quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sobre alguns alinhamentos, na ou da política externa, raras vezes da diplomacia - Paulo Roberto de Almeida

Sobre alguns alinhamentos, na ou da política externa, raras vezes da diplomacia

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota complementar aos trabalhos n. 5105 e 5119, para o seminário do IRICE.

(Ainda a propósito do evento do Irice: Política Externa e Interesse Nacional)

        O Brasil, por escolha de suas oligarquias dominantes e dirigentes (entre as quais se incluíam os barões da diplomacia, antes de sua democratização no último meio século), quase nunca foi alinhado a qualquer grande potência. Portugal o fazia por conveniência existencial, pelas ameaças existentes no continente, ali ao lado e na França.
        O Brasil imperial chegou a romper com essas potências, por problemas diplomáticos, ainda que delas dependente por razões óbvias.
Nosso “alinhamento” mais evidente, na política externa e na diplomacia, durante algum tempo na primeira Guerra Fria, se deu também por conveniência momentânea, inclusive por falta de qualquer outra opção, ao final da Segunda Guerra Mundial: os poderosos EUA eram o que tinha “sobrado” da destruição total.
        Mas logo nos desalinhamos, depois de um pequeno gesto negociado de “agradecimento”, na nossa participação nas “Forças Interamericanas de Paz”, em 1965, na República Dominicana. Começamos nas votações da ONU, com nossa orientação fortemente unctadiana, em favor de teses sobre a não reciprocidade e o tratamento especial e mais favorável aos países em desenvolvimento, propostas em certa medida ilusórias, mas que davam algumas pequenas vantagens aos produtos de exportação, no SGP (que nunca foi um sistema, sequer geral).
        Depois tivemos muitas fricções comerciais e vários outros desentendimentos “tecnológicos”. Não fomos à Coreia, nem ao Vietnã, como outros parceiros, e sempre nos opusemos a qualquer tomada de posição nos enfrentamentos entre as grandes potências, preservando nossa plena autonomia decisória e independência na política externa, mas sempre defendendo a solução pacificação de controvérsias e a via do multilateralismo na cooperação internacional, com a busca incessante dos acordos bilaterais para projetos específicos de desenvolvimento.
        Assim foi desde os anos 1950, que sinaliza o início da Política Externa Independente, até muito recentemente, quando se consentiu, ao arrepio de uma avaliação mais ponderada por parte da diplomacia profissional, formar uma aliança política com duas grandes potências, no BRIC original (2006-2009), depois com maiores constrangimentos ao termos de aceitar teses, ou limitações de posturas, por injunção dessas potências, o que representou um desajustamento com a doutrina e a prática do Itamaraty, por força de uma política externa mais que presidencial, personalista ao extremo.
        Ainda estamos nessa, tendo de nos submeter a imposições de algumas delas (e que se reflete em algumas declarações, e até de adesão irrefletida a um vago projeto de “nova ordem global multipolar”.
        Não sei até quando vão persistir essas ilusões, que considero um descompasso entre a política externa e o interesse nacional.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5120, 20 novembro 2025, 2 p.

Politica Externa e Interesse Nacional: uma síntese do meu pensamento - Paulo Roberto de Almeida

Política Externa e Interesse Nacional: uma síntese do meu pensamento

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota complementar ao texto para o seminário do IRICE

