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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Resiliência econômica e guerra - Carlos Primo Braga

Resiliência Econômica e Guerras

Carlos Primo Braga 

https://capabrasil.com.br/resiliencia-economica-e-guerras-por-carlos-primo-braga/ 

Resiliência Econômica e Guerras 

por Carlos Primo Braga

A guerra contra o Irã tem gerado uma série de análises sobre confrontos assimétricos, o papel [...]

A guerra contra o Irã tem gerado uma série de análises sobre confrontos assimétricos, o papel de pontos de estrangulamento (como discuti em “Pontos de Estrangulamentos” e Confrontos Geopolíticos (por Carlos Primo Braga) – CapaBrasil) e as mudanças no mapa global de fontes de energia. A crise financeira global (2007-09), os conflitos no Leste Europeu e no Oriente Médio, a pandemia da Covid e a expansão econômica e militar da China vêm contribuindo para uma atenção crescente ao tema da resiliência econômica. Ao mesmo tempo, transformações tecnológicas (por exemplo, o fraturamento hidráulico (fracking) e a perfuração horizontal (horizontal drilling)), a expansão de fontes renováveis de energia e a evolução da inteligência artificial (IA), vêm redesenhando a estrutura global de produção e os padrões de consumo de energia.

As implicações dos eventos no Golfo Pérsico, porém, vão bem além do impacto nos preços de energia, incluindo o impacto na segurança alimentar de muitos países. Mas os seus efeitos sobre a oferta do petróleo e do gás natural no curto e no médio prazo são os temas que vêm atraindo a atenção ao redor do mundo. Como observado por Faith Birol, Diretor Executivo da International Energy Agency (IEA), o choque atual é a maior ameaça já observada com relação à segurança energética global. Cerca de 13 milhões de barris/dia são afetados pelo conflito, em contraste com a experiência no contexto dos dois choques de petróleo da década de 1970, quando cerca de 10 milhões de barris/dia foram impactados.

A China é a maior importadora de petróleo do Irã e os países do Golfo Pérsico são uma fonte importante de oferta de gás natural liquefeito (LNG) para a China e para o mundo. A visita recente (14-15 de maio) do Presidente Trump à China, as cerimônias associadas ao “Summit” e as interações com o Presidente Xi Jinping receberam ampla cobertura da imprensa internacional. É interessante observar que a expressão “pompa e circunstância” foi frequentemente utilizada para caracterizar o Summit. Essa expressão foi popularizada por Shakespeare (Otelo) para caracterizar eventos marcados por aspectos performativos (paradas, banquetes e demonstrações de glória militar). Mas os resultados do encontro foram modestos.

Na prática, os resultados se concentraram em anúncios associados ao comércio bilateral (compras pela China de aviões da Boeing e de produtos agrícolas e a decisão dos EUA de flexibilizar controles de exportação para a aquisição de chips H200 da Nvidia por algumas empresas chinesas). Decisões substantivas no âmbito de tensões geopolíticas, porém, não ocorreram.

China e os EUA reafirmaram a necessidade de normalização do tráfico marítimo pelo Estreito de Ormuz e o consenso de que o Irã não deveria desenvolver armas nucleares. Essas mensagens, porém, têm limitado efeito prático. O recado geopolítico mais substantivo ocorreu na fala de Xi Jinping sobre a situação de Taiwan. Ao mencionar a necessidade de que os EUA e China evitem a “Armadilha de Tucídides”, o Presidente Xi sinalizou a importância do respeito pelos EUA com relação à prioridade chinesa de “reunificação” de Taiwan com a China. A resposta de Trump se pautou por reafirmar a ambiguidade diplomática dos EUA com relação a essa questão, mas nas entrelinhas deixou claro que a defesa de Taiwan não é uma prioridade para os EUA.

A dependência econômica bilateral entre as duas maiores potências econômicas é o principal seguro contra o acirramento do confronto geopolítico entre os dois países. A China precisa de mercados abertos para exportar o excesso de sua capacidade produtiva e alocar internacionalmente a sua poupança exagerada (43% do PIB). Já os EUA precisam não apenas manejar com cuidado os seus objetivos de reindustrialização de forma a evitar a ruptura de cadeias de valor integradas, mas também manter a credibilidade do dólar e o acesso a fluxos financeiros internacionais.

Nesse contexto, a resolução do conflito no Golfo Pérsico permanece como a questão mais urgente para a economia global. A duração do conflito dependerá significativamente da resiliência das economias envolvidas frente aos impactos do choque dos preços de energia. No caso da China, a despeito da sua dependência das exportações do Golfo Pérsico, a existência de estoques estratégicos e comerciais substantivos (cerca de 1,4 bilhões de barris) permitirá ao país administrar o choque a médio prazo (de 5 a 7 meses) sem impactos significativos na economia.

Com respeito ao Irã, a questão crítica é por quanto tempo o país poderá estocar a sua produção de petróleo para evitar o fechamento de seus campos produtores de petróleo, uma possibilidade de alto risco em virtude das dificuldades e do custo de se restabelecer produção caso o fechamento ocorra. Estimativas variam, mas tendem a considerar cerca de 120 milhões de barris de estocagem potencial no território iraniano com um adicional de até 127 milhões de barris em navios estacionados no Golfo. Em síntese, na medida em que se estima que pelo menos 55% da capacidade de estocagem já se encontravam utilizadas ao final de abril, a capacidade iraniana de estocagem não deve se estender por mais do que 60 dias adicionais (se 3 milhões de barris/dia continuarem a ser produzidos).

Para os EUA as externalidades do conflito são menos dramáticas. O país é um exportador líquido de petróleo desde 2019, sendo responsável por 90% da expansão da produção global de petróleo no período 2015-2024 com base na exploração de óleo de xisto viabilizada por inovações tecnológicas. Isso não significa, porém, que os EUA estejam imunes ao atual choque do petróleo já que o país precisa importar petróleo pesado (mais denso e com alto teor de enxofre), em virtude das características de suas refinarias.

As implicações para o consumidor americano têm sido significativas. Por volta de 22 de maio, o preço médio do galão de gasolina nos EUA estava em US$4,55 e em alguns estados, por exemplo, na Califórnia, já ultrapassava US$6,00. Esse é o “calcanhar de Aquiles” da administração Trump: o tema do custo de vida nos EUA e o seu impacto nas eleições do Congresso em novembro. A guerra não é popular e ela já se traduziu em um aumento médio de US$1,50/galão de gasolina desde o seu início no final de fevereiro.

As externalidades da guerra incluindo a destruição da infraestrutura nos países do Golfo Pérsico, os impactos do choque de petróleo nas economias importadoras de energia e o aumento da inflação (com seus efeitos nos mercados de títulos governamentais) contribuem para pressionar a busca por uma solução diplomática para o conflito. O anúncio do Presidente Trump (23 de maio) de que os pontos básicos de um “Memorandum of Understanding” (MoU) haviam sido negociados com o Irã teve um impacto inicial positivo nos mercados. O preço futuro do barril de Brent recuou para cerca de US$91,00 (29/05) e o preço médio do galão de gasolina nos EUA diminuiu para US$4,36 (30/05).

Os detalhes do MoU não são públicos, mas a sua estrutura parece incluir: uma trégua nas hostilidades, a “reabertura” do Estreito de Ormuz para o trânsito marítimo, o restabelecimento do comércio de petróleo e o fim dos bloqueios navais. Em seguida (nos próximos 30 a 60 dias), ocorreriam negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano.

