sábado, 12 de abril de 2025

Livro: Delírios nervosos – o Rio de Janeiro de Orestes Barbosa, de Lucas Assis - Dilmar Miranda

Mais um envio primoroso do meu amigo Mauricio David, sobre um livro dos poetas, prosadores, cantores, compositores de outras época 

... . O poeta Manuel Bandeira considerava seu verso “tu pisavas os astros distraída” da valsa “Chão de estrelas” (1937), imortalizada na voz de Silvio Caldas, como o mais bonito da língua portuguesa, juízo reiterado por Rubem Braga, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, para citar alguns....

... mineiro sabe duas coisas bem, solfejo e latim”...

... Ainda jovem, Orestes Barbosa convive com a chamada “geração boêmia”, onde “despontam nomes como Olavo Bilac, Coelho Neto e os irmãos Arthur e Aloísio de Azevedo”. “Cada um de nós reproduzia a cidade… O Rio éramos nós’, escreve Martins Fontes nas suas ‘reminiscências da época de Bilac.” Outros nomes são agregados à geração anterior: Lima Barreto e João Paulo Barreto (João do Rio), que também alertam para a polarização “entre o encanto vertiginoso da modernização técnica e a visão trágica de seu avesso”...

 

Delírios nervosos – o Rio de Janeiro de Orestes Barbosa

 

Por DILMAR MIRANDA*

Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Lucas Assis

1.

Confesso minha admiração pelo belo trabalho de Delírios nervosos – o Rio de Janeiro de Orestes Barbosa, devido aos inúmeros fatos abordados, à riqueza de informações e qualidade de suas análises, com belas ilustrações de artistas, como Palumbo, Kalixto, Di Cavalcante, Nássara, Millôr Fernandes e outros. Meu primeiro ímpeto foi pensar um texto que extrapolasse as linhas de uma resenha, talvez um ensaio, no limite, um pequeno livro. Matéria e vontade não faltavam. Contudo, uma vez aceito o desafio, vamos à resenha.

Comecemos pela sua personagem. Na memória e crônica da cidade do Rio das primeiras décadas do século XX, eis o talentoso Orestes Barbosa, “cronista, letrista, jornalista, romancista, panfletário, boêmio” (Lucas Assis), enfim, um completo artista das letras. O poeta Manuel Bandeira considerava seu verso “tu pisavas os astros distraída” da valsa “Chão de estrelas” (1937), imortalizada na voz de Silvio Caldas, como o mais bonito da língua portuguesa, juízo reiterado por Rubem Braga, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, para citar alguns.

A resenha exigiu um mergulho na história do Rio, desde o início do século XIX, com a vinda da corte lusa, época importante para a formação da nossa música popular, elemento imprescindível para a análise da vida e obra de Orestes. Como sabemos, a corte chega em março de 1808, após abandonar Lisboa às pressas em fins do ano anterior, fugindo das tropas de Napoleão já próximas de Portugal, em retaliação à política lusa de boas relações com a Inglaterra.

Mesmo considerando a rica vida musical do chamado “milagre mineiro” na época, cuja região das Gerais era dotada de uma obra vista como fantástica (“mineiro sabe duas coisas bem, solfejo e latim”, dizia-se então), não se pode desprezar o efeito provocado com a vinda da corte. Dá-se um episódio inédito na história dos países colonizadores.

A corte metropolitana, com seus altos funcionários, clero, preceptores, militares e toda criadagem, transfere-se para uma cidade da colônia, tornando-a a capital de todo o reino. Fez parte da bagagem real o piano, sendo fabricado a partir de 1834 aqui no país. Além disso traz novos hábitos e gêneros musicais como a ópera, a valsa e outras danças cortesãs, além de práticas musicais de salão como os minuetos e gavotas.

Para abrigar o séquito real, cerca de dez mil casas foram pintadas com as letras PR, de Príncipe Regente, o que o espírito carioca passou a interpretar a partir do seu real sentido: Ponha-se na Rua. Até então, o Rio era um burgo colonial. A população estimada entre 60 a 80 mil pessoas (dois terços negra, muitos escravizados e poucos libertos), recebe um imenso aparato administrativo. Calcula-se em torno de 10 a 15 mil pessoas do séquito inicial, chegando a 20 mil com os correr dos anos.

O Rio torna-se a nova capital do reino. O acanhado burgo transforma-se no esplendor da corte, com novas casas de negócios, salões de recepção, edificações refinadas, novos usos e costumes. A corte traz um grande problema para sua segurança, sendo logo criado o cargo de Intendente Geral da Polícia. Uma das suas primeiras ações foi proibir as rótulas, um biombo de lâminas de madeira trançadas, uso árabe muito difundido para proteger a mulher, no interior do lar, dos olhares invasivos masculinos desfechados das ruas. Sua descrição acha-se em Sobrados e mocambos de Gilberto Freyre. Temendo atentados contra o Príncipe Regente ou familiares, as janelas passam a ter vidros transparentes, cuja substituição maciça garante bons lucros à indústria inglesa de ferro e vidro.

Segundo Edinha Diniz, com essa proibição, a mulher chega à janela e logo ganha a rua. Chiquinha Gonzaga, nascida em 1847, portanto após a proibição das rótulas, expressa esse novo espírito da mulher carioca. A partir daí, esse ambiente será importante para a prática das serestas, inclusive com a presença feminina, o que será herdado pelas noites cariocas da época de Orestes Barbosa.

Outro fato relevante dessa mesma época é a iluminação a gás instalada em 1854 no Rio pela empresa de Irineu Evangelista de Souza (Barão de Mauá), oferecendo maior segurança ao lazer noturno. Antes, as ruas eram mal iluminadas por lampiões a óleo de baleia. Com a nova iluminação, prolonga-se a vida noturna, oferendo maior segurança à vida boêmia nos espaços públicos das ruas e praças, como as serestas, além do incremento das práticas musicais nos recintos privados dos salões.

2.

A nova cena urbana entretece um rico fluxo musical: o encontro de músicos de procedência afro-popular formados na prática dos espaços públicos, com os intérpretes da música luso-europeia aceitos nos salões, exímios intérpretes de gêneros como a polca, mazurca, gavota etc., passo crucial para a criação de novos gêneros.

Com esse rico encontro, partiam para as serenatas onde se destacavam três gêneros propícios para a vida boêmia noturna, herdados pela geração de Orestes: a modinha, o choro e a valsa.

A modinha terá grande importância para o novo cenário musical. Sua prática estende uma ponte entre dois mundos: o Brasil colonial arcaico, de evocação ainda rural, e o novo Brasil imperial semiurbano, que vinha se transformando desde a vinda da corte. O debate sobre a origem da modinha é polarizado por Mario de Andrade, defensor da “proveniência erudita [lusa] inconteste das Modinhas”, e José R. Tinhorão, defensor da sua origem brasileira, com o carioca Domingos Caldas Barbosa, introdutor do gênero na corte imperial em Lisboa, no século XVIII, onde faz sucesso, com sua forma “sestrosa” de versejar e tocar a viola de arame.

Em Portugal, os músicos passam a compô-las ao piano, elitizando sua forma. A modinha retorna ao Brasil, reconquistando praças e ruas, acompanhada agora ao violão. Sua maior contribuição está na liberdade rítmica do fraseado, no limite, ad libitum, termo que designa a interpretação mais livre, criando assim um padrão de performance das canções seresteiras. Na mesma época das serestas iluminadas pelo lampião a gás, as noites se prologam ao som do choro, um modo peculiar de grande virtuosismo, executado por músicos talentosos chamados de chorões, cujo repertório incluía as modinhas, polcas, mazurcas, gavotas, schottisches (xote), canções, lundus, valsas etc.

“No Rio da assomada do século não se compreende lua no céu sem serenata, sem violão e sem cantigas” citação de Luís Edmundo em O Rio de Janeiro do meu tempo. Nas décadas da virada do século XX, os artistas versejavam as modinhas, nem sempre falando de amor, “mas repercutiam também os problemas urbanos, comentavam os fatos e acontecimentos políticos ou homenageavam figuras da cidade”. O autor refere-se à “Guerra de Canudos” e à figura de Santos Dumont em “A conquista do ar”, modinha de Eduardo das Neves.

