quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Albert Fishlow: um grande amigo do Brasil...

Mas nem por isso menos crítico, ou realista como economista.
Eu até acho ele muito condescendente em relação às bobagens (e barbeiragens) de políticas macroeconômicas e setoriais que são sempre cometidas pelos governistas brasileiros -- atenção, de qualquer vertente: tucanos iludidos, petistas esquizofrênicos, liberais estatizantes, keynesianos ingênuos e tutti quanti pululam em torno do governo, sempre em busca de prebendas e apoios financeiros -- mas devemos dar o desconto que ele não quer ter aquele ar professoral-arrogante de sempre dizer o que se deve fazer, isso porque ele sabe dos constrangimentos políticos que cercam quaisquer definições de políticas econômicas.
Albert Fishlow merece ser homenageado com um livro, pelos economistas brasileiros, da mesma forma como Werner Baer, este sim um keynesiano moderado.
Minha modesta homenagem a América Latina Fishlow, neste post.
Paulo Roberto de Almeida


Book Launch: Starting Over: Brazil since 1985
by Albert Fishlow
When:
Tuesday, September 13, 2011 
Registration: 5:30 p.m. to 6:00 p.m.
Presentation: 6:00 - 7:30 p.m.
Reception: 7:30 p.m. - 8:30 p.m.

Where:
AS/COA
680 Park Avenue
New York, NY
Map of location


In cooperation with the Brazilian-American Chamber of Commerce, Inc.


In Starting Over: Brazil since 1985, author Albert Fishlow reflects on how the changes that Brazil has undergone over the last twenty years have transformed the social, political, economic, and diplomatic realms in that country and will affect its future, and especially influence Dilma Rousseff's presidency.


Albert Fishlow is Professor Emeritus at both the University of California-Berkeley and Columbia University. He was a Paul A. Volcker Senior Fellow for International Economics at the Council of Foreign Relations and professor of economics and director of the Center for International & Area Studies at Yale University. He served as deputy assistant secretary of state for Inter-American Affairs from 1975 to 1976, and received the National Order of the Southern Cross from the government of Brazil in 1999. Fishlow's published research has addressed issues in economic history, Latin American development strategies, as well as economic relations between industrialized and developing countries. Since the 1960s he has written extensively about the Brazilian economy, with seminal contributions ranging from the history and impact of import substitution, industrialization policies and debt crises, income distribution and social welfare, inflation and macroeconomic policies.

Confirmed Speakers:
  • Otaviano Canuto, Vice President and Head of Poverty Reduction and Economic Management (PREM), World Bank
  • Albert Fishlow, Professor Emeritus, International and Public affairs, Columbia University, Director, Center for Brazilian Studies, and Director, Institute for Latin American Studies, Columbia University.
  • Christopher Sabatini, Senior Director, Policy, Americas Society/Council of the Americas and Editor-in-Chief, Americas Quarterly
  • Lisa Schineller, Director, Latin American Sovereign Ratings, Standard & Poor's
  • Paulo Vieira da Cunha, Principal, Emerging Markets, Tandem Global Partners

Prior registration is required.


Registration Fee: $35.00 for AS, COA and BACC members; $50.00 for non-members. Includes a signed Copy of Starting Over.
Event Information: Please contact Sophia Costa at scosta@as-coa.org or 212-277-8369 or visit www.as-coa.org.
Press Inquiries: Please contact Alex Andrews at aandrews@as-coa.org or 212-277-2384.
Cancellation Policy: Please contact Juan Serrano via e-mail atjserrano@counciloftheamericas.org, by 3:00 p.m., Monday, September 12, 2011.

Anonimos governistas: uma tribo sempre crescente (e que pulula neste blog tambem)