        Deixo de lado o texto reflexivo que já submeti, para conhecimento geral, sobre os dois conceitos duplos deste evento, que está disponível no blog Diplomatizzando e em minha página na plataforma Academia.edu, e passo a desenvolver algumas outras reflexões sobre as conexões teóricas e práticas entre eles.
        A Política Externa, com maiúsculas, se apresenta simplesmente como sendo o conjunto das orientações de ações, no campo internacional, que é expedido por quem ocupa o poder político do Estado num determinado momento, em função supostamente do assim chamado Interesse nacional, igualmente com maiúsculas.
        Creio que aí começa o erro e os problemas: a Política Externa raramente representa ou se confunde com o Interesse Nacional, por mais bem articulado que este esteja sendo apresentado num momento dado da História. A Política Externa geralmente, ou mais frequentemente representa aquilo que interessa às oligarquias, ou à oligarquia que ocupa o poder de governo, de ação do Estado num determinado momento. Pois não nos enganemos: o poder num Estado é sempre dominado por quem está no governo desse Estado, independentemente de como se chegou ao poder ou da coloração política ou inclinações sociais dos que mandam.
        Sempre é uma oligarquia e é ela que determina a Política Externa, não um suposto Interesse Nacional. Vamos observar na prática, no concreto.
        Desde 1808, ou seja, há mais de 217 anos temos relações exteriores conduzidas a partir do país, do Rio de Janeiro, ou antes, de Salvador da Bahia. Qual foi o primeiro gesto da política externa tomado em 1808? A abertura dos portos, uma necessidade e um agradecimento à potência protetora dos interesses da oligarquia que dominava Portugal na época, uma das poucas oligarquias que sobreviveu ao terremoto napoleônico em curso na Europa.
        Depois, foi a tomada de Caiena, um gesto puramente europeu, de vingança, não uma medida que beneficiasse exatamente o Brasil. Mais adiante, a invasão da Cisplatina que também era um gesto pensado em direção de um velho problema subsistente das disputas geopolíticas entre Portugal e Espanha. No intervalo, os tratados de comércio, navegação e defesa, preservando os interesses nacionais da potência protetora, imediatamente condenados pelo primeiro estadista do Brasil, Hipólito da Costa, no seu Correio Braziliense, inteiramente pensado, produzido e distribuído a partir do que era a Super Potência da época.
        Depois veio o tal de Reino Unido ao de Portugal e Algarves, uma ficção, claro, mas adotada em função do Congresso de Viena, onde Portugal era tratado com o mesmo desdém que as grandes potências da época devotavam às potências médias e pequenas. O Brasil sempre foi, reconhecidamente, uma potência média, o que somos até hoje, a despeito das ilusões de convertê-lo em Grande Potência entretidas no auge da ditadura militar.
        E qual foi a grande atitude de Política Externa de Portugal em Viena? A defesa do tráfico e da escravidão, em beneficio da oligarquia que ocupava o poder em Portugal e na sua colônia mais rica, na verdade a que produzia mais recursos para o Estado português, de fato para as oligarquias no poder nos dois Estados, teoricamente equiparados. O que se conseguiu arrancar na época foi a proibição do tráfico escravo, apenas ao norte do Equador, o que deixava livre, no momento suas rotas mais lucrativas, ao sul do Equador.
        Depois vieram vários ajustes, comerciais e diplomáticos, sempre em favor das oligarquias no poder nos dois Estados, entre eles o principal, a independência do Brasil, no mesmo momento em que se tramava a recolonização do país nas Cortes de Lisboa, em favor das oligarquias lusitanas. Os ajustes se fizeram e o Brasil se pôs em marcha, sempre com esse critério básico, o de proteger e manter os interesses das oligarquias, não o Interesse Nacional.
        O primeiro chanceler brasileiro, de fato o primeiro ministro brasileiro de um Gabinete português no Rio de Janeiro, José Bonifácio, era, como Hipólito da Costa, a favor da extinção imediata do tráfico escravo e da escravidão em médio prazo, substituindo-a pela imigração regular, o que não se fez obviamente: continuamos com o condenado tráfico durante mais um quarto de século, até onde foi possível, sem maiores constrangimentos para as oligarquias, e com o nefando sistema servil durante sessenta anos mais, e com resistência para extingui-lo, alguns projetos prolongando sua sobrevivência até praticamente as primeiras décadas do século XX.