Ainda sobre a modinha, no capítulo Concerto moderno, dedicado às serestas, Lucas Assis cita João do Rio, parceiro nas letras e boemia de Orestes Barbosa, em “A Alma encantadora das ruas”. No mesmo capítulo, cita um trecho de Bambambã descrevendo o encontro de Orestes com Catulo da Paixão Cearense falando das antigas serestas com flautaviolão e cavaquinho e dos cantadores “que andavam emocionando pelas noites de luar”. Além de introduzir o violão nos salões, ele é citado como um dos mais importantes modinheiros da época.

A valsa foi um gênero de grande importância para o repertório cancionista de Orestes Barbosa. Oriunda do meio camponês europeu e depois aceita nas cortes como ritmo dançante de pares enlaçados, novidade para a época, aqui nos chega sofrendo uma alteração rítmica para se adequar ao ambiente noturno do sereno. A despeito do ternarismo rígido originário do metrônomo da valsa vienense (UM – dois – três, com o 1º tempo fortemente marcado na entrada do compasso 3/4), um traço típico da valsa brasileira foi liberar-se da ossatura rígida do compasso ternário, dando origem ao “compasso ternário seresteiro”.

Conforme vimos na modinha, a tendência do andamento era mais livre, tendendo à rítmica ad libitum, o que denominamos de “rítmica derramada”. Assim, nas noites do Rio, a valsa passa a ser interpretada, “temperada com uma pitada de malemolência e sotaque local, gerando inclusive a peculiar valsa-canção” (citação de um encarte), tornando-se uma das formas prediletas de nossos intérpretes. E assim chegamos ao “Chão de estrelas”, valsa-canção obrigatória do nosso cancioneiro popular seresteiro.

3.

Passemos à resenha dos capítulos do livro de Lucas Assis. Além da Introdução, a obra abarca seis capítulos – Miolos de ouro, veio de crônicas; Flagrantes da vida carioca; Concerto moderno; Palco iluminado; Cenários do nosso amor; O ouvido da cidade -, e o epílogo Astro desastrado. Já na Introdução, Lucas refere-se à grande intervenção que o Rio sofre em 1904: a operação O Rio civiliza-se para as elites, e operação Bota-abaixo para os segmentos populares, termos para designar o movimento reformista da gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906), com apoio do presidente Rodrigues Alves.

O tempo do progresso é voraz. Em menos de 9 meses são demolidos mais de 600 prédios e moradias populares da área central. Limpo o terreno, retificam-se ruas, rasgam-se largas avenidas como a Av. Central (depois avenida Rio Branco), onde constroem-se praças e edificam-se prédios suntuosos.

Filiada ao ideal positivista, tema que irá inspirar o samba Positivismo de Orestes Barbosa e Noel Rosa em 1933, objeto inclusive da admiração de João do Rio, a ideologia dominante persegue o ideal da civilização e do progresso, encontrando no engenheiro Pereira Passos, um Haussmann tropical.

Eis um trecho do samba:

O amor vem por princípio
A ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezaste esta lei de Augusto Comte
E foste ser feliz longe de mim

Pereira Passos havia estudado na França (1857-60), e lá presencia a grande reforma de Paris, na gestão do prefeito G.E. Haussmann, que rompe com a arquitetura medieval de ruas estreitas e tortuosas, abrigo das classes dangereuses (classes perigosas), conforme denominação da época, o que não foi suficiente para impedir o ímpeto revolucionário de 1871, das barricadas da Comuna de Paris. O prefeito carioca mereceu um livro de autoria de Jaime L. Benchimol intitulado Pereira Passos: um Haussmann tropical: a renovação urbana da cidade do RJ no início do século XX.

Na época, para combater o que consideravam mau-gosto, as elites criam a Liga Contra o Feio, e a Liga da Defesa Estética. Eis a saudação de Bilac à operação O Rio civiliza-se: “Há poucos dias, as picaretas, entoando um hino jubiloso, iniciaram os trabalhos de construção da avenida Central, pondo abaixo as primeiras casas condenadas … No aluir das paredes, no ruir das pedras no esfarelar do barro, … um grande gemido. Era o gemido soturno e lamentoso do Passado, do Atraso, do Opróbio. A cidade colonial imunda, retrógrada …estava soluçando no soluçar daqueles apodrecidos materiais que desabavam. Mas o hino claro das picaretas [regeneradoras] abafava esse protesto impotente, no seu clamor incessante e rítmico, celebrando a vitória da higiene, do bom gosto e da arte!” (Revista Kosmos, março de 1904).

Por outro lado, mereceu também do modinheiro Madruga, citado por João do Rio, o título provocador de Nero tropical:

Venha quanto antes D. Elisa
Enquanto Passos não atiça
Fogo na cidade.

O escritor Pedro Nava também possuía uma visão crítica à gestão do prefeito Pereira Passos, conforme consta em suas Memórias, ao considerá-lo mais demolidor do que construtor.

4.

No abrir do novo século, inicia-se um Rio conflituoso, herdado por Orestes Barbosa, nascido na Aldeia Campista, subúrbio carioca, e atento aos seus efeitos. Não era “um observador de gabinete, já que vive nas esquinas, nas ruas e cafés, madrugada adentro”. Como vimos acima na citação da Kosmos, “muitos foram aqueles que escreveram sobre a cidade em que viviam, registrando as transformações urbanas, políticas e sociais, como refletindo sobre as implicações destes processos, por vezes projetando um ideal de ‘civilização’ e ‘progresso’ ou deles desconfiando”.

Ainda jovem, Orestes Barbosa convive com a chamada “geração boêmia”, onde “despontam nomes como Olavo Bilac, Coelho Neto e os irmãos Arthur e Aloísio de Azevedo”. “Cada um de nós reproduzia a cidade… O Rio éramos nós’, escreve Martins Fontes nas suas ‘reminiscências da época de Bilac.” Outros nomes são agregados à geração anterior: Lima Barreto e João Paulo Barreto (João do Rio), que também alertam para a polarização “entre o encanto vertiginoso da modernização técnica e a visão trágica de seu avesso”.

Com apenas 24 anos em 1917, Orestes Barbosa publica seu primeiro livro, Penumbra Sagrada, coletânea de poesiasSegue em 1921, a plaqueta Água Marinha. Passa a publicar seus poemas apenas em jornais ou revistas. Dedica-se nas crônicas aos seguintes temas: o lampião a gás, a eletricidade, o bonde, as ruas e avenidas, a multidão, as moradias modernas (os bangalôs). Na era do disco e do rádio, publica A Fêmea, cujo enredo lhe traz dissabores e um processo jurídico.

Duas obras merecem destaque: Bambambã! (1923) e Samba – sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores (1933), únicas obras reeditadas, a primeira em 1993, pela Prefeitura da cidade do RJ (Coleção da Biblioteca Carioca) e a segunda em 1978 pela FUNARTE, RJ. Bambambã! merece destaque pelo seu teor crítico voltado para as ações públicas do poder contra as práticas musicais populares. A primeira crítica é desfechada contra a operação Bota-abaixo, ao dar o golpe de misericórdia nas noites cariocas, com a demolição das pensões do centro. Assim lamenta o autor: “O governo Rodrigues Alves quis reformar tudo. Reformou a cidade com Frontin e Pereira Passos. … e acabou com a serenata. Esta parte coube ao chefe de polícia, Cardoso de Castro [da Guarda Civil do Distrito Federal]”.

Na 2ª citação, em Samba, critica a condenação do violão, contra o qual havia uma legislação específica por ser visto como instrumento degradante, citando uma ação repressiva, no tempo do chefe de polícia major Vidigal (séc. XIX). “O major Vidigal, ao remeter certa vez, a um juiz … desta cidade, um rapaz ‘acusado de serenata’, assim descreveu no ofício: ‘E se V. Ex. ainda tiver sombras de dúvidas quanto à conduta do réu, queira examinar-lhe as pontas dos dedos e verificará que ele toca violão”.

Multiplicam-se os relatos da época contra a polícia que não dava tréguas ao lazer popular. O delegado, ou o chefe de polícia, era figura onipresente nas falas dos compositores da época, como Donga e Pixinguinha, que depõem ao prof. Borges Pereira da USP. “A polícia, sem mais aquela, cercava a casa da gente onde o pessoal se divertia. Sambista era malvisto, violão também” (Donga). “Nessa história da polícia, o Donga tem razão. Quando eu era menino. ia assistir às batucadas dos negros no meio do mato, a polícia perseguia e a negrada ia batucar no mato, escondido” (Pixinguinha). Com o tempo, as coisas mudam.

