segunda-feira, 8 de setembro de 2025

A nova estratégia militar americana para a AL: imperialismo puro - Danuzio News

 Uma geopolítica muito elementar essa que figura abaixo, parece retirada de alguma cartilha primária dos velhos tempos do colonialismo brutal. Mas tem quem acredita, e tem quem pratique. PRA

Nova doutrina militar dos EUA coloca América Latina como alvo estratégico — Brasil deveria recuar

Autor:Joana Buás
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Danuzio News 7/09/2025

https://danuzionews.com/post/nova-doutrina-militar-dos-eua-coloca-america-latina-como-alvo-estrategico-brasil-deveria-recuar


Uma informação exclusiva da POLITICO, divulgada nesta sexta-feira (05), revela que o Pentágono está reformulando completamente sua Estratégia Nacional de Defesa. Pela primeira vez em décadas, os Estados Unidos vão priorizar a proteção do território americano e do Hemisfério Ocidental acima de confrontos com potências como China e Rússia.

Isso representa uma guinada histórica. Desde o primeiro governo Trump, em 2018, a dissuasão da China no Pacífico estava na vanguarda dos esforços do Pentágono. Agora, Washington decidiu concentrar recursos avançados "mais perto de casa", ou seja, aqui na América Latina. A mensagem é clara: este continente é prioridade número um dos Estados Unidos. Os Estados Unidos darão atenção para a sua Zona de Influência.

Para quem acompanha geopolítica, essa mudança significa que a América Latina se tornou oficialmente o quintal estratégico americano. E isso não é só teoria - já está acontecendo na prática.

Esse movimento está gerando muitas reações entre analistas e políticos. E aqui surge uma contradição fundamental que expõe a hipocrisia de muitos analistas e políticos brasileiros. Durante os últimos anos, ouvimos justificativas elaboradas para ações militares de potências autoritárias:

Quando a Rússia invade a Ucrânia, a narrativa é: "A OTAN estava se expandindo, Moscou tinha que defender sua zona de influência". Quando a China ameaça Taiwan, argumentam: "Taiwan sempre foi território chinês, Pequim tem direitos históricos".

Mas agora que os Estados Unidos estão militarizando o Caribe e estabelecendo controle estratégico na América Latina, onde estão essas mesmas vozes? Por que o conceito de "zona de influência" serve para justificar invasões na Europa Oriental, mas vira "imperialismo" quando aplicado no Hemisfério Ocidental?

O Brasil cavou a própria cova

O governo Lula transformou o Brasil em um dos maiores provocadores dos Estados Unidos na região. A lista de confrontos diretos é impressionante:

  • Recebeu navios de guerra do Irã, país considerado terrorista pelos americanos
  • Permitiu a entrada de aviões russos sancionados internacionalmente
  • Defendeu publicamente a posição russa na invasão da Ucrânia
  • Liderou a proposta anti-dólar: junto com Rússia e Irã, promoveu a criação de moedas alternativas para escapar do sistema financeiro americano - algo que Washington interpreta como declaração de guerra econômica
  • Intensificou aproximação militar com a China: enviou oficiais superiores como adidos militares para Pequim e o conselheiro Celso Amorim anunciou ampliação da cooperação militar chinesa, justamente quando os EUA estão em guerra comercial com os chineses

Era previsível que haveria consequências. Quando um país médio desafia abertamente a superpotência regional, convidando seus principais rivais estratégicos e tentando minar sua moeda, a resposta vem na forma de projeção de poder militar. O resultado? O Brasil perdeu completamente a capacidade de influenciar os rumos regionais e se tornou coadjuvante na própria vizinhança.

A resposta militar americana

A nova estratégia americana já se materializa em operações concretas:

  • 10 caças furtivos F-35 foram enviados para Porto Rico
  • Uma grande força-tarefa naval destacada para o Caribe, incluindo destróieres classe Arleigh Burke e o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima
  • Mais de 4.500 militares estão operando na região
  • Aviões de reconhecimento TC-135W realizam guerra eletrônica e coleta de inteligência
  • Um ataque militar americano matou 11 membros da gangue venezuelana Tren de Aragua em águas internacionais
  • Ordem de abate em caso de aeronave de ataque se aproxime de navios de guerra

Esta não é uma operação antidrogas comum. É uma demonstração de força direcionada a todos os atores regionais - especialmente aqueles que flertam com potências rivais.

A lei da Realpolitik*

Nas relações internacionais, vigora uma regra simples: superpotências fazem o que podem, potências médias fazem o que devem. Não existe tribunal internacional capaz de controlar grandes potências quando seus interesses vitais estão em jogo.

Mas existe uma dinâmica ainda mais brutal: superpotências com armas nucleares e força militar superior não fazem pedidos - fazem ofertas que não podem ser recusadas. Quando uma potência hegemônica "convida" países de sua região a se comportarem, a diferença entre convite e ameaça é puramente semântica.

O que essas potências exigem é sempre o mesmo:

  • Reconhecimento de sua hegemonia na zona que consideram sua
  • Alinhamento ou pelo menos neutralidade dos países vizinhos
  • Acesso econômico e controle de recursos estratégicos
  • Não-interferência de potências rivais em sua esfera
  • Bases militares ou acordos de segurança quando julgam necessário

Se não forem obedecidas, seguem um roteiro previsível:

  • Primeiro escalão (pressão): Sanções econômicas, isolamento diplomático, bloqueio de tecnologias críticas, pressão sobre aliados do país "desobediente".
  • Segundo escalão (coerção):Demonstrações de força militar, apoio a grupos de oposição internos, desestabilização econômica, ciberataques.
  • Terceiro escalão (força):Intervenções militares "limitadas", mudanças de regime, ocupação territorial, guerra total em casos extremos.

A militarização americana do Caribe expõe essa incoerência de forma brutal. Se você realmente acredita que grandes potências têm legitimidade para usar força militar em defesa de seus interesses estratégicos, então deve aceitar quando os Estados Unidos fazem isso na América Latina.

