terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Brasileiros na Guerra Civil Espanhola - Juliana Sada e Rodrigo Valente (Le Monde Diplomatique)

Uma matéria do Le Monde Diplomatique de 2017, que me havia passado despercebido: uma das primeiras pesquisas históricas que empreendi, ainda nos anos de chumbo da ditadura militar. PRA
PS: Os autores não citam a bibliografia compulsada, por isso informo os dados relativos a meu artigo a esse respeito (a versão completa, pois que a primeira tinha sido publicada sob outro nome, durante o regime militar):
PS: Os autores não citam a bibliografia compulsada, por isso informo os dados relativos a meu artigo a esse respeito (a versão completa, pois que a primeira tinha sido publicada sob outro nome, durante o regime militar):
“Brasileiros na Guerra Civil Espanhola, 1936-1939: combatentes brasileiros na luta contra o fascismo”, revista Sociologia e Política (Curitiba, PR; ano 4, nº 12, junho 1999, Dossiê: Política Internacional, p. 35-66; ISSN 0104-4478, impressa; 1678-9873, online; links: http://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/39262; pdf: http://revistas.ufpr.br/rsp/article/view/39262/24081). Postado no blog Diplomatizzando em 14/09/2016 (link: http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2016/09/guerra-civil-espanhola-1936-1939-um.html


UMA HISTÓRIA TECIDA POR IDEAIS, REPRESSÃO E MIGRAÇÕES

Brasileiros na Guerra Civil Espanhola

Ainda que o real impacto e importância das Brigadas na guerra sejam um debate em aberto entre estudiosos, o simbolismo criado por elas é inegável.

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“Foi na Espanha onde a minha geração aprendeu que se pode ter razão e ser derrotado, que a força pode destruir a alma e que, às vezes, a coragem não recebe recompensa”

Albert Camus (1913-1960), escritor francês

 

Raros foram os conflitos armados nos quais a narrativa predominante a entrar para a história acabou centrada nas versões dos derrotados. A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) é provavelmente o caso mais conhecido disso. Para tanto, certamente foi determinante que, poucos anos após a vitória do ditador Francisco Franco sobre governo republicano de esquerda, seus principais aliados nazifascistas do Eixo acabassem derrotados pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

A participação ativa das principais potências europeias, aliás, marcou de forma decisiva o conflito espanhol, considerado um ensaio geral da Grande Guerra. Pouco tempo após o levante militar de julho de 1936, que tentou sem sucesso derrubar o governo de esquerda e foi o estopim do início da Guerra Civil, Alemanha e Itália já apoiavam fortemente os sublevados, enquanto a União Soviética e, em menor escala, a França colaboravam com o governo republicano. Por sua vez, a Inglaterra encabeçou uma proposta de não intervenção internacional, o que na prática favoreceu os insurgentes, que depois ficariam conhecidos como nacionalistas.

A internacionalização do conflito também foi marcada pela mobilização global de pessoas antifascistas em defesa da República espanhola, seja organizando campanhas de arrecadação de fundos e de propaganda em seus países, seja participando diretamente da guerra, principalmente por meio das Brigadas Internacionais. “Milhares de cidadãos do mundo inteiro entendiam que, em solo espanhol, se determinava o futuro da humanidade”, considera Ismara Izepe de Souza, pesquisadora da Unifesp.

Como aconteceu em boa parte do mundo, o conflito espanhol chegou com intensidade ao Brasil, gerando grande agitação na esquerda e entre a numerosa comunidade espanhola no país, além de alarmar o governo de Getúlio Vargas. Entre o enorme contingente de voluntários que lutou na Guerra Civil, a presença de brasileiros é relativamente pequena, embora possa ser considerada significativa pelas qualidades militares de alguns de seus combatentes.

Ainda que, desde a década de 1970, pesquisadores como José Carlos Sebe Bom Meihy, Paulo Roberto de Almeida, Thaís Battibugli e Ismara Izepe de Souza tenham se dedicado a estudar o tema, a participação desses compatriotas em um dos conflitos mais importantes do século XX é bastante desconhecida no Brasil. Tais pesquisas acabaram se centrando no grupo de voluntários próximos ao Partido Comunista do Brasil (PCB), mas a participação brasileira foi mais ampla. Em seu recém-finalizado doutorado, a pesquisadora Eliane Venturini de Oliveira trabalhou a partir da investigação de arquivos e documentos espanhóis e traz uma série de novidades.

A historiadora defende que o envolvimento brasileiro teria sido maior do que se imaginava, totalizando pelo menos 78 pessoas. Além do grupo do PCB, a participação brasileira ao lado da República incluiria um número considerável de estrangeiros que viviam no Brasil e haviam sido expulsos por perseguição política. A pesquisadora revela ainda o envolvimento de treze brasileiros no bando rebelde, informação até então praticamente desconhecida. Para Eliane, o número pode ultrapassar os cem voluntários, mas a falta de informações sobre diversos nomes encontrados requer cautela. “Alguns são questionáveis porque podem ter falado que eram brasileiros para tentar escapar do campo de concentração da França ou para vir para o Brasil e não ficar na Espanha”, explica.

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Milhares de voluntários contra o fascismo

A criação das Brigadas foi uma iniciativa da 3ª Internacional e de partidos comunistas de vários países, em negociação com o governo republicano, para organizar voluntários que desejassem lutar na Espanha. “O mundo está diante da ameaça fascista e a Espanha é hoje o principal bastião contra esse perigo comum. Ajudá-la é, com toda a certeza, dever primordial do militante”, escreve Apolonio de Carvalho em seu livro de memórias Vale a pena sonhar, ao lembrar o convite recebido para se engajar no conflito.

Constituídas oficialmente em 22 de outubro de 1936, em pouco tempo, as Brigadas contavam com milhares de estrangeiros de mais de cinquenta países. Já em dezembro, os voluntários participariam da heroica defesa de Madri, onde os insurgentes foram barrados às portas da capital, a qual só conquistariam ao final do conflito. Acredita-se que o número total de voluntários seria em torno de 40 mil, dos quais cerca de um quarto pode ter morrido em combate. A grande maioria era de nações europeias, principalmente França, Polônia, Itália, Alemanha e Bélgica. No continente americano, o Brasil seria o sétimo país que mais voluntários enviou, atrás de Estados Unidos, Canadá, México, Venezuela, Cuba e Argentina.

A maioria dos estrangeiros chegava à Espanha a partir da França. Muitos viajavam até Paris ou Marselha e, de lá, realizavam os procedimentos necessários para ingressar no país em guerra por terra ou mar. As próprias autoridades espanholas facilitavam documentos falsos para permitir a circulação dos brigadistas, o que, inclusive, até hoje impossibilita a correta identificação de centenas de combatentes.