Em crônica do Bambambã! Orestes Barbosa relata “o percurso do ‘dificílimo e belo’ instrumento até chegar aos salões elegantes, empunhado por homens vestidos de frackSeu ingresso nos salões, segundo o cronista, “tem sua personificação em Catulo da Paixão Cearense, que ‘com toda sua mudança para poeta expoente do sertanismo’, é conhecido [no Rio], e em todo o país, pelas ‘modinhas sonorosas’”.

5.

No seio das grandes mutações urbanas, o cronista nos convida “a conhecer e acompanhar os tipos do Morro da Conceição, dos bairros do Estácio, da Saúde, da Aldeia Campista, os notívagos do centro, os sambistas e a história do samba, os ‘vícios’ urbanos, os ‘astros’ das esquinas e das revistas, as vitrinas iluminadas e os recantos do ‘Rio criminoso’”. A partir dos anos 1920, o Orestes Barbosa atento às mutações das ruas, registra o sumiço dos “pianos ambulantes, realejos, gaitas, sanfonas, …, guitarras e bandolins” cujo desaparecimento era causado, segundo ele, pela ação de Pereira Passos. “Tempo que, sob o progresso urbano, marcava o fim do ‘tempo das serestas’”. Registra-se nessa época a retomada das intervenções do centro, com a derrubada do Morro do Castelo, visando as comemorações do Centenário da Independência, em 1922, com consequências na boemia da cidade. A memória das demolições do Bota-abaixo vem à tona.

Na vida boêmia carioca, como no Café Nice, nas redações dos jornais, espaços que muitas vezes se cruzavam, Orestes era respeitado e temido. Em Memórias do Café Nice: subterrâneo da música popular e da vida boêmia do Rio de Janeiro, o jornalista Nestor de Holanda dedica o capítulo final do livro ao “famoso letrista”. Chegando ao Rio, no início dos anos 1940, recorda que Orestes era visto como autor de belas canções, e também temido como jornalista.

Depoimento semelhante encontramos no livro Parceiros da Glória: meio século na MPB, memórias póstumas de David Nasser, onde um capítulo é dedicado a Orestes Barbosa. São várias as referências e homenagens que percorrem no nosso cancioneiro popular mais recente, chegando às portas da época presente. Em Figuras e coisas da música popular brasileira, João Ferreira Gomes (Jota Efegê), autor de Ameno Resedá, o rancho que virou escola Maxixe, a dança excomungada, reverencia Orestes, como “o cronista que toda a cidade conhece”, e o louva como precursor das crônicas de morro.

É relevante sublinhar as intenções de Lucas Assis ao escrever que seu trabalho, ao recorrer às reportagens, poemas e canções de Orestes, “trata de aspectos da crônica social como formulada desde o Rio de Janeiro, então capital da República”. A descrição urbana das crônicas e canções do compositor, bem como as dos colegas “é encarada a partir do seu topos” (do grego antigo τόπος, para designar lugar, sítio, terra), termo usado para designar o contexto que embasa um argumento. “O poeta e o jornalista, a crônica e a música popular, caminham juntos. A crônica da cidade, ou cidade da crônica (sic) não pode ser encarada numa visada apenas, … como também, não está desconectada de sua experiência, de sua vida social” (LA). Outras penas e vozes se juntam a Orestes, como José do Patrocínio Fº, Benjamim Costallat, Genolino Amado … e outros.

Em Cenários de nosso amor, Lucas Assis chama a atenção para a figura do Orestes flâneur. Assim como o filósofo Walter Benjamin, ao descrever Paris, capital do século XIX, convidando-nos à flânerie, a experiência de ver a cidade com olhos despreocupados, durante passeios ao léu e sem destino. “Na crônica como na canção”, Orestes Barbosa nos convida a acompanhá-lo, “página a página, verso a verso” como um flâneur do Rio de janeiro, capital do século XX.

E assim, com o livro aberto, “o leitor ouve o ronco dos motores, tropeça nos camelôs, esbarra nos jornaleiros, ouve repetidos os pregões. Na avenida, diz o cronista, ‘vê-se o mundo’”: “Estou na avenida ouvindo sambas. Em cada esquina há dedos tamborilando em caixas de fósforo”. A cidade é a moldura viva do flâneur. Com o impiedoso “progresso técnico”, parece que a cidade não mora mais aqui, ou seja, na alma do flâneur. Numa passagem nostálgica do livro Samba, um saudoso Orestes lamenta: “Que fim levou o homem dos sete instrumento? A carroça do caldo de cana, que tocava música também acabou”.

6.

Nos limites da resenha, passo a enfatizar o livro Samba – sua história, seus poetas, seus músicos e seus cantores, abordando o capítulo o Ouvido da cidade, pela relevância de seu teor e riqueza de análises de personagens e ambiente da época, para a gestação do gênero identificador de nossa moderna música popular urbana e seus principais criadores e intérpretes.

Num ano também rico na criação de canções, o livro vem a público em 1933, alguns anos após o samba ser consagrado no carnaval carioca, nos programas radiofônicos, bem como em discos gravados pelo sistema fonoelétrico, substituindo as gravações fonomecânicas, sofrendo disputas acirradas sobre suas origens, autorias e definições do gênero, como a célebre polêmica entre Donga e Ismael Silva, envolvendo, além do samba, o maxixe. Acrescente-se ainda à época, o processo de profissionalização artística nos meios radiofônicos e discográficos.

Como modelo do artista profissional Orestes Barbosa aponta o cantor Francisco Alves. Seu nome aparece como artista que usava seu prestígio para negociar parceria em sucessos da época, em troca de sua difusão no rádio e disco a exemplo do samba Se você jurar de N. Bastos e I. Silva. Quem participava desse recurso era tachado de com(pro)sitor, termo usado pelo próprio Orestes Barbosa.

Várias passagens de Orestes Barbosa citadas por Lucas Assis se dedicam a outra grande polêmica sobre a origem do samba. Vejamos algumas. Na página inicial do Samba, eis uma declaração de identidade e de princípios do gênero, portador de sensíveis afetos, proferindo a razão a que veio: “O samba é carioca. A emoção da cidade está musical e poeticamente definida no samba”.

Este é o estilo da escrita de Orestes Barbosa no livro Samba, qualificado de síntese telegráfica, sem perder a densidade de seus sentidos e intenso afeto à nossa música popular. Vejamos mais alguns exemplos: “O carioca, diverso em tudo, de todos os povos, criou a sua música original. Este livro, que é a história do samba, mostra este gênero musical em plena definição. Seus músicos, seus poetas e cantores, aqui aparecem, destacados de outros músicos, de outros poetas e de outros cantores do próprio Brasil”.

E: “O Rio, laboratório de emoções, criou a sua alma, e com ela o seu ritmo musical”. Mais adiante reitera: “É carioca. Eles têm que respeitar!”.

Numa surpreendente e certeira passagem, Orestes Barbosa menciona o filósofo Artur Schopenhauer que profere ser a música expressão do “em-si” do fenômeno. Ou, dito de outra forma: a palavra descreve o mundo, já a música é o próprio mundo.

Como estratégia editorial, Samba estava prometido para 1932, para aproveitar a recente institucionalização do carnaval, mas não consegue cumprir o prometido. Sai no início do segundo semestre de 1933, quando sai a público, meses antes, Na roda do samba de Francisco Guimarães, o Vagalume, ambos envolvendo uma candente discussão sobre o samba e o carnaval.

O estilo de Orestes Barbosa “enlaça ‘reminiscência’ (testemunha ocular) e ‘investigação’ (crônica histórica), ou, como pontua o autor, ‘reportagem’ e ‘reivindicação’, uma vez que ele contava uma história colhida ‘no meio dos sambistas da terra em que nasci’. O ‘mérito’ de Samba devia-se, então, à ‘autoridade’ do autor. Jornalista, compositor, notívago, dono das calçadas, escritor e personagem daquela história, Orestes não era um observador alheio. ‘Eu sou da rua. E esta autoridade ninguém me negará’… Pelas ruas da cidade, no Buraco Quente, na Praça Onze, ou sentado à mesa no Café Nice [espécie de quartel general da boemia carioca], Orestes Barbosa anota o ‘registro imprevisto das emoções’.

No livro, ao desfilar suas impressões, o cronista, em sobressaltos, como característico no seu estilo taquigráfico, [como um flâneur] convida o leitor a ‘passear’ com ele ‘nos morros, nos subúrbios, nos arrabaldes, nas rampas marítimas – em todas as claridades e em todos os desvãos soturnos onde vive a alma do povo singular da cidade mais linda que o mundo tem’” (LA).

