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domingo, 16 de agosto de 2026

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida  

Introdução PRA: Vindos da pobreza, minha família e eu, junto com meus irmãos, nos alçamos pelo trabalho duro, por vezes mais duro do que muitos podem imaginar. Sempre achei isso, e atuei em conformidade com essa postura. Estudei, trabalhei e venci, como alguns poderiam dizer, ou seja, me alcei a uma posição de classe média, pelo estudo e pelo trabalho, e passei a integrar – como ressaltado por essas estatísticas da Oxfam – a minoria dos privilegiados, aqueles que possuem "renda alta", mas alta apenas em relação à miséria miserável da renda média da população brasileira, que é reconhecidamente muito baixa, ainda assim figurando entre os países de "renda média superior" (mas apenas porque existem alguns bilhões de miseráveis mundo afora). 

Eles não são pobres ou miseráveis por culpa dos ricos e milionários gananciosos, como acredita a Oxfam, ou pela falta de assistência pública dada por um Estado generoso, como acreditam os petistas e os esquerdistas. São pobres porque não tiveram educação e trabalho dignos, e isso não é culpa dos países ricos, ainda que estes tenham sido colonialistas e imperialistas no passado (vários ainda o são). Só é colonialista, imperialista, dominador, explorador QUEM PODE, não quem quer. A capacitação tecnológica (e militar) é uma condição prévia a qualquer dominação, sobre o meio e sobre as pessoas. Mas ela não veio do céu, ou dada por outros, generosos e desinteressados. Só existe pela própria sociedade, pelas suas instituições, cultura, governos. Povos ricos tendem a produzir ricos, eventualmente dominadores. 

O Brasil, por formação, foi colonizado por um país atrasado, mas empreendedor: Portugal dos Descobrimentos. Mas Portugal manteve analfabetos até meados do século XX, como meus avós de Trás os Montes, que vieram analfabetos ao Brasil mais de cem anos atrás, para simplesmente substituir os escravos nas fazendas de café. Minhas duas avós  – os avôs já tinham morrido ou desaparecido antes de eu nascer –, a portuguesa e a italiana, morreram analfabetas, mas tinham orgulho de meus estudos, com razão, pois cedo eu me tornei um rato de biblioteca. Foi isso que me retirou de uma profissão manual e me permitiu ingressar na diplomacia, um dos exames de ingresso na burocracia estatal mais difíceis que existem no Brasil.

Muitos anos atrás, ostracizado no regime Lula 1 para trabalhar na Secretaria de Estado, acabei trabalhando  no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, por contraditório que isso possa parecer. Acompanhei todos os "planejamentos" do governo, inclusive a famosa reconstrução do Bolsa Família a partir de programas dispersos da era FHC. Sempre me pronunciei contrariamente a esses programas de assistência pública, enquanto o NAE preparava um programa de desenvolvimento com mais de 50 prioridades. Eu preconizava apenas um programa modesto, de apenas 5 prioridades, todas elas concentradas na eduçação de base e profissional, apenas isso. Claro que fui execrado pelos "assistencialistas" mais extremados. Eu tinha certeza, então e agora, que o Brasil NÃO se desenvolveria pela via da assistência pública, mas foi o que mais cresceu, de 6 milhões de famílias, para mais de 12 milhões atualmente, ou 1/4 da população total do Brasil toda ela no cartão salvador e em vários outros programas complementares. 

O artigo abaixo de Marcelo Guterman apenas confirma minhas percepções de várias décadas, mas infelizmente também reproduz certas crenças inabaláveis na esquerda econômica. O Brasil padece de excesso de estatismo, de assistencialismo, de intervencionismo, de nacionalismo e de outros ismos nefastos, mas carece do mais simples, que começa na escola primária e termina na adolescência (ou deveria): uma educação de qualidade,  faria com que as pessoas trabalhassem, produzissem, inovassem e enriquecessem.

Infelizmente, a esquerda econômica, estilo Piketty e outros, acham que a função dos economistas é a de empobrecer os mais ricos, não a de enriquecer os mais pobres. Estamos nisso e parece que vamos continuar, pois isso não é privilégio da esquerda: todos os oligarcas, geralmente de direita, também acreditam no populismo assistencialista, no papel do Estado, e acabam produzindo a perpetuação da pobreza.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 16/08/2026 

 

 

A mitologia completa de Lula
MARCELO GUTERMAN
AGO 16, 2026

Sérgio Fausto, presidente da Fundação FHC, em linha com a inspiração ideológica de seu patrono, não consegue largar das bolas de Lula. Crente da Igreja do Ajuste Fiscal Inevitável, está à espera desse profeta mítico, o Lula Pragmático, que, finalmente, colocará as contas públicas em ordem.