Corte para um gesto de independência comercial: a reforma tarifária de 1844, que supostamente deveria abrir o caminho da industrialização no Brasil. Na verdade, a medida foi adotada mais por razões fiscais do que industrializantes. Durante em século e meio mais, talvez até hoje, o Brasil foi um dos Estados que exibiu as maiores tarifas protetoras do mundo inteiro, baseado no conceito, não de alíquotas aduaneiras, mas no de defesa efetiva, ou seja, valor dos impostos de importação sobre o montante total das importações, como informado pelos estudos do professor Jeffrey Williamson, de Harvard. O Brasil só foi parcialmente superado nessa prática pelas tarifas americanas durante a Guerra de Secessão no século XIX e pela Alemanha nazista nos anos 1930, no resto do tempo, longo temo, fomos os mais protecionistas do planeta.
        No início da era republicana, os motivos passaram a ser também industrializantes, ao lado dos objetivos fiscais ainda presentes, assim como a famosa Lei do Similar Nacional, explicitamente mercantilista, e que sobreviveu até o governo Collor, em 1990, depois de gloriosas décadas de bons serviços prestados às velhas e novas oligarquias.
        Toda a política econômica externa, de 1844 até os dias que correm, sempre foi explicitamente concebida e aplicada em favor das oligarquias nacionais, jamais, ou muito pouco, em favor do interesse nacional.
        Assim foi na defesa do tráfico e da escravidão, assim foi na defesa dos interesses protecionistas das novas oligarquias, assim continua sendo nos dias de hoje em praticamente todas as esferas da vida nacional.
        O trabalho de formação de capital humano, de defesa consequente da educação e da saúde da população em geral sempre foi deixado em segundo ou terceiro plano, como constatou Monteiro Lobato desde as primeiras décadas da República, logo convertendo o pobre Jeca Tatu, desmatador a fogo das florestas existentes, em vítima inocente da ignorância e da insalubridade.
        Seus esforços editoriais e educacionais, levados com enérgico empenho empresarial ao início, logo foram levados ao terreno infantil, nos anos 1920 e sobretudo nos anos 30, decepcionado que ficou com a incúria das oligarquias.
        Termino relembrando o primeiro grande debate econômico, talvez o único a ser rememorado ainda hoje, que ocorreu ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1944-45, entre Eugenio Gudin, um engenheiro e economista neoclássico, e Roberto Simonsen, um industrialista paulista que, em 1931, fez traduzir, e converter em Bíblia dos industriais brasileiros, o livro do estadista romeno Mihail Manoilesco sobre a teoria do protecionismo e do intercâmbio desigual, uma atualização, em 1928, das teses de indústria infante do economista alemão da primeira metade do século XIX, Friedrich List, um adepto das tarifas hamiltonianas.
        Pois bem, a despeito da clara vitória obtida no plano da teoria econômica e dos fundamentos das políticas macroeconômicas e setoriais por Eugenio Gudin, quem obteve a vitória, no plano da prática, foi o protecionista e subvencionista Roberto Simonsen, pois todas as políticas econômicas, e em consequência as políticas externas, adotadas de 1945 em diante, até hoje, foram sempre de cunho intervencionista e de planejamento estatal do que supostamente seria o interesse nacional permanente.
        As consequências foram as de um notável atraso, comparativamente a outros países, até colocados em escala inferior na industrialização, revelado durante todo o pós-guerra, até que, na prática, as orientações gudinianas, de aproveitamento das vantagens comparativas agrícolas, de solidez e equilíbrio nas políticas macroeconômicas e de importância da educação de base, foram reconhecidas, de modo explicito nos mandatos de FHC.
        Mas, por razões justamente do atraso social e educacional durante todos aqueles anos, entramos em nova recaída no protecionismo e no estatismo desde o início do presente século, do qual ainda não nos recuperamos. Todas as políticas econômicas e dm consequência as externas também, têm sido conduzidas consistentemente em favor das oligarquias do poder, representadas pelas forças políticas, de direita, de centro ou de esquerda, que ocupam o governo a intervalos regulares. Gudin venceu, mas apenas parcialmente, na prática, mas as ideologias, as orientações de política externa permanecem simonsenianas, em favor das oligarquias, não do Interesse nacional. Termino por aqui.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5119, 20 novembro 2025, 4 p.

