sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Protegendo a Inteligencia Nacional: estrangeiros querem extingui-la...

Ufa! Ainda bem que o governo está sempre atento aos perigos que vêem de fora. Pode ser qualquer coisa: bens tangíveis e intangíveis.
Entre os primeiros se encontram essas porcarias de automóveis estrangeiros, que ademais de todos os seus acessórios e inovações, ainda têm a petulância, vejam só, de entrarem mais baratos que os carros nacionais. Entre os segundos, estão ideias malucas, totalmente incompatíveis com a segurança da inteligência nacional (e o nosso bem-estar, por tabela).
Perdão, quem disse essa tremenda ofensa ao orgulho nacional de que carros estrangeiros têm essa capacidade inaceitável de, mesmo vindo de longe, custarem mais barato do que os superiores (ainda que mal equipados) carros nacionais, não fui eu, mas o nosso inteligente Ministro da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior -- como é mesmo o nome dele? -- para quem essa concorrência desleal constitui um atentado à soberania nacional.
Imaginem se o governo, sempre atento ao nosso bem-estar, iria permitir esse crime contra o bem-estar dos brasileiros, sobretudo se esses brasileiros forem os donos das montadoras, e a valorosa classe de trabalhadores metalúrgicos sindicalizados.
Eu também acho que o governo precisa proteger a inteligência nacional de importações clandestinas e de ideias perigosas: imaginem vocês se algum economista imperialista começar a divulgar aqui ideias sobre o livre comércio, propostas de baixa taxação para estimular o consumo, abertura econômica, para estimular a concorrência e a inovação tecnológica, doutrinas altamente perniciosas para a tranquilidade intelectual dos brasileiros.
Imginem vocês se um desses economistas dissesse ao governo que, em lugar de aumentar o IPI dos carros em geral, ele abaixasse o IPI dos carros aqui fabricados? Que horror! Nosso consumidor ficaria tentando a comprar mais carros, aumentando as pressões inflacionárias e tudo o mais. Isso não pode, e está certo o governo que se preocupa também com a inflação. Ufa! Ainda bem que o governo anda lutando contra a inflação por todos os meios.
Por isso mesmo devemos todos apoiar o governo nas medidas que ele vem tomando para tornar mais caros os automóveis estrangeiros (e de tabela, também, os nacionais, mas isso é por puro acaso), devemos todos pedir que o governo vá além, e proíba também ideias perigosas como as acima expostas, ou que pelo menos adote um imposto de importação contra ideias fora do lugar, como essas propostas neoliberais que querem apenas impedir nosso desenvolvimento industrial.
Queremos mais Ha-Joon Chang e menos Adam Smith, mais Raul Prebisch e menos John Stuart Mill. Mais desenvolvimentismo, menos entrega do patrimônio nacional (o nosso mercado) aos estrangeiros barateiros (e sorrateiros).
Queremos mais economistas (e doutores de araque) da UniCamp, como o ministro da tal de C%T e "Inovation", que sabem como ninguém se precaver contra estrangeiros que só querem se aproveitar de nossas riquezas e vantagens (não comparativas, claro).
Por favor, ministro Mantega, ministro do MDIC (como é mesmo o nome dele?) e o tal da Unicamp, protejam a inteligência nacional, ela está em grave perigo de ser contaminada por ideias nefastas vindas do exterior, certamente de contrabando em carros importados....
Paulo Roberto de Almeida 



Governo eleva IPI e carro importado pode ficar até 28% mais caro


Montadoras terão de cumprir exigências de nacionalização e inovação para escapar do aumento de 30 pontos percentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Decisão afetará especialmente chineses e coreanos


Renata Veríssimo, Célia Froufe e Adriana Fernandes
Agência Estado, 15/09/2011 (19h04)

Brasília - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou nesta quinta-feira, 15, que elevará em 30 pontos porcentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis e caminhões para as montadores que não cumprirem os requisitos que estão sendo estabelecidos hoje pelo governo. As montadores terão que utilizar no mínimo 65% de conteúdo nacional ou regional (Mercosul), investirem em pesquisa e desenvolvimento e preencherem pelo menos 6 dentre 11 requisitos de investimentos.  

Entre eles, Mantega citou montagem do veículo no Brasil, estampagem, fabricação de motores, embreagens e câmbio. O ministro disse que todas as empresas, em princípio, estão habilitadas, mas o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) terá 60 dias para certificar as montadoras que cumprirem os requisitos e, assim, manterem o IPI no patamar atual. "Para as empresas que preencherem os requisitos não muda nada", disse Mantega. "É uma medida que garante a expansão dos investimentos no Brasil, o desenvolvimento tecnológico e a expansão da capacidade produtiva no Brasil", completou. Mantega disse que a medida vale até dezembro de 2012.
Disputa
Mantega disse ainda que a crise internacional tem reduzido o número de consumidores de veículos no mundo, levando as montadoras a trabalharem com capacidade ociosa, o que tem levado à uma disputa de mercados. "O Brasil tem conseguido manter as vendas elevadas. Mas, hoje, o consumo está sendo apropriado pelas importações que estão acontecendo no País. Há um desespero. O consumidor está sofrendo assédio do produto internacional", disse Mantega para justificar a adoção das medidas anunciadas hoje para o setor automotivo. "Nós corremos o risco de exportarmos emprego para outros países", completou.

Mantega disse que o governo ficou preocupado também com as notícias de que a indústria automotiva está aumentando os estoques nos pátios e dando férias coletivas. "Essas medidas vão dar condições para que a indústria que gera emprego e inovação tecnológica continue se expandindo. O mercado brasileiro deve ser usufruído pelas empresas brasileiras e não pelos importados", afirmou Mantega.