Ao chegar a Barcelona ou Valência, os voluntários eram encaminhados para a sede das Brigadas, em Albacete, local de treinamento e a partir de onde se partia para as frentes de batalha. Tal cidade ficaria marcada pela intensa presença de organismos estatais de informação e repressão, controlados pelo Partido Comunista Espanhol (PCE) e por agentes soviéticos, inquietos com infiltrados nacionalistas e com o cumprimento das diretrizes de Moscou. “O PCE preocupava-se em ter um atestado de bons antecedentes dos candidatos a voluntários”, relata Thaís Battibugli no livro A solidariedade antifascista. A pesquisadora considera que as ações disciplinares e políticas – que geraram, inclusive, muitas execuções sumárias – representam um episódio extremamente negativo na história das Brigadas.

 

Brasileiros se mobilizam pela República

A convocatória internacional para lutar ao lado da República espanhola encontrou uma situação delicada e ao mesmo tempo fértil no Brasil. Após a malograda tentativa de insurreição em 1935, que ficou conhecida como Intentona Comunista, tanto o PCB como sua frente de massas, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), sofreram uma duríssima perseguição do governo Vargas. Nesse contexto, muitos comunistas estavam presos ou fugindo da repressão. É essa impossibilidade de seguir ativo que leva alguns militantes a optar pela Espanha. “Foi a alternativa que eles teriam para não voltar a ser presos no Brasil, única saída para se sentirem úteis e lutando”, explica Battibugli.

A orientação da 3ª Internacional era de que cada partido deveria enviar cem voluntários à Espanha, o que foi inviável para um debilitado PCB. Ao final, conseguiu-se recrutar cerca de vinte militantes, a maioria com uma boa formação militar. No entanto, uma pequena parte, ao chegar à França, acabou desistindo por conta de divergências, como não poder atuar na aviação ou a falta de assistência às famílias em caso de morte. Tal postura sofreu pesadas críticas, já que, à época, era gravíssimo desrespeitar uma decisão do Partido.

O episódio conhecido como “macedada” foi decisivo para possibilitar a ida de muitos dos voluntários comunistas à Espanha. Em 1937, com o fim do estado de guerra decretado por Getúlio Vargas e diante da negativa do Congresso em renová-lo, o então ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, se viu na obrigação constitucional de atender aos pedidos de habeas corpus dos presos políticos sem processo judicial. Dessa forma, em maio, centenas de presos foram libertados, inclusive dez futuros brigadistas. Os caminhos empreendidos para cruzar o Atlântico foram diversos. Alguns partiram em navios diretamente do Brasil, enquanto outros passaram por Uruguai e Argentina. “O Partido facilitou no quesito de documentação, mas os recursos para eles chegarem até a França foram de doações espontâneas, entre eles, de simpatizantes”, esclarece Eliane Venturini.

Ainda que pequeno, o grupo de quase vinte brasileiros ligados ao PCB e à ANL teve participação marcante na guerra já que a maioria era militar de formação. Isso possibilitou que muitos alcançassem cargos de comando não só nas Brigadas, como também no Exército Republicano, que carecia de oficiais com experiência. Esse foi o caso, por exemplo, de Apolonio de Carvalho, José Gay da Cunha e Carlos da Costa Leite, que lideraram centenas de combatentes. “Não é uma participação quantitativa, mas qualitativa: eles foram com know-how militar”, aponta Battibugli. Isso era um importante diferencial já que a maioria dos brigadistas não tinha tal formação.

Venturini ainda detectou outros dez brasileiros que se juntaram à defesa da República. Destes, sete haviam emigrado para a Espanha e já estavam lá quando se iniciou o conflito. As razões para o envolvimento são diversas. O paulista Luís Oms Florenza, por exemplo, relatou ter se alistado no Exército porque estava sem trabalho à época. Assim como ele, muitos eram trabalhadores ligados às centrais sindicais socialista e anarquista, fundamentais na organização da resistência popular ao levante militar.

Enquanto a República contou com voluntários extremamente motivados mas com poucos recursos, o lado nacionalista recebeu apoio maciço de Hitler e Mussolini. O número de militares italianos na Espanha chegava aos 50 mil, cifra superior ao dos brigadistas. Além disso, os italianos instalaram, com a permissão de Franco, uma base aérea na ilha de Mallorca, a partir de onde bombardeavam importantes cidades como Barcelona, Valência e Múrcia. A colaboração alemã, por sua vez, foi menos numerosa, mas de grande qualidade técnica e militar. Sua aviação foi responsável, por exemplo, pelo histórico bombardeio que arrasou a cidade de Guernica. A intervenção dos países do Eixo acabaria sendo determinante para a vitória nacionalista.

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Voluntários no bando rebelde

Enquanto a atuação do grupo organizado pelo PCB se tornou conhecida e pesquisada, sabia-se muito pouco sobre a participação de brasileiros no bando nacionalista. A informação dos treze que teriam lutado ao lado dos rebeldes demorou quase oitenta anos para ser conhecida. Isso se deve, em parte, ao fato de que nenhum deles teria retornado ao Brasil.

Existem poucos documentos que explicam a participação e o destino desses voluntários. As principais informações encontradas por Venturini têm origem nas fichas de alistamento na Legião Espanhola – unidade do Exército criada em 1920 que teve Franco como um dos primeiros comandantes. Dos brasileiros que foram à Espanha, onze alistaram-se na Legião e dois em milícias da Falange, o partido fascista espanhol.

“Sobre os brasileiros do lado do Franco, eu consegui puxar o fio da meada no Arquivo Militar de Ávila, onde tinha a lista desse pessoal”, explica Venturini, relembrando as dificuldades para encontrar os documentos no local, um arquivo que contém informações mais técnicas da guerra e sobre o funcionamento do Exército. A lista encontrada com os nomes dos brasileiros alistados tinha poucos dados. “Então escrevi para a Legião para pedir uma orientação de onde eu poderia ir e eles me mandaram de presente todos os fichários deles. Claro que eu quase enfartei quando vi aquilo!”, recorda.

A maioria dos brasileiros que se envolveu no bando nacionalista era descendente de espanhóis e já vivia na Espanha ou em Portugal quando a guerra teve início. Pela escassa documentação das fichas de alistamento, a pesquisadora deduz que dois poderiam ter saído do Brasil direto para a guerra, mas por ora é apenas uma hipótese. Dessa forma, não seria possível falar em envio organizado de brasileiros para combater ao lado dos rebeldes.

O primeiro brasileiro a se alistar teria sido Juan Fernández, em agosto de 1936, e não há informações de que residia na Espanha, o que pode indicar que teria ido à Europa para combater. Outros se alistaram ao longo de 1937 e até princípios de 1938. Em geral, os voluntários não eram militares de formação e trabalhavam no campo ou como motorista, mecânico e engraxate. Dos que se tem informação, é possível constatar que três morreram durante o conflito.