19 de novembro é o "Dia Nacional do Cordelista", e também Dia da Bandeira

Descubro agora, que o 19 de novembro (que já passou) é o "Dia Nacional do Cordelista", o que eu ignorava completamente.

Mas, sei, desde a infância, que o dia 19 de novembro também é o Dia da Bandeira, uma data que era sempre festejada, na minha infância, nas escolas, quarteis militares, nas instituições públicas de maneira geral. Hoje em dia, já não se fala mais nisso, nem os bolsonaristas, que vivem enrolados na bandeira, que eles emporcalham obviamente.
Mas, voltando à literatura de cordel, tenho o prazer de rememorar uma postagem feita aqui alguns dias atrás, que junta bandeira e Bolsonaro, que também reproduzi no meu blog Diplomatizzando:

A CHEGADA DE BOLSONARO NO INFERNO
Por Bastião da Curiboca
Corria um dia tranquilo
Na portaria do inferno.
A fila estava pequena
Com três caboco de terno;
Um agiota, um banqueiro,
E um pastor potoqueiro
Invocando o Pai Eterno.
O capeta da guarita
Só conferia os malfeito
Numa lista bem comprida
Ia ticando, com jeito:
Ladroagem, carteirada,
Ódio, usura, mentirada,
Consciência com defeito.
Mais atrás vinha uma quenga
E um vendedor de seguro;
Pouco depois um pinguço
Ralando o chifre no muro;
Uma dupla sertaneja,
Uma barata-de-igreja,
E um tarado de pau duro.
Tudo estava nos conformes
Naquela burocracia,
Quando se ouviu ao longe
Uma estranha tropelia.
Fazendo muita poeira,
Promovendo quebradeira,
Xingando a democracia.
(...)
Leiam o resto aqui:

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Política Externa e Interesse Nacional: debate no Irice, e texto de Paulo Roberto de Almeida

Já escrevi, como sempre faço quando sou convidado para algum evento desse tipo, um pequeno texto, que não vai, obviamente, ser lido. Quem quiser conhecer minha opinião antes do debate:

5105. “Política Externa e Interesse Nacional”, Brasília, 4 novembro 2025, 8 p. Notas para seminário do IRICE, dia 21/11, 17hs; Academia.edu (https://www.academia.edu/145030554/5105_Politica_Externa_e_Interesse_Nacional_interacoes_e_descompassos_2025_); Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-interesse-nacional_19.html).

Política Externa e Interesse Nacional: um seminário-debate promovido pelo Irice, do embaixador Rubens Barbosa, meu primeiro e último chefe de importância no Itamaraty:

Debate transmitido pelo YouTube: Política Externa e Interesse Nacional
=> 21 de novembro (sexta feira) às 17h, transmissão ao vivo e gratuita no YouTube

O Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE), no âmbito do portal Interesse Nacional, convida para encontro virtual sobre o tema: Politica Externa e Interesse Nacional

Expositores:
- Paulo Roberto Almeida: Diplomata e professor. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas. Ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais da Fundação Alexandre de Gusmão (Itamaraty).

- Vitelio Brustolin: Research Scientist da Harvard University, professor adjunto da Columbia University, professor de Relações Internacionais na UFF, pós-doutorado em Harvard.

- Karina Stange Calandrin: Doutora e mestre em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Professora no Ibmec-SP e pesquisadora do IRI-USP.

Moderador - Rubens Barbosa: Presidente do IRICE e editor da revista Interesse Nacional. Ex-Embaixador do Brasil em Londres (1994-1999) e em Washington (1999 a 2004).

Transmissão gratuita ao vivo, no canal Interesse Nacional no YouTube, nesta sexta-feira, 21/11, às 17h: https://www.youtube.com/live/4w74yJrglGg?si=Pgh546vObgsT2oLO

BRICS Is Missing Its Chance - Oliver Stuenkel and Alexander Gabuev (Foreign Affairs)

BRICS Is Missing Its Chance

United by Trump’s Hostility, but Too Divided to Seize the Moment

Foreign Affairs, November 18, 2025

https://www.foreignaffairs.com/south-africa/brics-missing-its-chance# 

This year, the BRICS—a ten-country group whose first five members were Brazil, Russia, India, China, and South Africa—has gained a renewed sense of purpose thanks to one catalyst: the United States. With U.S. President Donald Trump’s return to the White House, the bloc looks, more than ever, like a necessary hedge against an increasingly erratic and fragmented global order. Many of Trump’s actions—including his chaotic tariff crusade against friends and foes, strikes on Iran and legally dubious military actions in Latin America, and withdrawal from the UN-supported Paris agreement on climate change—have sparked condemnation from the BRICS. Trump’s policies have put in stark relief BRICS’ raisons d’être: to help its members adapt to and build a less Western-centric world, gain greater leverage in their dealings with Washington, and find alternatives to Western-dominated institutions such as the World Bank and the International Monetary Fund.

