros do Hezbollah, do Hamas e do QG de Khamenei. Quando esses proxies forem desmantelados, a ideia de que “o Islã é a solução” militar também morrerá. E o mundo muçulmano terá de confrontar novamente a pergunta que Al-Ghazali ajudou a enterrar em 1095.

Mas há uma contradição ainda mais profunda, quase poética. Os inimigos de Israel sempre subestimaram sua força porque acreditaram na narrativa de que o Ocidente e Israel eram “moles”. Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah, chamava Israel de “teia de aranha”: fisicamente forte (bombas, tecnologia), mas socialmente fraco, mimado pelo conforto liberal. Ele acreditava que bastaria um pouco de sangue para que os israelenses fugissem para Miami.
Estavam invocando, sem saber, a teoria de Ibn Khaldun, o grande historiador árabe do século XIV: a Asabiyyah, a coesão tribal primordial, sempre vence impérios ricos e decadentes. O que Nasrallah não entendeu é que Israel realizou o impossível sociológico: tornou-se uma sociedade híbrida. Liberal o suficiente para criar o Iron Dome e o Waze, tribal o suficiente para que, em horas, 300 mil civis largassem suas vidas e corressem para o front, individualista o suficiente para questionar tudo, coeso o suficiente para morrer uns pelos outros. Israel é ao mesmo tempo moderno e antigo, democrático e clã. Uma belíssima anomalia histórica.

A raiz dessa anomalia está na humildade epistemológica judaica. Enquanto o Islã radical herdou o dogma absoluto de Al-Ghazali (e o dualismo persa zoroastriano do Irã: Luz pura contra Trevas puras, Bem contra Mal metafísico que deve ser erradicado), o judaísmo preservou a tradição talmúdica onde até as opiniões perdedoras são registradas com respeito. Hierarquicamente a pergunta sempre está acima da resposta. Incerteza acima da certeza. Ciência como subproduto da dúvida sagrada. Se você acha que já possui a Verdade Divina absoluta, você para de pesquisar. Se você é humilde diante da complexidade da realidade, você constrói o Iron Dome.

O Irã, ao contrário, vive preso ao dualismo persa ancestral: o mundo só ficará “puro” quando o Mal (Israel, América) for exterminado. Mas todo movimento que busca pureza absoluta termina em tirania e sangue, porque a realidade humana é, por definição, impura, contraditória, complexa. O judaísmo, ao contrário, aceita o mal como ausência de bem, algo a ser gerenciado, não erradicado em holocausto utópico. É por isso que o contraste é tão brutal. No mesmo momento em que mísseis iranianos cruzavam o céu de Israel durante o Sucot de 2024, os israelenses estavam sentados em sua sucah, aquela cabana frágil que simboliza vulnerabilidade. A sucah balançava com o vento. Mas dentro dela havia uma força que nem Al-Ghazali, nem Qutb, nem Nasrallah conseguiram compreender: a força de quem parou de se sentir vítima e voltou a ser ator da História. A união não era mais de trauma (como em 7 de outubro de 2023). Era a “união do sucesso”. A união de quem recuperou a iniciativa.

O Islã radical, ao abraçar o culto político da culpa e da pureza, condenou-se ao declínio perpétuo. Israel, ao preservar a humildade da pergunta e a coesão do clã, tornou-se a anomalia que desmente todas as leis da sociologia histórica de Ibn Khaldun.

E é aqui, neste exato instante da História, que o coração do Oriente Médio parece bater mais forte. Porque o que está em jogo não são apenas fronteiras ou foguetes. É o futuro da alma humana nesta região. De um lado, uma visão de mundo que escolheu o espelho quebrado, o ódio como combustível e a pureza como prisão. Do outro, uma pequena nação que, contra todas as probabilidades, escolheu manter o espelho inteiro: olhar para dentro, assumir erros, questionar, inovar, amar a vida com todas as suas imperfeições.

Que o mundo muçulmano encontre, um dia, a coragem de recolocar aquele espelho no lugar. Que ele volte a ouvir a voz de Avicena e Maimônides, em vez de Qutb e Al-Ghazali. Que ele entenda que a verdadeira grandeza não nasce do ódio ao outro, mas da honestidade consigo mesmo. Porque só então o paraíso perdido poderá, talvez, ser reencontrado. Não como sonho utópico de califado, mas como realidade viva: uma civilização que escolhe o futuro em vez do ressentimento, a pergunta em vez do dogma, a vida em vez da morte. A resposta, como sempre, está no espelho que o Islã radical quebrou em 1095, e que, até hoje, não teve coragem de recolocar no lugar. Que ele o recolha. Antes que seja tarde demais. Antes que o coração do Oriente Médio pare de bater de vez.


sexta-feira, 13 de março de 2026

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será? - Paulo Roberto de Almeida

Lista dos artigos oferecidos em colaboração à revista Será?

Paulo Roberto de Almeida
Compilação efetuada em 13/03/2026
(dos mais recentes aos mais antigos)
Postada no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/lista-dos-artigos-oferecidos-em.html). Também disponíveis no site da revista Será? (link: https://revistasera.info/author/paulo-roberto-de-almeida/).

1627. “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, revista digital Será? (ano xxiv, n. 701, 13/03/2026; link: https://revistasera.info/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada-a-declarada/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/03/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/a-submissao-ao-imperio-da-envergonhada.html). Relação de Originais n. 5240.