Eu poderia até escrever uma "praga" sempre crescente, mas isto poderia ofender certos governistas sinceros, gente de boa vontade, e animada das melhores intenções possíveis, e que pensam estar fazendo o bem ao povo deste país, ao servir um governo qeu quer o "bem do povo", contra esses malditos neoliberais que sempre ficam torcendo contra, querendo crises e derrotas, fracassos e frustrações, apenas para provar que o governo é incompetente, inconsciente, ineficiente, enfim, essas coisas que todo mundo sabe mas que poucos ousam dizer...
Não tenho problemas em escrever "praga", ou tribo, inclusive porque acho a minha própria tribo, a dos sociólogos, um bando de masturbadores sociais que produzem muita ideologia e pouco conhecimento útil à sociedade.
Mais, passons...
Este post é dedicado a todos os bravos -- estricto et lato sensii -- governistas anônimos que fazem comentários por vezes indignados, no mais das vezes derrisórios ou irônicos, contra este modesto bloguista, como se eu fosse responsável pelo teor dos materiais que aqui posto. Vejam bem: 90% (ou mais) do que vem aqui para leitura, deleite (ou desprazer) de seus frequentadores ou passantes é pura matéria de imprensa, que os navegantes, anônimos ou não, governistas ou não, podem ler livremente em todos os sites e blogs que eu mesmo frequento. Eu só faço o favor de transcrever aqui o que acho interessante, ponto.
Meus comentários iniciais apenas traduzem o que penso da matéria, ponto.
Mas eis que  alguns desagradados resolvem comentar, NÃO a matéria, que seria o mais importante, mas os meus comentários, e atacam este blogueiro indefeso -- nem tenho porte de armas, nem sei lutar artes marciais -- que apenas reflete o que vai pelo mundo, sem qualquer poder de mudar a realidade.
Eu apenas pretende, aspiro, gostaria, de mudar a forma de pensar de alguns que aqui vêem, animados por um furor governista capaz de dar inveja aos políticos adesistas mais fanáticos.
Mudar a forma de pensar quer dizer o que? Pensar como eu? Absolutamente; apenas refletir sobre a matéria e constatar como a realidade se vinga dos incautos, dos iludidos, dos levados pela propaganda governista (sempre enganosa e hipócrita, como convém a todos os governos, e com o nosso dinheiro, além do mais), de todos aqueles que acham que o que os governantes fazem está sempre certo. Não, não está. Se está certo é porque fizeram apenas e tão somente o seu dever, e não há porque elogiá-los por isto. Se está errado é preciso alertar, denunciar, condenar, e é o que eu faço aqui habitualmente.
Quem não gosta, pode deixar de ler. Quem gosta não precisa elogiar, que eu não gosto disso.
Abaixo um exemplo de governista anônimo (uma praga, mas inevitável), e meus comentários a seus comentários.


2 Comentários

[a este post: http://diplomatizzando.blogspot.com/2011/09/america-latina-crescendo-firme.html]
Anônimo Anônimo disse...
Firme na torcida contra, Prazão! Vamos pensar negativo! Se a gente torcer bastante, daqui até 2014 é só crise! Daí só precisamos convencer o povão de que a culpa pela maior crise global da história é do LULA/DILMA e pimba, o poder é nosso de novo!
Quinta-feira, Setembro 08, 2011 7:41:00 AM
Excluir
Blogger Paulo R. de Almeida disse...
Caro Anônimo Governista (e leitor descuidado),
Você, como vários outros anônimos governistas que frequentam, leem, se debatem com raiva em relação a este modesto blog, ficam extremamente ansiosos para ler, não as matérias que eu posto (e 90% do que eu posto é pura seleção de matérias da imprensa, sem minha interferência, portanto), mas meus comentários iniciais.
Tamanha é a ansiedade governista, que desta vez você nem reparou que eu sequer toquei no nome deste país que o acolhe tão generosamente e que também é o meu. Seja por patriotismo, seja por sabujice ao governo, você se apresseou em falar de crise, de eleições, quando eu sequer toquei no nome do Brasil, falando apenas de tendências econômicas da América Latina.
Acho que você tem duas fixações doentias: uma é contrariar sempre meus comentários, outra é servir a esse governo que você acha ótimo, mesmo anonimamente, ainda que você, no recesse de sua caverna governista você se deleita com amigos e colegas ao dizer que colocou mais um comentário contra um brasileiro vil (eu, claro), que está sempre criticando o governo, por qualquer motivo.

Governista Anônimo,
Eu lhe recomendo abrir o seu próprio blog a favor do governo, e depois passar no caixa do governo para recolher o seu dinheiro, merecido ou não (acho que você tem muitos adesistas oportunistas na fila).
Aprenda uma coisa, se você já não sabe.
Fazer blog a favor, é coisa de quem não pensa, só adere, bestamente. Deixe isso com os propandistas do governo, pois o governo já gasta muito do seu, do meu, do nosso dinheiro com eles e eles já estão aí para isso mesmo: fazer propaganda descarada a favor, recolhendo milhões com isso, e dando risada dos trouxas que pagam e acham bonito ("as mãos do povo", que bonito!).