Se considera isso "imperialismo americano", então deveria usar o mesmo critério para avaliar invasões russas ou ameaças chinesas. Não existe justificativa moral para dois pesos e duas medidas.

A questão não é se essas ações são certas ou erradas em termos absolutos. É sobre consistência: ou o conceito de zona de influência justifica uso da força para todas as superpotências, ou não justifica para nenhuma.

As consequências da incoerência

Essa contradição intelectual tem custos reais para o Brasil:

Perda de influência regional: Outros países latino-americanos percebem que o Brasil não consegue nem defender seus próprios interesses, quanto mais liderar a região.

Isolamento estratégico: Ficamos sem aliados confiáveis. Os americanos perderam a confiança, enquanto russos e chineses nos veem apenas como peça no tabuleiro geopolítico.

Pressões econômicas: Já enfrentamos sanções.

Marginalização diplomática: O Brasil deixou de ser um ator relevante nas decisões que afetam a própria região e passa a ter autoridades com restrições de vistos e sancionadas.

A disputa real: EUA vs China

Apesar de toda a retórica sobre "multipolaridade", a disputa na América Latina se resume a dois players principais: Estados Unidos (superpotência estabelecida) versus China (superpotência emergente). A Rússia está perdendo sua capacidade de projeção geopolítica até mesmo no seu entorno imediato.

A nova estratégia americana reconhece essa realidade. Ao focar no Hemisfério Ocidental, Washington manda uma mensagem direta para Pequim: "Este continente é nosso. Mantenham distância". Países como o Brasil precisam entender que não há terceira via confortável nessa disputa. Tentativas de equilibrar entre grandes potências rivais geralmente terminam com pressão de ambos os lados.

O mundo sempre funcionou pela lógica do poder. Impérios romano, mongol, britânico, americano - todos expandiram influência usando força quando necessário. A diferença hoje é que temos duas superpotências disputando espaço global, com atores menores tentando navegar entre elas.

"Multipolaridade" não significa igualdade entre nações. Significa que agora existe uma superpotência estabelecida enfrentando uma emergente, criando instabilidade global enquanto definem suas respectivas esferas de influência.

A conta chegou

O governo brasileiro apostou que poderia desafiar os Estados Unidos sem consequências, enquanto se aproximava da China. Essa estratégia ignorou uma realidade fundamental: na América Latina, quem manda são os americanos. Agora Washington está demonstrando isso na prática. Os Estados Unidos mostrarão sua força militar para deixar claro quem controla a região e enviar um recado direto aos competidores externos. 

As Opções do Brasil e da América Latina

A militarização americana do Caribe força uma escolha inevitável para os países da região. Existem basicamente três caminhos possíveis:

  • Alinhamento estratégico com os EUA: Reconhecer a realidade geopolítica e reconstruir parcerias tradicionais com Washington. Isso significa afastar-se de regimes autoritários, cooperar em questões de segurança regional e aceitar a liderança americana no hemisfério. Em troca, os países ganhariam acesso preferencial ao mercado americano, tecnologia militar e proteção contra ameaças externas.
  • Resistência confrontativa: Manter o atual curso de aproximação com China e Rússia, desafiando abertamente a hegemonia americana. Essa opção implica aceitar escaladas militares, pressões econômicas crescentes e possível isolamento internacional. Países que escolhem esse caminho precisam estar preparados para as consequências.
  • Neutralidade pragmática: Tentar equilibrar relações sem provocar diretamente nenhuma superpotência. Isso exige diplomacia extremamente habilidosa e disposição para fazer concessões a todos os lados quando necessário. O Brasil e a Índia eram tradicionalmente adeptos dessa posição, mas estão mudando essa postura.

As consequências de não escolher

Para o Brasil especificamente, continuar na atual política de provocação aos Estados Unidos sem ter poder para sustentar o confronto levaria a cenários cada vez mais perigosos:

  • Escalada da pressão militar: Washington pode aumentar a presença militar no Caribe e estabelecer bases permanentes em países vizinhos, isolando completamente o Brasil da influência regional.
  • Isolamento econômico: Sanções mais severas, exclusão de sistemas financeiros internacionais e perda de acesso a tecnologias críticas.
  • Fragmentação regional: Outros países latino-americanos podem escolher se alinhar diretamente com os EUA, deixando o Brasil sozinho em sua resistência.
  • Intervenção indireta: Os americanos podem apoiar atores internos brasileiros alinhados com seus interesses, criando instabilidade política doméstica.

A realidade inescapável

A geopolítica não perdoa wishful thinking*, e os números expõem a brutal desproporção de forças na região.

Brasil vs EUA: David sem funda contra Golias

Embora o Brasil seja o 12º país em força militar mundial e o mais poderoso da América Latina, isso é irrelevante contra os Estados Unidos. Os números são devastadores:

  • Orçamento militar: EUA gastam US$ 900 bilhões anualmente; Brasil investe US$ 27,8 bilhões
  • Capacidade real: O Exército americano é 30 vezes mais rico que o brasileiro
  • Arsenal nuclear: EUA possuem 5.800 ogivas nucleares; Brasil: zero
  • Estrutura militar: 78% dos gastos militares brasileiros vão para folha de pagamento, não equipamentos

Mesmo com toda a América Latina unida, seria como uma gangue de bairro enfrentando um exército profissional. A região toda teve gastos militares negativos em 2024, exceto Colômbia e Chile.

China e Rússia: falsos protetores

A pergunta que muitos fazem - "China e Rússia não podem socorrer o Brasil?" - tem uma resposta direta: NÃO.

Por que Pequim e Moscou não vão ajudar militarmente:

  • Distância geográfica: Nem China nem Rússia têm frota capaz de sustentar operações militares prolongadas a 15.000 km de distância contra os EUA em seu próprio quintal
  • Interesse puramente estratégico: Nos usam como peças no tabuleiro geopolítico, não como aliados vitais pelos quais vale arriscar guerra nuclear
  • Custo-benefício: Por que Pequim ou Moscou arriscariam confronto direto com os EUA para defender o Brasil?