5233. “De uma mudança de regime a uma outra...”, Brasília, 6 março 2026, 4 p. Texto sobre a guerra de Trump contra o Irã dos aiatolás. Deveria ter sido publicado na revista Será? (n. 700, 7/03/2026), mas foi oferecido fora do tempo hábil para sua editoração e ficou de fora da série. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/de-uma-mudanca-de-regime-uma-outra.html).

1626. “Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional”, Revista Será? (xiv, n. 699, 27/02/2026, link: https://revistasera.info/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso-memoravel-sobre-o-direito-internacional/); republicado no blog Diplomatizzando (27/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso.html). Relação de Originais n. 5227.

1625. “As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?”, Brasília, 18 fevereiro 2026, 4 p. Contribuição à revista Será? (ano xiv, n. 698, 20/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma-ordem-global-funcional/); reproduzido no blog Diplomatizzando (20/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma.html). Relação de Originais n. 5221.

1622. “A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas”, revista Será? (ano xiv, n. 696, 13/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas-coisas-ainda-nao-resolvidas/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Originais n. 5213.

1621. “O lado mais constante da nação brasileira: o Estado extrator”, revista Será? (ano xiv, n. 695, 06/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao-brasileira-o-estado-extrator/); reproduzido no blog Diplomatizzando (06/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao.html). Relação de Publicados n. 5208.

1619. “Estaríamos outra vez em face de um novo 'fim da História'?", revista Será? (ano xiv, n. 694, 30/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/); reproduzido no blog Diplomatizzando (30/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo.html). Relação de Originais n. 5172.

1618. “Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial”, revista Será? (ano xv, n. 693, 23/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-a-opcao-pelo-caos-um-ano-de-destruicao-da-ordem-mundial/); reproduzido no blog Diplomatizzando (23/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-opcao-pelo.html). Relação de Originais n. 5195.

1617. “O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos”, revista Será? (ano xiv, n. 692, 16/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-e-a-morte-do-multilateralismo-tal-como-o-conheciamos/); reproduzido no blog Diplomatizzando (16/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/a-morte-do-multilateralismo-como-o.html). Relação de Originais n. 5183.

1616. “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, revista Será? (ano xiv, n. 691, 09/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica-da-desordem-de-trump/); reproduzido no blog Diplomatizzando (9/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica.html). Relação de Originais n. 5175.

1615. “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/); reproduzido no blog Diplomatizzando (2//01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e.html ). Relação de Originais n. 5155.

1612. “O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo”, revista Será? (ano xiv, n. 689, 26/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026-no-pais-e-no-mundo/);
republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026.html). Relação de Originais n. 5153.

1611. “O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?”, revista Será? (ano xiv, n. 688, 19/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-marcha-para-a-direita-retornamos-cem-anos-no-passado/); republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-mundo-marcha-para-direita-retornamos.html). Relação de Originais n. 5138.

1608. “A estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental”, revista Será? (ano xiv, n. 687, Recife, 12 de dezembro de 2025); link: https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do.html). Relação de Originais n. 5133.

1607. “O mundo em três tempos: 1925, 1945, 2025”, revista Será? (ano xiv, n. 686, Recife, 5 de dezembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-e-2025/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-2025.html). Relação de Originais n. 5128.

1603. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são e como podem ser, 2”, revista Será? (ano xiv, n. 685, Recife, 28 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil_28.html). Relação de Originais n. 5110.

1602. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são, como podem ser, 1/2”, revista Será? (ano xiv, n. 684, Recife, 21 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-1-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil.html). Relação de Originais n. 5109.

1601. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html). Relação de Originais n. 5104.

1600. “Trump, ou a diplomacia pelo método confuso”, revista Será? (ano xiv, n. 682, 31/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/trump-ou-a-diplomacia-pelo-metodo-confuso/); divulgado no blog Diplomatizzando (31/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/trump-ou-diplomacia-pelo-metodo-confuso.html). Relação de Originais n 5098.

1599. “Opções da diplomacia brasileira num mundo em desordem”, revista Será? (ano xiv, n. 681, 24/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num-mundo-em-desordem/); divulgado no blog Diplomatizzando (24/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num.html). Relação de Originais n. 5097.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5244, 13/03/2026

Revista Será?, n. 701, 13/03/2026, Índice

ANO XIV Nº701 - A SEMANA NA REVISTA SERÁ?
Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº701

Recife, 13 de março de 2026.
Caro leitor,

Nesta nova edição da Revista Será?, reunimos reflexões que atravessam a política internacional, os dilemas da democracia brasileira e os impasses morais do nosso tempo. São textos que convidam o leitor a pensar com independência, a duvidar das narrativas fáceis e a confrontar as tensões que moldam o presente. Entre guerras distantes, crises diplomáticas, polarizações domésticas e memórias políticas, nossos autores ajudam a iluminar os fios que conectam poder, verdade e responsabilidade pública.

Abrimos com “O alucinado no Salão Oval”, editorial da Revista Será?, que examina os impactos da política externa de Donald Trump sobre a ordem internacional, destacando o desmonte de acordos multilaterais, o aumento das tensões geopolíticas e as implicações dessas escolhas para a América Latina e para o Brasil.

Em “A Guerra Distante”, Johnny Jara Jaramillo mostra como conflitos aparentemente remotos — como um ataque ao Irã — revelam as engrenagens do sistema internacional, expondo a fragilidade das instituições globais e os efeitos econômicos e estratégicos que alcançam países periféricos como o Brasil.

Em “O Brasil precisa de uma alternativa à mediocridade”, Sérgio C. Buarque analisa como a polarização entre lulismo e bolsonarismo empobrece o debate público e bloqueia reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento, defendendo a construção de uma agenda política mais ousada, capaz de recolocar o país no caminho da educação, da inovação e do crescimento.