But despite their shared interests, BRICS as a grouping is not ready to seize the moment. Its members—which now include Egypt, Ethiopia, Iran, Indonesia, and the United Arab Emirates—are too divided to turn the group into a real challenge to Washington. They vary significantly in their degree of antagonism toward the United States, and each wishes to maintain strategic autonomy. As a result, the bloc will struggle to mount joint action. To unite and marshal their collective strength, the BRICS would have to turn into something akin to the G-7—a U.S.-led group of economically advanced countries that, in the interest of promoting their common purpose and values, willingly sacrifice a significant degree of strategic autonomy. But the BRICS countries, whose bond is based mainly on a collective rejection of U.S. hegemonic power, won’t find the cohesion that could make the bloc an effective geopolitical force.

POWER IN NUMBERS

While previous U.S. presidents have largely ignored the BRICS, Trump has adopted a more confrontational stance. He has called the BRICS an “anti-American bloc” and has repeatedly threatened to impose 100 percent tariffs on its members if they were to replace the U.S. dollar as a reserve currency. For now, the Trump administration is not going after the bloc as a whole but picking fights with individual countries. Some BRICS members, such as China and Russia, are better equipped to weather U.S. pressure than others, such as Brazil, India, and South Africa. But all now have a clearer understanding that they are stronger together than apart: the more domineering the United States behaves, the more important the group is to its members.

For years, Beijing has warned fellow BRICS members that the U.S.-led order is unstable and subject to the political mood swings of Washington and its allies. The Chinese leadership has presented Trump’s return, and the United States’ unreliability as a partner in development, as evidence that Beijing’s push to build parallel institutions, such as the New Development Bank, was not premature but prescient. And the consequences of Trump’s “Liberation Day” tariffs, including volatility in the U.S. bond market and a fluctuating U.S. dollar, have spurred some developing countries to take steps to hedge against their exposure to the dollar. For China and its partners in the BRICS, these developments present an opportunity to leverage financial services that are not controlled by the United States, develop tools to reduce their dependence on the U.S. dollar, and facilitate trade in alternative currencies.

Moscow, too, sees advantage in the chaos that the Trump administration has sown. During the Biden administration, the United States and other Western countries imposed unprecedented sanctions against Russia in response to the Kremlin’s war of aggression against Ukraine. Trump’s return to the White House presented Russian President Vladimir Putin with an opening to improve, if not normalize, relations with Washington. Trump has dramatically scaled back financial support for Ukraine, but he continues to issue periodic threats against Moscow and has sanctioned Russia’s two largest oil producers. This is why Russia realizes that it needs to strengthen its partnership with fellow BRICS countries and leverage the grouping as a support network to withstand the Western sanctions pressure and to erode U.S. global dominance in finance and technology.

Trump’s crusade against Brazil, India, and South Africa has likewise set in motion forces that should, in theory, bring the BRICS members closer. Trump imposed 50 percent tariffs on Brazilian imports earlier this year, arguing that an investigation of former president Jair Bolsonaro was politically motivated. When Brazil’s top court convicted Bolsonaro of attempting a coup, Trump escalated further, sanctioning a Brazilian Supreme Court justice tied to the case and cancelling the visas of several Brazilian judicial and government officials. These measures have only pushed Brazil to deepen its ties with fellow BRICS members. As one of Lula’s advisers recently pointed out, Trump’s attacks “are reinforcing our relations with the BRICS, because we want to have diversified relations and not depend on any one country.” Even before the Bolsonaro conviction, Lula had been currying favor with BRICS allies and paying official visits to China and Russia as well as Vietnam, which became a BRICS partner in June. But Trump’s bellicose approach is sure to accelerate this trend.

South Africa’s diplomatic friction with the United States has had similarly predictable results. Relations hit a new low following Trump’s meeting with South African President Cyril Ramaphosa in May. In a tense encounter that was widely broadcast and dissected across South African media, Trump ambushed Ramaphosa with false and inflammatory claims about a “white genocide” targeting Afrikaner farmers. Trump’s rhetoric echoed fringe conspiracy theories and played to segments of his domestic base, but it left South Africans across the political spectrum shocked and offended. The Trump administration had previously expelled South Africa’s ambassador, threatened to impose steep trade penalties, and canceled aid programs. For the South African leadership, the disastrous White House meeting was yet more evidence that the United States had ceased to be a trustworthy partner. Facing a peculiarly hostile administration in Washington, Pretoria has ample reason to pursue greater intra-BRICS cooperation—not out of ideological affinity with its members but out of the strategic necessity to protect itself against an erratic and punitive United States.