Indústria externa de automóveis terá que investir, diz Mercadante

Segundo o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação novo regime não impede a entrada de importações, mas gera condições para aumentar competitividade do produtor brasileiro

15 de setembro de 2011 | 19h 17

Renata Veríssimo, Célia Froufe e Adriana Fernandes, da Agência Estado
BRASÍLIA - O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aloizio Mercadante, afirmou nesta quinta-feira, 15, que o novo regime automotivo não impede a entrada de importações, mas gera as condições para que o produto brasileiro seja competitivo em relação aos importados. Ainda segundo ele, as empresas internacionais terão que investir se quiserem vir para o Brasil.
Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Fernando Pimentel, as medidas visam atrair empresas para produzirem no Brasil e não apenas para importarem.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, completou que as montadoras que estão fora do País poderão vir investir no Brasil e se habilitarem ao novo regime. Além disso, Mantega disse que o governo espera que as empresas já instaladas no Brasil continuem investindo e expandindo a produção.
Mercadante afirmou que elevação do IPI é medida de defesa dos empregos dos brasileiros e que o governo não ficará assistindo o "comprometimento da base produtiva manufatureira" nacional. Com a medida, destacou ele, o governo está aumentando o custo de carros produzidos em outros países e preservando o emprego no Brasil. O ministro afirmou que é um direito do consumidor comprar um carro importado, mas isso não pode ser feito às custas de demissão de trabalhadores e aumento da fila do desemprego.
Mercadante afirmou que o aumento do IPI também é uma importante sinalização para o mercado de automóveis no mundo. Quem quiser se aproveitar do patrimônio do mercado consumidor brasileiro, terá que vir para o Brasil com tecnologia. "Mesmo porque, lá fora não tem muitas opções", ressaltou Mercadante. Ele disse que a medida é criativa nesse cenário atual internacional adverso. O ministro informou que a ação já contempla um "pequeno compromisso" das empresas em pesquisa e desenvolvimento.
"Vamos aprofundar. Não é o fim do caminho. Mas é um passo decisivo para nova trajetória", afirmou.
(Texto atualizado às 19h48)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O "debate" sobre o voto distrital: vigaristas se mobilizam contra...

Como o articulista abaixo, não creio que o voto distrital seja a solução para todas as patifarias da política brasileira, mas ele já permitiria corrigir algumas. Será por isso que tantos patifes se mobilizam contra?
E já tem até gente articulando "análises sociológicas" sobre o assunto. Como diria alguém, os sociólogos são uns "marturbadores sociais", e eu não tenho nenhum problema em dizer isto pois sou sociólogo...


Reinaldo Azevedo, 15/09/2011

Caras e caros, a campanha em favor do voto distrital mal começou. Conseguiram-se, até o momento em que escrevo, 74.512 assinaturas. O objetivo é chegar a 100 mil. Quanto antes se conseguisse implementar a mudança, melhor (o post abaixo trata de assunto correlato), mas não há uma data-limite, depois da qual ou se tem a vitória, ou, então, se desiste. Esta é uma batalha longa, de fôlego. Mesmo no começo, a idéia já mobiliza adversários poderosos, como vocês verão. Aí ao lado, há o link para a página “Eu Voto Distrital”. A qualidade de quem tenta impedir até mesmo o debate revela muita coisa.
Em Dois Córregos, a gente diz do falso sonso: “Esse, de tonto, só tem o andado”. Não diria o mesmo do “sociólogo” Marcos Coimbra, dono do Instituto Vox Populi, que foi tirado da quase falência pelo PT. Nunca o vi caminhar porque não freqüentamos os mesmos ambientes. Mas se pode afirmar com certeza: de tonto, ele só tem a cara. Esse sujeito emergiu no cenário político como filho do diplomata Marcos Antonio de Salvo Coimba, que foi secretário-geral da Presidência do governo de Fernando Collor, de quem era cunhado. Embora devam ter quase a mesma idade, o filhote de Coimbrão era, assim, uma espécie de sobrinho postiço do presidente impichado. Foi ali que ele despontou para o estrelato.
O “sociólogo” é um homem de muitas convicções, todas sempre bem-remuneradas. Na esfera federal, por exemplo, ele é petista. Em Minas, ele é tucano. E está aberto a propostas nas demais 26 unidades da federação. Não é que ele resolveu sair atirando contra o voto distrital? A exemplo do que fazem muitos vigaristas intelectuais quando não têm argumentos, optou por botar uma pecha no sistema: “É coisa da direita”. Até outro dia, isso bastava para silenciar o debate. Aos poucos, muita gente vai percebendo o truque porque começou a se dar conta de quem estava acusando. “Se há tantos canalhas contra a direita, então ela não deve ser tão má assim”, já começam a desconfiar alguns. É, vai ver não é… “Se há tantos ladrões atacando a direita, vai ver ela não é tão má assim”. É, vai ver não é…
Digamos que por “direita” se tome  o conceito boçal, sendo comum na esquerda: reúne conservadores, que repudiam as mudanças e preferem um sistema que exclua o povo das decisões. Muito bem! Coimbra cometeu um artigo contra o voto distrital. O primeiro parágrafo é este (em vermelho):

Com impressionante velocidade, a direita brasileira se descobriu favorável ao voto distrital (desde criancinha). Sem que exista qualquer motivo lógico que explique o porquê, políticos, intelectuais, empresários e jornalistas conservadores se encantaram com ele e começaram, em coro, a defendê-lo. Ao mesmo tempo, passaram a espinafrar o voto proporcional, que faz parte das regras de nosso sistema político desde o Código Eleitoral de 1932.

Huuummm… É mentira! Discute-se o voto distrital no Brasil desde a Constituinte de 1988. Quando se fez o plebiscito do Parlamentarismo, a suposição era a de que se implantaria, quando menos, o modelo misto. O debate é antigo e contava e conta com a simpatia de muitos políticos mais à esquerda no espectro ideológico. Eu não acredito, com sólidos motivos (já falo a respeito), nem nas pesquisas de Coimbra e não teria razão para acreditar na sua memória, não é mesmo? Quer dizer que o “sobrinho” do Collor agora virou um “progressista”, um “esquerdista”, “desde criancinha”? Para um neomudancista e antidireitista, Coimbra argumenta com a elegância de um ganso se fingindo de cisne: se o voto proporcional está aí desde 1932, então deve ser uma coisa boa, é isso? Os eventos recentes da política brasileira e o modo como se forma a maioria no Congresso falam por si mesmos, certo? Mas sigamos com ele.

Em nenhum lugar do mundo havíamos visto coisa parecida. A argumentação em favor do voto distrital nunca teve cor ideológica, nunca foi bandeira da direita (ou da esquerda).

Seria só uma bobagem não estivesse ele cumprindo uma tarefa. Digamos que o debate sobre o voto distrital estivesse mesmo sendo levado adiante “pela direita”. Coimbra, que o combate, fala, então, em nome de quem ou do quê? De resto, fosse mesmo coisa da direita, o que é mentira, ela não teria o direito de se expressar? O que vem em seguida é sofrível, mas merece ser exposto para que se tenha noção da qualidade de alguns dos adversários do voto distrital.