A realidade é que somos úteis para irritar os americanos, mas não somos importantes o suficiente para que alguém nos defenda militarmente.

Se Lula dobrar a aposta: as consequências para a população

Se o governo brasileiro escalar ainda mais as provocações aos EUA, a população enfrentaria:

Colapso econômico: Exclusão do sistema financeiro SWIFT, embargo comercial total, fuga massiva de capitais, desemprego em massa, hiperinflação.

Isolamento internacional:Exclusão de organismos internacionais, rompimento diplomático com aliados tradicionais, impossibilidade de viajar para países aliados dos EUA.

Desabastecimento: Falta de combustível (refinarias dependem de tecnologia americana), escassez de medicamentos importados, colapso no setor de tecnologia.

Instabilidade interna: Protestos massivos contra o governo, pressão militar interna para mudança de rumo, possível apoio americano a grupos de oposição.

O Brasil provocou a superpotência regional sem ter recursos para sustentar o confronto. Não temos armas nucleares para dissuasão, economia autossuficiente, aliados dispostos a enfrentar os EUA por nós, nem geografia que nos proteja da pressão americana.

A matemática é brutal: se continuarmos provocando os EUA, enfrentaremos o mesmo destino de Cuba, Venezuela ou Irã - um país pária internacional, economicamente destruído. A diferença é que somos muito maiores, então nosso sofrimento seria proporcionalmente maior.

A América Latina está sendo reorganizada militarmente pelos Estados Unidos. Países que se adaptarem a essa realidade manterão alguma margem de manobra. Aqueles que insistirem em desafiar o poder americano sem capacidade real de resistência descobrirão que superpotências fazem exatamente o que querem em suas zonas de influência.

A escolha é simples, mesmo que desconfortável: aceitar a realidade geopolítica e ajustar a política externa de acordo, ou continuar no atual curso e enfrentar as consequências de um confronto desigual que o Brasil não pode vencer.

 

*Reapolitik: Estratégia política que privilegia a prática e os resultados concretos em detrimento de princípios ideológicos ou morais.
*Wishful thinking: Tendência de acreditar ou agir como se os desejos pessoais fossem mais prováveis que a realidade objetiva.

As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do site Danuzio News."

domingo, 7 de setembro de 2025

Homenaje al embajador Rubens Ricupero: nota do presidente Gabriel Mussio de Miguel - Texto de Paulo Roberto de Almeida

El Ateneo de Ciencias Sociales de la República Argentina rindió homenaje al embajador Rubens Ricupero, referente de la diplomacia y la reflexión latinoamericana. En esa ocasión, el profesor y diplomático Paulo Roberto de Almeida le dedicó un sentido tributo y presentó su libro Vidas Paralelas, gesto que agradecemos especialmente.Gabriel Mussio de Miguel

Gabriel Mussio de Miguel
Presidente del Ateneo de Ciencias Sociales de la República Argentina;


Permito-me colocar novamente meu texto em homenagem ao embaixador Ricupero:

5037. “Rubens Ricupero: gran estadista de la diplomacia brasileña”, Brasilia, 21 agosto 2025, 3 p. Contribución en su homenaje como miembro de honor del Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina, el 23 de agosto de 2025

Rubens Ricupero: gran estadista de la diplomacia brasileña

Paulo Roberto de Almeida, diplomático, profesor.
Contribución libre en su homenaje como miembro de honor del Ateneo de Ciencias Sociales de Argentina, el 23 de agosto de 2025.