Em “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, Paulo Roberto de Almeida revisita a história das relações entre Brasil e Estados Unidos, discutindo as ambiguidades do alinhamento brasileiro e os riscos de uma política externa capturada por lideranças personalistas e interesses alheios à soberania nacional.

No ensaio “A Excitação das Guerras e a Frase de Clausewitz”, Paulo Gustavo retorna à famosa tese de que a guerra seria a continuação da política por outros meios para questioná-la à luz da experiência humana, sugerindo que os conflitos armados frequentemente negam a própria política ao substituir o diálogo pela força.

Em “A Arte de Mentir”, José Paulo Cavalcanti Filho examina a mentira em suas dimensões ética e jurídica, tomando o escândalo Watergate como referência para discutir como a falsidade no poder corrói instituições e pode tornar um governante indigno do cargo.

Já em “Triste Sina do Partidão”, Abraham B. Sicsú percorre a trajetória do histórico PCB, o “Partidão”, entre memória pessoal e reflexão política, iluminando sua influência sobre intelectuais e movimentos sociais e os dilemas enfrentados pela esquerda brasileira após o colapso do comunismo soviético.

Última Página, a Charge de Elson

Sobre o barril,
dois sorrisos se equilibram —
o mar guarda mortos.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

O alucinado no Salão Oval - Editorial
A Guerra Distante - Johnny Jara Jaramillo
O Brasil precisa de uma alternativa à mediocridade - Sérgio C. Buarque
A submissão ao império: da envergonhada à declarada - Paulo Roberto de Almeida
A Excitação das Guerras e a Frase de Clausewitz - Paulo Gustavo
A Arte de Mentir - José Paulo Cavalcanti Filho
Triste Sina do Partidão - Abraham B Sicsú
Última Página, a charge de Elson

quarta-feira, 11 de março de 2026

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL - Embaixador Jorio Dauster

O FORTALECIMENTO DA BASE INDUSTRIAL DE DEFESA E SEGURANÇA COMO EIXO DA SOBERANIA E DO DESENVOLVIMENTO NACIONAL


O embaixador Jorio Dauster efetuou uma palestra em 10/03/2026 no Departamento de Defesa e Segurança da FIESP sobre as vulnerabilidades do Brasil e a necessidade de urgente fortalecimento da Base Industrial de Defesa. [PRA: o link para o texto mencionado logo ao início figura ao final.]



