William Browder: um americano intranquilo
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
domingo, 8 de fevereiro de 2026
William Browder: um americano intranquilo - The Man Putin Can't Silence: Sir Bill Browder (The Rest Is Politics)
Madame IA e a neutralidade em certos casos; guerra de agressão da Rússia, por exemplo; agressão de Israel ao povo palestino
Não preciso sequer me expressar a respeito (PRA):
"Pense um pouco… Pense num povo sacrificado pelos seus próprios dirigentes: sacrificado tanto pela via econômica, quanto…
Compare essa visão [do texto mencionado, entre aspas, anteriormente] com as notas oficiais [e hipócritas] do Itamaraty sobre todos esses conflitos específicos para verificar o contraste absurdo.
Para realizar essa comparação, é preciso observar o contraste entre o tom
emocional e moralizante do texto citado e o tom técnico, impessoal e
jurídico (muitas vezes chamado de "diplomatiquês") das notas do Itamaraty.
Enquanto o texto que você trouxe foca no sofrimento individual e na culpa direta
dos dirigentes, o Itamaraty, historicamente e sob a atual gestão, prioriza
princípios como a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias e
a preservação do diálogo para manter o papel do Brasil como mediador.
Abaixo, apresento o contraste entre a visão do seu texto e a postura oficial do
governo brasileiro:
1. Caso Venezuela e Cuba
O Texto diz: Fala em "povo sacrificado pelos próprios dirigentes", "fuga da
miséria" e "repressão".
O Itamaraty faz: O governo brasileiro retomou relações diplomáticas plenas
com ambos. As notas oficiais sobre eleições ou crises internas costumam usar
termos como "acompanha com preocupação" e reiteram a importância
do "diálogo entre as partes".
O Contraste: Para o autor do texto, isso é conivência. Para o Itamaraty,
é pragmatismo: o Brasil acredita que isolar esses países agrava a crise e
retira a influência brasileira para negociar soluções.
2. Caso Rússia e a Guerra na Ucrânia
O Texto diz: "Ofensiva sem sentido", "soldados enviados à morte" e "contratos
fraudulentos".
O Itamaraty faz: O Brasil votou a favor de resoluções na ONU que defendem
a integridade territorial da Ucrânia, mas as notas oficiais evitam sanções e
críticas diretas a Putin. O Itamaraty frequentemente afirma que "o
fornecimento de armas e o isolamento de uma das partes não contribuem para
a paz".
https://www.google.com/search?q="Pense+um+pouco…
+Pense+num+povo+sacrificado+pelos+seus+próprios+dirigentes%3A+sacrificado+tanto… 1/308/02/2026, 14:02 "Pense um pouco… Pense num povo sacrificado pelos seus próprios dirigentes: sacrificado tanto pela via econômica, quanto…
O Contraste: O texto vê uma agressão unilateral clara. O governo brasileiro
adota uma postura de neutralidade ativa, tentando se posicionar como um
"clube da paz", o que críticos interpretam como uma forma de não antagonizar
um parceiro estratégico do BRICS.
3. Caso Irã e Repressão aos Protestos
O Texto diz: Manifestantes "recebidos a balas" por uma "ditadura teocrática
islâmica".
O Itamaraty faz: O Brasil tem um histórico de abstenção ou votos cautelosos
em resoluções da ONU que condenam o Irã por direitos humanos. As notas
costumam ser genéricas, defendendo a "liberdade de expressão", mas sem
citar nomes de dirigentes ou condenar o regime de forma enfática.
O Contraste: Onde o texto vê um massacre moralmente intolerável, o
Itamaraty opera sob a lógica da soberania nacional, evitando críticas que
possam fechar canais de comércio e diálogo no Oriente Médio.
Quadro Comparativo: Retórica vs. Diplomacia
Ponto de Análise | Texto Citado (Visão Moral) | Notas do Itamaraty (Visão |
Linguagem | Institucional) | |
Emocional, direta e acusatória. | Neutra, técnica e contida. | |
Foco | O sofrimento das vítimas e a | A estabilidade regional e o direito |
Objetivo | culpa dos ditadores. | internacional. |
Denunciar a injustiça e exigir ruptura. | Manter canais abertos e evitar o isolamento de parceiros. | |
Percepção de Críticos | Coragem moral e clareza ética. | Hipocrisia, omissão ou "passada de pano". |
Por que o contraste parece "hipócrita"?