O desconhecimento sobre a participação de brasileiros no bando rebelde também pode ser explicado pelo fato de que a proximidade com o fascismo pode ter gerado algum tipo de constrangimento. “Talvez não quisessem contar suas histórias por terem lutado de um lado que venceu a guerra da Espanha, mas o fascismo perdeu no mundo”, pondera Venturini, que tentou contatar um deles. “Ele estava com mais de 90 anos e não tinha a possibilidade de me conceder uma entrevista”, relata ao se referir a Dario Infiesta Alonso, que vive na região espanhola da Galícia.

 

Expulsos do Brasil escolhem a República

A participação brasileira ainda pode ser completada pelos imigrantes expulsos do país pelo governo Vargas. Em um contexto de severa política de perseguição aos estrangeiros durante a década de 1930, muitos passaram a ser vistos como “indesejáveis” pelo Estado, que utilizava uma política de expulsão como forma de controlar a significativa comunidade. “Muitos estrangeiros que foram expulsos já haviam tido experiência política em seus países de origem. Segundo as vozes oficiais, deveriam ser mantidos sob constante vigilância uma vez que a propagação de suas ideias poderia desestabilizar a ordem instituída”, explica a pesquisadora da UFABC Mariana Cardoso dos Santos Ribeiro.

Nesse contexto, os espanhóis de esquerda seriam alvo preferencial do governo Vargas. “Muitos foram forçados a retornar ao seu país, por serem ‘indesejáveis’ às elites políticas e aos patrões que temiam quaisquer movimentos de contestação”, revela Ismara Izepe de Souza. “A resposta [do governo] se resumia a uma única palavra, que mudaria radicalmente o destino de milhares de estrangeiros radicados no Brasil: expulsão.”

O resultado da perseguição é que, de 1930 até 1945, foram expulsos, segundo dados oficiais, 671 estrangeiros. Isso atingiria especialmente a comunidade espanhola, com 101 expulsos, atrás apenas da portuguesa. Os dados foram reunidos por Mariana Ribeiro, que considera o número “ínfimo” diante da quantidade de presos e processos instaurados, suspeitando que havia uma prática de expulsões extraoficiais. A pesquisadora explica que raramente havia possibilidade de defesa e que, no período, nenhum decreto de expulsão foi anulado. “Em regra, todos que foram considerados ‘nocivos’ por demonstrar afinidade com ideias de esquerda, ou, simplesmente por proferir crítica ao governo foram expulsos”, revela.

A pesquisa realizada por Venturini estima que 39 estrangeiros expulsos tenham sido incorporados pelas fileiras republicanas. Nas documentações, esses personagens são identificados como “brasileiros”, em geral por estarem vivendo no país anteriormente à guerra, mesmo que alguns tivessem migrado ainda quando criança. Apesar de a grande maioria ser espanhola, também havia dois italianos, um alemão, um tcheco e um romeno. Além disso, faziam parte do grupo duas mulheres: a lituana Ida Chazan e a espanhola Julia Garcia y Garcia, que atuaram na retaguarda.

Possivelmente, a única exceção à expulsão seja Libero Battistelli, que morava no Rio de Janeiro como exilado do regime de Mussolini. O italiano embarcou voluntariamente para a Espanha em setembro de 1936, onde comandaria a bateria de artilharia Colona Italiana e depois um batalhão da Brigada Garibaldi. Esse agrupamento, inclusive, reuniu alguns brasileiros por conta da similaridade das línguas, divisão recorrente nas Brigadas. Ferido em um combate na província de Aragão, Battistelli falece em junho de 1937.

O pouco que se sabe sobre a atuação desses voluntários vem principalmente da documentação mantida pelo Partido Comunista de Espanha (PCE), que possuía fichas de recrutamento e desmobilização de todos os brigadistas. Em geral, há informações sobre a procedência, observações sobre a orientação política e comentários genéricos sobre a atuação, como “bom antifascista”, “politicamente indiferente” e “um pouco reclamão”. Ao acabar a guerra, tais fichas foram enviadas à União Soviética, já que continham informações estratégicas. A documentação só viria a público com o fim da URSS e, no Brasil, o Arquivo Edgard Leuenroth mantém cópia do material referente aos brasileiros.

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Da Guerra Civil à Guerra Mundial

O destino dos voluntários após o término da Guerra Civil Espanhola, em abril de 1939, não foi fácil. A maioria, assim como cerca de 450 mil espanhóis, cruzou os Pireneus em busca de refúgio na França. “Esperávamos tratamento de asilados políticos. Ilusão – éramos prisioneiros de guerra”, relata em suas memórias Apolonio de Carvalho. Ao entrarem na França, os republicanos eram encaminhados a precários campos de “acolhida”, espalhados à beira do Mediterrâneo ou nos Pireneus. Apolonio descreve o campo de Argelès-sur-Mer como uma vastidão fria. “Para enfrentarmos a inclemência do inverno, as autoridades forneceram-nos cobertores e uma recomendação – cavar na areia buracos fundos, que nos servissem de proteção diante da fria brisa marinha”, relembra.

Muitos brasileiros nos campos de prisioneiros contaram com o apoio das autoridades do país na Espanha e na França para obter os documentos e conseguir ser repatriados. Além deles, estrangeiros que viviam no Brasil antes da guerra buscavam esse apoio diplomático para deixar os campos e retornar ao país. Muitos não tiveram alternativa a não ser fugir dos campos.

As autoridades francesas ainda ofereceram aos brigadistas e militares republicanos outra opção para sair dos campos. Com a Segunda Guerra já deflagrada, os militares franceses tentaram alistar os ex-combatentes na Legião Estrangeira, na qual manteriam a mesma patente. A proposta teria sido recusada pelos brasileiros, que a consideravam uma força de repressão colonial.

A possibilidade de retornar não era a primeira opção para todos, já que alguns dos voluntários estavam condenados no Brasil. Inclusive, com o fim do conflito, as autoridades brasileiras já se preocupavam em vigiar os brigadistas, em especial os condenados por 35. Para alguns, então, a saída foi ir para outro país – caso de Dinarco Reis, que foi para a Venezuela para tentar entrar clandestinamente no Brasil. A solução encontrada foi bastante inusitada: misturar-se a um grupo de náufragos brasileiros em Trinidad, já que as autoridades não pediam documentos a esses indivíduos.

Um grupo que ainda permanecia na França quando da invasão alemã, em 1940, se engajou na Resistência. Essa foi a trajetória do judeu romeno Wolf Reutberg, um dos estrangeiros expulsos do Brasil. Ao ser detido por alemães em 1944, foi fuzilado. Já Apolonio chegou a comandar uma tropa de quase 2 mil pessoas, que apoiou a libertação do sudoeste do país em 1944.

Do Brasil, Carlos da Costa Leite, David Capistrano da Costa e outros comunistas buscaram se engajar na Segunda Guerra Mundial. O grupo se apresentou como voluntário para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na luta contra o Eixo. No entanto, foram imediatamente presos, pois estavam condenados pela Intentona Comunista. A detenção duraria até 1945, quando houve uma anistia. Destino similar atingiria outros brigadistas.

