Meu amigo e colega diplomata, o embaixador Paulo Antonio Pereira Pinto, esteve recentemente em S. Luis, Maranhão, para uma palestra, e aproveitou a oportunidade para dar uma dimensão internacional à sua palestra e presença na capital maranhense, outrora um fugaz domínio colonial francês, mas rapidamente reconquistada pelo império português do Ultramar. Ele se expressa nestes dois pequenos textos que reproduzo abaixo, com prazer intelectual, pois que sempre aprendo mais um pouco sobre esse magnífico diplomata, autor de muitos livros publicados.
Paulo Roberto de AlmeidaRecebido de Paulo Pinto:
"No início de maio corrente, desfrutei do privilégio de efetuar palestra na Universidade Estadual do Maranhão e conhecer a cidade de São Luiz. Durante minha carreira diplomática, tivera oportunidade de servir em Maputo, Moçambique, e visitar Macau, na China; Goa, na Índia e Malaca, na Malásia, cidades onde, da mesma forma que na capital maranhense, existe forte herança colonial portuguesa.
Minha recente ida a São Luiz levou à reflexão sobre o interesse brasileiro quanto à valorização das semelhanças entre aqueles centros urbanos que utilizam a língua portuguesa (principalmente os situados na Ásia), para um projeto de inserção internacional com base em características de identidades culturais semelhantes. Nesse sentido, poderia ser utilizado formato diplomático como “cidades irmãs”, para o mapeamento das instituições e mecanismos necessários para tal projeto, caso seja considerado útil e viável.
São Luís, como se sabe, ocupa um lugar singular na história da formação cultural e civilizacional do mundo lusófono. Sua importância ultrapassa o âmbito regional brasileiro, pois a cidade tornou-se um dos principais pontos de preservação dos valores culturais, religiosos, linguísticos e comerciais associados à expansão marítima portuguesa entre os séculos XVI e XIX. Situada estrategicamente no Atlântico, São Luís funcionou como elo entre Portugal, Brasil, África Ocidental e rotas comerciais ligadas ao Oriente.
Nesse sentido, penso na realidade de que a Inteligência Artificial se tornou uma das tecnologias mais influentes do século XXI, não apenas por sua capacidade econômica e científica, mas também pelo seu potencial de preservar valores civilizacionais, patrimônios culturais e identidades linguísticas. Em um mundo marcado pela globalização digital e pela predominância de poucos idiomas na internet, a IA pode desempenhar um papel decisivo na proteção e fortalecimento da língua portuguesa em regiões historicamente ligadas à lusofonia, como o Brasil, países africanos de língua portuguesa e comunidades asiáticas.
INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL – A IMPORTÂNCIA DA IA NA TERRA ONDE CANTA O SABIÁ
Paulo Pinto
Embaixador do Brasil aposentado. Percursos diplomáticos diferenciados.
17 de maio de 2026
Embora fundada pelos franceses em 1612, São Luís foi incorporada ao universo político e cultural português após a retomada da cidade pelos lusos em 1615. A partir desse momento, consolidou-se como um importante centro da administração colonial portuguesa no norte do Brasil. Sua posição geográfica favoreceu intensas conexões marítimas e comerciais com Lisboa, Belém, o Caribe e regiões africanas, inserindo a cidade no sistema atlântico da expansão portuguesa.
Um dos aspectos mais relevantes da cidade foi a preservação da língua portuguesa e de formas culturais ligadas à tradição ibérica. O relativo isolamento geográfico do Maranhão durante certos períodos históricos contribuiu para conservar traços linguísticos, arquitetônicos e sociais herdados do período colonial. O centro histórico de São Luís, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial, representa um dos maiores conjuntos urbanos coloniais de influência portuguesa nas Américas. Seus azulejos, sobrados, igrejas e ruas estreitas testemunham a continuidade de uma tradição urbana luso-atlântica.
O Centro Histórico de São Luís preserva não apenas edifícios, mas também uma visão de sociedade marcada pela convivência entre influências europeias, africanas e indígenas. Essa síntese cultural tornou-se característica fundamental da civilização luso-brasileira. Em São Luís, elementos do catolicismo português foram reinterpretados em contato com culturas africanas e tradições locais, produzindo manifestações religiosas e populares próprias.