Orestes elogia o carnaval da época, por julgar que, com a República, a festa tinha se livrado do entrudo luso e “mudado para melhor”.

“Já não há mais os foliões de graçola sem sal.
Hoje o carnaval é alegria.
E o samba.
O samba dominando.
Sai do Rio e invade os Estados.
O Rio influi”.

As escolas de samba, cuja organização pioneira, a “Deixa falar” do Estácio, saíra pela primeira vez em 1929, recebem elogio de Orestes ao afirmar que as “escolas de samba de hoje são organizações perfeitas”. Na página 28, duas menções fundamentais para o moderno samba urbano: o Estácio e o compositor Newton Bastos, coautor de Se você jurar. Na página seguinte os famosos versos que fazem a história da polêmica do que seria o primeiro samba, envolvendo Donga e Ismael Silva, visto na época como “encrenca feia”, disputa reacendida por Sérgio Cabral décadas mais tarde:

“Se você jurar,
que me tem amor,
eu não posso me regerar.
Mas se é para fingir, mulher,
a orgia assim não vou deixar”.

Desde essa época, nos fica certo qual incertos eram os parâmetros definidores do gênero, na discussão do “primeiro samba”: Jura, Pelo Telefone, Faceira? O diálogo promovido nos anos 1960 por Sérgio Cabral, décadas depois da famosa polêmica sobre o “primeiro samba”, entre Donga e I. Silva, vinda dos tempos heroicos dos inícios da profissionalização do artista popular, outro tema de Orestes, fica claro que a questão ainda persistia. À pergunta sobre o verdadeiro samba, eles respondem: Donga: Ué. Samba é isso, já muito tempo; [canta Pelo Telefone].

Ismael: Isso é maxixe.
Donga: Então o que é samba?  
Ismael canta: Se você jurar.
Donga: Isso não é samba. É marcha.

O próprio Donga, em entrevista para o MIS do RJ, afirma: “fiz [Pelo Telefone] não procurando me afastar muito do maxixe, música que estava bastante em voga”. A disputa entre os dois gêneros, além da questão musical de natureza rítmica, buscava razões práticas. Os sambas amaxixados, com o movimento dos braços e do corpo para as laterais, “eram bons para dançar” em recintos fechados, mas “ruins para dançar e caminhar”, conforme exigiam os novos tempos que começavam a favorecer sua prática em lugares públicos.

No diálogo, diz ainda Ismael: “a gente precisava de um samba para movimentar os braços para a frente e para trás durante o desfile”. Babau da Mangueira sintetiza a necessidade do novo gênero, um tipo de samba próprio para ser dançado e cantado ao mesmo tempo no cortejo: era samba de sambar. Surge a síncope do moderno samba urbano, tema que irá atrair a consideração e a pena de vários autores.

A personagem dessa época mais reverenciada por Orestes foi João Batista da Silva, Sinhô.

“Mulato disfarçado, esguio e boêmio, em um
Extraordinário valor.
O Jura foi uma consagração:
‘Jura, jura,
Pelo Senhor…’”

Orestes Barbosa cita ainda as canções Cansei Gosto que me enrosco de Sinhô.

Numa página de poucas frases, típica de seu estilo telegráfico, Orestes Barbosa cita o título da canção: Um sou eu, o outro não sei quem é, menção ao samba de Sinhô que se envolve em mais uma encrenca sobre a autoria. Sinhô teria auto atribuído o título “Rei do samba”, o que não agradou a outros autores. Na época, com as chances de se profissionalizar, cada um buscava demarcar seus territórios: o samba como gênero bem definido e a individualidade autoral de sua criação.

7.

A briga em torno de Pelo Telefone havia provocado o primeiro dissenso grave entre eles, apartados agora em dois grupos: a turma do Donga x a turma do Sinhô, inspirando composições com mútuos ataques. Sinhô, referindo aos frequentadores da casa da famosa baiana, Tia Ciata, na Pequena África, cujas festas costumavam se prolongar por mais de uma semana, lança no carnaval de 1918, Quem são eles? também conhecida como A Bahia é boa terra, logo seguida com a explícitaprovocação Ela lá e eu aqui, com clara intenção de retaliação.

Sinhô é revidado com Já te digo, de Pixinguinha e o irmão China, no carnaval seguinte, pegando pesado com ataque direto à “feiura” de Sinhô, visto como péssimo flautista.

“Um sou eu,
O outro eu sei quem é…
Ele alto, magro e feio …
Ele fala do mundo inteiro
E está avacalhado no Rio de Janeiro.
No tempo que tocava flauta,
Que desespero!
Hoje, ele anda janota,
Às custas dos trouxas do Rio de Janeiro.

A disputa mais célebre de autoria se dá com Sinhô e Heitor dos Prazeres por causa do Gosto que me enrosco,quando Sinhô diz a famosa frase “samba é que nem passarinho; quem pega é dono”. Sinhô, com o autoatribuído título Rei do samba, segundo seus desafetos, era o rei das apropriações de obras alheias. Contra isso, Prazeres reage com dois sambas: Olha ele Rei dos meus sambas, cujos versos desferem um ataque frontal a Sinhô.

“Eu lhe direi com franqueza…
Tenho razão de viver descontente
És conhecido por ‘bamba’,
Sendo “rei” dos meus sambas.
Assim é que se vê
A tua fama, Sinhô
Desta maneira é rei
Eu também sou!

Ainda sobre as suas origens, Lucas Assis cita a letra de um samba de Oswaldo Silva de 1932, cuja disputa entre cariocas e baianos continua acessa.

O samba
Para ser bem brasileiro
Tem que ser feito
No Rio de Janeiro (bis)
O carioca
Não tem medo de moamba
E na Bahia
Só se fala em vatapá
Caruru e mungunzá
E mingau de tapioca
O samba é a canção
Que anima o carioca
Substitui o maxixe
Qualquer dia vai à Europa.


O que é contestado com o samba lançado por Carmen Miranda, em 1935:

Foi na Bahia
Que o samba apareceu
E aqui no Rio
Ele um dia ingressou
Assim venceu
Depois de um desafio
O samba subiu o morro
Triunfou com harmonia.

“No debate que se travou na imprensa e na letra das canções, o motivo da origem identifica laços e filiações, situados desde a experiência e memória daqueles que há muito estão ‘dentro do samba’”. A disputa da origem parece interminável. Uma nova discussão se impõe definindo os limites das origens, não apenas entre Rio e Bahia, mas recuando ainda às origens primeiras no solo africano. Além da discussão sobre sua paternidade, surge outra: se desceu do morro ou floresceu no asfalto. Em meio a tais disputas sobre a origem, é sempre bom dizer origens e não origem para não cair na armadilha do mito de origem.

Lucas Assis toca um ponto crucial da discussão sobre o moderno samba urbano: o papel dos “bambas do Estácio”. “Com os irmãos Rubem e Alcebíades Barcelos, personificavam os tempos ‘áureos’ da turma do Estácio, período em que o samba começou a ser ‘compreendido’ na cidade”. Para sua integração no carnaval de rua e nos desfiles das Escolas de Samba, foi fundamental a introdução do surdo de marcação para se libertar de suas origens amaxixadas.

8.

Retornemos ao samba de sambar de Babau da Mangueira.

O novo samba seria responsável por uma mudança sutil na figuração de sua rítmica básica. Para adequá-lo ao movimento da rua, é propiciado um andamento mais leve e solto dos foliões. Para fazer avançar o samba, é introduzido o surdo de marcação, cuja pancada faz prevalecer o tempo forte do ritmo binário 2/4. Assim, a batida no 2° tempo do compasso, pela pancada do surdo, de som mais grave, contribuiu para anular o amaxixado do ritmo. A par disso, outros instrumentos de registro médio e agudo, como o tamborim, preenchem os claros entre os tempos fortes do surdo. Essa iniciativa teria partido dos irmãos Bide e Marçal, segundo depoimento de Heitor dos Prazeres Filho.

Outro efeito sutil no pulso foi gerado pela articulação da nova batida com a nota de antecipação. Recuada no final do compasso, esta passa a anunciar no compasso anterior, a nota idêntica situada no compasso seguinte, roubando seu valor, o que, por si só, já quebrava a previsibilidade rítmica do seu andamento. A flutuação provocada pelo balanço, entre o tempo fraco e o tempo forte, favorecia uma leve sensação de vazio espacial, exigindo seu preenchimento pelo movimento do corpo que, num só instante, dançava e caminhava, cujo ritmo articulava, no mesmo movimento, tempo e espaço.