Esses objetivos são bem menos ambiciosos do que o propósito de mudança de regime (uma prioridade para Israel) e o conceito de uma rendição incondicional como sugerida pelo Presidente Trump no início do conflito. Nesse momento, a viabilidade de um acordo nas linhas do MoU está em questão. A trégua já foi violada, por exemplo, no contexto de uma operação caracterizada pelos EUA como um ataque “defensivo” (25/05). Evidentemente, as bases para um sucesso nas negociações diplomáticas são frágeis, dada a mútua desconfiança histórica entre os países em conflito.

Mercados financeiros – particularmente nos EUA – continuam a operar com base na expectativa que esse choque do petróleo será passageiro. A percepção de que as tensões geopolíticas estavam diminuindo gerou uma queda no preço do petróleo, que havia acumulado um aumento de 83% do início do ano até o final de abril, para um aumento de cerca de 54,2% no final da semana passada. Mas caso a navegação pelo Estreito de Ormuz não seja normalizada nas próximas semanas, o preço do barril de Brent pode aumentar para cerca de US$120,00, refletindo o choque de oferta. Além disso, mesmo que a negociação seja concluída com sucesso e o tráfico marítimo seja regularizado a médio prazo, as análises de mercado sugerem que o preço do petróleo permanecerá bem acima dos valores que prevaleciam no início desse ano (US$66,6 por barril em janeiro de 2026).

Nesse domingo (31/05), a imprensa ocidental divulgou informações de que a administração Trump decidiu revisar o MoU, endurecendo algumas das suas cláusulas, em particular, com respeito à reabertura do Estreito de Ormuz. Já a imprensa iraniana observa que do ponto de vista do Irã, o estreito se encontra sob uma nova “administração”, sinalizando o objetivo de impor um pedágio para a navegação marítima. A questão do acesso a recursos iranianos (cerca de US$12 bilhões) “congelados” pelos EUA como condição para reiniciar as discussões sobre o programa nuclear também se tornou um ponto de discórdia.

A única certeza na atualidade é que choques geopolíticos continuarão a impactar a economia global de forma significativa. O papel do Itamaraty em administrar esses choques no contexto da política externa brasileira merece uma atenção especial. 

 

Esse tema foi discutido em um webinar recente da iniciativa Imagine Brasil, da Fundação Dom Cabral, que pode ser acessado nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=2r62zsVsIeA.

 

Carlos Primo Braga é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois Urbana-Champaign, Professor Associado da Fundação Dom Cabral. Foi Diretor de Política Econômica e Dívida do Banco Mundial. Autor.

sábado, 30 de maio de 2026

Discurso do embaixador Sergio Florencio na cerimônia de posse na cadeira San Tiago Dantas no Instituto Histórico e Geográfico do DF

Discurso do embaixador Sergio Florencio na cerimônia de posse na cadeira San Tiago Dantas no Instituto Histórico e Geográfico do DF, em 29/05/2026:


San Tiago Dantas. A Busca da Razão nos Trópicos.
Discurso de Posse de Sergio Abreu e Lima Florencio.
Instituto Histórico e Geográfico- IHG.
Brasília, 29 de maio de 2026.

Introdução

Agradeço a presença de todas e todos nesta cerimônia de posse como membro do Instituto Histórico e Geográfico (IHG), que muito me honra. Em especial, agradeço a minha mulher Sônia, aos nossos quatro filhos – dois aqui estão, vindos de São Paulo e do Crato, no Ceará, aos parentes, aos amigos dos almoços de domingo, às amigas e amigos da Academia de Letras de Brasília (ACLEB), e aos membros deste histórico instituto.
Devo agradecimento especial a Hugo Studart, novo e querido amigo da Academia de Letras de Brasília, e a Paulo Roberto de Almeida, meu amigo histórico - o único Embaixador Ombudsman do Itamaraty - pela ousadia de sugerirem meu nome a este Instituto Histórico e Geográfico. Por que ousadia? Porque eu não sou historiador nem geógrafo. Na verdade, sou diplomata e economista.
Se alguma legitimidade tenho para aqui estar, ela reside no meu amor pela História, que herdei de meu pai, e por ter um filho historiador. Ele nasceu no Irã, junto com a Revolução Iraniana, e na época do vestibular, queria fazer História, mas a mãe insistia em que ele deveria fazer Direito. Eu argumentava que quem nasceu junto com a quarta grande revolução do século XX, não podia fazer Direito, porque revolução e norma jurídica não combinam. Ele seguiu sua origem revolucionária e hoje é Professor Doutor de Cultura Afro-brasileira e Indígena, na Universidade Regional do Cariri -URCA. Esse debate conjugal foi dos raros que eu venci. E isso confere alguma legitimidade para um diplomata economista ingressar na casa de tão célebres historiadores e geógrafos de nosso país.
Legitimidade adicional vem de quatro livros que escrevi. O primeiro foi sobre os tempos heroicos do Mercosul. O segundo foi sobre Os Mexicanos, após viver três anos naquele estimulante pais. O terceiro contou episódios vividos na revolução iraniana, na diplomacia e falou de afetos. O quarto, que acaba de sair, tem como título “Um mundo em transformação. Qual o lugar do Brasil?”, e reúne algumas colunas quinzenais que escrevo há três anos para o portal da revista Interesse Nacional.
O IHG me conferiu a honra de ter um grande brasileiro como patrono da cadeira que irei ocupar. San Tiago Dantas simboliza, para mim, um modelo de homem público que toda democracia avançada gostaria de ter como representante nos três Poderes. Sim, porque com inteligência fulgurante e vasta cultura, San Tiago exerceu funções de relevo na magistratura -como reconhecido jurista, catedrático de Direito em várias faculdades; no Congresso - como incansável deputado federal pelo PTB de Minas Gerais, defensor de uma democracia social em nosso país; e no Poder Executivo, como lúcido e corajoso Primeiro-Ministro, Chanceler e Ministro da Fazenda - inspirador do Plano Trienal, com o amigo Celso Furtado.
Esta apresentação consta de três partes. A primeira focaliza Santiago Dantas como o grande expoente da Política Externa Independente. A segunda examina sua luta, como Ministro da Fazenda e como Primeiro-Ministro, na construção de uma economia moderna e de uma democracia social em nosso país. A terceira, traça um paralelo entre o pensamento e a atuação de San Tiago Dantas e de Fernando Henrique Cardoso. 

O Refundador da Política Externa Independente (PEI)
1. O humanista de visão
Santiago Dantas era o antípoda do intelectual da torre de marfim ou do tecnocrata aprisionado nos números. Era um engenheiro de pontes entre a reflexão e a ação. Duas citações suas espelham esse perfil. “A cultura filosófica tem para um povo e para sua liberdade espiritual, papel semelhante ao que desempenhava a indústria pesada na sua independência econômica e política.”(1) A política externa só pode ser considerada boa e legítima na medida em que se ajuste ao complexo de aspirações nacionais.” (2).
Além dessa visão lúcida da relação entre cultura, política externa e interesse nacional, San Tiago tinha a vantagem de ser um estudioso das grandes transformações da História. Em julho de1939, antes da Segunda Guerra Mundial, ele publicou artigo para celebrar 150 anos da tomada da Bastilha, que foi assim descrito por Marcílio Marques Moreira. “Santiago considerou o episódio exemplar “na sua trágica cegueira”, ao “exprimir a injustiça da justiça do povo” e, ao mesmo tempo, grandioso no grito pela liberdade”. “Embora a Revolução não tenha implantado a liberdade, “implantou o ideal da liberdade” e “deu ao mundo a consciência de que as ideias movem a história”. (3). Esse último trecho da citação de San Tiago Dantas me remete àquela sábia frase do Victor Hugo. “Nada mais no mundo, nem todos os Exércitos, é tão poderoso quanto uma ideia cuja hora chegou.”