A dimensão religiosa teve papel central na consolidação da presença portuguesa na região. Ordens religiosas católicas, especialmente jesuítas, franciscanos e carmelitas, participaram da organização educacional e espiritual da cidade. Igrejas históricas como a Catedral da Sé e o Convento das Mercês refletem a importância da fé católica na formação da identidade local. Essas instituições contribuíram para a difusão da língua portuguesa, da educação formal e das práticas religiosas trazidas do mundo ibérico.
Ao mesmo tempo, São Luís tornou-se um espaço de encontro entre diferentes matrizes culturais do Atlântico. A cidade recebeu significativa influência africana por meio do comércio atlântico e da presença de populações escravizadas vindas principalmente da África Ocidental. Em consequência, preservou tradições musicais, culinárias e religiosas que hoje fazem parte do patrimônio cultural brasileiro. Manifestações como o Bumba Meu Boi revelam essa fusão entre elementos portugueses, africanos e indígenas.
No campo econômico, São Luís foi importante centro exportador durante os ciclos do algodão, arroz e outros produtos agrícolas no período colonial e imperial. O comércio marítimo fortaleceu a integração do Maranhão às redes globais portuguesas, ampliando intercâmbios culturais e econômicos entre continentes. A cidade participou da lógica atlântica que caracterizou a expansão portuguesa, baseada simultaneamente em comércio, evangelização e circulação cultural.
A preservação de valores civilizacionais em São Luís também pode ser observada na literatura, na música e na educação. Conhecida como “Atenas Brasileira”, a cidade destacou-se historicamente pela valorização da produção intelectual e da língua portuguesa. Escritores maranhenses contribuíram significativamente para a cultura nacional, reforçando o papel da cidade como centro de continuidade da tradição literária lusófona.
No contexto contemporâneo, São Luís permanece símbolo vivo da herança luso-atlântica. Em um mundo marcado pela homogeneização cultural, sua arquitetura, suas festas populares, sua religiosidade e sua memória histórica demonstram como antigas conexões marítimas portuguesas produziram civilizações híbridas e duradouras. A cidade representa, portanto, não apenas um patrimônio brasileiro, mas um elo importante da história cultural compartilhada entre Europa, África, América e Ásia.
Verifica-se, a propósito, que a importância da Inteligência Artificial na preservação de valores civilizacionais oferece oportunidade para a reflexão sobre melhor aproveitamento desta vantagem comparativa da capital maranhense, na preservação da língua e valores civilizacionais portugueses na Ásia, África e Brasil.
Este processo envolve a continuidade de tradições, memórias históricas, sistemas éticos, expressões culturais e formas de comunicação que estruturam uma sociedade. O idioma ocupa posição central nesse processo. Quando uma língua enfraquece, perde-se também parte da visão de mundo, da literatura, das tradições orais e da identidade coletiva de seus falantes. A IA oferece instrumentos concretos para impedir esse apagamento cultural.
No caso da língua portuguesa, a IA pode atuar em diferentes frentes. Sistemas de tradução automática, reconhecimento de voz, síntese de fala e modelos linguísticos permitem ampliar o acesso ao português em ambientes digitais, educacionais e administrativos. Ferramentas baseadas em IA podem digitalizar documentos históricos, preservar manuscritos antigos, registrar sotaques regionais e manter vivas variantes linguísticas frequentemente ignoradas pelas grandes plataformas globais.
No Brasil, a IA pode fortalecer a diversidade cultural interna, valorizando o português falado em diferentes regiões e promovendo inclusão educacional. Tecnologias educacionais inteligentes podem auxiliar estudantes em áreas remotas, democratizando o acesso ao conhecimento sem abandonar a identidade linguística nacional. Além disso, a IA pode contribuir para a preservação de línguas indígenas brasileiras, muitas das quais enfrentam risco de desaparecimento. Daí, a importância natural de que tal projeto seja instalado em área próxima a São Luís.
Na África Lusófona — incluindo Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe — a IA pode ajudar a reduzir desigualdades no acesso à informação e à educação. Sistemas treinados em português africano podem respeitar especificidades culturais locais, evitando a imposição exclusiva de padrões linguísticos externos. Isso é importante porque a tecnologia, quando desenvolvida sem diversidade cultural, tende a reproduzir hegemonias linguísticas e econômicas.