Em carta aberta à nação com o título de “Brasil, país indefeso”, publicada no número de dezembro da revista Inteligência/Insight, eu e o embaixador Rubens Barbosa afirmamos que o mundo surgido em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, favoreceu o liberalismo econômico, a livre iniciativa, a globalização e as instituições multilaterais. Mas tudo mudou com a chegada pela segunda vez de Donald Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, pois ele vem desmontando sistematicamente essa ordem mundial e utilizando de forma abusiva recursos comerciais a fim de sujeitar antigos aliados e adversários políticos.
Não bastasse isso, Trump mais recentemente passou a empregar todo o imenso poderio bélico dos Estados Unidos para sequestrar o chefe de Estado venezuelano e atacar o Irã em parceria com Israel. Por mais criticáveis que sejam esses dois alvos, não podemos aceitar tranquilamente o desrespeito ao princípio da soberania nacional e às normas da convivência entre nações. O fato inexorável é que, a partir de então, passou a imperar neste novo mundo a lei da selva e que o Brasil precisa com urgência rever sua política de defesa e suas posturas diplomáticas de modo a se adaptar a esses tempos turbulentos.
O Brasil não pode continuar a ser um país indefeso.
Numa breve porém esclarecedora perspectiva histórica, podemos ver que o mundo ocidental já conheceu três períodos em que uma nação exerceu papel hegemônico sobre as demais. A chamada Pax Romana durou do reinado de Augusto, em 27 a.C., ao reinado de Marco Aurélio, até 180 d.C. Tivemos bem depois a Pax Britannica, que durou de 1815, com o fim das guerras napoleônicas e o Congresso de Viena, até o início do século XX, período em que a poderosa marinha da Grã-Bretanha sustentou o império em que o sol nunca se punha. Finalmente tivemos a Pax Americana em que os Estados Unidos exibiram uma posição ambígua: por um lado, exerceram o chamado “soft power” ao liderar a criação de uma série de organismos internacionais que davam certa organicidade ao relacionamento entre as nações; por outro lado, aplicaram o “hard power” ao atuar como gendarme mundial, executando diversas incursões militares e travando guerras na Coreia, no Vietnã, no Golfo, no Afeganistão e no Iraque (várias delas, cumpre notar, com resultados negativos).
O que estamos vivendo hoje é uma fase perigosa em que essa hegemonia norte-americana se vê fortemente ameaçada pelo poderio nuclear da Rússia e, mais relevante, pela ascensão extraordinária da China à condição de superpotência no curtíssimo espaço histórico de um quarto de século. Esse declínio da supremacia dos Estados Unidos, que Trump tenta deter inclusive mediante a destruição do sistema multilateral, conduz ao que eu costumo chamar de Segunda Grande Guerra Fria, em que, como ocorre no encontro entre placas tectônicas, vamos conviver por um período de tempo impossível de estimar com terremotos, vulcões e tsunamis geopolíticos.
Na realidade, o país pacífico que somos já nem se recorda da única guerra que lutou contra o Paraguai, nos idos de 1865. Todos os nossos conflitos de fronteiras foram resolvidos em entendimentos bilaterais ou por arbitragem sobretudo ao longo do século XIX. Com tal pano de fundo, não admira a falta de uma cultura de defesa no Brasil equivalente àquela que existe nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, cujos povos verteram e ainda vertem muito sangue nos campos de batalha. Ademais, os 21 anos de autoritarismo e numerosas intervenções militares na política interna contribuíram para empanar a inquestionável importância das forças armadas na vida nacional. É compreensível, portanto, que durante o período de hegemonia norte-americana o Brasil passasse a depender quase inteiramente de material bélico comprado dos Estados Unidos e de outros países da OTAN, não se esforçando de modo efetivo para criar uma indústria nacional de defesa que lhe concedesse qualquer capacidade de proteção autônoma.
As vulnerabilidades do Brasil ficam evidentes quando se pensa na inexistência de meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras, para proteger as plataformas de petróleo no imenso mar territorial, para impedir eventuais ambições externas sobre os extraordinários recursos biológicos, minerais e hídricos na Amazônia, para defender o país de ataques cibernéticos e para preservar as comunicações privadas e governamentais (inclusive militares) dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
Ademais, existe hoje uma série de novas ameaças que precisamos enfrentar, como o tráfico de armas e de drogas, o terrorismo e a guerra cibernética. E, a esses velhos e novos desafios, vem se somar agora o impacto da Inteligência Artificial, capaz de substituir os recursos humanos em numerosas funções militares e até mesmo em definições estratégicas, como estamos vendo ocorrer no Irã. Se o Brasil não dispuser de capacidade para utilizar as novas tecnologias e a IA, estará em grande desvantagem no que tange ao seu poder de dissuasão perante outras nações.
Não obstante, para um observador desavisado pareceria que nosso sistema de proteção armada é muito bem amparado pois o Ministério da Defesa recebe a quarta maior dotação da Esplanada, com fabulosos 141,9 bilhões de reais no orçamento do ano em curso que representam cerca de 6% do total. Mas, na realidade, os gastos discricionários correspondem a pouco mais de 10% desse montante porque uma grande parcela do resto é consumida com pessoal e encargos sociais, sobretudo inativos e pensionistas. Em números aproximados, as três forças têm 350 mil homens e mulheres na ativa, 170 mil como inativos remunerados e 250 mil como pensionistas (das quais 140 mil são filhas de militares falecidos que até há pouco tinham direito a pensões vitalícias caso permanecessem solteiras e não tivessem empregos públicos). Quando comparadas essas cifras com os cerca de 25% gastos nos Estados Unidos com salários e pensões no orçamento do seu Ministério da Defesa, é fácil entender porque nossas forças armadas são hoje muito mais um instrumento de amparo social do que uma máquina bélica.
Diante dessa carência de recursos para fins de investimento, recentemente foram liberados cerca de R$ 30 bilhões adicionais para as Forças Armadas ao longo de cinco anos, com recursos fora da meta fiscal e protegidos de contingenciamentos. Esses fundos deverão ser alocados em projetos prioritários que estão com seus cronogramas de implantação muito atrasados, porém tais valores são irrisórios e, infelizmente, agravam o desequilíbrio das contas públicas por não se submeterem às já pouco confiáveis metas fiscais.
Assim, fica claro que é necessário criar uma agenda positiva para o setor de defesa que envolva medidas de curto, médio e longo prazo, mas cujo primeiro e fundamental obstáculo consiste em responder à pergunta que se faz qualquer executivo no setor privado: com que recursos posso contar a fim de expandir minha parcela no mercado, desenvolver uma nova linha de produção ou construir mais uma planta para a empresa? E uma coisa é óbvia: as Forças Armadas brasileiras NÃO PODEM contar com verbas orçamentárias para responder aos múltiplos desafios acima listados pois já absorvem parcela muito substancial de um orçamento público que precisa atender aos imperiosos reclamos sociais em matéria de saúde, moradia, transporte e segurança na vida cotidiana de milhões de cidadãos.
De onde virão então os bilhões de reais por ano que se fazem necessários? A sabedoria popular há muito respondeu: do couro sai a correia. Isso significa simplesmente que as próprias Forças Armadas terão de gerar uma parte adicional dos recursos de que necessitam para investir em seu fortalecimento. E isso exigirá uma nova mentalidade no governo e no Ministério da Defesa, porém principalmente no seio do alto comando das três forças, que precisarão se mirar no exemplo do grande brigadeiro Ozires Silva cuja visão de empreendedor nos brindou com a criação desse orgulho nacional que é a EMBRAER.