Assim, nessa malha entretecida por tempos de intensidades e distintas durações explícitas, tal experiência passa a provocar uma sensação de tempo suspenso e vazio, atraindo o corpo a ocupá-lo. É a tal síncope do samba moderno. Ou seja, a síncope resultante dessa operação, como diz Muniz Sodré, incita as pessoas a preencherem o tempo vazio “com a marcação corporal – palmas, meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta – no apelo da síncope. Sua força magnética, compulsiva mesmo, vem do impulso (provocado pelo vazio rítmico) de se completar a ausência do tempo com a dinâmica do movimento no espaço”.

Não é difícil fazer a experiência. Pela entrega efetiva à síncope do samba, pode-se sentir o apelo da dança através da sensação de leveza corporal. O efeito dinâmico, suavizado pelo ritmo samba no corpo dançarino, fica claro com essa citação de Raymond Williams, aplicável ao samba de sambar: “Parece claro que o ritmo é uma maneira de transmitir uma descrição de experiência, de tal modo que a experiência é recriada na pessoa que a recebe não simplesmente como uma ‘abstração’ ou emoção, mas como um efeito físico sobre o organismo – no sangue, na respiração, nos padrões físicos do cérebro”.

É a insustentável leveza do corpo negro dançante.

 

*Dilmar Miranda é professor do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará. Autor de Tempo da festa x tempo do trabalho: carnavalização na belle époque tropical (Dialética).

Referência



Lucas Assis. Delírios nervososo Rio de Janeiro de Orestes Barbosa. Fortaleza, Plebeu Gabinete de Leitura, 2025.


Posse do Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira no IHGB, dia 13 de maio

Um grande amigo, Bruno Cerqueira, toma posse no IHGB, dia 13 de maio, um dia simbólico de seu trabalho como historiador e cientista social. Parabéns ao meu colega no no IHG-DF.

Estimados amigos e membros do IDII (efetivos, honorários ou colaboradores, do Instituto D. Isabel I, Redentora):
Segue a imagem do convite para a posse do Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira no IHGB, sediado no Rio de Janeiro, no próximo 13 de maio.
Por oportuno, divulgamos a notícia de sua eleição, veiculada nas redes sociais do IHGB e demais entidades: https://www.instagram.com/p/DHJH3WuA1mz/
Além da posse, teremos, no mesmo dia, a tradicional missa comemorativa da Lei Áurea na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos ao meio-dia.
O novo membro do quadro social do IHGB será saudado pelo historiador Eduardo Silva, autor de “As Camélias do Quilombo do Leblon” e “Dom Obá II d´África, o príncipe do povo”. O cientista político Christian Lynch, autor de “Da monarquia à oligarquia” e “Fundações do pensamento político brasileiro”, imporá as insígnias acadêmicas ao empossando.
A conferência de posse do Prof. Bruno se intitulará “Memória histórica da relação do Estado brasileiro com o Povo Indígena Wassu-Cocal, de Alagoas”.
Serviço
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Cerimônia de Posse do Prof. Bruno da Silva Antunes de Cerqueira
Data: 13 de maio de 2025
Horário: 17h
Local: IHGB – Av. Augusto Severo, 8 – Passeio Público – Rio de Janeiro
RSVP: secretaria@ihgb.org.br

Brevíssima história do mundo - Paulo Roberto de Almeida

Brevíssima história do mundo


        O mundo antigo era feito de grandes impérios, geralmente separados, mas dominando regionalmente suas respectivas periferias. Por vezes o choque entre impérios destruía o precário “equilíbrio” anterior e criava um novo cenário regional.
        Os descobrimentos começaram a unificar o mundo, sob a dominação da Europa ocidental, que, depois da grande fragmentação deixada pela derrocada do Império Romano do Ocidente, passou a conquistar outros impérios e periferias indistintas, mas também continuava a guerrear na própria Europa. Exageraram nas disputas na primeira metade do século XX, e por isso dois grandes impérios nas antípodas dominaram o terreno pelo resto do século, até que o império soviético se desfez em sua última década.
        O império americano, tomado pela arrogância, se meteu a tentar conter a nova ascensão do grande Império chinês, que renascia depois de uma longa decadência. Um neoczar egocêntrico empreendeu de restabelecer o antigo império czarista e soviético, sem dispor dos meios para tanto.
        No processo, um outro personagem egocêntrico e desequilibrado empreendeu uma impossível restauração do império americano, com base na segunda revolução industrial. Ou seja, ele quer fazer rodar para trás a roda da História, como Marx e Engels escreveram no Manifesto do Partido Comunista (1848).
        Parece que ainda estamos parados no mesmo lugar, com impérios regionais disputando a primazia sobre periferias indistintas (agora pretensiosamente chamadas de Sul Global).

Economia dos EUA à venda - Fareed Zakaria (OESP)

Economia dos EUA à venda

Fareed Zakaria

Complexidade gera corrupção e o sistema tarifário está agora preparado para o desastre

O Estado de S. Paulo, 12/04/2025

Tarifas ainda estão no nível mais alto em mais de 100 anos, segundo Laboratório Orçamentário de Yale

Foi uma reviravolta aclamada em todo o mundo. Depois de insistir que não mudaria de ideia sobre suas tarifas e classificar qualquer um que o pressionasse a fazê-lo como um “Panican (um novo partido de pessoas fracas e estúpidas)”, o presidente Donald Trump mudou de ideia e suspendeu suas tarifas recíprocas por 90 dias (exceto sobre a China) enquanto negocia acordos com os países.

Mas pode ser prematuro suspirar aliviado. Por exemplo, as tarifas americanas ainda estão no nível mais alto em mais de 100 anos segundo o Laboratório Orçamentário de Yale, o que custará caro aos americanos. Ainda mais importante, essas negociações tarifárias inevitavelmente resultarão numa torrente de corrupção. A economia americana está se transformando do maior livre-mercado do mundo no principal exemplo de capitalismo clientelista.

Uma economia de mercado funciona melhor quando as restrições são limitadas – e especialmente quando essas restrições são claras, justas e aplicáveis a todos. Quanto mais complexos os impostos, as regras e as regulações, maior a ineficiência – conforme demonstram estudos realizados em vários países, como Índia, Nigéria e Marrocos.

Mais significativo, porém, é que quanto maior for a complexidade, maior será a corrupção. Junto com as tarifas vêm as isenções tarifárias, frequentemente concedidas a centenas de setores, empresas e até produtos específicos. Em 2018 e 2019, o governo Trump anunciou uma série de tarifas, incluindo 25% sobre o aço, e também um programa de isenções, que recebeu cerca de 500 mil solicitações.

INSTINTO. Nesta semana, quando questionado sobre como determinaria essas isenções, Trump respondeu: “instintivamente”. Estudos mostram que instintos de políticos geralmente favorecem seus financiadores, o que, por sua vez, incentiva a corrupção generalizada.

Isso ocorreu em relação a tarifas durante grande parte da história americana, até que Franklin Roosevelt mudou o sistema e, com o tempo, nas palavras de Paul Krugman, “a política tarifária deixou de ser notoriamente suja para se tornar notavelmente limpa”.

Agora, está ficando mais suja rapidamente. Um estudo acadêmico detalhado sobre as tarifas impostas no primeiro mandato de Trump constatou que “empresas que fizeram investimentos substanciais em conexões políticas com republicanos, anteriormente e no início do governo, tiveram maior probabilidade de obter isenções para produtos que, de outra forma, estariam sujeitos a tarifas. Por outro lado, empresas que fizeram contribuições para políticos democratas tiveram menores chances de obter aprovação em isenções tarifárias”.

O estudo analisou mais de 7 mil pedidos de isenção de tarifas para a China no primeiro mandato e constatou que uma doação de apenas US$ 4 mil a candidatos democratas reduziu as chances das empresas de obter isenção para menos de 1 em 10.

Conforme observou Timothy Carney, do centro de análise conservador AEI, “a primeira eleição de Trump provocou uma explosão no lobby comercial” – de 921 clientes com lobistas trabalhando em comércio exterior para um pico de 1.419, em 2019.

Com as tarifas mais altas do mundo industrializado, o bazar americano abriu. Países e empresas irão a Washington fechar acordos e obter exceções, isenções e condições especiais. Nas últimas semanas, o Vietnã anunciou uma série de medidas destinadas para obter um bom acordo comercial.

Entre elas, a aprovação para a Starlink, de Elon Musk, operar no país e um plano para acelerar um projeto da Trump Organization. De fato, pelo menos 19 projetos imobiliários com a marca Trump em todo o mundo estarão em desenvolvimento enquanto ele for presidente, e possivelmente muitos outros estão em preparação.