Na Ásia Lusófona, especialmente em Timor-Leste e Macau, a IA pode apoiar políticas educacionais bilíngues e preservar heranças históricas ligadas à presença secular do português. Arquivos digitais inteligentes, bibliotecas automatizadas e plataformas de aprendizagem podem garantir que futuras gerações mantenham contato com a língua e sua produção cultural.
Entretanto, a relação entre IA e a preservação civilizacional também exige cautela ética. Se os sistemas de IA forem treinados apenas com dados dominados pelo inglês ou por perspectivas culturais limitadas, haverá risco de homogeneização cultural. Por isso, é essencial que países lusófonos e cidades com tradição portuguesa invistam em produção própria de dados, pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico local. A soberania digital tornou-se parte da preservação cultural.
A cooperação entre universidades, governos e instituições culturais do espaço lusófono pode criar grandes bases de conhecimento em português, fortalecendo a presença da língua na era digital. Organizações como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) têm potencial para coordenar iniciativas de IA voltadas à educação, cultura e preservação linguística. A possível valorização da herança cultural lusa, em cidades como Macau, na China, Goa, na Índia e Malaca, na Malásia, extrapola a área incluída pela CPLP e abrange centros urbanos situados em países de avançado progresso tecnológico, incluindo a Inteligência Artificial. São Luiz, nesta perspectiva, poderia tornar-se sede de projeto com este destino, enquanto estabelece diálogo com centros urbanos já capacitados nesta área de conhecimento e com maior disponibilidade financeira, como as mencionadas acima.
Além do aspecto técnico, a IA também pode ajudar na transmissão de valores humanísticos. Sistemas educacionais inteligentes podem difundir literatura, filosofia, história e patrimônio artístico da lusofonia, aproximando comunidades separadas geograficamente, mas unidas pela língua portuguesa
Assim, a Inteligência Artificial não deve ser vista apenas como uma ferramenta de automação econômica, mas como um instrumento estratégico de continuidade civilizacional. Utilizada com responsabilidade, diversidade cultural e visão humanista, ela pode fortalecer a língua portuguesa e preservar patrimônios culturais compartilhados entre América, África e Ásia. O futuro da tecnologia não precisa significar uniformização cultural; ao contrário, pode representar uma oportunidade histórica de valorização da pluralidade humana.
EXPERIÊNCIA PESSOAL
Conforme mencionei na introdução, durante minha carreira diplomática, entre 1977 e 79, servi, como Terceiro Secretário, na Embaixada do Brasil em Maputo, logo após a independência de Moçambique (vide artigo publicado em 09/01/2025 na LinkedIn). Apesar do então Presidente Samora Machel afirmar que mantivera a língua portuguesa (não por “saudosismo” de período colonial tão doloroso) apenas pelo fato de este idioma ser elemento de ligação entre as tribos africanas, no Norte e Sul - que se expressavam em dialetos distintos - era inegável que o novo país herdara cidades planejadas com influência ibérica, com fortalezas, praças, casarões e igrejas barrocas.
Em anos posteriores, pude identificar as semelhanças entre o que havia visto em Maputo com o que viria a encontrar, entre os edifícios coloniais de Macau, as fortalezas e igrejas de Malaca e mesmo no centro histórico de São Luiz.
Entre estas cidades, a que mais me impressionou foi Malaca, que visitei por diversas vezes, nos períodos em que servi em Kuala Lumpur, Malásia, entre 1986 e 88 e em Singapura, entre 1988 e 1989. Há uma verdadeira disputa por espaço, entre manifestações religiosas católicas, hindus e muçulmanas, todas convivendo em harmonia. Lá existe um grupo de habitantes que são identificados como descendentes de portugueses, que “papeiam cristão”, isto é, falam um idioma com inúmeras palavras de nossa língua.
Ademais, testemunhei, em Macau, após o retorno daquele enclave à soberania chinesa, o interesse de Pequim, durante seu processo de modernização, nos sistemas jurídicos e administrativos moldados em Portugal.