Dos estrangeiros expulsos do Brasil, alguns retornariam no pós-guerra, já que a ligação com o país era grande. Alguns tinham familiares no país, inclusive, filhos; enquanto outros haviam imigrado quando criança e, portanto, passado quase toda sua vida no Brasil. Retornaram, com ajuda de autoridades brasileiras no exterior, José Sanches Sanches, Arno Roesch e Ramon Ruiz Martin, entre outros. No entanto, documentos mostram que mais pessoas solicitaram ajuda para voltar e não obtiveram, como Ernest York, judeu alemão, que terminaria morto em um campo de concentração nazista.

 

Trajetória política prolongada

Parte do grupo ligado ao PCB ainda manteve uma ativa militância nas décadas seguintes no Brasil. Mesmo com a anistia concedida aos presos políticos e o fim do governo Vargas, em 1945, o contexto de Guerra Fria e anticomunismo não permitiram tranquilidade aos ex-voluntários. “O simples fato de ter lutado na guerra o rotulava de maneira profunda. Isso dificultou muito a vida desse pessoal”, explica Venturini.

A situação piora com a entrada do PCB na ilegalidade em 1947, o que obriga alguns de seus militantes a viverem longos períodos de clandestinidade. Em suas memórias, Apolonio relata o sofrimento passado no período: “sob a clandestinidade, vou conhecer um isolamento político extremo: como que desterrado dentro de meu próprio país, banido da sociedade em que sonhava reintegrar-me após dez anos de ausência”.

Com o golpe militar de 1964, a máquina repressiva foi posta em movimento com intensidade. “Continua a mesma lógica de perseguição. Os que foram para a Espanha e eram comunistas viram alvo”, revela Thaís Battibugli. “Eles eram conhecidos da polícia política e desses militares que deram o golpe – que eram jovens militares quando eles foram para a Espanha”. A pesquisadora explica que a estrutura repressiva do período Vargas não foi desmantelada pelos governos seguintes e acabou rapidamente rearticulada pelo regime militar.

Ela exemplifica com o caso de José Homem Correia de Sá, “mesmo afastado da política desde a década de 1940, foi preso duas vezes durante o regime militar”. Quando do golpe, Correia é convocado a depor, assim como outros conhecidos comunistas, e, em 1970, é acusado de ajudar perseguidos políticos – de fato, havia escondido os filhos dos ex-companheiros de Espanha, Apolonio e Capistrano, que teria um destino trágico nas mãos da ditadura: sequestrado em 1974, o militante comunista teria sido torturado e executado, e hoje se soma à lista de desaparecidos políticos do período.

Tardiamente, muitas das trajetórias foram reconhecidas e exaltadas. Em 1996, houve uma homenagem aos brigadistas na Espanha, com a presença de mais de trezentos voluntários, inclusive alguns dos brasileiros. No Brasil, muitos dos que haviam sido expulsos do Exército em 1935 foram reincorporados à instituição com o fim da ditadura, em 1988, recebendo a patente que teriam caso a carreira não tivesse sido interrompida.

Ainda que o real impacto e importância das Brigadas na guerra sejam um debate em aberto entre estudiosos, o simbolismo criado por elas é inegável. O envolvimento de milhares de estrangeiros em um conflito que não era diretamente seu, mas também o era pelo compartilhado sentimento antifascista, até hoje é um dos mais notáveis exemplos de solidariedade internacional. Internamente, o fim da guerra significaria o começo de outro difícil período para os espanhois. Até 1975, Franco esteve no poder e manteve a Espanha numa ditadura de contornos fascistas de muitas formas anacrônica na Europa. Enquanto isso, as histórias de muitos voluntários se espalharam pelo mundo e algumas ganharam tons heroicos, ajudando a propagar um sentimento de orgulho e nobreza, mesmo diante da derrota.

 


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Conheça mais sobre alguns dos brasileiros que lutaram na Espanha

Alberto Besouchet. Um dos primeiros brasileiros a ir para a Espanha já em julho de 1936, Besouchet era militar e membro da ANL. Acredita-se que tenha composto as milícias do POUM – partido marxista anti-estalinista – e, posteriormente, o Exército ou as Brigadas. Há relatos contraditórios de que teria sido morto em 1937 ou em 1938, em ambos os casos como consequência da perseguição comunista ao POUM. Em suas memórias, Apolonio de Carvalho exalta sua figura: “nada poderá apagar, contudo, a imagem desse comunista culto, modesto e bravo como poucos”.

 

Nemo Canabarro Lucas. Preso pela sua participação na sublevação de 1935 e solto pela chamada “macedada”, o capitão do Exército desembarcou na Espanha em abril de 1938. Canabarro chegou a comandar uma brigada do Exército Republicano composta por 4 mil espanhóis, sendo ele o único estrangeiro. Após se exilar na França, consegue retornar prontamente ao Brasil em março de 1939 e é detido por dois dias logo ao chegar. Canabarro se dedicou ao jornalismo – sendo enviado para Europa para cobrir a Segunda Guerra Mundial – e seguiu atuante politicamente, mesmo se afastando do PCB.

 

Feliciano de Rodrigo Gonzalez. Um dos brasileiros que se juntou ao bando rebelde, Gonzalez era paulista e havia nascido em 1915. O jovem estudante de 22 anos se alistou na Legião Espanhola em janeiro de 1937 e foi ferido duas vezes em combate. Ao final da guerra permanece na Espanha vivendo em Cáceres e posteriormente em Madri. Recebeu a medalha “sofrimentos pela pátria” em 1941.

 

Manuel Fernandéz Fernandéz. O paulista, nascido em 1905, vivia no povoado espanhol de Ávila desde 1924 trabalhando como barbeiro. Já havia participado de vários combates durante a Guerra Civil quando se filiou à UGT, central sindical de influência socialista em 1938. Sobre sua atuação, documentos do PCE registram que era um “antifascista sincero” e que “não tinha nada de consciência de classe”.

 

Odilo Fernandez Freire. Pouquíssimo se sabe sobre a trajetória desse jovem carpinteiro que havia migrado ao Brasil. Nascido na região de Ourense, na Galícia, Freire estava de volta à sua terra natal quando foi condenado à morte pelos rebeldes. Apesar das próprias autoridades franquistas no Brasil, aonde vivia sua família, terem pedido uma alteração de sua pena, Freire foi fuzilado em março de 1938, aos 33 anos, em Ourense.

 

Roberto Morena. Um dos civis comunistas que foi à Espanha, Morena, junto com Carlos da Costa Leite, foi responsável por organizar a ida dos brigadistas. Lá, o dirigente não foi para frente de batalha, permanecendo na retaguarda trabalhando para o PCE. O dirigente ainda estava na Espanha após um mês do final do conflito em 1939 e foi o único estrangeiro a embarcar no último navio rumo à Argélia, onde ficou num campo de prisioneiros. De volta ao Brasil em 1943, mantém intensa atividade como líder sindical e é eleito deputado federal em 1950 pelo Partido Republicano Trabalhista (PRT). Com o início da ditadura militar, perdeu seus direitos políticos e se exilou no Uruguai, depois no Chile e, finalmente, na Tchecoslováquia, onde falece em 1978.