2. A PEI e seus primeiros desafios: União Soviética, Angola e Cuba
A trajetória de San Tiago Dantas no Itamaraty é curiosa. Ele foi nosso Embaixador na ONU. Embaixador por apenas um dia! Sim, no dia seguinte à sua posse, Jânio renunciou, e ele foi afastado do cargo. Mas foi na condição de Chanceler do regime parlamentarista, em 1961, durante dez meses, que San Tiago trouxe a grande contribuição para nossa diplomacia. Aprimorou conceitos, consolidou prioridades e robusteceu a Política Externa Independente (PEI), lançada por seu antecessor Afonso Arinos. A PEI buscava conciliar três objetivos: desenvolvimento econômico; regime democrático; e reforma social.
Algumas oscilações e retrocessos ocorreram em nossa política externa desde então – o breve alinhamento automático com os EUA após o golpe de 1964, no primeiro governo militar; e a desastrosa tentativa de fazer do país um pária internacional, como explicitado por Ernesto Araújo, Chanceler do governo Bolsonaro. Mas aquele triângulo da PEI sempre foi o pilar de nossa diplomacia.
Logo ao assumir a Chancelaria, no auge da Guerra Fria, San Tiago se defrontava com três delicadas questões: União Soviética; Cuba e Angola. Os princípios da PEI foram a bússola que norteou nossas posições. O reatamento de relações com a União Soviética demorou, mas acabou se concretizando, após intensos debates, em novembro de 1961. Com relação à questão de Angola, o Brasil reconhecia os laços fraternos com Portugal, mas deixava claro que não endossava a política portuguesa, e apoiava a emancipação das colônias africanas.
A revolução cubana era tema muito espinhoso para o governo. Os dois extremos do espectro político eram críticos ferozes da política externa de San Tiago Dantas: Leonel Brizola à esquerda e Carlos Lacerda à direita. O Chanceler utilizava, como ponto de partida de nossa posição, um princípio basilar da PEI – a não intervenção. Mas acrescentava importante ressalva. “Reconhecemos que o governo de Fidel Castro se afasta das diretrizes do regime democrático”. (4)

3. A PEI e a Suspensão de Cuba da OEA.
A questão cubana seria retomada com vigor na Oitava Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores, realizada em Punta del Este, Uruguai, que concluiu, em janeiro de 1962, pela suspensão de Cuba da OEA.
A proposta brasileira tinha o apoio das maiores nações do continente, mas foi derrotada pelas pressões políticas e econômicas dos EUA sobre os Estados menores.
O Brasil não negava a interferência do comunismo internacional nas democracias latino-americanas. É preciso lembrar que estávamos então no auge da Guerra Fria. Mas, na Conferência, nossa posição continha um forte argumento – o isolamento de Cuba, sem alternativas, lançaria o país na gravitação para o bloco soviético. Por isso, o Brasil se opunha à imposição de sanções.

4. Os riscos da PEI ontem, na Crise dos Mísseis. Os perigos do Brasil hoje, com a retomada da Guerra Fria.
“A PEI concorreu para a deterioração do relacionamento com os Estados Unidos”. Apesar disso, “não convém exagerar o papel da diplomacia num processo inevitável em tempos de exacerbação ideológica.”(5) Essa criteriosa avaliação de Rubens Ricúpero sintetiza bem o equilíbrio de nossa política externa diante da conjuntura internacional mais ameaçadora da Guerra Fria – a Crise dos Mísseis de 1962. Isso porque, no embate entre as Superpotências que aproximava o mundo do holocausto nuclear, nosso país soube preservar independência, sem transformá-la numa cruzada antiamericana certamente contrária aos interesses nacionais.
Esse diagnóstico encontra integral respaldo nas palavras de San Tiago Dantas, ao receber o prêmio Homem de Visão 1963. “Tive a ventura, no primeiro dos governos a que pertenci, de restaurar, em sua plenitude, as nossas relações com a área socialista e de realizar no segundo um esforço leal (...) para normalizar nossas relações financeiras com os EUA (...) O que resulta da soma desses atos é o sentido de independência, e não de preferência ideológica, que procurei dar à política brasileira, e o princípio de fidelidade exclusiva ao interesse de nosso país.” (6)
Esse comportamento do refundador da PEI deveria servir de farol para os desafios atuais de nossa diplomacia. A política expansionista do presidente Trump na América Latina poderá ter desdobramentos perigosos ao equilíbrio regional, e para os quais devemos estar preparados.
O brutal ataque norte-americano à soberania da Venezuela poderá ser reeditado em outros países da região - sobretudo Cuba - com formatos distintos. Diante desse cenário ameaçador, nossa política externa precisará assumir posição distante de populismos e de ideologias. É preciso resgatar a lucidez de San Tiago Dantas.

A razão vencida. Democracia e Estabilização.

San Tiago assume o Ministério da Fazenda com a volta do presidencialismo e a expectativa de restituição da autoridade do Presidente João Goulart, enfraquecida pelo parlamentarismo. O novo ministro anuncia prioridade ao combate à inflação, embora com a advertência de não ser tratada como uma tarefa exclusivamente técnica. Por sugestão do próprio San Tiago, o amigo Celso Furtado foi indicado Ministro Extraordinário do Planejamento, e foi lançado o Plano Trienal, de 1963-1965.
O objetivo era a redução programada das despesas públicas, por meio da contenção do consumo e do reajuste das tarifas de serviços púbicos nos setores de transporte e comunicações. “O Plano Trienal estimava uma taxa de crescimento da renda nacional em 7% ao ano e redução progressiva da inflação em 1963, empregando os meios dos planos ortodoxos de estabilização da moeda. ... Não havia como combater a inflação àquela altura senão o governo reduzir drasticamente a base monetária, contendo a emissão de papel moeda, diagnóstico de quase todos os economistas de diferentes inclinações ideológicas.” (7).
Em contraste com esse diagnóstico realista, a volta do presidencialismo não assegurou força ao Presidente da República, que passou a enfrentar a oposição de organizações sindicais, cuja mobilização exercia pressão política e social crescente, e da Frente Parlamentar Nacionalista. Essa criticava o Plano Trienal por ter sido elaborado “desconhecendo a existência de um fator decisivo, o imperialismo econômico, ignorando que a inflação resulta da atuação de grupos internacionais”. (8).
Essa reação era um balde de água fria na expectativa do governo, que contava com alguma aceitação de menores reajustes salariais e de preços por parte de empresários, trabalhadores e servidores públicos federais. “ Como dissera San Tiago, combater a inflação não era um desafio técnico, mas político: alcançar um acordo entre as classes produtoras, a trabalhadora e o funcionalismo público, civil e militar. (9).
A luta do então Ministro da Fazenda para promover desenvolvimento e democracia social esbarrava no que ele designava “esquerda negativa”, integrada não só pela oposição, mas pelas forças exaltadas do próprio governo. No outro polo, críticas mais contundentes se originavam em setores da direita, que o acusavam de comunista. Obstáculo de peso vinha do próprio Presidente, que nunca chegou a dar respaldo efetivo ao Plano Trienal – com reajustes salariais irrealistas- e sempre cedia às demandas dos segmentos mais exaltados.
Os indicadores econômicos se agravavam de forma acelerada, ao que se somavam uma crescente dívida externa e ataques do governo norte-americano a nossa política econômica. A inflação, que era de 25,4% em 1960, se elevara para 50% em 1962. A taxa de crescimento, de 8,6% em 1961, cairia para 0,6% em 1963. Aumentos salariais da ordem de 40% agravavam a perda de apoio de credores externos, reduziam a taxa de crescimento e promoviam a queda de popularidade do Presidente. (10)
Em menos de três anos, o governo teve cinco ministros da Fazenda. Em setembro de 1964, falecia San Tiago Dantas. A morte o pouparia de mais um sofrimento – a cassação dos direitos políticos.