La diplomacia brasileña tiene, en sus rangos, muchos intelectuales, literatos, analistas políticos, historiadores, artistas, hasta simples diplomáticos, burócratas de las relaciones exteriores de Brasil, quizá los más numerosos. Un libro, O Itamaraty na Cultura Brasileira, editado cuando Celso Lafer ocupaba por la segunda vez nuestra cancillería, en 2001, presentó los más relevantes y conocidos, desde el siglo XIX hasta José Guilherme Merquior, uno de los más importantes intelectuales no solo de Brasil, pero del mundo, fallecido en 1991, muy joven. Rubens Ricupero y Celso Lafer fueran dos de los más queridos amigos de Merquior.
Los tres están entre los contemplados en el libro que vengo de organizar y editar, que es la continuidad de Itamaraty na Cultura Brasileira, intitulado Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, en el cual Merquior es de nuevo un personaje, por medio de un ensayo escrito por otro diplomático intelectual, Gelson Fonseca Jr, hoy director del Centro de Historia y Documentación Diplomática. Celso Lafer, un gran amigo de Felix Peña y de Argentina, firma de nuevo el prefacio de esa obra, dedicada a Alberto da Costa e Silva, quien organizó el primer libro. Ricupero hizo un homenaje afectivo a un otro gran intelectual de la diplomacia brasileña, Wladimir Murtinho, el hombre que ha, finalmente, presidido a la transferencia de Itamaraty de Rio de Janeiro a Brasilia, en 1970, diez años después de la inauguración de la capital por Juscelino Kubitschek. Murtinho lo hizo con gran maestría, con una combinación de arte moderna, clásica y colonial de Brasil en la decoración del nuevo palacio, que mantiene su nombre original, del inicio de la República.
El embajador Rubens Ricupero tiene una distinción especial con respecto a todos los otros diplomáticos, sea intelectuales o todos los otros, una vez que jamás ha sido, no lo es, sencillamente, tan solo un intelectual, sino un gran pensador, un historiador instintivo y uno de los mejores analistas políticos de las relaciones internacionales de Brasil, siendo, también, principalmente, un gran estadista, en su manera de concebir y proponer políticas públicas en diversos campos de la política externa, multilateral, regional y bilateral, no solo para la diplomacia brasileña, pero igualmente para su economía y su sociedad. He sido premiado, desde mi ingreso en la diplomacia, con sus enseñanzas, pero sobre todo con sus ejemplos de hombre público, de negociador habilidoso, de persona accesible, de profesor muy atento a los alumnos de la Academia Diplomática de Brasil – donde han estudiado muchos colegas argentinos –, a los académicos en general.
Ricupero siempre ha mantenido una atención especial a Argentina, su segundo posto en la carrera diplomática, luego después de Viena, a mediados de los anos 1960, donde empezó su largo recorrido por los diversos países por los cuarenta años siguientes. Escribió en sus Memórias páginas significativas:
“De todos los puestos que tuve, [Buenos Aires] fue aquel donde más mantuve relaciones con personas ‘normales’, sin ningún contacto con asuntos diplomáticos.” [Memórias, 2024, p. 254] Continua: “No por eso he dejado de adentrarme en la situación política del país, leyendo sobre su historia, conversando con los grandes analistas políticos y económicos, tornándome amigo de algunos de ellos, como el historiador de la economía Aldo Ferrer, Oscar Camilión, entonces redactor-jefe de El Clarín, más tarde embajador en Brasil, ministro de las Relaciones Exteriores, ministro de Defensa.” [p. 255]
La permanencia de Ricupero en Argentina ocupó toda la dictadura Ongania, del 1966 a 1969, cuando también Brasil adentraba su segundo y tercer general en la presidencia de la República. Recuerdo que, algunos años más tarde, cuando estaba trabajando en la embajada de Brasil en Washington, aproveché algunos momentos libres para encuestar en los National Archives and Records Administración. El secretario-general de Itamaraty en ese mismo año, 1966, al recibir el Encargado de Negocios de la embajada americana aún en Rio de Janeiro, fue muy claro con respecto a la situación de los regímenes en América del Sul, y le dijo: “Ahora que se ha resuelto la cuestión en Argentina, tenemos que nos ocupar de la situación en Santiago, donde hay un Kerenski chileno”, hablando del presidente reformista de la Democracia Cristiana Eduardo Frei (padre). O sea, Brasil intentaba extender las dictaduras de la región, objetivo quizá aceptable para los militares argentinos.
Fueron los años más difíciles de las conturbadas relaciones bilaterales Brasil-Argentina, sin perspectivas de real integración, después de la firma del primer tratado de Montevideo, creando la Alalc (nunca completada), y al principio de las disputas acerca de la construcción de Itaipu binacional, Brasil-Paraguay, más de diez años de controversias por la explotación de los recursos hídricos de la Cuenca del Plata, hasta el tratado tripartite de 1979. De Buenos Aires, Ricupero partió para Quito, pero retornaría visitar a Argentina inúmeras veces durante muchos años, como diplomático brasileño o como director de la Unctad.
He trabajado con Ricupero durante su misión como embajador en las organizaciones internacionales de Ginebra, entre 1987 y 1990, cuando yo pasé a Montevideo y Ricupero fue nombrado como embajador en Washington, un año después. Por casi tres años, nuestra colaboración em Ginebra no fue únicamente diplomática, pero se extendió a temas académicos y culturales. Los picos más significativos de su carrera estuvieran entre el Ministerio de Amazonia Legal y Medio Ambiente, en 1993-94, y la asunción, totalmente involuntaria, como ministro de Hacienda, en medio a una de las diversas crisis de hiperinflación, típicas de la historia económica de nuestros dos países. Él supo transmitir confianza en la población, elemento esencial de suceso del Plan Real.
Por muchos años quise elaborar un Festschrift en su homenaje, siempre retardado por ocupaciones más urgentes de trabajo. A mi retiro, finalmente, he decidido hacer no solo una, pero dos homenajes a los dos personajes brasileños más amigos de la Argentina, el propio Ricupero y Celso Lafer, con mi libro Vidas Paralelas (2025), una relectura de sus obras relevantes en política exterior y diplomacia de Brasil, recién publicado. Independiente de los gobiernos, liberales o proteccionistas, de izquierda o derecha, amigos o indiferentes, en las dos margines del Plata, como ya ocurrió entre Bolsonaro y Fernández, y ahora entre Lula y Milei, los dos pueblos están destinados a cumplir el vaticinio del presidente Roca, más de cien años antes: “todo nos une, nada nos separa”.
Sorpresas ocurren, como en todas las relaciones humanas. Los estadistas existen, justamente, para sobrepasar todo tipo de inconveniencias políticas. Ricupero y Lafer son, precisamente, los dos mayores estadistas favorables a una buena relación permanente entre Brasil y Argentina. Aún tienen algún trabajo por la frente.
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 5037, 21 agosto 2025, 3 p.

Discurso presidencial de 7 de setembro: minhas observações - Paulo Roberto de Almeida

Discurso presidencial de 7 de setembro: minhas observações

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Comentários ao discurso presidencial sobre o significado do 7 de setembro.