A discussão sobre suas vantagens e desvantagens sempre permaneceu no plano técnico. Quem tem um mínimo de informação sobre o assunto sabe que não há sistema eleitoral integralmente bom ou ruim. Todos têm aspectos positivos e negativos. Sabe, também, que faz pouco sentido falar em voto distrital no abstrato, assim como de voto proporcional puro. Cada país tem seu sistema, com coloração e particularidades únicas. Há tantos sistemas de voto distrital (e de voto proporcional) quantos países que o adotam.
Outra mentira grotesca. Ninguém defende o voto distrital como a cura de TODOS os males. Ele é uma resposta para ALGUNS dos males da política, notadamente o descolamento entre representantes e representados e a transformação do Parlamento num ajuntamento de celebridades, de sem-votos e de porta-vozes de corporações. Aos poucos, o Congresso brasileiro deixa de encarnar a vontade das pessoas para defender segmentos organizados. O cidadão só vale alguma coisa se estiver ligado a um grupo de pressão. Mais: cairia brutalmente o custo das campanhas eleitorais. É evidente que todos os sistemas têm defeitos — eu mesmo já apontei aqui alguns do voto distrital. A questão é saber qual reúne mais qualidades e qual poderia aproximar mais eleitores e eleitos. Coimbra não gosta disso. Acha coisa “de direita”.

Existem democracias plenamente funcionais e bem-sucedidas com voto distrital, e (muitas) outras com as diversas formas possíveis de voto proporcional. Aliás, em termos puramente quantitativos, a maioria dos países democráticos do mundo tem algum tipo de voto proporcional.
É só a embromação da obviedade. Como eu provo? Invertam o que ele disse, e dá na mesma: “A maioria dos países democráticos do mundo tem algum tipo de voto distrital”. Tem? Claro que sim! Qualquer república federativa, cujo Parlamento é formado por representantes das partes que a compõem, adota uma forma de distritalismo, ainda que, dentro dessas unidades, o voto seja proporcional. Passaram a tarefa ao Coimbrinha, e ele esqueceu de estudar o ponto. Deve ter sido um mau aluno, do tipo preguiçoso. Escolheu o caminho mais fácil: “É coisa da direita”. Huuummm… E a reforma política do PT, que Coimbra deve defender, é coisa de Dirceu! Aliás, este pode ser um confronto interessante: pedir aos brasileiros que escolham a direita ou o Zé Dirceu. Mais um pouco do “sobrinho” do impeachment.

É compreensível que a campanha que a direita brasileira está fazendo em favor do voto distrital não apresente os ponderáveis argumentos que existem contra ele. Seus responsáveis têm todo o direito de subtrair da opinião pública o que é contrário a suas preferências. Afinal, na guerra ideológica, o que menos importa são os fatos. Não é o mesmo que se pode dizer de quem, na mídia, deveria se ocupar do jornalismo. Chega a ser lamentável que veículos de informação assumam função de pura desinformação.
Eu, por exemplo, já apresentei os “ponderáveis argumentos” críticos ao voto distrital. Por que Coimbra não faz o que ele próprio recomenda e apresenta os “ponderáveis argumentos” críticos ao voto proporcional? Como estafeta do petismo, Coimbra também critica “a mídia”, acusando um inexistente engajamento em favor do voto distrital. Isso é patrulha de encomenda. É para mobilizar as franjas do petismo nas redações. O partido lhe passou uma tarefa. Vou pular um trecho do artigo que nada quer dizer. Vamos ao parágrafo em que aparece o patrão.
(…)
A direita brasileira, através de seus núcleos de pensamento estratégico e intelectuais, quer fazer com que o país acredite que o PT e, por extensão, o governo (ou o que ela chama de “lulopetismo”) são a favor do sistema de representação proporcional porque assim se perpetuariam no poder. Quer, portanto, que “as pessoas de bem” se tornem defensoras do voto distrital, assegurando-as de que só com ele é possível simplificar as eleições, aumentar a responsabilidade do eleito, a vigilância do eleitor, acabar com a corrupção.

Ele quis escrever “assegurando-lhes”. O “assegurando-as” é coisa de analfabeto ilustrado. Sabem como é a convivência… Lula está pensando em convocar manifestações da UNE, da CUT e dos “movimentos sociais” em favor da proposta de reforma política do PT, que defende uma espécie de radicalização do voto proporcional, num modelo ainda mais perverso do que o de agora. Não pára por aí: quer também assaltar o nosso bolso com o financiamento público das campanhas, que passaria a conviver com o privado, num modelo misto. O dinheiro seria distribuído, claro!, seguindo o tamanho que os partidos tem hoje. Seria isso um esforço para perpetuar o PT no poder?

Olhem quem está falando
Coimbra? Os adversários que o voto distrital está arrumando depõem em favor da sua qualidade. Três dias antes da disputa do primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, o “sociólogo”, com toda a sua ciência, afirmou que Dilma Rousseff venceria no primeiro turno com 12 pontos de vantagem sobre a soma dos votos dos adversários. Ela ficou com 46,91% dos votos — um errinho de mais de 15 pontos percentuais!
Dado esse desempenho, outro qualquer mudaria de profissão ou se esconderia debaixo da cama. Mas Coimbra não é pago para acertar. Há certas profissões em que errar rende muito mais. Mas saibam os senhores que Coimbra não tem um defeito: ele não é de direita! De jeito nenhum! Que alívio!
Agora vocês já sabem: Coimbra é contra! Assim, para acessar a página “Eu Voto Distrital, clique aqui.

Pequena história da China clássica - Harry Judge

Tempos atrás, preparando-me para partir para a China, li vários livros sobre esse fascinante país, postando diversas matérias num blog que chamei de Shanghai Express.
Esqueci de muitas dessas postagens, mas sou ocasionalmente relembrado de algumas delas, quando alguém entra, lê e comenta, como ocorreu com essa tradução de partes de um livro tradicional sobre a história da China, que aproveito para transcrever abaixo.
Curiosa é a história do imperador que tinha 3 mil (repito: TRÊS MIL)  concubinas. Como é que alguém consegue tere três mil concubinas?: como é que ele arrumava tempo para contentar todas? Talvez tenha sido por isso que foi traído por uma delas (insatisfeita, certamente) que o mandou assassinar. Melhor ficar só com uma... já dá trabalho demais...
Paulo Roberto de Almeida

Pequena historia da China

Adaptado a partir de:

Harry Judge (ed.),
World History, from earliest times to 1800 (vol. 3)
Oxford: Oxford University Press, Oxford Illustrated Encyclopedia, 1988

p.73, China
Possui uma história registrada começando aproximadamente 4 mil anos atrás, com os Shang que se estabeleceram no vale do Huang He (Rio Amarelo).
Sob os Zhou orientais, a partir do sexto século AC, Confucio e Mencio formularam conceitos que se tornaram patrimônio da sociedade chinesa. O taoismo apareceu no terceiro século AC.
Gradualmente, a cultura chinesa se expandiu a partir do vale do Huang He. Uma forma de escrita com caracteres representando a forma das coisas mais do que sons -- estabelecida por Shi Huangdi, o primeiro senhor de uma China unificada, para ser escrita de forma unificada -- uniu um povo dividido pela geografia e por numerosos dialetos.
A partir dos Qin, o conceito de um império unificado prevaleceu, sobrevivendo períodos de fragmentação e dominação por dinastias não-chinesas, como os Yuan. Sob dinastias fortes como a dos Han e dos Tang, o poder da China se estendeu longe em direção do Ocidente, até o Turquestão, e do Sul, no Anan. A China exerceu uma poderosa influência em vizinhos, como os da Coréia e do Anan. Invasores bárbaros e dinastias estrangeiras habitualmente adotaram as tradições culturais chinesas,
As idéias do Budismo começaram a alcançar a China em torno do primeio século AD e foram progressivamente transformadas para ser assimiladas na cultura chinesa. O povo chinês, demonstrando notável inventividade, estava à frente do Ocidente em tecnologia até aproximadamente o fim da dinastia Song. Entretanto, depois da conquista Mongol o país fechou-se em si mesmo. O aprendizado, altamente valorizado desde tempos imemoriais, tornou-se prisioneiro de um estudo estereotipado dos clássicos confucianos, posto que o sucesso nos exames baseados no conhecimento dos clássicos era o meio de promoção no serviço público. Oportunamente, o estudo dos clássicos teve uma influência intelectual amortecedora.
Através da história, a China, o Império do Meio, como era chamado pelos chineses, via-se a si mesmo como superior a todos os outros povos -- uma visão partilhada pelos filósofos do Iluminismo. Os países ocidentais tentaram estabelecer vínculos comerciais com a dinastia Qin, com pouco sucesso porém. Com o enfraquecimento do poder da dinastia Qin, no final do século 18, a pressão ocidental cresceu, levando ao envolvimento direto dos ocidentais na China no século 19.

p. 333, Song
Dinastia Song (Song setentrional, 960-1126; Song meridional, 1127-1279), uma dinastia que unificou boa parte da China depois da fragmentação sucessiva à dinastia Tang. Ela nunca dominou toda a China, entretanto -- o noroeste era um reino Tibetano, e no nordeste estavam os Liao, a quem os Song pagavam tributo em seda.
Em 1125, os Jin expulsaram os Liao. Em 1125-26 cavaleiros Jin assaltaram Kaifeng, capital setentrional dos Song, e levaram o imperador e 3 mil reféns cativos na Mandchuria. Um príncipe Song, então, estabeleceu uma corte em Hangzhou. Esperando retomar o norte, ele a batizou de Xingzai (Capital Temporária).
A China meridional tornou-se o coração do império.
Em 1276, Kublai Khan capturou Hangzhou. Dois príncipes pequenos escaparam, mas quando o último sobrvivente afogou-se perto de Hong Kong, enquanto tentava escapar de uma frota mongol, toda a China, pela primeira vez, foi dominada por um poder não-chinês.
O domínio Song da tecnologia, superior ao da Europa ocidental, incluía a fabricação de armas e bombas, construção naval, o uso da bússola e da fabricação de relógios. Uma forma de vacinação (varíola) era praticada.
Também foi um período de grande sofisticação na literatura, na pintura e na cerâmica, e Hangzhou tornou-se o centro artístico da China.

p. 349, Tang
Dinastia chinesa (618-907) fundada pelo oficial Sui Li Yuan, quem primeiro estabeleceu sua dominação na China com tropas nômades comandadas por seu filho, que depois tornou-se o segundo imperador Tang, Taizong. A unificação da China começada pelos Sui estendeu-se. Exércitos chineses penetraram na Ásia centrao, na Coréia e no Anan. Até sua derrota contra os árabes em 751, perto do rio Talas, no Turquestão ocidental, os Tang dominaram o maior império do mundo e seus navios viajavam tão longe quanto Aden.
A imprensa foi inventada, e a pólvora manufaturada para artefatos de fogo.
Estados vizinhos, notadamente Coréia e o Japão, desejavam fazer de suas pátrias réplicas da China.
Depois do reino de Minghuang, e da rebelião abortada de An Lushan, em 755, começou a decadência. Invasões nômades e revoltas levaram generais ao poder, que controlavam forças regionais. Quando o último imperador abdicou, seguiu-se a fragmentação sob dinastias efêmeras.

Sob os Tang, a China foi inicialmente um Estado altamente centralizado. Um sistema eficiente de canais aumentou o transporte fluvial, e um bom sistema de estradas ligava as capitais proviincias com a capital, Xi'an (Chang'an), que era, provavelmente, a maior e mais cosmopolita cidade do mundo no século 7. Situando-se no final da rota da seda, ela atraia mercadores da Pérsia, Arábia, e de outras partes da Ásia. Os Tang foram especialmente notáveis pela escultura e pela pintura.

p. 349, Taoismo
Um dos maiores sistemas religiosos e filosóficos da China (o outro sendo o confucianismo), fundado tradicionalmente por Laotse, no sexto século AC. O conceito central e o objetivo é o tao, um termo elusivo denotando a força inerente da natureza e, por extensão, o código de comportamento que está em harmonia com a ordem natural.
Sua escritura mais sagrada é o Daodejing (Tao Te Ching), também chamado Laotse), atribuído a Laotse.
Um culto popular surgiu posteriomente. Numerosos deuses, dos quais o imperador de Jade tornou-se o chefe, foram vinculados a ele. A ele foram agregados monastérios e sacerdotes. Associou-se com práticas mágicas e inpirou rebeldes -- por exemplo, os Turbantes Amarelos, sob os Han.
Alquimistas taoistas tentaram transformar cinábrio em cobre e descobriram o magnetismo e como fazer a pólvora.
Oportunamente, o Taoismo e algumas seitas budistas tornaram-se praticamente indiferenciados. O Taoismo popular tomou de empréstimo o conceito de reencarnação dos budistas, mas o objetivo final não eera o nirvana, mas tornar-se "imortal".
O culto foi por vezes favorecido, em outros tempos rejeitado, pelos mandatários chineses.

p. 344, Sui
A dinastia Sui (581-618), que unificou a China depois de três séculos de fragmentação territorial, foi fundada por Yang Qien. Os primeiros dois imperadores empreenderam campanhas contra Taiwan, Anan, Champa e Srivijaya.
A Grande Muralha foi reconstruída seguindo um alinhamento diferente, e foram cavados canais, alguns que integrariam depois o Grande Canal.
Derrotas na Coréia e demandas nunca terminadas por trabalhos levaram a rebeliões. O segundo imperador fugiu; traído por uma de suas 3 mil concubinas, ele foi estrangulado.
Quando um general ambicioso Li Yuan, fundandor da dinastia Tang, tomou Chang'an (Xi'an), o último imperador abdicou.
A despeito de ter reinado por um curto período, essa dinastia estabeleceu um governo central forte, e contribuiu para o desenvolvimento da dinastia Tang.