 

Eneas Jorge de Andrade. Libertado pela “macedada”, Andrade partiu para a Espanha, de maneira ilegal, junto a outros comunistas em 1937. Sua passagem – assim como de Davi Capistrano – foi financiada pelo Comitê Americano de Ajuda ao Povo Espanhol. Foi o único aviador brasileiro a pilotar no conflito, já que a grande quantidade de aviadores redirecionou muitos para outras tarefas. Faleceria em 1938 em um combate aéreo sobre Zaragoza.

 

Ida Chazan (ou Sasam) – também chamada de Helena Lazerovitz ou Elena Chaceneite. A jovem lituana era uma operária de ativa militância política. Por esse motivo já havia sido presa em seu país de origem e voltaria a ser detida por quase um ano, dessa vez no Brasil. Expulsa do país, embarca para a Espanha, em junho de 1937, onde trabalha em hospitais. Nos três países nos quais vive, Ida se filia ao partido comunista local. Não se sabe qual foi seu destino após o fim da guerra.


*Juliana Sada Rodrigo Valente são jornalistas.

{Le Monde Diplomatique Brasil – edição 115  – fevereiro de 2017}


Dormindo com os inimigos - Jorio Dauster (Relatório Reservado)

 Artigo do embaixador Jorio Dauster sobre a ironia trágica decorrente do fato que o autocrata DJT patrocinou, com seu espetáculo Hollywoodiano armado, uma transformação mágica na Venezuela, de uma ditadura à mesma ditadura, apenas que supostamente com sinal trocado na aliança e na subserviência a um poder estrangeiro. Não é o unico sinal contraditório na sua postura geral, tendo em vista a aliança com Putin para derrotar a Ucrânia. PRA


Dormindo com os inimigos

​​​​​​​Jorio Dauster

É impossível derramar uma só lágrima pela figura política de Nicolás Maduro, um ditador incompetente que empobreceu seu povo e fraudou a eleição de 2024 que o tiraria pacificamente do poder. Mas o vasto e letal ataque militar norte-americano na madrugada de sábado, que o sequestrou juntamente com sua esposa em Caracas, é a prova definitiva de que a política externa mafiosa de Trump tem um caráter ostensivamente imperialista e só obedece à lei da selva. Na América Latina, vista por ele e seus áulicos como um mero quintal dos Estados Unidos, voltamos aos tempos das canhoneiras com a repaginação da doutrina Monroe, agora intitulada Donroe sem que isso seja uma homenagem ao Pato Donald.

Pouco importa a Trump que todo esse violento desrespeito às normas éticas e legais jogue por terra o sistema multilateral construído sob a liderança dos próprios Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pouco importa a ele que a campanha contra a Venezuela venha sendo cinicamente conduzida sob o pretextoduvidoso de que Maduro é um narcotraficante ou, segundo a definição agora imposta por Washington, um narcoterrorista. Isso porque a essência de suas ações se fundamenta em dois pilares: em primeiro lugar, o desejo de enxotar a China do continente americano (na verdade, da Groenlândia à Patagônia) como parte da Segunda Grande Guerra Fria em que as duas potências disputam a hegemonia mundial; em segundo lugar, a fome por matérias estratégicas, do petróleo às terras raras.

No caso da Venezuela sem dúvida o objetivo central é o petróleo, embora as enormes reservas lá existentes sejam de uma variedade betuminosa, difícil de extrair e processar. No entanto,  pelas declarações feitas na conferência de imprensa concedida em Mar-a-Lago, deduz-se que todas as instalações no setor petrolífero venezuelano que pertenciam a empresas norte-americanas e foram nacionalizadas por Chavez serão devolvidas a seus antigos donos. Tudo indica que eles receberão as compensações devidas e que os investimentos a serem feitos para recuperá-las deverão ser pagos de alguma forma pela Venezuela, talvez como parte dos royalties a que o Governo faria jus nas vendas externas futuras do petróleo produzido nessas instalações. 

O mais notável é que tudo isso (e certamente muito mais) deverá ser garantido pelo fato de que Trump pessoalmente (remember Gaza?) dirigirá essas operações durante um período de transição não explicitado. Mas o problema é o seguinte: como fazer isso na prática, como garantir o controle físico dessas numerosíssimas instalações espalhadas pelo país sem a presença de uma vasta tropa de ocupação territorial? Ora, essa opção parece de todo inviável diante da oposição dos próprios apoiadores de Trump no MAGA, que jamais admitiriam ver, como no passado, aquelas fileiras de caixões cobertos com a “Star and Stripes” trazendo militares mortos em conflitos no exterior para serem enterrados com todas as honras de praxe no cemitério de Arlington.  

Não sendo assim, é óbvio que será necessária a colaboração maciça de venezuelanos para tornar efetivas a retomada e exploração das propriedades confiscadas há cinquenta anos, para garantir as compensações financeiras, para viabilizar a venda e exportação do petróleo, etc., etc., etc. Até as declarações de Trump no sábado, a grande favorita para executar essas penosas funções era Maria Corina Machado, recente ganhadora do Nobel da Paz e líder da oposição teria podido ser a vencedora do pleito eleitoral de 2024 caso não houvesse sido arbitrariamente desqualificada pelo Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela cumprindo as as ordens de Maduro. Mas, para surpresa  geral, Trump disse então que ela não tinha “o apoio ou o respeito dentro do país”, fazendo com isso que todos os olhos se voltem para aqueles que, até sexta-feira, se identificavam como companheiros de luta de Maduro contra as ações imperialistas do atual ocupante da Casa Branca.

Esse tipo de reviravolta não surpreende no caso de Trump, famoso pelos TACOs (Trump always chickens out), como aliás ocorreu ao abandonar o pretexto Bolsonaro para violar a soberania brasileira quando entendeu finalmente que isso constituía um tiro no pé. Mas traz à lembrança outras desastrosas experiências norte-americanas de tentar governar outros países, como aconteceu no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão e em várias instâncias na própria América Latina, frequentemente gerando conflitos, instabilidade interna e um crescente sentimento de antiamericanismo.

Mais complicado ainda será encontrar, dentre os antigos seguidores entusiastas de Maduro, aqueles que se disporão a enfrentar a opinião pública, ao menos certos segmentos militares, as cortes de justiça e o Congresso a fim de defender os interesses norte-americanos sob o controle pessoal de Trump, que declara abertamente a intenção de comandar todas as ações futuras no país por tempo indeterminado. A história já nos trouxe alguns exemplos não muito distantes no tempo, como a “quinta coluna” proclamada pelas forças fascistas de Franco durante a guerra civil espanhola ou as ações de Vidkun Quisling, que chefiou nominalmente o governo da Noruega como Ministro-Presidente depois de o país ter sido ocupado pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial (tendo seu sobrenome se transformado num substantivo comum que significa traidor ou colaborador).