Trump lançou sua própria empresa de rede social e sua própria moeda meme; outros países certamente veem tudo isso como um convite para investir – e influenciar as políticas externa e econômica dos EUA.

WALL STREET. Tem sido profundamente desanimador ver alguns dos capitalistas americanos lendários – figuras canônicas de Wall Street – endossarem um processo de negociação por meio do qual o livremercado dos EUA será marcado por tarifas, impostos, regras, isenções e exceções.

Vale a pena relembrar a repetida advertência de Milton Friedman: “Você pode conseguir que qualquer empresário de destaque faça um discurso eloquente sobre as virtudes do livre-mercado. Mas, quando se trata de seus próprios negócios, eles querem ir a Washington obter uma tarifa especial para proteger seus negócios. Querem alguma dedução fiscal especial. Querem algum subsídio fiscal.”

A Índia em que cresci era um país cheio de tarifas, barreiras altas projetadas para defender a indústria nacional e protegêla do que era percebido como uma concorrência estrangeira desleal. Isso gerou estagnação, pobreza e muita corrupção, politizando completamente a economia. Nenhuma empresa de qualquer porte na Índia seria capaz de sobreviver sem uma boa relação com o governo.

Quando cheguei aos EUA, fiquei entusiasmado ao ver que a maioria das empresas realizava seu trabalho pouco se preocupando com quem estivesse na Casa Branca. Mas agora vejo pioneiros da tecnologia exaltando servilmente a genialidade de Trump em entrevistas e titãs de Wall Street apressando-se em postar felicitações ao presidente em estilo norte-coreano por seu brilhantismo ao salvar a economia de suas próprias ações – e me pergunto: em que país estou vivendo? •

TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO · 12 abr. 2025

É COLUNISTA DO ‘WASHINGTON POST’, PUBLICADO NO ‘ESTADÃO’ AOS SÁBADOS.

Uma reflexão sobre certos desvios da História por fatores contingentes - Paulo Roberto de Almeida

Uma reflexão sobre certos desvios da História por fatores contingentes

Paulo Roberto de Almeida

Nos EUA, Trump foi e é o responsável pela mais importante deformação histórica e estrutural do pensamento médio americano e pela inversão do papel dos EUA na conformação de padrões civilizatórios que eram partilhados pelo chamado mundo ocidental. Essa tendência ainda permanece nos EUA, antes que algum choque ou declínio visivel se manifestem, para tentar corrigir a atual condição deplorável dessa grande nação assaltada por um sociopata criminoso.

No Brasil, a massa informe e confusa do lulopetismo ideológico também foi responsável por certa deformação, embora menor, de nossa história e de nossas tradições. Nada comparável, porém, à imensa aberração doentia do chamado bolsonarismo, que impôs um retrocesso mental deplorável, que impregnou largas camadas da população e que está sendo explorada por políticos oportunistas, levando de arrasto até falsos liberais ingênuos. Repito o que já escrevi neste espaço: 

A História é feita de grandes processos, que passam despercebidos, pois que são lentos e de longa duração, e de pequenos eventos históricos, que assumem proporções importantes pela exploração que deles se faz uso oportunamente.

A ignorância pode ser, em certas circunstâncias, mais poderosa do que o conhecimento, pois que não requer nenhum esforço de reflexão; basta se deixar dominar por certos instintos. Em alguns momentos, a ignorância impulsionada pela vontade pode mudar o curso da História. 

No passado, Napoleão, Bismarck, Lenin, Mussolini, Hitler e Stalin imprimiram suas marcas em seus respectivos países e em certas partes do mundo, mas Roosevelt e Churchill também o fizeram, conseguindo estabelecer um curso mais positivo durante algumas décadas. 

Na presente quadra histórica, Putin e Trump deformaram seus paises e partes do mundo: ainda não temos uma força contrária mais positiva capaz de contrarrestar essas tendências negativas do presente. 

No pequeno espaço que é o nosso, ainda não conseguimos acumular inteligência suficiente para impulsionar o Brasil para caminhos e processos mais virtuosos: ignorância e corrupção parecem dominar o universo de nossas possibilidades. Continuaremos tentando…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/04/2025


O ódio e a mentira como armas políticas: a rede de Trump como doença americana - Julia Estanislau (FSP)

O ódio e a mentira como armas políticas: a rede de Trump como doença americana

Olympio Pinheiro transcreve no seu FB matéria de Julia Estanislau (na FSP) sobre o inacreditável mundo doentio de Donald Trump, familiares e associados, na disseminação de um conteúdo abjeto, escabroso, mentiroso e doentio, que forma o núcleo de apoio fanatizado ao responsável pelo maior retrocesso civilizatório e humanitário na história dos EUA e de parte do mundo, incluindo o universo mental também doentio de Jair Bolsonaro e de seus apoiadores no Brasil. É um asco e um verdadeiro delirio tomar conhecimento das deformações e mentiras que estão sendo criadas e sendo disseminadas e tomadas como verdades por essa tropa de alienados demenciais. 

Eu ainda não tinha uma ideia precisa de quão escabrosos e criminosos podem ser os promotores e seguidores dessa tribo de bárbaros sociopatas. Paulo Roberto de almeida


 ONDA DE ÓDIO NA REDE SOCIAL DO TRUMP

Onda de ódio pós-tarifas toma conta da Truth Social e apoiadores de Trump chamam chineses de 'parasitas'

Onda de ódio pós-tarifas toma conta da Truth Social e apoiadores de Trump chamam chineses de "parasitas".

JULIA ESTANISLAU

Folha de S. Paulo, 10/04/2025

Um mergulho na rede social de Donald Trump, a Truth Social, é capaz de elucidar a forma de pensar do presidente americano e dos seus apoiadores. Sem restrição a conteúdos extremistas, a plataforma é uma contradição entre postagens sobre comida e animais de um lado e, de outro, falas xenófobas direcionadas aos chineses e aos imigrantes, ilegais ou não.

Após o anúncio das tarifas adicionais à China nesta quinta-feira (10), mensagens em apoio à medida lotaram a rede social. Nelas, internautas dizem que as tarifas vão recuperar os empregos, fortalecer a economia e tornar os EUA ricos e poderosos de novo. Essas mesmas mensagens culpam a China pelos problemas econômicos atuais dos Estados Unidos e se ancoram na taxação como solução para o país.

Recebendo apelidos como "o maior país abusador" e "trapaceiros" por parte do presidente americano, o país asiático é atacado por trumpistas que se referem aos chineses como "parasitas". As críticas de Trump à China, que começaram antes do anúncio das tarifas, aquecem um ambiente já tomado pela xenofobia, principalmente em relação aos imigrantes.

Diferente da postura adotada no X (ex-Twitter), Trump faz da Truth Social seu diário particular: usa palavras em caps lock, expressa opiniões pessoais sem filtro algum e escreve mensagens reafirmando que seus planos econômicos vão funcionar. Ele tem 9,4 milhões de seguidores na rede.

"Fiquem tranquilos! Tudo vai dar certo. Os EUA vão ser maiores e melhores do que antes!", escreve o presidente. Em outro post, diz: "Algum dia, as pessoas vão perceber que as tarifas, para os Estados Unidos da América, são uma coisa linda". Também compartilhou em seu perfil um vídeo sobre suas ações serem propositais para quebrar o mercado.

Os americanos que entraram em pânico sobre as tarifas e as criticaram receberam o nome de "panican", cunhado por Trump na Truth Social nesta segunda (7). Segundo ele, "panican" é de pessoas fracas e estúpidas.

Em entrevista à CNBC, o diretor do Budget Lab da Universidade de Yale, Ernie Tedeschi, afirmou que o aumento das tarifas pode fazer com que o desemprego saia dos atuais 4,2% para 4,7%. Como a Folha mostrou, as famílias americanas devem perder, em média, U$ 3,800 (cerca de $ 21.900).

Além dos apoiadores de Trump, a plataforma também é ocupada por seguidores do QAnon (conspiracionistas de extrema direita) e pessoas anti-vacina. Donald Trump Jr., filho do presidente, segue a linha de seu pai e também utiliza a Truth Social para inflamar a base de apoio trumpista.

"Se você pensa que é ruim que a Ucrânia nunca agradeceu por tudo que os Estados Unidos fez para ela, o fato de não terem contado que esse sociopata tentou comprar armas deles para assassinar meu pai parece um assunto mais importante", escreveu Trump Jr. na rede social.

Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) também usam a rede social. O deputado licenciado escreve em inglês e pede por anistia, enquanto o ex-presidente posta feitos de seu governo.

COMO FUNCIONA

A plataforma foi fundada em 2021 e faz parte do Trump Media & Technology Group, que tem como máxima oferecer canais de mídia a favor da liberdade de expressão. Segundo o site da empresa, a ideia é que sejam espaços sem discriminação política, que atuem para "cancelar a cultura do cancelamento" e serem um ponto de resistência às big techs —hoje alinhadas a Trump.

Ao se cadastrar, a plataforma pede ao usuário que siga alguns perfis a fim de ajudar o algoritmo a entender quais são seus gostos. Porém, não há total liberdade de escolha: mesmo sem ter selecionado, a rede social faz o usuário seguir automaticamente o perfil oficial da Casa Branca e outros membros do alto escalão do governo Trump, como Karoline Levitt (porta-voz da Casa Branca), Sean Duffy (secretário de Transportes), Tulsi Gabbard (diretora de Inteligência Nacional) e Robert Kennedy Jr. (secretário da Saúde).

Estão incluídos também 44 perfis de notícias, todos alinhados ao governo, entre eles Fox News, The Daily Wire, Armed Forced Press, PJMedia, MxM News e Resist the Mainstream. Os perfis de Donald Trump e de seu vice, JD Vance, não fazem parte dessa pré-seleção. Entre outras sugestões, aparecem Jair Messias Bolsonaro e o ator Russell Brand, acusado de estupro e agressão sexual por quatro mulheres no início de abril.

Essa escolha (ou falta dela) não é em vão. Quem entra na rede social é bombardeado de notícias sobre o presidente, mensagens trumpistas ou que reafirmam a visão de mundo da extrema direita. Na plataforma, essas postagens recebem o nome de "truths", "verdades" em português. A interface, que se assemelha à do X e a do Bluesky, dá pouco espaço para outros lados do espectro político.”

FSP 10.04.2025

sexta-feira, 11 de abril de 2025

O fenômeno Sputnik: soviético, americano, agora chinês - Simon Schwartzman

O novo Sputnik

By Simon Schwartzman on Apr 11, 2025 06:25 am

(Publicado em O Estado de São Paulo, 11 de abril de 2025)

Em 1957, os Estados Unidos tomaram um susto quando souberam que a União Soviética havia lançado o primeiro satélite ao espaço, indicando que o sistema de ciência e tecnologia soviético poderia ter superado o americano.  A superioridade americana que havia se consolidado depois da Segunda Guerra se apoiava em pelo menos três pilares. Primeiro, na big science, a capacidade de investir e coordenar conhecimentos, recursos humanos e materiais em grande escala, no projeto da bomba atômica e, mais amplamente, na tecnologia militar. Segundo, na política apoio às ciências em todos os seus aspectos, estabelecida no documento liderado por Vanenevar Bush que ficou conhecido como Science, the Endless Frontier, que incluía desde o apoio à pesquisa básica nas ciências naturais, sociais e humanidades, sem objetivos imediatos, com destaque para a pesquisa universitária e instituições como a National Science Foundation, até a ciência aplicada na área da saúde e outras. E terceiro, no fortalecimento da cooperação entre universidades, governo e indústria, que consolidou os Estados Unidos como o país mais avançado na pesquisa, na produtividade econômica e na educação superior, atraindo talentos de todo o mundo.

Como explicar que a União Soviética tivesse passado à frente? O que os russos fizeram foi levar ao extremo um modelo extremamente concentrado e centralizado de investimento de recursos e talentos em seus projetos militares de big science, provavelmente em escala semelhante à americana, mas sem seus dois outros componentes, um sistema universitário aberto e vigoroso e um setor produtivo independente capaz de absorver e multiplicar as inovações tecnológicas que surgiam. O fracasso da pesquisa agrícola, sufocada pela recusa ideológica em aceitar os avanços da pesquisa genética mendeliana, deixou claro seus limites.  A reação americana ao choque do Sputnik foi reforçar a política de ciência sem limites, e em pouco tempo o país havia não somente superado a União Soviética na corrida espacial, como consolidado sua liderança nos outros dois componentes, como uma sociedade aberta e plural.

O novo Sputnik surgiu aos poucos, com o inesperado sucesso da indústria japonesa nos anos 70, e depois da  Coreia do Sul, até a década de 90. De repente, os americanos perceberam não só que as fábricas japonesas e coreanas de eletrônicos e depois automóveis eram mais eficientes, como que seus produtos eram melhores, e a custos muito mais baixos. Diferente dos Estados Unidos, os novos “tigres asiáticos” investiam quase nada em ciência básica, e suas universidades se dedicavam sobretudo à formação de técnicos especializados. Ao invés de grandes projetos estatais, desenvolviam forte parceria entre o governo e conglomerados de empresas privadas no desenvolvimento de indústrias de bens de consumo para o mercado internacional. No início, os americanos tentaram copiar os métodos dos asiáticos, como por exemplo na adoção de sistemas de produção just-in-time e círculos de qualidade, mas aos poucos foram entendendo que a melhor alternativa era estabelecer parcerias comerciais e industriais com estas economias em ascensão.

Mas é com a China, a partir da década de 2000, que o novo Sputnik mostra sua força. Igual à antiga União Soviética e os Estados Unidos, ela desenvolve uma ciência estatal de grande porte na área militar, espacial e de infraestrutura. Igual aos tigres asiáticos, abre espaço para um setor empresarial privado que se beneficia de parcerias e apoio governamental para produzir em grande escala para o mercado internacional,  com produtividade  e qualidade crescentes. E, igual aos Estados Unidos do pós-guerra, expande seus investimentos em educação superior e pesquisa básica em quantidade e qualidade. No início, como com a União Soviética no passado, os Estados Unidos imaginaram que o sucesso da China se devia à espionagem e pirataria da tecnologia americana. Hoje é obvio que, ainda que isto possa ter existido, e que os Estados Unidos ainda mantenham a liderança em muitas áreas de alta tecnologia, a China já é a potência dominante em produção industrial e em muitas áreas de tecnologia aplicada, sem falar em sua consolidação como potência militar.

Desta vez, no entanto, ao invés reforçar suas qualidades e procurar se integrar a um novo cenário internacional mais competitivo, o  que vemos por parte dos governos americanos é uma dupla reação negativa. Por um lado, fechar sua economia e tentar reprimir a expansão da China, negando acesso a tecnologias avançadas e impondo barreiras a seus produtos. Por outro, internamente, concentrando poder político e econômico em alguns segmentos do setor privado, às custas tanto do sistema nacional de pesquisa e desenvolvimento quanto das universidades, que perdem sua autonomia intelectual, gerencial e financeira. Do antigo e imbatível tripé de governo, universidade e empresas, parece que só restará parte destas últimas. Ao invés de uma sociedade aberta e plural, o totalitarismo ideológico. É difícil imaginar que com isto seja possível fazer a América grande de novo.

 

O Pix mundial chinês

 O Pix mundial chinês vai deixar o Trump ainda mais raivoso, com a tal ameaça de tarifaço a quem dispensar o dólar…


*BIG BREAKING*

The People's Bank of China suddenly announced that the digital RMB (Renminbi, Chinese Yuan) cross-border settlement system will be fully connected to the ten ASEAN countries and six Middle Eastern countries, which means that 38% of the world's trade volume will bypass the SWIFT system dominated by the US dollar and directly enter the "digital RMB moment". This financial game, which The Economist called the "Bretton Woods System 2.0 Outpost Battle", is rewriting the underlying code of the global economy with blockchain technology.


While the SWIFT system is still struggling with the 3-5 day delay in cross-border payments, the digital currency bridge developed by China has compressed the clearing speed to 7 seconds. In the first test between Hong Kong and Abu Dhabi, a company paid a Middle Eastern supplier through digital RMB. The funds no longer went through six intermediary banks, but were received in real time through a distributed ledger, and the handling fee dropped by 98%. This "lightning payment" capability makes the traditional clearing system dominated by the US dollar instantly look clumsy.


What makes the West even more frightened is the technical moat of China's digital currency. The blockchain technology used by the digital RMB not only makes transactions traceable, but also automatically enforces anti-money laundering rules. In the China-Indonesia "Two Countries, Two Parks" project, Industrial Bank used digital RMB to complete the first cross-border payment, which took only 8 seconds from order confirmation to funds arrival, 100 times more efficient than traditional methods. This technical advantage has enabled 23 central banks around the world to actively join the digital currency bridge test, among which Middle Eastern energy traders have reduced settlement costs by 75%.