Even in India, a country that has spent the better part of the past two decades cultivating close ties with Washington, policymakers are keenly aware that they must hedge in the face of Trump’s unpredictability. This year, Washington has deported thousands of Indian nationals, stalled negotiations over a bilateral trade agreement, and imposed 50 percent tariffs on Indian products. Indian policymakers are now firmly committed to a strategy of “multialignment,” in which BRICS serves not just as a platform for cooperation among countries of the so-called global South but also as a geopolitical insurance policy when U.S. commitments are no longer credible.

Similar sentiments are palpable throughout the other BRICS capitals, where leaders fear that close partnership with the United States may become a liability. Unsurprisingly, the number of countries hoping to join BRICS, either as full members or partner countries, keeps growing. That list includes Bangladesh, Belarus, Bolivia, Cuba, Kazakhstan, Malaysia, Nigeria, Senegal, Thailand, Uganda, Uzbekistan, Venezuela, and Vietnam. The desire to diversify partnerships has not emerged because of Trump alone, of course. Turkey, for example, expressed interest in becoming a full member of BRICS well before Trump’s return. But the president’s second term has elevated multialignment from distant aspiration to urgent strategy.

MUDDLING THROUGH

And yet BRICS is not ready to take advantage of this moment. As the group has grown in size, so have its internal contradictions. This is not entirely surprising. Both Brazil and India, fearing the loss of their own influence and concerned about the group’s cohesion, had long opposed expansion, before giving in to Chinese pressure in 2023. Egypt, Ethiopia, Indonesia, Iran, and the United Arab Emirates all joined in the last three years.

At a BRICS foreign ministers meeting in Rio de Janeiro in April, member states failed, for the first time, to issue a joint communiqué. The deadlock underscored mounting divisions within the bloc over the pace and direction of de-dollarization, the level of antagonism toward the United States, and Beijing’s aspirations for leadership in the grouping. In this case, the source of disagreement was a topic of long-standing symbolic importance to Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva: reform of the United Nations Security Council. Both Egypt and Ethiopia objected to language that would have acknowledged South Africa’s aspirations for a permanent seat, highlighting the complications introduced by the group’s recent expansion. And this July, in an unprecedented development, several heads of state failed to participate in-person in a BRICS summit, and only half of the bloc’s ten member countries sent delegations; the others attended remotely.

The U.S. bombing of Iranian nuclear facilities in June could have unified BRICS. Several member governments were appalled by the strikes, arguing that the United States acted unilaterally, dangerously, and without regard for international norms. For China and Russia, the strikes confirmed long-standing critiques of U.S. militarism; for Brazil and South Africa, countries that have historically prioritized nonintervention and peaceful conflict resolution, the attack was seen as a reckless move that undermined global stability. For India, the assault was not only a violation of international law, but also an attack on a vital energy supplier. Yet in the end, the BRICS’ joint statement, published several days after the bombing, was remarkably vague, failing even to mention Israel or the United States, revealing the grouping’s incapacity to speak with one voice.

Friction is visible on other fronts, as well. China’s heavily subsidized exports, including steel, textiles, and cars, threaten local industries in countries such as Brazil and South Africa. The resulting tensions complicate intra-BRICS economic coordination, as governments face domestic pressure to adopt protectionist measures against Chinese goods. Although China is eager to use BRICS as a platform to expand its influence and advertise its governance model, other members remain wary of subordinating their interests to Beijing’s ambitions. A recent virtual summit of BRICS leaders, convened by Lula and aimed at developing a common strategy against U.S. tariffs, produced few tangible results.

Despite renewed urgency created by Trump’s return to power, BRICS remains hamstrung by the same structural weaknesses that have long limited its effectiveness: divergent national interests, conflicting economic priorities, and a deep mistrust of one another’s geopolitical ambitions. Expansion has only magnified those challenges, adding more actors and contradictions to an already unwieldy organization. Beijing may view Trump’s bellicosity as conclusive proof of the United States’ unreliability, but other members are reluctant to align too closely with China or to subordinate their own national agendas to a single leader. Group cohesion remains a long way off.

