A História se repete, como farsa trágica?
Paulo Roberto de Almeida
Com o recente anúncio de que os EUA trumpistas assumiram o controle operacional sobre boa parte das reservas venezuelanas de petróleo — a pretexto de “eficiência” na exploração —, o país caribenho retorna aos primeiros anos do século XX, quando empresas petroliferas americanas viabilizaram a entrada em vigor de uma pujante economia do petróleo na Venezuela, até a nacionalização dos recursos na era da OPEP, da qual a Venezuela foi uma das fundadoras nos anos 1960.
Não se trata mais da repetição da Doutrina Monroe, como pretende o trumpismo ignorante e imbecil, mas de um retorno ao “Corolário Roosevelt” (1904), quando o “nascente” imperialismo americano se juntava aos colonialistas trapaceiros europeus, mais antigos. O imperialismo ocidental se consolidava então, inclusive na China, cenário que só começou a mudar com a emergência de uma URSS mais poderosa no segundo pós-guerra e da China maoísta pouco depois.
Atualmente, o cenário imperial mudou relativamente: um novo poder econômico imperial se afirma no mundo, o chinês, não necessariamente hegemônico, ao lado do ainda preeminente império americano, relativamente declinante (no plano industrial, mas vigoroso nos serviços), sendo que o imperialismo russo afunda no fracasso do “renascimento putinesco”, que conseguiu transformar a gigantesca Rússia num Estado vassalo da China, ao lado de um “meio-império” europeu dominado por uma UE em expansão, ainda importante economicamente, mas limitada no plano militar, e uma Índia crescentemente relevante nos planos econômicos e geopolíticos.
O Brasil continua limitado na esfera das potências médias (onde estão também o Canadá, os nórdicos, a Indonésia, o México e poucos outros), com alguma importância econômica, mas sem muita presença tecnológica ou militar no cenário geopolítico.
Depois da Venezuela, o trumpismo imperial gostaria de conquistar o Brasil, o que conseguiria facilmente se por acaso o bolsonarismo traidor sair vitorioso nas urnas de outubro, uma perspectiva verdadeiramente trágica na história farsesca das eleições brasileiras.
O mundo dá muitas voltas, não é? Já está dando, numa eventual derrota russa em sua guerra de agressão contra a Ucrânia, que está se revelando uma possível regressão do império russo em séculos.
De todos os equívocos que Marx cometeu, no plano de suas invenções econômicas e filosófico-políticas, uma única certeza ele pode ter afirmado: o caráter nefasto do imperialismo russo no domínio civilizatório, especialmente para a Europa central e oriental e para a China (marginalmente o Japão também), contra os quais abocanhou terras e impôs sua dominação autocrática. Esse avanço pode estar desaparecendo, ao contrário das predições de Emmanuel Todd sobre a “derrota” do Ocidente. De certa forma, a China é um “novo Ocidente”, mas por enquanto limitado ao domínio econômico, ao ser a fonte principal das inovações da quinta revolução industrial.
Marx teria gostado de analisar, no século XXI, o fortalecimento do modo capitalista de produção que ele analisou num tom muito pessimista na Europa do século XIX. Raymond Aron também faz falta na nova geopolítica em construção.
Paulo Roberto de Almeida
Brasilia, 30/08/2026