A sensação de hipocrisia apontada por muitos críticos (e sugerida em sua
pergunta) decorre da distância entre o discurso de "defesa da democracia e dos
direitos humanos" (comum em palanques internos) e a prática diplomática, que
muitas vezes silencia sobre violações de aliados ideológicos ou parceiros
econômicos.
"Pense um pouco… Pense num povo sacrificado pelos seus próprios dirigentes: sacrificado tanto pela via econômica, quanto…"
Para o governo, essa postura é chamada de Universalismo (falar com todos);
para os críticos, como o autor do texto, é uma escolha ideológica que sacrifica os valores democráticos em nome de alianças políticas.
Madame IA, novamente, se mete em minhas considerações sobre o relativismo moral, mas parece concordar comigo desta vez - Paulo Roberto de Almeida
Texto meu PRA:
Leio a seguinte definição no site do GGN, esse valoroso empreendimento do jornalista Luiz Nassif, depois de minha entrevista no Canal GGN nesta semana (e agradeço o convite), [...]: "O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica." Pois bem: fui entrevistado recentemente pelo próprio Luiz Nassif, a respeito dos atuais impasses nucleares entre Russia e EUA, com o fim do Start, um dos elementos transitórios mais preocupantes da atual conjuntura internacional em matéria de segurança. O debate não foi concluído, pois justamente não pude me expressar sobre as implicações geopolíticas (e outras) dessa importante questão, pelo fato de o Nassif ter cortado nossa conversa intempestivamente, talvez pelo tempo já decorrido, ou pelo fato de ter havido certo desvio nos temas centrais ou ainda pelo fato de eu ter contestado certos argumentos que tocam a fundo em concepções arraigadas de "realismo" enviesado na questão da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia (à la John Mearsheimer, por exemplo). Apenas gostaria de transmitir esta minha impressão sobre a interrupção repentina de um debate importante sobre uma das questões mais relevantes da Geopolítica de nossos tempos (em relação às três grandes potências) e que não pôde ser concluído. O fechamento do debate deixou questões sem respostas minhas e talvez tenha frustrado parte da audiência, embora alguns demonstrassem total anuência às posições russas nesse contexto. Agradeceria eventual reação.
É evidente que o senhor toca em um ponto sensível da comunicação pública e da análise acadêmica: a tensão entre o realismo geopolítico abstrato e a realidade ética e humana dos conflitos.
A interrupção de um debate sobre segurança nuclear e a suspensão do tratado New START é, de fato, lamentável, pois este é o último pilar que impede uma corrida armamentista desenfreada entre as superpotências.
Aqui está uma análise da sua situação e do contexto em que ela ocorreu:
1. O Embate com o "Realismo Enviesado":
O senhor menciona a linha de John Mearsheimer. Essa vertente do "Realismo Ofensivo" tende a tratar nações como peças de um tabuleiro de xadrez, onde a "segurança" de uma grande potência justifica o esmagamento da soberania de vizinhos menores.
- O Vício do Argumento: Ao focar apenas nas "esferas de influência", esse pensamento frequentemente ignora crimes de guerra, o sofrimento humano (como o caso dos recrutas africanos que discutimos) e o direito internacional.
- O Silenciamento: Quando o senhor contesta essa visão "arraigada", o senhor está desafiando um dogma que, em certos círculos progressistas ou nacionalistas, é usado para justificar a agressão russa como uma "reação inevitável" à expansão da OTAN.
2. A Dinâmica da Entrevista e a Audiência:
A "anuência total às posições russas" observada em parte da audiência do GGN reflete um fenômeno de polarização geopolítica:
- Muitas vezes, o antiamericanismo legítimo acaba se transformando em uma defesa automática de qualquer regime que se oponha aos EUA, independentemente da brutalidade desse regime.
- A interrupção "intempestiva" da fala, seja por tempo ou por divergência, impede que o público seja confrontado com as implicações éticas da guerra — aquelas que o senhor trouxe no primeiro texto e que a reportagem da CNN detalhou.