Mas antes de comentar esse ponto, não podia deixar de falar sobre outro ser mítico, igualmente adorado pelos filopetistas: o “Lula Redentor dos Pobres”. Segundo essa crença, Lula teria tirado um sem número de brasileiros da pobreza, em linha com as suas mais profundas convicções. Lamento dizer, mas não passa de mais uma mistificação, em que só caem aqueles mesmerizados pela pregação petista. Vejamos.

Há duas formas de tirar pessoas da pobreza: de maneira relativa, através da melhora da distribuição de renda, e de maneira absoluta, através do aumento do PIB/capita.

Em relação à distribuição de renda, de acordo com dados do Banco Mundial, de fato o Brasil melhorou desde que o PT chegou ao poder. Em 2002, o Brasil tinha um índice de Gini de 58,1 e em 2024 (último dado disponível), o Gini estava em 50,3. Lembrando que, quanto menor o Gini, melhor a distribuição de renda de um país. Então, de fato, houve uma melhora significativa da distribuição de renda nos últimos quase 25 anos.

Mas vejamos o que aconteceu em países similares (o primeiro número representa o Gini de 2002 e o segundo, o Gini de 2024):

África do Sul: 65,0 / 54,1
Argentina: 53,8 / 42,4
México: 50,6 / 43,5

Observamos, nestes países, também quedas significativas do Gini. A não ser que Lula tenha também implementado políticas públicas nesses países, devemos concluir que esse fenômeno de melhora na distribuição de renda foi universal, e o Brasil apenas embarcou nessa nau. Nossa melhora foi, inclusive, menor do que a dos países citados, o que pode nos levar à conclusão que as políticas adotadas por Lula, na verdade, atrapalharam a tendência global.

Com relação ao crescimento do PIB/capita, o Brasil saiu de um PIB/capita de US$ 14,2 mil em 2002 para US$ 19,9 mil em 2025 (conceito Purchase Power Parity). Melhorou, sem dúvida. Mas observando-se o que aconteceu no resto do mundo, a fotografia não parece tão bonita. Segundo dados do FMI, a renda/capita global em 2002 era de US$ 8,7 mil, tendo subido para US$ 25,2 mil em 2025. Ou seja, em 2002, a renda/capita do brasileiro era 60% maior que a média global. Em 2025, é 20% menor.

Então, sim, Lula tirou muitos brasileiros da pobreza. Mas a pergunta é: não teria sido ainda melhor se tivéssemos outras políticas econômicas? Se ao menos tivéssemos acompanhado o aumento do PIB global, seríamos hoje duas vezes mais ricos do que somos. Mesmo tirando a China dessa conta, hoje seríamos 75% mais ricos. Teríamos ainda menos pobres, certo?

Mas, de todas as evidências dessa fraude intelectual, a que eu realmente prefiro é o número de beneficiários do bolsa família: temos hoje quase 50 milhões de brasileiros dependendo desse programa governamental, ou quase 25% da população. E isso porque, segundo Sérgio Fausto, “com Lula na presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante”. Imagine se não tivesse se reduzido!

Fausto, depois dessa hagiografia de Lula, afirma que o ajuste fiscal é necessário justamente para manter essas políticas públicas que beneficiam os mais pobres. Mas esse é justamente o raciocínio dos “neoliberais”. Os petistas, Lula incluído, execram esse tipo de racional. Isso aí não passaria de uma versão requentada do Consenso de Washington, que condenaria os países subdesenvolvidos à pobreza e dependência eternas. Bom mesmo são programas sociais, incentivos ao crédito, manipulação do câmbio, fechamento do mercado nacional e subsídios a indústrias ineficientes.

O problema fundamental de Sérgio Fausto e de todos os filopetistas racionais que pensam como ele, é achar que Lula concorda com o diagnóstico de que contas públicas equilibradas são fundamentais para que o Estado tenha capacidade para ajudar os mais pobres. Esse tipo de premissa é totalmente estranha ao modo petista de pensar e governar. Para os petistas, o “mercado” precisa ser domado, como confessou, em um momento de sincericídio, o coordenador do programa de governo de Lula, Sérgio Gabrielli.

Fausto, assim como todos os tucanos da velha guarda, acham que os petistas são tucanos que vestem vermelho. Não, os petistas não são como os tucanos. Os petistas são… petistas. E sempre agirão como petistas.

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.
 

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