Por exemplo, em 2004, logo após ter obtido vitória no esforço de repatriação de menino brasileiro em Taiwan (vide meu livro “Iruan nas Reinações Asiáticas”, Editora AGE, Porto Alegre, 2004) fui convidado a proferir palestra no Centro Camões, em Macau, sobre a legislação brasileira quanto à guarda de menores. Consta que, então, Pequim utilizava a herança portuguesa em Macau para absorver ensinamentos jurídicos vigentes em países de expressão portuguesa, no processo de modernização na China.
Nesta ocasião, os professores do referido centro de estudos ficaram fascinados com o fato – narrado por mim – de que Taiwan, após a repatriação do menino, resultado de batalha jurídica de 3 anos, uma “lei Iruan”, que - ao contrário da prática chinesa que dava ênfase a valores tradicionais para a retenção da criança na ilha, por laços familiares mais amplos - adotava, doravante, valores universais de que crianças “devem ser mantidas junto ao núcleo familiar mais próximo e à identidade cultural própria”.[1]
Entre 2006 e 2008, fui Cônsul-geral em Mumbai, com jurisdição sobre Goa, tendo promovido naquele antigo enclave português a “participação brasileira” em seu Carnaval, comemorado no mesmo período que no Brasil (vide artigo publicado no LinkedIn em 17/02/2026). Assim, sob o título de “passado compartilhado e cooperação no futuro”, desfilamos com alas de baianas, indianos fantasiados de índios e dois carros alegóricos, um representando - como não poderia deixar de ser - uma caravela portuguesa e outro em homenagem a Iemanjá, entidade de origem africana e muito celebrada pelos brasileiros.
Apesar de numerosas tentativas, não consegui visitar Luanda, em Angola.
CONCLUSÃO
As cidades de São Luís, Macau, Goa, Malaca, Maputo e Luanda guardam marcas de uma mesma experiência histórica: a expansão marítima portuguesa e a formação de espaços híbridos entre Europa, África, Ásia e América. Dessa herança emerge um conjunto de “imaginários” e propostas civilizatórias que podem ser identificados em vários níveis.
Uma das ideias mais associadas à presença portuguesa é a da convivência entre culturas, religiões e povos distintos. Em diferentes graus, essas cidades mostram mistura linguística e culinárias híbridas. Exibem, também, arquitetura europeia adaptada aos trópicos, práticas religiosas sincréticas e formação de elites crioulas e mestiças.
O império português não foi apenas territorial; ele funcionou como rede marítima conectando oceanos. Essas cidades facilitaram a circulação de mercadorias, o trânsito de missionários e comerciantes, facilitando trocas científicas e cartográficas, bem como o intercâmbio artístico e musical.
Assim, forma-se um imaginário de “ponte entre mundos”, no qual Portugal aparece como mediador entre Ocidente e Oriente.
A cidade colonial portuguesa buscava organizar o território em torno do mar e da administração imperial. Esse modelo é visível no centro histórico de São Luís, nas fortalezas de Malaca, nas igrejas de Goa e nos bairros históricos de Luanda e Maputo.
Mesmo onde o português deixou de ser dominante, como Macau ou Malaca, ele permanece como memória cultural e jurídica. Já em Angola, Moçambique e Brasil, tornou-se língua nacional ou majoritária.
Mais do que uma civilização homogênea, trata-se de uma constelação de culturas híbridas produzidas pelo encontro — frequentemente desigual — entre portugueses e sociedades africanas, asiáticas e americanas.
É o ordenamento desta constelação de culturas, ao redor de valores preservados pelo idioma lusitano, que poderia ser um desafio para que São Luís, capacitando-se com instrumentos necessários para operar as vantagens da Inteligência Artificial, se tornasse polo de inserção internacional inovadora para o Brasil.
Afinal, IA é rima com sabiá.
A “Canção do Exílio” é um dos poemas mais conhecidos da literatura brasileira, escrito por Gonçalves Dias, natural do Estado do Maranhão, Brasil, em 1843, durante seu período de estudos em Portugal. “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.”
[1] Como resultado de minha vitória, em 2004, na disputa de assistência ao menino brasileiro, recebi do então Senador José Sarney e ex-Presidente da República, que presidia o Senado Federal, mensagem de congratulações pelo desempenho."