Revista Política Externa, 20 anos: longa vida a uma excelente revista

Assisti, se ouso dizer, ao nascimento da revista Política Externa, nos idos de 1992. Lembro-me de ter comparecido a uma sessão na Câmara dos Deputados onde o acadêmico -- que depois seria chanceler em dois governos, o de Collor e o de FHC, sempre por períodos relativamente curtos, e também representante do Brasil em Genebra -- Celso Lafer apresentou a revista.
Motivado por esse bom exemplo de iniciativa acadêmica -- num momento em que eu também estava "transferindo" a Revista Brasileira de Política Internacional do Rio de Janeiro para Brasília, escrevi um artigo sobre as revistas brasileiras de relações internacionais, que foi publicado num dos números subsequentes da Política Externa, este aqui: 


304. “Revistas Brasileiras de Política Externa: um balanço de quatro décadas”, Brasília: 27 novembro 1992, 13 pp. Ensaio sobre as revistas que cobriram temas de política externa e relações internacionais do Brasil. Encaminhado para a revista Política Externa. Aceito para publicação em 15.03.93, com duas pequenas modificações sugeridas por parecerista. Versão revista em 15.03.93. Publicado na Política Externa (São Paulo: Vol. II, nº 1, junho-agosto 1993, pp. 162-169). Trabalhos Publicados nº 134.


Comprei o número mais recente da revista PE, que figura como vol. 20, n. 1 (jun/jul/ago 2011), com excelentes artigos sobre a primavera (!?) árabe sobre os 20 anos do Mercosul e outros temas, ademais de resenhas sobre livros que eu já li e sobre os quais também já produzi resenhas: Edgard Telles Ribeiro (O Punho e a Renda) e Luis Claudio Villafane Gomes Santos (O Dia em que Adiaram o Carnaval).


Em homenagem à revista Política Externa, transcrevo abaixo meu artigo referido acima.



Revistas  Brasileiras  de  Política  Externa:
um balanço preliminar de quatro décadas

Paulo Roberto de Almeida
Política Externa
(São Paulo: Vol. II, nº 1, junho-agosto 1993, pp. 162-169)

Nos países dotados de um establishment acadêmico fazendo juz a essa caracterização, as revistas especializadas em temas de relações internacionais desempenham um importante papel no debate intelectual e na informação de qualidade sobre a agenda internacional em geral e sobre a política externa de cada país em particular. No Brasil, em que pese o avanço já alcançado por determinadas “ilhas de excelência” da instituição universitária, esse tipo de revista costuma ser raro e os exemplos atualmente existentes podem provavelmente ser contados nos dedos de uma só mão.
A revista Política Externa, cujo lançamento ocorreu em junho de 1992, é o mais recente marco de uma longa série de empreendimentos nesse terreno aparentemente pouco explorado da produção acadêmica e editorial do País. Ela já passou a ocupar um espaço importante no âmbito da reflexão universitária e profissional sobre a inserção internacional do Brasil contemporâneo, bem como sobre as transformações em curso na ordem mundial, inclusive facilitando a um público mais amplo o acesso a artigos relevantes publicados na imprensa especializada internacional, sobretudo materiais de prestigiosos veículos como a Foreign Affairs ou a The New York Review of Books. Em colóquio por ocasião de seu lançamento no Rio de Janeiro, ela foi definida, pelo Prof. Luciano Martins, membro de seu Conselho Editorial, como
“uma revista aberta a todo debate, (...) uma revista que se pretende pluralista, cujo único objetivo é o de contribuir para a informação e para a reflexão no Brasil sobre o que está se passando no plano internacional” (nº 2, p. 36).

Um Terreno (Pouco) Frequentado
Deve-se no entanto reconhecer que ela não está só nessa tarefa nem labora em campo virgem: algumas outras revistas acadêmicas, mais ou menos especializadas nessas áreas, dedicam-se igualmente a “pensar” as relações exteriores do País ou o complexo quadro das relações internacionais num cenário marcado por profundas mutações de natureza econômica e política. Algumas são relativamente recentes, como a Contexto Internacional (Rio de Janeiro) ou a Política e Estratégia (São Paulo), mas uma pioneira dos anos 50 sobrevive ainda, embora com dificuldades: a Revista Brasileira de Política Internacional, lançada no Rio de Janeiro em 1958 e convertida, nos últimos anos, de quadrimestral em semestral.
Muitas outras surgiram e desapareceram nos últimos 40 anos, ao ritmo das dificuldades que costumam vitimar a maior parte desses empreendimentos acadêmicos e editoriais: escassez de recursos, produção e circulação amadorísticas e baixa densidade da “oferta” nacional e do próprio “mercado consulidor” nessa área. Uma rápida avaliação quantitativa do cenário brasileiro revelaria, precisamente, um processo de “seleção natural” particularmente cruel com es universo restrito de publicações especializadas,  com o desabrochar e a extinção de vários espécimes dessa renitente família.
Sem ter a pretensão de ser completo ou aprofundado, o presente levantamento intenta precisamente “passar em revista” as revistas de política externa e de relações internacionais publicadas no Brasil nas últimas quatro décadas, sumarizando tão simplesmente as iniciativas editoriais e seu contexto político e intelectual, e remetendo a uma ocasião ulterior a apreciação qualitativa dessas publicações e seu papel no debate intelectual em torno dessas questões. Foram deliberadamente deixadas de lado, por eu evidente profissionalismo e claro comprometimento com a Weltanschauung de suas respectivas corporações, as revistas de cunho militar (A Defesa Nacional, Revista da Armada etc) que, embora contendo uma ocasional ou extensa cobertura de temas internacionais, o fazem numa ótica especificamente instrumental ou ideológica, sem a diversidade doutrinária ou metodológica das revistas “civis”. Foram contudo incluidas as revistas não exclusivamente de política externa, já que muitas contribuições importantes ao estudo das relações internacionais e ao debate sobre a política externa brasileira aparecerem originalmente em revistas não especializadas na área internacional.
Ao cabo deste primeiro balanço, necessariamente incompleto, uma conclusão prosaica talvez se imponha: se o campo da “política externa” é muito pouco cultivado em nosso país, provavelmente não existem condições efetivas para uma multiplicação de iniciativas nesse terreno, em vista não só da exiguidade da produção acadêmica de qualidade em relações internacionais, como também das idiossincrasias propriamente umbilicais de um país como o Brasil, a forte vocação autárquica e (inclusive por razões linguísticas) com persistentes tendências ao isolamento.
Cabe sublinhar, antes de mais nada, a parcimônia do universo pesquisado, tanto mais restrito quanto mais estrito o critério seletivo adotado: na verdade, as revistas brasileiras de política externa ou internacional, consideradas stricto sensu, perfazem uma amostragem limitada se tanto a meia dezena de exemplos, aos quais poderiam ser agregadas umas quantas revistas de cultura geral com forte orientação temática para os problemas internacionais. Os intelectuais ou jornalistas de gabarito que se dedicaram a essa problemática — seja de um ponto de vista conceitual, seja com preocupações mais diretamente pragmáticas — tiveram invariavelmente de fazer apelo, numa ou noutra ocasião, a revistas de caráter propriamente político ou sociológico, quando não a periódicos da área econômica ou de orientação genericamente humanista. Daí a razão de também termos alinhado, ao lado dos títulos propriamente “internacionais”, alguns exemplos de revistas de cunho geral ou cobrindo mais frequentemente temas de política interna, inclusive porque um balanço de natureza qualitativa não poderia prescindir, se fosse o caso, da consulta a um universo mais amplo de periódicos.