For the foreseeable future, the grouping is likely to continue muddling through—attracting new members, producing grand declarations, and occasionally coordinating positions, but falling well short of becoming the basis of a new model of global governance. Trump has reminded BRICS members why the bloc matters, while simultaneously exposing why it cannot rise to the occasion.



O Brasil de Lula possui alguma credibilidade para ser mediador na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia?

 Não sei se o Itamaraty, que se comove com qualquer incidente infeliz em qualquer parte do globo, conseguiria, desta vez, em fazer uma nota de solidariedade com a Ucrânia com alguma indicação clara de que condena o terrorismo de Estado da Rússia causador de inúmeras mortes de civis, em lugar de apenas lamentar ataques desconhecidos, vindos de nenhuma parte, produzindo perdas humanas, sem que se saiba exatamente quem é o responsável por tais ataques equivalentes a crimes de guerra. Não sei se o Itamaraty sabe que esse extraordinário esforço feito para encobrir os atos criminosos de Moscou já está ficando ridículo e simplesmente destroi toda a credibilidade de que eventualmente pudesse gozar a diplomacia brasileira profissional, de uma maneira tão vergonhosa quanto a que já foi criada para a política externa lulopetista.

O Itamaraty consegue, com isso, me envergonhar como diplomata, assim como joga em descrédito qualquer iniciativa que o Brasil possa ter para mediar qualquer esforço de mediação: para que isso ocorresse, seria preciso ter o respeito de ambas as partes no conflito, e isso o Brasil nunca teve desde o governo anterior, uma condição que se agravou extraordinariamente no governo atual.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 9/11/2025


“Russia has launched several missile and drone strikes on civilian targets, including an overnight operation on Wednesday that killed at least 25 people and injured around 80 others in the Ukrainian city of Ternopil.” (19/11/2025)

Em defesa da transparência, da legalidade e da memória pública - Nota da Anpuh sobre as restrições ao acesso dos arquivos diplomáticos

 O Itamaraty estaria retrocedendo aos tempos da ditadura militar em termos de acesso a seus arquivos por pesquisadores? Seria triste. Nota da Anpuh:

Em defesa da transparência, da legalidade e da memória pública

A Associação Nacional de História (ANPUH) manifesta preocupação com os retrocessos introduzidos pela Portaria no 631/2025 do Ministério das Relações Exteriores, que restringe o acesso a informações e documentos públicos em desacordo com os princípios estabelecidos pela Lei no 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação – LAI).

A referida portaria estabelece salvaguardas e critérios de sigilo que ultrapassam os limites previstos em lei, invertendo o princípio segundo o qual a publicidade é a regra e o sigilo, a exceção. Ao permitir a negativa de pedidos de acesso com base em expressões imprecisas — como a possibilidade de “danos tangíveis ou intangíveis” ao Estado — e ao criar restrições mesmo para documentos não classificados, o texto abre margem a interpretações discricionárias e fragiliza a política de transparência pública.

Nos últimos anos, o acesso ao acervo histórico do Itamaraty tem sido gradualmente limitado por justificativas administrativas e pelo uso indevido de argumentos relativos à proteção de dados pessoais. Essas restrições afetam diretamente a pesquisa científica, a preservação da memória diplomática e o controle social sobre a administração pública, compromissos essenciais de um Estado democrático e de uma política externa transparente e responsável.

Diante desse cenário, a ANPUH solicita a revisão imediata da Portaria no 631/2025, com vistas a restabelecer a plena observância da Lei de Acesso à Informação e a garantir o acesso público e contínuo aos acervos históricos do Ministério das Relações Exteriores.

A memória diplomática do Brasil é um bem coletivo. Proteger seu acesso e garantir sua integridade é condição fundamental para o avanço da ciência, o fortalecimento das instituições e a consolidação de uma diplomacia comprometida com a transparência, a legalidade e o interesse público.

Por fim, a ANPUH reafirma sua disposição em dialogar com o Ministério das Relações Exteriores para contribuir com a melhor adaptação possível da Portaria no 631/2025, colocando-se à disposição para colaborar na criação de um comitê especificamente voltado ao aperfeiçoamento de seus dispositivos e à construção de soluções que respeitem a legislação vigente e as necessidades da pesquisa histórica. Contatos podem ser feitos junto ao endereço institucional: secretaria@anpuh.org.


Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...