The deep impact of this technological revolution lies in the reconstruction of financial sovereignty. When the United States tried to sanction Iran with SWIFT, China had already built a closed loop of RMB payments in Southeast Asia. Data shows that the cross-border RMB settlement volume of ASEAN countries exceeded 5.8 trillion yuan in 2024, an increase of 120% over 2021. Six countries including Malaysia and Singapore have included RMB in their foreign exchange reserves, and Thailand has completed the first oil settlement with digital RMB. This wave of "de-dollarization" made the Bank for International Settlements exclaim: "China is defining the rules of the game in the era of digital currency."


But what really shocked the world was China's strategic layout. Digital RMB is not only a payment tool, but also a technical carrier of the "Belt and Road" strategy. In projects such as the China-Laos Railway and the Jakarta-Bandung High-Speed ​​Railway, the digital RMB is deeply integrated with Beidou navigation and quantum communication to build a "Digital Silk Road". When European car companies use digital RMB to settle freight through the Arctic route, China is using blockchain technology to increase trade efficiency by 400%. This virtual-real strategy makes the US dollar hegemony feel a systemic threat for the first time.


Today, 87% of countries in the world have completed the adaptation of the digital RMB system, and the scale of cross-border payments has exceeded 1.2 trillion US dollars. While the United States is still debating whether digital currency threatens the status of the US dollar, China has quietly built a digital payment network covering 200 countries. This silent financial revolution is not only about monetary sovereignty, but also determines who can control the lifeline of the future global economy!


👉 *This is very big news  It means De-dollarisation in a big way. It can completely re-set the world*

A ‘pegadinha’ de Trump (Editorial do Estadão)

A ‘pegadinha’ de Trump

Editorial do Estadão, 11/04/2025


É inútil procurar lógica nas decisões do presidente dos EUA, cujo único interesse é acumular poder e exercê-lo para bagunçar o mundo conforme seus ‘instintos’. A loucura apenas começou


É como se o mundo tivesse sido vítima de uma “pegadinha” do presidente dos EUA, Donald Trump. Meros sete dias depois de ter bombardeado todas as nações com tarifas severas, bagunçando o comércio global e derretendo bolsas planeta afora, Trump simplesmente decidiu, num estalar de dedos, suspender a maioria delas por 90 dias. Ato contínuo, as bolsas dispararam, e houve alívio momentâneo – mas obviamente ninguém está tranquilo. Afinal, a única coisa clara na lambança de Trump é que ninguém sabe o que ele quer nem qual será seu próximo passo – nem ele mesmo. As perdas desde o dia do anúncio do tarifaço foram mitigadas, mas não recuperadas. Além disso, o piso tarifário de 10% foi mantido, e a guerra comercial contra a China segue escalando perigosamente. Pior: nada do que Trump e seus assessores dizem indica qualquer estratégia lógica. É tocante o esforço de trumpistas e trumpólogos para extrair algum “plano astucioso” ou “estratégia de negociação” de um conjunto heteróclito de ideias fixas, caprichos, rancores e uma dose de niilismo misturados na cabeça de Trump. Dois dias antes de suspender o tarifaço, ele ridicularizava republicanos por “panicarem” ante o desastre. A um repórter que perguntou quanto tempo toleraria a dor nos mercados, retrucou: “Acho sua pergunta estúpida”. Dois dias depois, explicando a outro repórter por que recuou, disse: “Achei que as pessoas estavam saindo um pouco da linha, ficando um pouco nervosas”. A verdade é que os títulos do governo dos EUA, outrora porto seguro em tempos de crise, estavam sendo liquidados, dissolvendo a fronteira entre uma recessão com a marca de Trump e uma depressão com a marca de Trump. Até para Trump a negação da realidade tem limites. Mas não para os bajuladores na sua equipe. Pouco antes de Trump “piscar”, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, dizia que a economia está em “ótima forma”. Pouco depois, seus acólitos começaram a fabricar racionalizações sem sentido. Um dos mais desavergonhados chegou a dizer que estamos diante da “maior estratégia econômica de um presidente americano na História”. E como Trump, o “Grande Estrategista”, tomará sua próxima decisão? Ele mesmo respondeu: “É realmente mais um instinto, acho, do que qualquer outra coisa”. A busca por uma “estratégia oculta” parece ser uma necessidade psicológica de encontrar ordem no caos. Um “plano” – ainda que ruim ou maligno – é mais reconfortante que nenhum. Trump tem, é verdade, um punhado de convicções: a de que ele é um mestre da negociação; de que déficits comerciais são maus; empregos no chão de fábrica são bons; e tarifas são uma espécie de panaceia. Outra: os EUA estão sendo “pilhados” por outras nações, especialmente as aliadas – é natural a quem está sempre tentando pilhar os outros presumir que estão sempre tentando pilhá-lo. Por baixo de todo esse exercício mental, resta o descomunal apetite de Trump por acúmulo de poder. O controle total sobre as políticas tarifárias lhe dá a chance de chantagear empresários no mercado doméstico e agentes estrangeiros que querem acesso a ele. É a mesma lógica das ameaças de invasão territorial ou de implodir alianças como a Otan. “Ao dizer ao mundo que tanto as regras do comércio quanto as garantias de segurança dependem exclusivamente de sua vontade, ele está concentrando a maior quantidade possível de poder em suas mãos”, resumiu o articulista do Wall Street Journal Walter Russell Mead. Se há um método nessa loucura, portanto, é este: concentração de poder pessoal. Por mais incômodo que seja ao resto do mundo, é mais racional admitir de vez a irracionalidade do homem mais poderoso do planeta. A única certeza sobre sua política é de que é impossível confiar em Trump e, por extensão, nos EUA, pelo menos enquanto ele for presidente. Sejam lá quais forem as decisões, boas ou ruins, que os “instintos” de Trump vierem a ditar, essa atmosfera permanente de incerteza e caos por si só impõe um custo incalculável aos EUA e, consequentemente, à ordem econômica e geopolítica da qual os americanos foram o principal avalista por 80 anos, que tomará anos para ser recuperado – isso se for.


Paralelos históricos (que alguns acham que só se encontram no infinito da ignorância diplomática) - Paulo Roberto de Almeida

Paralelos históricos (que alguns acham que só se encontram no infinito da ignorância diplomática)

Paulo Roberto de Almeida

        Existe um critério mais simples para avaliar a política externa de Lula do que doutas análises acadêmicas apoiadas em conceitos sedutores do pessoal já engajado na causa: basta verificar que estará ao lado de Lula na tribuna de honra dos ilustres mandatários estrangeiros convidados por Putin para participar das comemorações pelos 80 anos do final da Grande Guerra Patriótica, em 8 de maio de 1945, que é como Stalin chamava a defesa soviética contra as tropas da Wehrmacht (com enorme ajuda anglo-americana, que não será mencionada), esquecendo, também convenientemente (e nenhum dos ilustres convidados perguntará por isso) de que a tal “guerra patriótica” iniciada em junho de 1941 tinha, na verdade, começado dois anos antes justamente devido ao sórdido apoio de Stalin ao projeto criminoso de Hitler de invadir e eliminar a Polônia do mapa das nações soberanas por meio do Pacto Ribbentrop-Molotov, por acaso firmado em Moscou em 26 de agosto de 1939. 

        Poucos, provavelmente nenhum, desses convidados estrangeiros farão algum paralelo histórico com a “aliança sem limites” entre duas grandes autocracias antes da guerra de agressão de Putin contra uma outra nação soberana, a Ucrânia, à qual, como a Polônia, 83 anos antes, foi denegado o direito de existir, o que justamente constituiu um sórdido pacto para dar início à maior operação militar “especial” na Europa, desde a IIGM.  Tais detalhes históricos, inconvenientemente comparativos, passarão de forma indiferente pela consciência desses respeitáveis dirigentes estrangeiros que ousarem apertar a mão de um legítimo sucessor de Hitler no século XXI.

        Não deixarei de registrar neste meu quilombo de resistência intelectual estes pequenos detalhes históricos.

        Para isso existem os arquivos diplomáticos: para dar algum sentido de memória a pequenos e grandes fatos históricos que perpassam a trajetória das políticas externas de pequenos e grandes países. 

Paulo Roberto Almeida

Brasília, 11/04/2025

(Voltarei em 8/05/2025, podem estar certos disso)


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