As iniciativas pioneiras
O Brasil do pós-Segunda Guerra é um “país essencialmente agrário”, como então se dizia, com uma rarefeita população universitária, mas também intensamente preocupado com o seu papel num mundo em reconstrução. A participação no teatro de guerra europeu, a contribuição das missões universitárias européias, quando não a presença de intelectuais e de refugiados europeus em nossas principais capitais permitem a emergência de um ambiente cosmopolita ainda incipiente mas receptivo à discussão de temas de política internacional.
Inexistia, contudo, um veículo intelectual suscetível de canalizar o debate em curso — dominado já pelo clima de guerra fria e pela situação de relativa dependência dos Estados Unidos — ou de abrigar as primeiras reflexões de caráter acadêmico que começavam a ser produzidas sobre nossa inserção internacional naquele cenário bipolarizado. Curiosamente, algumas boas fontes para a pesquisa sobre os principais problemas “internacionais” que preocupavam nossas lideranças politicas e intelectuais podem ser encontradas em revistas da área econômica.
Aqui se destaca Conjuntura Econômica, da Fundação Getúlio Vargas/RJ, que desde seu primeiro número (novembro de 1947) dedica grande parte de sua atenção a questões de “comércio exterior”, numa visão bem ampla desse conceito. Através de sua seção de “Estudos Especiais”, ela passa a divulgar trabalhos de grande importância para uma análise das relações econômicas internacionais do Brasil — vide, por exemplo, “A Situação Monetária Internacional e a Paridade do Cruzeiro” (Ano II, nº 8, Agosto de 1948, pp. 20-23) ou “Entrada e Saida de Capitais em 1947” (Ano II, nº 9, Setembro de 1948, pp. 23-31) — ou da agenda econômica mundial: são inúmeros os textos sobre o Plano Marshall e suas implicações para a América Latina.
Sua “irmã gêmea” teórica, a Revista Brasileira de Economia (FGV/RJ, setembro de 1947), desempenhou um papel igualmente importante na discussão dos grandes problemas do desenvolvimento econômico em escala comparativa, com a divulgação de textos do Secretariado das Nações Unidas ou de eminentes especialistas internacionais que regularmente visitavam o Brasil a convite da Escola de Economia: Gottfried Haberler, Jacob Viner, Raul Prebish e muitos outros mais. É também nas páginas de outra revista econômica, Estudos Econômicos (da Federação do Comércio do RJ), que são publicados alguns bons artigos — de Rômulo de Almeida, entre outros — sobre essa mesma problemática das relações econômicas externas do Brasil.
Mas, foi apenas com o surgimento dos Cadernos do Nosso Tempo, do Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (IBESP/RJ), que tem início, entre nós, o debate aprofundado dos temas de política internacional. Embora dedicada a “compreender o nosso tempo na perspectiva do Brasil e (...) o Brasil na perspectiva do nosso tempo”, como afirmava a apresentação de seu número inaugural (Outubro-Dezembro de 1953), a revista o faz de um ângulo propriamente planetário, com mais de 2/3 de suas páginas ocupados pelos principais problemas da conjuntura internacional: Hélio Jaguaribe já era presença constante em seus números, com matérias pioneiras (e desafiadoras) sobre a integração Brasil-Argentina.