        Tenho poucas observações ao discurso efetuado pelo presidente da República na noite do dia 6 de setembro de 2025, a propósito das comemorações pelo Sete de Setembro, o dia símbolo de nossa independência. Considero-o correto em sua essência, embora tenha algumas restrições sobre pontos específicos desse pronunciamento, que exponho a seguir.
        É relativamente correta colocar sua mensagem à nação no contexto da soberania brasileira, embora ela não esteja em risco de ser alienada nas presentes circunstâncias. Não há nenhuma hipótese de que ela seja violada apenas por manifestações desequilibradas de um dirigente estrangeiro, concretamente o presidente Donald Trump, ainda que elas representem interferências indevidas em assuntos de foro exclusivamente nacional. As agressões concretas sob a forma de sanções econômicas e comerciais podem ser obstadas, contornadas, ou até rebatidas por sanções retaliatórias (embora elas não sejam recomendadas na prática). A ameaça verbal pode ser respondida por manifestação formal da instituição diplomática, por meio de uma nota relembrando simplesmente os termos da Convenção de Viena sobre relações diplomáticas entre Estados soberanos, repudiando, portanto, essa interferência indevida e indelicada.
        A soberania brasileira esteve, sim, ameaçada, não por essa declaração unilateral do presidente americano, interferindo em decisões que dependem unicamente do poder judiciário do Brasil, totalmente de acordo à constituição e à legislação brasileira tratando da defesa da democracia, mas por ações do governo anterior, o de Jair Bolsonaro, que, entre 2019 e 2022, alienou a soberania nacional não aos Estados Unidos, mas pessoalmente à figura do mesmo presidente, em seu primeiro mandato. Tanto o presidente, quanto seus principais assessores, entre eles o chanceler acidental, se colocaram de maneira submissa a esse presidente de uma nação estrangeira, cedendo soberania de forma vergonhosa e inédita nos anais da diplomacia e da política externa brasileiras. Essa submissão vergonhosa não alcançou os chefes militares, embora alguns dentre eles seguiram o tresloucado presidente nessa submissão inacreditável ao um dirigente estrangeiro, o que poderia ter sido explorado nesta manifestação de 2025, inclusive como um alerta quanto à improvável, mas possível volta do mesmo vergonhoso dirigente, um verdadeiro traídor da pátria.
        As referências seguintes ao nosso antigo status colonial representam o senso comum da nossa trajetória história, mas no plano puramente sociológico cabe reparos a esta afirmação do presidente Lula: “O Brasil tem um único dono: o povo brasileiro”.         Trata-se de uma típica manifestação populista, uma vez que sabemos que um país, qualquer país, não tem um único dono, ou então, que esse dono represente o conjunto da coletividade nacional, quando a realidade é que não há uma relação de posse, ou de propriedade, centrado numa categoria geral da população inteira do país. Essa “propriedade” é fragmentada por diferentes categorias sociais, estratos da população, cujo patrimônio, material e imaterial, político ou econômico, é fragmentado nos fragmentos humanos e institucionais que dividem o controle parcial e temporário das diversas alavancas de poder legítimo no país.
        Está correta a condenação aos políticos e outras personalidades que alienam a nossa soberania a um dirigente estrangeiro, mas que sobretudo atuam decisivamente contra os interesses nacionais, na área econômica e jurídica. Eles devem ser processados e condenados por esses atos vergonhosos e, como decorrência de decisões plenamente fundamentadas na legislação, afastados de qualquer possibilidade de ter continuidade na política nacional.
        Suas outras declarações sobre medidas governamentais estão clara e diretamente relacionadas à política nacional, reafirmando, de diversas maneiras, medidas que estão sendo implementadas em meio a controvérsias não apenas entre políticos, mas entre economistas igualmente, dados seus efeitos contraditórios sobre as possibilidades de manutenção de um processo sustentado de crescimento econômico e de distribuição social de seus resultados. Com efeito, não custa relembrar que políticas econômicas, macro ou setoriais, exercem impactos diversos sobre os diferentes extratos da população, e podem afetar diversamente empresários, trabalhadores ou grupos sociais assistindo pelo poder estatal.
        Não cabe aqui fazer uma análise sobre as razões da longa estagnação da economia brasileira desde as crises do petróleo e da dívida externa, nas décadas de 1970 e 1980 do século passado, em grande medida agravada pelo peso desmesurado do Estado sobre o conjunto da economia. Mas é um fato de que a carga fiscal, o intervencionismo estatal e o protecionismo comercial, ademais da baixa qualidade do ensino público, nos ciclos fundamental e técnico-profissional, são responsáveis pelo baixo dinamismo da economia e pelos desequilíbrios econômicos impostos a diferentes grupos sociais. Não existe nenhuma dúvida, tampouco, que o Brasil é um dos países mais desiguais dentre as economias de mercado, mas ainda mantendo as mesmas políticas e medidas governamentais que consolidam, congelam e até ampliam a desigual repartição de renda entre a população. O discurso falsamente igualitário sobre os privilégios dos ricos não encontra repercussão nas medidas práticas, a não ser a continuidade das mesmas políticas assistencialistas a cargo do Estado que são a marca registrada do PT e do seu presidente de honra.
        Em conclusão, com o diferencial da defesa da soberania, politicamente exagerada neste pronunciamento por razões circunstanciais, os demais elementos componentes desta manifestação de Lula são plenamente aceitáveis no atual contexto político de uma nítida polarização do ambiente eleitoral do Brasil. Não creio que a manifestação em si tenha o poder de diminuir os contenciosos já evidentes na presente quadra da política nacional, o que antecipa um ambiente já plenamente dividido entre as duas grandes tendências da política concreta, em descompasso com as aspirações prováveis da maioria da população, no sentido da superação do divisionismo estéril que caracteriza a vida nacional em 2025 (e, com toda a probabilidade, em 2026).

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5051, 7 setembro 2025, 3 p.