Correm rumores de que já haveria negociações em curso no tocante ao day after Maduro com a vice-presidente Delcy Rodríguez, que recebeu da suprema corte do país a ordem de assumir interinamente a presidência “para garantir a continuidade administrativa e a defesa integral da nação". Aliás, a ausência de Maduro foi interpretada como "temporária" pelo tribunal, permitindo que a vice assumisse o cargo por até 90 dias, período que pode ser prorrogado pelo Parlamento. Como ela própria já havia declarado que Maduro era o real presidente da nação,podemos fazer uma tênue ideia dos imensos problemas que precisarão ser superados para que a Venezuela não entre em colapso total após o atentado majestático de Trump à sua soberania.

Vale, por fim, uma séria advertência: Trump colocou claramente a América Latina em quarentena e está disposto a instalar em todos os países da região regimes subordinados a ele, aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, aos conceitos de extrema direita advogados pelo movimento MAGA. Não se iludam os que creem que Lula conseguiu “encantar” Donald Trump, que os dois agora são amiguinhos. Nas eleições presidenciais deste ano todo o poder da Casa Branca será posto a serviço de seus adversários - de preferência a um deles para evitar a dispersão de forças.


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Trump apresenta lista de exigências para o novo governo da Venezuela - Jamil Chade (ICL Notícias)

Trump apresenta lista de exigências para o novo governo da Venezuela 

Fim de apoio para adversários dos EUA, expulsão de cubanos e pleno acesso ao petróleo estão na lista; não há pressa para que eleição seja organizada.
Jamil Chade
ICL, 5/01/2026

A nova presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, apenas ficará no cargo se cumprir as exigências apresentadas por Donald Trump a seu governo. Isso inclui acabar com o apoio para Cuba, expulsar os iranianos e outros atores indesejados na Venezuela, fechar o abastecimento de petróleo para adversários dos EUA e abrir o mercado de petróleo para as empresas americanas.

Eleições, direitos humanos e democracia? Por enquanto não, obrigado. A lista de condicionalidades foi primeiro revelada com exclusividade pelo site Politico.

Ao ICL Notícias, diplomatas latino-americanos na ONU confirmaram que um pacto foi negociado entre os EUA e o regime chavista, em Caracas, depois da captura de Nicolás Maduro no último sábado.

As exigências vão justamente na direção do discurso adotado desde domingo pelo governo americano: a recusa em permitir que a Venezuela seja um entreposto para adversários dos EUA na região e a garantia de que os recursos naturais possam ser explorados por empresas americanas.

Mike Waltz, o embaixador dos EUA na ONU, repetiu o mantra na reunião do Conselho de Segurança, nesta segunda-feira. Nas redes sociais, Donald Trump e sua equipe martelaram a ideia de que teriam o direito de determinar o que acontece em “nosso Hemisfério”.

Stephan Miller, um dos principais conselheiros de Trump, confirmou também que mensagens foram passadas aos negociadores dos EUA de que aqueles que permaneceram no poder em Caracas iriam “cumprir os termos, demandas, condições e exigências dos EUA”.

De acordo com o site Politico, as exigências seriam:

Identificar agentes iranianos, cubanos e de outras nacionalidades ou redes hostis a Washington na Venezuela;

Interromper a venda de petróleo a adversários dos EUA. Parte desse acordo ainda prevê a permissão para que sejam as empresas americanas que fariam as operações para recuperar a produção de petróleo da Venezuela, com uma participação significativa no setor a partir de agora.

A interrupção dessa venda ainda teria um componente de frear o que parecia ser a criação de um canal financeiro no setor de combustíveis que não usasse o dólar. O temor americano era de que a desdolarização ampliasse o questionamento da hegemonia dos EUA no mundo.

Eleição sem pressa e nem prazo

Autoridades americanas também esperam que Rodríguez promova eleições livres e renuncie ao cargo, sem concorrer à presidência. Neste caso, não haveria um prazo e parte da administração Trump considera que seria “prematuro” falar em um processo eleitoral. Não por acaso, a Casa Branca esnobou a líder da oposição, Maria Corina Machado, que esperava ser alçada ao cargo de presidente com a queda de Maduro.

Membros do governo brasileiro explicaram ao ICL Notícias que uma das preocupações dos EUA é a de não deixar um vácuo de poder, já que isso poderia jogar o país numa instabilidade ameaçadora. Corina Machado não teria o apoio suficiente para evitar uma crise doméstica.

Haveria ainda a possibilidade de que, no decorrer de 2026, algumas das sanções sejam retiradas contra parte da elite no poder na Venezuela.

Mas tudo isso dependeria de um acordo que permita o amplo e irrestrito acesso dos recursos do país às empresas de petróleo dos EUA. O tema é visto como crítico para a manutenção do governo de Delcy no poder.

O secretário de Estado, Marco Rubio, porém, já explicou que uma espécie de quarentena será criada contra petroleiros sancionados. De fato, o governo dos EUA manteria uma nova versão da “diplomacia das canhoneiras” contra Caracas, até se assegurar que o novo governo vai cumprir o acordo.

Ainda no domingo, Delcy mudou radicalmente seu tom e “convidou” os EUA a trabalhar de forma conjunta. Na ONU, apesar de denunciar a operação, a diplomacia da Venezuela fez questão de dizer que as instituições continuavam funcionando.

Trump, por seu lado, mandou um alerta claro para a nova presidente: qualquer ação num sentido que contrarie os interesses dos EUA seria respondida com um ataque ainda mais violento.

O fracasso das forças venezuelanas em frear a ação militar dos EUA ampliou a suspeita, até mesmo entre militares brasileiros, de que algum tipo de pacto teria sido fechado.

Na ONU, nesta segunda-feira, o Itamaraty alertou que a criação de um protetorado não seria bem-aceito pelo governo Lula.

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Um trabalho mais do que atual:


5104. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, Brasília, 2 novembro 2025, 4 p. Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html . Relação de Publicados n. 1601.

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Artigo publicado na revista Será? Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/ ).