San Tiago Dantas & Fernando Henrique Cardoso. Ideias próximas, Destinos distantes.

San Tiago Dantas foi um prestigiado, polivalente político brasileiro no começo dos anos 1960. Exerceu, com talento, funções relevantes - Chanceler, Ministro da Fazenda e Primeiro-Ministro do governo João Goulart. Como Chanceler, foi o grande refundador, aperfeiçoador e apóstolo da Política Externa Independente. Como Ministro da Fazenda, atuou junto com Celso Furtado para viabilizar o Plano Trienal (1963-1965), voltado para a estabilização, as reformas econômicas e sociais. Seu ideal era a construção de um país com desenvolvimento econômico, reformas sociais e democracia.
Fernando Henrique Cardoso assegurou, em dois mandatos a partir da metade dos anos 1990, um bem-sucedido plano de estabilização – Plano Real – uma modernização econômica em diversas áreas- petróleo, eletricidade, telecomunicações – e o início de políticas sociais inclusivas, que foram aprofundadas no governo seguinte do Presidente Lula.
San Tiago e Fernando Henrique tinham visão de mundo convergente, eram defensores da social democracia, lutavam pelo desenvolvimento econômico e por reformas sociais. O ideário era próximo, mas os resultados foram díspares. Como explicar?
O paralelo entre esses dois brasileiros ilumina momentos críticos de nossa história. Apesar do distanciamento histórico de três décadas, ambos compartilhavam diagnósticos convergentes sobre os dilemas do desenvolvimento e propunham terapias semelhantes – reformismo econômico, compromisso democrático e inserção internacional pragmática. Ambos coincidiam na tentativa de compatibilizar estabilidade monetária com crescimento econômico. Os dois se afastavam de instrumentos da ortodoxia no ajustamento econômico. A grande diferença era a fragilidade institucional em que operava San Tiago, em contraste com a maior solidez das instituições com Fernando Henrique. Esse se beneficiou do aprendizado adquirido, após décadas de inflação e fracassados planos de estabilização: antes do Real, o país tinha passado por seis fracassados planos econômicos e utilizado sete diferentes moedas.
Embora o Plano Trienal - concebido por Celso Furtado com a colaboração de Santiago Dantas - tivesse um forte componente de estabilização econômica, exibia uma contradição interna. Procurava reduzir a inflação com políticas contracionistas e, ao mesmo tempo, preservar salários reais e investimentos públicos. Sindicatos e movimentos sociais formavam a base do governo, o que terminou por priorizar a preservação de salários reais, em detrimento da estabilização. Enquanto os dois arquitetos do Plano Trienal buscavam compatibilizar estabilização e crescimento, o presidente João Goulart estava comprometido com elevados aumentos salariais acima da inflação. Era previsível o fracasso da política econômica, agravado pela polarização ideológica da Guerra Fria e pela tutela militar, muito crítica de Celso Furtado e San Tiago Dantas.
San Tiago e Fernando Henrique rejeitavam alinhamentos automáticos. Mas o primeiro viveu no vulcão da Guerra Fria, com a Crise dos Mísseis de 1962. O segundo foi contemporâneo da busca de uma Terceira Via.
As ideias do primeiro foram abortadas pelo Golpe Militar de 1964. O segundo se beneficiou da redemocratização a partir de 1985.
Refletir sobre o destino político desses dois homens públicos, com ideário político tão semelhantes, mas com resultados empíricos tão divergentes pode ajudar a entender nosso país.

Conclusão
San Tiago Dantas foi um brasileiro singular. Intelectual sofisticado, mas nunca viveu em torre de marfim. Cultura jurídica profunda, diversificada, mas sem o vício do bacharelismo. Sólidos conhecimentos de economia, mas distante do tecnocrata aprisionado nos números. Comprometido com a luta pelo desenvolvimento econômico, mas nunca militante do desenvolvimentismo. Adversário da inflação crônica, mas refratário à ortodoxia monetarista.
Foi chanceler num dos momentos mais ameaçadores da Guerra Fria, com clímax na Crise dos Mísseis. Soube, nessas arriscadas circunstâncias, construir o arcabouço teórico e a atuação prática da nossa Política Externa Independente – até hoje o sólido paradigma de nossa diplomacia. Apesar das pressões norte-americanas para o Brasil apoiar a suspensão de Cuba da OEA, San Tiago soube resistir e reafirmar nossa autonomia.
Na política doméstica, lutou com todas as forças, mesmo já com avançada doença, para assegurar uma economia com estabilidade e crescimento. Ao lado do amigo Celso Furtado defenderam o Plano Trienal, que era o instrumento para concretizar esse caminho. Mas faltava o respaldo essencial do Presidente da República, e sobravam ataques dos dois extremos do espectro político. Na política externa foi possível seguir o caminho da independência. Na economia e na política doméstica os setores da reação se uniram e se aliavam às forças externas. O resultado foi o caos econômico e o fim da democracia.
San Tiago era o timoneiro desse barco que afundou. Destino antípoda ao de Fernando Henrique - outra figura pública com ideias semelhantes. O auge da Guerra Fria nos tempos de San Tiago explica, em grande parte, a volta do autoritarismo. O mundo de hoje testemunha o ressurgimento da Guerra Fria, com novo perfil e novos atores. Nossa política externa precisa de timoneiros determinados a se inspirar no exemplo de San Tiago Dantas.

Sergio Abreu e Lima Florencio
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2026.


Notas bibliográficas

(1) Marques Moreira, Marcílio. “Santiago Dantas e a oxigenação da política externa”. In “Intelectuais na Diplomacia Brasileira. A cultura a serviço da nação. Organização.” Paulo Roberto de Almeida. P. 106.

(2) Ibidem. P.114.

(3) Ibidem. P.104,105.

(4) Dutra, Pedro. “San Tiago Dantas. A Razão vencida. O Homem de Estado. 1946-1964. Volume 2.” Editora Singular. São Paulo. S.P. 2023. P. 455.

(5) Ibidem. P.436.
(6) Marques Moreira, Marcílio. “Santiago Dantas e a oxigenação da política externa”. In “Intelectuais na Diplomacia Brasileira. A cultura a serviço da nação. Organização.” Paulo Roberto de Almeida. P. 118.