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Confira o discurso de Lula na íntegra:
Querido povo brasileiro, amanhã, 7 de setembro, é dia de celebrarmos a Independência do Brasil. É uma boa hora para a gente falar de soberania.
O 7 de setembro representa o momento em que deixamos de ser colônia e passamos a conquistar nossa independência, nossa liberdade e nossa soberania.
Na época da colonização, nosso ouro, nossas madeiras, nossas pedras preciosas, nada disso pertencia ao povo brasileiro. Toda nossa riqueza ia embora do Brasil para ajudar a enriquecer outros países.
Mais de 200 anos se passaram e nós nos tornamos soberanos. Não somos e não seremos novamente colônia de ninguém. Somos capazes de governar e de cuidar da nossa terra e da nossa gente, sem interferência de nenhum governo estrangeiro.
Mantemos relações amigáveis com todos os países, mas não aceitamos ordens de quem quer que seja. O Brasil tem um único dono: o povo brasileiro.
Por isso, defendemos nossas riquezas, nosso meio ambiente, nossas instituições. Defendemos nossa democracia e resistiremos a qualquer um que tente golpeá-la.
É inadmissível o papel de alguns políticos brasileiros que estimulam os ataques ao Brasil. Foram eleitos para trabalhar pelo povo brasileiro, mas defendem apenas seus interesses pessoais. São traidores da pátria. A História não os perdoará.
Minhas amigas e meus amigos, a soberania pode parecer uma coisa muito distante, mas ela está no dia a dia da gente. Está na defesa da democracia e no combate à desigualdade, a todas as formas de privilégios de poucos em detrimento do direito de muitos. Está na proteção das conquistas dos trabalhadores, no apoio aos jovens para que eles tenham um futuro melhor, na criação de oportunidades para os empreendedores e nos programas que ajudam os mais necessitados.
Se temos direito a essas políticas públicas, é porque o Brasil é um país soberano e tomou a decisão de cuidar do povo brasileiro.
Minhas amigas e meus amigos, um país soberano é um país fora do Mapa da Fome, que zera o Imposto de Renda de quem ganha até R$ 5 mil enquanto taxa os super-ricos que hoje não pagam quase nada. Que cresce acima da média mundial e registra menor índice de desemprego de todos os tempos. Um país com a coragem de fazer a maior operação contra o crime organizado da história, sem se importar com o tamanho da conta bancária dos criminosos.
Este país soberano e independente se chama Brasil.
Minhas amigas e meus amigos, desde o início do nosso governo, concentramos esforços na abertura de novas parcerias comerciais. Em apenas dois anos e oito meses, abrimos mais de 400 novos mercados para as nossas exportações. Defendemos o livre comércio, a paz, o multilateralismo e a harmonia entre as nações, mas nunca abriremos mão da nossa soberania.
Defender nossa soberania é defender o Brasil.
Cuidamos como ninguém do nosso meio ambiente. Reduzimos pela metade o desmatamento na Amazônia, que, em novembro, vai sediar a COP30, maior conferência mundial sobre o clima.
Defendemos o PIX de qualquer tentativa de privatização. O PIX é do Brasil. É público, é gratuito e vai continuar assim.
Reconhecemos a importância das redes digitais. Elas oferecem informação, conhecimento, trabalho e diversão para milhões de brasileiros, mas não estão acima da lei. As redes digitais não podem continuar sendo usadas para espalhar fake news e discurso de ódio. Não podem dar espaço à prática de crimes como golpes financeiros, exploração sexual de crianças e adolescentes e incentivo ao racismo e à violência contra as mulheres.
Zelamos pelo cumprimento da nossa Constituição, que estabelece a independência entre os Três Poderes. Isso significa que o presidente do Brasil não pode interferir nas decisões da justiça brasileira, ao contrário do que querem impor ao nosso país.
Minhas amigas e meus amigos, este é o momento em que a História nos pergunta de que lado estamos. O Governo do Brasil está do lado do povo brasileiro. Povo que acorda cedo, todos os dias, para trabalhar pela prosperidade da sua família.
Este é o momento da união de todos em defesa do que pertence a todos: a nossa Pátria brasileira e as cores da bandeira do nosso país.
A História nos coloca diante de um grande desafio e pergunta se somos capazes de enfrentá-lo. E nós dizemos: sim. Temos fé, experiência e coragem para seguir cuidando do nosso futuro e da esperança da nossa gente.
Que Deus abençoe o Brasil.
Um abraço, e feliz Dia da Independência.

Le sommet de Tianjin constitue l’acte de naissance du Sud global - Stéphanie Balme, Christophe Jaffrelot (Le Monde)

        Não creio, pessoalmente, que a reunião da OCX em Tianjin represente o nascimento do Sul Global, pois este não existe nessa forma de um convite do presidente chinês a outros países que se dispuseram a comparecer a uma reunião ampliada de uma organização bem mais restrita geograficamente. Nem China, nem Rússia podem ser considerados, como países de um Sul Global largamente imaginário. Ainda vai ser preciso muito mais mobilização e organização, assim como propostas credíveis, para a criação de uma nova ordem global. Mas estes dois professores franceses, talvez pelo fato que a França já não tem mais condições de liderar qualquer esforço mais amplo em escala global, são mais otimistas. PRA


« Le sommet de Tianjin constitue l’acte de naissance du Sud global »
TRIBUNE
Stéphanie Balme (Sinologue), Christophe Jaffrelot (Indianiste)

        L’événement, organisé par Xi Jinping, auquel ont participé une vingtaine de dirigeants, dont Narendra Modi et Vladimir Poutine, a donné à voir un nouvel ordre international, marqué par l’ascension de la puissance chinoise et l’essoufflement de l’hégémonie américaine, analysent, dans une tribune au « Monde », les chercheurs Stéphanie Balme et Christophe Jaffrelot.

Le Monde, 7 septembre 2025

        Le 25ème Forum de l’Organisation de coopération de Shanghaï (OCS), réuni à Tianjin, les 31 août et 1er septembre, n’a pas choisi son lieu au hasard. Cette ville du nord de la Chine témoigne de l’époque des concessions étrangères issues des guerres de l’opium. Outre les chefs d’État des membres permanents de l’OCS (Biélorussie, Chine, Inde, Iran, Kazakhstan, Kirghizistan, Ouzbékistan, Pakistan, Russie et Tadjikistan), une quinzaine de pays partenaires, dont l’Egypte, la Malaisie et la Turquie, étaient également présents, ainsi que le secrétaire général de l’Organisation des Nations unies (ONU), Antonio Guterres. Puis vint le défilé militaire, saisissant, célébrant le 80ᵉanniversaire de la fin de la seconde guerre mondiale après la capitulation japonaise.
        Ce qui s’est joué en Chine dépasse de loin un simple aperçu du nouvel ordre international : c’est la configuration même à laquelle nous devons désormais nous préparer. Deux interrogations majeures se dessinent. Malgré ses contradictions et ses fragilités, notamment démographiques, que fera la Chine de la puissance qu’elle a accumulée ? Et à quoi pourrait ressembler un monde marqué par le déclin de l’hégémonie américaine ? Selon la région du globe où l’on se situe, l’une ou l’autre de ces questions paraît plus immédiate. Pour l’Europe, l’exercice demeure sans doute le plus complexe, tant son horizon stratégique global reste incertain.