As relações internacionais nunca foram um arremedo da famosa paz kantiana, pela simples razão de que o mundo nunca exibiu uma maioria de Estados republicanos, ou seja, governos baseados numa ordem legal fundada em regras aceitas por todos, a partir de regimes constitucionais estáveis, exibindo compromissos aquiescentes aos tratados internacionais. O mais avançado deles, a Carta das Nações Unidas, preservou o sistema oligárquico que é típico da maioria quase absoluta das nações organizadas politicamente, e que foi, no plano mundial, parcialmente controlado, justamente, pelos cinco supostos garantidores da ordem internacional, mas que a violaram mais frequentemente, mediante ações unilaterais de cunho tradicionalmente imperial, isto é, a manutenção de zonas de influência e de dominação econômica, política e militar. Outros compromissos relevantes, como por exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, são solenemente ignorados por Estados, geralmente autoritários, que contornam impunemente seus principais dispositivos.
Não obstante, durante aproximadamente meio século foram poucas as tensões diretas entre as grandes potências durante a primeira Guerra Fria, a exemplo de episódios como o da crise dos mísseis soviéticos em Cuba (1962), a instalação de mísseis balísticos dos dois lados da “Cortina de Ferro” nos anos 1980, a guerra do Vietnã, além dos tratados de limitação de armas de alcance estratégico. Sempre foram mais comuns, justamente, as guerras por procuração, ou ações unilaterais mal calculadas, como a invasão soviética do Afeganistão (1979) ou a de Bush filho guerra contra o regime de Saddam Hussein (2003), que criou um desastre ainda não de todo equacionado no Oriente Médio. No entanto, cabe demarcar alguns episódios que sinalizaram mudanças graduais no equilíbrio entre as grandes potências.
No início dos anos 1970, Kissinger e Nixon alteraram a balança de poder, ao fazer uma aliança tácita com a China de Mao contra o inimigo comum: a União Soviética. A “aliança” perdurou até a incorporação da China de Deng ao sistema multilateral de comércio, via adesão ao Gatt e seu ingresso na OMC, em 2001 (depois de 14 anos de negociações). Os falcões de Washington imaginavam que, com isso, a China evoluiria para um sistema político de tipo liberal. Ao mesmo tempo, eles implementaram contra ela a mesma política de contenção que já tinha sido feita com relação à União Soviética durante a Guerra Fria, de 1947 a 1991. O impossível containment da China teve um lado trágico, que foi o bombardeio americano da embaixada chinesa em Belgrado, no quadro da contenção da Sérvia na sua política repressiva contra o Kossovo, em 1999. A China vinha percebendo que, a despeito de facilitar seu acesso aos organismos multilaterais da ordem liberal, os EUA pretendiam ditar condições, que por acaso se confundiam com a manutenção de sua própria hegemonia.
Foi quando ascendeu na política russa um antigo quadro do KGB, Putin, decidido a restaurar o que afirmou, em discurso na Dieta russa em 2005, ter sido a maior “tragédia geopolítica do século XX”, para ele a “dissolução da União Soviética” Em 2007, estabeleceu sua visão das relações internacionais, em um discurso na conferência sobre segurança de Munique, em torno de uma “nova ordem global multipolar”. China e Rússia já tinham se aproximado no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai, criada por iniciativa da China em 2001, para combater o terrorismo, o separatismo e o extremismo na região, compreendendo, inicialmente, a própria China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão; aderiram mais tarde a Índia e o Paquistão (2017), o Irã (2023) e a Bielorrússia (2024), constituindo, assim, uma das maiores organizações regionais do mundo em termos de área e população. Segundo seus próprios promotores, a OCX busca promover uma governança mundial alternativa e atua como um contrapeso a blocos ocidentais, como a OTAN. Em paralelo pode-se colocar o BRIC (2006-2009), com Brasil, Rússia, Índia e China, que incorporou a África do Sul em 2011, passando a ser BRICS, mais recentemente ampliado para onze membros efetivos e outros nove associados no BRICS+.
Os eventos politicamente mais impactantes no sentido de uma nova turbulência nas relações internacionais foram a invasão por tropas russas de duas províncias setentrionais da Georgia em 2008, e da Transnístria, na Moldova em 2010, assim como a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia em 2014, o que justamente resultou na expulsão da Rússia do G8 – formado politicamente em 1998 – e na introdução de sanções econômicas e diplomáticas por diversos países ocidentais (mas não pelo Brasil, cabe ressaltar). Pode-se dizer que foi Putin quem começou o desmantelamento do sistema político multilateral do pós-guerra, que teve desenvolvimentos surpreendentes a partir de 2022, quando teve início, em fevereiro, o anúncio da “aliança sem limites” entre a China e a Rússia, seguida, logo depois, pela invasão da Ucrânia por esta última, numa guerra de agressão claramente violadora do principal artigo da Carta da ONU, a guerra de agressão justamente.
Novas e mais duras sanções, conformes à letra e o espírito da Carta da ONU, foram implementadas por grande número de países contra a Rússia, embora o Brasil não as acate, pela justificativa formal de que não são multilaterais (em virtude do veto abusivo pelo membro agressor. De 2008 até o presente, o sistema internacional enfrenta as mais graves rupturas da ordem mundial, chamada desdenhosamente de “ocidental” por parte daqueles que pretendem inaugurar uma mal definida “nova ordem global multilateral”, anunciada por Putin e Xi Jinping, e prontamente aceita pelo presidente Lula (mas não pela diplomacia profissional brasileira, que também não foi responsável, esclareça-se, pelas ampliações sucessivas do BRIC até o atual BRICS+).
Depois dessas rupturas político-militares da ordem internacional, começa uma ruptura paralela da ordem econômica mundial, por iniciativa de Trump 2. Este começa num tom desafiador, que se impõe de modo bem mais amplo do que quando de seu primeiro mandato. O gesto mais espetacular, depois de ensaios caóticos, foi o “Dia da Liberação”, em abril de 2025, quando tem início sua “guerra de agressão tarifária”, consistindo na recusa da secular cláusula de nação mais favorecida e no desmantelamento tentativo do sistema multilateral de comércio, tal como estabelecido a partir de 1947 e institucionalizado em 1994.
Seu unilateralismo agressivo se desdobra igualmente no apoio a Israel, na ofensiva para “liberar” a Faixa de Gaza do Hamas, além do brutal recurso aberto à intimidação militar contra supostos inimigos dos EUA, entre estes o Irã e a Venezuela. O Irã já foi objeto de um “bombardeio corretivo”, ao passo que a Venezuela está em compasso de espera por algum ataque direto. Para responder ao projeto de uma “nova ordem global multipolar”, vagamente apresentada por seus dois principais contendores, Trump ainda não formalizou qualquer projeto seu, tendente a uma nova ordem global fundada numa “Pax Americana 2.0”.
Não creio que exista qualquer proposta aceitável para a construção de uma nova ordem liberal internacional, quando o que Trump visa, prioritariamente, são os seus próprios negócios e os da sua família. Por outro lado, as ações de Putin e de Xi Jinping podem corresponder a uma “certa ideia” do multilateralismo, mas unicamente do ponto de vista dos interesses nacionais dos dois Estados, que por sinal não especificaram, até o momento, a qual tipo de “nova ordem global multipolar” se refere a proposta feita por ambos, que seria, previsivelmente, modificadora da presente ordem política e econômica internacional.
Em resumo, não existe bola de cristal disponível para saber como vai evoluir a atual desordem internacional, em virtude das várias incertezas e dos imponderáveis que cercam as atitudes dos “fabricantes” de guerra, dos aventureiros expansionistas, dos “contempladores” relativamente impotentes em face dos três grandes – que são as potências médias, incluindo aqui a União Europeia, associados do G7 (Canadá e Japão), certamente a Índia e o Brasil e alguns poucos do tal de Sul Global, inexistente na prática – em face das várias crises e guerras em curso, já presentes na agenda internacional: (a) a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia; (b) a “limpeza” da Faixa de Gaza e o condomínio incerto entre Trump e Netanyahu em torno do futuro de todo o Oriente Próximo; (c) o ainda mais incerto futuro de Taiwan, entre ameaças chinesas e o duvidoso engajamento dos EUA em sua defesa.
Outras aventuras podem se apresentar no que ainda resta do mandato do candidato a imperador mundial (que só deve durar até 2028), talvez em 2027 (que corresponde ao final hipotético do terceiro mandato do novo Imperador do Meio) e não se sabe até quando no caso do neoczar, que não consegue terminar sua Operação Militar Especial, planejada para ser breve. Nada disso entra no multilateralismo, pois tanto a ONU quanto a OMC, assim como o próprio diálogo entre esses dirigentes imperiais, se encontram num estado de paralisia construída precipuamente por eles mesmos, que não possuem nenhuma agenda consensual para fazer funcionar a presente ordem ou qualquer outra que possam acordar entre eles.
Imagino que o vaidoso Trump, em sua ignorante megalomania, adoraria dispor de um retrato similar, se não semelhante, à famosa foto do encontro entre os três grandes em fevereiro de 1945 em Yalta: Churchill, Roosevelt e Stalin, trocando o clichê por ele próprio, ao lado de Putin e Xi. Não creio que este último toparia uma nova conferência a três para dividir o mundo, e os seus assuntos preferenciais, numa paridade totalmente irrealista, na ausência de uma crise terminal da presente ordem mundial.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5104, 2 outubro 2025, 4 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html).