(7). Reis, Adacir. Reis, Carla Patrícia. “San Tiago Dantas: um projeto econômico para o Brasil”. In “San Tiago Dantas. Política Externa Independente.” Edição atualizada. Fundação Alexandre de Gusmão. Brasília. 2011. P. 256.
(8). Ibidem. P.266.
(9). Ibidem. P. 267.
(10). Ibidem. P. 277.


sexta-feira, 22 de maio de 2026

Visita do candidato da extrema-direita a Mister DJT: minhas respostas a questões colocadas por um órgão da imprensa - Paulo Roberto de Almeida

Visita do candidato da extrema-direita a Mister DJT: minhas respostas a questões colocadas por um órgão da imprensa
Paulo Roberto de Almeida

Introdução:
Um órgão da imprensa brasileira mais próximo da direita do que do centro (jamais da esquerda) interrogou-me sobre a visita do candidato da extrema-direita bolsonarista ao ocupante esquizofrênico da Casa Branca, quem eu considero um rei Midas ao contrário, ou seja, tudo o que ele toca vira pó, ou outra coisa; isto é: geralmente os candidatos apoiados por ele acabam perdendo as eleições vergonhosamente. Neste caso, nem sabemos ainda se o candidato, abatido antes de lançar voo por um míssel do banqueiro mais corrupto da história econômico-financeira do Brasil, talvez nem seja candidato, não por culpa do megalomaníaco presidente, mas por sua própria sede de $$$.
Em todo caso, como desconfio que esse órgão da imprensa não vai publicar minha opinião, eu já a posto neste espaço, à disposição de todos os meus amigos e inimigos (pelo teor das respostas, evidentemente). Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 22/05/2026

Visita do candidato Flavio Bolsonaro a Donald Trump:
questões de órgão da imprensa brasileira
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas PRA:

1. Qual o peso político de uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump neste momento de crise para o pré-candidato do PL?
PRA: Nenhum peso político, ou se houver algum, ele será totalmente negativo. O candidato acaba de ser desmentido duas vezes por matérias do Intercept justamente por ter mentido a respeito de suas relações promíscuas com um ex-banqueiro corrupto, a quem foi pedir dinheiro que deveria já ter desconfiado, antes de o fazer pelas informações que já circulavam a respeito da situação pré-falimentar de Vorcaro, em decorrência de suas falcatruas no mercado financeiro. Ele o faz em tom de súplica, não exatamente para financiar um filme que ele sabia que já estava quase pronto, e amplamente financiado por outras fontes altamente suspeitas, mas provavelmente para alimentar sua campanha extra-oficialmente (ou seja, à margem dos financiamentos partidários e eleitorais autorizados legalmente) ou então para sustentar a vida de seu irmão “refugiado” nos EUA (para escapar da Justiça brasileira).
A visita a Trump se apresenta até como prejudicial, na medida em que se trata do presidente – ao qual o pai prestou uma submissão abjeta anteriormente – que mais prejudicou o Brasil no terreno comercial e nos ataques indevidos ao sistema de Justiça do Brasil, ou seja, ademais da própria ilegalidade do tarifaço político, em julho de 2025, outra medida ilegal, ao aplicar a Lei Magnitsky num caso absolutamente alheio ao escopo da lei americana, que visa sancionar criminosos políticos, dirigentes corruptos ou criminosos comuns, e não agentes oficiais de uma instutuição de Estado do Brasil.
O fato é que a família Bolsonaro, numa extraordinária iniciativa de traíção à pátria, e em detrimento de milhões de agentes econômicos do Brasil, se esforçou politicamente para sabotar os interesses nacionais e a própria economia nacional unicamente visando objetivos familiares, mediante a mobilização das mais altas autoridades de um país com o qual o Brasil mantinha relações normais por dois séculos, sendo aliás o mais importante parceiro econômico do país, com a único finalidade de causar prejuízos a milhões de brasileiros, em sua sanha egoísta de vingança contra o governo em vigor. Trata-se de algo inaceitável sob qualquer critério, e a imagem de Trump no Brasil é a mais negativa possível, com exceção, possivelmente, de bolsonatistas fanáticos, mal informados, ou traidores como a família em questão. Uma visita que ocorre no bojo de outras graves denúncias contra o candidato tem toda a chance de ser ainda mais prejudicial do que o imaginado, pois confirma a submissão política de um pretenso candidato ao mais alto cargo na nação a um dirigente estrangeiro, um dirigente que perturbou todo o comércio internacional e desmantelou o multilateralismo político e as alianças consagradas.

2. Até que ponto a imagem de Trump ainda mobiliza o eleitorado conservador brasileiro?
PRA: Apenas pessoas desinformadas, muito ingênuas, ou totalmente fanatizadas pela família Bolsonaro podem ter qualquer respeito por um dirigente desequilibrado, que ameaça continuamente outros países de tarifaços ilegais do ponto de vista do sistema multilateral de comércio, ou que pretende tutelar outros países – como já ameçou fazer com toda uma série de nações: Panamá, Canadá, Dinamarca, México, Colômbia, concretamente no caso da Venezuela, Irã, agora em relação a Cuba – para torná-los submissos ao alegado poder de um império declinante que pretende ainda ser respeitado por outros Estados soberanos. Acredito que a imagem de Trump é a mais desgastada de toda a história dos presidentes americanos, e os brasileiros bem informados, não dependentes dessa afeição de uma família de políticos medíocres por um dirigente sem escrúpulos, não podem apreciar o megalomaníaco político.

3. O fato de Trump ter recebido recentemente Lula reduz ou aumenta a necessidade política de Flávio demonstrar proximidade com o republicano?
PRA: Ele espera obter essa proximidade ilusória, esquecendo porém que Trump tem unicamente como foco seus interesses pessoais, os familiares e os dos EUA, nessa ordem, não tendo qualquer consideração por personagens políticos de outros países, a menos que eles lhe emprestem submissão, façam bajulação indevida e prometam ganhos financeiros. Trump não se importa minimamente com ideologia ou com o que pensem dirigentes estrangeiros, tanto que busca boas relações pessoais com aqueles que permitam aos EUA, e a ele e a sua familia mais especialmente, obter ganhos materiais concretos. O que pode ganhar Flavio Bolsonaro com um dirigente desprezado no Brasil? Aparentemente muito pouco. O possível efeito de propaganda em campanha – para demonstrar prestigio junto a um dirigente de uma grande potência – já fica diminuído pelo fato de que o presidente Lula já obteve esse contato em três oportunidades anteriores, recebebendo inclusive elogios do megalomaníaco.

4. Qual o efeito interno dentro da direita brasileira de uma eventual sinalização pública de apoio ou simpatia de Trump a Flávio Bolsonaro?
PRA: Não acrescentará praticamente nada fora da bolha já conquistada de aderentes fanáticos ao bolsonarismo e ao estilo truculento (e ridículo) do desequilibrado dirigente. Apenas pessoas totalmente desligadas dos interesses concretos da economia e da sociedade brasileira podem encontrar qualquer efeito simpatia ou de apoio a um candidato que já sofre um enorme desgaste por ser mentiroso e aliado a um banqueiro corrupto.

5. Como o senhor avalia o timing da viagem em meio às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o filme “Dark Horse”?
PRA: Estimo o pior efeito possível num momento de incertezas, de falta total de informação fiável sobre essas relações espúrias, envolvendo dinheiro roubado de clientes brasileiros de um banqueiro corrupto. Pelo trailer já divulgado do filme em questão, verifico tratar-se de uma produção de baixíssima qualidade visual e de roteiro, com cenas que fariam rir qualquer conhecedor da realidade política brasileira na campanha de 2018 e depois durante o mandato do pior presidente que já tivemos na história do Brasil, responsável pelo volume excedentário de mortos durante a pandemia, pelo negacionismo vacinal, pela oposição a medidas profiláticas, pela altíssima corrupção envolvida nas operações em torno da aquisição de equipamentos e medicamentos para contrarrestar os efeitos da pandemia. Bolsonaro pessoalmente, e seu criminoso ministro da saúde, um general de baixíssima qualidade intelectual, podem ser creditados pela morte de muitas pessoas, a maioria bolsonarista, pois que seguiram as recomendações uso de medicamentos inadequados, como a cloroquina. O filme poderá reduzir ainda mais o número de aderentes à candidatura.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5324, 21 maio 2026, 3 p.