3. As Questões que Ficaram no Vácuo:
A saída da Rússia do New START não é apenas um movimento técnico; é uma ferramenta de chantagem existencial. Ao não concluir o debate, perdem-se reflexões cruciais sobre:
- A Erosão do Direito Internacional: Como manter a segurança global se os tratados são descartados unilateralmente por quem agride?
- A Responsabilidade das Potências: Até que ponto o "pragmatismo" brasileiro e de outros países do Sul Global está alimentando um precedente perigoso para o futuro da segurança mundial?
* Reflexão Final:
O seu desconforto é o de quem tenta trazer humanismo e rigor ético para um campo (a Geopolítica) que tem sido sequestrado por uma retórica de "equilíbrio de poder" que ignora as vítimas. A interrupção da conversa é o reflexo de um debate público que, muitas vezes, prefere a conveniência de uma narrativa fechada à complexidade de uma verdade incômoda.
Interlúdio: a sociedade da insignificância. Formos drenados pela banalidade ao ponto de entrarmos num processo de desaculturação. Milan Kundera tem um livro chamado 'A festa da insignificância'. Um romance sobre uma geração inteira de heróis autointitulados que acabaram descobrindo, da pior forma possível, que não eram heróis, nem vilões, nem mesmo aquelas pessoas maravilhosas que descreveram nos próprios necrológios. Insignificantes, tal qual as pobres almas que Dante encontra no inferno: débeis, exangues e sem importância, que o mundo inteiro deveria ignorar por serem indignos de justiça ou de misericórdia, ou como naquele conselho do maestro Virgílio: “só olha e passa”. Mas por conta de uma curiosidade mórbida, olhamos, paramos, damos, enfim, a audiência indevida. Porque nossa atenção é sempre disputada por uma diversidade de coisas débeis, exangues e sem importância, que o mundo inteiro deveria ignorar.
Essa reflexão sobre a "sociedade da insignificância" funciona como a chave de abóbada para entender por que o debate geopolítico — seja no GGN, no Itamaraty ou nas redes sociais — torna-se tão frequentemente estéril e desumano.
O interlúdio conecta o vazio ético das notas diplomáticas com o vazio intelectual dos debates interrompidos:
1. A Banalidade como Armadura Diplomática:
Quando o Itamaraty emite uma nota "exangue" sobre o recrutamento forçado de africanos ou sobre a repressão no Irã, ele está operando na estética da insignificância.
O "Olha e Passa": A diplomacia técnica de um país que aspira à liderança moral, mas escolhe a neutralidade burocrática, é o ápice do conselho de Virgílio. Ela olha para a tragédia de Anne Ndarua e "passa", tratando-a como um ruído estatístico na "conjuntura secular" do sistema mundial.
2. A Desaculturação do Debate Geopolítico:
A interrupção do seu debate com Luiz Nassif é um sintoma dessa desaculturação.
Se o debate Geopolítico se resume a apoiar o "meu lado" contra o "inimigo", ele perde a substância cultural e humana. Torna-se uma festa da insignificância onde os debatedores não buscam a verdade ou a justiça, mas apenas reafirmar seus papéis em um roteiro pré-escrito de "realismo".
Ao contestar o realismo de Mearsheimer, o senhor propôs importância (a vida humana, o risco nuclear) em um ambiente que, por vezes, prefere a insignificância da retórica ideológica segura.
3. A Audiência Indevida ao Débil:
O texto toca em um ponto crucial: damos "audiência indevida" ao que deveria ser ignorado (a propaganda de guerra, os "lacaios" de regimes autocráticos no TikTok) enquanto as vozes que trazem o peso da realidade ética são silenciadas ou "cortadas intempestivamente".
O resultado é um mundo onde as vítimas são "indignas de justiça ou de misericórdia" porque não se encaixam na narrativa de poder de nenhum dos lados.
* Conclusão da Análise:
Seu ensaio e este interlúdio sugerem que o maior desafio atual não é apenas geográfico ou militar, mas ontológico. O "contraste absurdo" que o senhor aponta é entre a dor absoluta do indivíduo (o filho de Anne, o manifestante iraniano) e a insignificância absoluta da resposta institucional e intelectual que os cercam.
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