Ajustando algumas incoerências da diplomacia chinesa

 O espelho da diplomacia (ao inverso)

Cabe aplicar essas justas posições da diplomacia chinesa a um caso não semelhante, mas similar: a China aplicaria essas palavras ao caso da agressão russa contra a Ucrânia? Colchetes são meus, PRA.

“⚡️The Chinese Foreign Ministry commenting on the US aggression against Venezuela: 

America's use of force threatens peace in Latin America.

 [O uso da força pela Rússia ameaça a paz na Europa.]

We reject the Long Arm Jurisdiction law that violates state sovereignty and demand the US immediately release Maduro. 

[Nós rejeitamos o sequestro de crianças ucranianas pela Rússia, que viola vários tratados internacionais, e demandamos a imediata devolução dessas crianças à guarda de seus pais legitimos.]

⚡️The Chinese Foreign Ministry on the Venezuelan Vice President taking office: We believe that the Venezuelan government will handle its internal affairs properly in accordance with the Constitution and the law. 

[Acreditamos que o governo ucraniano possa tratar de seus assuntos internos adequadamente, de acordo à sua Constituição.]

Ready to support Latin America on issues of sovereignty, security and regional safety.

[A China está pronta para apoiar a Ucrânia e a Europa em assuntos de soberania, segurança e estabilidade regional.]

Acredito que a China não precisaria receber estas lições de coerência e de credibilidade diplomática. Em todo, espero ter contribuído um pouco.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5/01/2026

Carta de Lech Walesa a Donald Trump (for the record)

 Falta a data exata desta missiva:


Former President of Poland Lech Walesa wrote the following letter to Trump.


Your Excellency, Mr. President,

We watched the report of your conversation with the President of Ukraine, Volodymyr Zelensky, with fear and distaste. We find it insulting that you expect Ukraine to show respect and gratitude for the material assistance provided by the United States in its fight against russia. Gratitude is owed to the heroic Ukrainian soldiers who shed their blood in defense of the values of the free world. They have been dying on the front lines for more than 11 years in the name of these values and the independence of their homeland, which was attacked by Putin’s russia.

We do not understand how the leader of a country that symbolizes the free world cannot recognize this.

Our alarm was also heightened by the atmosphere in the Oval Office during this conversation, which reminded us of the interrogations we endured at the hands of the Security Services and the debates in Communist courts. Prosecutors and judges, acting on behalf of the all-powerful communist political police, would explain to us that they held all the power while we held none. They demanded that we cease our activities, arguing that thousands of innocent people suffered because of us. They stripped us of our freedoms and civil rights because we refused to cooperate with the government or express gratitude for our oppression. We are shocked that President Volodymyr Zelensky was treated in the same manner

The history of the 20th century shows that whenever the United States sought to distance itself from democratic values and its European allies, it ultimately became a threat to itself. President Woodrow Wilson understood this when he decided in 1917 that the United States must join World War I. President Franklin Delano Roosevelt understood this when, after the attack on Pearl Harbor in December 1941, he resolved that the war to defend America must be fought not only in the Pacific but also in Europe, in alliance with the nations under attack by the Third Reich.

We remember that without President Ronald Reagan and America’s financial commitment, the collapse of the Soviet empire would not have been possible. President Reagan recognized that millions of enslaved people suffered in Soviet russia and the countries it had subjugated, including thousands of political prisoners who paid for their defense of democratic values with their freedom. His greatness lay, among other things, in his unwavering decision to call the USSR an “Empire of Evil” and to fight it decisively. We won, and today, the statue of President Ronald Reagan stands in Warsaw, facing the U.S. Embassy.


Mr. President, material aid—military and financial—can never be equated with the blood shed in the name of Ukraine’s independence and the freedom of Europe and the entire free world. Human life is priceless; its value cannot be measured in money. Gratitude is due to those who sacrifice their blood and their freedom. This is self-evident to us, the people of Solidarity, former political prisoners of the communist regime under Soviet russia.


We call on the United States to uphold the guarantees made alongside Great Britain in the 1994 Budapest Memorandum, which established a direct obligation to defend Ukraine’s territorial integrity in exchange for its relinquishment of nuclear weapons. These guarantees are unconditional—there is no mention of treating such assistance as an economic transaction.


Signed,


Lech Wałęsa, former political prisoner, President of Poland

Um sermão de Natal que repudiou a “doutrina Trump” - Ary Quintella

 Reproduzo por inteiro o artigo semanal de Ary Quintella, e faço menção especial à defesa de uma visão humanista do padre português, repudiando a tosca doutrina imperial do personagem queocupa a presidência do país mais poderoso (por enquanto) do mundo. PRA

Postagem em destaque

A abstenção do Brasil na ONU - Rui Martins (revista Será?)

  Rui Martins analisa uma questão crucial, mas não condena a política externa presidencialista, mais que personalista, do governo Lula – não...