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Uma política externa que denega os fundamentos doutrinais da diplomacia do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Uma política externa que denega os fundamentos doutrinais da diplomacia do Brasil

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a divergência atual entre a política externa e a doutrina jurídica da diplomacia.

        Vou começar pela diplomacia brasileira, que não pode ser confundida com a política externa, pois são duas coisas diferentes, algumas vezes convergentes, outras vezes em aberta divergência.
        A formação de nossa doutrina jurídica começa no século XIX, com Paulino, Visconde do Uruguai. Passa pelo Visconde do Rio Branco, que cria o cargo de Consultor Jurídico dos Negócios Estrangeiros, que ele mesmo exerceu durante algum tempo, mesmo sendo matemático e engenheiro da Escola Naval. O cargo foi extinto depois que ele deixou a chancelaria, mas seu filho, o Barão do Rio Branco, recria a função quando foi chanceler.
        A doutrina jurídica continuou a ser aperfeiçoada pelo Barão e por Rui Barbosa, e passa, desde a segunda conferência da paz da Haia, em 1907, pelos conceitos que hoje são centrais no multilateralismo contemporâneo: igualdade soberana das nações, não intervenção nos assuntos internos de outros países, contra as guerras de agressão e a usurpação de territórios estrangeiros pela força.
        Esses conceitos são incorporados por Oswaldo Aranha e são respeitados mesmo durante o Estado Novo, até suspeito de simpatia pelos Estados fascistas militaristas, mas são postos em prática antes mesmo da Carta da ONU: em 1939, por exemplo, quando a Alemanha nazista invade a Polônia, e Oswaldo Aranha instrui nosso ministro em Varsóvia a seguir o governo polonês no exílio, ou seja, continua reconhecendo o Estado polonês. O mesmo ocorre no ano seguinte, quando Stalin invade e incorpora os três Estados bálticos, com os quais tínhamos relações diplomáticas desde 1921, e as mantivemos até 1961, ou seja, não reconhecendo a usurpação soviética pela força.
        Sabem quando o Brasil não reconheceu os fundamentos da doutrina jurídica da diplomacia brasileira? Em 2014, quando a política externa da presidente Dilma Rousseff considerou que a invasão e a anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia eram um “assunto interno” da Ucrânia, como ela declarou. O Brasil não fez absolutamente nada em defesa da Carta da ONU e de nossas posições em face dessa violação grave do Direito Internacional.
        Essa indiferença continuou sob Bolsonaro, que até se declarou solidário a Putin uma semana antes de 24 de fevereiro de 2022, quando suas forças armadas invadiram a Ucrânia. A política externa efetuou na Assembleia da ONU uma condenação “pro forma” da invasão, mas continuou mantendo relações normais com o país agressor como se nada tivesse acontecido, recusando-se a impor sanções como outros países o fizeram.
        Sob Lula foi ainda pior: não apenas aumentou exponencialmente o volume de importações de combustíveis e fertilizantes russos – ou seja, colaborando objetivamente com a agressão do país invasor –, como também expandiu essa solidariedade com um transgressor do Direito Internacional, continuou a manter excelentes relações pessoais com o dirigente russo, mas também o convidou para vir ao G20 no Brasil, a despeito do mandado de captura expedido pelo TPI contra Putin, e fez questão de visitá-lo na farsa da comemoração de 2025 pelos 80 anos da “vitória” contra as forças nazistas, sendo que a guerra que tinha começado em 1939 se deveu justamente à aliança entre a União Soviética e a Alemanha nazista para decepar e dividir a Polônia, cuja usurpação territorial tínhamos recusado de aceitar naquele ano.
        Essa total divergência entre a política externa brasileira e os fundamentos doutrinais da diplomacia profissional são muito evidentes atualmente no apoio velado que o governo Lula presta ao agressor russo, com consequências políticas extremamente graves para nossa credibilidade internacional. O que o Brasil condena veementemente na Faixa de Gaza e no Líbano, no próprio Irã, é praticado cotidianamente na Ucrânia, sem que se mantenha qualquer coerência nessa postura contraditória com as posições dos pais de nossa diplomacia.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5290, 24 abril 2026, 2 p.

sábado, 16 de maio de 2026

Madame IA tenta defender a politica pró-russa do lulopetismo diplomático: ela está errada - Paulo Roberto de Almeida (via Airton Dirceu Lemmertz)

Reprodução de uma postagem de janeiro de 2026, ainda válida, graças aos bons préstimos de meu amigo informático Airton Dirceu Lemmertz:

sábado, 10 de janeiro de 2026

Madame IA tenta defender a politica pró-russa do lulopetismo diplomático: ela está errada - Paulo Roberto de Almeida

Madame IA, provocada por meu amigo Airton Dirceu Lemmertz, sempre atento a minhas provocações, se mete, a pedido dele, a querer contrariar meus argumentos sobre os países supostamente democráticos que apoiam objetivamente um criminoso de guerra — procurado pelo TPI com um mandado de arresto por sequestro de crianças ucranianas — em seu morticínio diário contra o povo ucraniano.
Não vou aceitar as tergiversações de Madame IA em defesa de posições indefensáveis, inclusive porque tende a coonestar os crimes bárbaros que são perpetrados diariamente. Não, desta vez ela está errada, e temos amplas evidências de que ela tenta “passar pano“ para os bárbaros. PRA

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"Existem poucas democracias liberais no mundo, talvez menos de 1/4 dos países membros da ONU. Essas poucas democracias liberais apoiam, como podem, a Ucrânia, em sua resistência à invasão criminosa e ilegal da Rússia, por meios financeiros, militares, sanções contra o agressor, mediação diplomática, etc. Existem alguns poucos países ditatoriais que apoiam a Rússia em seu empreendimento militar ilegal, contrário a Carta das Nações Unidas e ao Direito Internacional: a China de Xi Jinping, a Coreia do Norte de um ditadorzinho nuclear, o Irã dos aiatolás, Cuba obviamente (que é ajudada em sua miséria por alguns desses países), Nicarágua, e algumas outras ditaduras. Algumas democracias também parecem indiferentes, mas na verdade apoiam objetivamente a potência agressora: a Índia, o Brasil, a África do Sul, entre outros, nenhuma delas uma democracia liberal. Na própria União Europeia existem os apoiadores de Putin, o que pode parecer estranho. Mas estranho mesmo é o caso do Brasil, embora seja possível, ou necessário, distinguir entre a diplomacia profissional, a política externa do governo Lula e as pressões dos partidos ditos de esquerda, que não escondem, esses últimos, o apoio ao agressor. Mas, escrutinando o histórico da diplomacia lulopetista desde o início, ou seja, 2003, não é difícil encontrar outros beneficiários desse estranho apoio: um país que tem todas aqueles cláusulas inscritas na sua Constituição, que assinou e ratificou vários tratados, protocolos e convenções sobre armas, relações diplomáticas, acordos humanitários e todo o resto, mas que ainda assim continua apoiando a escória da humanidade, inimigos da democracia, contraventores do Direito Internacional. Talvez não seja estranho, e sim a natureza protototalitária do PT e de seus líderes e militantes.". 