RBPI: a revista decana
No final do segundo Governo Vargas, marcado pelos grandes debates entre “nacionalistas” e “entreguistas”, se constituiu, com forte participação de intelectuais cosmopolitas e de vários diplomatas, o “Instituto Brasileiro de Relações Internacionais”, voltado, segundo seus estatutos (aprovados por assembléia reunida no Palácio Itamaraty, em 27.01.54), para a promoção e o incentivo de estudos sobre problemas internacionais, “especialmente os de interesse para o Brasil”. É o IBRI quem vai impulsionar, a partir de março de 1958, o mais antigo empreendimento editorial “internacionalista” ainda existente no Brasil: a Revista Brasileira de Política Internacional, fundada precisamente com o propósito de difundir matérias e documentos vinculados à política internacional, bem como às relações internacionais do Brasil e ao próprio pensamento e prática brasileira em temas de política exterior. Um balanço ainda que sumário de suas realizações indicaria que ela cumpriu galhardamente esse papel, graças, quase que exclusivamente, ao extraordinário esforço individual de seu Diretor por longos anos, Cleantho de Paiva Leite, recentemente falecido.
Pioneira em sua época (se excluírmos os já citados Cadernos do Nosso Tempo, de existência meteórica em meados dos anos 50), a RBPI preencheu e ainda preenche uma lacuna inestimável em nossa cultura política e acadêmica no terreno que é o seu: a divulgação oportuna — atualmente bem menos atualizada — de todos os problemas que ocupam os profissionais da diplomacia brasileira. Numa época em que o registro dos eventos internacionais interessando o Brasil era feito de maneira precária pelo Itamaraty (por meio dos “Relatórios” anuais, já que a Resenha de Política Exterior só vem a surgir quase duas décadas depois), a RBPI compilava e publicava os textos e declarações oficiais produzidos pela burocracia diplomática, bem como os resultados da mais importantes reuniões internacionais de que o Brasil tivesse tomado parte. Figuram também em suas páginas artigos que já podem ser classificados como “históricos”, sobre as origens da política antártica brasileira, por exemplo, ou sobre os primeiros passos do Brasil no GATT e nas organizações econômicas regionais (CEPAL e ALALC).
Embora praticamente solitária num universo bastante restrito de periódicos especializados na temática internacional, é bem verdade que a RBPI chegou a ser concorrenciada em algumas poucas oportunidades por outras revistas momentânea ou ocasionalmente voltadas para temas correlatos, como a influente Revista Brasiliense (São Paulo) ou a combativa Civilização Brasileira (Rio de Janeiro). Concorrência efetiva, realmente, foi exercida, mais diretamente, apenas pela revista Política Externa Independente (Rio de Janeiro). Embora ela tenha atraido fortemente a atenção de políticos, intelectuais e diplomatas brasileiros engajados numa postura internacional não-alinhada, ela teve, no entanto, vida muito breve: três densos números entre maio de 1965 e janeiro de 1966. O regime militar então inaugurado caracterizava-se, precisamente, em sua primeira fase, por um alinhamento exemplar à política norte-americana, condenando a PEI (e também a “PEI” prática) ao purgatório dos empreendimentos sem avenir.
Nessa mesma época, José Honório Rodrigues, eleito Diretor-Executivo do IBRI, encontrou a RBPI em atraso de vários números — uma fatalidade que parece atingir a todas as revistas acadêmicas no Brasil — e se decide pela publicação de um índice temático dos 6 primeiros volumes (23 números). Ele também pretendia publicar vários números especiais, dedicados a temas como desarmamento, descolonização, comércio internacional de produtos de base (estávamos às vésperas da Iª UNCTAD) e política cultural internacional, uma questão que sempre o atraiu.

A Academia abre-se ao Mundo
Os anos 60 e 70, a despeito da repressão política e do controle ideológico patrocinados pelo regime militar, foram extremamente produtivos em matéria de debates acadêmicos e intelectuais. Papel protagônico nesse fermento político teve a Revista Civilização Brasileira, que abrigou inúmeros editoriais e quantidade apreciável de artigos de qualidade sobre temas internacionais (eram os anos da guerra do Vietnã): cite-se jornalistas como Otto Maria Carpeaux, um exemplo entre muitos outros colaboradores de grande peso intelectual.
Desenvolvem-se também, no período militar, núcleos de pesquisa acadêmica em vários centros universitários do País, sendo que algumas revistas eram financiadas pelo próprio establishment de apoio educacional. A Revista Brasileira de Estudos Políticos, fundada em 1956 e publicada pela UFMG, abrigou eventualmente em suas páginas contribuições sobre a política externa brasileira por acadêmicos de projeção (Celso Lafer, por exemplo). É na RBEP que foi originalmente publicado o texto “fundador” — em termos conceituais — da nova política externa brasileira da segunda fase do regime militar, “O Congelamento do Poder Mundial”, de J.A. de Araújo Castro (nº 33, janeiro de 1972).
A Revista de Ciência Política, do Instituto de Direito Público e Ciência Política da FGV/RJ, observa a mesma política de ampla abertura a temas correlatos na área externa: Celso Mello, por exemplo, era presença constante no terreno do direito internacional. Durante algum tempo, nos anos 60 e princípios dos 70, o Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais (funcionando no RJ sob os auspícios da UNESCO e dirigido pelo eminente intelectual Manuel Diegues Júnior) publicou a revista América Latina, acrescentando algumas matérias de natureza sociológica à análise da inserção internacional dos países da região: se vivia então o auge da “teoria da dependência”.
Também no Rio de Janeiro, o IUPERJ mantinha a excelente revista Dados, que embora voltada mais precipuamente para a sociologia política, chegou a publicar artigos de extremo interesse para os pesquisadores de relações internacionais, como a original pesquisa de Zairo Borges Cheibub e de Alexandre Barros sobre os determinantes sociais da carreira diplomática ou a contribuição de Pedro Malan ao estudo das relações econômicas do Brasil. É na revista Dados que a jovem geração de pesquisadores acadêmicos brasileiros, muitos treinados nas novas técnicas em universidades do exterior, publicam trabalhos de grande relevância intelectual para o estudo da problemática internacional. Mencione-se aqui, apenas como registro, o trabalho exemplar de Maria Regina Soares de Lima e Gerson Moura sobre “A Trajetória do Pragmatismo: uma análise da política externa brasileira” (vol. 25, nº 2, 1982).
No universo intelectual da oposição de esquerda, muitas contribuições de qualidade ou de forte impacto político e conceitual na análise da política externa brasileira vêem à luz em pleno regime de censura da ditadura militar (que atingia mais de perto, é verdade, os meios de comunicação de massa). Se um intelectual engajado como Ruy Mauro Marini divulga, preferentemente, suas teses sobre o “subimperialismo brasileiro” em revistas do exterior (do Chile, do México ou mesmo dos EUA), muitos outros passam a utilizar-se dos novos veículos “alternativos” criados nesses anos negros de perseguições políticas e de paranóia ideológica. Carlos Estevam Martins, por exemplo, publica seu muito aclamado estudo sobre “A Evolução da Política Externa Brasileira na Década 64/74” nos Estudos Cebrap (nº 12, 1975), corajosa iniciativa de intelectuais e professores expulsos da USP pelo AI-5 (dentre os quais o atual Chanceler, Fernando Henrique Cardoso).  No final da década, a Revista Civilização Brasileira, que tinha sobrevivido heroicamente entre 1964 e 1968, volta em 1978, em novo formato, Encontros com a Civilização Brasileira, com um amplo espectro de contribuições na área internacional.
Do lado do “regime”, nesse mesmo ano, surge uma das melhores iniciativas em termos de revista especializada, a Relações Internacionais, derivada de convênio entre a Universidade de Brasília e a Câmara dos Deputados e envolvendo o trabalho conjunto de diplomatas e professores da UnB. Extremamente bem cuidada em termos editoriais e comportando artigos da melhor qualidade de estudiosos brasileiros e de scholars estrangeiros, a RI deixou uma marca profunda, ainda que temporária, no avanço das pesquisas em relações internacionais na própria capital da República, até então isolada das correntes universitárias do resto do País: estuda-se o pensamento de “próceres” da “PEI”, como Araújo Castro (Ronaldo Sardenberg) e San Tiago Dantas (Marcílio Marques Moreira), aprofunda-se a pesquisa histórica da política exterior brasileira (Amado Luiz Cervo), debatem-se os princípios do direito internacional e seu impacto no Brasil (A. A. Cançado Trindade), reproduzem-se textos há muito indisponíveis (de Rio Branco ou de Jânio Quadros, por exemplo, ou as mensagens presidenciais dos primeiros governos republicanos, em temas de política externa) e são traduzidos inúmeros trabalhos de especialistas estrangeiros. Nesse mesmo período, a Editora da UnB traduzia e publicava as mais importantes obras do pensamento político mundial, sobretudo no terreno das relações internacionais (alguns “clássicos”, como Raymond Aron, Paix et Guerre, ou Edward Carr, Twenty Years’ Crisis, por exemplo).