Do ponto de vista instrumental, já existem hoje empresas controladas pelas três forças que podem perfeitamente servir para gerar os lucros a serem empregados por elas próprias, tais como a ENDEFORTE, no caso do Exército, e a EMGEPROM, no caso da Marinha, sem prejuízo de que outras sejam estabelecidas se e quando necessário. Ademais, é fundamental que os recursos que venham a ser obtidos por essas atividades empresariais não caiam na vala comum da Receita Federal, o que tornará necessária, mediante legislação específica, a implantação de fundos que garantam o uso desses recursos apenas para fins de investimento no setor de defesa.
Mas as Forças Armadas de nenhum país podem existir num vazio econômico ou apenas com algumas empresas estatais, uma vez que, sem o suporte de uma ampla estrutura produtiva interna, acabariam sendo meros instrumentos ancilares das potências que lhes forneçam equipamentos e insumos logísticos. Tendo em vista o necessário propósito de obter o máximo de autonomia possível, como ocorreu na Turquia no curto período de dez anos, as Forças Armadas devem associar-se a empresas privadas nacionais que já compõem e venham a fortalecer nossa Base Industrial de Defesa, podendo igualmente fazer o mesmo com empresas estrangeiras que transfiram tecnologia para o Brasil e/ou garantam mercados no exterior. Além disso, o Governo deveria estimular, como faz o da Índia, a criação de “joint ventures” entre empresas brasileiras, que entrem com o capital, e estrangeiras, que tragam tecnologia, a fim de aqui produzir materiais de defesa. Esse foi o modelo pelo qual a Taurus, levando apenas seu “know-how” e ficando com 49% do capital de uma empresa destinada a produzir de pistolas a fuzis, se associou a um dos maiores conglomerados de aço da Índia para criar uma fábrica já em operação naquele país.
Mas o que temos hoje efetivamente como Base Industrial de Defesa? Seu conceito foi estabelecido pela primeira vez na Política Nacional de Defesa (PND) de 2005, que a definiu como “o conjunto das empresas estatais e privadas, bem como organizações civis e militares, que participem de uma ou mais das etapas de pesquisa, desenvolvimento, produção, distribuição e manutenção de produtos estratégicos de defesa”. Outros textos oficiais, como a Estratégia Nacional de Defesa (END), atualizada com frequência, vinculam a BID não só ao planejamento da defesa nacional, mas também ao desenvolvimento econômico e ao avanço tecnológico do setor produtivo pois os investimentos no setor resultam em crescimento econômico, maiores exportações e geração de empregos qualificados graças ao alto valor agregado e componente tecnológico dos produtos de defesa, gerando spillovers de inovação para toda a indústria nacional. Entre os pontos de destaque para desenvolver a BID, a END coloca o domínio de tecnologias duais e a importância da tríplice hélice – governo, setor privado e academia. A END também identificou três setores estratégicos: espacial, cibernético e nuclear, ainda muito carentes de avanços significativos.
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil é composta por cerca de 80 empresas exportadoras e algumas outras, tanto públicas quanto privadas, especializadas em pesquisa, desenvolvimento e manutenção de equipamentos estratégicos, contribuindo com cerca de 3,5% do PIB. Exemplos notáveis incluem a Embraer, Taurus, Helibras, CBC e Ares. O setor gera aproximadamente 3 milhões de empregos diretos e indiretos, com efeito multiplicador sobre outros segmentos industriais. Apesar dessas cifras positivas, o número de empresas ativas no setor é ainda muito pequeno e suas áreas de atuação demasiado restritas diante do que seria necessário para superar as múltiplas vulnerabilidades apontadas anteriormente.
Nessas condições, como medida preliminar e imediata, é essencial que o programa de compras de equipamento militar no exterior seja totalmente repensado de modo a beneficiar os produtores nacionais que aqui geram renda e emprego. Não faz sentido que as três forças continuem eternamente a manter em Washington e Londres comissões de compra de equipamentos com a presença de dezenas de oficiais e praças, gastando milhões de dólares anuais para manter caras estruturas quando sem dúvida uma parcela crescente dessas aquisições necessita ser substituída por produtos nacionais.
Como eventuais medidas restritivas nesse novo mundo poderão ser aplicadas a diversas tecnologias inseridas em produtos que adquirimos no exterior, é igualmente imprescindível que as Forças Armadas, valendo-se de nossas universidades e centros de pesquisa, concentrem sua atenção em produtos de uso dual como equipamentos de telecomunicação e de tecnologia da informação, produtos eletrônicos, chips, sensores e lasers. O Governo, juntamente com o setor privado, precisa desenvolver uma infraestrutura própria de armazenamento de dados e de comunicação para eliminar a dependência de empresas estrangeiras, uma vez que o país não está preparado para responder à ameaça cibernética no tocante à segurança e proteção de dados sensíveis. O Centro de Defesa Cibernética, no âmbito do Exército, deveria interagir com o Banco Central, ministérios e empresas privadas, desde bancos até cadeias de bens de consumo, para melhorar a capacidade de defesa contra os ataques de hackers que, como se viu em outros países, podem afetar a infraestrutura de energia, de transporte das cidades e mesmo a segurança nacional. Neste setor em que as ações do governo têm sido historicamente muito insatisfatórias, vale destacar o importante papel que vem sendo desempenhado pela FINEP no apoio ao desenvolvimento tecnológico da indústria de defesa com crédito barato e até mesmo recursos não reembolsáveis.
Na definição das novas estratégias que devem comandar a cooperação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa, é necessário também que o Governo dê solução definitiva aos conhecidos problemas de tributação do setor, eliminando as vantagens de que gozam atualmente os produtos importados nas licitações de armamentos mesmo que isso implique modificações na Constituição. Cumpre igualmente aperfeiçoar os mecanismos de financiamento pelo BNDES das exportações das empresas que compõem a Base Industrial de Defesa, hoje fortemente concentradas nas vendas externas de produtos da EMBRAER tais como o KC-390 e os Super Tucanos. Nesse sentido, como pude observar nos 11 anos em que ocupei a presidência do Conselho de Administração da Taurus, muitos governos estrangeiros preferem adquirir armas no Brasil por saberem que elas não estarão sujeitas a eventuais (e prováveis) condicionamentos arbitrários quando seus fornecedores são potências com mutáveis interesses geopolíticos.
Por fim, e com o objetivo de mostrar que não estamos tratando de metas ilusórias, relaciono a seguir, a título de mero exemplo, algumas atividades que no curto prazo poderiam gerar substanciais recursos de investimento. Para as Forças Armadas como um todo, a monetização das imensas áreas por elas ocupadas em todo o território nacional e que já não têm utilidade estratégica, matéria de que trato no meu projeto intitulado MODERFAR (disponível para quem tiver interesse no assunto). No caso do Exército, a venda de créditos de carbono das vastas florestas atualmente sob sua jurisdição. No caso da Marinha, a exploração de minerais no fundo do oceano em diversas áreas já identificadas no nosso mar territorial. No caso da Aeronáutica, o lançamento oneroso de satélites na Base de Alcântara.
Em conclusão – e voltando ao artigo que mencionei no início da palestra –, reitero que um país com mais de 210 milhões de habitantes e de dimensões continentais não pode e não deve se dar ao luxo de ignorar as vulnerabilidades em áreas estratégicas que podem afetar seus interesses concretos e prejudicar seu desenvolvimento. Urge uma discussão franca entre o setor privado e o Governo para a definição de estratégias a fim de que o Brasil ganhe autonomia em áreas essenciais e reduza ou elimine a dependência externa em segmentos críticos para resguardar a segurança do país. A Base Industrial de Defesa precisa ser vista como uma prioridade pelo Governo e principalmente pelas próprias Forças Armadas. Num mundo em rápida mutação, a grande maioria dos países está colocando seus interesses nacionais acima de alinhamentos automáticos com base na ideologia ou na geopolítica. Esse é o caminho mais seguro para o Brasil nos próximos meses e anos.