CONSIDERANDO O TEXTO ACIMA, ENTRE ASPAS, RESPONDA DE MODO DETALHADO E CRÍTICO A SEGUINTE INDAGAÇÃO: 

O Brasil é mesmo uma democracia, um amigo da democracia?


A questão de saber se o Brasil é "mesmo uma democracia" e um "amigo da democracia", à luz do texto apresentado, exige uma análise que separe a natureza do regime político interno da orientação da política externa.
Abaixo, detalho uma resposta crítica dividida em três pilares fundamentais:

1. A Natureza da Democracia Brasileira (Interna vs. Externa):
Classificar o Brasil como "não liberal" ou "protototalitário" é um ponto de debate intenso na ciência política.
- Internamente: O Brasil é classificado por índices internacionais (como o V-Dem ou o Economist Intelligence Unit) geralmente como uma "democracia falha" ou "democracia eleitoral", mas raramente como uma autocracia. Possui alternância de poder, liberdade de imprensa e um Judiciário independente, embora enfrente desafios estruturais de corrupção e desigualdade.
- Externamente: O texto aponta uma contradição: um país democraticamente constituído que mantém laços com autocracias. Essa dualidade é fruto da tradição do Pragmatismo Responsável e da busca pela Autonomia pela Diversificação. Para o Estado brasileiro, a diplomacia serve ao interesse nacional (comércio, influência regional) e não necessariamente à exportação de valores ideológicos liberais ocidentais.

2. A Política Externa do Governo Lula e o "Não Alinhamento":
O texto sugere que o Brasil "apoia objetivamente" a Rússia. Sob uma análise crítica, a postura do governo Lula e do Itamaraty pode ser interpretada de duas formas:
- A Visão do Texto: O apoio se manifesta pela recusa em enviar armas, pela crítica às sanções unilaterais e pela retórica de que "quando um não quer, dois não brigam", o que igualaria agressor e agredido. Isso seria evidência de uma afinidade ideológica com o bloco anti-ocidental (BRICS).
- A Visão Diplomática: O Brasil adota a "Neutralidade Ativa". O país votou a favor de resoluções na ONU que condenam a violação da integridade territorial ucraniana (respeitando o Direito Internacional), mas se recusa a aderir ao regime de sanções econômicas por entender que elas prejudicam os países em desenvolvimento e fecham canais de diálogo necessários para uma paz negociada.

3. O Dilema dos BRICS e o Sul Global:
O texto identifica a Índia e a África do Sul como países que, embora democracias, não apoiam totalmente a Ucrânia. Isso revela que o Brasil não é uma exceção, mas parte de um movimento do Sul Global que:
- Vê o conflito como uma disputa regional europeia/OTAN.
- Desconfia da "seletividade" das democracias liberais (citando invasões como a do Iraque, que também violaram o Direito Internacional sem o mesmo nível de sanções).
- Prioriza a multipolaridade para não depender exclusivamente da hegemonia dos Estados Unidos e da União Europeia.

* Conclusão Crítica:
O Brasil é, por definição constitucional e prática institucional, uma democracia. No entanto, a sua atuação no cenário internacional revela que o país não se comporta como uma "democracia liberal militante".
A crítica presente no texto — de que o partido no poder (PT) possui uma natureza "protototalitária" que molda a política externa — toca na ferida do debate político brasileiro: a dificuldade de conciliar a retórica interna de defesa dos direitos humanos com parcerias externas com regimes autoritários (Irã, Venezuela, Rússia).
Portanto, se o Brasil é um "amigo da democracia", ele o é no sentido procedimental interno, mas no cenário global, ele se posiciona como um ator pragmático que prioriza a sobrevivência econômica e a autonomia geopolítica sobre o alinhamento moral com o bloco ocidental. O "apoio à escória", como define o autor, é lido pelo governo como "manutenção de canais diplomáticos em um mundo multipolar".

Fonte (Gemini, a IA do Google).

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências - Giovana Cardoso (R7); subsídios Paulo Roberto de Almeida

 Matéria para a qual ofereci alguns subsídios:


Após Lula em Washington, Trump visita a China, e encontro reforça papel do Brasil com potências
Pauta deve incluir situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio
Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
13/05/2026
https://noticias.r7.com/brasilia/apos-lula-em-washington-trump-visita-a-china-e-encontro-reforca-papel-do-brasil-com-potencias-13052026/

Encontro entre Trump e Xi ocorre uma semana após ida de Lula aos EUA
A visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China nesta semana marca um momento decisivo para ambas as potências, principalmente em meio à guerra prolongada no Oriente Médio e conflitos econômicos. A expectativa é que a situação no Irã, Taiwan, minerais raros e comércio sejam as principais pautas do encontro, que ocorre uma semana após a ida de Lula a Washington.
Especialistas entendem que a reunião entre Trump e Xi Jinping, logo depois o encontro com Lula, sinaliza a volta do Brasil como peça relevante para as potências, o que pode fortalecer o país, caso haja estratégia. Entretanto, não significa que o país esteja “no centro” da disputa.
As terras raras, por exemplo, têm sido a pauta principal discutida entre os EUA e o governo brasileiro, que ocupa a posição do segundo país com maior reserva desses minerais, atrás apenas da China. Neste cenário, o Brasil pode surgir como um potencial parceiro estratégico dos norte-americanos, que tentam diversificar as fontes de fornecimento dos minerais.
Ainda assim, não é o suficiente para colocar o Brasil no centro da disputa geopolítica entre EUA e China, mas, sim, para negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações.
“O centro continua sendo a competição direta entre Estados Unidos e China por tecnologia, energia, comércio, IA, minerais críticos e influência militar. O Brasil entra como potência intermediária valiosa: grande produtor de alimentos, energia, minérios, petróleo, mercado consumidor e ator diplomático com canais abertos com Washington, Pequim e parte do Sul Global”, explica João Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR.
Em meio a essa dinâmica, o professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida entende que o Brasil não deve se colocar no “centro” ou mesmo à margem da disputa geopolítica entre os dois países, mas, sim, se manter neutro.
“Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse ‘grande jogo’, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica”, concluiu Almeida.
Consequência para o Brasil
Apesar do clima de tensão entre os países, tanto os EUA quanto a China possuem interesses em ganhos táticos. A comunidade diplomática prevê que o líder chinês busque concessões dos EUA em relação aos controles de exportação de tecnologia, às tarifas e a Taiwan — onde Xi quer que declarem oposição à soberania taiwanesa.
Já Trump deve focar em grandes compras chinesas de produtos americanos, maior acesso dos EUA às terras raras chinesas e progresso na cooperação sobre o fentanil.
Mesmo tendo a China como principal parceiro comercial, os norte-americanos seguem relevantes em investimento, tecnologia, indústria, serviços, defesa e finanças. Portanto, a reunião Trump-Xi interessa ao Brasil porque pode redefinir fluxos comerciais, explica Nyegray.
“Se houver acomodação entre as duas potências, o Brasil pode ganhar previsibilidade. Se houver novo choque tarifário ou tecnológico, o Brasil pode ser pressionado a escolher lados em temas como semicondutores, IA, defesa, infraestrutura digital, energia e cadeias minerais. A melhor posição brasileira não é neutralidade passiva, mas pragmatismo seletivo: vender para a China, atrair tecnologia dos EUA, proteger setores estratégicos e evitar dependência excessiva de qualquer lado”, diz.
Em relação aos ganhos econômicos para o Brasil, os especialistas se mostram com uma leve divergência em relação aos resultados gerados ao país. Nyegray, por exemplo, acredita que o interesse simultâneo das duas potências pode fortalecer o Brasil, mas apenas se o país souber transformar demanda externa em estratégia nacional.
“Se usar esse momento para atrair investimentos em infraestrutura, fertilizantes, energia, mineração crítica, defesa, tecnologia agrícola, semicondutores de nicho, data centers e indústria de transformação, poderá capturar ganhos muito maiores. A aproximação dos EUA pode beneficiar setores brasileiros que dependem de tecnologia, investimentos financeiros, defesa, aviação, energia e cadeias industriais mais sofisticadas. A relação com a China, por outro lado, segue decisiva para agronegócio, mineração, energia, infraestrutura e exportações de grande escala”, pontua.
O especialista entende que o Brasil pode negociar melhor acesso a mercados, financiamento para infraestrutura, parcerias em transição energética e agregação de valor às exportações. Porém, também pode sair perdendo caso vire território de disputa entre capitais estrangeiros, sem política industrial, sem segurança jurídica e sem capacidade de impor contrapartidas.
“O interesse externo só fortalece o país quando encontra um Estado capaz de negociar bem e um setor privado capaz de executar”, diz.
Já Almeida afirma que, do ponto de vista econômico, pode haver uma leve vantagem em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Pelo lado geoeconômico, o diplomata acredita que o Brasil não deve entrar em uma briga em que não tem condições de apresentar grandes interesses estratégicos.
“Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado”, conclui.