Este blog pensa, ou pelo menos o seu autor, e gosta de repetir como fazia o sábio Millor Fernandes:
"Jornalismo de verdade é sempre do contra. O resto é armazém de secos e molhados".
A função do pensamento crítico é esta: dedicar-se ao que está errado, pois o que está bem o governo já propagandeia (mesmo equivocadamente e hipocritamente) com o nosso dinheiro.
Eu vou sempre agir assim: se você não está contente, abra o seu blog e faça o trabalho dos assalariados do poder.
Eu não tenho problema em ser um servidor do Estado, mas não costumo deixar o cérebro na portaria quando entro no trabalho. Se você o faz, lamento por você, e só posso lhe desejar sorte e felicidade.
Eu fico com minha consciência e minha honestidade.
Por fim: da próxima vez, leia o que escrevi, antes de se posicionar contra este autor.
Não estou aqui para contentar ninguém, apenas para fazer as pessoas pensarem...
Mas você pode se excluir, claro...
Paulo Roberto de Almeida
(um anarco-pensador...)
Quinta-feira, Setembro 08, 2011 11:22:00 AM


Mais impostos: de volta ao esporte habitual de politicos impoliticos...

Mais uma vez (enfim, é todo ano esta brincadeira), se volta a falar no Brasil de aumento de impostos ou da criação de novos para financiar isto ou aquilo, "essencial", como dizem os mentirosos, para o "bem estar da população".
O editorial do Estadão toca nos pontos corretos: o governo não precisa de mais dinheiro, tanto porque a arrecadação federal vem crescendo continuamente duas ou três vezes acima do crescimento do PIB. Não é dinheiro, portanto, o que falta, e sim boa gestão, ou simplesmente vergonha na cara: em lugar de pedir mais dinheiro a cidadãos tosquiados, que somos todos nós, o governo tem de acabar com a confusão em suas hostes, a roubalheira e a incompetência generalizadas que campeiam soltas em todos os níveis, e tratar de fazer um governo enxuto, que pare de dar dinheiro para quem já é rico e que cuide do essencial, que é saúde e educação de qualidade, infra-estrutura e segurança. Deixe o resto para um ambiente competitivo, em que empresários façam seus negócios num ambiente sadio e facilitado, não que tenham de vir pedir favores em Brasília ou que tenham de recolher 40% do que faturam para esse ogro mal-cheiroso e pantagruélico que habita em Brailia (e um pouco em todos os cantos da federação, em todos, até nos que ainda não existem, mas que políticos famintos e desonestos pretendem criar para seu exercício habitual de assalto aos cofres públicos).
Os brasileiros vivem iludidos ao esperar algo do Estado: a única coisa que vem do Estado é isso mesmo: extorsão tributária, ineficiência e roubalheira.
Quando os brasileiros vão acordar?
Paulo Roberto de Almeida