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Segue o link para acessar o número da revista Insight/Inteligência em que consta, como artigo de capa, a Carta Aberta à Nação redigida pelos embaixadores Jorio Dauster e Rubens Barbosa com o título “Brasil, país indefeso”:
https://insightinteligencia.com.br/pdfs/111.pdf

Os novos eixos politicos em escala regional e mundial e como se alinha o Brasil do lulopetismo - Revista ID

A queda

A derrocada do populismo de esquerda na AL

Multidão caindo no abismo — Foto © sellingpixsellingpix #31417133


A derrocada do populismo de esquerda e das ditaduras socialistas na América Latina 

Lula e o PT já contaram, na condição de aliados na América Latina, com muitos neopopulistas de esquerda que parasitavam regimes eleitorais não-liberais e alguns ditadores ditos socialistas. Agora não contam mais. Vejamos.

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar nosso trabalho, considere tornar-se uma assinatura gratuita ou uma assinatura paga.

Antes

NEOPOPULISTAS

1 - Correa e Moreno (no Equador), 

2 - Lugo (no Paraguai), 

3 - Funes e Cerén (em El Salvador), 

4 - Cristina e Fernández (na Argentina), 

5 - Obrador (no México), 

6 - Manoel Zelaya e Xiomara (em Honduras), 

7 - Evo e Arce (na Bolívia), 

8 - Chávez (na Venezuela)

9 - Lula e Dilma (no Brasil)

DITADORES

10 - Os irmãos Castro (em Cuba), 

11 - Ortega (na Nicarágua),

12 - Maduro (na Venezuela). 

Agora

NEOPOPULISTAS

1 - Claudia (no México), 

2 - Lula (no Brasil)

3 - Petro (na Colômbia) - Mas seu candidato pode perder a próxima eleição. 

DITADORES

4 - Ortega e Murillo (na Nicarágua),

5 - Díaz-Canel (em Cuba) - Não se sabe por quanto tempo.

6 - Delcy Rodriguez (na Venezuela) - Não se pode contar mais com ela (pois virou refém de Trump).

Balanço na América Latina

De 12 que já foram (ainda que nem sempre simultaneamente) podem restar apenas 2 ou 3 (simultaneamente). Ou menos, se Lula perder a eleição de 2026. Eis a queda. Talvez a maior derrocada que já se viu na história em uma mesma região do mundo em tão pouco tempo.


No mundo

No plano mundial o lulopetismo está alinhado aos autocratas de esquerda (e socialistas) que estão em governos, como Xi Jinping (na China), Pham Minh Chinh (no Vietnã), Sonexay Siphadone (no Laos), Kim Jong-un (na Coreia do Norte), Lourenço (em Angola). Além disso, está alinhado aos neopopulistas de esquerda que parasitam regimes eleitorais não-liberais, como Subianto (na Indonésia) e Ramaphosa (na África do Sul). Por último, o lulopetismo é defensor de Putin (na Rússia) e de Lukashenko (na Bielorrússia) e seus demais satélites centro-asiáticos (como Cazaquistão, Uzbequistão etc.), de Khamenei pai e agora filho (no Irã) e não condena o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) e seus braços terroristas (como Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis etc.). 

O que há de comum a todos eles? São, todos, inimigos das democracias liberais ou plenas.

Conclusão

Dizer que Lula e o PT defendem a democracia ou é mentira pura e simples ou revela um profundo desconhecimento do que é democracia.

Bastaria perguntar por que os lulopetistas não se alinham, preferencialmente, aos regimes (democracias liberais ou plenas) vigentes nos seguintes países (não por acaso os mais desenvolvidos do mundo): Alemanha, Áustria, Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal, Suécia, Reino Unido, Noruega, Suíça, Islândia, Canadá, Barbados, Costa Rica, Suriname, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia.