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Minha colaboração original, enviada a pedido do R7, está aqui:

Trump goes to Beijing

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas a questões do R7, Portal de notícias da TV Record.

1. Trump vai para Pequim nesta quarta para a primeira reunião presencial com o presidente da China, Xi Jinping, em mais de seis meses. A expectativa é de que os líderes discutam, principalmente, a guerra no Irã, comércio e terras raras. Esse encontro ocorre na sequência da reunião entre Lula e Trump. O que isso significa para o Brasil? Essa aproximação coloca o Brasil no centro da disputa geopolítica entre China e Eua?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: A relação bilateral EUA-China, do ponto de vista da China, não tem muito a ver com o Brasil na geopolítica global, e sim tem a ver com mercados específicos, terras raras, mercados agrícolas, parcerias comerciais e algumas outras vertentes mais. Do ponto de vista dos EUA, ou do Trump, tem sim a ver, ademais de mercados econômicos, com o chamado “grande jogo”, sobretudo depois da proclamação unilateral de Trump como imperador hemisférico, com sua (falsa) doutrina de dominação hegemônica regional, que ele chama (equivocadamente) de “corolário Trump à Doutrina Monroe”. Trump chega completamente sem cartas na manga, ou em qualquer outro lugar, a não ser o fato de ainda possuir a primeira força bélica mundial, mas não mais uma hegemonia política sobre aliados e terceiras partes, pois que alienou todos os parceiros tradicionais dos EUA, perdeu credibilidade, por sua insanidade tarifária e toda a diplomacia da brutalidade que desenvolveu neste segundo mandato.
A China, sim, tem várias cartas, e não apenas as terras raras, mas sua preeminência comercial indisputável em praticamente todos os mercados do chamado Sul Global e em vários outros continentes também.
O Brasil não pode, se for sensato, ou se sua diplomacia superar ou impedir os vários equívocos de sua política externa presidencial ultra personalista, se colocar nem no centro, nem à margem da disputa geopolítica entre os dois gigantes de economia mundial. Ele tem de ser absolutamente neutro nessa disputa, na qual ele não pode entrar, e sim aproveitar a situação para se colocar como parte interessada num encaminhamento pacífico e cooperativo desse “grande jogo”, que não contribui em nada para seus interesses e objetivos nacionais, que se situam inteiramente no plano do desenvolvimento, da cooperação tecnológica (inclusive em terceiros mercados, como os africanos e latino-americanos). A política externa lulopetista começou mal 20 anos atrás, ao formar um bloco com duas super potências nucleares, que possuam interesses que não são os seus. O Brics parecia ser um ativo, ao início, mas já se tornou um ponto de contenção para uma diplomacia verdadeiramente autônoma e independente do jogo das grandes potências.


2. O interesse das duas potências no Brasil pode fortalecer o país de alguma forma? E como isso pode influenciar a economia brasileira?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: De nenhuma forma, a não ser que as duas potências pretenderiam jogar pelas regras do multilateralismo político e econômico, e pela cooperação benéfica a países em desenvolvimento, pelo menos não é o caso do ponto de vista de Trump (já foi dos EUA, em outras épocas). A China joga pelas regras multilaterais, mas não é uma aderente total a essas regras, do contrário nunca poderia apoiar a usurpação pela força do território de um Estado soberano, como ocorre no caso da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Mas ela o faz devido ao claro unilateralismo, arrogância e estupidez (não existe outra palavra) dos EUA, que focam a China como um adversário, o que ele nunca foi, e que insistem em manter uma preeminência imposta, não mais admitida pela maioria dos países.
Do ponto de vista da economia brasileira pode haver alguma “vantagem” (muito duvidosa) em alguma barganha para concessões ou ganhos setoriais, numa disputa entre os dois grandes por mercados ou investimentos. Mas esse é um jogo para o qual o Brasil ainda não está muito preparado, pois precisaria ter grandes projetos de investimentos (em infraestrutura, tecnologia e outros) prontos para serem barganhados, o que ainda não é o caso, sequer em terras raras, pois não tem mapeamento adequado.
Do ponto de vista geoeconômico ou estratégico, não há nenhum interesse em se imiscuir em disputas que não lhe dizem respeito, a não ser no caso de um continente rico em matérias primas, energia, recursos naturais, mas atualmente o Brasil sequer possui capacidade de realizar coordenação e consultas políticas com os outros sul-americanos para entrar nesse tipo de disputa. Em linguagem popular, não é o caso de entrar em “briga de cachorro grande”, quando não se tem o mínimo de condições de apresentar um “portfólio” de grandes interesses estratégicos, num continente marginal aos centros dinâmicos do mundo, que se situam na Eurásia terrestre e nos oceanos Pacífico e Índico.


3. A China é um dos principais afetados pelo fechamento do Estreito de Hormuz. Acredita que os EUA tentariam de alguma forma negociar alguma questão para se beneficiar? O Brasil pode ter algum papel nessa negociação...talvez indiretamente?

Resposta Paulo Roberto de Almeida: Difícil dizer, no plano estrito da relação bilateral China-EUA e na triangulação com o Irã, pois a China também é uma espécie de “conselheira” do Irã em matéria de política externa, mas hoje existe certo vácuo de lideranças no Irã, a despeito de dois moderados na área política (o presidente e o chanceler), mas com uma guarda revolucionária ainda incerta em sua capacidade de defesa e de contenção da insatisfação da população iraniana, reduzida à pobreza agora.
Do ponto de vista do Brasil, não haveria muito a fazer, mesmo se Lula sempre se oferece para ser um “mediador”, mas isso estaria acima de sua capacidade.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5308, 11 maio 2026, 2 p.

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