Ameaça de mais impostos 

Editorial O Estado de S.Paulo, 8/09/2011

Quinze governadores apoiam a criação de um tributo para financiar a saúde - mais precisamente, a recriação do velho imposto do cheque, também conhecido como Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), extinta em 2007. A presidente Dilma Rousseff procura ficar a distância, para evitar o custo político dessa iniciativa. Mas dificilmente recusará o presente, se governadores e parlamentares cuidarem de exumar aquele monstrengo tributário, com alíquota menor e com o nome de Contribuição Social para a Saúde (CSS) ou algo parecido. Tem-se conversado também sobre outras possibilidades. Algumas são politicamente complicadas e pelo menos uma é claramente fantasiosa neste momento.
Uma alternativa com certeza atraente para pessoas politicamente corretas seria o aumento de impostos sobre cigarros e bebidas alcoólicas. Mas para isso seria preciso enfrentar o lobby poderoso de grandes indústrias. Também se fala sobre uma possível taxação do jogo, mas o primeiro passo, não muito fácil, teria de ser no mínimo a liberação dos bingos. Finalmente, há quem proponha o uso de royalties obtidos com a exploração do pré-sal para o financiamento da saúde. Ninguém pode dizer com segurança quando estará disponível esse dinheiro nem quanto será arrecadado.
A aventura do pré-sal apenas começou e ainda falta muito tempo para se iniciar a exploração desse petróleo em escala significativa. Se o financiamento da saúde for mesmo um problema urgente, como dizem tantos políticos, não se poderá resolvê-lo com royalties do pré-sal, um recurso por enquanto só existente na imaginação. O governo e seus aliados precisam decidir: ou falam de urgência na saúde ou falam do pré-sal como solução. Não há como sustentar os dois discursos ao mesmo tempo.
Dinheiro do pré-sal, se vier, será para reforçar orçamentos da União, dos Estados e dos municípios dentro de vários anos. Se o governo e seus aliados procuram uma solução de curto prazo, terão de pensar em algo diferente. Por isso é mantido o interesse na recriação da CPMF, embora a presidente Dilma Rousseff prefira não se envolver diretamente no assunto. Do ponto de vista do contribuinte, a questão importante é outra: o governo precisa mesmo de mais dinheiro para a saúde? E vale a pena acrescentar uma segunda pergunta: se a tributação aumentar, a administração federal será melhorada?
Não pode haver dúvida quanto a esses pontos. Em primeiro lugar, o governo federal deveria abster-se de lançar novos encargos sobre o contribuinte antes de um esforço honesto e persistente para aumentar a própria competência. A administração federal arrecada muito, gasta mal, exige pouco de seus quadros e deixa muito dinheiro ir pelo ralo. Nem sequer consegue cuidar do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), essa colcha de retalhos agitada como grande símbolo da política nacional de desenvolvimento. Desde o lançamento desse programa até o ano passado, o Tesouro só pagou 60,9% dos valores previstos no orçamento. Neste ano, o PAC 2 mal começou a ser realizado, porque a maior parte dos desembolsos correspondeu à liquidação de restos a pagar. Na gestão da saúde a inépcia é igualmente espantosa. Dos R$ 5,09 bilhões previstos para investimento neste ano, o governo só pagou R$ 1,44 bilhão até o fim de agosto, segundo tabela divulgada pela organização Contas Abertas.
Seria fácil multiplicar os exemplos de gestão ineficiente. Facílimo, também, seria apontar as muitas bandalheiras praticadas com dinheiro público, a pulverização de verbas por meio de emendas parlamentares de má qualidade e o enorme desperdício perpetrado por meio de convênios. Antes de pedir mais dinheiro ao contribuinte, a presidente Dilma Rousseff deveria passar a limpo o funcionamento do próprio governo. Que tal começar com a leitura do site do Tribunal de Contas e com o exame de algum material da Controladoria-Geral da União? Lá está o repertório do que o governo não pode e não deve fazer, mas faz. A presidente prometeu mais de uma vez, logo depois de eleita e também por ocasião da posse, dar atenção especial à qualidade do gasto e aos padrões de gestão. O primeiro ano de governo é um bom momento para isso.
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A doença financeira da saúde