Repli des Etats-Unis
        En septembre 1945, la puissance américaine incarnait la modernité et la puissance. Gandhi luttait pour l’indépendance de l’Inde, tandis que la Chine sombrait dans une guerre civile dont émergerait, quatre ans plus tard, la République populaire. En 2025, c’est à Pékin, avec l’Inde, que se dessine le nouvel ordre mondial postaméricain.
        Ce basculement résulte du repli des Etats-Unis et de leur diplomatie de guerre commerciale, qui fragilise l’hégémonie qu’ils exerçaient depuis 1945, paradoxe ultime d’une trajectoire menée sous la bannière Make America Great Again. En miroir, la déclaration de Tianjin puis le défilé de Pékin illustrent le triomphe du Parti communiste chinois, fondé il y a cent quatre ans et fort de plus de 100 millions de membres. Xi Jinping y a présenté une synthèse du marxisme et des traditions chinoises, citant Laozi [père fondateur du taoïsme] et mobilisant l’adhésion des opinions publiques du Sud en martelant la fin du « siècle des humiliations ».
        La participation de Narendra Modi au sommet de l’OCS est à analyser dans cette perspective, celle d’une revanche du Sud global dont Tianjin pourrait bien constituer l’acte de naissance. En effet, bien que l’Inde soit membre de plein droit de l’OCS, la présence du premier ministre n’allait pas de soi. Pour le comprendre, il faut rappeler une séquence du printemps dont l’enchaînement est proprement inouï : en mai, l’Inde et le Pakistan se livrent une guerre éclair provoquée par un attentat au Cachemire, que New Delhi attribue à des islamistes pakistanais.
        Avant le déclenchement des hostilités par l’Inde, Pékin apporte un soutien total à Islamabad ; pendant les combats, l’armée pakistanaise bénéficie d’un appui logistique chinois et utilise avions de chasse et missiles chinois, qui font beaucoup de mal aux Indiens, notamment la perte d’un Rafale ; après les hostilités, alors que l’Inde menace de priver le Pakistan d’une partie de l’eau des fleuves traversant son territoire, la Chine avertit l’Inde qu’elle pourrait faire de même. Dans ce contexte tendu, le ministre des Affaires étrangères indien se rend pourtant à Pékin en juillet pour poursuivre la normalisation des relations sino-indiennes, que New Delhi a relancée depuis octobre 2024.

Smartphones et médicaments génériques
        La présence de Narendra Modi à Tianjin est certes d’abord une réponse aux droits de douane astronomiques (50 %) imposés par Donald Trump à son pays : ce facteur conjoncturel explique la mise en scène des retrouvailles entre MM. Modi et Xi, accolades et sourires à l’appui. Mais, au-delà de ces échanges médiatisés, la visite s’inscrit bien dans une tendance de fond, puisque le rapprochement entre les deux pays est amorcé depuis bientôt un an. La compensation par Pékin de la faiblesse des investissements venus des Etats-Unis ou d’Europe a du sens pour l’Inde, étant donné que le pays reste dépendant de l’économie chinoise, qui lui fournit les composants électroniques pour assembler des smartphones, les composants actifs indispensables à la production de médicaments génériques, les terres rares utilisées dans les batteries de véhicules électriques, ainsi que les panneaux solaires essentiels à sa transition énergétique.
        Pékin, pour sa part, déploie une stratégie de puissance multidimensionnelle. Elle verrouille d’abord son « voisinage stratégique », des rives du Pacifique à l’Asie centrale et au Moyen-Orient, en combinant infrastructures, dépendances économiques et supériorité militaire. Elle cherche ensuite à remodeler l’ordre économique mondial, en dominant les technologies critiques, en sécurisant les chaînes de valeurs globales et en adoptant un discours proclimat calibré.

Un « État-civilisation-monde »
        Parallèlement, la Chine redéfinit la gouvernance mondiale par une diplomatie normative centrée sur le principe d’un « État-civilisation-monde », présenté comme pacifique et pluriel : un universalisme conçu pour défier l’ordre occidental du XIXᵉ siècle. Enfin, elle transforme sa puissance techno-nationaliste en arme géopolitique et, ce faisant, impose son modèle jusqu’à la Maison Blanche.
        Certes, l’hégémonie américaine reste prégnante à travers le dollar, la Banque mondiale, le Fonds monétaire international (FMI), Hollywood ou la Silicon Valley, mais elle s’effrite. Ce déclin ne fait pas des Etats-Unis une puissance secondaire, mais marque le passage d’une position incontestée à un monde où Washington doit partager son influence avec d’autres centres de pouvoir, générant des rivalités systémiques.
        Cette réalité tient soit à l’ascension du Sud global, soit à l’essoufflement mécanique de la domination américaine, aggravé par la politique trumpiste (protectionniste, dérégulatrice, imprévisible), qui fragilise les institutions internationales, les relations transatlantiques, et alimente une guerre commerciale mondiale.
        Dans ce contexte, que retenir de l’affirmation continue de la puissance chinoise et du rapprochement sino-indien face à une Amérique posthégémonique ? La question se pose avec d’autant plus d’acuité que Narendra Modi et Xi Jinping se sont affichés à Tianjin aux côtés de Vladimir Poutine, alors même que Washington et Bruxelles multiplient les sanctions contre la Russie. Une piste consiste à élaborer une politique indo-pacifique ne se limitant pas à mobiliser des partenaires comme simple contrepoids à la Chine, en particulier l’Inde. Quoi qu’il en soit, Tianjin restera comme l’acte de naissance du Sud global.

Stéphanie Balme, politologue sinologue, est directrice du Centre de recherches internationales (CERI, Sciences Po/CNRS) ; Christophe Jaffrelot, politologue indianiste, est directeur de recherche au CNRS (Sciences Po/CERI) et président de l’Association française de science politique. Stéphanie Balme (Sinologue) et Christophe Jaffrelot (Indianiste).