A Nova Geração
A partir dos anos 80, a pioneira RBPI teve de dividir o espaço da cobertura de temas internacionais com outras revistas, mas apenas duas lograram firmar-se e ocupar espaço político e intelectual: uma, de iniciativa mais conservadora e identificada com o chamado “pensamento estratégico brasileiro”, intitula-se, precisamente, Política e Estratégia, tendo sido editada desde 1983 (de maneira intermitente nos últimos anos) pelo Centro de Estudos Estratégicos da Sociedade de Cultura Convívio (São Paulo); outra, vinculado diretamente a uma instituição acadêmica, a Contexto Internacional, vem sendo editada, desde 1984, com crescente sucesso pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC/RJ.
A PeE, embora abrigando teóricos realistas da linha do “poder” e defensores do “Brasil Potência”, abriu-se exemplarmente a representantes do mundo acadêmico, inclusive alguns dos mais contundentes críticos das doutrinas geopolíticas ainda em voga em círculos remanescentes de militares. A CI, por sua vez, abriga basicamente produções da área acadêmica, com forte conteúdo conceitual e metodológico, abrindo espaço a um verdadeiro scholarly work at its best. Ambas as revistas não se restringem ao universo brasileiro de política internacional, buscando contribuições na comunidade de pesquisadores e debatedores dos mais diversos países, com uma forte preferência pelos latino-americanos no segundo caso.
Outras revistas acadêmicas surgidas no período recente também devotam, a despeito de uma vocação mais generalista ou de uma especialização temática em outras áreas, crescente espaço a problemas de política externa e de relações internacionais. É o caso, por exemplo, da Lua Nova, editada pelo Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (São Paulo), cujo número 18 (agosto de 1989) foi inteiramente dedicado às relações internacionais e o Brasil. Nesse mesmo ano surgia, por iniciativa do Departamento de Ciência Política da UnB, a Revista Brasileira de Ciência Política, cujo número inaugural (e até aqui único) trouxe várias contribuições de qualidade na área internacional: José Carlos Brandi Aleixo, Theotonio dos Santos, Celso Amorim e Shiguenoli Miyamoto, este último um habitual frequentador das páginas de Política e Estratégia. Ainda na UnB, e mesmo anterior à RBCP, a revista Humanidades, em sua nova série (a partir de 1986), dedica parte de seu espaço editorial a problemas latino-americanos, embora sob uma ótica mais política e econômica do que propriamente no campo das relações internacionais.

Sobrevivendo no Mundo
A maior parte dessas revistas, em especial num país caracterizado por inúmeras iniciativas acadêmicas natimortas como o Brasil, tem uma existência financeira precária, canais de distribuição bastante deficientes e uma dependência física e política de alguns poucos entusiastas. É o caso, por exemplo, da RBPI, que ainda assim condensa, em seus trinta e e cinco anos de existência e nas dezenas de volumes editados quase que artesanalmente, um somatório extremamente rico de informações sobre a política externa brasileira e as relações internacionais dessas últimas três décadas e meia. Em suas páginas comparecem todos os diplomatas, intelectuais e estadistas que pensaram, praticaram ou analisaram a política externa brasileira e as relações internacionais nesse período, bem como uma massa relevante de documentação de referência para o estudo dos mais diversos problemas atinentes a esse problemas. Ela constitui, assim, uma “memória coletiva” bastante preciosa para uma investigação profissional sobre a inserção internacional do País no período coberto por sua publicação.
Embora enfrentando as dificuldades que soem atingir as revistas acadêmicas de público restrito, geralmente derivadas da falta de recursos materiais e humanos, a RBPI ainda assim conheceu uma notável regularidade de publicação, graças, mais uma vez, ao notável empenho individual de seu diretor. Com o falecimento de Cleantho de Paiva Leite, em outubro de 1992, colocou-se o problema da sobrevivência da revista, que não dispunha de Conselho Editorial. Felizmente, um grupo de diplomatas e de pesquisadores de Brasília assumiu o encargo de relançá-la em novas bases e princípios editoriais, o que deve ocorrer ainda em meados de 1993.
Assim, a Política Externa vem situar-se num universo restrito, não exatamente caracterizado pela continuidade, mas já frequentado por iniciativas acadêmicas similares. Suas características intrÍnsecas a tornam no entanto exclusiva nesse meio ambiente algo rarefeito, a começar pela forte abertura “externa” das colaborações e da documentação selecionada para publicação. Ela é também a única das revistas brasileiras que edita “material de pesquisa”, exemplo provavelmente retirado da seção “Source Material” da Foreign Affairs e instrumento importante para o pesquisador acadêmico. Mais do que uma revista de “política externa”, ela é propriamente uma revista internacional, no melhor sentido da palavra. Longa vida ao benjamim da comunidade !
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[Brasília: 15.03.93; Relação de Trabalhos n° 304b]
Ficha do Trabalho: 304. “Revistas Brasileiras de Política Externa: um balanço de quatro décadas”, Brasília: 27 novembro 1992, 13 pp. Ensaio sobre as revistas que cobriram temas de política externa e relações internacionais do Brasil. Encaminhado para a revista Política Externa. Aceito para publicação em 15.03.93, com duas pequenas modificações sugeridas por parecerista. Versão revista em 15.03.93. Publicado na Política Externa (São Paulo: Vol. II, nº 1, junho-agosto 1993, pp. 162-169). Trabalhos Publicados nº 134.

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