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terça-feira, 10 de março de 2026

Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026 - Maria Luiza Falcão (Brasil 247)

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Guerra política interna e crise global: o Brasil diante da eleição de 2026

Maria Luiza Falcão
Brasil 247, 09 de março de 2026, 15:37 h

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto

A eleição presidencial de 2026 se aproxima em um momento particularmente complexo da história brasileira e internacional. Não se trata apenas de mais um ciclo eleitoral em uma democracia consolidada. O pleito brasileiro ocorre em meio a uma combinação rara de fatores: uma transição turbulenta da ordem internacional, a erosão do sistema político que estruturou a Nova República e um ambiente doméstico marcado por conflitos institucionais e disputas de narrativas permanentes.

Em circunstâncias normais, eleições nacionais refletem principalmente dinâmicas internas — desempenho econômico, popularidade do governo, capacidade de articulação das forças políticas. O momento atual, no entanto, parece escapar a essa lógica tradicional. 

O mundo atravessa uma fase de instabilidade crescente, enquanto o Brasil enfrenta simultaneamente um processo de recomposição política ainda incompleto. A eleição de 2026 poderá ocorrer justamente no cruzamento desses dois movimentos históricos.

Alguns observadores já percebem esse ambiente como um momento de transição. O economista e escritor Paulo Timm sugere que estamos diante de um período que lembra outros momentos de inflexão histórica — como 1954, 1961 ou 1989 — quando mudanças profundas estavam em gestação antes mesmo de se tornarem plenamente visíveis. A sensação de que algo estrutural está se transformando, ainda que sem contornos completamente definidos, atravessa hoje o debate político em várias partes do mundo.

Essa percepção não é infundada.

A crise da ordem internacional

Desde o fim da Guerra Fria, o sistema internacional foi amplamente organizado em torno da hegemonia dos Estados Unidos. Durante três décadas, a chamada Pax Americana sustentou instituições multilaterais, cadeias globais de comércio e um padrão relativamente estável de governança econômica internacional. Durante algum tempo, chegou-se a acreditar que essa ordem teria caráter quase permanente. Hoje sabemos que não.

A reeleição de Donald Trump representa um dos sinais mais claros da crise desse modelo. Trump não é apenas um líder controverso ou uma anomalia política circunstancial. Ele expressa tensões profundas dentro da própria sociedade americana — desigualdades regionais, conflitos culturais, ressentimentos econômicos e desconfiança crescente em relação às instituições tradicionais.

A política externa americana sob Trump também revela mudanças importantes. O uso agressivo de tarifas comerciais, o abandono de compromissos multilaterais e a retórica nacionalista indicam uma inflexão significativa no comportamento da potência que durante décadas se apresentou como garantidora da ordem internacional liberal.

Esse movimento não representa apenas uma mudança de estilo político. Ele expressa uma transformação mais profunda na própria lógica da liderança americana. A chamada Pax Americana sempre combinou poder militar, influência financeira e legitimidade institucional. O trumpismo, ao contrário, opera frequentemente pela ruptura dessas mesmas engrenagens: enfraquece instituições multilaterais, transforma aliados em alvos de pressão comercial e introduz um grau de imprevisibilidade que fragiliza a própria arquitetura internacional construída após 1945. Em vez de estabilizar o sistema global, Washington passou a ampliar as tensões que já atravessam a economia e a política internacional.

Sob o comando de Donald Trump, o ataque recente ao Irã pelos Estados Unidos em conluio com Israel de Benjamin Netanyahu, lança o mundo numa situação de apreensão pelo risco de ser deflagrada uma Terceira Guerra Mundial. A morte do aiatolá Ali Khamenei no conflito — líder supremo do irã desde 1989, autoridade máxima do sistema político e controlador das Forças Armadas, da Guarda Revolucionária, do Judiciário, e das principais diretrizes da política externa e nuclear — é de gravidade incomensurável. Seu filho deverá sucedê-lo. 

O Irã contra-ataca. Ameaça com o fechamento do estreito de Ormuz, por onde circula um quinto do transporte do petróleo consumido no mundo, eleva o preço do petróleo a US$ 100 o barril, com perspectivas de aumentos ainda maiores, na casa de 50%. 

O Brasil não passaria ileso por uma escalada mais grave no Golfo Pérsico. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente atravessa o estreito de Ormuz, o que torna qualquer ameaça à navegação nesse corredor marítimo capaz de provocar choques imediatos nos preços da energia mundo afora. Para uma economia como a brasileira, os efeitos seriam múltiplos: aumento dos custos de transporte, pressão inflacionária e encarecimento de insumos estratégicos, especialmente fertilizantes, dos quais o país continua fortemente dependente das importações. O setor agropecuário — pilar das exportações brasileiras — sentiria rapidamente esses impactos, seja pelo aumento dos custos de produção, seja pela volatilidade nos mercados internacionais de commodities agrícolas. Em um mundo já marcado por incertezas geopolíticas, crises energéticas e disputas comerciais, um conflito ampliado no Golfo teria repercussões que ultrapassariam em muito as fronteiras da região.

Os Estados Unidos continuam a dispor de extraordinários recursos econômicos, tecnológicos e militares. Mas a estabilidade da ordem que ajudaram a construir tornou-se claramente muito mais frágil. Tensões comerciais, conflitos regionais e disputas estratégicas entre grandes potências se multiplicam.

Para países de renda média e democracias emergentes como o Brasil, esse ambiente internacional mais incerto cria desafios adicionais. Volatilidade financeira, mudanças nos fluxos de comércio e realinhamentos geopolíticos passam a influenciar diretamente as condições internas de crescimento econômico e estabilidade política. Afetam, sem dúvidas, processos eleitorais.

O esgotamento de um ciclo político no Brasil

Se o cenário internacional se torna mais turbulento, o sistema político brasileiro também atravessa uma fase de transição.