O Estado da Nação, num 7 de setembro - Paulo Roberto de Almeida

 O Estado da Nação, num 7 de setembro

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Declaração sobre a situação presente no Brasil

        Caros concidadãos, brasileiras e brasileiros,
        Tomei esta iniciativa de me dirigir diretamente a vocês por considerar que o Brasil, como país, como Estado e sociedade, vive um dos momentos mais cruciais de toda a sua história republicana, quiçá de toda a sua existência como nação independente e soberana.
        Estamos, todos nós, o povo, seus empresários e trabalhadores, os dirigentes do país, sendo atacados de maneira indigna, ilegítima e imoral, pelo chefe de Estado de uma grande nação estrangeira, que sempre foi o principal aliado e grande parceiro do Brasil nos últimos 200 anos, mas que agora se crê o imperador do mundo, capaz de expedir decretos contra quem ele acha que contraria seus interesses pessoais, contra quem não se submete às suas vontades imperiais, inclusive por meio de leis nacionais às quais ele atribui poderes extra territoriais, as quais ele acha que têm alcance universal.
        Ao mesmo tempo, a nação atravessa uma de suas controvérsias políticas mais nocivas na vida da República, uma divisão entre correntes e movimentos opostos, às quais a mídia tem dado o nome de polarização, mas que nada mais é senão um enfrentamento suicidário entre dois agrupamentos sectários, que tem paralisado não só a condução normal dos poderes do Estado, da vida parlamentar, mas também a gestão e o encaminhamento dos mais graves desafios que se colocam ao Brasil num momento de profunda crise fiscal, dessa série de ataques externos que ameaçam nossa economia e nossa política externa, um contexto dos mais impactantes para o futuro do país.
        Tenho a percepção de que já chegamos à beira de um precipício que pode nos arrastar para ainda mais decadência e sofrimentos para o povo, a partir da qual decidi manifestar minha opinião, depois de um momento reflexivo sobre minhas modestas capacidades de contribuir para a superação dessa grave e dupla crise que enfrenta a nação. O Brasil precisa se unir para enfrentar os insanos ataques externos, que infelizmente têm partido dos próprios representantes políticos que deveriam estar unidos na defesa da nossa economia e do nosso povo, de gente que não hesita em colocar seus interesses pessoais à frente do bem-estar de milhões de brasileiros cujo emprego e renda são ameaçados por um fora da lei internacional.
Essa divisão odiosa entre os que compactuam com os ataques estrangeiros, e que até os estimulam, acintosamente contra a própria pátria, e aqueles que, equivocadamente, buscam uma aliança com outros poderes que tampouco são condizentes com valores e princípios de nossa diplomacia tradicional, faz com que o Brasil se perca num redemoinho de contradições.
        Não tenho, infelizmente, quaisquer habilidades políticas para me envolver nessas querelas divisionistas que infelicitam a nação, muito menos as a de entrar na arena política com o objetivo de encarnar os mais altos interesses do país e do Estado, não os objetivos mesquinhos pelos quais se digladiam vergonhosamente as duas tribos de “irmãos inimigos”, as duas correntes opostas que assaltaram a vida política da nação nas últimas duas décadas, e que podem levar a sociedade inteira a uma nova crise, talvez similar àquelas que levaram a vida política do Brasil aos extremos do Estado Novo, em 1937, às sucessivas ameaças de interrupção do mandato do grande estadista que foi Juscelino Kubitschek, enfim à descida aos extremos que resultou no golpe de Estado de 1964, que infelicitou a nação durante mais de duas décadas.
        Cabe, sim, a alguns dos representantes políticos que se acreditam estadistas fazer um chamamento à união daqueles comprometidos com a preservação da democracia no Brasil, com a defesa dos nossos interesses nacionais em face das insidiosas ameaças e ações ilegais no plano do Direito Internacional, contra o prejudicial divisionismo político que impede a gestão normal dos assuntos políticos. O Brasil precisa dar um basta a essas divisões internas, precisa se unir contra os ataques externos, precisa dar um sonoro não aos que apoiam essas ações ilegítimas, ilegais e imorais que nos vêm do exterior a partir do próprio país, precisa sair, de uma vez por todas, do facciosismo das tribos políticas inimigas, precisa encontrar a paz interior para melhor defender os interesses de toda a nação na esfera internacional.
        Este é o apelo que faço hoje, neste 7 de setembro de 2025, aos que se julgam estadistas dentre os representantes eleitos, no sentido de que se coordene um chamamento à nação com o objetivo de que possamos nos unir numa causa que é bem maior do que os interesses partidários da esquerda e da direita, uma proclamação para que tomemos um outro caminho, que não o da bifurcação entre os extremos, o do congraçamento num projeto de reconstrução da país, em suas diferentes vertentes, o da política, o da economia, o da vida social, o da educação, o de uma política externa verdadeiramente autônoma em face dos conflitos entre as grandes potências, nos quais não devemos nos imiscuir e não podemos tomar partido. Está na hora de tomarmos um outro rumo, rejeitando totalmente essa polarização estéril para marcharmos juntos num projeto que possa nos orgulhar como nos tempos de Juscelino, desenvolvimento com democracia, crescimento com divisão dos benefícios sociais, soberania com inserção internacional.
        Este é o sentido desta minha mensagem, convidando personagens políticos não comprometidos com nenhuma das facções que continuam a dividir o país, mas que empreendam um projeto com o objetivo de refletir conjuntamente sobre os meios e modos de superar a atual divisão sectária e retomar a nossa boa tradição política: o respeito ao povo trabalhador, a justa repartição dos frutos de um desenvolvimento autônomo, o respeito internacional por meio de uma diplomacia alheia a essa Segunda Guerra Fria que, levada aos extremos, pode ameaçar o futuro da própria humanidade.
        Está na hora de se oferecer à nação um novo projeto de desenvolvimento nacional, acima das atuais divisões políticas e capaz de encontrar uma solução à crise econômica que inevitavelmente se avizinha. Todos estão convidados a participar da elaboração de ideias que possam contribuir para a reconstrução de nossa pátria. Este momento é decisivo na vida da nação. Cidadãos conscientes: vamos assumir nós mesmos essa grande tarefa.
        Esta é a minha mensagem neste 7 de setembro de 2025. Obrigado pela atenção.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5050, 7 de setembro de 2025, 3 p.

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