José Serra
O Estado de S.Paulo, 08 de setembro de 2011

No próximo dia 13 de setembro, fará 11 anos a Emenda Constitucional n.º 29 (EC 29), que criou vinculações orçamentárias para a saúde. Na Câmara dos Deputados, o projeto passara com facilidade, apoiado por todos; entre os senadores, o percurso foi difícil, dada a pressão contrária de muitos governadores. A emenda deu certo: de lá para cá, os recursos reais da saúde aumentaram em termos absolutos e como fatia do PIB, embora isso se deva mais a Estados e municípios do que ao governo federal. A participação do Ministério da Saúde nos gastos do setor caiu de 53% para 47% no período, aumentando os encargos dos governos estaduais e municipais.
A EC 29 previa que se votasse, até 2004, uma lei complementar que a regulamentasse, mas o governo Lula evitou o assunto, precisamente para não aumentar sua fatia nas despesas do setor. Agora, o Congresso diz que vai votá-la até o fim deste mês.
Por que foi feita a EC 29?
Para o bem ou para o mal, a Constituição de 1988 acabou ampliando e reforçando as vinculações orçamentárias diretas e indiretas. Mas a saúde ficou de fora e, num mundo orçamentário rígido, virou colchão amortecedor de crises e apertos fiscais.
Tudo piorou quando, já no governo Collor, o Fundo de Investimento Social (Finsocial), que abastecia a saúde de recursos, foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), abrindo uma tremenda crise, só atenuada por socorro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Na época de Itamar Franco, a fatia da saúde nas receitas da Previdência foi extinta junto com o Inamps, de quem o Ministério da Saúde recebeu as unidades hospitalares e ambulatoriais.
Eu era ministro do Planejamento quando o titular da Saúde, Adib Jatene, tomou a iniciativa da criação da CPMF vinculada ao setor, mas já não estava lá quando ele conseguiu aprová-la em outubro de 1996. Adverti, então, que, sendo a receita prevista com a CPMF menor do que as despesas federais com saúde, o aumento dos recursos da área não era garantido, pois outras receitas que financiavam o ministério poderiam ser redirecionadas para outros gastos sociais. E isso aconteceu.
Quando, no início de 1998, o presidente Fernando Henrique convidou-me para assumir o Ministério da Saúde, acertamos promover algum mecanismo que defendesse o setor. Por isso, no ano seguinte, fizemos um substitutivo a um projeto do deputado Carlos Mosconi, economizando, assim, prazos de tramitação. A fim de evitar as incertezas de possíveis reformas tributárias, preferimos vincular recursos ao índice do PIB nominal - a cada ano, o orçamento federal para a saúde deveria ser reajustado, no mínimo, pela variação desse índice do ano anterior. Para os Estados e municípios, a vinculação fez-se às receitas líquidas: 12% e 15%, respectivamente, a serem atingidos em cinco anos.
Diga-se que, a partir da EC 29, a CPMF e a saúde se divorciaram. A obrigação do governo federal passou a ser a de cobrir o financiamento mínimo do setor, independentemente das origens dos recursos. Por isso, o sumiço da CPMF em 2008 não retirou recursos da saúde. No final de 2007, a fim de vencer a oposição do Senado à renovação do tributo, o governo Lula acenara, na undécima hora, com a possibilidade de destinar a receita da CPMF à saúde. Não deu certo.
Se fosse verdadeira a intenção de reforçar o setor, em vez tentar renovar a CPMF, o governo Lula poderia ter aprovado o projeto de lei complementar já citado, contendo um tributo só da saúde. Ou poderia ter destinado a ela parte do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), cujas alíquotas foram aumentadas, a fim de compensar a perda da CPMF. A receita do IOF subiu quatro vezes de 2007 até 2011, quando será de R$ 30 bilhões. Um terço disso teria elevado bastante os recursos federais para a saúde. Mas essa não foi a prioridade nem antes nem depois. Desde 2002, as despesas federais na área cresceram abaixo das receitas correntes.
O projeto de lei que está para ser votado na Câmara dos Deputados tem várias coisas positivas, entre elas, a que impede os governos de contabilizarem no item saúde gastos de segurança, alimentação, lixo, asfalto, etc. Com esse expediente, metade dos Estados, hoje, não cumpre a EC 29. Mas dois dispositivos financeiros merecem reparos. O projeto retira da base de cálculo da despesa mínima estadual para a saúde os recursos do Fundeb, da educação. Isso cortaria em R$ 5 bilhões os gastos obrigatórios dos Estados no setor! Paralelamente, cria-se a Contribuição Social para a Saúde (CSS), uma CPMF de 0,1%, que renderia uns R$ 14 bilhões/ano. Mas, desse total, 20% seriam descontados por conta da Desvinculação de Receitas da União (DRU). Assim, metade da CSS serviria aos Tesouros nacional e estaduais, a pretexto da saúde!
Note-se que, desde 2002, a carga tributária no Brasil cresceu em torno de três pontos do PIB; o gasto federal aumentou em 80% reais. Ao longo de 2011, a receita tributária federal cresceu três vezes mais do que o PIB. Será que as distorções de prioridades, o descaso sobre eficiência e redução de custos e os desperdícios e desvios têm sempre de ser compensados com aumento ainda maior de tributos?
A saúde precisa, sim, de mais recursos federais, e eles tinham de ter saído e devem sair das receitas existentes. Dentro do próprio setor há um mundo de possibilidades de redefinição de custos e prioridades, questões que saíram da sua agenda desde 2003.
E o que dizer sobre a qualidade dos gastos federais? Dois pequenos exemplos: cerca de R$ 700 milhões poderiam ser destinados à saúde com o simples cancelamento do projeto executivo do trem-bala, essa grande alucinação ferroviária; outro tanto poderia ser obtido cortando despesas com boa parte das ONGs e festas municipais, no âmbito do Turismo, item escabroso em desvio de recursos. E pode-se permitir, sim, que iguais montantes virem emendas para a saúde, de forma criteriosa e controlada. Em suma, trata-se de governar com prioridades claras, determinação e, é claro!, com rumos, sabendo-se o que se quer.

EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR DE SÃO PAULO

China: referencia incontornavel na América Latina?: um sintoma apenas, entre outros...

A transcrição do anúncio da conferência abaixo não tem qualquer objetivo propagandístico, do seu autor -- a quem considero equivocado em muitos aspectos, não só das relações externas da Argentina, mas da própria América Latina, em geral -- ou das instituições ou países envolvidos neste exercício acadêmico.
Visa apenas e tão somente demonstrar, mais uma vez -- se ainda fosse necessário --, com a China, mesmo sem manter uma diplomacia especialmente ativa na região, tornou-se a referência indispensável, obrigatória mesmo, das relações internacionais da América Latina, em especial ou essencialmente na economia, mais precisamente no comércio (dentro em pouco nos investimentos e na tecnologia também).
Ou seja, não é que a China esteja tentando conquistar os países da América Latina na base de uma campanha de promoção política ou diplomática, como podem ter feito, no passado, a Alemanha nazista nos anos 1930, e depois da Segunda Guerra os Estados Unidos, no que foi designado, acertadamente, como a "americanização da América Latina". Não, ela não está fazendo nada disso, além, claro, de instalar alguns institutos "Confúcio" aqui e ali, para o ensino do mandarim, mas de maneira muito ineficiente e praticamente sem efeitos práticos.
O que a China vem fazendo é muito mais sério: ela vem, pouco a pouco, conquistando os "corações e mentes", não dos cidadãos -- que muitas vezes compram produtos chineses não por bondade, atração ou simpatia pela China, mas simplesmente por serem mais baratos e de qualidade mediana, aceitável, por enquanto --, mas dos políticos e empresários em geral, por uma razão evidente: ela puxa os preços para cima, ao manter a demanda elevada, e permitindo o escoamento de tudo o que a América Latina produz -- e se trata essencialmente de matérias primas -- em quantidades progressivamente crescentes.
Por enquanto é no comércio, mais um pouco será nos investimentos, e dentro de alguns anos será também na tecnologia, sem falar do financiamento, que vem crescendo paralela e simultaneamente.
A China se torna, de locomotiva da América Latina, uma locomotiva do crescimento econômico mundial, algo que nunca ocorreu antes com esta rapidez de mudança, como se duas placas tectônicas da economia mundial se chocassem a uma velocidade não geológica, mas histórica, a 200 kms por hora...
A América Latina se torna dependente da China, como jamais o foi dos EUA, ou como ainda não é, mas vai ser.
A conferência abaixo confirma isso: todos os políticos latino-americanos torcem para que a China não deixe de comprar seus produtos, ao mesmo tempo que os empresários olham aterrorizados para o desaparecimento progressivo de seus nichos de mercados, ou de suas empresas, simplesmente.

Acho que os latino-americanos ainda vão sentir saudades dos bons tempos do velho imperialismo americano: ele, pelo menos, a despeito de "explorar" a região -- como acreditavam e ainda acreditam certos idiotas da academia -- deixavam algo em troca: um filminho de Hollywood, hamburguers, rock e outras coisas apreciadas. Os chineses chegam apenas para "raspar" os mercados, e não se pode nem dizer que algum latino-americano pretenda imitar modos, gestos, ideologia vindos da China.
Só posso desejar sorte a esses latino-americanos incrivelmente atrasados, não necessariamente materialmente, mas certamente mentalmente.
Alguns me acham pessimista ou negativo. Acho que sou apenas realista, e costumo antecipar, em dez anos, processos e movimentos inevitáveis. Isso porque leio a história, com recuo de alguns séculos. Recomendaria aos críticos anônimos deste blog que também lessem a história.
Alguns pretendem me dar lições. Respondo apenas que eles devem ler mais, estudar a história e observar atentamente a realidade, e, sobretudo, pensar...
Paulo Roberto de Almeida

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