A geração que estruturou a política nacional desde a redemocratização praticamente desapareceu. Lideranças como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Fernando Henrique Cardoso foram figuras centrais na construção da Nova República. Representavam projetos políticos distintos, mas compartilhavam uma legitimidade derivada da experiência histórica da reconstrução democrática do país.

Hoje esse ciclo parece chegar ao fim.

O único líder nacional que ainda permanece no centro da política brasileira é Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), cuja trajetória se confunde com algumas das transformações sociais mais importantes ocorridas no país nas últimas décadas, já que está no poder por três mandatos e é candidato a um quarto. Mas a própria longevidade política de Lula também revela o vazio de lideranças estruturantes que caracteriza o momento atual.

Enquanto antigas referências desaparecem, novas lideranças ainda não se consolidaram plenamente. O sistema partidário permanece fragmentado e frequentemente dependente de arranjos regionais ou coalizões parlamentares de curto prazo. O resultado é um ambiente político mais fluido e menos previsível do que aquele que predominou nas primeiras décadas da redemocratização.

Essa recomposição incompleta do sistema político cria incertezas adicionais para a eleição de 2026.

As pesquisas de opinião já começam a refletir esse cenário de tensão política. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda aparece à frente nas intenções de voto, mas a diferença em relação ao principal candidato da direita vem diminuindo. Esse candidato é o senador Flávio Bolsonaro, escolhido para representar politicamente o campo bolsonarista após a condenação e prisão de seu pai, Jair Messias Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de ruptura institucional no país.

O avanço gradual de Flávio nas pesquisas indica que o bolsonarismo permanece uma força política relevante. Mais do que um fenômeno doméstico, ele se conecta a uma onda internacional de nacionalismo autoritário que ganhou novo impulso com a volta de Donald Trump ao poder nos Estados Unidos. A convergência política entre o trumpismo e setores da direita brasileira sugere que a eleição de 2026 também poderá refletir disputas ideológicas mais amplas que atravessam o cenário internacional.

Guerra política permanente

Outro elemento que marca o ambiente institucional brasileiro é a persistência de um clima de confronto político contínuo.

Desde a década passada, episódios sucessivos de judicialização da política, vazamentos seletivos e disputas institucionais intensificaram a polarização do debate público. O jornalista Luis Nassif observa que esse padrão continua a se reproduzir, com investigações e disputas políticas atravessando instituições-chave do Estado.

O episódio recente envolvendo o banco Master ilustra bem esse ambiente de tensão institucional. As investigações sobre as atividades do banqueiro Daniel Vorcaro, que se encontra preso, e suas conexões políticas rapidamente passaram a atingir diferentes esferas do Estado, incluindo segmentos do Judiciário e do sistema financeiro. 

Independentemente do desfecho jurídico das apurações, o impacto político é imediato: suspeitas, vazamentos e interpretações concorrentes passam a circular intensamente no espaço público, alimentando um clima de permanente disputa narrativa.

Esse ambiente torna-se ainda mais complexo quando combinado com a dinâmica das redes sociais. Rumores, acusações e escândalos — muitas vezes baseados em informações parciais ou não verificadas — circulam com enorme velocidade e alcançam milhões de pessoas antes mesmo de qualquer verificação factual.

O episódio envolvendo o filho do presidente Lula, conhecido como Lulinha — no caso, a reativação nas redes de antigas acusações sobre seus negócios empresariais durante os governos do PT — ilustra como temas antigos podem ser reativados estrategicamente no período pré-eleitoral. Independentemente da consistência das acusações ou de sua relevância jurídica, esse tipo de narrativa tende a ganhar enorme visibilidade nas redes digitais, alimentando ciclos de suspeita e desinformação difíceis de controlar.

O que estará realmente em jogo em 2026

A eleição de 2026 se aproxima em um ambiente de elevada tensão política. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta sustentar uma frente democrática que preserve as instituições reconstruídas após a crise política da década passada. De outro, o campo da extrema direita busca reorganizar-se em torno da candidatura do senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político de Jair Bolsonaro e alinhado internacionalmente ao projeto político representado por Donald Trump.

Nesse contexto, as eleições brasileiras deixam de ser apenas uma disputa doméstica. Elas passam a refletir um confronto mais amplo entre dois projetos políticos distintos: de um lado, a defesa de instituições democráticas e de uma inserção internacional cooperativa; de outro, a afirmação de um nacionalismo autoritário que encontra eco em movimentos semelhantes em diversas partes do mundo.

O pleito de 2026 será um momento de redefinição do projeto nacional brasileiro. O desafio será impedir que essa escolha histórica seja obscurecida por uma sucessão interminável de crises fabricadas, escândalos amplificados e disputas narrativas que pouco dizem sobre o futuro real do país.

As pesquisas mais recentes indicam que o risco de vitória de um projeto de direita não pode ser subestimado. Embora o presidente Lula ainda apareça à frente nas intenções de voto, a distância em relação ao senador Flávio Bolsonaro vem diminuindo gradualmente. Isso mostra que a extrema direita, longe de desaparecer após os acontecimentos que levaram à condenação e prisão de Jair Bolsonaro, mantém uma base social significativa e capacidade real de disputar o poder pelas urnas. 

A eleição de 2026 poderá, portanto, tornar-se um teste decisivo para a democracia brasileira: não apenas sobre quem governará o país, mas sobre até que ponto o sistema político e a sociedade serão capazes de resistir ao retorno de um projeto autoritário de direita que continua presente no cenário político nacional.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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